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Introdução à

Comunicação
Não-Violenta
MARINA DE MARTINO
1 O que é a Comunicação Não-Violenta? 5 fazendo pedidos claros e
específicos

2 O que são as necessidades 6 A diferença entre obervação e


humanas universais? interpretação

3 Qual a relação entre sentimento e 7 O que é poder com? e Poder sobre?


necessidade?

4 Qual é a diferença entre 8 o que é a comunicação que


necessidade e estratégia? bloqueia a compaixão?
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O QUE É A
your idea.

COMUNICAÇÃO A Comunicação Não-Violenta (CNV) é uma prática desenvolvida pelo


NÃO-VIOLENTA? psicólogo americano Marshall Rosenberg por volta dos nos 60,
momento em que os Estados Unidos passavam por intensas
mudanças sociais e culturais, com diversos conflitos e tensões
decorrentes da dessegregação racial e reivindicações dos direitos
políticos das mulheres e dos negros.

Rosenberg, motivado por este contexto de desigualdades e por sua história de vida
(ele era judeu e em sua infância e adolescência passou por episódios de intolerância e
violência por conta de sua etnia) passou a pesquisar como a comunicação influencia a
qualidade dos relacionamentos e como ela poderia contribuir para o acolhimento e a
transformação de conflitos de forma que todos os envolvidos tenham suas
necessidades consideradas e contempladas
A CNV foi profundamente influenciada pelo pensamento de Carl Rogers, criador da
Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), tendo como alguns de seus principais
fundamentos:

Autenticidade ou congruência - Agir/expressar-se em alinhamento com os


pensamentos e sentimentos que fluem no momento presente. Isso implica certa
renúncia aos comportamentos condicionados pelos papéis sociais, bem como pelos
conceitos de bom e mau, certo e errado, etc.

Aceitação incondicional - Ao se ultrapassar os condicionamentos acerca do que é


certo ou errado, apropriado ou não, chega-se ao nível da aceitação incondicional.
Assim tudo o que a pessoa experimenta em seu interior é válido e merecedor de
consideração, pois é um indício do que é necessário naquele dado momento para
ela prosseguir em seu desenvolvimento ou sustentar sua saúde física e psíquica.
Empatia- A empatia pode ser caracterizada como um estado de presença e
neutralidade, com atenção consciente, um modo de escuta em que o interlocutor abre
espaço interior para acolher o outro. É diferente de simpatia, (sentir o mesmo que o
outro sente), dar conselhos, ou fazer algo que alivie a dor ou resolva a questão.

Além da forte influência de Rogers, a CNV também foi inspirada em diversos outros
autores e culturas, desde a filosofia budista até a pedagogia de Paulo Freire!

Com o desenvolvimento e sistematização das práticas, a CNV passou a ser utilizada em


diversos processos terapêuticos e de autoconhecimento (atuando no nível
intrapessoal), em processos de fortalecimento de vínculos e transformação de conflitos
(nível interpessoal) e em desafios e questões envolvendo mudanças sociais e
reivindicação de direitos (nível sistêmico).
O QUE SÃO AS
NECESSIDADES
Para a CNV, todas as ações e escolhas
HUMANAS
UNIVERESAIS? que fazemos diariamente são motivadas
pela intenção de atender necessidades que
sustentam a saúde física, mental e emocional
do nosso organismo.

Como nossos organismos possuem um funcionamento


semelhante, pressupõe-se que todos os seres humanos
compartilham as mesmas necessidades vitais.
Alguns exemplos de necessidades humanas universais
Necessidades que sustentam a Necessidades que sustentam a saúde
saúde física mental/emocional

atenção autenticidade
água ar carinho diálogo
descanso movimento companhia criatividade
abrigo expressão- consideração escolha
diversão apreciação
alimento sexual
aprendizado reconhecimento
segurança sol autonomia respeito
higiene natureza conexão pertencimento
QUAL É A
RELAÇÃO ENTRE
SENTIMENTO E Para a CNV, sentimentos são como radares que indicam para a
NECESSIDADE?
consciência se nossas necessidades estão atendidas ou não.

Quando estamos em um ambiente ou situação que NÃO ATENDE às


nossas necessidades, ou seja, não sustenta a vida do nosso organismo,
experimentamos sensações e sentimentos desagradáveis como medo, tristeza,
angústia, raiva, etc. É o nosso organismo nos colocando em movimento para irmos em
busca de condições que melhor cuidem de nós.

Quando estamos em um ambiente ou situação que ATENDE às nossas necessidades,


ou seja, que sustenta a vida do nosso organismo, experimentamos sentimentos e
sensações agradáveis como tranquilidade, alegria, prazer, gratidão. Assim, nosso
organismo nos manda a mensagem para permancer ou continuar o que estamos
fazendo.
QUAL É A
DIFERENÇA
ENTRE As estratégias são as escolhas e soluções que encontramos para atender às
NECESSIDADE E
nossas necessidades.
ESTRATÉGIA?
Enquanto as necessidades são únicas e compartilhadas igualmente por todos
os seres humanos, as estratégias são múltiplas e diversas.

A escolha de uma estratégia depende de diversos, fatores, entre eles a cultura, educação,
influencia de pessoas, disponibilidade de recusos, capacidade física, etc

Por exemplo: DIVERSÃO é uma necessidade compartilhada por todos os seres humanos.
Para atender a essa necessidade, uma criança pode escolher jogar bola ou brincar com
boneca, um adolescente pode escolher sair para balada, um adulto pode escolher uma
caminhada no parque , um idoso pode escolher jogar baralho ou fazer crochê, entre várias
outras possibilidades
ALIMENTAÇÃO é uma necessidade. Para atendê-la, uma pessoa que more no Brasil talvez
prefira se alimentar de arroz e feijão, enquanto um italiano prefira macarrão e um japonês
prefira peixe.

Para atender a necessidade de LOCOMOÇÃO, algumas pessoas podem escolher utilizar um


carro, ônibus, bicicleta, metrô, caminhar, etc

Vamos exercitar?
Para cada necessidade listada abaixo, escreva pelo menos 3 formas diferentes (estratégias) de
atender a essa necessidade:

movimento
criatividade
aprendizado
carinho
companhia
FAZENDO
PEDIDOS
CLAROS E Muitas vezes não temos clareza de quais são nossas necessidades nem
ESPECÍFICOS de qual solução preferimos para atendê-la.
Para as pessoas que convivem conosco, essa falta de clareza pode ser
muito perturbadora e causar diversos conflitos nas relações.

Imagine a situação: você teve um dia difícil e pede para seu companheiro ou para sua
irmã te acolher.
Para a pessoa, acolher pode significar oferecer um conselho, te convidar para um
passeio, te dar um abraço, deixar você falar de sua dor sem te interromper, fazer
perguntas, etc.
Se ela te oferece um conselho quando você estava esperando um abraço e você não
disser isso para ela com clareza, talvez ela nunca vá saber como te acolher da forma
que você prefere e você continuará com a sua necessidade não atendida.
Às vezes nos incomodamos com a ação de alguma pessoa e pedimos que ela
“pare” de fazer o que nos incomoda ou que “não faça” algo.

Nosso cérebro tem muita dificuldade em entender a palavra “não”. Dessa


forma, fazer pedidos daquilo que você quer, ao invés do que você não quer pode
facilitar muito o entendimento.

Por exemplo: ao invés de dizer ”não fume aqui dentro”, você pode dizer ”fume
naquela área próxima ao jardim”
O que caracteriza um pedido claro e específico?
quem?
Qual ação concreta?
Quando?
Onde?
Positivo
(pedir o que você quer, ao invés do que você nÃo quer)
Negociável,
(sendo possível responder SIM ou NÃO para ele.)
se não é possível falar “não”, então não é um pedido,
é uma exigência.
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QUAL É A
DIFERENÇA ENTRE
OBSERVAÇÃO E
Os fatos, ou observações são situações que podem ser
INTERPRETAÇÃO? percebidas pelos 5 sentidos: Sinto cheiro de lavanda no ar, vejo 3
camisetas vermelhas no varal, ouço música de madrugada.

Observar é diferente de interpretar/pensar sobre o que isso significa.


Por exemplo: “Sinto cheiro de lavanda no ar” é uma observação do fato.
Pensar que “esse cheiro é gostoso”, ou que “alguém deve ter limpado a
casa hoje de manhã” é uma interpretação.

Quando interpretamos os fatos, estabelecemos julgamentos de valor, nos


contamos uma história a respeito da situação que pode não corresponder
à realidade, o que pode ser a fonte de diversos conflitos e ruídos nas
comunicações.
vamos exercitar?
Identifique se as frases abaixo expressam
uma observação ou uma interpretação:

Você é muito bagunceiro!

As suas meias estão no meio da sala.

Eu deixei meu chocolate em cima da mesa e quando voltei não estava mais lá.

Você comeu meu chocolate.

Não dá para confiar em você, toda vez você faz algo errado.

Nessa semana você se atrasou duas vezes para nossa reunião.


Praticando os 4 passos da
Comunicação Não-Violenta:
Pense em uma situação que você viveu
recentemente e procure identificar
qual foi o fato, o sentimento que
você teve, quais necessidades foram
atendidas/não atendidas e qual
estratégiavocê usou.
preencha a tabela abaixo
Praticando os 4 passos da Comunicação Não-Violenta

OBSERVAÇÃO SENTIMENTO NECESSIDADE ESTRATÉGIA


O QUE É A
COMUNICAÇÃO ANÁLISE, DIAGNÓSTICO E COMPARAÇÕES, RÓTULOS - Tais práticas
QUE BLOQUEIA A conduzem a julgamentos acerca do certo ou errado, adequado ou
COMPAIXÃO? inadequado, próprio ou impróprio e podem ser observados em frases
como: “O que você fez é uma vergonha”; “Ela é mais inteligente do que
você”; “Eles são irresponsáveis”; “Eu sou um fracasso”.
As classificações, análises, comparações bloqueiam a percepção de que o outro pode ser algo
diferente daquilo com o qual o conceituamos e ao mesmo tempo lhe nega a possibilidade de
se atualizar e rever seu comportamento diante de determinada situação.

CASTIGO E RECOMPENSA - “Se você não fizer a lição de casa vai ficar 2 dias sem brincar”
(punição pelo medo); “Se você disser isso todos vão rir de você” (punição pelavergonha); “Vou
ficar muito triste se você não vier me visitar no final de semana” (punição pela culpa); “O
funcionário que vender mais produtos merecerá um acréscimo no salário” (recompensa).
Em todos esses casos a motivação para a pessoa fazer algo é pelo medo do castigo ou por
receber a recompensa, não pelo entendimento da importância de sua ação ou pelo desejo
legítimo de cooperar e contribuir.
NEGAÇÃO DE RESPONSABILIDADE - Forma de expressão que confunde a consciência, nos
levando a acreditar que o comportamento das outras pessoas é causador dos nossos
sentimentos, quando na realidade a causa dos nossos sentimentos são nossas
necessidades. Por exemplo: “Eu sinto raiva porque você gritou comigo”, “Ele ficou triste
porque eu não lhe dei atenção”, “eu estou feliz porque você arrumou seu quarto”

Você pode experimentar trocar a expressão “Eu sinto ... porque você fez ...” pela expressão
“eu sinto ... porque preciso de ...”

O uso da expressão “tenho que” ou “deveria” também é outra forma de


negação de responsabilidade, pois nesses casos, o sentido implícito é que a
pessoa não tem escolha sobrede suas ações.

Você pode experimentar trocar a expressão “Eu tenho que.....” por “eu escolho fazer .....
porque isso satisfaz a minha necessidade de ......”
O QUE É
PODER COM?
Rosenberg conceitua como violentas as formas de expressão que implicam
E PODER
a negação do outro ou de si mesmo como sujeito legítimo na relação e
SOBRE?
ocorrem em situações nas quais o poder é distribuído de forma desigual
entre os indivíduos.

Assim, aquele que tem mais poder tem prioridade no atendimento de suas
necessidades, enquanto aquele que tem menos poder passa por diversas limitações e
privações. É a relação de PODER SOBRE o outro, em que para uma pessoa ganhar, outra
deve perder. Entramos na lógica do OU - OU EU OU O OUTRO

Por outro lado, podemos estabelecer relacionamentos baseados no PODER COM o


outro, de forma que seja uma relação GANHA-GANHA, em que todos sejam ouvidos e
tenham seus sentimentos e suas necessidades consideradas na tomada de decisão.
Assim entramos na lógica do E - EU E O OUTRO
Para estabelecermos comunicações e
relações baseadas no PODER COM, devemos
considerar igualmente os sentimentos e
necessidades de todos os envolvidos.
Esse é o principal objetivo da
Comunicação Não-Violenta
“Sendo fundamento do diálogo, o amor é,
também, diálogo. Daí que seja essencialmente
tarefa de sujeitos e que não possa
verificar-se na relação de dominação.
Nesta, o que há é patologia do amor:
sadismo em quem domina, masoquismo
nos dominados. Amor, não.
Se não amo o mundo, se não amo a vida,
se não amo os seres humanos,
não me é possível o diálogo.”
Paulo Freire
Lista de necessidades
lista de sentimentos
Referências bibliográficas
cnv-apprentiegirafe.blogspot.com (a autora permite a divulgação das imagens desde
que a fonte seja citada e mantida sobre os desenhos)

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Editora Paz e Terra, 2014

ROGERS, Carl Ransom. Um jeito de ser. EPU, 2007.

ROGERS, Carl Ransom.Tornar-se pessoa. In: Psicologia e Pedagogia. Martins Fontes, 1982.

ROSENBERG, Marshall B. Comunicação não-violenta:


técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. Editora
Agora, 2006.
Quem sou eu
Sou educadora, formada em Letras, atualmente
cursando graduação em Pedagogia com foco em
educação democrática.

Especialista em Arteterapia Junguiana pela UNIP.

Cocriadora da Comunidade Dedo Verde,


casa/empresa colaborativa
(www.comunidadededoverde.com).

Especialista em Culinária Vegana. Experiência em cursos, oficinas, organização


da equipe de cozinha de retiros e eventos divesos.
Praticante de Dança Circular desde 2003.

Estudante e praticante de Comunicação Não-Violenta desde 2013, tendo


participado de diversos cursos no Brasil e na Europa.

Facilitadora de cursos, palestras, vivências e grupos de prática de Comunicação


Não-Violenta e Processos Circulares/Justiça Restaurativa na Comunidade Dedo
Verde.

Facilitadora de círculos de Justiça Restaurativa formada pelo CEDHEP (Centro de


Direitos Humanos e Educação Popular do Campo Limpo).

Facilitadora de cursos, palestras, vivências e treinamentos em diversas instituições:


ESAF/Receita Federal, Centros de Medida Sócio-Educativa, Centros de Acolhida,
Serviços de Apoio à Família, Serviço de Proteção à Vítima de Violência, CEDHEP,
Secretaria Municipal de Assistência Social, etc.
www.comunicacaoecooperacao.com
Marina De Martino CNV

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