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Revista metaGraphias

Coordenadas Vagabundas

1
Brasília, dezembro de 2015
equipe - jul/2015

2 3
SUMÁRIO

sistema epicentro Krishna Passos


a cidade é depois da ponte Andiara Ruas
veja Lucas Pacheco
in-cômodo
Ayla Gresta
apartamento 205 Luciana Ferreira
monadologias
Bárbara Mangueira
L-ia Luciana Paiva
visita a ninguem Bruna Neiva
revoluções mínimas Lúcio de Araújo
dêixis, 2015 Bruno Duque
carta aberta Ludmilla Alves
baixas altitudes, universos infinitos Bruno Schürmann
antena de altitudes Luiz Olivieri
“transportai umpunhado de terra
todosos dias e fareis uma montanha” César Becker souvenir Marialla

malemare Claudia Washington sondas e veículos lançadores Matias Monteiro

synapsis: horizontes do nós marílias Nadja Dulci


pensamento e os limiares velocidade da luz Nina Orthof
do comportamento sensorial Cleber Lopes e Marx Menezes lua do meio dia Silvana Rezende
há uma linha Darli Nuza caminhar é velejar Tatiana Terra
morcego: solidão verticalizada Filipe Alencar ao mar que perdi Valéria Pena-Costa
sem título à deriva Gabi corpo sismógrafo e
7 ventos (loteamento) Gabriel Menezes sismogramas de borra de café ZMário

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Coordenadas Vagabundas 1 foi uma ação coletiva desenvolvida por 31 artistas
pesquisadores (mestrandos e doutorandos) do Programa de Pós-graduação em Arte
da Universidade de Brasília que cursaram a disciplina Poéticas Contemporâneas I,
ministrada por mim no primeiro semestre de 2015. A ação, que teve duração de três
dias, foi composta de intervenções artísticas pela cidade de Brasília.

Os trabalhos expostos reverberaram as questões trabalhadas em sala de


aula durante o semestre, entre elas: as noções de horizonte, paisagem,
viagem, altitudes/longitudes/latitudes de uma geografia cambiante e em eterna
constituição. Uma geografia íntima que revela que o mesmo espaço pode sempre
ser outro.

Aqui as intervenções urbanas são como demarcações sensíveis que acabaram


instituindo pontos de observação singulares sobre a cidade vivida. Um convite
a assumir uma posição, a tomar posse, a ativar o olhar. Interferências efêmeras
que balizam outras margens, são como nós, traços-de-união, revelando uma
situ-ação. Uma situ-ação paisagística que nos uniu aos espaços, porque
paradoxalmente deles nos distanciou. Com as intervenções constatamos que
a cidade se expande à medida que se descortina, à medida que cada lugar
construído pelos artistas estabelece uma aliança, um elo singular que nos faz (re)
ver os espaços de sempre.

Assim, entre distâncias variáveis e limites fluidos emergiu uma prática artística,
um pensamento-paisagem (COLLOT, 2011). Entre diferenças inevitáveis
e aproximações imprescindíveis se construiu um trabalho coletivo feito de
coordenadas vagabundas que nos incitam a vagar por uma cidade inventada...
estamos onde não estamos...

Se cada coordenada à sua maneira revela um mundo, vagamos porque finalmente


situados.

Profa. Dra. Karina Dias


Programa de Pós-Graduação em Arte
Universidade de Brasília - UnB

1 Dos 31 artistas, XXXX textos serão aqui apresentados.


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Eles dizem que moram num mapas genéticos, mapas
buraco. E que a cidade, a digitais, mapas de navegação
cidade é depois da ponte. e mapas de tesouros. Mapa
a cidade é depois da ponte Andiara Ruas Simão Estão submersos. Não mental.
enxergam o outro lado, não
visualizam nem vislumbram o Sugiro que desenhem o trajeto
horizonte. feito de casa até a escola. O
que mais chama atenção?
Defendem-se, comunicam-se A escola, que tem nome de
agressivamente. Não falamos a anjo, é social. Recebemos todo
mesma língua. Incômodo! tipo de questões. Agressões,
Convido-os a pensar a cidade: abusos, falta de afetividade,
território, lugar, espaço, limite, deficiências, carências, trocas
percurso, destino, trânsito, justas, participação, planta,
deslocamento, assalto, música, circo, festa e mais
família, rompimento, diversão, desentendimento, falta de
velocidade, pessoas, drogas, diálogo, um afeto, um toque,
violência, distância, companhia gente bem miúda carregando
e solidão, são algumas das vidas dentro de si, gente
palavras que surgem, que pequenina que se vai, se esvai,
emergem. desaparece.

Com as palavras, construímos Papéis, canetas, lápis de


uma trama. Um emaranhado cor, réguas, traços precisos,
de apontamentos, com letras gestos incertos, mãos tremulas.
e linhas de todas as fontes Algumas mentiras e verdades
e tamanhos, que se unem e muito verdadeiras. Mas olha,
se expandem formando uma veja só! O que aparece nos
grande rede. A imagem posta no mapas é vivo! Tem cor! As
quadro negro sugere um grande imagens são as mais diversas
mapa. Agora, pausa para uma possíveis e sugerem uma
breve pesquisa. Plantas baixas, grande viagem. O olhar vai

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penetrando e se perdendo cai, contorna, sobrevoa, gira e muitas dimensões, num vácuo
nas ruas apontadas, esquinas, volta a rodopiar. É uma dança de sons e luzes peculiares,
becos sem saída, praças, fontes muito particular, que só eles, tomada de susto, como quem
e encontros. Também, já não mestres em voos altos, sabem acorda caindo, estou de volta
me espanto, são jovens muito comandar. Que técnica! Quanta à terra. Camada por camada.
ricos. precisão! É divertido! Ouvem-se As bandeiras, as ruas, as
os risos e as gírias, mas nem árvores, os rios (eles conhecem
Você já viu um moleque desses sempre é calmo, acho mesmo tudo que é tipo de córrego e
soltando pipa? A pipa vai muito que nunca é. Eles disputam nascente), pessoas, animais,
alto, muito longe. É difícil de territórios até no imaginário, atropelamentos, mais assaltos,
focar. Quando plana entre até lá, bem longe, onde só intervenções urbanas, o vizinho,
o vento e o raio de sol, que eles sabem chegar. Uma pipa o melhor amigo, a árvore que a
ofusca o nosso olhar, encontra encontra a outra. Eles correm. vó plantou no início de tudo...
o céu azul de mar. Esse azul Não fogem. Duelam no ar. Início de tudo? Início de tudo o
infinito daqui do planalto, esse quê?
azul imenso. Um azul raro, azul Jovens como esses, que - No início da cidade, alguém
claro, é para lá que eles vão. fazem voos tão altos, deveriam me responde em tom
Se transportam nas rabiolas, segurar na ponta da linha e debochado.
trepidantes, a pipa aponta se deixar levar. A pipa não Ah! Então, se “a cidade é depois
rapidamente para um lado e, por apareceu nos mapas. E muito da ponte”, pergunto:
um segundo, paira no ar. Não rapidamente ultrapassam-me - De que lado você está?

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Ayla Gresta

incômodo Ayla Gresta

Inversão do ato arquitetônico: a materialização


do lugar se dá na inauguração do vazio. Seria
uma ação de libertação da arquiteta? sem
vazio cultivado x (de)composição vegetal demanda, sem programa de necessidades
(sem necessidade alguma), sem cliente, sem
lote, sem permanência.

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A intenção é, contudo, o velho desejo de domesticação Quem habita casa concreta não vê ali
da paisagem, visando a sua apreensão ao fazê- apaziguamento algum. Não se demora. Os
la ceder à geometria e à escala funcional. “Parece insetos, o piso instável, os automóveis que
que todo o destino da arquitetura tem sido sempre passam rente e os odores enfatizam que
o da colonização, o pôr limites, ordem, forma, estamos em território inseguro, estranho e
introduzindo no espaço estranho os elementos de desconfortável. A impossibilidade de formar
identidade necessários para fazê-lo reconhecível, abrigo com quatro paredes de mato, piso
idêntico, universal. Pertence à essência mesma de terra e teto de céu tornou a construção
da arquitetura sua condição de instrumento de impraticável. A indefinição da construção
organização, de racionalização, de eficácia produtiva não evocou o habitar. (quiçá para alguém?)
capaz e de transformar o inculto em cultivado, o baldio
em produtivo, o vazio em edificado.”1 “Habitar, ser trazido à paz de um abrigo,
............... mas a matéria que cinge o espaço o precede diz: permanecer pacificado na liberdade
e é espontânea, baldia, marginal. de um pertencimento, resguardar cada
coisa em sua essência.” O mato balança
O empreendimento se mostra fora de escala, como maleável, soando ao vento: inculto, às
as folhas cortantes que ultrapassam a altura humana margens da via, guarda, mesmo em
em até dois metros. Seria preciso o extravagante torno da clareira aberta à força, sua
investimento mecânico dos jardins franceses ou despretensiosa essência. O incômodo do
das terraplanagens da esplanada do ministério para não pertencimento teve que caber em mim.
configurar ali a planejada experiência espacial. A
vegetação até cede, é cortada por roçadeira, foice,
podão; mas não se deixa formatar, é falha, bamba.
Vence. a imprecisão orgânica impede a existência do
cômodo e mostra ao intento arquitetônico que sua
presunção é absurda. 1 Solà-Morales, Ignasi de. Territorios. Barcelona: Editori-
al Gustavo Gilli, 2009. Tradução livre do espanhol<?>
“Construir já é em si mesmo habitar. (...) Não habitamos
2 Bauen, Wohnen, Denken] (1951) conferência pro-
porque construímos. Ao contrário. Construímos e nunciada por Martin Heidegger por ocasião da “Segunda Reunião
chegamos a construir à medida que habitamos. (...) de Darmastad”, publicada em Vortäge und Aufsätze, G. Neske,
‘wunian’ significa permanecer, ‘de-morar-se’ (...) ser e Pfullingen, 1954. Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback
http://www.prourb.fau.ufrj.br/jkos/p2/heidegger_construir,%20
estar apaziguado ”2
habitar,%20pensar.pdf

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monadologias Barbara Mangueira

Fragmentar é burlar a confiança Contra o sucessivo,


nos limites. Sustentar um ponto o simultâneo
de tensão, um ponto de vista.
Ponto de vista de mônada: espaço
situado e convivência de toda Minha geografia pode ser pequena
temporalidade. Uma questão de como uma fresta, fissura que se
limite, que nos leva à medida: qual fez numa movimentação geológica
o espaço mínimo de uma tensão? do tempo (falha de plasticidade de
camadas, também uma questão da
Para sustentar a tensão, não ceder pintura). Um problema de espaço é
ao sentido. Não resolver em um a um problema dos coexistentes, do
diferença. cheio e do vazio como uma falsa
questão.
Ao invés de definir, reunir sob
um mesmo espaço: colocar em Diz-se da grisaille “camada morta”,
relação um ponto que ancora e um do cinza “incolor”, quando na
ponto que distende. Acomodar as verdade ausência é apenas um
mônadas, implicar o que é distinto modo diverso da presença.
em uma na outra. Preservar o
espaço que surge em suspensão. A camada morta é a poeira
sedimentada de um tempo
anônimo. Acervo para uma
Devolver o pensamento ao espaço materialização.
me parece, portanto, um problema
de disposição e pausa.

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Dispor na relação mínima Da vastidão ao
o um e o outro fragmento

Este é o espaço do Oriente.


Reconhecer sua própria língua em terra
estranha, portanto, também um Oriente Da volta para a casa, a
próprio. Sobre como dois pontos expansão se pontua em
de tempos e espaços distintos se uma distância mínima
colocam lado a lado, criam um espaço e necessária entre
projetivo de uma nova reconfiguração a visão e as coisas.
sem no entanto atar nó algum. Pequenas vibrações
de uma ressonância de
profundezas.
Se o outro é minha janela para o
mundo, penso que na casa amiga as
janelas são oceânicas. Alcance da vista de um
O movimento do mar, confiança no olho humano: infinito de
desconhecido, a condição mínima do redobras em uma fresta.
pensamento.

18 19
visita à ninguém Bruna Neiva

20 21
amansando a casa
conhecendo a vizinhança
de quem não está
nem mais
nem ainda

dispersando memórias
escondendo tesouros

no mapa, a promessa
caminhar
circular
e nada mais.

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dêixis, 2015 Bruno Duque

A obra dêixis vivenciada por um grupo de artistas visitantes,


que se deleitaram à beira da piscina a qual contia as águas
que, ali passando, haviam se perdido do mar.
Observando as nuvens que formavam e deformavam o céu
azul do meio dia dos domingos, aqueles Deuses do Olimpo
sopravam o ar ensolarado que movia montanhas de água e
desorientava todas as camadas de nuvem-algodão. Cada
bússola procurando coordenadas vagabundas flutuava em
campos magnéticos nascidos de redemoinhos.

Querubins que surgiam durante o banquete, se saciavam


entre mel e ondas, enquanto o tempo ia para frente e pra trás
nas palavras dos locutores do vento.

Os espaços de convivência têm inúmeros rincões, todos


claros e sincronamente descobertos enquanto esperam.

Espaços são apenas partes de outros espaços. A


convivência é separada por eles.

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De diversas origens, dêixis veio do entendimento, da tentativa, das
lentes e dos espelhos.

Origem, porque saiu de outras pessoas (mas às cobrou o retorno)

Explorar espaços e ideias alheias, oferecendo-


lhes outros olhares e outras experiências num
reconhecimento do que já está dado. A arte é
uma manifestação do coletivo. Neste sentido
não existe “originalidade”, e sim uma continuação
de ideias de uns em outros, seguidas de suas
manifestações.

As artes contextuais são fios que tecem outras


artes.

“O ‘contexto’ designa um conjunto de circunstâncias nas quais se insere


uma acontecimento, circunstâncias que estão, elas mesmas em situação
de interação (o ‘contexto’, etimilógicamente é ‘a fusão’, do latín vulgar
contextus, de contextere, ‘tecer com’)” (P. ARDENNE)

“Um artista pode entrar neste contexto e criar um conteúdo que vai ser
potencializado e revitalizado de uma forma que não poderia acontecer se
este contexto não fosse preparado.” (G. YOUNG BLOOD sobre a obra de Kit
Galloway e Sherrie Rabinowitz)

Entendimento, porque um filete de ideias atravessou o abismo

Tentativa porque o resto queria ir também

As lentes e os espelhos são coisas de astronomia. Desde a mais


amadora até a mais almejada. www.brunoduque.com

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Preâmbulo
Que distância é preciso percorrer para que uma experiência
seja considerada uma viagem?

A que altura é preciso se elevar para conseguir contemplar o


mundo em que habitamos?

Partindo do pressuposto de que o cosmos pode ser


observado tanto no céu com ajuda de lentes telescópicas,
quanto em pequeno ponto no solo com ajuda de lentes
microscópicas, concluo para mim mesmo que não é
preciso haver deslocamento algum. Uma viagem ocorre
essencialmente no movimento da mente e do olhar.

Plano de viagem
Foi pensando nesse sentido que me ocorreu a ideia. Uma aventura cuja jornada é
baseada em um único e simples movimento do corpo: o movimento vertical, do olho
até o sólo. Um voo certeiro no sentido oposto ao de Menipo, para baixo. Uma viagem
onde o vôo se confunde e se mistura com a própria queda.

baixas altitudes, Me dei conta então de que já a havia iniciado há 3 ou 4 décadas quando, ainda
universos infinitos Bruno Schürmann criança, passeava com uma lente de aumento pelo chão, fascinado com a penugem
da grama, com a imensidão das gotas do orvalho, com a complexidade simples dos
pequenos insetos e corpos que habitavam aquele universo. Porém o que mais me
fascinava era o poder que aquele aparato me concedia de ver todas aquelas formas
que se escondiam de nosso olho nú.

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A partida Meteoróides Diário de bordo
Não hesitei, fiz as malas, Considerando que toda viagem tem A cada mergulho uma expectativa, uma
reuni meu equipamento de um propósito, mesmo que seja de experiência, uma surpresa. Grande
viagem (boné de legionário, não ter propósito algum, estabelecí parte deles seguidos daquele “barato”
protetor solar 60 e meu velho um: vasculhar, capturar e trazer para o que temos por falta de oxigenação do
iphone 4S com o aplicativo de universo visível, imagens de objetos cérebro quando nos levantamos muito
fotografias que simula alguns invisíveis a um corpo de distância. rapidamente.
velhos efeitos de laboratório) e Objetos que ora habitaram uma vida, que
lancei-me então neste mergulho tinham nela um sentido, um significado, Os objetos passam a existir quando
intrigante nas profundezas do provavelmente até uma função, e que, deles tomamos conhecimento. Meia
chão, explorando universos em determinado momento, de alguma hora de viagem e já nem precisava
escondidos, passando por forma, foram apartados deste contexto mais procurar, estavam todos lá,
pedaços de história camuflada, e lançados no espaço. Fragmentos de visibilíssimos.
atravessando momentos vida que vagam esquecidos e ocultos,
subtraídos, contemplando orbitando o centro da terra em algum A viagem foi registrada em uma coleção
verdades desconstruídas, ponto de sua superfície. de fotografias, expostas no mesmo
garimpando estilhaços de ambiente onde foram capturadas. Me
sonhos esquecidos. Tal qual meteóroides que se desprendem apropriei de 20m2 da órbita superficial
de corpos maiores, meteóros ou tangente de um dos espelhos d’água
planetóides e são condenados a existentes no Complexo Cultural da
vagabundear pelo pelo universo, República, onde lancei, apenas para
designados a nada, sem qualquer efeito os olhares atentos e dispostos, minha
sobre movimento geral dos demais coleção de meteoróides.
corpos celestes.

MULTIMÍDIA

>> stopmotion visitação


3’37’’ youtube
https://www.youtube.com/watch?v=UbR0lP_IwBY

>> os meteoróides
https://www.behance.net/gallery/29517995/baixas-
altitudes-universos-infinitos

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“transportai um
punhado de terra todos
os dias e fareis uma montanha”
César Becker

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O cume A queda

Dispor o material, em vez de Aquilo que se torna pequeno nos


construir. Gravidade. Correspon- torna maior.
der ao comportamento do material:
deixar cair, suspender e inclinar. Deixo a terra escapar pela minha mão, que
oscila em um abrir e fechar correspondente
Tudo se estabelece no chão, tudo se ao crescimento e diminuição do monte da terra
acumula e se amontoa. Peso. depositada. Meu ser se engrandece quando
penso na idéia de suspender a montanha.
Incursões pela cidade e entorno, um
massivo amontoado de terra solidificado Sedimentos escapam pelos meus dedos e
como grandes rochedos e montanhas toneladas de terra são estratificadas. A montanha
sedimentares se ergue do solo em debandada perde sua dureza, e milênios de formação geológica
vertiginosa em direção aos céus. se transformam em movimentos incessantes daquilo
que aparentava ser constante e imóvel.
Meus sentidos são transportados pelo movimento
vertical dos cumes. Logo me pus a escalar por A terra que escorre reconfigura a formação da montanha
impulso, em direção aos topos e coletar o seu material da qual ela foi coletada. Pouco a pouco o monte se
como tentativa de dominar a grandeza e imensidão do reestabelece, as partes se transformam no todo.
cosmos.
Estou escalando mais uma vez a montanha e suscetível aos
Como suspender e transportar uma montanha vetores gravitacionais da queda.
de terra?
Quando o montículo chega ao cume, estou fitando
Uma caixa foi construida. novamente o horizonte.

Seu conteúdo se revela na possibilidade de compreensão da Começo a me questionar até onde a terra que escorre acaba por se
montanha pela terra que escapa levemente, por entre e sob os tornar extensão do meu próprio corpo. Ocorre uma transubstanciação, a
dedos das minhas mãos que fecham ao seu redor. terra se transforma, eu sou a própria montanha

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malemare Claudia Washington

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Umi diz que somos crianças decadente gigante semi-homem, Quem, de fato, conseguiria objeto, precisa apenas do olhar
macaco que aprenderam a se morreu porque cometeu a cagada de “lembrar-se” de todas as flutuações penetrantevii.
reproduzir. Outroii, que quando querer devorar as vacasiii do herói. dos movimentos das ondasvi? Meus olhos têm um brilho
conseguimos superar nossa Caco a ex-louça fina que brilhava na Mas o sonhador de mundo totalmente diverso. Receio que eles
situação quadrúpede e ficamos cristaleira e por engano, propósito ou não olha o mundo como um façam buracos no céuviii
nos dois pés a mirar o horizonte preguiça esfacelou no chão.
o homem mostrou seu sexo Inglórios retornam à terra em seus
apontando para a frente enquanto devidos buracos.
a mulher o escondeu.
male mar
Me agrada pensar que posso ser male mare
uma criança macaco. Me intriga a male mal
oposição.
Não ser visto e ser visto ao longe
Quando se escava o andar é Percorrido em torno e entre
rasteiro. O corpo se revolve entre a Atravessado
imensidão aérea e as profundezas Pisoteado
minerais. Acariciado
Em cega névoa baçaiv sem fio lhe resta
Depois de já bem exercitados rasgar
sobre os dois pés e com meios
de voar, mergulhar, perscrutar As minhocas e suas manchas oculares
grutas abissais, nossos sexos Caco e a desmesura NOTAS
não estão mais no mesmo lugar. Modulações da sombra i Agamben em Ideia da Prosa.
ii Serres em Variações sobre o Corpo.
Agora mudou a regra do esconde-
iii Um magnífico rebanho de gado vermelho.
esconde. As crianças macaco Cacareco iv O herói na caverna de Caco dito por Virgílio na Eneida com tradução de Manuel Odorico Mendes.
podem brincar. Espelunca v Bachelard em Devaneio Cósmico.
Apesar do passo hirto que até os Antro vi Luria em A Mente e a Memória. “S. queixara-se muitas vezes de ter memória fraca sobre rostos: ‘Eles mudam tanto’, dizia. ‘A
expressão de uma pessoa depende de seu humor e as circunstâncias em que se dá o encontro. O rosto das pessoas muda con-
cacos assola. Abismo da luz difusa
stantemente; são as diferentes gradações de expressão que me confundem e fazem com que seja tão difícil recordar rostos.’ (...) S.
via rostos como padrões mutativos de luz e sombra, o mesmo tipo de impressão que uma pessoa teria se ficasse sentada à janela
começo/auge é ocaso À menor brisa o lago se cobre de observando o fluxo e o refluxo das ondas do mar...”
Caco, o ladrão filho do fogo, olhosv. vii Bachelard em Devaneio Cósmico.
viii Nietzsche num ensaio da juventude em Devaneio Cósmico de Bachelard.

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synapsis: horizontes do pensamento e
os limiares do comportamento sensorial
Cleber Lopes e Marx Menezes

40 41
Inacessível inconsciente. Uma vez que o poder da
imaginação é cheio de
A paisagem tranquila segredos, de centenas
denota controle, mas não de milhões de pequenas
autocontrole. células nervosas que se
Um controle além do comunicam umas com
subconsciente. as outras, através de
pulsos eletroquímicos.
Como se concentrar na
Mesmo que se gaste
realização das tarefas? Torna-se imperativo a
muita “massa cinzenta”
No desempenho do busca por respostas,
para entender o mundo
pensamento? perguntas, sentimentos,
ao seu redor, o ser
sonhos e movimentos,
humano é, ainda,
Fluxo interno e externo em sem os quais não seria
pequeno demais para
batalha estética. Estado de possível expressarmos
compreentender a sí
atenção. toda a nossa riqueza
mesmo.
O imaginário agita, a interna e externa, e nem
máscara freia, disfarça, perceber os sabores,
Que as entranhas
denuncia. cheiros, luzes e brilhos.
mais profundas do
subconsciente se abram
Localizar-se Na busca por sí
devagar, e dele surjam
espacialmente, mesmo, um outro ser
sentimentos e emoções
especialmente, nas pode ganhar maior
que, provavelmente, não
fontes do olhar é, muito importância, mais
poderemos analisar.
provavelmente, a maior visibilidade, já que
responsável por essa permite com que o
verossimilhança, mas o encéfalo continue sendo
lugar, ahhh! O lugar é de o centro do “eu”, objeto
atuação, interpretação, de constante embate
representação, verdade, com àquele que se
vida. parece ser.

42 43
há uma linha Darli Nuza

44 45
há uma linha.

um corte. um fio. um som. maquinários.

a agulha sobe e desce. costura e corte. caminhos.

tesourinhas. a batida no pé da máquina marca o passo.


o trajeto se (des)faz. criam-se novas passagens.

uma aqui.

outra acolá.

modifica-se o terreno. altera-se o papel.

fere. eis uma abertura.

há uma linha.

46 47
Num movimento oblíquo do chão, que se aproxima
Filipe Alencar

apressado, envolto em paredes circunflexas,


preditivas do congresso com a profundidade,
vislumbro o deserto: árido, carregado pelo vento de
possibilidades infinitas do horizonte, além de onde
morcego: solidão verticalizada

jamais pensei prever. A altitude da extensão de


paredes, verdadeiros muros, intransponíveis.

48 49
Muros resvalados contra os dedos e escorre quente, Mergulho na profundeza
minha ascensão. Reafirmam o num retorno em direção à sua sem fim.
abismo em que me aprofundo própria plenitude.
num salto vertiginoso ao vazio. Em encontro com o
Se aquecem, rastros de desconhecido - de meu
O calor, carregado pela luz às anti-pegadas, de volta a coração e de minha mente.
minhas costas, descortina, à mim mesmo. O caminho de
minha frente, a vastidão de regresso. O distante vislumbre, outrora
mim mesmo. Aquece-me o passado despercebido, agora
interior, cegando-me os olhos Marcas (des)conhecidas. se faz quase materializado
em busca de seus raios. diante de minha presença,
Sou convidado à paisagem em corpo. Materializado de
Volto-me, então, para a interna, o panorama desvelado tal forma que posso tocar
fundura, estendida em mistério que se apresenta eterno e e inspirar; dissolver-me em
e receio. compreensível, exposto à comunhão com a escuridão:
medida que o mundo se eleva morada verdadeira, profunda;
Diante da sobrevisão da qual e se apresenta em uma agora intrínseca, plácida.
me apodero, ao pender-me única dimensão. Espaço e
num sentido e direção únicos, tempo confundem-se e O cume, distante, toma meus
pelo tempo que se desdobra, contradizem-se. olhos – estada passageira,
compreendo as intenções derradeira -, em movimento
mais profundas, enterradas Imerso neste palácio que me recorda do salto como
sob a areia. impassível, desprovido de percurso último, dissolvendo
cômodos, vejo as paredes qualquer expectativa,
Camadas, finas, alvas; ruírem numa linha que se trazendo-me de volta para
dilaceradas sob o jugo do liga a si mesma, de uma onde permaneço, enfim.
vento. ponta a outra, situando-
me exatamente aqui - no
Como a liberdade plena presente-, separando-me de
que se esfacela por entre domínios alheios, hostis.

50 51
à deriva Gabi

Abri um livro (

em poucos minutos me encontrei com os


pensamentos de alguém que falava sobre
o deserto, a areia do tempo, um poço com
pouca água a refletir uma única estrela e a
solidão de uma cidadela construída dentro
de si. das páginas que roçam uma na outra
ouço o bater de asas. as folhas de um lado
para o outro anunciavam o voo. enquanto
sobrevoava as palavras, fiz também peque-
nos pousos. pousei entre frases, habitei
vírgulas e pulei reticências temendo me per-
der infinitamente. nessa geografia particular,
me reconheci. assim nasceu a vontade de
construir o meu próprio mapa. aquele mapa
que escapa num sopro e retorna quando
não pensamos em nada. aquele mapa
desconhecido e invisível que permanece
em segredo e só aparece quando falamos
na vastidão da noite ou penetramos numa
terra imaginária, através dos olhos de outra
pessoa. da pele da página retirei o reflexo
do meu rosto

sem título (ao mesmo tempo cegou-me inúmeras vezes).

estado provisório do olhar. me perdi.


essa foi a minha primeira viagem.

52 53
enquanto leio, deixo vazios. enquanto leio, esqueço também.
das aberturas e rastros de silêncios, o livro respira. palavras
nômades me acompanham a partir de agora. caminho na
cidade que nasceu de um gesto simples. caminho na cidade
que nasceu de um desenho. no encontro de duas linhas é
possível criar um labirinto. sem rumo andei pela cidade organ-
izada. com pequenas ruínas troquei palavras, troquei conver-
sas. e nas paredes observadas com lentidão é possível ouvir
alguma coisa. encontro mínimo. espaço-corpo. espaço-ci-
dade. e quando nos propomos a viajar, tudo que aparece é
percurso, até mesmo os vazios deixados pelo tempo e que
não cessam de desmoronar. o céu, o vento, o acaso. (des)
encontro. e uma única quadra infla, expande e torna-se
viagem. e um único beco deixa de ser um traço apagado para
tornar-se palavra ou uma frase interminável. o corpo ativa o
espaço. um gesto efêmero me devolve o peso do corpo e me
lança de volta.

(ao chão?)

toco a página 85 e não estou em parte alguma. desapareço enquanto


sigo adiante. sem linha de contorno perco-me nos outros. caminhar é um
desenho realizado na textura do tempo. rastros sussurram uma cidade in-
visível que flutua enigmática na paisagem. respirei fundo repetidas vezes.
caminho entre. acima das nuvens, eu vi.

e essa foi a minha segunda viagem...

) que não tem nem começo e nem fim.

54 55
7 ventos (loteamento) Gabriel Menezes

1 2 3 4 5 6 7
20 p

Direção do deslocamento 13 p 12 p

Espaço
imprevisto

56 57
A atividade preta; composto por base
Agrimensura é o ramo da de borracha e cápsula de
topografia que estuda as camurça;
divisões de propriedades 2. O olho: Estação Total para
rurais, urbanas e imaginárias. ângulos e distâncias (em
Associada a astrometria, termos absolutos).
baseia-se na posição dos
astros para projetar sobre Loteamento
a terra as coordenadas de 7 porções de um mesmo
uma área demarcada. vento capturadas
simultâneamente
O profissional e dispostas lado-a-lado, em
O agrimensor é apto a realizar linha reta, igualmente distantes
o posicionamento terrestre, da porção adjacente.
a medição do espaço e o
delineamento de fronteiras.

Instrumentos de medida
1. Calçado tipo passeio,
numeração 42 (BR); cor

58 59
Enquanto a matéria repousa no mundo, regida pelas forças
da natureza que a transmuta modificando suas estruturas
e deslocando-a pelo planeta, ronda há milênios a espécie
humana à espreita de uma total apreensão e domínio sobre
as regras das leis físicas.
sistema epicentro Krishna Passos
A forma que as coisas se apresentam no mundo e as
convenções culturalmente aceitas são, na verdade, formas
ilusórias de uma das muitas realidades possíveis no tempo e
no espaço.

A distorção da realidade ou alteração da mesma pela


simples curiosidade criativa fazem parte da mesma pulsão
investigativa que desenvolve às nas ciencias exatas através
Epicentro dos tempos, aqui, derivando em arte artificio, verticalizando
Objeto sonoro – 2015 as horizontalidades e aprofundando as diferentes noçôes de
50cm (altura) X 35cm (diametro) superfícies ((fundos)) na relação humano/matéria.
Alto falante, amplificador, aparelho MP3,
água, pigmento e Aço inox

60 61
se apresentam, objetos inexistentes se materializam. Na
Como viagem em vertigem desvendamos rotas em fuga das arte, assim como na vida, a abertura e receptividade para
rotinas do cotidianas, na fuga da ordenação das horas, nos equacionar as rotas (plano), deslocamentos (caminho),
compassos de paisagens diárias. Ali, na vertigem, desvela-se, destinos (lugar), permanências (pertencimento) e retornos
talvez, o escondido.... de cada um e do todo. (fruição) torna-nos estrangeiros de nós mesmos.

É como se, na fuga ao controle escapássemos, enveredando- Visão distorcida da realidade


nos para a necessidade de uma outra forma de aprisionamento
em liberdade de planos (expectativas), ansiando por um Alteração dos limites perceptivos da realidade das matérias.
controle do incontrolável e pela apreensão do inapreensível.
Mas é no traçado que a tudo foge onde esconde-se a Indecifráveis rotas, errâncias de destinos....
surpresa ou decepção revelados nos percursos não planejados
lugares não imaginados são visitados, sujeitos não previsíveis Para a eternidade da matéria o silêncio talvez seja a música

62 63
Figuras I, II, III,

veja Lucas Pacheco IV, V, VI: Série de


fotografias “Veja”.
Acervo pessoal,
2015.

Veja este local, é a antiga Veja é um dos pontos turísticos do


redução jesuítica de São estado do Rio Grande do Sul, um
Miguel Arcanjo, integrante dos local histórico e encantador pela
chamados Sete Povos das sua beleza. Veja a antiga Igreja de
Missões. Veja está localizada São Miguel, que impressiona com
no município de São Miguel a grandiosidade da construção –
das Missões, na região ainda mais quando se conhece
Noroeste do estado do Rio a importância histórica do
Grande do Sul, no Brasil. Veja local, assim como em outras
Veja este local através de uma com cinco altares dourados, é conhecida como as Ruínas reduções jesuíticas da Argentina
pequena imagem estampada com uma torre contendo de São Miguel das Missões. e do Paraguai,onde centenas de
num produto de limpeza. Veja, cinco sinos. Veja as ruínas da Veja é conhecida também religiosos viveram entre os séculos
um lugar distante construído catedral e algumas de suas como os Sete Povos das 17 e 18 para catequizar os índios.
a partir de 1687, pelos índios colunas preservadas. Missões - o sítio arqueológico. Veja, pela sua importância histórica,
guarani, cuja igreja, construída foi tombada pela UNESCO por
em 1745, possuía três naves ser considerada Patrimônio da
Humanidade.

64 65
O verbo veja aqui é ambíguo, Na perspectiva de Dias (2008), identificar a imagem tem como Outra questão que podemos
pois tem duplo sentido, tanto seria ativar um movimento princípio não “denunciar”, considerar neste trabalho é
no nome do produto, que é do olhar onde ver e não não “entregar” a localização pensar como esse local sai do
Veja, como na indicação Veja ver se articulariam, onde os da ruína de São Miguel das seu território sem perder suas
a imagem. Essa ambiguidade pontos de não-visão, de um Missões. origens e suas características
é semelhante ao trocadilho, certo estado de cegueira se históricas através de um
no qual a palavra pode ser transformariam em invisão, A partir da compra do produto registro fotográfico que é
entendida de duas maneiras em uma visão interna. Não espera-se que a imagem seja reproduzido e colocado dentro
distintas, com a intenção de se trata de ver tudo, de ver provocativa, promovendo no de outro estado. É como
provocar humor ou ironia. em panorama, mas sim de consumidor o interesse em viajar sem ter ido até o local e
Em geral, o primeiro sentido se aproximar para habitar, de buscar mais informações fazer parte da viagem através
é literal e ingênuo (o nome detalhar para se situar, para sobre a imagem ou possibilitar de registros fotográficos,
do produto), enquanto o olhar no mesmo, no espaço algum pensamento sobre o narração do outro, filme e
segundo (veja a imagem) tem de sempre, a diferença. (DIAS, lugar, através da imaginação, objetos que pertencem a outro
um “tom” mais sarcástico e 2008, p. 130). fantasias, recordações e local/região/estado/país/. Em
requer do público/consumidor lembranças pessoais, ou seja, consonância com Tiberghien
ver a imagem e associar ao As imagens são coladas fazer com que “o movimento (2008, p. 196), “a verdadeira
nome do produto. A escolha aleatoriamente nos das imagens permita entrever viagem que nos permite
por este produto partiu de produtos, sem a permissão por alguns instantes àqueles escutar o que nossos olhos
produtos de supermercados dos responsáveis dos que as vê afastar-se de um não vêem e descobrir esses
que tivessem duplos sentidos supermercados, com passado e a possibilidade não-lugares do mundo”.
no nome. a intenção de que os de um futuro” (TIBERGHIEN,
consumidores possam levar 2008, p. 196).
Meu interesse aqui não é para suas residências um
apenas colocar a imagem em produto de limpeza com uma
circulação, mas provocar os imagem desconhecida, ou
“olhares” dos consumidores conhecida; isso implica em
para uma experimentação do o consumidor ver a imagem.
Referências
“ver” através de uma viagem Na imagem não há nenhuma DIAS, Karina. Notas sobre paisagem, visão
em que se articula o ver e o outra informação sobre o local, e invisão. In: Visualidades: Revista do
Programa de Mestrado em Cultura Visual,
não ver, ou seja, o conhecido como o nome, estado, região, v. 6, n. 1 e 2, 2008, p. 128 -141.
e o desconhecido. etc. Esta escolha de não TIBERGHIEN, Gilles. (...). In: Revista USP,
n. 77 195-1999, maço/maio, 2008.

66 67
apartamento 205 Luciana Ferreira

Uma inquietação. Uma reflexão.


Disse, certa vez, Blanchot: Camus afirma o medo da
“(...) organizar, entretanto, esta viagem em oposição à
terra como residência”1. estabilidade da casa2...
Penso, todavia, que a terra Mas qual estabilidade?
se torna residência quando Fazer uma experiência da
implode as suas fronteiras. dimensão estranha do familiar,
Portanto, é preciso esgarçar o desbravamento de um
os limites inventados entre o território íntimo e, ao mesmo
espaço interno e o espaço tempo, desconhecido. Um
externo, entre a latitude e a estrangeiro na própria terra.
altitude. (Onde termina a casa
e onde começa a cidade? Uma proposta.
Onde finda a terra e onde A ocupação de um sítio por
inicia o céu de Ícaro Menipo?) uma colagem sonora.
O ruído como costura, “Sítio”3:
margem que mistura o que, 1.localidade, povoação;.
de fato, não se separa. 2. chão, terreno, especial-
Nasce de uma ocupação mente aquele em que fazem
terrestre, mas só se comunica pesquisas ou recolhas (sítios
e se consuma no ar. A casa arqueológicos);
(o ruído) implode as suas 3. página da internet com
paredes e habita a cidade. informação diversa, acessível
através de computador ou
outro meio eletrônico.

68 69
1  A grande recusa,
em A conversa
infinita. São Paulo:
Escuta, 2010, vol.1,
p.73.

2  Esperança do
mundo – Cadernos
(1935-37). São Paulo:
Hedra, 2014, p.19.

3 http://www.
priberam.pt/dlpo/sítio

“Colagem sonora”: Uma colagem composta de


1. eventos – no caso, ruídos fragmentos de 15 diferentes
ordinários de uma casa – eventos sonoros rearranjados
recortados e rearranjados em em um fluxo contínuo. Tempo
um corpo único; sugerido para a fruição:
2. composição de restos. 49’10’’ (exceto nos casos
da repetição obstinada da
Então, experiência ou da recusa total
Apartamento 205. (Quantos ou parcial de realizá-la).
deles firmam residência em
uma cidade?). Ruídos desse Um mapa.
apartamento (meu?) partilhados www.apartamento205.com.br
em uma ocupação aero-virtual. Divulgação na cidade.

70 71
L-ia Luciana Paiva

A escrita é a imagem imóvel da montanha.


Fotografia do tempo congelado em sua passagem.
O disfarce do tempo sobre o deserto da página.
A página é armadilha de capturar rastros. O livro é
uma arquitetura estilhaçada, desmoronada, fatiada
em finas partes. Ruína do tempo. Se “o azul é a
escuridão tornada visível” (Paul Claudel), a palavra
significa do avesso. Sem voz, sem forma, em sua
não forma de pensamento que antecede o nome.
A palavra narcisa ao contrário: não nomeia, forma-
se superfície colorida. Transborda horizontalmente.
Afogar a palavra de sentido. Acordá-la em azul.
A pré-leitura do texto decifra a palavra crua em seu
sentido próprio de palavra vazia.
É na distância da escrita que reconheço o espaço,
é na incomunicabilidade que o encontro é possível.

72 73
ai-L L-ia
.ai elE Ele ia.
.is ed ahlI Ilha de si.

.ail-seD Des-lia.
O azul, seja como for, é algo de arutiel-érp A A pré-leitura
elementar e geral, de fresco e .arvalap ad otresed O O deserto da palavra.
de puro, de anterior à palavra.
Paul Claudel .anigáp ad setna anigáp A A página antes da página.
me roc-anigáp :luza uéC Céu azul: página-cor em
...a palavra é passagem e .otnemivom movimento.
âncora. a é atircse ad eicífrepus A A superfície da escrita é a
Edmond Jabés .oicnêlis od megami imagem do silêncio.

74 75
Lúcio de Araújo

revoluções mínimas Lúcio de Araújo RevoluçõesMínimas


Cápsula de navegação
Lago Paranoá
Brasília – DF
2015

Consta que o plano foi como demonstração de


exitosamente executado. Para força. Convictos, fluímos
conter a passagem da água ao movimento das ondas
foi necessária uma muralha dando vida ao ritual de
que engoliu dezenas de lucidez da existência e que
milhões de metros cúbicos será considerado de agora
de pedra, engenhosamente em diante um ente vivo
empilhados e suficientes, esplêndido, sagaz. Uma
até que os morros dessem vez que a velha ordem se
finalmente as mãos no vasto autoaniquilou, nadamos
vale. Sintonizados ao fluxo contentes sobre suas ruínas,
hídrico entoamos nosso canto em poucos instantes todos
anárquico ao passo que os panópticos, mastros e
um novo mapa se desenha. bandeiras estarão submersos,
As águas sobem ao nível já não são mais necessários,
planejado celebrando o afinal nos libertamos dessa
término da última era cultural canalhice toda. O hábito
(a previsão é de que atinja a entrou em crise. Declaramos
linha do horizonte). Soberba impiedosamente: Estado
planificação em forma de Alagado! A cidade está
espelho d’água. Mergulhamos arquivada. Um brinde às novas
de cabeça no reservatório possibilidades, à quebra dos
que arbitrariamente forjamos vínculos. Como um suspiro

76 77
cósmico eis que nasce agora dos excessos, vazão aos
outra lógica – incansável – desejos, fluência da mudança
inundando todos os espaços em ritmo próprio. Outros lagos
possíveis, penetrando pelas acontecem para além dessas
frestas. Movimento de pura margens, estão conectados
astúcia líquida. A margem por inúmeros afluentes que
se adianta, o território se se resolvem cada qual à sua
reconfigura e na medida maneira, afinal o terreno é
em que o lago se amplifica amplo e fácil de se perder.
vagamos inconformados em Nesse outro tempo o dentro
busca de saciar a sede do e o fora são permeáveis,
mundo. Corpos umedecidos, indiscerníveis. Viveremos
nossas identidades se passo a passo, segundo as
dissolvem. Percebemos que intensidades, no incomum do
em cada segundo há um necessário. Agora a antena
abismo, composto de infinitos mais alta está submersa
déjà vus, plenos de vigor. e as últimas caravanas já
Jorros simultâneos, geradores partiram em busca de novos
de mais e mais devires lagos, abrigos. Sobrevivência
com propriedade de fender requer adaptação. Tempo
o presente embrutecido aqui é areia. Sob nossos
e estacionário. Sentidos pés a história de uma
aguçados, seguimos nossos civilização. A memória
instintos. Do momento balança e o esquecimento é
oportuno criamos nossas nosso direito. O campo da
rotas de fuga, o desejo é probabilidade abre para nós o
navegar, todo o além nos caos – Derivamnese. Nessa
Lúcio de Araújo > Lúcio de Araújo e
interessa. É preciso estar reminiscência o devir do novo RevoluçõesMínimas Claudia Washington
atento, pois após o dique tempo, quem sabe, continuará Plano capital Plano de inundação
Lago Paranoá da capital (link)
há uma queda, igualmente a nos surpreender. Brasília – DF 2012
necessária, a fim de dar conta 2015

78 79
Olhar o muro
carta aberta Ludmilla Alves que deságua em vista de
mancha, gesto, tombo,
indeterminada espera. Vista
de tudo que se move - sem
deixar-se ver - e habita
um abandono de solidão
Bastaria um momento de distração
de pedra.
para afogar os cinco continentes. Passagem de horizonte a
O mar não tem remorsos muro. Palavras oscilam à
(Edmond Jabès) procura do traço de um
pensamento se fazendo.
Palavras oscilam,
O pedaço inteiro, pendula. é um começar imóvel.
Preso e solto no muro, e o
Após incêndio. (vazio
muro, que é página e corte,
,
sujeito ao risco
vazio)
Olhos murados. Conjunto
aos pedaços,
de marcas a dizer que não
tudo
nasceu ontem este princípio
sujeito a desaparecer e até: durar
de queda.
enquanto desprende na passagem cada
ponto-no-tempo de seu movimento.
Cada vez mais distante das
erguer distância maior.
palavras. E frases cada vez
Quando estiver na Praça das
A linha atada ao prego fixo mais arredias: souberam
Fontes, ande, ande, ande,
ata um pedaço de carvão. que o menor gesto pode fazer
escolha um dia seco e assim
(desde 3 de julho, saltar pedras da rocha,
mais ermo. Ande. Meça todo
rachar caminho,
som que puder. Pense no fim,
mês mais árido não,
confirma o dito - que aqui se vive no sim:
numa ilha, um deserto) perceba uma duração
que é outra.

80 81
(todo movimento partindo daí)
eixos e direções, alturas.
Uma deslocação.
No fim das contas é este nó.
Língua que pesa. Pedras.
Palavras dizendo seu corpo
de gesto.

Procurando algo que viesse


a propósito de pêndulos,
encontram: silêncio. Mas os
pêndulos vieram a propósito
de outra coisa.
Talvez, na condição de surdo
mover-se, escrever um texto
que dissesse de ir a algum
lugar antes de tudo acontecer.
Ou dizer de ir depois de tudo
acontecer.

Cada ilha deserta está pronta


a recomeçar o mundo.
(Gilles Deleuze)

82 83
antena de altitudes Luiz Olivieri

84 85
ao se escutar o mastro, experencia-se a instabilidade,
vê-se a antena a tensão entre céu e terra, as
próximas e grandes alturas,
o mastro silencioso, que era a vastidão espacial. Onde o
a conquista da terra, passa cosmos é mais intimo.
a reverberar o som de sua
estrutura metálica. propagar

surge a possibilidade da abrir parênteses, “um lugar de


viagem, de realizar um errância para o pensamento”
percurso, um trajeto- (Gilles Tiberghien)
transmissão,
antimonumento-antena
retirar-se para outros territórios
e ir para lugares singulares: além do cotidiano, dos
continentes...
o céu estrelado, redesenhar experiências,
os planetas, subverter em direção a
as nuvens,
sinos,
submarino.

86 87
souvenir Marialla

O encontro a portas abertas que tudo muda – nem o


Souvenir aconteceu em caminho é o mesmo nem
minha casa, domingo dia eu e tampouco o que se
05 de julho de 2015. No encontra.
quarto de sempre havia uma A ação teve duração de doze
arara com várias cascas. As horas. O ensaio a seguir é
pessoas entram na casa, no composto de fragmentos
quarto, em mim, sentam na deste caderno.
cama-abismo e disfrutam Vou antecipar a viagem
do horizonte – roupas. Mas já que o abismo é meu
não só, cada canto revela vizinho. Frente a frente
um detalhe escondido. Por compartilhamos horizontes.
cima da cama um caderno, Nos vemos e sabemos ser
registro duma viagem sempre outro. Sabemos nada!
mudada de destino e nunca No plano da viagem vou ao
feita, e algumas canetas para abismo. Aquela outra vista
que compor o caderno fosse de tão longe mesmo mundo
uma possibilidade. O caderno de mim. Outro lugar da
é fragmento da viagem, mesma casa.
parêntesis da experiência. (onde estou? morada em mim)
Recontar o acontecido é Mim não vai à viagem
também reinventá-lo. Os por que preciso ir só. As
escritos no caderno não preocupações de mim
foram revisitados durante a revelam que estou mais calma
viagem. Essas frases, por que antes. Esse caminho,
vezes, soltas apontam fluxo que em algum momento já
contínuo. Como uma viagem estive, é na minha memória
de só ida, em que até mesmo desgastado. A lembrança é o
voltar pode ser nova ida - já fragmento da memória.

88 89
(Lembrança vagante revive passo, na primeira tentativa, já
memória sentida, mas o que tinha passado a montanha e
chega até aqui estória) chegado do outro lado.
Todo dia parece uma data O relógio batia em minha
viável. veia rala. Foi preciso reparar,
Por essas palavras gritam diminuir o passo, a pressa, o
o silêncio que a paisagem impacto. Experienciar outro
do meu quarto engole. Pra tempo, eu flutuante. Quando a
chegar ao ponto do desejo, no ponta do meu pé está no topo
horizonte imaginado, preciso se esfarela a pouquíssima terra
sair daqui daonde agora vermelha que há. O mais alto
calor e conforto me habitam da menor montanha é o chão,
e ir. Desde dentro aqui as casas são tão altas que
quando comecei esse trajeto quase estrelas e as estrelas
que diariamente vivencio a tão altas que só se pode ver
metamorfose que transforma de olhos fechados. A formiga
o que era cama em abismo é o novo dinossauro. Escalar. Mirar. Pular de um passou da grade ignorando-a.
particular. (a pequenice começou a abismo para o outro. Queria Saiu andando com minhas
É daqui que consigo visualizar devorar meus pensamentos) no início trilhar caminho para pernas e de repente o trilho
a menor montanha do mundo. Em cima daonde consegui longe das minhas montanhas do trem estava iluminado.
Ela se localiza na rua que fica chegar tudo era abismo e mal ainda não-escaladas, mas Reconheci que esse caminho
em frente aonde sempre vou. podia mexer meus pés. O ar não saio daqui daquele calor e marcado se assemelhava
Parei no caminho, ela me me convidou mais que tudo aconchego que falei enquanto aquela lembrança de minha
desvia e aceito: não tenho a perceber que a queda seria não viver o horizonte dessas memoria já gasta, o revivi
relógio. Ela fica em cima de um o propício fim da busca e a . Enfrentar. Mirar. Escalar. como pude. Preferindo
bloco de concreto quebrado expectativa da diversão. Sem Abismar e pular. andar pelas beiradas. O frio
pela raiz de uma árvore grande. pensar e sem impacto, me (Passeando passaram dias congelante fazia eu sentir
De tamanha pequeneza, lancei. Nas microfrações do em que escrever não se mais quente ainda o calor
quis logo subir esquecendo tempo em queda me deliciava encaixou no roteiro. Até que que gero: criação fulminante,
de toda pressa, que mesmo com o prazer do movimento. o céu ficou transparente, na monstra fogueira no epicentro
sem relógio, habita em mim. Se o tempo era pequeno, não lua cheia e com os planetas do querer esvaziar-se em mim.
E assim sendo no primeiro sei de que tamanho sou. escancarados, meu olhar Todo fogo precisa de ar.)

90 91
o caminho do conhecimento
sondas e veículos lançadores é sempre ladeado por
Matias Monteiro extraordinárias epifanias.
mauro maldonato, raízes errantes

A inserção do Módulo Espacial do Parque Recreativo Ana Lída Se podemos atribuir o intenso desenvolvimento de planetários no
no contexto da exposição de longa duração do Planetário Brasil na década de 1970 ao sucesso dos programas espaciais
de Brasília parece selar a cumplicidade entre estes dois norte-americano e soviético, o mesmo contexto engendrou o
monumentos pueris da capital federal. De fato, ambos são desenvolvimento de novos brinquedos e novas modalidades
não apenas contemporâneos (o Foguete do Parque Ana de equipamentos recreativos. Se Alberto Manguel pode intuir
Lídia precede em cerca de três anos a inauguração oficial do da tradicional prática lúdica de girar e rodar uma certa intuição
Planetário de Brasília), mas frutos do mesmo fascínio histórico pueril das volutas da Terra , os brinquedos de playground são
pela exploração espacial. menos sutis e tendem a converter o fascínio do rodopio em uma

92 93
pedagogia cosmonauta. No contexto da corrida espacial, No caso específico de Brasília, o receio de novas invasões
brincar de espaçonave insere a exploração espacial na próximas a área do Plano Piloto e a necessidade de novos
esfera da cotidianidade; “O maior desafio da recreação equipamentos urbanos para lazer, desporte e recreação,
hoje” dizia em seu catálogo a empresa Miracle “... é levaram a criação do Parque da Cidade. Uma de suas
preparar nossos jovens para as maravilhas da era espacial mais antigas atrações foi o Parque Recreativo, originalmente
de amanhã”. Parque Iolanda Costa e Silva (1971) e, posteriormente,
Parque Ana Lídia (1973).
De fato, é com um misto de surpresa e excitação que
a revista LIFE em sua edição de 15 de março de 1963, O Playground é notoriamente dividido em três partes: a
alerta aos pais que as brincadeiras de bang-bang e de supostamente feminina (com brinquedos com alusões
diligências daria espaço a uma nova forma de brincar: a contos de fadas), o supostamente masculino (com a Satélite espacial instalado em Playground
de Torence, Los Angeles. Revista LIFE,
acionar foguetes e contagens regressivas tomavam de diligência e a taba dos índios) e, ao fundo, os brinquedos
15 de Março de 1963.
assalto os playgrounds conforme os parques se convertiam dedicados a exploração espacial, dentre os quais se
em verdadeiras zonas de lançamento e estações orbitais destaca o Foguete, muitas vezes carinhosamente aludido
cobertas por uma arenosa topografia lunar. como Foguetinho.

Ao que parece, os primeiros brinquedos de parque com A versão original do brinquedo, como nos permite concluir
temáticas espaciais datam da segunda metade da década as fotos do Arquivo Público de Brasília, são particularmente
de 1950 , quando artistas, marceneiros, carpinteiros e similares ao produto comercializado pela Miracle: haviam
profissionais de funilaria eram contratados para produzi- dois escorregadores (o nome do produto era Rocket Slide,
los sob encomenda (demanda supostamente atribuída as Foguete Escorregador) e suas hastes eram ornadas com
próprias crianças). Logo o interesse pontual gerou uma pintura em hélice colorida. Percebe-se na imagem que
indústria: brinquedos espaciais passaram a ser produzidos ao menos o escorregador lateral já não estava em uso,
em grande escala e instalados em parques por todo o sendo bloqueado e eventualmente retirado. Ao longo Foto do Arquivo Público
bloco soviético (ainda é possível encontra-los em alguns dos anos o brinquedo passou por diversas reformas, do Distrito Federal.

parques). Nos EUA, diversas empresas passaram a recuperações, pinturas... até possuir o formato e cores
desenvolver linhas inteiramente dedicadas ao imaginário que conhecemos hoje.
espacial, conforme a demanda crescia e novos parques
temáticos eram inaugurados. A diversidade de modelos Em uma cidade planejada a partir da arquitetura moderna, o
produzidos nesse contexto histórico compõe o imaginário Foguetinho converteu-se rapidamente em um monumento
daquilo que hoje é conhecido como Cold War Playground pueril involuntário, uma das mais celebradas referências
Equipament (Equipamentos de Playground da Guerra Fria). afetivas de seus moradores.
Museu Aeroespacial de Brasíla
Brinquedo em forma de Foguete para o Parque
de Kiwanis Club, Ontario. Desenho de
John Svenson, 1959

94 95
nós marílias Nadja Dulci
Brasília, 04 de julho de 2015

Meu amor,

Foi uma longa caminhada sai a devanear a procura, mais


entre aquelas árvores uma vez, de quem quisesse
todas, o sol de fim de tarde me escutar.
e blocos de concreto. As
pessoas estão dentro das Deixa te contar uma coisa,
casas, dá pra ter certeza pela quando me mudei pra Brasília
quantidade de carros nos pensava: essa cidade é
estacionamentos, já que gente muito interessante porque
quase não se vê na rua. Se é desafiador criar em seus
bem que essa regra vale mais espaços urbanos. E desde
pras que moram, porque tem então venho pensando em
as pessoas que trabalham e como fazer isso, venho
essas eu vi passar. experimentando a solitude
8 km. 8 correspondências. que ela permite, o encontro
Mas isso foi coincidência com cada pessoa que passa
já que eu não sabia trajeto, por mim quando caminho por
encontro nem demanda das seus espaços. Os encontros
leituras. E a escala bucólica parecem acontecer com mais
da cidade me permitiu criar calma, com mais tempo...
paisagem, que é exatamente Mas não sei, acho que foi isso
o que procuro compor quando que me impulsionou a pensar
leio as cartas de amor no caos essa ação de leitura e de
da cidade. Dessa vez, com encontro com o vazio.
figurino casual, cartas em uma
bolsa que parece a de uma Tomadas as decisões mínimas
funcionária dos Correios, eu pra que fossem bonitas na

96 97
potência da simplicidade, eu de caos do calor do asfalto
caminhei pelos lugares mais publicidade ao alcance a todo
lindos da escala planejada e tempo, onde leio entre 20 e
o trajeto foi se definindo pela 30 cartas. É um frenesi, leio
beleza da cidade. Meu ponto pra uma depois pra outro na
de partida foi a 13, a quadra sequência e na velocidade das
313 do eixo norte. Caminhei demandas da urbe.
até onde o sol me permitiu,
quando escureceu interrompi Ao fim de tudo, agora, tudo
as leituras. que tenho é tão intangível,
sabemos apenas eu, um
Foram alguns quilômetros de destinatário e um remetente...
caminhada na área residencial
com paradas em estações: as Enfim, meu bem, essas
regiões comerciais, fronteiras composições fotográficas
de facilitar cotidiano mas que são pra gente viver de leve as
pra mim não tinham outra mesmas paisagens, porque a
função a não ser abrigar gente se encontra em corpo,
potenciais fracassados em coração e na forma como
destinatários das cartas que olhamos o mundo. Porque as
portava na bolsa. coisas que criamos juntos,
todas as coisas, - será
Ah! E o exercício da liberdade possível?! - me impulsionam a
criativa de me permitir não querer mais com você.
ler nenhuma carta caso não
encontrasse a situação ideal Minha imagem na sua
para realizar a leitura! Só que imagem, com amor.
a natureza do mundo é bonita
por si e eu pude fazer a entrega Nadja Dulci.
de 8 correspondências,
diferente de quando leio na
loucura a cidade trânsito

98 99
velocidade da luz Nina Orthof

[ensaio para uma video-performance]

em passos lunares, pequenos Lanterna mundana, espaço


satélites caminham órbitas ordinário e uma composição
projetadas e deixam traços cósmica. a velocidade da
incendiários. ante a duração luz sequestra a realeza e a
do impossível, a surpresa se ferocidade de tamanha rapidez
fez presente. corria a moça e torna-a relativamente boba
com cosmos na barriga, a e profundamente vulnerável.
bicicleta que carregava as concretiza com poeira e
estradas do mundo nos beleza sete voltas ao redor do
pneus, a miúda menina que planetário.
traçava o espaço certeiro e os
lunáticos amorosos. velocidades lúcidas,
revoluções mínimas.

100 101
102 103
lua do meio dia Silvana Rezende

ranslúcida, minúscula. durante


três minutos surge numa
caverna da cidade. foi vista
do alto, de um resto de terra
suja, sobre pedras quadradas
e vestígios de roupas. assim
como o arco-íris, a lua do meio
dia surge como um fenômeno
ótico, promovido pela retenção
da luz da lua cheia da noite anterior,
na memória de nossas retinas.
alcançaremos a lua ao meio dia,
próximo às duas naves brancas,
e nós, dentro da caverna.

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à noite, lua acima. > Clique para acessar
o video.
meio dia, lua holográfica
na caverna urbana.

ilusão contemporânea
outro espaço

das aventuras da cidade,


gosto de estar embaixo do
viaduto, lugar de abrigos
noturnos. gosto de estar
na caverna urbana, quando
ocorre a inversão.

à sombra do meio dia, a


contemplar a pequena lua.

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caminhar é velejar Tatiana Terra

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Traço direcionado, contínuo.
Espaço delimitado: organizar o mundo
Distâncias, alcances, extensões, dilatações,
raios, graus, medidas. Lugar determinado.
Caminhar ao in-visível: Desviar
Reposicionamento. Contemplação.
Ver o visto não visto. Desvelar imensidões
Referências imaginárias, sentimentos oceânicos,
sonho, silêncio e solidão
Atravessar
Sem fronteiras. Horizontes por trás
dos horizontes, unicamente.
Isca
Portal
Lá, impensadas distâncias. Aqui, sucessões dos dias.
Lá, respirações da terra, mistérios do vento. Miragem.
Caminho do pensamento, travessia
A ponte é um pássaro longo
Caminhar é velejar.

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Que desejo é esse de fazer um caminho impossível?

Que caminho é esse que, de tão somente imaginário,


torna-se possível?

Desejo de encontro. O caminho que leva ao mar que


perdi. E para não perde-lo mais vezes, registrarei o
trajeto e criarei um mapa que assegurará encontros.

Meu périplo

ao mar que perdi Valéria Pena-Costa Minha proposta se dá a partir de um texto encontrado
entre velhos livros de viagem. Meus sentimentos de
perda e anseio por restituição encontraram-se com
os que ali estavam registrados e eram sentimentos
e desejos gêmeos. Eu, que já fazia os esboços de
um plano de viagem, intensifiquei minhas buscas e
empreendi uma pesquisa obstinada que pudesse
propiciar meu périplo. Vejam só, ainda nem falei do
encontro, pois diante da complexidade dos planos,
meu primeiro desejo era a viagem. Mas nunca duvidei
de que a satisfação se completaria no encontro com o
mar. Já faz tempo que perdi o mar de vista.

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Rastros de água do mar
Ao preparar a viagem, já estou a caminho
Encontrei, perto da estrada de areia, pistas
de que eu estava no caminho certo: gotas Com o Sextante aprendi a baixar estrelas.
de água marinha. Trago-as para bem perto de mim, ainda que
permaneçam no horizonte. Mas através de um
A pedra Água Marinha é uma variedade sextante, o horizonte é ali. Aproximada,
do berilo. Os gregos a conheciam a estrela, marco pontos e
como protetora das sereias. horas minuciosas. Com
os dados assinalados obtenho o
Onde houver Água Marinha, terá sido mar? chamado Triângulo da incerteza. Devo
Serão rastros de água do mar? navegar dentro de suas possibilidades.

Vestígios da água do mar, sedimentados pelo A navegação, seja no mar ou em terras


tempo, são pistas de que o destino é certo. desconhecidas (sobretudo não sinalizadas)
nunca oferece certezas. Movimentos incertos
Gotas-pedras de Água Marinha são rastros e ilusões nos levam para lugares distantes
do mar. Rastros d’água. Passos d’água. do destino pretendido.

Traçar caminhos aquáticos ligando filetes Posso localizar os pontos cardeais através da
de água e rios. constelação Crux. Traçando-se uma reta a partir
da estrela solitária do pé da cruz, com a medida
Onde não houver junções entre rios e veios de água quádrupla mais um meio da extensão do corpo
eu os ligarei com gotas de Águas Marinhas. do cruzeiro, encontramos o ponto de onde
desce a linha perpendicular que tocará a terra
Traçar uma rota pelas estrelas em consonância com no ponto Sul.
os cursos d’água.
Encantada pela rosa dos ventos. Tenho
Se me desoriento em volteios de rios, as estrelas me desenhado obsessivamente essas rosáceas,
restituem o rumo. mais pela beleza que por necessidade técnica.

Os caminhos aquáticos serão conduzidos pelo O tempo me preocupa. Quanto dele levarei para
caminho estelar. cruzar um terço do continente?

Na terra pela água e no céu pelas estrelas. Para encontrar o mar, não posso perder o tempo.

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corpo sismógrafo e
sismogramas de borra de café ZMário cidade, a rua, o suporte do resultado de tais ações. Segundo os estudos da Física,
existem quatro denominações para as intensidades das ondas sísmicas, porém, a que
mais me fascina na construção desse trabalho é aquela chamada “onda amorosa”. E,
Brasília-DF, 7 de julho de 2015.
justamente por ter esse nome – embora seja a mais perigosa, de ação devastadora
na natureza –, fiz uso como elemento de minha poética. No caso dessa produção, as
Ao meu companheiro de viagem: o fotógrafo ondas surgem sobre a terra: as ações dos transeuntes.

Este meu Corpo Sismógrafo é “hipersensível, portanto, suscetível em excesso [...],


Caro amigo, com a emoção à flor da pele”, é nômade em performance, e ama “a estrada, longa
e interminável, sinuosa e ziguezagueante”, como diz Michel Onfray. Já meu intento
Logo de início, peço-lhe desculpas pela minha traição... Nas estradas da vida, as de percurso performático é um fracasso anunciado, uma vez que não foi possível
emoções nos tomam de maneira tão intensa que, muitas vezes, já não distinguimos armazenar borra de café suficiente para se chegar à outra Asa (CONIC). Das
quem é indiferente ao nosso caminhar daquele que segue firme ao nosso lado; quem quatrocentas colheres de sopa da borra de café de que necessitava para completar
nos afeta profundamente e faz nosso corpo tremer... A propósito, o motivo pelo qual todo o percurso, foi possível armazenar apenas cento e setenta, sendo que cada
traço essas linhas tortas é o de compartilhar os detalhes do Corpo Sismógrafo e colher equivale a um passo da caminhada. Minha única garantia nesse trajeto foi a da
sismogramas de borra de café... Soube que você assumiu compromisso naquele partida, Asa Norte (Shopping Conjunto Nacional), quando os “terremotos intensos”
sábado, 04 de julho, e, ainda assim, esteve lá, ao meio-dia, entre o Shopping – as ondas amorosas representadas pelos transeuntes – me lançaram adiante com
Conjunto Nacional e o CONIC, para registrar minha ação – o que torna este pedido sorrisos e empurrões... Ali meu corpo tremeu, da mesma maneira que os vendedores
de desculpas ainda mais urgente, embora não me arrependa do que planejei... ambulantes tremem diante da chegada da fiscalização municipal – a ameaça
do “rapa”...
Você se recorda de quando falava do meu interesse pela relação estabelecida
entre o performer e “o outro”, a alteridade, durante uma ação nas ruas? Você Minutos antes de iniciar minha caminhada, tomei uma xícara de café espresso
me indagava: “– Que outro é este?” Pois, então... Minha proposta, desde extra forte. Esse foi “o método” que elaborei para acionar meu Corpo Sismógrafo
o início, foi a de retomar o uso do pó de café (desta vez, a borra do café) em performance. Logo em seguida, ao meio-dia, me posicionei na extremidade da
como vestígio da ação de um Corpo Sismógrafo na construção de uma passarela junto ao Shopping Conjunto Nacional para dar início à minha jornada rumo
linha – forma já muito referenciada na História da Arte nas produções dos ao inalcançável... Deixei as sandálias para trás e segui meu caminho como um Corpo
artistas conceituais, da Land Art e da Performance Art. Você deve saber que Sismógrafo destinado ao registro das “ondas sísmicas”: as i(n)terações. Durante a
o sismógrafo funciona como instrumento de medição das ondas sísmicas e performance, minha linha começou a tomar forma pela mão de um corpo forasteiro e
detecta os movimentos do solo – os terremotos. Com base na ciência, utilizo fronteiriço, em processo de desterritorialização, migrante, imantado com uma carga
a imagem de um Corpo Sismógrafo no universo da minha produção artística para de energia vital intensa em busca do desconhecido. Tudo isso marcado com a borra
correlacionar os seguintes elementos: meu corpo, como o próprio sismógrafo; a de café, mais um desdobramento do Café com ZMário. O cair do café, de uma
colher inox, como a caneta do sismógrafo; a borra do café, como pigmento para Asa a outra, formava uma linha em ziguezague, trêmula, sinuosa, por vezes,
o registro das ondas sísmicas: a ação do outro sobre meu próprio corpo, sendo a cambaleante, mas sincera.

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para, desta maneira, sentir as ondas sísmicas (alteridade) e transformá-las em
Assim que posicionei a colher do Corpo Sismógrafo para frente, acima do solo, os palavras... Minha carne ainda treme diante da lembrança daquele(s) outro(s) e, assim,
registros das “ondas” logo se apresentaram: “– Olha o Nescau!” “– Falta água para o permanece à disposição do mundo, registrando todos os movimentos através de
café!” “– Olha o cafezinho!” “– Café do Sítio!” “– Sabia que ele ia aparecer, só faltava um sensor pele; um eriçar de pelos; um oscilar de uma colher, que deixa um rastro
esse do cafezinho aqui... aqui dá de tudo!” “– É protesto porque o café tá caro!” “– Ele pulverizado, um vestígio de café passado pairando como nuvem sobre a cidade.
deve ser famoso, olha quanta gente fotografando!” “– Ajuda ele a levar! Pega a colher Nesse percurso, encontrei um outro que não tornarei a rever, provavelmente, uma
aqui, ajuda ele chegar até lá, ajuda!” “– Ele é maluco, né? Dá um remedinho pra ele!” “alteridade gratuita”, uma “pura alteridade”... E nesse aqui e agora, meu “corpo
“– Já fiz isso aí quando usava cocaína, a polícia me prendeu...” “– Sai daqui, vai! Sai, sai, abalado, tenso e disposto a novas experiências, registra mais dados que de costume
logo!” “– Essa poeira tá sujando nossa mercadoria, dá pra sair daqui?” “– Tá vendo? Ele [...] e armazena o difuso, o diverso”.
chegou aqui na minha barraca e o café caiu, faço tudo tremer...”
Meu caro, devemos “celebrar prioritariamente o que em nós treme e se eletriza, se
Quando a linha passou a marcar o solo, as “ondas” registraram o inefável: “– O que é mexe e se carrega de energia, faz oscilar a agulha do [corpo] sismógrafo, em vez
isto?” “– É pólvora!” “– Xô, chuta que é macumba!” “– Encruzilhada!” “– Que simpatia daquilo que apenas faz o cérebro trabalhar”. Nessa trajetória artística, nas produções
é esta?” “– Isto é oferenda!” “– Maria Padilha!” “– Ele está demarcando o território!” “– de performances, você foi escolhido como meu companheiro inseparável. Sempre
Isso é coisa de gente esperta!” “– Olha os pés! Esse sol tá quente!” “– Quer um copo ao meu lado, tentando traduzir em imagens meu corpo em relação com o outro,
d’água?” “– Ele vai conseguir pagar a promessa!” nos diversos espaços da cidade. Já lhe contei que meu objeto de pesquisa não
está associado à busca de outras formas de documentação da performance. Mas
Amigo, após a performance, aprendi que iniciar uma jornada fadada ao fracasso é como a performance como arte do encontro; relação; construção de intersubjetividades
saltar para um abismo de olhos bem abertos... E de olhos bem abertos, sedentos por nas encruzilhadas do eu com o outro. Por outro lado, seu papel como aquele que
um abrigo, avistei o ponto limite da minha ação. Após duas horas de percurso, sob o documenta essas trocas tem afetado profundamente minha maneira de ser e estar
sol inclemente, com sobras do café ainda no coador, decidi parar no meio do caminho, em performance, e isso vem me causando um certo incômodo... Hoje, para mim,
à sombra do primeiro ponto de ônibus que encontrei. Nunca desejei tanto um descanso não há nada mais dispensável, ao término de uma ação artística, “do que um dilúvio
como aquele – a parada de ônibus como um Oasis, onde recuperei as energias do meu de vestígios, uma abundância de fotografias – como a histeria contemporânea e
Corpo Sismógrafo para logo sair dali, sair da performance... turística que consiste em registrar tudo com seus aparelhos digitais e se arrisca a
reduzir sua presença no mundo à mera atividade de filmar...”.
Por não ficar circunscrito ao espaço institucional dos museus e das
galerias, e ter optado por não corresponder às demandas dos editais, às Traí sua confiança ao fazer você acreditar que, durante aquela performance, levava
exigências do mercado de arte contemporânea, este é meu castigo: dentro da sua câmera analógica uma película nunca exposta à luz... E o que
“Qual castigo? As pontes, as ruas, as calçadas, os porões, as restou disso tudo? Muitas sensações que as dezenas de registros fotográficos
bocas de metrô, as estações ferroviárias, os bancos de praças não conseguem abarcar, mas que em uma “imagem expressiva”, captada pelos
públicas – o aviltamento dos corpos e a impossibilidade de um transeuntes com o uso de um celular, se configuram como documento legítimo
porto, de um repouso”. Doce castigo! daquele acontecimento. Você estava lá!?

Querido amigo, buscador de imagens, nessa jornada fadada ao Com meu sincero pedido de desculpas, agradeço.
fracasso, coloquei “meu corpo à disposição do inefável e do indizível”
ZMário.
corposismografo.tumblr.com

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https://www.facebook.com/events/428963540623624/

Coordenadas Vagabundas

coordenação geral
Karina Dias

textos
dos artilstas

edição e organização
Lucio de Araújo

revisão
Bruna Neiva

projeto gráfico e diagramação


Bruno Schürmann e Gabriel Menezes

fotografias
dos artistas e participantes

Revista Metagraphias
Editora: Luiza Günter
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equipe - jul/2015

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