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Carlo Benevides

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São paulo | 2021


Este é um conto em primeira pessoa no presente,
inspirado em passagens futuristas do romance THEÓPHILO –
Ascenção e Queda de Arreios, ainda em construção.
Tentativa de uma narrativa Kayuá, o dom da palavra,
buscando inutilmente a verdade das palavras, para quem sabe,
receber os mandamentos de Nhanderuvuçu.
Quem puder ler e conhecer que apenas leia.

Carlo Benevides
S
aúdo o passado que se foi. Sobrou-me o presente.
Odiava-o com todas as minhas últimas forças, pois o
presente é um acúmulo de perdas. Mais que esconder
ou disfarçar minhas cicatrizes, conflitos, defeitos e erros pelos
quais fui julgado, ainda haveria uma saída, como sempre há para
os covardes. Aquele barulho incessante. Pernóstico irritante.
Silenciarei a trombeta dos hipócritas, e seu anjo, portador
alcoviteiro, enviando-o para os quintos dos infernos! — Que
Deus o tenha. — Pois havia sido mais que isso, toda esta
destruição, agora visível, devido à tentação dos homens pela
terra, que sabemos, sempre teve um dono antes do atual e terá
sempre outro antes do mesmo.
Daria em desastre, seja como fossem as intenções dos
que agrediram e chupinharam com ânsia a natureza, prostando-
se apenas a ganância. Aconteceu. Inevitável. Cidade devastada.
Gente morta. Corpos desgrenhados, gritos e caras desfiguradas
em posições post mortem. Pena. Patética pena. Nenhum deles
poderá mais me render a única vadia e desdenhosa homenagem
ofertada aos invisíveis — O desprezo. Presente de canalhas.
Porém havia vencido? Ninguém sabe. Xeque-mate a todas as más
ou boas intenções. Agora sou eu, apenas (!), que nunca desejei
mover uma mísera peça para evitar a ruína, acabei ganhador no
tabuleiro dos ocorridos, sobrevivido às consequências dos que
causaram esse desastre que se abateu sobre a cidade. Acabou
a graça, senhores. Não haveria mais jogo ou aplausos para esse
bobo da corte.

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Quando os quintos dos infernos chegaram, os deuses da com esganada sofreguidão, arrastando-se na lama, motivados
verdade e do poder abandonaram seus anjos decaídos. Enfim pela teimosia da carnação coberta de trapos. Tomo por verdade
emudeceram as trombetas. Ante o fim, portanto, encontro- a visão, não mais um delírio. Olho para trás. Rendo-me! Meus
me eloquente na dor, famélico, raquítico e costelas à mostra, deus, é verdade. Seguem-me insaciados. Olham-me como a um
pensando prepotente, ser o único sobrevivente. Procurando salvador. Seriam tão estúpidos? Consigo sorrir, pois parece piada,
qualquer raiz, um punhado de vegetação ou restos de carniça, eu que sempre fui o mais desprezível da cidade, somente perto
teimando em me manter vivo. Havia sobrado algo? Um resistente da morte me tornar protagonista? Não era mais um rato, um
capim? Uma terra empapada de mato? Serviria! Mesmo que abate, uma coisa. Tornara-me o quê? Um predador de nada? A
regurgitasse tantas vezes necessárias em refluxo, mastigando-o esperança inútil destes tão igualmente desafortunados?
novamente, até meu estômago resolver absorvê-la.
Tento esquecê-los por um momento. Estava ocupado
A chuva ácida castiga. Óxidos de enxofre e nitrogênio demais para devaneios. Cavuco sem parar. A cada porção de
destruíram toda a vida, fauna e flora, contaminando o solo e o minhocas se enroscando na terra, meus olhos umedecidos
lençol freático. Mas se é dura a insistência em sobreviver, pior é brilham e agradecem a graça concedida. Ainda há o que engolir e
sentir as tripas o esmagarem por dentro com o nome de fome. Em me saciar, mesmo que me sufoque. Morrerei de estômago cheio,
ruínas, observando a destruição do que já foi uma cidade, choro vingando-me dos parasitas com proteína contaminada. Não vou
sua derrota, consolando-a. Sei das histórias em cada uma daquelas me travestir de nada além de mim mesmo. Nem mocinho ou
casas soterradas. Lembro e não me permito esquecer minha vilão. — Protagonista é o diabo! — Este alguém que era se abraçar
própria história. Das histórias de todos. Segredos, depravações na memória do que sempre fui: Um nada, nenhum e ninguém.
e pecados. Pecado. Cansei-me de você que sempre me volta à
mente e mente pois foi você sempre a cria dessa desgraça! Não Olho para trás e fito a todos, arredio, protegendo minha
venha me culpar. Cubro as orelhas e não quero escutar! Perenes porção de minhocas umedecidas com sopa de terra, como uma
para sempre no silêncio de seus corpos insepultos, estão todos. cadela a devorar o filhote natimorto. Ainda tenho posse da minha
Como as carcaças dos animais e da vegetação abatida. Nas casas e adaga? Tiro-a da bainha, minha sempre companheira, para num
edifícios obstinados em mostrar parte do que já foram. Teimosas rompante de fúria, ameaçá-los com ela em riste, com gritos
paredes semidestruídas a segurar barrancos de lama. parecendo grunhidos que nem mesmo eu compreendo, iniciando
uma dança frenética, de um corpo esquálido e sujo de lodo,
Cada construção onde habitou uma vida humana tem a
riscando o ar com minha adaga, sacudindo-me como um louco,
história que se recusa ser apagada, mesmo que não exista nem
como possuído por espíritos antes sempre adormecidos. Em
mais a oralidade para contar suas memórias. Eles estão ali de
sílabas guturais, encontro cada nota da minha melodia que ritma
mãos dadas em seus cômodos, móveis, utensílios, espíritos e
essa dança grotesca. Finalmente sou senhor de mim mesmo.
cadáveres. Cada gota de sangue que manchou suas paredes
Livre de qualquer outro senhor. Liberdade plena de nada. Não
é a prova de que ali residiam homens e mulheres, famílias ou
obedecerei mais a ninguém e tampouco a mim mesmo. Viva a
solteirões, vitalinas ou ermitões. Tenha certeza. Conheci todos.
desgraça que se abateu sobre nós, pois sou livre!

† Percebo enfim, ofegante e derrotado pelo cansaço, não


causar qualquer reação naquele grupo. Nada lhes provoca medo?
Percebo o som de arrasto e gemidos. Não estou só. Mais Eu que sempre fui um covarde por tanto tê-lo, não consigo
sobreviventes para o banquete. Um grupo que não chega a uma suscitá-lo a outro. Seria falta de subtexto? Esse maldito grupo
dúzia, persistentes, lutando pela vida. Seguem-me mais ao longe de semimortos não desistirá de me seguir, até que a morte, com

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sorte, nos poupe de vez o sofrimento. maestria. Ainda sorrio, seus miseráveis! Com a banguela daquele
que sempre fora desprezado. Olhai todos vocês para a felicidade
Mas eu vos prometo, matarei a todos para proteger minha
de um homem que dança na beira da morte.
sopa de minhocas. Melhor devorá-las logo. Foi o que fiz. Não
perceberam? Lógico! Morte? Não poderei admitir. Foi então que a sobrevivência
Uma pequena poça com água da chuva ácida me fita com me lembrava novamente de bater em sua porta. Olho para
ternura. Levo-a à boca, fazendo conchinha com mãos trêmulas. a montanha e tudo em baixo engolido pelo quase completo
Saciei minha sede, dane-se! Estou satisfeito, olhando para o alto, aterramento da cidade. Observo a entrada bloqueada do que já
vendo o céu escurecer, sem saber mais se deliro ou se a realidade foi o túnel. A única saída da cidade. Não, não vou desperdiçar o
me acolhe. Não posso controlar minhas pernas. Sem forças, após milagre de ainda estar vivo. Isso me impulsiona a seguir adiante e
ajoelhar, derrotado, caio de bruços logo após a poça d’água. pensar numa fuga. Não há mais tempo a perder, nem para matar
a sede ou pensar na fome, pelo justo desejo de viver. Nada mais

† me consome. Tampouco minha eterna companheira, a covardia.


O que é aquilo? Olho com pálpebras semicerradas pelo
Ao acordar, ainda era noite. O grupo, em penúria mórbida, brilho do sol. Enxergando melhor, vejo um dos degraus da velha
havia conseguido se arrastar feito invertebrados, até alcançar escadaria da montanha, que antes levava os devotos, ajoelhados
minha poça d’água, atirando-se nela como vermes. Debatiam-se, em penitência, até a capelinha em seu sopé. Se antes estes pobres
esmurravam-se ou se acotovelavam, apressados, sorvendo a água coitados, doentes de saúde ou de fé fundamentalista, para
com expressões animalescas, subindo uns sobre as costas dos salvação de suas almas, eram capazes de alcançar o seu topo, por
outros, como se demônios brotassem da terra alagada a sugar que não conseguirei?
suas almas, acabando por matar os mais fragilizados, sufocados,
ao serem soterrados na lama. Penso e olho com tristeza para trás. Os últimos que ainda
estão vivos, incapazes de me seguir pela fraqueza em seus ossos.
Era o que restara dos fundamentalistas comedores de Com lágrimas me fitam e depois me indicam o alto, com marejo
cogumelos mágicos, bebedores de ayahuasca. Viravam animais, de súplica e sorriso amável. Compreendi. Farei aquilo por eles
talvez desde o começo do fim de quem alimentou o fanatismo mais do que por mim. Não mais serei eu o covarde de sempre.
destes coitados por uma pretensa salvação. A metamorfose já Suas mortes terão valido a pena. Não desistirei da vida aos
havia se completado. Estão todos os últimos ali na poça. Homens que me confiaram a tarefa em seus últimos momentos, e me
e mulheres com pureza de corpo e espírito, amantes da natureza amaram. Sigo em frente, lânguido em dor terrível, sabendo como
e dos deuses da mata. Que jamais matariam um ser vivo (!) para fui mesquinho e insensível com eles, agora meus amigos. Agora,
se alimentar. cazumbis?
Diga isso às minhocas... Começo a escavar com as mãos, em ritmo frenético, o
Finalmente volto a me sentir vivo, percebendo pelo escárnio lamaçal do deslize de terra, descobrindo um degrau após o outro,
e ironia, que posso conviver com a maldade e o desprezo, sem me permitindo-me, enfim, subir até o que restara da cruz do altar.
julgar. Será isso então, sentir a liberdade plena de nada? Estou Como um arqueólogo, manejo a lama e as pedras com astúcia,
ensopado da lama da chuva ácida. Meus lábios rachados já não descobrindo o maior tesouro em meio ao apocalipse. — Uma
conseguem sorrir. Um dente amolecido me cai da boca sem enxada que poderia ter tido serventia na plantação do cipó-jagube
avisar. Toco em cada um deles e sinto que os extraio com perícia e e o arbusto-chacrona, tão consumidos pelos antigos fiéis.

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O choro compulsivo pela descoberta se deixa abafar espanto passou, como também qualquer temor.
pelo pragmatismo da sobrevivência. Com a enxada em mãos,
— Vamos, meu amigo. Venha conosco para a maior das
poderei contornar a montanha e descer do outro lado do túnel.
aventuras. — diz o homem, manejando os arreios para um trotar
A ansiedade e adrenalina me tomam o ímpeto e, durante horas,
lento do cavalo.
vou andando até sumirem da minha vista, aqueles meus últimos
queridos. Penso que ainda me assistem, torcendo para que eu — Sabe o que há na luz do fim do túnel? — pergunta-me a
não desista, vendo-me ao longe, com o tamanho de uma formiga, mulher.
desaparecendo na mata, enfrentando sem medo a natureza que O casal olha docemente no fundo dos meus olhos e sem
me confronta a cada passo de conquista. esperar minha resposta, confidencia: — O fim do mundo. A mais
Não me permito mais conjecturar sobre isso ou aquilo. fantástica aventura do ser humano.
Quero apenas chegar vivo no outro lado, para quem sabe, deus
Tomado de repentina esperança, digo: — Espero os
permita, ser socorrido por uma boa alma, mesmo que morra
encontrar, todos ainda vivos.
depois, consumido por uma triste e inefável alegria.
— Não espere nada. Falta apenas você para o banquete.
Bem antes que a terra me desse cabo, controlo o choro ao
descer na estrada, no outro lado do túnel. Tal o cansaço, que mais — Não. Indigno sou de sentar-me à mesa e me banquetear,
uma vez sucumbo e me deito para ver se durmo, engolido na sem saber se o grupo que abandonei na cidade, ainda vive.
escuridão. — Desdenha nossa oferta em troca das almas que também


serão nossas? Viemos com educação e justiça e nos despreza?
— Como desprezaria qualquer um, sem dar a chance aos
Acordo aos poucos consumido por uma luz que clareia, que em um último suspiro, pelejam pela vida.
com tal intensidade, até me cegar. Com pupilas dilatadas vou Olhares de reprovação. Ira incontrolável. Sinto mãos brutas
me acostumando, e consigo ver uma mancha que parece sair de expulsarem-me da carroça.
dentro do túnel. Ela vai tomando a forma de algo espectral, à
medida que se aproxima. Agora vejo com clareza, uma carroça em Ajoelho. Choro. Haverei vencido a morte? Não saberei
meio à névoa que consome o espaço, conduzida por um cavalo dizer mais se estou vivo ou no limbo. Sinto apenas minhas forças
e guiada por um estranho casal, vestindo roupas burguesas de arriarem de vez, até fechar os olhos e me deixar ser engolido outra
décadas passadas. vez pela escuridão.

Estranhamente me sorriem com estranha amabilidade


e cortesia, até estacionarem ao meu lado. O homem abre a †
portinhola e me convida para subir. A mulher faz um sinal, Começa a amanhecer quando sou acordado por um som
chamando-me como uma mãe carinhosa, induzindo seu filho para incompreensível, tomando forma e signo, até se tornar familiar.
um passeio. Entro, sem reclamar, ao mesmo tempo sem entender, Um cacarejar. Um galo cantando na entrada do túnel, anunciando
porque não sinto mais fome, sede ou cansaço. a luz que raiava o dia. Ali. Um belo espécime de galo caipira de
Devo ter me espantado ou gritado, aterrorizado, claro, ao crista faceira e gogó afiado. Próximo demais para não ser notado
ver que a carroça se dirige, agora, de volta para o túnel tomado Um pomposo galo de capoeira de plumagens terrosas, acordando
pela luz. Estranhamente me sinto domado por uma paz. O com seu canto, quem já morto se achava.

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Um psicopompo1, acompanhando suas almas e indicando
um paradoxo: Seria devorado ou polpado por mim que mais
defendiam a vida, eu que sou vegano?
Por um momento fitei paralisado a ave. Talvez por algum
momento tenha passado por minha mente a lembrança das
jandaias e a animada algazarra que faziam em bandos imensos à
sombra das árvores da montanha. O que fiz para ter de suportar
tal provação? Confesso que ainda me restava um pouco de
humanidade, ao cabisbaixo, entristecer-me, complacente com
o medo do galo. Mas a humanidade é um bichinho que se vai
embora na mesma velocidade da ira. Não durou muito. Levantei
a cabeça admirando o animal. Foi então que percebi. Agora me
encontrava livre das amarras de qualquer idealismo. E foi assim
que percebi nos olhos do galo, o seu lamento, ao se ver nu e
devorado pelos meus olhos.
Nada e ninguém. Nem seres rastejantes, insetos, bípedes
ou quadrúpedes, vertebrados ou não, sobrevivente que seja, ou
o último de sua espécie, poderia sobreviver a pior provação dos
homens: A fome.
Perdoai-me, Hermes, mas era a hora da canja.

- FIM -

1 Na mitologia grega, o galo, consagrado a Hermes, é um psicopompo, “função


tradicionalmente atribuída a Hermes no mito grego, pois ele, além de mensageiro dos
deuses, era o deus que acompanhava as almas dos mortos, sendo capaz de transitar
entre as polaridades (não somente a morte e a vida, mas também a noite e o dia, o céu
e a terra)” (Dicionário Crítico de Análise Junguiana, Edição Eletrônica © 2003 Andrew
Samuels/Rubedo, p. 88).

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