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http://jus.uol.com.br/revista/texto/73

Publicado em 05/1999

Maurício Leal Dias

   

O debate político e por conseguinte o econômico, jurídico e cultural tem girado em


torno da ressurgência do ideário liberal que em novos contornos, passa agora a
denominar-se neoliberalismo, face a débacle dos socialismos reais e o esgotamento da
alternativa Social-Democrata do Estado Intervencionista, o chamado WelfareState, o
neoliberalismo dita a cartilha econômica não só dos países Europeus e Norte-
Americanos, liderados pela Inglaterra e Estados Unidos, como também, dos países de
capitalismo periférico.

O neoliberalismo assume neste fin de siècle um papel proeminente dentre as teorias


sociais, impulsionando revoluções e contra-revoluções, atraindo tanto defensores
apaixonados como detratores furiosos. É circundando esta atmosfera que este trabalho
tentará explicitar um dos momentos cruciais do neoliberalismo, qual seja, a sua
concepção de Estado, bem como a sua crítica ao intervencionismo. Buscaremos através
de uma análise assentada em base interdisciplinar, investigar o neoliberalismo realmente
existente, desnudando suas facetas escondidas, principalmente a intervencionista.

Partiremos da descrição pontual de suas origens chegando até aos seus fundamentos
contemporâneos, o que perfaz um discurso sobre os seus mais expressivos
representantes, isto feito, confrontaremos o neoliberalismo e o intervencionismo. Com
estes elementos e aliando uma perspectiva comprometida com a radicalização da
democracia e a refuncionalização do Estado face aos ditames de um mercado
globalizado é que apontaremos as ilusões do neoliberalismo, para ao final
confrontarmos o neoliberalismo com os princípios da Ordem Econômica estatuídos na
Constituição Brasileira de 1988.

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A    c

Para uma descrição histórica do neoliberalismo como fenômeno recente devemos partir
do liberalismo clássico, que traz os seus fundamentos. O Liberalismo clássico assim
como outras correntes do pensamento possui representantes que se destacam como os
fomentadores do ideário liberal, disseminando os seus princípios e idéias fundamentais;
dentre os liberais clássicos destacaremos três figuras que representam momentos
distintos e sintetizam uma era liberal, são estes :  

   
!
Em  encontraremos os lineamentos das reflexões fundamentais do liberalismo no
que tange o direito natural e o contratualismo, pois  estava envolvido em uma
atmosfera de formação do liberalismo, onde a reivindicação de direitos religiosos,
políticos e econômicos e a tentativa de controlar o poder político eram o centro das
reflexões de então.

De que é fruto esta reivindicação de direitos ? Podemos afirmar que decorre de um lado
do movimento da Reforma Protestante , de outro do desenvolvimento do capitalismo
que passa a reivindicar o controle político.

Para a consecução dos objetivos do capitalismo eram necessárias algumas idéias chaves
(Direito Natural e Consentimento), que encontram em  um desenvolvimento que
atendiam as expectativas do capitalismo emergente.

 modernizou a idéia de direito natural, legitimando-a conceitualmente. Esta idéia


de direito natural decorreu do conceito medieval de direitos subjetivos, para o qual os
homens possuem o domínio sobre as suas vidas ou bens não como um corolário do
direito civil ou do intercurso social, mas da própria natureza das pessoas como seres
humanos. Desta idéia de direito natural surge o contratualismo que influenciou todo o
pensamento político de â a " .

O conceito central do contratualismo é a valorização do indivíduo, pois fundado em


uma ética minimalista atende a dois princípios :a legitimidade de autopreservação e a
ilegalidade do dano arbitrário feito aos outros. A autoridade legítima passou a ser
encarada como coisa fundada em pactos voluntários feitos pelos súditos do Estado.

A principal contribuição de  para o contratualismo é a sua noção de


consentimento, que deveria ser tácito, periódico e condicional. " encarou os
governantes como curadores da cidadania e, de forma memorável, imaginou um direito
à resistência e mesmo à revolução. Dessa maneira, o consentimento tornou-se a base do
controle político(1).

Para !#o contratualismo de  representou a apoteose do direito natural no


sentimento individualista moderno. "â antes dele e "  depois imaginaram
contratos sociais em que os indivíduos alienariam por inteiro seu poder em favor do rei
ou da assembléia. Por contraposição, em  os direitos pessoais provêem da
natureza, como dádiva de Deus, e estão longe de dissolverem-se no pacto, no caso de
â , abandonam todos os seus direitos, exceto um - suas vidas-, já os indivíduos de
 só abandonam um direito - o direito de fazer justiça com as próprias mãos - e
conservam todos os outros. Ao sacralizar a propriedade como direito natural anterior à
associação civil e política,  realçou um tendência que já tinha quinhentos anos de
idade: a fusão pós-clássica de ius e dominium, de direito e propriedade. Entronizando o
direito de resistência, ele ampliou o princípio individualista de vontade e consentimento.
E consentimento, em lugar de tradição, é a principal característica da legitimidade em
política liberal"(2)

A contribuição de 

  está no âmbito do pensamento econômico, pois fora

  que elaborara o texto básico da economia clássica - è Riqueza das Nações, que
consistiu em um cuidadoso exame dos mecanismos de mercado e da divisão do trabalho
como fator subjacente da prosperidade moderna, é em
  que a idéia de progresso,
advinda do iluminismo, consubstancia-se em uma teoria do crescimento em termos de
economia política. Como diz !#, "verdadeiro iluminista, 

  conferiu
ao tema do progresso sua profundidade socioeconômica. Promotor do pensamento
liberal,
  introduziu a idéia do progresso na defesa do liberismo. Não espanta que
ele tenha sido um crítico persistente do privilégio e da proteção. Como pilares
encadeados da sociedade pré-moderna, o privilégio e a proteção não foram muito
atingidos pelos porta-vozes da virtude cívica. Mas tornaram-se alvos naturais do
liberalismo enquanto a voz da modernidade"(3)

  !, produziu um ensaio que é tido como o ABC do liberalismo,
intitulado cnLiberty, neste ensaio ! entrelaça vários ramos do pensamento liberal.
Liberdade Política, autonomia negativa, autodesenvolvimento, liberdade como
intitulamento, liberdade de opinião, liberdade como autogoverno, liberdade como
privacidade e independência. ! expressa ainda a necessidade de antepor limites ao
poder, mesmo quando este poder é da maioria, louva a fecundidade do conflito, elogia a
diversidade, condenando o conformismo.

O Estado para ! não deve apenas proteger um indivíduo do outro, mas também
todos os indivíduos em seu conjunto enquanto grupo de um outro Estado, ! para
assegurar tal conjunto introduz um princípio de Justiça distributiva, pois na verdade já
não basta mais a justiça comutativa, realizado um bem (ou mal) igual e contrário com
base no critério da igualdade aritmética. Surge então uma dificuldade que
encontraremos no debate sobre o estado social, qual seja a de saber-se o que distribuir ?
Qual é o critério ?

O liberalismo clássico possui vários representantes tanto quantos forem os seus


liberalismos, aqui não estudados, o que decorre da limitação temática, pois é nossa
pretensão depreender dos autores aqui estudados, os elementos essenciais do liberalismo
clássico, quais sejam: o individualismo, a limitação do poder político, as funções do
mercado e a liberdade.

Acreditando ter perfazido este caminho passo ao estudo dos principais representantes do
neoliberalismo, procurando acentuar os elementos que o distinguem do liberalismo
clássico assim como as suas semelhanças.

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Para este trabalho destacaremos dentre aos representantes máximos do neoliberalismo


dois autores que representam sob a perspectiva da teoria política e econômica (â$) e
da teoria do direito (%) o substrato teórico deste movimento, tal empreendimento
deve estar aliado à percepção das causas do surgimento do neoliberalismo .

O neoliberalismo nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da


América do Norte onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política
veemente contra o Estado Intervencionista e de bem-estar. Seu texto de origem é c
Caminho da Servidão , de šâ$, escrito já em 1944. Trata-se de um ataque
apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado,
denunciadas como uma ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também,
política, â$ acusa ainda o planejamento e o Estado providência de levarem à
tirania(4). Neste verdadeiro tratado político, â$ enquadra o mercado e o progresso
numa moldura evolucionista. â$ partiu para apresentar o mercado como um sistema
sem rival de informação: preços, salários, lucros altos e baixos são mecanismos que
distribuem informação entre agentes econômicos de outra forma incapazes de saber, já
que a massa colossal de fatos economicamente significantes está fadada a escapar-lhes.
A intervenção do Estado é má porque faz com que a rede de informações do sistema de
preços emita sinais enganadores, além de reduzir o escopo da experimentação
econômica. Quanto ao progresso, este ocorre através de uma miríade de tentativas e
erros feitos pelos seres humanos, pois a evolução social procede mediante "a seleção
por imitação de instituições e hábitos bem-sucedidos"(5).

Três anos após ter publicado c Caminho da Servidão, â$, diante de uma conjuntura
onde as bases do Estado de bem-estar na Europa do pós-guerra efetivamente se
construíam, convocou aqueles que compartilhavam sua orientação ideológica para uma
reunião na pequena estação de MontPèlerin, na Suíça. Entre os célebres participantes
estavam não só adversários firmes do Estado de bem-estar europeu, mas também
inimigos férreos do New Deal norte-americano. Na seleta assistência encontravam-se
!  š
 & '((  "  ) * !  (do qual â$
era discípulo), +  ,( +  (
 ! '$   
!, entre outros. Aí se fundou a Sociedade de MontPèlerin, uma espécie de
franco-maçonaria neo-liberal, altamente dedicada e organizada, com reuniões
internacionais a cada dois anos. Seu propósito era combater o keynesianismo e o
solidarismo reinantes e preparar as bases de um outro tipo de capitalismo, duro e livre
de regras para o futuro.

% , por sua vez, é autor do livro ènarquia, Estado e Utopia, surgido em 1974.
% está convicto, como diz logo de saída, que "a questão fundamental da filosofia
política, que precede qualquer outra sobre como o Estado deve ser organizado, é se ele
deve ou não existir"(6)

A obra de % move-se contra duas frentes: contra o Estado Máximo dos defensores
do "Estado de Justiça", ao qual são atribuídas funções de distribuição de riqueza, mas
também contra a total eliminação do Estado proposta pelos anarquistas. Embora com
argumentos novos, % retoma e defende a tese liberal clássica do Estado como
organização monopolista de força, cujo único e limitado objetivo é proteger os direitos
individuais de todos os membros do grupo. Partindo da teoria Lockeana do Estado de
natureza e dos direitos naturais, mas repudiando o contratualismo como teoria que vê o
nascimento do Estado num acordo voluntário e se entrega à feliz (e talvez também
falaz) idéia de uma criação da "mão invisível", % constrói o Estado como uma
livre associação de proteção entre indivíduos que estão num mesmo território, cuja
função é a de defender os direitos de cada indivíduo contra a ingerência por parte de
todos os demais e, portanto, a de impedir qualquer forma de proteção privada, ou, dito
de outra forma, a de impedir que os indivíduos façam justiça por si mesmos. Além do
mais, quanto à determinação dos direitos individuais que o estado deve proteger, a
teoria de % está genericamente fundada sobre alguns princípios do direito privado,
segundo os quais todo indivíduo tem direito de possuir tudo o que adquiriu justamente
(ou princípio de justiça de aquisição) e tudo o que adquiriu justamente do proprietário
precedente (princípio de justiça na transferência). Qualquer outra função que o Estado
se atribua é injusta, pois interfere indevidamente na vida e na liberdade do indivíduos. A
conclusão é que o Estado mínimo, embora sendo mínimo, é o Estado mais extenso que
se possa conceber: qualquer outro Estado é imoral.
Após estas considerações gerais sobre os teóricos do neoliberalismo, passemos a centrar
a análise na crítica do neoliberalismo ao intervencionismo, para tal é necessário uma
breve discussão da transição do Estado Liberal para o Intervencionista, é o que faremos
no tópico seguinte.

—  
 -   


Como dissemos, é necessário para entender a crítica neoliberal ao intervencionismo, ter


clara as condições históricas em que se deu a transição do Estado Liberal ao
intervencionista.

O Estado Liberal constituía-se em antítese ao absolutista, pois com a ascensão da


burguesia ao poder político, passaram a viger os seus princípios e valores. š
../01, divisa bem os institutos que caracterizam o Estado Liberal, são eles : a) o
princípio da legalidade; b) a separação de poderes; c) o voto censitário; d) a liberdade
contratual; e) a propriedade privada dos meios de produção e o fator "trabalho", f)
separação entre os trabalhadores e os meios de produção.

É ainda š ../21 que acompanhado dos estudos de *  ! š 


  ' 3    .      4 * que nos esclarece
as causas , dentre várias, da transformação do Estado Liberal em Intervencionista.
Aponta o publicista paraense: a) o surgimento do capitalismo em sua fase monopolista;
b) as crises cíclicas do capital; c) as exigências sociais advindas da produção; d) o
ideário socialista em conjunto com o planejamento econômico; e) a transformação da
força de trabalho em mercadoria e; f) as guerras mundiais.

O que caracteriza o Estado intervencionista ? Vimos que o liberalismo clássico nasceu


assentado no primado da liberdade individual com seus consectários no princípio da
liberdade de empresa e da livre concorrência de mercado. Por isso mesmo, relaciona-se
profundamente com os princípios e garantias da propriedade privada.

Observa-se que a intervenção do Estado no domínio era considerada deletéria ao livre


jogo das forças econômicas no mercado regulado pelo ideal da concorrência perfeita.
Ao Estado cabiam os assuntos políticos, não os econômicos. Evidentemente que este
modelo liberal nunca chegou a ser realizar, permanecendo na esfera do tipo ideal, até
porque teria que estabelecer um "marco zero" de intervenção, além do qual fosse
caracterizada como indevida a atuação estatal(9).

A imagem , digamos, soft, suave, do mercado dos primórdios do capitalismo deu lugar a
uma outra imagem, oposta a essa, dada a descoberta da violência no próprio processo
produtivo industrial. Assim, o mercado, enquanto uma expressão de um modo de
produção mais amplo, que inclui a relação direta entre o homem e a natureza, dos
homens entre si, da transformação dos bens de produtos, apareceu como umlocus de
violência. Esta visão do processo capitalista é fruto das contribuições de !-, que
através do movimento socialista expandiu a crítica ao violento modo de produção
hegemônico.
Temos, o Estado aparecendo como o contraponto bondoso, como o contrapeso às
tendências maléficas do mercado. As forças livres do mercado, a "mão invisível", não
seriam por si a garantia da realização do interesse geral através do interesse individual
(como queria a ideologia até então dominante). Reaparece a idéia de que é preciso um
elemento de política, o Estado, e até um elemento de ética, para conter as forças cegas
do mercado que largadas a si mesmas, seriam incapazes de realizar a felicidade humana.

Introduz-se a idéia que, através da atuação estatal é possível fazer algumas correções,
colocar alguns freios no mercado. Há várias alternativas quanto ao grau de correção
desejável, desde intervenções parciais para "domar a fera", até a substituição do
mercado pelo planejamento, ou seja, "a função primordial da intervenção Estatal é
mitigar os conflitos existentes no Estado Liberal, e não sua destruição"(10).

â$  !  foram, dentre o neoliberais que construíram os argumentos mais


contundentes contra o Estado gestor da economia. !   a exemplo coloca a questão de
se saber quais as consequências das intervenções do governo e de outras instâncias no
sistema de propriedade privada ? A isto responde que a existência de duas ordens de
organização social com divisão do trabalho, quais sejam, a ordem da propriedade
pública e a da propriedade privada, não presume uma terceira ordem, qual seja, a da
propriedade privada regulamentada pelo governo. "incidentalmente, devemos distinguir,
cuidadosamente, entre a questão de o governo ser ou não necessário e a questão de em
que casos a autoridade do governo é admissível. O fato de a vida social não poder
prescindir dos instrumentos de coerção do governo não pode ser usado para se concluir,
também, que o controle da consciência, a censura e medidas semelhantes sejam
desejáveis, ou que certas medidas de economia sejam necessárias, úteis, ou apenas
exequíveis".(11)

â$ opõe-se ao intervencionismo, que considera o mal essencial a ser combatido e


que as crises econômicas do séc. XX resultaram do excesso de intervencionismo, com
uma formulação da ordem espontânea do mercado, que segue regras universais de justa
conduta, não podendo ser a ordem resultante do mercado fruto da vontade humana e que
as instituições e regras que permitem o seu surgimento não são voluntária e
conscientemente dominadas e conhecidas.

4  5  destaca os dois objetivos a que â$ atinge com esta formulação:
"por um lado, logra subtrair os resultados individuais do mercado de uma crítica
fundada numa idéia de justiça. Por outro, pretende demonstrar que o próprio sistema de
economia de mercado tem uma legitimidade mais fundamental que aquela conferida por
sua utilidade imediata. Ao contrário, é na história que podemos encontrar o fundamento
de legitimidade do mercado enquanto ordem espontânea"(12). Com efeito, em â$
as regras que permitem o funcionamento do mercado são "o puro produto da história...
Posto que o mercado foi historicamente constituído, sua superioridade e sua
legitimidade são estabelecidas pela história e pela seleção natural. Ele não é jamais
conscientemente inventado... Ele se estabelece ele mesmo, historicamente, como o
sistema mais eficaz(13).

É exatamente desta concepção do mercado como produto da história e da seleção


natural que decorrem as críticas de â$ ao intervencionismo estatal, assim como a
defesa intransigente da liberdade individual. Vejamos agora como tais questões se
articulam. E, para tal citemos o próprio â$6 "o conceito central do liberalismo é o de
que sob a aplicação de regras universais de conduta justa, protegendo um reconhecido
domínio privado dos indivíduos, formar-se-á uma ordem espontânea de atividades
humanas de muito maior complexidade do que jamais se poderia produzir mediante
arranjos deliberados e que, em consequência, as atividades coercitivas do governo
deveriam limitar-se à aplicação dessas regras"(14).

Diante desses argumentos hoje parcialmente vitoriosos no mundo, surge a questão de se


saber quais foram os fatores que permitiram esta ascensão ?

Segundo '$   esta vitória se deu com " a chegada da grande crise do
modelo econômico do pós-guerra, em 1973, quando todo o mundo capitalista avançado
caiu numa longa e profunda recessão, combinando, pela primeira vez, baixas taxas de
crescimento com altas taxas de inflação, mudou tudo. A partir daí as idéias neoliberais
passaram a ganhar terreno"(15). As raízes da crise, afirmavam â$ e seus
companheiros, " estavam localizadas no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de
maneira mais geral, do movimento operário, que havia corroído as bases de acumulação
capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão
parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos sociais"(16).Esses
dois processos destruíram os níveis necessários de lucros das empresas e desencadearam
processos inflacionários que não podiam deixar de terminar numa crise generalizada das
economias de mercado.

"O remédio, então, era claro: manter um estado forte, sim, em sua capacidade de romper
o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais e
nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de
qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentària, como as
contenções dos gastos com bem-estar, e a restauração das taxas "naturais" de
desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os
sindicatos"(17).

Como podemos perceber através dos argumentos argutos de seus defensores o


neoliberalismo perfazem uma crítica virulenta ao Estado de bem-estar, passando a
empreender uma pregação voltada para o fortalecimento dos mecanismos
autoregulatórios do mercado, livre das "amarras" do intervencionismo, seriam a base do
retorno da estabilidade monetária e do crescimento, porém, será o neoliberalismo tão
eficiente em suas propostas de crescimento econômico ? Ademais, acerca da
preocupação central deste trabalho, o neoliberalismo lança o intervencionismo ao limbo
? E como este se comporta frente aos ditames da democracia ? Serão estas questões que
nos ocuparemos no próximo tópico.

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Sem dúvida é no plano cultural mais que no econômico que veremos as principais
repercussões do neoliberalismo, vejamos : a difusão de um Ethos sem raízes tradicionais
precisas é um dos marcos de nosso tempo: o mito da mobilidade pelo esforço pessoal;
as generosidades da livre empresa ("somos todos empresários"); o direito à
diferenciação; a liberdade como valor máximo, embora como autodisciplina; e uma
solidariedade não problemática para aqueles que não são beneficiados pelo mercado. O
neoliberalismo investe no senso comum, alimentando o antiestatismo do povo, com a
idéia de que o Estado é o causador da crise, o Estado que, para proporcionar,
previdência social, cobra altos impostos; Estado que alimenta uma grande burocracia
ineficiente e Estado que tem protegido exageradamente os trabalhadores sindicalizados.

Estes pressupostos do neoliberalismo são cumpridos em parte, pois, ao apresentar-se


como alternativa ao Estado Social, o neoliberalismo enfrenta as seguintes contradições,
apontadas por â# 9/21 como as seguintes: 1) permite às economias
crescerem dentro de certos limites ou reduzirem taxas de inflação, mas às custas de uma
polarização produtiva e social. A promessa de igualdade no mercado só se cumpre com
desregulamentação e privatização, mas em nenhum momento atenta contra os
monopólios, que crescem em poder com as políticas neoliberais; 2) A liberalização dos
mercados ocorre com uma rígida política salarial que provoca uma queda nos salários
reais. Neste mercado, o da força de trabalho, não se aplica a eliminação de fatores
exógenos para que se chegue aos preços de equilíbrio. A crise de fato recai sobre os
ombros dos assalariados; 3) A liberdade conseguida com a ruptura com os pactos
corporativos, que distorcem os mercados, ocorre ao mesmo tempo em que se
conformam grupos de pressão (formação de grupos privilegiados), sobretudo
provenientes dos grandes capitais, para os quais as políticas ortodoxas são combinadas
com apoios heterodoxos. O ator racional otimizador é substituído pelos magos das
finanças e seus conhecimentos privilegiados de mercados e políticas do Estado"(19).

9 :    /A1, denuncia a falácia do neoliberalismo, enquanto um


intervencionismo escamoteado, através da análise dos gastos públicos de vários Estados
Nacionais, que aumentaram do período de 1960 aos nossos dias drasticamente
(incidindo sobre a corrida armamentista) da casa dos 20 a 30% para a dos 40% do
Produto Interno Bruto, particularmente sob a égide do neoliberalismo de Thatcher,
Reagan etc.

"No entanto, eles ainda se apresentam como feitores de uma colossal onda neoliberal.
Trata-se, portanto, do neoliberalismo do capitalismo monopolista de estado que consiste
no aumento da intervenção estatal para garantir a sobrevivência do capital, sobretudo
dos grandes monopólios e do capital financeiro (o grifo é nosso). Quando se trata de
defender esses interesses, a economia de mercado é mandada às favas, pois ela não se
coaduna com o mundo dos monopólios, oligopólios e corporações multinacionais que
dominam a vida econômica dos nossos dias"(21).

, 4/AA1, dá-nos conta que a pretensão de modernidade, tida pelos neoliberais
como sinônimo de livre mercado, é uma ilusão produzida por estes modernos,
demonstra isto através de sua análise do tratamento normativo que os países
desenvolvidos vêm conferindo à matéria do trato preferencial conferido pelo Estado, na
aquisição de bens e serviços a empresas nacionais. Concluindo, que os ditos modernos,
não fazem nenhum exemplo de mercado livre(23).

Estas afirmações nos conduzem a atestar que o Estado neoliberal não existe. c
neoliberalismo realmente existente não é senão o Estado do grade capital que, por
meio da derrota da classe operária, impôs rupturas ou limitações aos pactos
corporativos do pós-guerra. A derrota proletária foi econômica e política, mas também
ideológica, onde o Keynesianismo e o marxismo estão desprestigiados, e a atuação
estatal virou sinônimo de ineficiência, inflação e privilégios.
As perplexidades trazidas pelo neoliberalismo se ampliam quando o confrontamos com
a democracia, pois hoje torna-se um lugar comum associar o neoliberalismo com o
autoritarismo.

Em observando as pautas neoliberais, que se punham como alternativa à crise global do


capitalismo, veremos que o neoliberalismo sucede o WelfareState sem solucionar vários
impasses, ao contrário acirrando-os: a) "o crescente aumento da distância entre pobres e
ricos (em 1900 os ricos eram 33% do planeta, em 1990 a riqueza concentra-se nas mãos
de 15%); b) a ascensão do racismo e dos xenofobismos, e Le Pen é um exemplo de
rápida ascensão institucional ao poder, como efeitos por toda a Europa; c) a crise
ecológica está ampliada. A não resolução dessas três realidades apontam para a
barbárie"(24)

  3 em ensaio a respeito do tema nos esclarece que a incompatibilidade


entre democracia e neoliberalismo é um dos objetivos dessa doutrina, vejamos: "por
neoliberalismo se entende hoje, principalmente, uma doutrina econômica consequente,
da qual o liberalismo político é apenas um modo de realização, nem sempre necessário;
ou, em outros termos, uma defesa intransigente da liberdade econômica, da qual a
liberdade política é apenas um corolário. Ninguém melhor do que um dos notáveis
inspiradores do atual movimento em favor do desmantelamento do Estado de serviços, o
economista austríaco š  â$, insistiu sobre a indissolubilidade de
liberdade econômica e de liberdade sem quaisquer outros adjetivos, reafirmando assim a
necessidade de distinguir claramente o liberalismo, que tem seu ponto de partida numa
teoria econômica, da democracia, que é uma teoria política, e atribuindo à liberdade
individual (da qual a liberdade econômica seria a primeira condição) um valor
intrínseco e à democracia um valor instrumental. â$ admite que, nas lutas passadas
contra o poder absoluto, liberalismo e democracia puderam proceder no mesmo passo e
confundir-se um na outra. Mas agora tal confusão não deveria mais ser possível, pois
acabamos por nos dar conta - sobretudo observando a que conseqüênciasnão-liberais
pode conduzir, e de fato conduziu, o processo de democratização - de que liberalismo e
democracia respondem a problemas diversos: o liberalismo aos problemas das funções
do governo e em particular à limitação de seus poderes; a democracia ao problema de
quem deve governar e com quais procedimentos"(25).

Com este esclarecimento de 3, fica mais nítida a associação entre neoliberalismo
e autoritarismo, pois para os neoliberais a excessiva participação do povo no governo, é
traduzida em mais demandas para o Estado, e para o mercado isto é uma sobrecarga
insuportável. Sem dúvida estamos hoje às voltas com a hegemonia da ideologia de
mercado, porém não mais o mercado que educa e civiliza dos primeiros liberais, mas do
mercado quase como guerra. "E o mercado como guerra gera, como â bem sabia,
um Estado para pôr ordem nas coisas que não será o Estado Democrático, o Estado de
Direito, mas o oposto"(26)

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  5   š  =22
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Partindo de um referencial teórico que admite que o neoliberalismo anacroniza os


pilares do paradigma liberal-legal, sob o qual está erigido o ordenamento jurídico
brasileiro, devemos fazer uma breve análise de como a ordem econômica brasileira e
seus princípios estatuídos na constituição sentem a repercussão do ideário neoliberal.

A Ordem Econômica na Constituição Federal de 1988, segundo , 4, após uma
análise de vários autores, "consagra um regime de mercado organizado, entendido como
tal aquele afetado pelos preceitos da ordem pública clássica (4 *); opta
pelo tipo liberal do processo econômico, que só admite a intervenção do Estado para
coibir abusos e preservar a livre concorrência de quaisquer interferências, quer do
próprio Estado, quer do embate econômico que pode levar à formação de monopólios e
ao abuso do poder econômico visando o aumento arbitrário dos lucros - mas sua posição
corresponde à do neo-liberalismo ou social-liberalismo , com a defesa da livre iniciativa
(! ").

Segue , 4 em sua análise afirmando que a Constituição de 1988, "contempla a
economia de mercado, distanciada, porém do modelo liberal puro e ajustada à ideologia
neo-liberal (+   '    %); a Constituição repudia o dirigismo,
porém acolhe o intervencionismo econômico, que não se faz contra o mercado, mas a
seu favor (9  
( š% >); a Constituição é capitalista, mas a
liberdade é apenas admitida enquanto exercida no interesse da justiça social e confere
prioridade aos valores do trabalho humano sobre todos os demais valores da economia
de mercado ( .    );

A Constituição consagra a "estatolatria" (! 4  š š); o


constituinte preferiu o modelo rígido-ortodoxo que conduz ao dirigismo econômico
(" ! â ).

Quanto ao Princípios positivados da ordem Econômica na Constituição de 1988,


observa-se que consagram valores entre si potencialmente conflitantes, a exemplo: a
propriedade privada (incisos XXII do art. 5º. e III do artigo 170), a livre concorrência
(inciso IV do art. 170) e a "busca do pleno emprego" (inciso VIII do art. 170), a livre
iniciativa (inciso do art. 1º) e o caráter normativo e regulador da atuação do estado no
exercício de suas funções de fiscalização, incentivo e planejamento (art. 174), no plano
da efetiva aplicação desses dispositivos constitucionais quais deles devem efetivamente
predominar quando todos estiverem ao mesmo tempo em questão ? Em termos mais
específicos: na medida em que a constituição também enfatiza a dignidade da pessoa
humana (inciso III do art. 1º) e a erradicação tanto da pobreza e da marginalização
econômica quanto das desigualdades sociais (inciso III do art 3º) estará ela
subordinando estes princípios programáticos ao direito de propriedade? Ou, ao
condicionar o exercício desse direito à sua função social, não o estará colocando como
meio para a realização desses mesmos princípios? As respostas a estas questões
ultrapassam os limites desse trabalho, sendo colocados no intuito de refletirmos sobre as
contradições existentes em nosso ordenamento jurídico.

Passemos a analisar os princípios constitucionais da ordem econômica frente ao


neoliberalismo, de antemão veremos que alguns deles são amplamente receptivos ao
neoliberalismo, tais como : a propriedade privada (inciso II do art. 170) e a livre
concorrência (inciso IV do art. 170), porém outros chocam-se com a perspetiva
neoliberal, como a busca do pleno emprego (inciso VIII do art. 170) que uma meta de
teor Keynesiano a quem o neoliberalismo é antípoda; a função social da propriedade e a
redução das desigualdades regionais e sociais (incisos III e VII do art,170) perfazem um
princípio de justiça distributiva correlato da justiça social; e também a soberania
nacional (inciso I do art. 170) que é desprezada pelo capital monopolista e
internacionalista.

O quadro constitucional que temos diante do neoliberalismo é de clara indeterminação,


pois diante da conflituosidade entre princípios antagônicos no que tange o seu
arcabouço ideológico, nos leva a de certa forma reiterar a idéia inicial deste tópico de
que o neoliberalismo anacroniza o paradigma liberal-legal sob o qual está erigido o
nosso ordenamento jurídico.

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Não é o fato de aceitarmos uma certa hegemonia da pregação neoliberal, que nos levará
aceitar todos os seus ditames, pois como observamos, o discurso neoliberal é falacioso e
não vem cumprindo com as suas promessas de progresso, não se mostrando , portanto,
como verdadeira alternativa ao suposto esgotamento do WelfareState. Destarte, nos cabe
corroborar a afirmação feita de que o Estado neoliberal realmente existente não existe. E
respondendo à questão que nos propusemos, se o neoliberalismo é intervencionista,
constatamos ao longo do trabalho que este vem praticando um intervencionismo
perverso, bem mais do que o intervencionismo oficial que denuncia e contrapõe.

Ademais, a imperiosidade de desregulamentação do processo econômico, posta pelo


neoliberalismo, no sentido de uma diminuição da ordenação normativa, encontra
ressonância na conformação da ordem econômica na Constituição de 1998, a qual ora
atende ao estado intervencionista, ora rende-se ao neoliberalismo. Acreditamos que para
fazer face ao neoliberalismo, devemos passar por um processo de substituição da rigidez
das normas jurídicas, dotadas de coatividade e sanção, pela flexibilidade das normas
programáticas e dos regulamentos administrativos, isto se dá através do direito
econômico com seu conjunto de normas-objetivos, que suplantando a tradicional
normatividade da atividade econômica, possibiltará a realização de uma mediação entre
o até então vitorioso neoliberalismo e as exigências de justiça social.

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advogado em Belém (PA), mestre em Direito pela UFPA

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DIAS, Maurício Leal. c 


     Jus Navigandi, Teresina,
ano 4, n. 31, 1 maio 1999. Disponível em: <http://jus.uol.com.br/revista/texto/73>.
Acesso em: 19 mar. 2011.