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ATIVIDADE DE TEORIA GERAL DO DIREITO

NOME: Edson Luiz Bomfim Araujo


RA: 210295

Leia o editorial do jornal O Estado de S. Paulo e, após,


responda às questões formuladas.

“O homem atrás do telex

Houve períodos, durante o autoritarismo, em que o personagem


mais temido, inclusive pelos próprios militares, era aquele que utilizava o
telex e expedia ordens: ‘De ordem do Sr. Generalcomandante, determino
que (...)’. Muitas vezes, era o ‘homem atrás do telex’ que inventava as
ordens supostamente do superior. Bastava, porém, que o destinatário
pedisse a confirmação delas por ofício para que morressem onde haviam
nascido. Hoje, passados tantos anos, os cidadãos em geral estão sujeitos a
outro tipo de ‘homem atrás do telex’: são os solertes funcionários da
Receita Federal que sentenciam ‘Há base legal para isto ou aquilo’ e
determinam que os contribuintes façam.

A prática do ‘há base legal’ não é nova — tempos houve em que a


Receita exigia do contribuinte que comprovasse haver pago o Imposto de
Renda de anos e anos atrás, muito embora a lei estabelecesse claramente o
período sobre o qual se poderia exigir a comprovação. Jogava-se com a
sorte.
Quem tivesse o comprovante se livrava do aborrecimento. Quem
não tivesse, embora a lei estivesse de seu lado, pagava de novo. Agora, o
‘homem atrás do telex’ acaba de determinar que todos os brasileiros que
usam cartão de crédito são obrigados a dizer quanto gastaram com eles,
cartão por cartão, em 1991.

No período autoritário, bastava solicitar a confirmação do telex por


ofício para que a ‘ordem’fosse cancelada. No regime democrático em que
vivemos a Receita Federal diz claramente que quem não declarar quanto
gastou com cartão de crédito pagará multa de 20% sobre aquilo que
despendeu e não comunicou, multa essa atualizada monetariamente pela
variação da Unidade Fiscal de Referência (Ufir). Seguramente, o ‘homem
atrás do telex’ está movido da melhor das intenções, desejando apanhar na
rede da Receita quem sonega mediante gastos com cartões de crédito —
como se fosse a única maneira de sonegar impostos neste país de fábula!
Esquece-se, porém, como seu correligionário na caça às bruxas dos anos
70, que está violando a Constituição e, segundo alguns, a própria lei —
aliás, punindo todos aqueles brasileiros que detestam guardar faturas como
se sonegadores fossem. A rigor, para o ‘homem atrás do telex’ pouco
importa a Constituição; o fundamental é aumentar a receita da União a fim
de que o superávit acusado possa aproximar-se dos números que foram
estabelecidos por alguns poucos que se reúnem em torno de uma mesa e se
julgam destinados a salvar a Pátria.

O ‘homem atrás do telex’ não se comove com a ideia de que pode


estar violentando a intimidade de milhões de brasileiros. Como todo bom
esquerdista (ou direitista, dá no mesmo) tupiniquim, raciocina como um
fascista:
‘Nada fora do Estado, nada contra o Estado, tudo pelo Estado’. Pior
do que essa mentalidade facciosa, que a prevalecer, em breve estará
adentrando a alcova e a sala de jantar, ou a biblioteca de não se sabe
quantos, é que o ‘homem atrás do telex’ não sabe interpretar a lei e, onde
ela obriga a declarar aquilo que pode ser deduzido, lê que tudo deve ser
comunicado à Receita, que se transforma na nova polícia política do
regime, com poderes superiores aos da Polícia Federal. Contra o delegado
arbitrário há sempre o recurso do apelo ao juiz; contra o ‘homem atrás do
telex’ adiantará o mandado de segurança, invocando o art. 5º, X, da
Constituição Federal, se depois se correrá o risco não de ver a determinação
cancelada, mas de assistir a redobrados esforços da fiscalização para, num
espírito de vendeta, fazer o contribuinte pagar pela ousadia de haver
recorrido à justiça na defesa de sua ‘intimidade e de sua vida privada’?

A insensibilidade do ‘homem atrás do telex’ — que acabará


marcando a gestão Marcílio Marques Moreira mais que seu eventual êxito
na luta contra a inflação — chega aos aspectos técnicos. Ele parte do
princípio de que os brasileiros fazem sua contabilidade todos os meses e
estão em condições de dizer, agora em março/abril de 1992, quanto
gastaram em cartões de crédito em 1991. Embora insensível, ele é
generoso, porém. Por isso, se alguém não tiver as faturas, bastará pedi-las
às administradoras de cartões, que elas estão obrigadas a fornecer-lhe os
números fatais, que funcionarão contra o contribuinte. Sucede, porém, que
a maioria das administradoras arquiva seus dados por 12 meses, não mais.
O que significa que tudo o que se gastou em janeiro, fevereiro e
possivelmente março de 1991 já terá sido destruído quando o contribuinte
pedir que lhe forneçam a prova de que delinquiu, para informar o carrasco!
Só num país em que a administração se refugia atrás do telex é que
se pode conceber que funcionários de alto nível passem por cima da
Constituição e interpretem a seu bel-prazer a lei para liquidar os
contribuintes. Diante da reação das administradoras em fornecer à Receita
os dados que ela quer para cortar a cabeça dos sonegadores, o ‘homem
atrás do telex’ decidiu levar o desespero a todos os contribuintes, certo de
que arrecadará 20% sobre uns bons bilhões de cruzeiros. A Constituição
que seja defendida pelos tribunais; atrás do telex, manda ele, o homem sem
face, com poderes maiores do que os dos repressores do período militar.
Este é o Brasil Novo!”

PERGUNTAS:

1. A crítica do jornal dirige-se a que órgão da Administração


Pública?

R – Ministério da Fazenda/Receita Federal, órgãos ligados ao Poder


Executivo.

2. Classifique o ato praticado por esse órgão: qual o tipo de


norma?

R – Anonimato (Art. 5º, Inc. IV) e violação da vida privada (Art. 5º


Inc. X). Norma Constitucional.

3. Por que tal norma estaria ferindo a Constituição?

R – Porque invade a privacidade econômica do pagador de


impostos.
4. Quais as fontes do Direito que podem ser identificadas por
meio do texto? Justifique.

R – Implicitamente, trata-se de Fonte Estatal, mas com abstração,


haja visto que a matéria não é uma situação jurídica concreta, norma não
expressa, muito pelo contrário, fere cláusula pétrea da Constituição
Federal.

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