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EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS A

DOS SEUS LINDOS LÁBIOS: R


FLASHS POÉTICO-FOTOGRÁFICOS EM MOLDURAS T
I
Rachelina Sinfrônio Lacerda* G
O
Resumo O seguinte trabalho visa analisar o romance “Eu
Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”,
de Marçal Aquino (2005), sob o olhar de como tal texto
narrativo pode dialogar com outros textos culturais a partir
da sua própria disposição estrutural e significativa, no
qual a corrida pelo prazer e a satisfação imediata dos
desejos são colocados em diálogos avessos a
estereótipos e poeticamente imprevisíveis. O choque
entre gerações dentro do próprio romance nos leva a
abordar o uso das “molduras”, tal como o compreende o
semioticista Uspenski (1979). Gerações em conflito
ref letem-se nas identidades pessoais e nas
categorizações sociais, reverberando elementos
extraliterários, que se tornam intraliterários, através da
linguagem da narrativa que, por sua vez, se vale de
representações singulares para uma “tradução
intersemiótica” (PLAZA, 1987) na cultura pós-moderna. * UFPB

Palavras-chave: Marçal Aquino; tradução intersemiótica; molduras;


Uspenski.

Para se ver o mundo em forma de signos é indispensável demarcar fronteiras:


são justamente elas que conformam a representação (Uspenski).

N
a cultura pós-moderna, “o olhar uma “prática crítico-criativa, como
humano”, segundo Silviano Santiago metacriação, como ação sobre estruturas e
em O Narrador Pós-Moderno (1989), eventos, como diálogo de signos, como um
faz da narrativa um espetáculo que: outro nas diferenças, como síntese e re-
escritura da história” (PLAZA, 1987, p. 209) e
Torna a ação representação. ainda, como um “sistema geral de
Representação nas suas variantes
lúdicas, como futebol, teatro,
representações semióticas da percepção do
dança, música popular, etc.; e mundo. [...] sistema de correlação semiótica
também nas suas variantes da experiência coletiva e individual”
técnicas, como cinema, televisão, (USPENSKI, 1979, p.175). Na busca de
palavras impressas, etc. Os
personagens observados, até
compreender a noção de diferentes códigos
então chamados de atuantes, como representação das mensagens por meio
passam a ser atores do grande do registro da escrita, a investigação semiótica
drama da representação humana, nos faz adquirir uma atenção privilegiada do
exprimindo-se através de ações
ensaiadas, produtos de uma arte,
“como” e não do “quê” na descrição dos
a arte de representar (SANTIAGO, diferentes textos da cultura, e no presente
1989). trabalho nos propomos a investigar como o
conceito de molduras, proposto pelo
Vendo por essa perspectiva, a obra de semioticista russo Uspenski, poderá
arte na contemporaneidade é compreendida argumentar a disposição do romance Eu
como tradução intersemiótica, ou seja, como Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos

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Rachelina Sinfrônio Lacerda

Lábios (2005) do escritor Marçal Aquino, com a enigmática Lavínia. Porém, a obra é
contribuindo para que o todo da narrativa dividida em quatro momentos que contribuem
traduza, em sua ficção, a produção de sentido para que outros acontecimentos e
que envolva, ao mesmo tempo, memória e personagens se entrecruzem ao
informação da cultura. relacionamento do casal:

Tal complexidade exige uma aguçada Primeira parte (p.11-79): O Amor é


investigação de como os elementos estruturais Sexualmente Transmissível - O narrador-
se revelam na narração. Segundo Uspenski, personagem, Cauby (1ª pessoa) encontra-se
em seu ensaio intitulado Elementos Estruturais na varanda de uma pensão relembrando
Comuns às diferentes formas de arte. acontecimentos do passado e tenta prever
Princípios gerais e organização da obra em acontecimentos que sucederão sobre o
pintura e literatura (1979), diante de uma obra desaparecimento da mulher amada, Lavínia.
artística: Porém apenas na condição de observador e
participante dos fatos, ele conta como
[...] ocupamos uma posição conheceu Lavínia e a partir daí seus encontros
necessariamente externa, a do amorosos.
observador alheio. Aos poucos
vamos penetrando nesse mundo, Segunda parte (p.83-130): Carne Viva
alcançando a capacidade de – O narrador-personagem Cauby some e dá
percebê-lo a partir ‘de dentro’ e a voz agora a um narrador apenas observador
não ‘de fora’ – o leitor situa-se de (3ª pessoa), passando de personagem a um
uma ou de outra maneira – num
narrador onisciente que relata o passado do
ponto de vista interno em relação
a uma dada obra (USPENSKI, Pastor Ernani até se encontrar com Lavínia e
1979, p.174). logo após conta a trajetória da vida de Lavínia,
desde seu nascimento até voltar ao momento
Com isto, torna-se necessária a do encontro dela com o Pastor e a vida que
existência de uma fronteira na obra de arte, ambos passaram a ter juntos.
para que esta seja percebida como Terceira Parte (133-218): Postais de
representação. Através de um olhar “de Sodoma à luz do primeiro fogo – O narrador
dentro” da obra, é necessário perceber quais volta a ser o personagem Cauby (1ª pessoa)
as fronteiras que nos mostram a “passagem através de um discurso direto com Lavínia,
de um ponto de vista ‘externo’ para outro em mais um de seus encontros amorosos.
‘interno’, e vice-versa” (USPENSKI, 1979, Quarta parte (221-229): Poema escrito
p.174). com bile – Cauby é informado que Lavínia foi
Deste modo, tentaremos investigar encontrada e conta como foi este inesperado
como o presente romance se emoldura reencontro.
através de fronteiras flexíveis, porém sempre
demarcando o que é real do que é Os pontos de vista se desenrolam como
representação, assumindo contornos bem uma teia de conflitos sociais, amorosos,
distintos, mas ao mesmo tempo interligados, poéticos e psicológicos, a começar pela
criando uma passagem de sentido para o apresentação de seus principais personagens:
leitor. Será a partir desta constatação que
utilizaremos o conceito de molduras para Cauby – personagem-narrador, paulista,
então tecermos um sistema de correlação quarenta e poucos anos, ex-fotógrafo de um
semiótica entre as fronteiras de Eu Receberia jornal em São Paulo e de flagrantes de
as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios. celebridades para uma revista quando
Primeiramente, situaremos a estudava em Paris, consegue uma bolsa de
organização da narrativa e a apresentação dos estudos para um trabalho fotográfico de nu
personagens na obra de Marçal Aquino. artístico com prostitutas numa cidade do Pará.
Eu Receberia as Piores Notícias dos Amante dos livros e de músicas clássicas;
Seus Lindos Lábios (2005) tem como pano de Lavínia – natural de Linhares – Espírito
fundo uma cidade do Pará em plena guerra Santo, 24 anos, bonita e atraente. Com
entre garimpeiros e mineradoras, para os ginasial incompleto, adora cinema e possui
encontros amorosos e arriscados de Cauby uma personalidade instável, conseqüências

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Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios...

de uma infância conflituosa que a levou para que o narrador-personagem, de repente, se


o caminho da prostituição e das drogas; ausenta da narrativa, mas de uma forma ou
Ernani – pastor na cidade, cidadão de outra o leitor sente sua presença ali, e
politicamente correto. Possui mais de quando ele reaparece é como se não tivesse
cinquenta anos, é viúvo de um primeiro se ausentado. O autor consegue sutilmente
casamento e marido de Lavínia; situar o leitor entre essas alternâncias de idas
D. Jane – a dona da pensão. Teve e voltas dos pontos de vistas dentro da
decepções amorosas no passado e demonstra narrativa. O narrador-personagem, em tempo
afetividade por Cauby. presente fala de si e descreve os demais
Seu Altino – “o careca”, hóspede personagens tanto como observador naquele
definitivo da pensão, com a vida agora instante como conhecedor de seus passados,
beirando o fim, teve na vida um único amor mas ditos de maneira enigmática, em
que não foi correspondido, um amor platônico; pequenas doses ao leitor - fenômeno
Menino – com aparência humilde, denominado Paralipse pelo Dicionário de
esperto, muito atento e de pouca conversa vai Narrativa (LOPES e REIS,) - que só descobrirá
todas as noites se sentar na escada da pensão o como e o porquê no desenrolar da história,
para ouvir as conversas e a história de amor sem falar nos discursos dos outros
do careca; personagens que uma vez por outra
Chang – “o china” que possui uma loja entrecortam os discursos do narrador. É o que
de artigos fotográficos na cidade e uma forma acontece, por exemplo, neste fragmento da
de vida polêmica;
3ª parte do romance, quando Cauby, com
Viktor Laurence – É um misterioso e
algumas semanas sem notícias de Lavínia, vai
solitário intelectual de gostos requintados.
à loja de artigos fotográficos, e Chang, o dono
Sofre de epilepsia e cuida do jornal que circula
da loja, pergunta a Cauby se ele não tem visto
na cidade.
Lavínia, pois ela tinha deixado muitas fotos
para revelar e não voltou mais para buscar:
Para entendermos como a disposição dos
acontecimentos e dos personagens irá construir
[...] Louco, né?, Chang comentou, com
o sentido da obra, Uspenski chama a atenção
bafo de bala de anis.
para o ponto de vista interno na narrativa. Para
Louco? Por quê? Eu não a fotografava
ele esta percepção se dá quando o autor
com a mesma obsessão? Qual o problema?
“assume o ponto de vista de um ou outro
(Questionei Lavínia sobre essas fotos.
participante dos acontecimentos ou ocupa a
Ela explicou que tinha se apaixonado pela
posição de uma pessoa que se encontra no lugar
janela. E resolveu homenageá-la fotografando
da ação” (USPENSKI, 1979, p. 164).
um dia de sua existência. Contou que chegou
ao local às seis da manhã e ficou dezoito horas
Ex.:
Que rosto maravilhoso, eu disse.
sentada diante da casa. Tomou apenas água
E ouvi uma voz às minhas costas: nesse período. E só parou de fotografar
Muito obrigada. porque sofreu um desmaio.)
Eu me virei e dei de cara com ela, a mulher do A esperança é o pior dos venenos, seu
porta-retrato (AQUINO, 2005, p.13). Cauby. O senhor não concorda? (AQUINO,
2005, p.145-146).
Já o ponto de vista externo acontece
quando o autor “descreve os acontecimentos Observamos nesta passagem que há
como que de fora” (idem, 1979, p. 164). um discurso direto de Chang, o dono da loja,
com Cauby, depois, Cauby revelando que
Ex.: quando voltou a se encontrar com Lavínia,
[...] Ernani contou que era pastor. E procurou,
interrogou-a sobre aquelas fotos que ela havia
mas não encontrou uma reação no rosto dela. Em sua
militância nas ruas, Lavínia já tivera contato com uma feito e, em seguida, fechando esta página do
boa fauna de pirados, incluindo gente com fantasias livro, aparece a fala de uma personagem
que envolviam religião. [...] (AQUINO, 2005, p.86). fazendo uma pergunta a Cauby, diferente das
personagens que se apresentam no momento
Entretanto, no romance analisado, estes (Chang, Cauby e Lavínia). Uma voz que só
pontos de vistas se entrecruzam de maneira ficamos sabendo que é a voz do “careca” no

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primeiro parágrafo da página seguinte. O autor pontos de vista interno e externo como
consegue assim, transportar o leitor de um procedimento formal para designar as
momento a outro, de maneira imprevisível, “molduras” da obra literária, no caso, da obra
com surpresa, mas sem desorientá-lo, pois em questão.
nesta virada aparentemente brusca de um A moldura como passagem de um
ponto de vista a outro, o leitor que estava sistema de percepção para outro é bastante
internamente envolvido com a história de significativa nesta narrativa. Primeiramente
Cauby e Lavínia (passado), é trazido de volta veremos alguns exemplos de como sistemas
ao terraço da pensão, onde Seu Altino, “o extraliterários, ou melhor, sistemas literários
careca” está conversando com Cauby sobre que comumente não fariam parte da
sua antiga história de amor platônico com linguagem de uma narrativa, passam a ser
Marinês (presente). Será, pois, o que o intraliterários, não por estarem camuflados em
semioticista russo denominou de Combinação um texto narrativo, mas sim pela contribuição
dos pontos de vista interno e externo na obra mútua de diferentes códigos para a memória
literária: e informação do grande texto que é a cultura.
Observaremos o trecho em que Cauby
No Plano da fraseologia a examina algumas fotos que Lavínia produziu:
combinação interna e externa se
dá paralelamente em dois planos:
no plano do discurso do autor e Ela abriu o envelope e espalhou as fotos
no plano da fraseologia individual sobre o balcão de vidro. Um arco-íris; o
de alguma personagem número de metal enferrujado na fachada de
(USPENSKI, 1979, p. 169). uma casa antiga; raízes de uma árvore que
pareciam um casal num embate amoroso de
Percebemos, assim, que o discurso do muitas pernas e braços; a chaminé de uma
autor, ou melhor, do narrador está em olaria; uma bicicleta caída na chuva. Nenhuma
constante combinação com as pessoa ou animal. Apesar disso, fotos boas,
individualidades de cada uma das feitas por alguém com olho e senso.
personagens observadas por ele. Há, dentro Ela notou meu interesse.
do discurso, um tempo presente, um passado Gostou?
aos poucos sendo revelado e um futuro, todos Esta aqui é muito boa.
em um constante intercruzamento. A Indiquei uma das imagens: fachos de sol
perspectiva focalizada em cada uma dessas entrando pelas falhas no telhado de uma casa
microdescrições a partir do ponto de vista em ruínas.
interno da narrativa será a moldura, ou seja, Poesia e precisão.
a passagem do mundo real para o mundo do Falei isso, vê se pode. Ela me olhou,
representado na obra de arte: intrigada. Daí, riu. [...] (AQUINO, 2005, p.14-
15). (grifo nosso).
[...] adquire uma importância muito
grande o processo da passagem
do mundo do real para o mundo Nesta outra passagem podemos
do representado, o problema da perceber algo que transcende à combinação
organização especial das do discurso de Cauby em relação à Lavínia. A
‘molduras’ da obra de arte. Tal frase dita por Cauby ao descrever a imagem
problema apresenta-se como
fotográfica que lhe chama a atenção, como
puramente composicional; já do
que foi dito é possível depreender fachos de sol entrando pelas falhas no telhado
que ele está ligado diretamente a de uma casa em ruínas. Poesia e Precisão, é
uma alternância definida de uma nítida troca de pontos de vista interno e
descrição ‘de dentro’ e ‘de fora’ – externo, é “a tradução de textos em imagens
ou melhor, à passagem de um
ponto de vista ‘externo’ para outro e de imagens no texto. Salto qualitativo para
‘interno’, e vice-versa novas culturas e sensibilidade. O oriente
(USPENSKI, 1979, p.174). falando por nós.” (PLAZA, 1987, p.208). O
personagem não descreve a fotografia, capta
Desta maneira, chegamos a um dos o momento do flash com significação poética.
principais pontos de nossa análise, a qual o Tal significação na observação da imagem
semioticista Uspenski denominou de troca dos fotográfica apreende um espetáculo

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momentâneo da natureza ou mesmo da vida, das quais fala Uspenski, são percebidas na
de uma maneira sensível e espontaneamente transposição do haicai para a estrutura da
imprevisível, podendo ser interpretada como narrativa (de fora para dentro) e na ação do
uma transcriação das características sígnicas término do amor e da própria página do livro
de um haicai (poema de origem japonesa, (de dentro para f ora), ocasionando
composto em sua forma tradicional por três efetivamente uma alternância de passagens
versos, sendo que, o primeiro e o terceiro de uma posição de observação interna para
versos com cinco sílabas e o segundo com outra externa na obra literária:
sete sílabas). Desta forma, o autor resgata a
essência do haicai na estrutura de sua Poema que cessa (close)
narrativa, que segundo Massaud Moisés, antes de virar a página. (plano médio)
definindo o haicai em seu Dicionário de Um haikai. (plano geral)
Termos Literários, seria a ânsia “[...] por atingir
o máximo de simplicidade ou depuração [...] aqui pode ser referida, de
descritiva, tendo como alvo a humanização da modo geral, a necessidade
natureza e a correspondente naturalização do frequentemente sentida, diante de
uma descrição artística, de uma
ser. [...]” (MOISÉS, 1982). Aquino retoma esta
certa fixação da posição do
tradição poética em sua narrativa, porém “não espectador, ou sej a, a
na verdade do passado, mas na construção necessidade de um certo sujeito
inteligível de nosso tempo” (PERRONE- abstrato, de cujo ponto de vista os
MOISÉS, 1990). Colocando ainda o trecho da fenômenos descritos passem a
narrativa na estrutura de um haicai, podemos adquirir uma significação definida
imaginar a seguinte forma: (se tornem sígnicos). [...] Na
paisagem fotográfica, conforme se
sabe, é indispensável a presença
fachos de sol entrando pelas falhas
de um primeiro plano que permita
(close)
reconstruir o ponto de vista do
no telhado de uma casa em ruínas. sujeito-observador, sendo muito
(plano médio) oportuna nele a figura de um
Poesia e Precisão (plano geral) indivíduo; [...] (USPENSKI, 1679,
p.184).
Agora, vamos nos atentar para mais um
trecho do romance, pelo qual se expressa a Considerando a citação anterior sobre
frustração do personagem-narrador em a importância de fixar a posição do espectador
relação à imprevisibilidade da amada: (sujeito abstrato) para que seu ponto de vista
transforme as descrições artísticas em
A única coisa anormal era a minha vida fenômenos sígnicos, contribui para reforçar
sem ela. Nunca prometemos nada um ao como os elementos estruturais do romance de
outro, e eu sabia que podia acabar de repente. Aquino se organizam e transcendem a própria
Poema que cessa antes de virar a página. Um
linguagem narrativa através de relações com
haikai. Na prática, contudo, não me
outras linguagens:
conformava com a idéia. Eu queria mais
(AQUINO, 2005, p.67). (grifo nosso).
Ø A narrativa dialoga com técnicas
Além do diálogo entre linguagens fotográficas e efeitos de iluminação numa
literárias distintas (poesia na prosa) ou ainda performance de dança.
com uma linguagem não-literária (fotografia),
o haicai desta vez não aparece apenas como Ex:
índice cultural. Sua imagem se projeta na [...] Porra, pensei, a foto que eu tinha
estrutura lacônica da frase (Poema que cessa nas mãos não era só boa, era formidável. Um
antes de virar a página. Um haikai.), na própria dos fachos de sol incidia, em segundo plano,
significação dos fatos nela representados sobre uma boneca de pano jogada num monte
(relacionamento imprevisível), e ainda, de entulho. Parecia um spot iluminando uma
faltando realmente apenas uma linha para virar bailarina caída num palco. [...] (AQUINO, 2005,
a página do livro. Neste caso, as molduras, p.15). (grifo nosso).

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Ø A narrativa dialoga com a a história do amor platônico do careca, com o


linguagem poética e fotográfica. caso de Chang, com a trajetória da vida de
Lavínia, etc. Estas seriam, no caso, as
Ex: molduras particulares. Nisto resulta o
[...] Marieta posou no banheiro, com uma “emolduramento” a alternância de narrativas
toalha enrolada nos cabelos e um dos braços independentes dentro do texto narrativo geral,
levantados, depilando a axila. A luz do flash e é neste ponto que a compreensão das
rebateu na extremidade do espelho e cobriu molduras como fronteiras para a organização
de prata os contornos de sua pele. Escreveu ficcional da obra, torna-se ainda mais
um poema ali. [...] (idem, 2005, p.158). (grifo evidente, pois “[...] em relação à literatura,
nosso). podemos considerar os casos referidos de
agrupamento de textos de ordem mais miúda
A grande sacada em Eu Receberia as (microdescrições) que o texto geral da
Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios é narrativa inteira, como NARRATIVA DENTRO
justamente não copiar a tradição poética DA NARRATIVA. [...]” (idem, 1679, p.194):
japonesa de um haicai e nem fazer uma
fotografia. O autor “não chama o objeto pelo Ø A história de amor do “careca” se
seu nome, mas o descreve como se o entrecruza com a história de Cauby e Lavínia.
estivesse vendo pela primeira vez”
(CHKLÓVSKI apud USPENSKI, 1979, p.165), Ex:
o autor traz a tona o f enômeno do [...] Entrei na viatura roendo um pedaço
estranhamento de Chklóvski como “[...] a de pão velho. Naquele momento, me
passagem para o ponto de vista do observador preocupava mais com o sumiço de Lavínia do
exterior, [...] uma posição a princípio externa que a minha situação. Eu era inocente, e isso
em relação ao fenômeno descrito” (idem, me deixava confiante. Me dava uma sensação
1979, p. 165), ele faz uma transposição desta confortável de segurança. Confortável e bem
tradição do haicai por meio de várias ingênua.
percepções poético-fotográficas dentro do Tudo parecia muito tranqüilo na cidade
romance e consegue captar a essência do na hora em que fui levado para a delegacia.
poema japonês, o flash nas descrições das Na madrugada do dia da peste, a Lua
imagens, na própria estrutura narrativa: minguava em Touro. Marte e Saturno estavam
em quadratura e o Sol ocultava Plutão. Astral
Notar-se-á que no fenômeno do pesado. Era chegado um tempo de grandes
estranhamento, além do emprego
transformações. Ignis mutat res. Se o Criador
de um ponto de vista incomum, há
ainda um outro aspecto: o planejava mandar seus arcanjos para resgatar
procedimento da forma dificultada, os justos do lugar, a hora era aquela.
uma especial intensificação da O menino interrompe a narrativa do
dificuldade de percepção, a fim de careca, pede um tempo para trocar a fita no
excitar a atividade do perceptor e
obrigá-lo, no processo da
gravador, alertado por um ruído do aparelho.
percepção, a viver o próprio O careca aproveita a pausa para avisar que
objeto. (USPENSKI, 1979, p.165). vai ao banheiro, e entra na pensão arrastando
a perna. Está relembrando os piores anos de
E ainda, “[...] Uma obra pode dissociar- sua servidão, os anos finais de Marines. O
se numa série inteira de microdescrições relato de uma vida anulada voluntariamente,
relativamente fechadas. [...], ou seja, possui devorada pela falta de sentido ou propósito.
sua própria composição interna (e, Uma vida, não: duas. (AQUINO, 2005, p.199).
respectivamente, suas molduras particulares).
[...]” (USPENSKI, 1979, p.189). É o que o Ø Citações de livros na narrativa
semioticista denomina de Caráter Composto (fictícias e reais).
do Texto Literário e o que acontece com
freqüência em Eu Receberia as Piores Ex:
Notícias dos seus Lindos Lábios: Os encontros [...] O Professor Benjamim Schianberg
de Cauby com Lavínia como composição escreveu sobre as tentações em seu livro O que
interna da obra está em constante diálogo com vemos no mundo. [...] (AQUINO, 2005, p. 14).

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[...] O trecho está grifado no livro. Nele, olha para que o seu olhar se
o professor Schianberg dá voz a Nietzsche – recubra de palavra, constituindo
uma narrativa (SANTIAGO, 1989).
‘Há sempre um pouco de loucura no amor,
mas há sempre um pouco de razão na loucura’
CONSIDERAÇÕES FINAIS
- , para depois contestá-lo, lembrando que na
A presente análise busca colocar em
loucura dos amores contrariados não há
evidência o entrecruzamento de sistemas de
espaço nenhum para a razão, apenas para
linguagens verbais (extraliterário (poesia) /
mais loucura. [...] (idem, 2005, p. 22).
intraliterário (narrativa)), e ainda, como a
presente narrativa traduz linguagens não-
[...] Ah, Schianberg: ‘Muitas vezes, entre
verbais (fotografia, performances de dança e
os amantes, em adição às afinidades do corpo,
teatro) em códigos, ou seja, em sistemas
surge uma sintonia mental, intelectual, que ao
verbais destinados a representar e transmitir a
propiciar jogos, provocações e brincadeiras
informação entre a fonte (ou emissor-
privados acentua ainda mais o caráter de
codificador) dos signos e o ponto de destino
cumplicidade na relação. [...] (O que vemos
(ou receptor-decodificador), no conceito. O
no mundo – Um tratado sobre o amor humano, “emolduramento” na obra literária em destaque
P.115, Lebrão Editores, Porto, 1991). (ibid, e nas demais obras de arte, proposto por
2005, p. 137). Uspenski, contribui para que a descrição de Eu
Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos
Tais exemplos, além de especificarem Lábios (2005) seja percebida em outras
o processo de narrativa dentro da narrativa, dimensões, com uma atenção aguçada de
de Uspenski, situam a maneira de escrever ‘como’ os conjuntos de signos culturais se
do autor na cultura pós-moderna, naquilo que, codificam poeticamente na composição deste
como esclarece Santiago, expõe a vida no texto narrativo, tornando-se um texto da cultura
momento em que se vive e, neste momento, pós-moderna, ou melhor, uma obra de arte, cuja
leitura gera uma alternância entre as fronteiras
O que conta para o olhar é o
do real e do representado a partir de uma
movimento. Movimento de corpos
que se deslocam com transdução da cultura, pois “o novo não é tão
sensualidade e imaginação, novo, mas é comparável dialeticamente com o
inventando ações silenciosas antigo (existente) [...] o novo depende do devir,
dentro do precário. Inventando o isto é, da recepção e do repertório, como
agora. [...] A experiência do olhar.
O narrador que olha é a
medida de informação que se dá entre o
contradição e a redenção da previsível e o imprevisível, entre banalidade e
palavra na época da imagem. Ele originalidade. [...]” (PLAZA, 1987, p. 8).

EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS:


FLASHS POETIC-PHOTOGRAPHIC IN FRAMES

ABSTRACT
The following paper aims to examine the novel “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus
Lindos Lábios”, of Marçal Aquino (2005), from the perspective of how such a narrative text can
dialogue with other cultural texts from its own structural layout and significant, in which the race
for pleasure and immediate satisfaction of desires are placed in dialogue averse stereotypes
and poetically unpredictable. The clash between generations within the novel itself leads us to
address the use of “frames”, as comprising the semiotician Uspensky (1979). Generations in
conflict reflected in the personal identities and social categorization, reverberating extra-literary
which become elements intra-literary, through the language of narrative which, in turn, relies
on natural representation for an “intersemiotic translations” (PLAZA, 1987) in postmodern culture.

Keywords: Marçal Aquino; intersemiotic translations; frames; Uspensky.

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Rachelina Sinfrônio Lacerda

Artigo submetido para publicação em: 15/06/2010


Aceito em: 11/11/2010

REFERÊNCIAS
AQUINO, Marçal. Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios. 3ª reimpr. São
Paulo: Companhia das Letras, 2005.
LOPES, Ana Cristina e REIS, Carlos. Dicionário de Teoria da Narrativa - (Paralipse). São
Paulo: Ática, 1988.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários - (haicai). Editora Cultrix. 1982.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Literatura Comparada, Intertexto e Antropofagia. In: Flores da
escrivaninha, ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.91-99.
PLAZA, Julio. Tradução Intersemiótica. 3ª reimpr. da 1ª ed. de 1987. São Paulo: Perspectiva
(Estudos; 93), 2008, p.1-11/205-210.
SANTIAGO, Silviano. O Narrador Pós-Moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 1989,
p.38-52.
USPENSKI, B. A. Elementos estruturais comuns às diferentes formas de arte. Princípios gerais
de organização da obra de arte em pintura e literatura. In: SCHNAIDERMAN, Boris
(org).Semiótica Russa. Trad. Aurora Bernardini, Boris Schnaiderman e Lucy Seki. São Paulo:
Perspectiva (Col. Debates, v.162), 1979, p.163-218.

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