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Arte, Dor - João Frayze-Pereira

Estética e Psicanálise
Frayze-Pereira tem interesse na relação de proximidade entre estética e
psicanálise/experiência estética e experiência psicanalítica.
“A psicanálise que exercitamos, compatível com a Arte, não é aplicada, mas
implicada, isto é, derivada das artes ou engastada nelas, pois não é uma forma a
se aplicar à matéria exterior, não é um modelo que ajusta abstratamente o
objeto artístico às suas exigências teórico-conceituais. A Psicanálise, tal como a
entendemos, não é mero instrumento de investigação da cultura, não é rede de
noções aptas a atribuir sentido ao sensível” (p.37,38)
(...) “Em outras palavras, pensar psicanaliticamente implica escutar, mais ou
menos, intensamente, as questões singulares e comoventes, isto é, ambíguas e
por isso mesmo perturbadoras, daquele que sofre. Portanto, daquele que vive”
(p.38).
O autor diz que essa escuta psicanalítica da dor não é muito diferente no campo
artístico, já que o artista se faz escutar de modo singular no fazer artístico/obra
de arte. “(...) pensar esteticamente supõe fazer contato com esse campo de
passagem entre o não-ser artístico e a forma perceptível, assim como pensar
psicanaliticamente implica transitar entre o não-dito e o dizível.” (...)
“Fundamental, desde a dinâmica da presença e da ausência do sensível, a
experiência estética é vizinha da experiência psicanalítica: uma silenciosa
abertura ao que não é nós e que em nós se faz dizer” (p. 38).
Dimensão estética da escuta psicanalítica. Arte e psicanálise como práticas
subversivas ou poiéticas da perturbação. “valorizar uma fenomenologia do fazer
artístico, uma práxis da instauração criadora” (Gagnebin, 1999) ->
fenomenologicamente falando, estética e psicanálise “se deparam com o
delicado problema da manifestação de um dizer sempre fugido, sempre aquém
de uma plena realização” (p.39). (...) “é o não-dito (não-visível) que é capaz de
revelar criativamente uma história ou uma sucessão de acontecimentos no
decorrer da análise de uma obra” (p. 40).

A Psicologia entre a Estética e a História da Arte


A Estética foi formulada como disciplina no século XVIII por Baumgarten,
baseando-se na ideia “de que a Beleza e seu reflexo nas Artes representam um
tipo de conhecimento sensível, confuso e inferior ao racional, claro e distinto,
isto é, ao conhecimento voltado para a verdade” (p. 45). Com a filosofia
kantiana, a questão da chamada experiência estética vai sendo interpretada de
outras formas, ao longo do século XIX, aproximando-se do domínio
experimental e psicológico. “Na época, afirmava-se que toda “experiência
estética” e, consequentemente toda a arte, apresentava dois aspectos: um
subjetivo (isto é, o artista ou o espectador que sente e julga) e outro, objetivo
(isto é, aquelas manifestações que condicionam ou provocam o que sentimentos
e julgamos)”. A psicologia nascente se preocupava mais com o subjetivo
(sentimentos, impulsos, prazer sensível...), mas com o tempo, aplicando o
método experimental, os psicólogos passaram a se ocupar mais do aspecto
objetivo, elementos materiais (sons, linhas, volume) e relações formais (ritmo,
proporção, simetria) para avaliar as impressões estéticas como seus efeitos (p.
46).
Um exemplo disso é o fato do primeiro laboratório de psicologia, fundado por
Wundt em 1878, foi importante para a história da estética. “De qualquer
maneira, o que importa lembrar é que o advento da Psicologia como disciplina
está diretamente relacionado com a pesquisa de problemas perceptivos e
sensoriais cuja natureza é de ordem estética”.
O autor vai percorrendo a trajetória de encontros entre psicologia e arte. Quero
dar destaque à Psicologia da Gestalt; a tese de Mario Pedrosa “Da natureza
afetiva da forma na obra de arte”; e a prática terapêutica inaugurada por Nise da
Silveira no Hospital Psiquiátrico Pedro II, com as aproximações entre mitologia,
psicologia analítica e arte, para o tratamento ocupacional de pessoas
diagnosticadas com esquizofrenia. Nesse embalo, “a Psicologia da Arte
aprofunda-se e institucionaliza-se no início dos anos 1950”, o que foi fazendo
questionar os dois polos da experiencia estética, objetivo e subjetivo,
considerando o profundo “caráter valorativo” dessa experiência (p. 48).
Frayze-Pereira fala sobre pesquisa que indica que as pinturas rupestres eram
compostas por diversas camadas, rascunhos, de modo que indica um projeto
artístico por trás daquele resultado, bem pensado e bem acabado. Assim, as
cavernas “além de verdadeiros santuários, poderiam ser compreendidas como
complexos ateliês de pintura”. No entanto, indo de encontro com essa ideia, dos
nossos antepassados fazendo arte, o autor comenta outro artigo que comenta a
capacidade dos macacos fazerem arte abstrata, questionando se aquilo poderia
mesmo ser considerado arte (p.49,50). Abre-se a pergunta: mas, afinal, o que é
arte?
“Os teóricos encontram dificuldades para delimitar as fronteiras da própria
Arte, pois, de um lado, a Arte não teve sempre, nem em toda a parte, o mesmo
estatuto, o mesmo conteúdo e a mesma função. (...) “independente de qualquer
pressuposto sociocultural, desconfia-se hoje muito da palavra arte”. -> “um erro
muito comum é considerar Arte ou admitir como conceito geral e definidor da
Arte um programa particular de Arte, uma poética”, tomar a parte pelo todo.
(...) “muitos estudiosos admitem uma definição que possua um caráter negativo,
isto é, que impeça a busca de uma definição ‘real’, de essência ou de qualquer
ser oculto, como durante séculos fizeram todas as poéticas, afirmando que a arte
é intuição ou forma, que é ideia ou expressão, que é isto ou aquilo, sempre na
ilusão por parte de cada uma dessas posições de ter sido esta e não as outras a
que capturou sua rede conceitual”, uma universalidade da arte.
Enfim, seria Arte:
CRIAÇÃO? para Leyla Perrone-Moisés, este termo já implica uma determinada
teoria da arte. João cita a autora, “A palavra criação supõe tirar do nada, o
tornar existente aquilo que não existia antes”, palavra teológica, “a palavra
criação, aplicada ao fazer artístico, pertence ao vocabulário do idealismo
romântico; presume que o artista não imita a natureza, mas cria uma outra
natureza, gerada por um excesso de caráter divino e destinada a uma
completude autônoma”.

INVENÇÃO? Ainda com Leyla, “Invenção é também criação de uma coisa nova,
mas de um modo divino e absoluto. Inventar é usar o engenho humano, é
interferir localizadamente no conjunto dos artefatos de que o homem dispõe
para tornar sua vida mais rica e interessante” (...) “o inventor não acredito
necessariamente em Deus; trabalha no mundo dos recursos humanos”.
Invenção é circunscrita no tempo: será substituída por outra, mais engenhosa,
mais moderna, relaciona-se com as vanguardas do século XX.

PRODUÇÃO? Marcadamente materialista, “produção implica quantidade de


objetos e coletividade de produtores e consumidores”, é ainda mais terrena que
a palavra invenção. Para Frayze-Pereira, é a que melhor se liga com a palavra
OBRA, algo material concreto (diga-se de passagem, nem sempre?), processe
de produção/mundo industrial -> relação com surrealismo.

REPRESENTAÇÃO? Ou EXPRESSÃO? As duas palavras remetem algo anterior


à obra: um mundo, no caso da representação, e um indivíduo, no caso da
expressão. A primeira, relaciona-se ao Aristóteles, noção de mimese, imitação
da realidade. A segunda, mais próxima da psicologia e influenciada pelo
romantismo tardio, tem a ver com o sujeito emissor, sua personalidade e afetos.

Frayze-Pereira nos conta que considerando as definições de arte historicamente,


Pareyson (1984) as ordena nas seguintes categorias: arte como FAZER,
EXPRIMIR e CONHECER. -> concepções que se opõe, combinam, e apontam
para contextos históricos distintos -> FAZER: prevalece na Antiguidade, fabril,
manual, executivo; EXPRIMIR: romantismo, coerência das figuras artísticas
com o sentimento que as inspirava; CONHECER: renascimento, visão da
realidade.
A ideia é que arte pode tudo isso, contanto que.
“arte é um fazer. Mas é um fazer específico. Ou seja, “é o tal fazer que, enquanto
faz, inventa o por fazer e o modo de fazer” (p. 57) -> execução e invenção
caminham juntas! (...) “arte é uma atividade que é um formar, isto é, um
executar que é um inventar. Nesse sentido, se a obra de arte é forma, a atividade
artística é formatividade, na medida em que é o resultado de um processo de
perfeição. A obra é perfeita exatamente na medida em que o por fazer e o como
fazer foram levados a termo plenamente” (p. 57).
Citando Argan (1982), “a arte existe para ser percepcionada”, “a percepção
orientada para a arte tenta comunicar-nos algo diferente do que nos é
comunicado pela percepção normal, projeto que se evidencia no modo de
elaboração das coisas que os artistas oferecem ‘a nossa percepção, ou seja, as
técnicas artísticas”. -> o que não invalida uma experiência estética em práticas
cotidianas, mas deixa marcado a percepção estética no campo da arte.
“O símbolo justamente é o que exprime esse tipo de estruturação onde a ação se
orienta para o virtual, orientação que se presentifica na percepção, na
linguagem e no trabalho. A “estrutura simbólica” define-se, então, por um
movimento de transcendência que confere à existência humana o poder de
ultrapassar o dado, encontrando para ele um sentido novo através de uma ação
orientada em função do possível”. (p. 60, 61). -> A estrutura simbólica é
reflexionante -> “o enigma presente aí é que o corpo é reflexivo por ser
simultaneamente vidente e visível, reflexão que se expande nas coisas ao seu
redor como se essas fossem um anexo ou um prolongamento dele, incrustadas
em sua carne, fazendo parte de sua definição plena, sendo o mundo feito no
próprio estofo corporal (Merleau-Ponty).
O autor cita Marilena Chauí: “a estrutura simbólica, portanto, põe a
reversibilidade do sujeito e do mundo como uma relação expressiva. Não há
coisas puras, mas coisas humanas, fisionomias, valores. Os outros e as coisas se
oferecem como polos do desejo e a dialética humana nasce aí, na tentativa de
apropriação e negação do mundo natural, fazendo emergir o mundo humano da
linguagem e do trabalho”. -> nasce aí o mundo da arte.
“como o símbolo exprime justamente um tipo de estruturação onde a ação visa
ao que está ausente, a linguagem e o trabalho podem aparecer no mundo
humano e com elas a dimensão do sentido. Nessa medida, percebemos que é
desde o próprio corpo que o homem se diferencia dos outros seres. E mais, que é
através desse corpo, vidente-visível, que se abre o campo das significações
picturais, campo aberto desde o momento em que um homem surgiu no
mundo” (p. 62) -> homem é exposto ao perigo, mas também aos olhares, o que
faz com que ele perceba e altere o próprio corpo, busque, em alguma medida,
uma identidade.
“a obra que se cumpre não é a que existe em si como coisa, mas a que atinge o
espectador, convidando-o a retomar o gesto que a criou e, saltando mediações,
sem outro guia que não o movimento da linha inventada, a alcançar o mundo
silencioso do pintor...” (Merleau-Ponty), p. 63.
“é da experiência propriamente estética recolher o indivíduo no originário sob o
modo de uma presença-ausência que o convida à sideração”.

Na arte contemporânea, com uma quebra da cultura totalizante (desligamento


dos valores religiosos, éticos ou sociais...), aparecem questões como o olhar, o
desejo, o imaginário, o real, de modo que a psicologia teria coisas a dizer. Na
psicologia da arte o fato residiria na própria obra exposta à leitura, permitindo
decifrar não só o que um homem dispôs nela intencionalmente, mas também o
que nela colocou, inconscientemente, de si próprio e do grupo humano a que
pertence” (Huyghe) -> além disso, arte como linguagem coletiva e individual,
fundo e forma, conteúdo psicológico e realização plástica são inseparáveis ->
campo em que se pode abordar a matéria em contato estreito com sua expressão
e, por assim dizer, somente através dela.

“Portanto, a perceptiva aberta pela Psicologia da Arte é a de evidenciar os


princípios de uma conduta própria ao homem, reguladores de uma estrutura ao
mesmo tempo material e imaginária, consciente e inconsciente, no quadro e
limites de seus poderes e de seus conhecimentos, num certo momento de sua
história e em determinado círculo de civilização” -> PERSPECTIVA
PSICOSSOCIAL.