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FILOSOFIA DVD do aluno

BIBLIOTECA DO ESTUDANTE • Leitura complementar


Maria Lúcia
PARTE 2 UNIDADE 7 Idade Contemporânea
de Arruda Aranha
Capítulo 22 A filosofia do século XIX 1

BIBLIOTECA DO ESTUDANTE
22 . 2 Leitura complementar

A crítica de Marx a Hegel


O texto a seguir é de Karl Marx e se refere ao conturbado período que estava vivendo a Europa em
meados do século XIX. Nesta obra, Marx analisa a efervescência revolucionária de 1848, comparando-
a com a Revolução Francesa de 1789, que foi concluída com o golpe de Napoleão Bonaparte no dia 9
de novembro de 1799 (18 de brumário no calendário revolucionário francês). Marx cita Hegel logo no
início de sua análise para fazer-lhe uma correção. A censura a Hegel deve ser compreendida no campo
da análise histórica e da situação que Marx empreenderá em seu texto. Destaque-se ainda a primorosa
passagem da obra de Marx em que ele afirma serem os homens os atores da história, mesmo que atuem
em circunstâncias determinadas.

A história e a sua paródia

“ Em alguma passagem de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes fatos e
todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas
vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como
farsa. Caussidière como Danton, Luís Blanc como Robespierre, a Montanha de 1848-51
como a Montanha de 1793-95, o sobrinho como o tio. E essa mesma caricatura se repete
nas circunstâncias que envolvem a reedição do 18 de brumário!
Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea
vontade, pois não são eles que escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas
estas lhes foram transmitidas assim como se encontram. A tradição de todas as gerações
passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos. E justamente quando
parecem estar empenhados em transformar a si mesmos e as coisas, em criar algo nunca
antes visto, exatamente nessas épocas de crise revolucionária, eles conjuram temerosamente
a ajuda dos espíritos do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de
ordem, o seu figurino, a fim de representar, com essa venerável roupagem tradicional e
essa linguagem tomada de empréstimo, as novas cenas da história mundial. Assim, Lutero
se disfarçou de apóstolo Paulo, a revolução de 1789-1814 se travestiu ora de República
Romana ora de cesarismo romano e a revolução de 1848 não descobriu nada melhor para
fazer do que parodiar, de um lado, o ano de 1789 e, de outro, a tradição revolucionária
de 1793-1795. Do mesmo modo, uma pessoa que acabou de aprender uma língua nova
costuma retraduzi-la o tempo todo para a sua língua materna; ele, porém, só conseguirá
apropriar-se do espírito da nova língua e só será capaz de expressar-se livremente com
a ajuda dela quando passar a se mover em seu âmbito sem reminiscências do passado e
quando, em seu uso, esquecer a sua língua nativa. ”
MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte.
São Paulo: Boitempo, 2011. p. 25-26.

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