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Genética

Prof. Dr. Alexis Trott

2019
Copyright © UNIASSELVI 2019

Elaboração:
Prof. Dr. Alexis Trott

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

T858g

Trott, Alexis

Genética. / Alexis Trott. – Indaial: UNIASSELVI, 2019.

213 p.; il.

ISBN 978-85-515-0261-7

1.Genética - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.

CDD 575.1

Impresso por:
Apresentação
Olá, acadêmico! Vamos iniciar os estudos do Livro de Estudos de
Genética. Este livro está dividido em três unidades e tem o intuito de apresentar
e reforçar diferentes temas de Genética. As pesquisas em Genética têm
avançado rapidamente, pois atualmente dispomos de técnicas extremamente
avançadas para os estudos do DNA, RNA e proteínas. Este livro procura
aliar os conceitos fundamentais da Genética e as novas informações obtidas
por pesquisas avançadas.

Assim, este livro traz conteúdos de Genética gerais para você estar
bem preparado para o Enade e também para o campo profissional desejado.
Podemos começar esta fantástica viagem pelo universo da Genética?

Na primeira unidade, estudaremos os princípios da hereditariedade,


com foco na Genética Clássica. Uma base sólida é fundamental para o
entendimento dos avanços atuais em Genética. Nesta unidade, estudaremos
as leis de Mendel e suas extensões, bem como as bases cromossômicas do
Mendelismo e o Mapeamento Gênico.

A segunda unidade nos traz os conhecimentos acerca da Genética


Molecular, desde a estrutura dos ácidos nucleicos, passando pelo dogma
central da Genética Molecular, até as técnicas e principais avanços no campo
da engenharia genética.

Caro acadêmico, a partir destes conhecimentos, poderemos estudar,


na terceira unidade, a genética humana e médica. Neste segmento do livro,
abordaremos as questões genéticas pertinentes à espécie humana, bem como
os estudos das doenças genéticas e seus diagnósticos. Abordaremos ainda os
aspectos éticos concernentes aos estudos, procedimentos e pesquisas neste
importante campo da ciência.

Esperamos que este estudo possa auxiliá-lo na compreensão da


genética em seus variados temas. Desta forma, você estará preparado para o
Enade e para as suas futuras atividades profissionais, principalmente na área
de Ciências Biológicas e Saúde.

Bons estudos!

Prof. Dr. Alexis Trott, Ph.D.

III
NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

UNI

Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos


materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais
os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais
que possuem o código QR Code, que é um código
que permite que você acesse um conteúdo interativo
relacionado ao tema que você está estudando. Para
utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos
e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar
mais essa facilidade para aprimorar seus estudos!

IV
V
VI
Sumário
UNIDADE 1 – PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE.................................................................. 1

TÓPICO 1 – LEIS DE MENDEL............................................................................................................. 3


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 3
2 CRUZAMENTOS MONO-HÍBRIDOS – DOMINÂNCIA E SEGREGAÇÃO.......................... 4
3 CRUZAMENTOS DI-HÍBRIDOS – DISTRIBUIÇÃO INDEPENDENTE................................. 7
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 12
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 13

TÓPICO 2 – EXTENSÕES DO MENDELISMO................................................................................. 15


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 15
2 DOMINÂNCIA INCOMPLETA E CODOMINÂNCIA................................................................. 15
3 ALELOS MÚLTIPLOS.......................................................................................................................... 17
4 GENÉTICA QUANTITATIVA............................................................................................................ 18
5 A RELAÇÃO ENTRE OS GENES E AS PROTEÍNAS.................................................................... 20
6 EFEITOS AMBIENTAIS NA EXPRESSÃO DOS GENES............................................................. 20
7 PENETRÂNCIA E EXPRESSIVIDADE............................................................................................. 21
8 INTERAÇÕES GÊNICAS.................................................................................................................... 22
9 EPISTASIA.............................................................................................................................................. 23
10 PLEIOTROPIA..................................................................................................................................... 25
11 ENDOGAMIA...................................................................................................................................... 26
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 28
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 29

TÓPICO 3 – BASES CROMOSSÔMICAS DO MENDELISMO..................................................... 31


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 31
2 OS CROMOSSOMOS.......................................................................................................................... 31
3 GENES LIGADOS AO SEXO EM HUMANOS............................................................................... 33
4 DETERMINAÇÃO DO SEXO............................................................................................................. 35
5 COMPENSAÇÃO DE DOSE DE GENES LIGADOS AO X.......................................................... 37
6 POLIPLOIDIA E ANEUPLOIDIA...................................................................................................... 37
7 ALTERAÇÕES ESTRUTURAIS DOS CROMOSSOMOS ........................................................... 38
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 43
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 45

TÓPICO 4 – MAPAS CROMOSSÔMICOS......................................................................................... 47


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 47
2 LIGAÇÃO, RECOMBINAÇÃO E CROSSING-OVER.................................................................... 47
3 MAPEAMENTO CROMOSSÔMICO............................................................................................... 48
4 MAPEAMENTO CITOGENÉTICO................................................................................................... 51
5 RECOMBINAÇÃO E EVOLUÇÃO.................................................................................................... 52
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 54
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 56
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 58

VII
UNIDADE 2 – GENÉTICA MOLECULAR.......................................................................................... 59

TÓPICO 1 – OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA........................................................... 61


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 61
2 ESTRUTURA E FUNÇÃO DOS ÁCIDOS NUCLEICOS............................................................... 62
3 ESTRUTURA CROMOSSÔMICA EM PROCARIOTOS E EUCARIOTOS.............................. 72
4 GENES E GENOMAS........................................................................................................................... 76
5 ELEMENTOS GENÉTICOS MÓVEIS............................................................................................... 79
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 81
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 83

TÓPICO 2 – TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA............... 85


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 85
2 REPLICAÇÃO DO DNA...................................................................................................................... 86
3 TRANSCRIÇÃO E PROCESSAMENTO DE RNA......................................................................... 96
4 TRADUÇÃO E O CÓDIGO GENÉTICO.......................................................................................... 105
5 MUTAÇÃO E REPARO DO DNA...................................................................................................... 112
6 CONTROLE DA EXPRESSÃO GÊNICA EM PROCARIOTOS................................................... 116
7 CONTROLE DA EXPRESSÃO GÊNICA EM EUCARIOTOS...................................................... 119
8 GENÔMICA E O PROJETO GENOMA HUMANO...................................................................... 121
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 122
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 124

TÓPICO 3 – TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR................................................................. 127


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 127
2 IDENTIFICAÇÃO, AMPLIFICAÇÃO E CLONAGEM DE GENES............................................ 128
3 BIBLIOTECAS DE DNA...................................................................................................................... 138
4 BIOINFORMÁTICA............................................................................................................................. 139
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 141
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 147
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 148

UNIDADE 3 – GENÉTICA MÉDICA................................................................................................... 151

TÓPICO 1 – HERANÇA E DOENÇAS GENÉTICAS EM HUMANOS......................................... 153


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 153
2 HERANÇA GENÉTICA........................................................................................................................ 153
3 DOENÇAS GENÉTICAS EM HUMANOS...................................................................................... 157
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 162
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 163

TÓPICO 2 – CITOGENÉTICA HUMANA.......................................................................................... 165


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 165
2 CITOGENÉTICA HUMANA.............................................................................................................. 165
3 MITOSE – DIVISÃO CELULAR EQUACIONAL........................................................................... 167
4 MEIOSE – DIVISÃO CELULAR REDUCIONAL.......................................................................... 169
5 CROMOSSOMOPATIAS..................................................................................................................... 171
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 182
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 183

TÓPICO 3 – GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA...................................................... 185


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 185

VIII
2 BASES GENÉTICAS DO CÂNCER................................................................................................... 186
3 TERAPIA GÊNICA................................................................................................................................ 191
4 FARMACOGENÔMICA E NUTRIGENÔMICA............................................................................ 193
5 DIAGNÓSTICOS MOLECULARES DE DOENÇAS GENÉTICAS............................................ 194
6 HEREDOGRAMAS............................................................................................................................... 199
7 ÉTICA E GENÉTICA............................................................................................................................. 202
8 DIVERSIDADE DO GENOMA E EVOLUÇÃO.............................................................................. 203
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 205
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 207
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 209
REFERÊNCIAS.......................................................................................................................................... 213

IX
X
UNIDADE 1

PRINCÍPIOS DA
HEREDITARIEDADE

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• compreender as bases da genética clássica;

• fornecer as condições necessárias para analisar, através dos princípios


básicos da Genética, o porquê das semelhanças e das diferenças entre os
indivíduos em cruzamentos experimentais, em famílias e nas populações;

• possibilitar o desenvolvimento do raciocínio crítico e interpretação do de-


senvolvimento científico na área da genética.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No decorrer da unidade
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo
apresentado.

TÓPICO 1 – LEIS DE MENDEL

TÓPICO 2 – EXTENSÕES DE MENDELISMO

TÓPICO 3 – BASES CROMOSSÔMICAS DE MENDELISMO

TÓPICO 4 – MAPAS CROMOSSÔMICOS

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

LEIS DE MENDEL

1 INTRODUÇÃO
A origem da genética está baseada nos trabalhos de Gregor Mendel
(1822-1844), um monge austríaco do século XIX. Mendel estudou a herança de
diferentes características em ervilhas, cultivadas em um jardim do mosteiro
onde vivia. A redescoberta dos trabalhos de Mendel, no século XX, deflagrou
uma série de estudos sobre a genética de animais, vegetais e de microrganismos,
sendo que hoje compreendemos os fatores hereditários responsáveis por nossas
características, os chamados genes.

A herança genética sempre despertou muita curiosidade, e as descobertas


científicas sobre os genomas de diferentes organismos têm apresentado um
importante impacto na sociedade atual. Os padrões de herança genética e o
funcionamento do genoma podem explicar a determinação das características
dos indivíduos, e também ajudar a entender outras questões, como a origem da
vida.

Com o desenvolvimento das técnicas de Biologia Molecular e manipulação


genética, atualmente temos um desenvolvimento científico e tecnológico
admirável, que nos influencia enormemente, como na saúde, por exemplo. Os
assuntos em genética podem ser muitas vezes polêmicos, entretanto, é evidente que
os benefícios proporcionados por essas descobertas e pelos avanços tecnológicos
são mais importantes que as polêmicas levantadas, embora os aspectos éticos
sejam considerados extremamente importantes em tal desenvolvimento. Todo
o conhecimento em genética, obtido por mais de cem anos, tem gerado uma
revolução no modo de vida atual de nossa sociedade. A expectativa atual é
que a capacidade de interferir no genoma celular possa se tornar realidade em
processos de terapia na Medicina, sendo que novas e promissoras abordagens de
terapia gênica podem revolucionar a área da saúde.

3
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

2 CRUZAMENTOS MONO-HÍBRIDOS –
DOMINÂNCIA E SEGREGAÇÃO
Caro acadêmico, primeiramente, devemos entender que Mendel, em seus
estudos com ervilhas, trabalhou com uma característica de cada vez, evitando
desorientação com as possíveis combinações de resultados que poderiam surgir
ao considerar várias características ao mesmo tempo.

Em um experimento, Mendel realizou a fertilização cruzada, ou


cruzamento, de ervilhas altas e anãs para investigar a herança da altura (Figura
1). Gregor Mendel retirou as anteras de uma variedade e depositou pólen da
outra variedade sobre seu estigma, órgão na parte superior do pistilo que
conduz ao ovário. As sementes produzidas pelos cruzamentos foram cultivadas,
produzindo híbridos uniformemente altos. Mendel observou, portanto, o aparente
desaparecimento da característica anã na prole do cruzamento, pois todas as
plantas híbridas eram altas. A fim de analisar a constituição hereditária desses
híbridos altos, Mendel promoveu a autofertilização nos mesmos. Ao examinar
a prole resultante da autofertilização dos híbridos altos, constatou a presença de
plantas altas e anãs. Das 1.064 ervilhas da prole, 787 eram altas e 277 eram anãs,
uma razão aproximada de 3:1. Portanto, Mendel observou o reaparecimento da
característica anã. As plantas híbridas produzidas no cruzamento das variedades
alta e anã eram capazes de produzir plantas anãs. Mendel deduziu que esses
híbridos tinham um fator genético latente para nanismo, mascarado pela
expressão de outro fator para a altura elevada, e considerou que o fator latente era
recessivo e que o fator expresso era dominante. Também inferiu que esses fatores
recessivo e dominante se separaram quando as plantas híbridas se reproduziram,
explicando o reaparecimento da característica anã na geração seguinte.

4
TÓPICO 1 | LEIS DE MENDEL

FIGURA 1 – CRUZAMENTOS DE MENDEL PARA VARIEDADES ALTA E ANÃ DE ERVILHAS

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s. p. )

5
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

Mendel fez outros experimentos para estudar a herança de seis outras


características: textura da semente, cor da semente, formato da vagem, cor da
vagem, cor da flor e posição da flor. Em cada cruzamento mono-híbrido, Mendel
observou que apenas uma das duas características contrastantes aparecia nos
híbridos e que a autofertilização desses híbridos produzia dois tipos de prole,
apresentando novamente as características do cruzamento mono-híbrido, sempre
em uma razão de 3:1, por exemplo, ao estudar a textura das sementes, os híbridos
por autofertilização apresentaram um resultado com 5.474 lisas e 1.850 rugosas,
totalizando 7.324 ervilhas. Assim, cada característica estudada por Mendel
parecia ser controlada por um fator hereditário existente em duas formas, uma
dominante e outra recessiva. Esses fatores agora são denominados genes. As
formas dominante e recessiva dos genes são denominadas alelos, ou seja, os
alelos são formas alternativas de um gene.

As variedades geneticamente puras, alta e anã, são homozigotas para


diferentes alelos de um gene que controla a altura da planta. O alelo recessivo
para o nanismo é simbolizado por d; o alelo para a altura elevada é dominante e
simbolizado pela letra maiúscula D. Portanto, as linhagens de ervilhas alta e anã
são simbolizadas por DD e dd, respectivamente, sendo ambos homozigotos, pois
apresentam o mesmo alelo (Figura 2). Um indivíduo com ambos os alelos (Dd)
é dito heterozigoto. A constituição alélica de cada linhagem é seu genótipo. No
entanto, a aparência de cada linhagem, alta ou anã, é seu fenótipo.

FIGURA 2 – REPRESENTAÇÃO DO CRUZAMENTO ENTRE ERVILHAS ALTAS E ANÃS

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s.p. )

6
TÓPICO 1 | LEIS DE MENDEL

Como linhagens parentais, as ervilhas alta e anã constituem a geração P.


A prole híbrida é denominada primeira geração filial, ou F1. Como cada genitor
contribui igualmente para a prole, o genótipo das plantas F1 é Dd, ou seja, são
heterozigotas para os alelos do gene que controla a altura. O fenótipo é igual
ao da linhagem parental DD, porque D é dominante em relação a d. Durante
a meiose, na produção dos gametas, as plantas da F1 produzem dois tipos de
gametas, D e d, em iguais proporções, ou um processo de segregação de alelos.

Depois da autofertilização, os dois tipos de gametas produzidos por


heterozigotos podem se unir de todas as maneiras possíveis. Assim, eles
produzem quatro tipos de zigotos (DD, Dd, dD e dd). Entretanto, D é dominante
sobre d, e três desses genótipos têm o mesmo fenótipo. Desta forma, na geração
denominada F2, as plantas são altas ou anãs, em uma razão de 3:1.

Caro acadêmico, os resultados observados por Mendel podem ser


explicados da seguinte forma:

• Cada indivíduo possui um par de alelos responsável pelo aparecimento de


uma determinada característica.
• Os alelos são recebidos dos indivíduos paterno e materno, sendo que cada um
contribui com um alelo.
• Quando um indivíduo apresenta dois alelos diferentes, pode ocorrer o
aparecimento de uma única característica (alelo dominante) e a outra não (alelo
recessivo). Estamos falando do princípio da dominância: em um heterozigoto,
um alelo pode ocultar a presença de outro. Alguns alelos determinam o
fenótipo, mesmo quando estão presentes em cópia única.
• Na formação dos gametas, os alelos aparecem em dose simples, em que
cada gameta apresenta apenas um alelo. No processo de segregação, em
um heterozigoto, dois alelos diferentes segregam-se um do outro durante a
formação dos gametas.

Esta última conclusão é conhecida como primeira lei de Mendel. Cada


caráter é condicionado por um par de alelos segregados na formação dos gametas.

3 CRUZAMENTOS DI-HÍBRIDOS –
DISTRIBUIÇÃO INDEPENDENTE
Prezado acadêmico, Mendel foi mais longe em seus estudos e também fez
experimentos com plantas que diferiam em duas características. Gregor Mendel
cruzou plantas que produziam sementes amarelas e lisas com plantas que
produziam sementes verdes e rugosas, o que chamamos agora de cruzamento
di-híbrido, pois envolve duas características (Figura 3). Ele queria descobrir se a
herança das duas características da semente, cor e textura, era independente ou não.
A geração F1 mostrou apenas sementes amarelas e lisas, portanto, os alelos para

7
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

essas duas características eram dominantes. Mendel permitiu a autofertilização


destas plantas e classificou as sementes da F2 segundo o fenótipo, observando-se
uma clara distribuição fenotípica de 9:3;3;1, como pode ser verificado na Figura 3.

FIGURA 3 – CRUZAMENTOS ENTRE ERVILHAS DE SEMENTES AMARELAS E LISAS E ERVILHAS


DE SEMENTES VERDES E RUGOSAS

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s. p. )

As quatro classes fenotípicas na F2 representam todas as combinações


possíveis das características de cor e textura. As quatro classes têm a seguinte
razão aproximada:

• 9 amarelas e lisas
• 3 verdes e lisas
• 3 amarelas e rugosas
• 1 verde e rugosa

O que ficou claro neste estudo de Mendel é que cada característica


era controlada por um gene diferente com dois alelos, e os dois genes tinham
herança independente. Agora, acadêmico, podemos analisar os resultados desse
cruzamento di-híbrido, designando cada gene por uma letra (Figura 4). Os dois
alelos do gene da cor da semente são g (verde) e G (amarela), e os alelos do gene
da textura da semente são w (rugosa) e W (lisa). As linhagens parentais devem ser
duplamente homozigotas, ou seja, plantas com sementes amarelas e lisas são GG
WW e plantas com sementes verdes e rugosas são gg ww. Os gametas haploides
produzidos por uma planta diploide contêm uma cópia de cada gene, como já
vimos anteriormente no cruzamento mono-híbrido. Desta forma, os gametas de
uma planta GG WW contêm obrigatoriamente os alelos G e W. Já uma planta
gg ww apresenta gametas com os alelos g e w. A fertilização cruzada desses
dois tipos de gametas gera híbridos F1 duplamente heterozigotos (Gg Ww), e o
fenótipo de sementes amarelas e lisas indica que os alelos G e W são dominantes.
8
TÓPICO 1 | LEIS DE MENDEL

O princípio da segregação independente prevê que os híbridos da F1 produzam


gametas com quatro genótipos diferentes: G W, G w, g W e g w, com a mesma
frequência. Considerando tal pressuposto, a autofertilização na F1 produz um
conjunto de 16 genótipos zigóticos. Podemos verificar os possíveis zigotos por
combinação sistemática dos gametas, como mostra a Figura 4.

FIGURA 4 – REPRESENTAÇÃO DO CRUZAMENTO DI-HÍBRIDO DE MENDEL

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s. p.)

9
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

Prezado acadêmico, a partir desses estudos, foi enunciada a segunda lei


de Mendel ou lei da segregação independente. Ao considerar um cruzamento,
envolvendo duas ou mais características, os alelos de ambos os genes são
segregados de forma independente durante a formação dos gametas que se
recombinam ao acaso e formam todas as combinações possíveis na geração de
zigotos.

Caso se conheça a base genética de uma característica, pode-se usar os


princípios de Mendel para prever os resultados dos cruzamentos. Quando temos
que analisar uma situação, envolvendo um ou dois genes, é possível incluir todos
os gametas e combiná-los para gerar arranjos de genótipos zigóticos. Pode-se,
ainda, usar o Princípio da Dominância para determinar os fenótipos associados.
Esse procedimento é conhecido como método do quadrado de Punnett. Nós o
utilizamos para analisar o resultado zigótico do cruzamento com híbridos da F1
de sementes amarelas e lisas de Mendel (Figura 4).

Em situações mais complexas com mais de dois genes, torna-se, no


entanto, mais complicado e trabalhoso utilizar o método de Punnett. Um método
alternativo e mais rápido que o método do quadrado de Punnett baseia-se no
princípio da probabilidade. Na segregação de Mendel, quando um heterozigoto
produz gametas; metade deles contém um alelo e metade, o outro. Deste modo, a
probabilidade de que determinado gameta apresente o alelo dominante é de 50%
(1/2), e a probabilidade de que contenha o alelo recessivo também é de 50% (1/2).
Essas probabilidades são as frequências de ambos os gametas produzidos pelo
heterozigoto. Nesse cruzamento, os gametas serão combinados aleatoriamente
para produzir a geração seguinte.

Caro acadêmico, para ilustrar e entendermos melhor uma análise por


probabilidades, vamos verificar um cruzamento entre heterozigotos para um
determinado gene, Aa × Aa (Figura 5). A chance de que o zigoto seja AA é
simplesmente a probabilidade de que cada um dos dois gametas que se unem
contenha A, ou (1/2) × (1/2) = (1/4). A chance de um homozigoto aa também é
de ¼, pois o princípio é o mesmo. No entanto, a chance de um heterozigoto Aa
é de 1/2 porque existem dois modos de produzir um heterozigoto, pois A pode
vir do gameta feminino e o alelo recessivo a pode vir do gameta masculino, ou
vice-versa. A chance de ocorrência de cada um desses eventos é de um quarto, e a
probabilidade total de que um filho seja heterozigoto é (1/4) + (1/4) = (1/2).

Portanto, caro acadêmico, obtemos a seguinte distribuição de probabilidade


dos genótipos obtidos por cruzamento de Aa × Aa:

AA = ¼
Aa = ½
AA = ¼

10
TÓPICO 1 | LEIS DE MENDEL

FIGURA 5 – CRUZAMENTO APRESENTANDO O MÉTODO DA PROBABILIDADE NO CONTEXTO


DE UM QUADRADO DE PUNNETT

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s. p.)

A frequência de cada genótipo do cruzamento é obtida a partir


das frequências no quadrado de Punnett que, por sua vez, são obtidas por
multiplicação das frequências dos dois tipos de gametas produzidos pelos
genitores heterozigotos.

11
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• Mendel estudou a herança de diferentes características em ervilhas, sendo que


cada característica é controlada por um gene diferente e seus alelos.

• A partir de seus achados científicos, Mendel postulou que os alelos de um gene


são dominantes ou recessivos, que os diferentes alelos de um gene segregam-
se durante a formação dos gametas e que os alelos de diferentes genes são
distribuídos de modo independente.

• Através da utilização do quadrado de Punnett podemos prever o resultado de


um cruzamento, verificando os genótipos produzidos.

Quando analisamos cruzamentos com a participação de mais de dois genes, o


método da probabilidade para prever o resultado de um cruzamento é mais
indicado.

12
AUTOATIVIDADE

1 Determine as proporções genotípicas e fenotípicas resultantes dos


cruzamentos propostos a seguir. (“a” é o alelo recessivo para albinismo, já
“A” é o alelo normal para pigmentação da pele).

a) Aa x Aa.
b) Aa x aa.
c) AA x aa.
d) AA x AA.
e) aa x aa.

2 Ao afirmarmos que um gameta é heterozigoto para um determinado gene,


estamos claramente cometendo um erro. Por que tal afirmação é incorreta?

3 Ao considerar dois genes transmitidos de forma independente, herança


dominante e bialelismo, num cruzamento di-híbrido entre dois indivíduos
duplo heterozigotos, teremos como resultado a proporção fenotípica de:

a) ( ) 1:2:1
b) ( ) 1:2:2:1
c) ( ) 1:3:3:1
d) ( ) 3:9:3
e) ( ) 9:3:3:1

4 A fibrose cística e a miopia são causadas por genes autossômicos recessivos.


Uma mulher míope e normal para fibrose cística casa-se com um homem
normal para ambas as características, porém filho de pai míope. A primeira
criança nascida foi uma menina de visão normal, mas com fibrose cística.
Considerando que a probabilidade de um casal ter uma menina é de ½,
defina a probabilidade de o casal ter outra menina, porém normal para
ambas as características.

a) ( ) 3/8.
b) ( ) 1/4.
c) ( ) 3/16.
d) ( ) 3/4.
e) ( ) 1/8.

13
14
UNIDADE 1
TÓPICO 2

EXTENSÕES DO MENDELISMO

1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, os trabalhos de Mendel apresentaram resultados,
mostrando que os genes podem existir em formas alternativas, e cada forma
alternativa nós chamamos de alelo. Para cada uma das características estudadas
em ervilhas, Mendel identificou dois alelos, um dominante e o outro recessivo.
Entretanto, as pesquisas subsequentes aos experimentos de Mendel mostraram
que os genes podem apresentar mais de dois alelos em determinados casos, e
cada alelo pode ter um efeito diferente no fenótipo.

Mendel estabeleceu, em 1865, os princípios básicos da hereditariedade, o


que resultou na primeira e segunda Lei de Mendel. Segundo as regras mendelianas
clássicas, cada caráter seria governado por um gene e cada gene teria dois alelos,
um de efeito dominante e o outro recessivo. Na geração F2 isso resultaria em uma
proporção fenotípica clássica de 3:1. No entanto, se dois caracteres mendelianos
fossem estudados em conjunto, na F2 teríamos uma proporção fenotípica 9:3:3:1.
Com os novos estudos, mostrou-se que as proporções mendelianas clássicas não
eram únicas.

Portanto acadêmico, dessa forma, podemos entender que o termo extensão


à genética mendeliana se refere aos padrões de herança que complementam
aqueles que foram descobertos por Gregor Mendel, e vamos estudar os mesmos
a partir de agora.

2 DOMINÂNCIA INCOMPLETA E CODOMINÂNCIA


Quando um organismo apresenta um genótipo heterozigoto para um
determinado gene, o fenótipo apresentado é conferido pelo alelo dominante,
considerando um padrão de herança dominante. Um alelo é dominante se tiver
o mesmo efeito fenotípico em heterozigotos e homozigotos. No entanto, em
alguns casos, o heterozigoto tem fenótipo diferente dos dois homozigotos. Um
exemplo disso é quando temos uma dominância incompleta de um alelo sobre
outro, originando a cor da flor boca-de-leão, Antirrhinum majus. As variedades

15
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

vermelha e branca são homozigotas para diferentes alelos de um gene para cor.
Ao cruzarmos tais variedades, uma planta heterozigota com flores cor-de-rosa é
produzida. Nesse caso, caro acadêmico, temos o alelo para cor vermelha W com
dominância incompleta em relação ao alelo para cor branca w. Entendemos que a
intensidade da pigmentação nessa espécie depende da quantidade de um produto
especificado produzido pelo alelo W do gene da cor (Figura 6). Considerando
que o alelo W especifica a produção desse produto e o alelo w não, homozigotos
WW terão o dobro do produto em relação a heterozigotos Ww e, claro, cor mais
intensa. Nesse caso, podemos dizer que o alelo parcialmente dominante W é
semidominante.

FIGURA 6 – DOMINÂNCIA INCOMPLETA NA EXPRESSÃO DO FENÓTIPO DA COR DA FLOR


BOCA-DE-LEÃO

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s. p.)

Caro acadêmico, podemos também imaginar que os dois alelos de um


determinado gene se expressem em um heterozigoto? Caso tenha pensado
positivamente, você está correto. Chamamos de codominância quando um
heterozigoto tem características observadas nos dois homozigotos associados.
Como exemplos, temos os tipos sanguíneos humanos, antígenos presentes nas
células vermelhas do sangue, identificados por testes do tipo antígeno-anticorpo.
Os anticorpos, produzidos pelo sistema imune, reconhecem antígenos específicos.
Quando estudamos o sistema MN em humanos, observamos que o soro anti-M
reconhece apenas o antígeno M em células sanguíneas, já o soro anti-N reconhece
apenas o antígeno N nessas células. Quando ocorre a reação antígeno-anticorpo no
teste de tipagem sanguínea, as células aglomeram-se em uma reação de aglutinação.
Portanto, a análise de aglutinação das células com diferentes soros possibilita a
identificação dos antígenos presentes e, portanto, o tipo sanguíneo. O sistema MN
em humanos, em que temos a produção de antígenos M e N, é determinado por um
gene com dois alelos. Homozigotos para o alelo M produzem apenas o antígeno
M e homozigotos para o alelo N, somente o antígeno N. No entanto, heterozigotos
para os dois alelos produzem os dois tipos de antígenos, sendo codominantes.
Os alelos codominantes são representados por sobrescritos no símbolo do gene.
Deste modo, o alelo do antígeno M é LM e o alelo do antígeno N é LN. O L é uma
16
TÓPICO 2 | EXTENSÕES DO MENDELISMO

homenagem a Karl Landsteiner (1868-1943), o descobridor da tipagem sanguínea.


Resumindo, observamos o seguinte:

Genótipo Tipo Sanguíneo


LM LM M
LM LN MN
LN LN N

3 ALELOS MÚLTIPLOS
A partir de diferentes estudos em genética, foram identificados vários genes
que apresentam mais de dois alelos como forma alternativa dos mesmos. Vamos
estudar aqui dois exemplos clássicos de alelos múltiplos: alelos múltiplos que
controlam a cor da pelagem em coelhos e o sistema ABO, em humanos.

Um exemplo muito conhecido de um gene com alelos múltiplos é o que


determina a cor da pelagem em coelhos. O gene determinante da cor apresenta os
seguintes alelos e fenótipos:

• Ca (albino)
• Ch (himalaio)
• Cch (chinchila)
• C+ (selvagem ou aguti)

Na condição homozigota, cada alelo tem um efeito característico sobre a cor


da pelagem. Como a maioria dos coelhos em populações selvagens é homozigota
para o alelo C+, ele é denominado tipo selvagem, mas também é denominado de
aguti. Os quatro alelos do gene C em coelhos podem ser combinados para produzir
diferentes heterozigotos. Esses heterozigotos tornam possível estudar as relações
de dominância entre os alelos. O alelo selvagem é totalmente dominante em
relação a todos os outros alelos na série; o alelo chinchila é dominante em relação
aos alelos himalaia e albino, e o alelo himalaia é dominante em relação ao alelo
albino. Portanto, entre esses alelos ocorre interação de dominância, como segue:
C+ > Cch > Ch > Ca.

Caro acadêmico, a seguir podemos verificar os possíveis genótipos para


cada tipo de pelagem em coelhos.

Genótipo Fenótipo
C+C+, C+Cch, C+Ch, C+Ca Selvagem ou aguti
C C ,C C ,C C
ch ch ch h ch a
Chinchila
ChCh e ChCa Himalaia
CaCa Albino

17
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

Outro exemplo de alelos múltiplos vem do gene responsável pelo sistema


ABO em humanos. A tipagem sanguínea do sistema ABO envolve reações
imunológicas. Os tipos A, B, AB e O são identificados pelo teste de uma amostra
de sangue com diferentes soros. Um soro detecta o antígeno A e outro, o antígeno
B. Quando as hemácias têm apenas o antígeno A, o sangue é tipo A; quando têm
apenas o antígeno B, o sangue é tipo B. Quando os dois antígenos estão presentes,
o sangue é tipo AB, e quando não há antígeno, é tipo O. O gene responsável pela
produção dos antígenos A e B é designado pela letra I, apresentando três alelos:
IA, IB e i. O alelo IA produz do antígeno A e o alelo IB a produção do antígeno B,
no entanto, o alelo i não especifica antígeno. A partir dos três alelos já descritos,
temos seis genótipos possíveis e quatro fenótipos – os tipos sanguíneos A, B, AB e
O. No sistema ABO, os alelos IA e IB são codominantes, pois ambos são expressos
nos heterozigotos IAIB, e o alelo i é recessivo em relação aos alelos IA e IB.

Prezado acadêmico, vamos resumir as informações sobre a genética do


sistema ABO, no esquema a seguir:

Genótipo Fenótipo (Tipo Sanguíneo) Antígeno A Antígeno B


IAIA e IAi A Sim Não
IBIB e IBi B Não Sim
IAIB AB Sim Sim
ii O Não Não

4 GENÉTICA QUANTITATIVA
A herança quantitativa ou poligênica é um tipo de interação gênica na
qual dois ou mais genes apresentam seus efeitos somados, em relação a uma
determinada característica, gerando fenótipos com diferentes intensidades. Fatores
genéticos e ambientais influenciam as características quantitativas. O biólogo
Wilhelm Johannsen (1857-1927) realizou um experimento genético, demonstrando
que a variação de uma característica quantitativa é causada por uma combinação
de fatores genéticos e ambientais. Seus estudos envolveram o peso de sementes
de feijão, Phaseolus vulgaris. As plantas estudadas apresentavam sementes com
peso entre 150 mg a 900 mg. Johannsen definiu linhagens de sementes nesse
intervalo e manteve cada linhagem por autofertilização durante várias gerações. A
possibilidade de definir linhagens de feijão com diferentes pesos característicos das
sementes indicava que grande parte da explicação da variação dessa característica
é causada por diferenças genéticas. Entretanto, o pesquisador observou que o peso
das sementes também variava dentro de cada linhagem, mesmo sendo pura. Essa
variação residual não era causada por diferenças genéticas, porque cada linha era
resultado de endocruzamento sistemático para torná-la homozigota para seus
genes, sendo que a causa de tal variação residual só poderia ser por influência de
fatores ambientais não controlados.

18
TÓPICO 2 | EXTENSÕES DO MENDELISMO

Caro acadêmico, o pesquisador Herman Nilsson-Ehle (1873-1949),


dinamarquês, nos mostrou que o componente genético da herança quantitativa
inclui a contribuição de vários genes diferentes. Nilsson-Ehle estudou a variação
da cor em grãos de trigo, cruzando duas variedades, uma branca e uma com grãos
vermelhos bem escuros. O resultado observado na F1 foi um fenótipo vermelho
intermediário. A autofertilização da F1 produziu uma F2 com sete classes diferentes,
cujas cores variavam do branco ao vermelho-escuro. O número de classes da F2
e a proporção fenotípica observada por Nilsson-Ehle sugeriram que três genes
de distribuição independente participavam da determinação da cor do grão, e
que os alelos para grãos vermelhos contribuíam para a intensidade do pigmento
de forma aditiva (Gráfico 1). Deste modo, temos o genótipo do genitor de grãos
brancos como aa bb cc, e o genótipo do genitor de grãos vermelhos como AA BB
CC. O genótipo da F1 seria heterozigoto Aa Bb Cc e a F2 teria vários genótipos
com diferentes números de alelos responsáveis pelo efeito aditivo na pigmentação.
Cada classe fenotípica na F2 teria um número diferente de alelos que contribuem
para a pigmentação.

GRÁFICO 1 – HERANÇA DA COR DOS GRÃOS EM TRIGO

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s. p.)

19
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

O número de fenótipos que podem ser encontrados em um caso de herança


poligênica depende do número de pares de alelos envolvidos, que chamamos n.
Número de fenótipos = 2n + 1.

Em nosso caso de grãos de trigo com três pares de alelos, sete fenótipos
distintos podem ser encontrados, como visto no Gráfico 1. Cada grupo de
indivíduos que expressam o mesmo fenótipo constitui uma classe fenotípica.

5 A RELAÇÃO ENTRE OS GENES E AS PROTEÍNAS


Com o desenvolvimento dos estudos em genética e também de biologia
molecular, ficou evidente que os organismos contêm muitos genes diferentes e
que os mesmos podem apresentar múltiplos alelos.

No entanto, caro acadêmico, você já se perguntou como um gene pode


influenciar um traço como a cor dos olhos, a altura, o peso e a cor da pele?

Os primeiros geneticistas não tinham resposta para essa pergunta. No


entanto, com o avanço dos estudos científicos, atualmente sabemos que boa parte
dos genes codifica para proteínas, ou seja, produz proteínas que, de alguma forma,
estão envolvidas com os fenótipos. As proteínas são macromoléculas constituídas
por uma cadeia linear de aminoácidos, sendo que cada tipo de proteína apresenta
uma sequência específica de aminoácidos. Durante a síntese proteica, os
aminoácidos se unem por meio de ligações do tipo amida, também denominadas
ligações peptídicas. A união de dois aminoácidos produz um dipeptídeo; já três
aminoácidos unidos por ligações peptídicas criam um tripeptídeo; com mais de
quatro aminoácidos na cadeia, a molécula recebe o nome de polipeptídeo. Já um
polipeptídeo com aproximadamente 100 resíduos de aminoácidos na cadeia é
chamado de proteína. Algumas proteínas, chamadas enzimas, atuam como
catalisadores em reações bioquímicas, já outras formam hormônios, anticorpos,
antígenos, neurotransmissores, outras formam os componentes estruturais
das células, os músculos, e ainda outras são responsáveis pelo transporte de
moléculas, como o oxigênio.

6 EFEITOS AMBIENTAIS NA EXPRESSÃO DOS GENES


Caro acadêmico, será que o ambiente pode influenciar na expressão dos
genes e, por consequência, também no fenótipo?

Uma série de pesquisas tem demonstrado que o ambiente pode influenciar a


expressão gênica. Vários fatores ambientais podem influenciar os fenótipos, inclusive
a alimentação, sendo que a área da nutrigenômica tem se desenvolvido a passos
largos. Os benefícios do consumo de determinados alimentos fizeram surgir o conceito
de alimentos funcionais, sendo que tais alimentos podem afetar beneficamente as
funções corporais, gerando bem-estar e redução do risco de doenças.
20
TÓPICO 2 | EXTENSÕES DO MENDELISMO

As análises dos mecanismos associados à influência dos alimentos na biologia


e na saúde mostram que moléculas bioativas, presentes em determinados alimentos,
possuem a capacidade de modular aspectos genômicos, bioquímicos e fisiológicos
dos organismos. Em nível genômico, os principais efeitos destas moléculas envolvem
a regulação diferencial na expressão de genes e modulação epigenética.

Tais evidências deram origem à genômica nutricional representada pelas


suas duas abordagens: a nutrigenética e a nutrigenômica. A nutrigenética estuda
a interação dos alimentos com variações genéticas individuais que poderiam,
por exemplo, reduzir o risco de determinados tipos de doenças. Por outro lado,
a nutrigenômica investiga a influência da nutrição na dinâmica estrutural do
genoma (efeitos epigenéticos e genoprotetores) e na modulação de genes.

Caro acadêmico, para ilustrar as questões alimentares com as doenças


humanas, vamos tratar brevemente da fenilcetonúria (PKU). As pesquisas
genéticas humanas oferecem um exemplo da influência do ambiente físico no
fenótipo. A fenilcetonúria (PKU) é um distúrbio recessivo do metabolismo dos
aminoácidos. Lactentes homozigotos para o alelo mutante acumulam no encéfalo
substâncias tóxicas que podem afetar o desenvolvimento encefálico e assim
comprometer a capacidade mental. A PKU está relacionada com um aminoácido
específico, a fenilalanina, ingerida na alimentação. Embora não seja tóxica, a
fenilalanina é metabolizada em outras substâncias tóxicas. Lactentes com PKU
alimentados com dieta normal ingerem fenilalanina, ocorrendo as manifestações
graves da doença. Entretanto, lactentes que seguem dietas com restrição de
fenilalanina podem crescer sem comprometimento mental grave. A doença pode
ser diagnosticada em recém-nascidos, sendo possível reduzir seu impacto a partir
da restrição de fenilalanina. Tal exemplo nos mostra como é possível manipular
um fator ambiental, como neste caso em que a dieta altera um fenótipo, podendo
provocar uma tragédia pessoal.

O ambiente biológico também pode influenciar a expressão fenotípica


dos genes. A calvície em seres humanos é um exemplo, em que o fator biológico
relevante é o sexo. A calvície prematura é causada por um alelo com expressão
diferente em homens e mulheres. Tanto os homens homozigotos quanto
heterozigotos para esse alelo desenvolvem a calvície, mas somente as mulheres
homozigotas têm essa tendência. A expressão desse alelo provavelmente é
desencadeada pelo hormônio testosterona.

7 PENETRÂNCIA E EXPRESSIVIDADE
Caro acadêmico, nem sempre os indivíduos apresentam um determinado
fenótipo, mesmo apresentando o genótipo apropriado. Nesse caso, diz-se
que o traço tem penetrância incompleta. Um exemplo em seres humanos é a
polidactilia, ou seja, presença de dedos extranumerários nas mãos e nos pés. Esse
distúrbio é causado por uma mutação dominante que se manifesta em parte de
seus portadores.

21
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

Quando tratamos de expressividade, vemos que a manifestação de


uma característica não é uniforme entre os indivíduos que a apresentam. A
mutação dominante Lobe associada ao olho em Drosophila é um exemplo,
e o fenótipo associado a essa mutação pode variar muito. Algumas moscas
heterozigotas apresentam pequenos olhos compostos, enquanto outras têm olhos
grandes e lobulados. Neste sentido, podemos afirmar que a mutação Lobe tem
expressividade variável.

Caro acadêmico, tanto a expressividade variável como a penetrância


incompleta indicam que a expressão dos genes está sujeita a considerável
modulação. Atualmente, entendemos que essa modulação se deve a fatores
ambientais e genéticos. A comprovação desses fatores vem das pesquisas que
mostram que dois ou mais genes podem afetar uma determinada característica.

8 INTERAÇÕES GÊNICAS
Caro acadêmico, os primeiros estudos mostrando que uma característica
pode ser influenciada por mais de um gene foram realizados por Bateson (1861-
1926) e Punnett (1875-1967) em experimentos com galinhas. Os estudos envolveram
o formato da crista, sendo que a raça Wyandotte tem crista rosa, a Brahma tem crista
ervilha e a Leghorn tem crista simples. Cruzamentos entre as raças Wyandotte e
Brahma produzem indivíduos com outro tipo de crista, chamada noz. As análises
dos resultados mostraram que o tipo de crista em galinhas é determinado por
dois genes de distribuição independente, R e P, ambos com dois alelos. A raça
Wyandotte, com crista rosa, tem o genótipo RR pp e a raça Brahma, com crista
ervilha, rr PP. Já os híbridos dessas duas variedades na F1 são Rr Pp e o fenótipo é
de crista noz. O intercruzamento desses híbridos gera os quatro tipos de crista na
F2: noz em 9/16 (R- P-), rosa em 3/16 (R- pp), ervilha em 3/16 (rr P-) e simples em
1/16 (rr pp). Portanto, a raça Leghorn, que tem a crista simples, é homozigota para
os dois alelos recessivos. Vejamos os resultados da F2 na Tabela 1:

TABELA 1 – QUADRADO DE PUNNETT


RP Rp rP rp
RP RRPP RRPp RrPP RrPp
Noz Noz Noz Noz

Rp RRPp RRpp RrPp Rrpp


Noz Rosa Noz Rosa
rP RrPP Rr Pp rrPP rrPp
Noz Noz Ervilha Ervilha
rp RrPp Rrpp rrPp rrpp
Noz Rosa Ervilha Simples

FONTE: O autor

22
TÓPICO 2 | EXTENSÕES DO MENDELISMO

Podemos observar, então, que as pesquisas de Bateson e Punnett mostram


que dois genes de distribuição independente podem afetar uma determinada
característica. Diferentes combinações dos alelos de ambos os genes produzem
diferentes fenótipos, o que deve ocorrer devido às interações bioquímicas de seus
produtos gênicos.

9 EPISTASIA
Caro acadêmico, nos casos de epistasia, temos pelo menos dois genes
influenciando uma determinada característica, em que um alelo de um deles
prevalece no fenótipo. Quando um alelo tem esse efeito, afirmamos que o
mesmo é epistático em relação aos outros genes participantes. Um exemplo
clássico envolve genes que participam da pigmentação do olho em Drosophila.
Quando uma mosca é homozigota para um alelo nulo em um desses genes, a rota
bioquímica de síntese do pigmento pode ser bloqueada, levando a anormalidades
da cor do olho do indivíduo. Portanto, tal alelo anula a expressão dos outros
genes, mascarando suas contribuições fenotípicas.

Outro exemplo de epistasia é observado na determinação da cor das flores


na ervilha-de-cheiro, Lathyrus odoratus. As flores dessa planta são roxas quando
têm o pigmento antocianina ou brancas em sua ausência. Ao cruzarmos plantas
híbridas, temos uma F2 numa razão de nove plantas de flores roxas para sete
plantas de flores brancas (Figura 7). Os resultados podem ser explicados, propondo
que dois genes de distribuição independente, C e P, participam da síntese de
antocianina e que cada gene tem um alelo recessivo que impede a produção do
pigmento. Desta forma, é necessário um alelo dominante de cada gene para a
síntese do pigmento antocianina. Neste trabalho de Bateson e Punnett, ficou
estabelecido que cada alelo recessivo é epistático em relação ao alelo dominante
do outro gene. Se os alelos dominantes de cada gene não estiverem presentes, a
biossíntese é bloqueada e não há produção de antocianina.

23
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

FIGURA 7 – CONTROLE GENÉTICO DA COR DAS FLORES EM ERVILHAS-DE-CHEIRO

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s. p.)

Podemos resumir a F2 da Figura 8 da seguinte forma:


C- P- (Flores roxas) = 9/16
C-pp, ccP-, ccpp (Flores brancas) = 7/16

Caro acadêmico, podemos ter diferentes razões fenotípicas a partir dos


genótipos obtidos na F2, considerando o cruzamento di-híbrido AaBb X AaBb e o
tipo de epistasia (Quadro 1).
24
TÓPICO 2 | EXTENSÕES DO MENDELISMO

QUADRO 1 – EXEMPLOS DE RAZÕES FENOTÍPICAS DE F2


AABB AABb AaBB AaBb AAbb Aabb aaBB aaBb aabb
AeB 1 2 2 4 1 2 1 2 1
incompletamente
dominantes
A 3 6 1 2 3 1
incompletamente
eB
completamente
dominante
AeB 9 3 3 1
completamente
dominantes
(Razão
clássica com
quatro classes
fenotípicas)
aa epistático 9 3 4
sobre B e b
(Epistasia
recessiva)
A epistático 13 (12 mais a classe genotípica aabb) 3 -
sobre B e b; bb
epistático sobre
A e a (Epistasia
dominante e
recessiva)
aa epistático 9 7
sobre B e b; bb
epistático sobre
A e a (Epistasia
recessiva dupla)
A epistático 15 1
sobre B e b; B
epistático sobre
A e a (Epistasia
dominante
Dupla)
FONTE: O autor

10 PLEIOTROPIA
Caro acadêmico, neste momento, vamos entender o que significa
pleiotropia. Quando temos um gene influenciando diferentes fenótipos, diz-se
que é pleiotrópico. A pleiotropia funciona de forma inversa à interação gênica.
Na pleiotropia, um único gene atua na manifestação de vários caracteres. Em
termos moleculares e bioquímicos, podemos dizer que o gene produz apenas uma
enzima, mas sua presença ou ausência tem várias consequências. Uma condição
pleiotrópica clássica é a fenilcetonúria (PKU), doença causada por um alelo
25
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

recessivo do gene que produz a enzima fenilalanina hidroxilase. A deficiência na


produção desta enzima impede a transformação do aminoácido fenilalanina em
tirosina (Figura 8).

O efeito primário de mutações recessivas nesse gene é causar o acúmulo


de fenilpiruvato, que compete com o piruvato pela entrada na mitocôndria,
restringindo a produção de ATP a partir de glicose, o único substrato oxidável para
o cérebro, gerando disfunções neurológicas graves. No entanto, essas mutações
também interferem na síntese do pigmento melanina, clareando a pele e os pelos.
Os exames bioquímicos mostram ainda que o sangue e a urina de pacientes com
PKU contêm substâncias raras ou ausentes em indivíduos normais. Essa série de
efeitos fenotípicos é típica da maioria dos genes e consequência de interconexões
entre as vias bioquímicas que eles controlam através da produção de enzimas.

FIGURA 8 – NA PKU, O AMINOÁCIDO FENILALANINA NÃO PODE SER CONVERTIDO EM


TIROSINA

FONTE: Marzzoco (2015, p. 241)

11 ENDOGAMIA
Na endogamia, temos o cruzamento de indivíduos aparentados em virtude
de um ancestral comum. O cruzamento entre parentes é denominado cruzamento
consanguíneo, termo do latim que significa “do mesmo sangue”. A reprodução
endogâmica é rara em populações humanas, e a incidência depende da cultura e
etnia das populações. As restrições ocorrem, pois a endogamia tende a produzir
mais crianças doentes e debilitadas que em um casamento de indivíduos sem
parentesco, havendo maior chance de que filhos de um casamento consanguíneo
sejam homozigotos para um alelo recessivo prejudicial. No entanto, em certas
culturas, como no Egito antigo, por exemplo, a linhagem real era perpetuada por
casamentos entre irmãos, provavelmente para preservar a “pureza” do sangue
real.

26
TÓPICO 2 | EXTENSÕES DO MENDELISMO

Os casamentos consanguíneos em populações humanas de certa forma


colaboraram na análise de distúrbios genéticos causados por alelos recessivos.
Muitos estudos em genética humana foram baseados na análise de casamentos
consanguíneos, principalmente em grupos socialmente fechados, como a
comunidade Amish, nos Estados Unidos. Os efeitos da endogamia também são
evidentes em espécies experimentais, nas quais é possível promover o cruzamento
consanguíneo, geração após geração, para criar uma linhagem endogâmica.
Tais linhagens são puras geneticamente, porém, muitas vezes são menos
vigorosas, gerando o que chamamos de perda endogâmica. Nas plantas em que
a autofertilização é possível, podem-se criar linhagens altamente endogâmicas
por autofertilização. No milho, por exemplo, as plantas endogâmicas são baixas
e produzem espigas pequenas com poucos grãos. As plantas geradas por
cruzamentos entre duas linhagens endogâmicas diferentes são heterozigotas para
muitos genes, apresentando maior vigor, o que chamamos de vigor híbrido, ou
heterose. Tal prática para produzir prole heterozigota de alto rendimento tornou-
se padrão no melhoramento vegetal.

27
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• Um alelo é dominante se tiver o mesmo efeito fenotípico em heterozigotos


e homozigotos. No entanto, em alguns casos, o heterozigoto tem fenótipo
diferente dos dois homozigotos, havendo dominância incompleta.

• Chamamos de codominância quando um heterozigoto tem características


observadas nos dois homozigotos associados.

• Diferentes estudos em genética identificaram vários genes que apresentam


mais de dois alelos como forma alternativa dos mesmos. O sistema sanguíneo
ABO, em humanos, é um exemplo clássico de alelos múltiplos.

• A herança quantitativa ou poligênica é um tipo de interação gênica na qual


dois ou mais genes apresentam seus efeitos somados, em relação a uma
determinada característica. Fatores genéticos e ambientais influenciam as
características quantitativas.

• Atualmente sabemos que boa parte dos genes codifica para proteínas, ou seja,
produz proteínas que, de alguma forma, estão envolvidas com os fenótipos.

• Muitas pesquisas têm demonstrado que o ambiente pode influenciar a


expressão gênica.

• Tanto a expressividade variável como a penetrância incompleta indicam que


a expressão dos genes está sujeita a considerável modulação. Atualmente,
entendemos que essa modulação se deve a fatores ambientais e genéticos.

• Dois genes de distribuição independente podem afetar uma determinada


característica. Diferentes combinações dos alelos de ambos os genes produzem
diferentes fenótipos, o que deve ocorrer devido às interações bioquímicas de
seus produtos gênicos.

• Nos casos de epistasia, temos pelo menos dois genes influenciando uma
determinada característica, em que um alelo de um deles prevalece no fenótipo.

• A pleiotropia funciona de forma inversa à interação gênica. Na pleiotropia, um


único gene atua na manifestação de vários caracteres. Em termos moleculares
e bioquímicos, podemos dizer que o gene produz apenas uma enzima, mas sua
presença ou ausência tem várias consequências.

• Na endogamia, temos o cruzamento de indivíduos aparentados em virtude de


um ancestral comum. O cruzamento entre parentes é denominado cruzamento
consanguíneo.
28
AUTOATIVIDADE

1 (ENADE Biologia, 2008)


Os componentes do sistema imune envolvem, além de células, proteínas
circulantes, sendo diversos deles utilizados para a identificação de tipos
celulares e para a obtenção de informações genéticas. Considerando aspectos
gerais da Imunologia, é correto:
FONTE: <https://bit.ly/2OxlORO>. Acesso em: 18 set. 2018.

a) ( ) Apenas linfócitos e neutrófilos apresentam antígenos de superfície e,


por esse motivo, são células capazes de produzir anticorpos.
b) ( ) A tipagem sanguínea do sistema ABO envolve reações imunológicas
e pode ser utilizada para a obtenção de informações genéticas sobre
indivíduos.
c) ( ) Diferentes tipos celulares de um mesmo indivíduo não podem ser
diferenciados por marcadores imunológicos, pois os marcadores de
superfície dessas células ligam-se aos mesmos anticorpos.
d) ( ) A região FV (fração variável) de cada anticorpo presente em um conjunto
de anticorpos, obtidos do plasma de um único indivíduo, apresenta a
mesma sequência de aminoácidos.
e) ( ) A reação de fixação do complemento permite a análise de ligação das
fitas complementares de DNA dos anticorpos.

2 Em um determinado dia, nasceram quatro bebês em uma maternidade.


Com base nos grupos sanguíneos (sistema ABO) das crianças e dos casais
de pais, identifique os pais da cada bebê.

(A) Neonato 1 Sangue tipo A ( ) Casal 1 A e AB


(B) Neonato 2 Sangue tipo B ( ) Casal 2 A e O
(C) Neonato 3 Sangue tipo AB ( ) Casal 3 AB e O
(D) Neonato 4 Sangue tipo O ( ) Casal 4 O e O

3 Explique a seguinte notação referente aos alelos do sistema ABO: IA=IB › i.

4 Defina brevemente os seguintes termos:

a) Pleiotropia:
b) Endogamia:
c) Penetrância:
d) Expressividade:
e) Epistasia:

29
5 (ENADE Biologia, 2008)
A poluição em ambientes aquáticos pode ser evidenciada com a utilização de
uma linhagem transgênica do peixe paulistinha (Danio rerio). Essa linhagem
apresenta um gene da luciferase, originário de uma água-viva, que é ativado
em resposta a determinados poluentes. Em situação experimental, o peixe
vivo muda de cor na presença do poluente e depois, ao ser colocado em água
limpa, volta à coloração original e pode ser reutilizado inúmeras vezes. Com
relação ao fenômeno descrito no texto, é correto afirmar que a mudança na
coloração do peixe:
FONTE: CARVAN, M. J. et al. Transgenic zebrafish as sentinels for aquatic pollution. In:
Annals of the New York Academy of Sciences, 919133-47, 2000. Disponível em: < https://
djalmasantos.wordpress.com/2015/10/19/testes-de-biotecnologia-v/>. Acesso em: 18 set.
2018.

a) ( ) Decorre de alterações em moléculas de RNA que não chegam a afetar


os genes do animal.
b) ( ) É um fenômeno que ocorre com frequência em animais transgênicos,
mesmo que estes não tenham o gene da luciferase.
c) ( ) Decorre da ação de genes constitutivos que são ativados por fatores
ambientais.
d) ( ) É um exemplo de como fatores ambientais podem regular o
funcionamento de um gene.
e) ( ) É o resultado de eventos mutacionais, como quebras cromossômicas ou
alterações gênicas.

30
UNIDADE 1
TÓPICO 3

BASES CROMOSSÔMICAS DO
MENDELISMO

1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, para entendermos melhor a importância da genética
para as Ciências Biológicas, Medicina e áreas afins, temos que compreender
a natureza do genoma e dos cromossomos. Devemos conhecer a estrutura e a
composição dos cromossomos, em que momento do ciclo celular tais estruturas
surgem, podendo ser observados por microscopia, e qual a sua importância nos
processos de divisão celular e recombinação genética. Podemos estudar o número
e a estrutura dos cromossomos por coloração das células em divisão.

Cada espécie possui um complemento cromossômico, ou seja, um


cariótipo característico, considerando número e morfologia dos cromossomos.
Os genes estão dispostos nos cromossomos, apresentando uma posição precisa
nos mesmos, denominada de locus. O estudo dos cromossomos, da sua estrutura,
da sua composição e da sua hereditariedade é conhecido como citogenética.

A citogenética originou-se pela pesquisa de vários biólogos do século


XX que descobriram os cromossomos e observaram seu comportamento
durante a divisão celular. Tais observações prosperaram a partir do surgimento
de microscópios modernos e de melhores procedimentos de coloração dos
cromossomos. Atualmente, caro acadêmico, observamos a aplicação de importantes
conhecimentos citogenéticos, principalmente na medicina, sendo utilizados para
identificar a associação entre doenças e anormalidades cromossômicas, como o
cromossomo Philadelphia, no caso da Leucemia Mielóide Crônica.

2 OS CROMOSSOMOS
Primeiramente, acadêmico, temos que deixar claro que os cromossomos
são característicos dos núcleos de todas as células. Os cromossomos foram
descobertos no século XIX pelo citologista alemão W. Waldeyer (1836-1921).

31
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

Para observarmos adequadamente os cromossomos, devemos utilizar


corantes nas células em divisão, como a coloração Giemsa, por exemplo. Neste
período celular, a cromatina formada por ácido desoxirriboncléico (DNA),
ácido ribonucléico (RNA) e proteínas, como as histonas, atinge sua máxima
compactação, formando cromossomos bem definidos, que podem ser classificados
como metacêntricos, submetacêntricos e acrocêntricos, de acordo com a posição
do centrômero (Figura 9). Os braços curtos e longos dos cromossomos são
denominados de p e q, respectivamente. Durante a interfase, entre as divisões
celulares, os cromossomos não são observados, pois na interfase a cromatina
apresenta-se frouxamente espiralada ou compactada, como uma rede difusa e
filamentosa. No núcleo interfásico, algumas regiões da cromatina apresentam
coloração mais escura que outras. As regiões claras ou eucromatina são regiões
menos condensadas, já as regiões escuras são a heterocromatina, regiões mais
condensadas.

FIGURA 9 – ESTRUTURA DOS CROMOSSOMOS

FONTE: Maluf (2011, p. 21)

O número de cromossomos de uma espécie é quase sempre um múltiplo


par de um número básico. O número básico de cromossomos define um conjunto
cromossômico denominado genoma haploide, variando de acordo com a espécie.
A maioria das células somáticas contém duas unidades de cada cromossomo
desse conjunto e, portanto, é diploide (2n). As células que têm quatro unidades
de cada cromossomo são tetraploides (4n). O número de cromossomos não está
necessariamente relacionado com o tamanho nem com a complexidade biológica
de um organismo.

As células somáticas humanas apresentam um complemento


cromossômico diploide (2n) de 46 cromossomos, com 22 pares de autossomos
e um par sexual, XX em mulheres e XY em homens (Figura 10). X E Y são os
cromossomos sexuais, já os autossomos são divididos em grupos e numerados:

32
TÓPICO 3 | BASES CROMOSSÔMICAS DO MENDELISMO

• GRUPO A (PARES DE CROMOSSOMOS 1, 2 E 3).


• GRUPO B (PARES DE CROMOSSOMOS 4 E 5).
• GRUPO C (PARES DE 6 A 12).
• GRUPO D (PARES DE CROMOSSOMOS 13, 14 E 15).
• GRUPO E (PARES DE CROMOSSOMOS 16, 17 E 18).
• GRUPO F (PARES 19 E 20).
• GRUPO G (PARES 21 E 22).

Já as células reprodutivas são haploides (n) com 23 cromossomos, 22


autossomos e um cromossomo sexual, sempre um X em gametas femininos, e X
ou Y em gametas masculinos. Exceção a isso são os hepatócitos tetraploides (4n)
com 92 cromossomos, observados durante a regeneração hepática.

FIGURA 10 – CARIÓTIPO HUMANO DE UM HOMEM (46, XY)

FONTE: Guerra (1989, p. 6)

3 GENES LIGADOS AO SEXO EM HUMANOS


Caro acadêmico, na espécie humana, os traços recessivos ligados ao X
são identificados com muito mais facilidade que as características autossômicas
recessivas, pois é suficiente que um homem herde um alelo recessivo ligado ao
X para mostrar um traço ligado ao X, lembre-se de que os homens são XY; no
entanto, a mulher precisa herdar dois, pois é XX. Deste modo, várias doenças
causadas por alelos recessivos, com loci (plural de locus) no cromossomo sexual
X, são mais comuns em homens, como a hemofilia, por exemplo.

Indivíduos com hemofilia A ou clássica não produzem o fator VIII de


coagulação sanguínea, cujo gene está localizado na extremidade do braço longo do
cromossomo X (porção Xq28). Os ferimentos de hemofílicos geram sangramentos

33
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

que devem ser interrompidos por transfusão de fator de coagulação. O quadro


clínico da hemofilia A é marcado pela recorrência de hemorragias, principalmente
em articulações e músculos. Casos mais graves envolvem hemorragias internas e
do sistema nervoso central. A hemofilia A é o principal tipo de hemofilia em seres
humanos, sendo causada por uma mutação recessiva ligada ao X, afetando quase
que exclusivamente os homens, que herdam a mutação das mães heterozigotas.
Eles, por sua vez, podem transmitir a mutação para as filhas, que geralmente não
têm hemofilia porque herdam um alelo selvagem das mães. Os homens afetados
nunca transmitem o alelo mutante para a prole do sexo masculino, pois aos filhos
são transmitidos os cromossomos Y.

Um caso famoso de hemofilia ligada ao X ocorreu na família imperial


russa no início do século XX. O czar Nicolau e a czarina Alexandra tiveram quatro
filhas e um filho, Alexis, que era hemofílico. O alelo recessivo para a doença de
Alexis, ligado ao X, foi transmitido por sua mãe, portadora heterozigota, não
doente.

Durante muito tempo a hemofilia foi uma doença fatal, sendo que os
doentes morriam antes dos 20 anos de idade. Atualmente, tal quadro sofreu
expressiva alteração em razão dos tratamentos eficazes, e os hemofílicos, de uma
forma geral, podem desenvolver uma vida mais saudável.

Caro acadêmico, com relação ao cromossomo Y, sabemos que o Projeto


Genoma Humano identificou alguns genes, porém em número inferior aos
demais cromossomos. Vários genes no cromossomo Y humano são necessários
à fertilidade masculina. Mutações em determinados genes do Y interferem na
capacidade reprodutiva do homem, ou seja, a possibilidade de transmissão da
mutação para a próxima geração é pequena ou nula. O gene SRY (Sex Determining
Region in chromosome Y) é o gene determinante do sexo no cromossomo Y,
sendo a sua presença o fator fundamental na ativação da diferenciação sexual
masculina no embrião. O gene SRY humano está localizado próximo à região
pseudoautossomal do braço curto do cromossomo Y. A presença do cromossomo
Y é reconhecida como fator determinante do desenvolvimento gonadal masculino
em humanos desde a década de 1950, quando se iniciaram estudos sobre alterações
cromossômicas.

Alguns genes estão presentes tanto no cromossomo X quanto no Y,


geralmente próximos às extremidades dos braços curtos. Os alelos desses genes
não seguem um padrão de herança ligado ao X ou Y, sendo transmitidos igualmente
das mães e dos pais para a prole, como ocorre com os genes autossômicos e, por
conseguinte, são denominados genes pseudoautossômicos. No sexo masculino,
as regiões que contêm tais genes estão envolvidas com o pareamento entre os
cromossomos X e Y.

34
TÓPICO 3 | BASES CROMOSSÔMICAS DO MENDELISMO

4 DETERMINAÇÃO DO SEXO
Caro acadêmico, em humanos, sabemos que as mulheres são XX e
os homens XY. Em seres humanos e outros mamíferos placentários, o sexo
masculino é determinado pela presença do cromossomo Y. Este efeito dominante
do cromossomo Y manifesta-se no início do desenvolvimento embrionário,
proporcionando a transformação das gônadas primordiais em testículos. Quando
formados, os testículos secretam testosterona, um hormônio andrógeno que
estimula o desenvolvimento de características sexuais secundárias masculinas.

As pesquisas científicas sobre determinação do sexo mostraram que


havia a produção de um fator determinante testicular (TDF), fundamental para
a diferenciação das gônadas primordiais em testículos. Este determinante é o
produto do gene SRY, cujo locus foi mapeado próximo à região pseudoautossômica
no braço curto do cromossomo Y (Figura 11).

Prezado acadêmico, a incrível descoberta de SRY ocorreu pela identificação


de indivíduos cujo sexo era incompatível com a constituição cromossômica
(homens XX e mulheres XY). Nestes estudos, observou-se que vários homens
XX apresentavam um pequeno segmento do cromossomo Y inserido em um
dos cromossomos X, com certeza, portando um gene responsável pelo sexo
masculino. Também foi constatado que mulheres XY tinham um cromossomo Y
incompleto, com ausência de um segmento do cromossomo Y que correspondia
ao fragmento presente em homens XX. Desta forma, ficou claro que determinado
segmento do cromossomo Y era necessário para o desenvolvimento masculino.
As análises moleculares identificaram o gene SRY no segmento determinante do
sexo masculino no cromossomo Y.

A partir da expressão gênica de SRY e formação dos testículos, a secreção


de testosterona inicia o desenvolvimento de características sexuais masculinas. A
testosterona é um hormônio que se liga a receptores em muitos tipos de células,
deste modo, inicia todo o processo de diferenciação celular e ao desenvolvimento
de características claramente masculinas. Então, acadêmico, podemos entender
facilmente que na ausência da sinalização de testosterona, essas características
não surgirão, sendo que o indivíduo se desenvolverá como mulher.

35
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

FIGURA 11 – DETERMINAÇÃO DO SEXO EM SERES HUMANOS

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s. p.)

Outro quadro atípico bem entendido é a incapacidade de produzir o


receptor de testosterona, ou seja, há produção do hormônio testosterona, mas
não de seus receptores celulares. Indivíduos XY com essa deficiência bioquímica
desenvolvem-se inicialmente como homens. Entretanto, a testosterona não pode
transmitir o sinal de desenvolvimento nas células-alvo, e os indivíduos que não
têm receptor deste hormônio fundamental desenvolvem características sexuais
femininas. No entanto, não são formados ovários e, portanto, tais indivíduos são
estéreis. Essa síndrome é chamada de insensibilidade a andrógenos. A ausência
do receptor de testosterona ocorre por uma mutação no gene AR, ligado ao
cromossomo X.

Prezado acadêmico, o cromossomo Y de Drosophila não influencia a


determinação do sexo, como ocorre em humanos. O sexo da mosca é determinado
pela razão entre o número de cromossomos X e de autossomos. As moscas
diploides normais têm um par de cromossomos sexuais, XX ou XY, e três pares
de autossomos. Cada conjunto haploide de autossomos é designado com a letra
A. Sempre que a razão entre X e A for igual a 1,0 ou maior, a mosca será fêmea.
Entretanto, sempre que a razão for igual a 0,5 ou menor, a mosca será macho. As
moscas com razão X:A entre 0,5 e 1,0 desenvolvem características de ambos os
sexos. O cromossomo Y é necessário à fertilidade masculina. Resumindo, uma

36
TÓPICO 3 | BASES CROMOSSÔMICAS DO MENDELISMO

mosca normal XX e diploide AA tem a razão X:A igual a um, sendo uma fêmea.
Uma mosca com um X e diploide AA apresentará uma razão X:A igual a 0,5 e será
um macho. Neste caso, estando o Y presente, a mosca será um macho normal e
fértil.

Tanto em Drosophila quanto em humanos, os machos produzem gametas


diferentes, apresentando um cromossomo sexual X ou Y, sendo denominados de
sexo heterogamético, e as fêmeas que apresentam apenas gametas com X são o
sexo homogamético. No entanto, em aves, borboletas e alguns répteis o inverso é
verdadeiro. Nestas espécies, temos os machos como o sexo homogamético, com
dois cromossomos sexuais denominados ZZ. Já as fêmeas são heterogaméticas,
apresentando os cromossomos sexuais Z e W.

5 COMPENSAÇÃO DE DOSE DE GENES LIGADOS AO X


O desenvolvimento de qualquer indivíduo depende de um sensível
equilíbrio do número de genes, além de um sofisticado controle de sua expressão.
Variações dessa condição podem causar fenótipos anormais e até a morte. Neste
sentido, caro acadêmico, é interessante e até surpreendente que muitas espécies
tenham um sistema de determinação do sexo baseado em fêmeas com dois
cromossomos X e machos com apenas um.

Então devemos nos perguntar: como promover o balanço gênico nas


espécies em que a fêmea tem dois cromossomos X e os machos apenas um?
Os estudos têm demonstrado mecanismos para resolver tal questão, mas o
principal, observado em nossa espécie, por exemplo, envolve a inativação de
um cromossomo X em cada célula diploide do organismo das fêmeas. Durante
o desenvolvimento embrionário, um dos dois cromossomos X é aleatoriamente
inativado em cada célula e seus genes deixam de ser expressos. Portanto, tivemos
a evolução de um mecanismo epigenético de compensação de dose denominado
de inativação do cromossomo X.

6 POLIPLOIDIA E ANEUPLOIDIA
O balanço gênico e o controle da expressão gênica são fundamentais para
o desenvolvimento e o funcionamento perfeito de um organismo. Os fenótipos
de muitos organismos são afetados por variações no número de cromossomos em
suas células, pois ocorre variação no número de genes, alteração em sua expressão
e também na produção de proteínas.

Essas diferenças numéricas são descritas como variações da ploidia


do organismo quando temos variação em conjuntos inteiros de cromossomos,
entretanto, os indivíduos que apresentam deficiência ou excesso de um
determinado cromossomo são aneuploides. Organismos com conjuntos
completos de cromossomos são euploides, podendo apresentar conjuntos
37
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

adicionais de cromossomos, sendo denominados de poliploides. Desta forma,


podemos caracterizar os indivíduos como haploides (n cromossomos) quando
apresentam um conjunto de cromossomos, de diploides quando apresentam dois
conjuntos básicos de cromossomos, ou seja, 2n cromossomos; como triploides,
com três conjuntos (3n cromossomos); tetraploides, com quatro conjuntos (4n),
e assim sucessivamente. A espécie humana, por exemplo, apresenta células
diploides normais com 2N = 46 cromossomos. Seres humanos poliploides são
totalmente inviáveis e normalmente são abortados espontaneamente, como os
triploides com 2N = 69, por exemplo.

A poliploidia é bastante comum em vegetais, mas muito rara em animais.


Metade dos gêneros conhecidos de vegetais contém espécies poliploides. Um
efeito da poliploidia é o aumento do tamanho da célula, o que gera aumento
geral de tamanho do organismo. As plantas poliploides tendem ser maiores e
mais robustas que as diploides da mesma espécie. As plantas poliploides podem
produzir sementes e frutos maiores, portanto, apresentam grande interesse
agrícola, como no caso do café, batata, banana, morango, trigo, algodão, além de
plantas ornamentais.

Entretanto, caro acadêmico, as alterações numéricas de cromossomos


podem envolver um determinado cromossomo, neste caso, estamos tratando
de uma aneuploidia, em que os organismos sofrem um desequilíbrio genético
específico de um único cromossomo. A cromossomopatia ou doença cujo quadro
clínico é explicado por um desequilíbrio na constituição cromossômica, mais
conhecida e mais comum em seres humanos é a síndrome de Down, causada por
trissomia do cromossomo 21, ou seja, os indivíduos apresentam três cromossomos
número 21, sendo que o cariótipo 47, XX, + 21 ou 47, XY, + 21 está presente em
mais de 90% dos casos da síndrome.

Já uma monossomia ocorre quando há ausência de um cromossomo.


Em seres humanos, só existe uma monossomia viável, o cariótipo de mulheres
45, X0, ou síndrome de Turner. Esses indivíduos têm um só cromossomo X,
mas apresentam um complemento diploide de autossomos. Cabe salientar que
possuem ovários rudimentares e são quase sempre estéreis. A ausência de um
cromossomo X, como na síndrome de Turner, pode apresentar efeitos severos,
mas a presença de cromossomos X extranumerários, como em indivíduos 47, XXX,
pode ter seus efeitos reduzidos devido à compensação de dose por inativação de
dois cromossomos X, ficando apenas um X ativo em cada célula.

7 ALTERAÇÕES ESTRUTURAIS DOS CROMOSSOMOS


Caro acadêmico, as alterações cromossômicas, porém, não ocorrem
somente em nível numérico. Os cromossomos também podem sofrer alterações
estruturais, podendo levar a mudanças de fenótipo, inviabilizar células e
organismos ou promover o desenvolvimento de diferentes patologias.

38
TÓPICO 3 | BASES CROMOSSÔMICAS DO MENDELISMO

As anormalidades cromossômicas estruturais ocorrem devido a quebras


cromossômicas, produzindo deleções, inversões, duplicações, translocações,
além da formação de isocromossomos ou cromossomos em anel.

• Deleções: a perda de um segmento cromossômico é denominada deleção. As


deleções podem ser detectadas por técnicas citogenéticas de bandeamento
em cromossomos corados. Um exemplo clássico em humanos é a síndrome
do miado do gato, também conhecida como cri-du-chat. Essa síndrome é
causada por deleção no braço curto do cromossomo 5. Indivíduos portadores
da deleção têm o cariótipo 46 del(5)(p14), ou seja, deleção na região 14 do
braço curto (p) de um dos cromossomos 5. Esses indivíduos podem apresentar
grave comprometimento mental e físico, já o choro característico, semelhante
ao miado de gato, deu nome à síndrome.

• Inversões: Nas inversões, um segmento cromossômico quebrado é reinserido


no cromossomo, porém de forma invertida, girando 180°. Como consequência,
ocorre uma inversão da ordem dos genes no segmento cromossômico
envolvido. As inversões podem ocorrer a partir de quebras cromossômicas
induzidas por radiações ionizantes ou cisalhamento mecânico. Entretanto, há
evidências de inversões por atividade de elementos transponíveis, também
conhecidos como transposons, ou seja, sequências de DNA capazes de mudar
de posição no cromossomo. As inversões podem ainda ser classificadas em
pericêntricas ou paracêntricas. As pericêntricas incluem o centrômero do
cromossomo, mudando a sua posição, já as inversões paracêntricas não
envolvem os centrômeros (Figura 12).

FIGURA 12 – INVERSÕES PARACÊNTRICAS E PERICÊNTRICAS. INVERSÕES PERICÊNTRICAS


INCLUEM O CENTRÔMERO

FONTE: Regateiro (2003, p. 275 )

39
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

• Duplicações: a duplicação ocorre quando há um segmento cromossômico


extra, que pode fazer parte de um cromossomo ou pode constituir um novo
cromossomo separado.

• Translocações: elas ocorrem quando um fragmento de um cromossomo se


desprende e se liga a outro cromossomo, não homólogo, havendo a transferência
dos genes de um cromossomo para outro. A troca de fragmentos de dois
cromossomos não homólogos é denominada translocação recíproca, e pode ocorrer
por influências ambientais, como exposição à radiação e a agentes químicos.

Um caso clássico na espécie humana é a formação do cromossomo


Philadelphia, causando Leucemia Mieloide Crônica (LMC). O evento genético
que ocorre na LMC é a translocação recíproca entre os cromossomos 9 e 22,
t(9;22) (q34;q11) nas células-tronco hematopoiéticas, proporcionando a formação
do cromossomo Philadelphia (Ph; 22q-) (Figuras 13 e 14). O resultado desta
translocação é a geração do gene híbrido, quimérico, BCR-ABL1, produzindo
um transcrito ativo BCR-ABL no cromossomo rearranjado Philadelphia (Ph),
codificando uma oncoproteína que apresenta elevada atividade tirosina quinase,
sendo responsável pela grande maioria dos efeitos clínicos na LMC.

Os cromossomos não homólogos podem também se fundir unindo-se


pelas regiões centroméricas, evento denominado de translocação robertsoniana,
em homenagem ao citologista F. W. Robertson (1816-1853). A fusão de dois
cromossomos acrocêntricos produz um cromossomo metacêntrico e os braços
curtos dos cromossomos envolvidos são perdidos (Figura 15).

40
TÓPICO 3 | BASES CROMOSSÔMICAS DO MENDELISMO

FIGURA 13 – CARIÓTIPO 46, XY, T(9;22) (Q34;Q11.2) COM AS SETAS EVIDENCIANDO O


CROMOSSOMO PHILADELPHIA (PH), 22Q- E O SEU DERIVATIVO 9Q+

Ph

FONTE: O autor

FIGURA 14 – FORMAÇÃO DO GENE BCR-ABL NO CROMOSSOMO PHILADELPHIA (PH)

FONTE:< https://www.cancer.gov/publications/dictionaries/cancer-terms/def/bcr-abl-fusion-
gene>. Acesso em: 29 agosto 2015.
41
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

• Isocromossomos: um isocromossomo apresenta deleção de um braço e


duplicação de outro.

• Cromossomo em anel: surge quando as extremidades (telômeros) de um


cromossomo são perdidas, e as suas extremidades sem telômeros ligam-se,
originando um cromossomo em anel.

FIGURA 15 – TRANSLOCAÇÃO ROBERTSONIANA

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s.p. )

42
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• Durante a divisão celular, a cromatina formada por ácido desoxirriboncléico


(DNA), ácido ribonucléico (RNA) e proteínas, atinge a sua máxima compactação,
formando cromossomos bem definidos.

• Os cromossomos podem ser classificados como metacêntricos, submetacêntricos


e acrocêntricos, de acordo com a posição do centrômero.

• As células somáticas humanas apresentam um complemento cromossômico


diploide (2n) de 46 cromossomos, com 22 pares de autossomos e um par sexual,
XX em mulheres e XY em homens.

• Uma série de doenças causadas por alelos recessivos, com loci no cromossomo
sexual X, são mais comuns em homens, como a hemofilia, por exemplo.

• Vários genes no cromossomo Y humano são necessários à fertilidade masculina.

• O gene SRY (Sex Determining Region in chromosome Y) é o gene determinante


do sexo no cromossomo Y, sendo a sua presença o fator fundamental na
ativação da diferenciação sexual masculina no embrião.

• Em seres humanos e outros mamíferos placentários, o sexo masculino é


determinado pela presença do cromossomo Y.

• O efeito dominante do cromossomo Y manifesta-se no início do desenvolvimento


embrionário, proporcionando a transformação das gônadas primordiais em
testículos, que secretam testosterona.

• O cromossomo Y de Drosophila não influencia a determinação do sexo, como


ocorre em humanos. O sexo da mosca é determinado sim pela razão entre o
número de cromossomos X e de autossomos.

• Em aves, borboletas e alguns répteis, temos os machos como o sexo


homogamético, com dois cromossomos sexuais denominados ZZ. Já as fêmeas
são heterogaméticas, apresentando os cromossomos sexuais Z e W.

• Organismos com conjuntos completos de cromossomos são euploides, podendo


apresentar conjuntos adicionais de cromossomos, sendo denominados de
poliploides.

43
• A espécie humana, por exemplo, apresenta células diploides normais com
2N = 46 cromossomos. Seres humanos poliploides são totalmente inviáveis e
normalmente são abortados espontaneamente, como os triploides com 2N = 69.

• A poliploidia é bastante comum em vegetais, mas muito rara em animais.


Metade dos gêneros conhecidos de vegetais contém espécies poliploides.

• As alterações numéricas de cromossomos podem envolver um determinado


cromossomo, neste caso, estamos tratando de uma aneuploidia.

• A cromossomopatia mais conhecida e mais comum em seres humanos é


a síndrome de Down, causada por trissomia do cromossomo 21, ou seja, os
indivíduos apresentam três cromossomos número 21, apresentando cariótipo
47, XX, + 21 ou 47, XY, + 21.

• Uma monossomia ocorre quando há ausência de um cromossomo. Em seres


humanos, só existe uma monossomia viável, o cariótipo de mulheres 45, X0, ou
síndrome de Turner.

• As anormalidades cromossômicas estruturais ocorrem devido a quebras


cromossômicas, produzindo deleções, inversões, duplicações, translocações,
além da formação de isocromossomos ou cromossomos em anel.

• A perda de um segmento cromossômico é denominada deleção. Um exemplo


clássico em humanos é a síndrome do miado do gato ou cri-du-chat, causada
por deleção no braço curto do cromossomo 5.

• Nas inversões, um segmento cromossômico quebrado é reinserido no


cromossomo, porém de forma invertida, girando cerca de 180°.

• As translocações ocorrem quando um fragmento de um cromossomo se


desprende e se liga a outro cromossomo.

• Na espécie humana, a formação do cromossomo Philadelphia causa Leucemia


Mieloide Crônica (LMC). O evento genético que ocorre na LMC é a translocação
recíproca entre os cromossomos 9 e 22, t(9;22) (q34;q11), resultando na formação
do cromossomo Philadelphia (Ph; 22q-).

44
AUTOATIVIDADE

1 Na espécie humana, o número diploide de cromossomos é 46. Quantos


cromossomos são encontrados nos neurônios, espermatozoides, células
epidérmicas e óvulos, respectivamente?

a) ( ) 46, 23, 23, 46.


b) ( ) 46, 22 ,22, 46.
c) ( ) 23, 23, 23, 46.
d) ( ) 46, 23, 46, 23.
e) ( ) 23, 46, 23, 46.

2 A alteração citogenética mais comum na leucemia mieloide crônica é:

a) ( ) Cromossomo Philadelphia.
b) ( ) t(15,21).
c) ( ) t(14,21).
d) ( ) Trissomia do cromossomo 12.
e) ( ) Monossomia do cromossomo 5.

3 Defina as seguintes alterações cromossômicas estruturais, relacionando com


uma doença causada pelas mesmas.

• Translocação recíproca:
• Deleção:

4 Explique a importância do cromossomo Y na determinação do sexo na


espécie humana e em Drosophila.

45
46
UNIDADE 1
TÓPICO 4

MAPAS CROMOSSÔMICOS

1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, os mapas cromossômicos atuais surgiram a partir
de vários estudos citogenéticos. O pesquisador Thomas H. Morgan (1866-
1945) embasou tais estudos ao demonstrar que o gene para os olhos brancos
em Drosophila apresentava seu locus no cromossomo X. Estudos adicionais de
colaboradores de Morgan demonstraram que outros genes estavam localizados
no X de Drosophila, por exemplo, formando um mapa para este cromossomo.

Quando tratamos de mapeamento do genoma, estamos estudando a


localização dos genes nos cromossomos e o conhecimento das distâncias físicas e
genéticas que os separam, bem como o sequenciamento do DNA.

Atualmente, estamos diante de precisos mapas cromossômicos em


diferentes espécies. O projeto genoma humano (PGH) teve como objetivo
identificar todos os genes responsáveis por nossas características normais
e patológicas. Os mapas cromossômicos e o sequenciamento do genoma
humano podem permitir, por exemplo, a prevenção e o diagnóstico precoce de
enfermidades. Muitas patologias com causa genética podem vir a ser tratadas em
nível molecular. Já é possível detectar, no pré-natal, a quais doenças o indivíduo
está mais vulnerável.

2 LIGAÇÃO, RECOMBINAÇÃO E CROSSING-OVER


O método de mapeamento dos cromossomos foi desenvolvido por
Alfred H. Sturtevant (1891-1970), um acadêmico de graduação que trabalhava
no laboratório de Morgan. Para tal, Sturtevant utilizou análises de dados de
cruzamentos experimentais em Drosophila.

O mapeamento de Sturtevant foi baseado no princípio de que genes


situados no mesmo cromossomo devem ser herdados juntos, pois estão
fisicamente ligados e devem seguir unidos durante a meiose. Esse fenômeno é
denominado ligação (linkage). Morgan e seus alunos acreditavam que os genes
estivessem organizados de forma linear nos cromossomos.

47
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

No entanto, sabemos que a ligação não é absoluta. Os dados experimentais


dos primeiros geneticistas mostravam que genes no mesmo cromossomo
poderiam ser separados durante a meiose, ou seja, na divisão celular de formação
de gametas, e que novas combinações de genes poderiam ocorrer. Neste caso,
haveria então pareamento dos cromossomos homólogos e uma troca física de
material genético, recombinando os genes. Os pontos de cruzamento foram
denominados de quiasma, e o processo de troca entre cromossomos pareados de
crossing-over. Desta forma, a recombinação, ou seja, separação de genes ligados e
a formação de novas combinações gênicas é uma consequência do crossing-over.

Os gametas recombinantes são produzidos pelo crossing-over entre


cromossomos homólogos, havendo permuta física entre os cromossomos na
prófase da primeira divisão meiótica, após pareamento dos cromossomos
duplicados (Figura 16). Embora haja quatro cromátides homólogas, somente
duas participam do crossing-over em um ponto específico. Cada cromátide é
quebrada no local da permuta, e os fragmentos se ligam novamente, produzindo
recombinantes. Caro acadêmico, devemos ressaltar que apenas duas cromátides
participam da permuta em determinado ponto. Entretanto, pode haver permuta
das outras duas cromátides em outro local.

FIGURA 16 – CROSSING-OVER. RECOMBINAÇÃO ENTRE CROMOSSOMOS HOMÓLOGOS

FONTE: Snustad, Simmon (2017, s. p. )

3 MAPEAMENTO CROMOSSÔMICO
Caro acadêmico, para entendermos a técnica de mapeamento, vamos
considerar o cruzamento-teste da Figura 19. As fêmeas de Drosophila de tipo
selvagem foram cruzadas com machos homozigotos para duas mutações
autossômicas – vestigial (vg), que produz asas curtas, e black (b), que produz
corpo preto.

Todas as moscas da F1 tinham asas longas e corpos cinza, pois os alelos


selvagens vg+ e b+ são dominantes. Em seguida, fez-se o cruzamento-teste das
fêmeas da F1 com machos de corpo preto e asas curtas, e a prole da F2 foi analisada.

48
TÓPICO 4 | MAPAS CROMOSSÔMICOS

Como resultado, temos quatro classes fenotípicas, duas mais frequentes e duas
menos. As classes de alta frequência apresentam o mesmo fenótipo dos pais, e as
classes menos frequentes têm fenótipo recombinante. Considerando os resultados
da F2, podemos verificar que os genes vestigial e black estão ligados porque os
recombinantes são pouco frequentes na prole total. Portanto, é obrigatório que
esses genes estejam no mesmo cromossomo, ou seja, não são herdados de forma
independente. Para determinar a distância entre os genes, é preciso estimar a
frequência dos recombinantes na F2, sendo que cada mosca recombinante herdou
um cromossomo apresentando crossing-over entre vg e b.

O resultado apresenta que 18% dos cromossomos isolados da meiose


tinham um crossing-over entre vg e b. Os geneticistas chamam a unidade de mapa
de centiMorgan, abreviado como cM, em homenagem a T. H. Morgan. Portanto,
podemos dizer que vg e b estão distantes 18 cM. Note que a distância no mapa é
igual à frequência de recombinação, escrita na forma de porcentagem.

49
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

FIGURA 17 – RESULTADOS NA F2 DE DOIS GENES LIGADOS, VG E B, EM DROSOPHILA.

FONTE: Adaptado de Snustad, Simmon (2017, s.p.)

50
TÓPICO 4 | MAPAS CROMOSSÔMICOS

Na Figura 17 os resultados na F2 a partir de cruzamento-teste das fêmeas


da F1com machos de corpo preto e asas curtas, ou seja, homozigotos recessivos,
apresentam 820 não recombinantes e 180 recombinantes. A frequência de
recombinantes é obtida, dividindo o número de recombinantes pelo número total
de indivíduos, assim sendo, temos 180/1000 = 0,18.

Prezado aluno, espera-se que os cromossomos maiores apresentem mais


crossing-overs que os curtos. Entretanto, alguns segmentos de um cromossomo
são mais propensos ao crossing-over que outros. Desta forma, podemos perceber
que as distâncias no mapa genético não correspondem exatamente às distâncias
físicas no mapa citológico do cromossomo.

Está muito claro que a probabilidade de ocorrer crossing-over perto


das extremidades de um cromossomo ou próximo do centrômero é reduzida.
Portanto, temos essas regiões mais condensadas no mapa genético. Regiões com
maior frequência de crossing-overs estão expandidas.

Resumindo, não existe uma relação uniforme entre distância física e


genética dos genes em um cromossomo, mas os mapas genéticos e citológicos de
um cromossomo são colineares. O mapeamento pelos estudos de recombinação
revela a ordem correta dos genes ao longo de um cromossomo, no entanto, não
mostra as distâncias físicas verdadeiras.

4 MAPEAMENTO CITOGENÉTICO
O mapeamento realizado pelos estudos de recombinação identifica as
posições relativas dos genes, usando a frequência de crossing-over como medida
de distância, porém, caro acadêmico, não possibilita a localização de genes com
relação a pontos de referência, como as bandas cromossômicas.

Para a localização mais precisa dos genes, pode-se realizar estudos de


efeitos fenotípicos dos rearranjos cromossômicos, como deleções e duplicações.
Tais rearranjos podem ser identificados e, assim, se correlacionar seus efeitos
fenotípicos a determinadas regiões de um cromossomo.

Deleções e duplicações foram muito úteis para a localização dos genes nos
mapas citológicos dos cromossomos de Drosophila. No mapeamento por deleção,
temos a perda de um segmento cromossômico que apresenta um alelo selvagem,
revelando uma mutação recessiva, ou seja, aparecendo o fenótipo de um alelo
recessivo presente no homólogo sem a deleção. Essa deleção localiza esse gene
dentro dos limites da deleção.

Também podemos usar duplicações para identificar a localização


citológica dos genes. Neste caso, pesquisamos uma duplicação que mascara o
fenótipo de uma mutação recessiva. Uma duplicação que cobre uma mutação
recessiva contém obrigatoriamente uma cópia de tipo selvagem do gene mutante.

51
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

A análise de ligação gênica na espécie humana envolve a obtenção de dados


de heredogramas. Entretanto, os dados podem ser limitados ou incompletos.
Atualmente, graças aos métodos de biologia molecular, podemos analisar a
herança de dezenas de marcadores moleculares, envolvendo diferentes loci, no
mesmo conjunto de heredogramas, o que possibilita uma grande capacidade de
detectar a ligação e de estabelecer mapas cromossômicos detalhados.

5 RECOMBINAÇÃO E EVOLUÇÃO
As mutações podem gerar problemas para a sobrevivência dos organismos,
que acabam sendo eliminados por seleção natural. Entretanto, nem todas as
mutações são prejudiciais e deletérias para os portadores.

A mutação é a base de toda a variabilidade genética, e se constitui na


matéria-prima para a evolução. A recombinação rearranja essa variabilidade e a
seleção natural preserva as combinações mais bem adaptadas ao ambiente. Sem
mutação e recombinação, os genes seriam sempre iguais e os organismos não
poderiam evoluir.

Se é verdade que a mutação é a fonte primária da variabilidade genética,


também é verdade que a recombinação gênica é importante na reorganização
entre os diferentes alelos e genes dos seres vivos. A evolução seria extremamente
lenta se não houvesse um meio de reunir as mutações de diferentes indivíduos. A
mutação e a recombinação proporcionam o surgimento de organismos mais bem
adaptados ao ambiente.  

Caro acadêmico, as mutações e a recombinação gênica, como o crossing-


over, agem em conjunto. A mutação modifica o DNA, e a recombinação
proporciona o estabelecimento de várias combinações genéticas. A estabilidade
genética é fundamental para a vida em curto prazo, mas considerando períodos
de tempo mais longos, podemos ter uma dependência da variabilidade genética.

Importante também é entender que a molécula de DNA pode sofrer


rearranjos, gerando novas combinações de genes em um determinado genoma,
ou ainda promover a alteração da expressão dos mesmos. Tais rearranjos do
DNA são realizados pela recombinação genética homóloga, como crossing-over
na meiose e sítio-específica, em que não é necessária extensa homologia do DNA.

Caro acadêmico, as diferentes combinações de genes geradas por


recombinação podem, porém, ser impedidas por rearranjos dos cromossomos,
como inversões. O crossing-over geralmente é inibido nas regiões onde ocorrem
rearranjos, por desorganizar o pareamento dos cromossomos, reduzindo a
frequência de recombinações.

52
TÓPICO 4 | MAPAS CROMOSSÔMICOS

A supressão da recombinação foi importante na evolução dos cromossomos


sexuais em mamíferos. As evidências partem de estudos com uma série de genes
compartilhados pelos cromossomos humanos X e Y, pois ocupam posições
diferentes nestes cromossomos X e Y, o que deve ter ocorrido por inversões
durante a evolução.

Devemos salientar ainda que as sequências desses genes divergiram


em diferentes graus ao longo do tempo, sendo que algumas regiões tiveram a
recombinação suprimida por diferentes períodos durante a evolução.

Os pesquisadores atualmente entendem que os cromossomos X e Y


se originaram de um par de autossomos, e uma inversão no que se tornaria o
cromossomo Y causou uma supressão regional da recombinação entre X e Y. Em
humanos, outras inversões suprimiram a recombinação entre várias regiões nos
cromossomos X e Y. No entanto, genes ativos foram preservados no cromossomo
X, mas no cromossomo Y houve degeneração da maioria dos genes por efeito de
mutações. Deste modo, o cromossomo Y passou a apresentar menos genes ativos
que o X, arranjados em ordem diferente.

DICAS

Prezado acadêmico, assista ao filme Gattaca – Experiência Genética. O filme


envolve uma série de aspectos éticos extremamente importantes relacionados à Genética
Humana, considerando o presente e um futuro não muito distante.
FONTE: <https://www.youtube.com/watch?v=mV40nDD7gDk>. Acesso em: 18 set. 2018

53
UNIDADE 1 | PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE

LEITURA COMPLEMENTAR

Iremos, enfim, curar doenças genéticas?

Alexandro Cézar Faleiro

Há muito tempo, pesquisadores de diversas áreas buscam desenvolver


uma metodologia capaz de corrigir erros no material genético humano. No
entanto, manipular o nosso DNA não é tão simples quanto nos filmes de ficção
científica, afinal existem vários mecanismos envolvidos no armazenamento, na
regulação da expressão e na correção da nossa informação genética.

Mesmo assim, ao longo dos anos, desde que Watson, Crick, Franklin e
Wilkins desvendaram a estrutura do DNA, várias pesquisas foram desenvolvidas
com a finalidade de curar doenças ocasionadas por genes não funcionais ou
que levam à síntese de uma proteína alterada. Como exemplo podemos citar o
albinismo, a diabetes, a fibrose cística, entre outras.

A fibrose cística (ou micoviscidose) é uma doença grave que afeta


principalmente o pulmão, pâncreas e o sistema digestório e, até o momento, é
incurável. Caracteriza-se pela produção de um muco muitas vezes mais espesso
que aquele produzido normalmente pelo organismo, favorecendo o acúmulo
de bactérias e, consequentemente, a ocorrência de inflamações e infecções; nos
pulmões, além da possibilidade de infecção, o muco dificulta muito a respiração,
prejudicando a qualidade de vida. Atualmente, o diagnóstico precoce associado
a um tratamento multidisciplinar adequado é capaz, não apenas, de aumentar a
expectativa de vida, mas também, melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Durante algum tempo, pesquisadores tentaram desenvolver uma terapia


gênica para a fibrose cística, porém, sem sucesso. Recentemente, um grupo de
cientistas ingleses obteve um resultado, embora modesto, bastante promissor.
Utilizando-se de um vetor não-viral, a terapia foi administrada através de
nebulização (método semelhante a uma inalação), de forma que o gene
modificado alcançasse as células pulmonares. Ainda há muito que se fazer, mas
um importante passo foi dado. O estudo pode ser acessado no site da revista THE
LANCET Respiratory Medicine.

Atualmente, a técnica que está roubando cena é denominada CRISPR/


Cas9 (pronuncia-se Crisper-cás-nove e significa Clustered Regularly Interspaced
Short Palindromic Repeats — Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e
Regularmente Interespaçadas) e a Cas9 é a principal nuclease envolvida e tem
como função cortar o DNA. Esse mecanismo é utilizado por bactérias para
combater infecções virais (sim, existem vírus capazes de infectar bactérias,
denominados bacteriófagos). Essa técnica permite cortar regiões específicas do

54
TÓPICO 4 | MAPAS CROMOSSÔMICOS

DNA e corrigir o erro, é o que se chama de edição do DNA. Para que isso seja
possível, é necessário fornecer à Cas9 uma molécula de RNA (RNA guia) que
contém a sequência correta e, a partir daí, cortar a dupla-fita de DNA para que
ocorra a inserção. As aplicações dessas técnicas são amplas e variadas, podendo
ser usada para:

• Combate à malária, através da edição de genes no mosquito transmissor,


causando a esterilidade do mesmo;
• Combate à poluição usando microrganismos modificados capazes de digerir
vários tipos de poluentes;
• Melhoramento de plantas cultivadas, conferindo maior resistência a pragas e/
ou alterações climáticas;
• Cura de doenças genéticas humanas.

É possível, ainda, manipular genes de embriões para que os bebês nasçam


geneticamente favorecidos, ou seja, melhorados geneticamente. Assim, seria
possível termos bebês que nasçam com maior aptidão física ou com a cor dos
olhos escolhida pelos pais; porém, com base nos princípios da Bioética, esse tipo
de situação não é aceitável, não devendo ocorrer a manipulação ou edição do
DNA com essa finalidade.

Temos, ainda, um longo caminho a ser percorrido, tanto no que refere


a própria técnica quanto nas discussões éticas que a envolvem, mas, o fato é
que estamos, sim, caminhando para a cura, se não de todas, de grande parte
das doenças genéticas e, consequentemente, para melhor qualidade de vida das
pessoas que convivem com essas doenças.

FONTE: <http://docente.unemat.br/acfaleiro/crispr/>. Acesso em: 18 set. 2018.

55
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você aprendeu que:

• Os mapas cromossômicos e o sequenciamento do genoma humano podem


permitir a prevenção e o diagnóstico precoce de enfermidades, bem como vir a
ser tratadas em nível molecular.

• O início do desenvolvimento do mapeamento cromossômico foi baseado no


princípio de que genes situados no mesmo cromossomo devem ser herdados
juntos, pois estão fisicamente ligados e seguem unidos durante a meiose. Esse
fenômeno é denominado de ligação (linkage).

• No entanto, sabemos que a ligação não é absoluta. Os genes do mesmo


cromossomo podem ser separados durante a meiose, e novas combinações de
genes podem surgir. Há pareamento dos cromossomos homólogos e uma troca
física de material genético recombinando os genes. Os pontos de cruzamento
são denominados de quiasma, e o processo de troca entre cromossomos
pareados de crossing-over.

• Os geneticistas chamam a unidade de mapa de centiMorgan, abreviado como


cM, em homenagem a T. H. Morgan.

• Alguns segmentos de um cromossomo são mais propensos ao crossing-over que


outros. Desta forma, podemos perceber que as distâncias no mapa genético
não correspondem exatamente às distâncias físicas no mapa citológico do
cromossomo.

• A probabilidade de ocorrer crossing-over perto das extremidades de um


cromossomo ou próximo do centrômero é reduzida.

• Para a localização mais precisa dos genes, pode-se realizar estudos de efeitos
fenotípicos dos rearranjos cromossômicos, como deleções e duplicações.

• A análise de ligação gênica na espécie humana envolve a obtenção de dados de


heredogramas. Graças aos métodos de biologia molecular, podemos analisar a
herança de dezenas de marcadores moleculares, envolvendo diferentes loci, no
mesmo conjunto de heredogramas, o que possibilita uma grande capacidade
de detectar a ligação e de estabelecer mapas cromossômicos detalhados.

• As mutações podem gerar problemas para a sobrevivência dos organismos,


que acabam sendo eliminados por seleção natural. Entretanto, nem todas as
mutações são prejudiciais.

56
• A mutação é a base de toda a variabilidade genética e se constitui na matéria-
prima para a evolução. A recombinação rearranja essa variabilidade e a seleção
natural preserva as combinações mais bem adaptadas ao ambiente.

• Os rearranjos do DNA são realizados pela recombinação genética homóloga,


como crossing-over na meiose e sítio-específica, em que não é necessária extensa
homologia do DNA.

• As diferentes combinações de genes geradas por recombinação podem ser


impedidas por rearranjos dos cromossomos, como inversões. O crossing-over
geralmente é inibido nas regiões onde ocorrem rearranjos.

• A supressão da recombinação foi importante na evolução dos cromossomos


sexuais em mamíferos.

• Os cromossomos X e Y podem ter se originado de um par de autossomos,


e uma inversão no que se tornaria o cromossomo Y causou uma supressão
regional da recombinação entre X e Y.

57
AUTOATIVIDADE

1 (ENADE Biologia, 2011)

As endonucleases de restrição são utilizadas para a obtenção de fragmentos de


DNA que contêm os genes. A obtenção do gene D, tendo como base o mapa
acima, seria possível por digestão com:
FONTE: < https://bit.ly/2MDTyuZ>. Acesso em: 18 set. 2018.

a) ( ) BglII.
b) ( ) SalI.
c) ( ) BamHI.
d) ( ) BamHI + SalI.
e) ( ) BglII + SalI.

2 Os genes W e R apresentam loci no mesmo cromossomo, sendo a distância


entre eles de 17 cM. A frequência de gametas WR e wr formados por um
indivíduo WR/wr é de:

a) ( ) 8,5%
b) ( ) 17%
c) ( ) 34%
d) ( ) 41,5%
e) ( ) 83%

3 Um indivíduo com genótipo ainda não determinado gerou os seguintes


gametas:
5% AB; 45% Ab; 45% aB; 5% ab. Baseado nestas informações, responda:

a) Quais desses gametas são parentais e quais são recombinantes?


b) Qual o genótipo do indivíduo?
c) Qual a taxa de recombinação?
d) Qual a distância dos loci A e B no mapa genético?

4 Correlacione mutação, recombinação, crossing-over e evolução das espécies.

58
UNIDADE 2

GENÉTICA MOLECULAR

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• compreender as bases da Genética Molecular;

• proporcionar ao acadêmico conhecimentos da estrutura molecular do


material genético e dos processos celulares nos quais ele está envolvido,
considerando os aspectos relacionados ao fluxo da informação gênica;

• entender, do ponto de vista teórico, como funcionam e são aplicadas as


Técnicas de Biologia Molecular, fornecendo as condições necessárias para
analisar e discutir os aspectos éticos envolvidos;

• possibilitar o desenvolvimento do raciocínio crítico e interpretação do de-


senvolvimento científico na área da Genética Molecular.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 - OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA

TÓPICO 2 - TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO


GENÉTICA

TÓPICO 3 - TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR

59
60
UNIDADE 2
TÓPICO 1

OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A
CROMATINA

1 INTRODUÇÃO
Em 1869, Johann Friedrich Miescher, um jovem suíço estudante de
Medicina, isolou a partir de leucócitos uma substância ácida, rica em nitrogênio e
fósforo, a qual chamou de “nucleína”. A existência de cadeias polinucleotídicas,
o principal componente do material ácido da nucleína de Miescher, só foi
documentada nos anos 1940. Contudo, o papel dos ácidos nucleicos no
armazenamento e na transmissão de informações genéticas só foi confirmado em
1944, e a estrutura em dupla-hélice do DNA foi descoberta em 1953, por Watson
(1928) e Crick (1916-2004).

A função do DNA, ou seja, armazenar a informação genética ao longo


de sequências de quatro bases nitrogenadas (A, T, C e G), foi atribuída por
muito tempo às proteínas. Cromossomos são compostos por ácidos nucleicos e
proteínas, mas desde a década de 1940 os resultados de experimentos indicaram
claramente que as informações genéticas são armazenadas em ácidos nucleicos,
não em proteínas.

Entretanto, é importante salientar, caro acadêmico, que há dois tipos de


ácidos nucleicos: o ácido desoxirribonucleico (DNA) e o ácido ribonucleico (RNA).
As moléculas de DNA e o RNA são a base da hereditariedade. Com relação ao
RNA, existem várias classes desta molécula, e os estudos científicos revelaram a
sua participação fundamental na fisiologia das células.

Com os achados científicos de que o DNA é a matéria-prima dos


genes, entendemos que todos os genes têm praticamente a mesma estrutura
tridimensional; as diferenças estão relacionadas principalmente com a sequência
das quatro bases nitrogenadas. Contudo, o RNA, quimicamente muito semelhante
ao DNA, apresenta grandes diferenças em sua estrutura e propriedades físico-
químicas, relacionadas à grande variedade de funções celulares desempenhadas,
como o transporte de informação genética e a catálise de reações, bem como no
controle da expressão gênica. Deste modo, o RNA tem sido apontado como a
macromolécula primordial no processo de origem da vida.
61
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

2 ESTRUTURA E FUNÇÃO DOS ÁCIDOS NUCLEICOS


Os ácidos nucleicos (DNA e RNA) são polímeros, ou seja, macromoléculas
constituídas por subunidades repetidas, os nucleotídeos. Cada nucleotídeo é
constituído por grupamentos fosfato, um açúcar com cinco átomos de carbono,
ou pentose, e um composto nitrogenado cíclico chamado base (Figura 1). Já
uma base nitrogenada ligada a um açúcar apenas, forma um nucleosídeo, sem
grupamentos fosfato.

FIGURA 1 - ESTRUTURA DE NUCLEOTÍDEOS

FONTE: Zaha (2012, p. 61)

No DNA, a pentose é a 2-desoxirribose (ácido desoxirribonucleico), já


no RNA, o açúcar é a ribose (ácido ribonucleico). Como pode ser verificado na
Figura 2, a desoxirribose apresenta no carbono 2 um grupamento OH, e a ribose
um hidrogênio.

FIGURA 2 - PENTOSES: RIBOSE (RNA) E DESOXIRRIBOSE (DNA)

FONTE: Zaha (2012, p. 61)

62
TÓPICO 1 | OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA

Quatro bases diferentes são encontradas no DNA: adenina (A), guanina


(G), tiamina (T) e citosina (C). O RNA geralmente também contém adenina,
guanina e citosina, mas tem uma base diferente, uracila (U), no lugar da timina.
A adenina e a guanina são bases de anel duplo chamadas purinas; a citosina,
a timina e a uracila são bases de anel simples chamadas pirimidinas. Portanto,
tanto o DNA quanto o RNA têm quatro diferentes nucleotídeos: dois nucleotídeos
purínicos e dois nucleotídeos pirimidínicos (Figura 3).

FIGURA 3 – NUCLEOTÍDEOS FORMADORES DO DNA: (A) ADENILATO; (B) GUANILATO; (C)


CITIDINILATO E (D) TIMIDINILATO. (E) LIGAÇÃO GLICOSÍDICA E LIGAÇÃO ÉSTER

63
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

A ligação química que une os átomos de nitrogênio das bases ao carbono


1’ da desoxirribose é a N-glicosídica. A adição de um ou mais grupos fosfato ao
carbono 5’ do nucleosídeo dá origem ao nucleotídeo. Portanto, o nucleosídeo é
formado por uma ligação N-glicosídica entre o açúcar e a base, já o nucleotídeo é
formado por uma ligação fosfodiéster entre o açúcar e o fosfato. Nas moléculas de
DNA e RNA, os nucleotídeos são unidos em longas cadeias. O RNA geralmente
é um polímero unifilamentar, entretanto, o DNA é uma molécula bifilamentar.

Os nucleotídeos são ligados entre si por ligações fosfodiéster, formando


cadeias polinucleotídicas, tanto para DNA como para o RNA. As ligações são
estabelecidas entre o grupo hidroxila ligado ao carbono 3’ de um nucleotídeo com
o grupo fosfato que, por sua vez, está ligado ao carbono 5’ de outro nucleotídeo
(Figura 4). Este padrão confere às cadeias polinucleotídicas uma propriedade
de grande importância, a direcionalidade. O primeiro nucleotídeo da cadeia
apresenta uma extremidade 5’ com um grupamento fosfato, e o nucleotídeo da
extremidade 3’ terá um grupamento hidroxílico, portanto, a fita de DNA ou de
RNA apresenta uma orientação 5’ → 3’.
64
TÓPICO 1 | OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA

FIGURA 4 - REPRESENTAÇÃO DE UMA FITA SIMPLES DE DNA, ORIENTAÇÃO 5’ → 3’.

FONTE: Zaha (2012, p. 21)

Em 1953, James Watson e Francis Crick propuseram um modelo de dupla


hélice para o DNA, onde as duas fitas se enrolam em torno do eixo da hélice
(Figura 5). As ligações fosfodiéster em ambas as fitas do DNA estão em direções
opostas, ou seja, as fitas são antiparalelas, uma está na direção 5’→ 3’ e a outra
na direção 3’→ 5’ (Figura 6). Ao longo de uma dupla-hélice de DNA, as ligações
fosfodiéster de um filamento vão de um carbono 3’ de um nucleotídeo a um
carbono 5’ do nucleotídeo adjacente, enquanto no filamento complementar seguem
de um carbono 5’ para um carbono 3’. Tal padrão de polaridade dos filamentos
complementares é importante na replicação, transcrição e recombinação do DNA.

65
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 5 - DUPLA HÉLICE DE DNA

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 202)

O pareamento entre as bases nitrogenadas de ambas as fitas é fundamental


para estrutura da molécula de DNA. Como podemos ver na Figura 6, caro
acadêmico, o pareamento entre as bases sempre ocorre entre adenina e timina
(AT) e entre citosina e guanina (CG), através de pontes de hidrogênio. Podemos
observar, claramente, que entre A e T temos duas pontes de hidrogênio e entre C
e G são produzidas três ligações ponte de hidrogênio.

66
TÓPICO 1 | OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA

FIGURA 6 - (A) REPRESENTAÇÃO PLANAR DA DUPLA FITA DE DNA. (B) FORMA PLANAR DOS
PAREAMENTOS ENTRE AS BASES NITROGENADAS

FONTE: Zaha (2012, p. 23)

Caro acadêmico, observe que ao conhecermos a sequência de bases de


um dos filamentos de uma dupla-hélice de DNA, também sabemos a sequência
de bases do outro filamento, devido ao pareamento específico de bases (AT e
CG). Lembrando que os dois filamentos de uma dupla-hélice de DNA são
complementares, por exemplo, a sequência 5’– CATCAG – 3’ em uma cadeia
corresponde a uma sequência complementar 3’ – GTAGTC – 5’ de outra cadeia. A
complementaridade dos filamentos da dupla-hélice torna o DNA adequado para
armazenar e transmitir as informações genéticas entre as gerações.

Como podemos ver na Figura 5, os pares de bases no DNA são empilhados


com uma distância de 0,34 nm e 10 pares de bases por volta (360°) da dupla-hélice.

A estabilidade das hélices duplas de DNA é consequência, em parte, do


grande número de pontes de hidrogênio entre os pares de bases, mas também
ocorre pela hidrofobicidade dos nucleotídeos que apresentam baixa solubilidade
em água. Já o fosfato e a desoxirribose são moléculas altamente polares que
podem interagir fortemente com moléculas de água. Portanto, na estrutura

67
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

tridimensional do DNA, o fosfato e a desoxirribose estão mais expostos à água,


já as bases nitrogenadas se encontram no interior da dupla hélice, apresentando
contato reduzido com a água. O centro hidrofóbico de pares de bases empilhados
contribui bastante para a estabilidade das moléculas de DNA presentes nos
protoplasmas aquosos das células vivas.

O modelo espacial mostra também que os dois sulcos ou cavidades laterais


de uma dupla-hélice de DNA não são idênticos, sendo que o sulco maior é muito
mais largo que o sulco menor (Figura 7). Muitas proteínas ligam-se ao DNA
através destas cavidades, como as proteínas reguladoras da expressão gênica, por
exemplo. Um aspecto relacionado aos sulcos maior e menor é que nessas regiões
as bases nitrogenadas podem estar mais expostas, o que possibilita interações
com proteínas que reconhecem sequências específicas do DNA.

FIGURA 7 - CAVIDADES MAIOR E MENOR DA DUPLA HÉLICE DE DNA

FONTE: Zaha (2012, p. 22)

Prezado acadêmico, a dupla-hélice do DNA, tomando como base


o modelo descrito por Watson-Crick, é denominada de forma B. No tipo B, a
dupla-hélice é voltada para a direita e cada par de bases está torcido sobre o
par inferior por aproximadamente 36°. Assim, considera-se que uma estrutura

68
TÓPICO 1 | OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA

com o empilhamento de dez pares de bases corresponde a uma torção de 360°, e,


portanto, a uma volta completa da dupla-hélice. Em diferentes condições físico-
químicas, o DNA pode assumir outras configurações distintas do tipo B (Figura
8). Em condições de baixa umidade, as fibras do DNA podem apresentar o tipo
A, que tem maior número de pares de bases (11 pares no tipo A contra 10,5 pares
no tipo B) a cada volta da hélice, apresentando um diâmetro maior que o tipo
B. Assim como o tipo B, o A também está voltado para a direita. O sulco maior
do tipo A é mais profundo e mais estreito que a estrutura correspondente no B.
Entretanto, o sulco menor do tipo A é mais largo e raso que o sulco menor do
tipo B. Acredita-se que o tipo A do DNA pode ser importante em determinados
complexos de DNA-proteína e durante a formação de híbridos DNA-RNA durante
a transcrição gênica. Finalmente, algumas sequências de DNA no tipo B podem
transitar para o tipo Z, onde o DNA tem uma aparência de zigue-zague, por isso
o uso da letra Z. A diferença mais contundente é a mudança de orientação da
volta à direita para a volta à esquerda. Regiões do DNA que apresentam resíduos
de purinas alternados com resíduos de pirimidinas são mais suscetíveis a sofrer
essas transições. O DNA em Z aparece mais alongado, com 12 pares de bases
por volta. Tem sido sugerido que o DNA do tipo Z ocorre durante a transcrição,
absorvendo parte do superenrolamento do DNA que ocorre durante tal evento.

FIGURA 8 - TIPOS DE DNA (A, B E Z)

FONTE: Zaha (2012, p. 30)

69
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

Caro acadêmico, vamos tratar agora, de forma mais específica, das


moléculas de RNA. Muitas das considerações anteriores sobre a estrutura do
DNA são também válidas para o RNA. O RNA é um ácido nucleico, e por isso
também é um polímero de nucleotídeos. Assim como o DNA, o polímero do
RNA é mantido por ligações fosfodiéster entre nucleotídeos adjacentes (Figura 9).
No entanto, em vez de uma 2’-desoxirribose, o RNA contém uma ribose. Como
vimos anteriormente, os dois açúcares diferem em apenas um átomo de oxigênio
que faz parte da hidroxila na posição 2’ da ribose. Essa sutil diferença resulta
em drásticas consequências na estabilidade dos ácidos nucleicos. A presença
do grupo hidroxila altera profundamente a estabilidade do RNA ao tornar esse
polímero suscetível à hidrólise catalisada por base. O DNA, por não ter essa
hidroxila, é mais estável. Essas características parecem ter favorecido a seleção do
DNA como molécula armazenadora da informação genética ao longo da história
evolutiva dos seres vivos.

A molécula de RNA pode interagir com proteínas, DNA e com outras


moléculas de RNA. Tais moléculas podem catalisar reações como as enzimas
e, além disso, armazenar informação genética como o DNA. A partir dessas
descobertas, criou-se a hipótese do “mundo do RNA”, onde o RNA seria a
molécula primordial, evoluindo para diferentes funções, como no controle da
expressão gênica.

70
TÓPICO 1 | OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA

FIGURA 9 - FITA SIMPLES DE RNA

FONTE: Zaha (2012, p. 33)

Caro estudante, RNA apresenta diversas funções bem estabelecidas, e pode


ser classificado como: RNA mensageiro, que funciona como um intermediário
da informação genética desde o gene até a molécula efetora (proteínas); o RNA
transportador, que atua como um adaptador entre os códons do RNA mensageiro
e os aminoácidos; e o RNA ribossômico, que desempenha papel estrutural nos
ribossomos, importante para a síntese proteica; além do papel catalítico, discutido
anteriormente.
71
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

No entanto, recentemente, novos papéis para o RNA foram revelados,


como os de percepção de estado metabólico, sinalização e regulação da expressão
gênica realizados por riboswitches. Além disso, podemos destacar ainda a função
de regulação da expressão gênica por meio de microRNAs. Portanto, caro
estudante, devido a essa alta versatilidade funcional, foi proposto que o RNA seria
a molécula primordial, a partir da qual a vida evoluiu. Segundo essa hipótese, em
um determinado momento na história da vida, todas as células tinham o RNA
como material genético “Mundo de RNA”.

3 ESTRUTURA CROMOSSÔMICA EM PROCARIOTOS E


EUCARIOTOS
Primeiramente, caro acadêmico, devemos salientar que na maioria dos
vírus e procariotos, os genes estão presentes em um único cromossomo, que
consiste em uma só molécula de ácido nucleico, RNA ou DNA. Os menores vírus
de RNA conhecidos têm apenas alguns genes, por exemplo, a molécula única
de RNA no genoma do bacteriófago MS2 é constituída de 3.569 nucleotídeos
e contém quatro genes. Já o genoma do bacteriófago ΦX174 é uma molécula
unifilamentar de DNA com 5.386 nucleotídeos de comprimento, que contém
11 genes. Entretanto, os maiores vírus de DNA, como o bacteriófago T2 (DNA
bifilamentar), apresentam cerca de 150 genes.

Os genomas de procariotos são muito maiores que os dos vírus, podendo


variar entre 2 milhões a mais de 5 milhões de pares de bases de DNA. Escherichia
coli, por exemplo, bactéria muito utilizada em pesquisas, tem 4,6 milhões de
pares de bases. Os números de genes desses organismos vão de 2.000 a 5.000.
Em geral, os genes têm loci em um único cromossomo, mas, algumas vezes, há
um segundo cromossomo, como em Vibrio cholerae, microrganismo que causa
a doença gastrintestinal cólera. Muitos procariotos também apresentam um ou
muitos tipos de plasmídios, um tipo de DNA acessório em bactérias, em geral
contendo pequeno número de genes.

A circunferência total da molécula circular de DNA existente no


cromossomo da bactéria Escherichia coli é de cerca de 1.500 mm. Como cada E.
coli tem diâmetro de apenas 1 a 2 mm, a grande molécula de DNA existente
em cada bactéria precisa existir em uma configuração condensada. O genoma
compactado é o estado funcional de um cromossomo bacteriano. Desta forma,
a grande molécula de DNA em um cromossomo de E. coli é organizada em 50 a
100 domínios ou alças, sendo que RNA e proteína são componentes do genoma
compactado das bactérias (Figura 10).

72
TÓPICO 1 | OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA

FIGURA 10 - COMPACTAÇÃO DO DNA EM BACTÉRIAS. (A) MASSA DE DNA ENROLADO DE


FORMA ALEATÓRIA. (B) DNA INTERAGINDO COM PROTEÍNAS FORMANDO ALÇAS

FONTE: Zaha (2012, p. 39)

No entanto, caro acadêmico, células eucarióticas contêm vários


cromossomos, cada qual com uma quantidade considerável e maior de DNA
do que um cromossomo procariótico, e sempre associado a uma notável
quantidade de proteína, principalmente as histonas. Cromossomos eucarióticos
são, portanto, mais complexos estruturalmente do que os procarióticos. No ciclo
celular, durante a interfase, os cromossomos são imperceptíveis, mas durante
a metáfase da meiose ou da mitose, ou seja, durante a divisão celular, ficam
claramente visíveis, pois ocorre compactação da cromatina (DNA, proteínas e
RNA) formando cromossomos.

A análise química da cromatina mostra ser constituída principalmente


de DNA e proteínas, com menos RNA. As proteínas são as denominadas
histonas e as denominadas proteínas cromossômicas não histônicas. As histonas
desempenham um papel estrutural importante na cromatina. Estão presentes na
cromatina de todos os eucariotos em quantidade equivalente à quantidade de
DNA. Os eucariotos apresentam cinco tipos diferentes de histonas, chamados H1,
H2a, H2b, H3 e H4. Essas proteínas são encontradas em quase todos os tipos de
células. Existem algumas exceções, sobretudo em alguns gametas masculinos, nas
quais as histonas são substituídas por outra classe de proteínas, as protaminas.
No entanto, as histonas foram muito conservadas durante a evolução,
demonstrando sua função essencial na compactação do genoma eucariótico. O
alto nível de conservação evolutiva das histonas H2a, H2b, H3 e H4 até mesmo
em espécies muito divergentes indica de forma contundente que essas proteínas
são fundamentais no empacotamento do DNA, além de uma participação na
regulação da expressão gênica, pois modificações químicas das histonas podem

73
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

alterar a estrutura do cromossomo, alterando o nível de expressão dos genes


presentes na cromatina modificada. No entanto, as proteínas cromossômicas não
histônicas estão envolvidas com a regulação da expressão de genes específicos.

A unidade estrutural básica de compactação da cromatina eucariótica


é uma partícula nucleoproteica, formada por DNA e histonas, denominada
de nucleossomo. Cada nucleossomo eucariótico é composto por um octâmero
proteico, formado por duas cópias das histonas H2A, H2B, H3 e H4, além de
DNA suficiente para duas voltas sobre o octâmero. Externamente ao complexo,
está ligada a histona H1 (Figura 11). Os filamentos que conectam nucleossomos
adjacentes são ligadores de DNA, e o tamanho do DNA ligador varia muito de
acordo com a espécie e com o tipo celular.

Os dados sugerem ainda que o nucleossomo completo contém duas


voltas completas de DNA (um trecho de DNA com 166 pares de nucleotídeos de
comprimento) na superfície do octâmero de histonas.

FIGURA 11 - NUCLEOSSOMO. (A) CERNE. (B) COMPLETO

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 2010)

74
TÓPICO 1 | OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA

In vivo, há clara interação dos nucleossomos, gerando uma condensação


em fibras de cromatina de 30 nm. Os cromossomos eucarióticos são condensados
ao máximo na metáfase da mitose ou da meiose, o que proporciona a segregação
desses cromossomos durante a divisão celular. A estrutura total desses
cromossomos altamente condensados é organizada em torno do cerne central das
proteínas cromossômicas não histonas. Esse cerne, chamado esqueleto, pode ser
visto em micrografias eletrônicas de cromossomos metafásicos isolados dos quais
as histonas foram removidas (Figura 12). O esqueleto proteico é cercado de um
enorme halo de DNA.

Na compactação da cromatina, portanto, temos o primeiro nível de


empacotamento do DNA na formação de nucleossomos, produzindo uma fibra de
cromatina interfásica com 11 nm de diâmetro, com a participação de um octâmero
de histonas. O segundo nível de condensação é o dobramento adicional da fibra
do nucleossomo de 11 nm em uma fibra de cromatina de 30 nm. Posteriormente,
as proteínas cromossômicas não histônicas formam um arcabouço que participa
da condensação da fibra de cromatina de 30 nm em cromossomos metafásicos
(Figura 13).

FIGURA 12 - MICROGRAFIA ELETRÔNICA DE UM CROMOSSOMO METAFÁSICO HUMANO DO


QUAL AS HISTONAS FORAM REMOVIDAS

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 2013)

75
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 13 - COMPACTAÇÃO DA CROMATINA NA FORMAÇÃO DOS CROMOSSOMOS

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 2013)

4 GENES E GENOMAS
Os procariotos apresentam uma estrutura genômica relativamente simples.
Os genes procarióticos são compostos por uma região codificadora e por regiões
regulatórias (Figura 14). Podem ter a sua ordem no cromossomo conservada
entre espécies aparentadas e alguns grupos de genes podem estar organizados
em operons (Figura 15). Os genomas procarióticos normalmente se apresentam
como um único cromossomo circular. No entanto, há espécies com mais de um
cromossomo, ou mesmo moléculas lineares. As bactérias podem ainda apresentar
plasmídios, ou seja, moléculas de DNA circulares extracromossomais, com
capacidade de replicação autônoma, que apresentam genes para bacteriocinas e
genes envolvidos no metabolismo de antibióticos.

A maioria dos procariotos apresenta genomas entre 2 e 5 Mb, com


moléculas compactas apresentando quase 1 gene/Kb, regiões intergênicas curtas
e poucas sequências repetidas. Em termos evolutivos, os genomas procarióticos
apresentam certa tendência à instabilidade e à desorganização.

76
TÓPICO 1 | OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA

FIGURA 14 - REPRESENTAÇÃO DA ESTRUTURA E EXPRESSÃO DE UM GENE PROCARIÓTICO

FONTE: Zaha (2012, p. 59)

FIGURA 15 - ESTRUTURA DE UM OPERON

FONTE: Zaha (2012, p. 70)

77
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

A comparação de genomas de organismos tão distintos como procariotos,


eucariotos unicelulares e eucariotos multicelulares tem revelado certa correlação
entre a complexidade do genoma e a complexidade do organismo ao qual esse
genoma pertence. Tal correlação, no entanto, é bastante sutil e observada apenas
em espécies distantes filogeneticamente. Muito se debate sobre o chamado
“paradoxo do valor C”. O valor C refere-se à quantidade de DNA, expresso em
pares de bases, de um genoma haploide, sendo importante enfatizar que não
parece existir correlação geral entre o tamanho do genoma e a complexidade da
espécie. Muitas espécies de planta, por exemplo, têm um genoma bem maior que
o genoma humano.

De modo geral, os genomas eucarióticos são maiores que os genomas


procarióticos em termos de valor C, pois apresentam um número maior de genes,
maior proporção de DNA não codificador, como as sequências repetitivas (STRs,
repetições curtas em série utilizadas para a identificação de indivíduos são um
exemplo) e maior número de sequências regulatórias. Podemos destacar ainda
que são organizados em múltiplos cromossomos e apresentam processos de
transcrição e tradução separados fisicamente dentro da célula.

Com relação à estrutura gênica, os eucariotos apresentam uma


característica fundamental, seus genes contêm sequências internas chamadas de
íntrons, as quais são removidas no RNA mensageiro (mRNA) por um processo
chamado splicing. Portanto, tais regiões não são expressas, sendo que as regiões
que produzirão as proteínas são os exons (Figura 16).

Nos transcritos primários de genes nucleares, as únicas sequências


totalmente conservadas de diferentes íntrons são as sequências dinucleotídicas
nas extremidades dos íntrons, a saber:

Exon – GT.... Intron......AG - Exon

As células eucarióticas apresentam mais de um genoma, pois há o genoma


nuclear, localizado no núcleo celular e organizado em cromossomos lineares,
e também o genoma mitocondrial, resultante da origem endossimbiótica dessa
organela. Além do genoma mitocondrial, as plantas também têm o genoma dos
cloroplastos.

78
TÓPICO 1 | OS ÁCIDOS NUCLEICOS E A CROMATINA

FIGURA 16 - REPRESENTAÇÃO DA ESTRUTURA E EXPRESSÃO DE UM GENE EUCARIÓTICO

FONTE: Zaha (2012, p. 87)

5 ELEMENTOS GENÉTICOS MÓVEIS


Os elementos de transposição, ou transposons, são sequências de DNA
com a habilidade de se movimentar de uma posição para outra no genoma.
Eles apresentam diferentes estruturas e modos de mobilização. A capacidade
de mobilização, movimento dentro dos genomas de eucariotos e procariotos,
pode acarretar em mutações e rearranjos cromossômicos, com consequências
adaptativas, neutras ou deletérias.

Uma importante característica dos elementos de transposição é a presença,


em sua sequência nucleotídica, de genes que codificam as proteínas necessárias
à sua transposição. A maioria deles apresenta também terminações repetidas,
as quais podem ser diretas ou invertidas. São regiões de reconhecimento
importantes no momento da transposição. Os transposons estão presentes nos
genomas como elementos autônomos, ou seja, têm a capacidade de codificar
enzimas necessárias para a sua transposição (enzima transposase), e como não
autônomos, apresentam mutações na sua região codificante e, consequentemente,

79
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

não produzem transposase. No entanto, um elemento não autônomo pode ser


mobilizado pela ação da enzima produzida por um elemento autônomo, por
meio do reconhecimento de suas terminações repetidas.

Os elementos transponíveis são divididos em duas grandes classes, de


acordo com seu modo de transposição: os retrotransposons, que se transpõem por
meio de um RNA intermediário, usado como molde, e os transposons de DNA
que se movem diretamente a partir de uma molécula de DNA. Retroelementos
têm intermediários de RNA e dependem de transcriptase reversa.

80
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• O papel dos ácidos nucleicos no armazenamento e na transmissão de


informações genéticas foi confirmado em 1944, e a estrutura em dupla-hélice
do DNA foi descoberta em 1953, por Watson e Crick.

• Há dois tipos de ácidos nucleicos: o ácido desoxirribonucleico (DNA) e


o ácido ribonucleico (RNA). As moléculas de DNA e o RNA são a base da
hereditariedade.

• O RNA apresenta grandes diferenças em sua estrutura e propriedades físico-


químicas, relacionadas à grande variedade de funções celulares desempenhadas,
como o transporte de informação genética e a catálise de reações, bem como no
controle da expressão gênica. Deste modo, o RNA tem sido apontado como a
macromolécula primordial no processo de origem da vida.

• Os ácidos nucleicos (DNA e RNA) são polímeros, ou seja, macromoléculas


constituídas por subunidades repetidas, os nucleotídeos.

• O nucleotídeo é constituído por grupamentos fosfato, um açúcar com cinco


átomos de carbono, ou pentose, e um composto nitrogenado cíclico chamado
base.

• Nas moléculas de DNA e RNA, os nucleotídeos são unidos em longas cadeias.

• O RNA geralmente é um polímero unifilamentar, entretanto, o DNA é uma


molécula bifilamentar.

• Os nucleotídeos são ligados entre si por ligações fosfodiéster, formando cadeias


polinucleotídicas, com uma orientação 5’ → 3’.

• Em 1953, James Watson e Francis Crick propuseram um modelo de dupla


hélice para o DNA, onde as duas fitas se enrolam em torno do eixo da hélice.

• As ligações fosfodiéster em ambas as fitas do DNA estão em direções opostas,


ou seja, as fitas são antiparalelas, uma está na direção 5’ → 3’ e a outra na
direção 3’ → 5’.

• Durante a divisão celular em eucariotos, ocorre compactação da cromatina


(DNA, proteínas e RNA), formando cromossomos.

81
• A unidade estrutural básica de compactação da cromatina eucariótica é uma
partícula nucleoproteica, formada por DNA e histonas, denominada de
nucleossomo.

• Cada nucleossomo eucariótico é composto por um octâmero proteico, formado


por duas cópias das histonas H2A, H2B, H3 e H4, além de DNA suficiente para
duas voltas sobre o octâmero. Externamente ao complexo, está ligada a histona
H1.

• Os procariotos apresentam uma estrutura genômica relativamente simples.

• O valor C refere-se à quantidade de DNA, expresso em pares de bases, de um


genoma haploide, sendo importante enfatizar que não parece existir correlação
geral entre o tamanho do genoma e a complexidade da espécie.

• Com relação à estrutura gênica, os eucariotos apresentam exons e íntrons.

• Os elementos transponíveis são divididos em duas grandes classes, de acordo


com seu modo de transposição: os retrotransposons, que se transpõem por
meio de um RNA intermediário, usado como molde, e os transposons de DNA
que se movem diretamente a partir de uma molécula de DNA.

82
AUTOATIVIDADE

1 (ENADE, 2005) Em 1953, Watson e Crick propuseram o modelo da dupla


hélice para a estrutura do DNA. Resultou do corpo de conhecimentos
desenvolvidos a partir dessa proposta:

a) ( ) o mapeamento dos genes nos cromossomos.


b) ( ) o estabelecimento das leis da herança genética.
c) ( ) a produção de vacinas contra doenças virais e bacterianas.
d) ( ) o desenvolvimento de quimioterápicos para o tratamento do câncer.
e) ( ) a produção de hormônio recombinante para o tratamento do nanismo.

2 (ENADE, 2008) Há sete anos, em uma cidade da região rural do sul do


país, foi registrado o desaparecimento de uma criança de dois anos de
idade que brincava no quintal de sua casa. Durante as investigações, foram
encontrados vestígios biológicos no local do desaparecimento, que foram
coletados e submetidos a análises de biologia forense, que revelaram
a presença de sangue humano, contendo vários tipos celulares, como
hemácias, neutrófilos e linfócitos, além de contaminação com células
animais de outra espécie. Além desses exames, foram realizados estudos
de vínculo genético entre as amostras de sangue humano encontradas no
local do desaparecimento e as dos pais biológicos da criança desaparecida.
Recentemente, foi encontrada uma criança de nove anos de idade que
apresenta um sinal na pele muito semelhante ao da criança desaparecida.
Foram colhidas amostras de sangue e realizadas análises comparativas
com o material obtido sete anos atrás, que confirmaram tratar-se da mesma
pessoa. Considerando-se o texto apresentado, qual das opções a seguir traz
uma afirmação correta acerca das aplicações do DNA como marcador para
estudos taxonômico-sistemáticos?

a) ( ) Para que se possa identificar a espécie à qual pertencem as células


contaminantes coletadas no local do desaparecimento, é necessário
realizar o sequenciamento completo do genoma de tais células.
b) ( ) Caso as células contaminantes encontradas sejam de uma espécie
animal que pertença, como os seres humanos, à família dos hominídeos,
a alta similaridade entre os genomas impedirá a identificação mais
detalhada das células contaminantes.
c) ( ) A obtenção de perfil genético baseado na análise de STR (repetições
curtas em série) é uma das estratégias utilizadas para a identificação
de indivíduos, e pode ser aplicada mesmo na presença de células
contaminantes.
d) ( ) Para que se possa determinar a distância evolutiva entre amostras
obtidas de dois organismos, de forma a se determinar se são de
espécies diferentes, é necessário analisar os tipos de bases nitrogenadas
encontradas no DNA, independentemente de sua distribuição no
polímero.
83
e) ( ) A identificação da criança com base em padrões de DNA é baseada
no fenômeno de deriva genética, um tipo de variação que é atribuída a
pressões seletivas e a eventos dependentes de características hereditárias.

3 (Questão adaptada, ENADE, 2008) A observação das formas atuais de vida


demonstra que até mesmo o mais simples dos seres vivos com organização
celular é um sistema complexo, no qual se destacam duas classes de
moléculas: as proteínas e os ácidos nucleicos. É possível imaginar que, nos
oceanos primitivos, existiam sistemas organizados de reações enzimáticas,
do tipo coacervados. Mas como esses sistemas se perpetuariam e evoluiriam
sem um código genético? Os ácidos nucleicos também poderiam ter
surgido nas condições da Terra primitiva. Mas como formariam um sistema
complexo e organizado sem interagir com o aparato protéico/enzimático?
A total interdependência entre essas moléculas essenciais remete a uma das
principais questões ligadas à origem da vida, que poderia ser comparada
ao dilema do ovo e da galinha. Considerando que as hipóteses acerca da
origem da vida na Terra mencionadas no texto apresentado não são as
únicas, responda: o que surgiu primeiro, os ácidos nucleicos ou as proteínas?

FONTE: ANDRADE, L. A. e SILVA, E. P. O que é vida? In: Ciência Hoje, v. 32, n.º 191, 2003, p.
16-23 (com adaptações).

a) ( ) O DNA pode ter sido o precursor dos demais compostos, pois estoca e
replica informação genética, é dotado de atividade catalítica e é facilmente
degradado por hidrólise, o que facilita a reutilização de seus monômeros e,
portanto, a colonização da Terra com polímeros primordiais de DNA.
b) ( ) Existe a possibilidade de o RNA ter sido o precursor das demais
moléculas, visto que certas sequências de RNA são capazes de acelerar
reações químicas e, além disso, mostraram capacidade de fazer cópias de si
mesmas, além de armazenarem informação genética.
c) ( ) A favor da hipótese de que as proteínas desempenharam papel central
na origem da vida, incluem-se estudos como o que mostrou a possibilidade
de que aminoácidos tivessem se originado, sem a intervenção de seres vivos,
a partir de uma atmosfera constituída de gases como metano, nitrogênio e
oxigênio e de vapor d’água.
d) ( ) Admitindo-se a possibilidade de a Terra primitiva conter nucleotídeos
livres, o calor poderia ter sido a fonte de energia disponível para a
formação de ligações covalentes entre eles, com a consequente formação de
proteinoides, que, por sua vez, deram origem a microsferas, estruturas que
poderiam ser precursoras das células primitivas.
e) ( ) O estudo de aminoácidos que contêm grupos tiol (tioésteres) fornece
argumentos a favor da precedência de proteínas na origem da vida, entre os
quais se incluem a abundância de sulfeto de hidrogênio (H2S) no ambiente
primitivo e a alta concentração de oxigênio na atmosfera primitiva, que
favoreceria a respiração aeróbica.

84
UNIDADE 2 TÓPICO 2

TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA
INFORMAÇÃO GENÉTICA

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, neste tópico nós vamos estudar a replicação do DNA,
o fluxo da informação gênica, desde a molécula do DNA até a produção de
proteínas, além de mutações e o reparo do DNA.

A replicação, ou duplicação do genoma, é um processo fundamental


para que as células-filhas, tanto em procariotos como em eucariotos, recebam o
material genético completo, durante a divisão celular. Para que todas as células
mantenham o mesmo material genético, todo o genoma deve ser precisamente
replicado antes da divisão celular. A replicação do ácido desoxirribonucleico
(DNA) é um evento crucial para que as células se multipliquem e se perpetuem. A
cada divisão celular, todo o genoma da célula precisa ser duplicado no momento
certo, e apenas uma vez.

No entanto, erros na síntese de DNA podem ocorrer ao longo da replicação.


Além disso, o DNA está sujeito à ação de agentes físicos e químicos, assim como
produtos endógenos do próprio metabolismo celular, que podem provocar
mutações. Neste sentido, durante o processo evolutivo, foram estabelecidos
sofisticados mecanismos de reparo de DNA que atuam na proteção do genoma,
de modo a garantir sua sobrevivência e estabilidade. Diferentes processos de
reparo do DNA também serão estudados neste tópico.

Resumidamente, pode-se dizer que a informação genética está contida no


ácido desoxirribonucleico (DNA) e no ácido ribonucleico (RNA) como um arranjo
sequencial de bases nitrogenadas. Considerando o dogma central da biologia,
vemos que a informação genética flui do DNA para o RNA mensageiro e daí para
as proteínas. Portanto, estudaremos como cada sequência de DNA codifica uma
sequência de RNA e, por sua vez, como ocorre a produção de uma proteína.

85
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

2 REPLICAÇÃO DO DNA
A replicação, ou duplicação do genoma, é um processo essencial, tanto em
procariotos como em eucariotos, para que as células recebam o material genético
completo na divisão celular. A regulação da replicação do DNA é um evento
crucial para que as células dos organismos se multipliquem e se perpetuem. A
cada ciclo celular, o genoma precisa ser duplicado completamente, de modo
que as células-filhas tenham o mesmo material genético das células que as
originaram, sem erros. Além disso, durante um ciclo celular, todo o DNA nuclear
deve ser duplicado apenas uma vez e, posteriormente, dividido igualmente
em duas células-filhas. Quando as bactérias (procariotos) estão crescendo em
meios ricos, a replicação de DNA é ininterrupta durante todo o ciclo celular. Em
eucariotos, a replicação do DNA ocorre ao longo da fase S (síntese do DNA), e a
segregação do DNA replicado durante a fase M (Mitose). Um correto ciclo celular
(G1 → S (Síntese do DNA) → G2 → M → G1) é importante para a manutenção da
viabilidade das células, podendo prevenir a instabilidade genética, que pode levar
a patologias. Lembrando que uma célula diploide pode ter sua quantidade de
DNA duplicada no período S da interfase e, posteriormente, passar pela meiose,
originando células-filhas com metade da quantidade de DNA (células haploides).

O processo replicativo do DNA tem início em regiões específicas da


molécula, denominadas de origem de replicação, onde ocorre abertura da dupla-
fita de DNA, originando uma forquilha de replicação (Figura 17). A replicação
inicia na origem e prossegue sequencialmente ao longo da fita de DNA, em uma
ou em ambas as direções, até o término, formando uma bolha de replicação.
Na replicação unidirecional, uma forquilha replicativa parte da origem e segue
replicando o DNA em uma única direção, entretanto, na replicação bidirecional,
duas forquilhas deixam a origem replicando o DNA em direções opostas, como
pode ser visto na Figura 17.

86
TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FIGURA 17 - REPLICAÇÃO DO DNA

FONTE: Zaha (2012, p. 112)

Considere na Figura 17:


(A) replicação gerando duas novas moléculas de dna;
(B) replicação unidirecional;
(C) replicação bidirecional;
(D) replicação a partir de duas origens;
(E) as forquilhas 2 e 3 se encontram, gerando a fusão das bolhas.

Em procariotos, cujo genoma é relativamente reduzido, uma origem


de replicação é suficiente para dar início ao processo replicativo. Obviamente,
em eucariotos, que apresentam genomas muito grandes, uma replicação mais
rápida é necessária, sendo alcançada por meio da iniciação da síntese de DNA
em muitas origens de replicação, de um modo praticamente simultâneo. Para
que a replicação ocorra rapidamente, os maiores cromossomos dos genomas
eucarióticos precisam ativar milhares de origens de replicação ao mesmo tempo.

87
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

Um segmento de DNA cuja replicação ocorra a partir de uma origem de replicação


é denominado replicon. Em procariotos, normalmente o cromossomo inteiro é
um replicon, já em eucariotos estão presentes vários replicons.

Caro acadêmico, vamos estudar agora alguns princípios básicos da


replicação comuns a procariotos e eucariotos.

Em 1958, Matthew Meselson (1933) e Franklin Stahl (1929) demonstraram


que a replicação do cromossomo é semiconservativa. Os dois filamentos
complementares da dupla-hélice de DNA ficam separados na forquilha de
replicação, e cada fita de DNA guia a síntese de um novo filamento complementar
(Figura 18). A sequência de bases em cada filamento parental é usada como molde.
A timina, por exemplo, no filamento parental serve de molde para a incorporação
de adenina no filamento complementar nascente, e vice-versa. Já uma citosina
serve de molde para a incorporação na fita recém-sintetizada para a incorporação
de uma guanina, e vice-versa. Devemos salientar ainda, caro acadêmico, que a
nova fita de DNA é sintetizada no sentido 5’ → 3’, sobre uma fita molde, parental,
3’ → 5’, pois lembre que o DNA é uma dupla-fita antiparalela (Figura 18). As
duas moléculas novas de DNA devem apresentar as duas fitas com orientação
invertida, como pode ser claramente observado na Figura 18.

O processo replicativo envolve muitas proteínas e enzimas, como a DNA


polimerase, enzima responsável pela síntese de DNA, a primase, responsável
pela síntese de primers, as  proteínas de reconhecimento das origens, as
enzimas helicases, que se movem ao longo do DNA e separam as fitas de DNA,
as enzimas topoisomerases, que aliviam a tensão gerada na estrutura da dupla-
hélice do DNA e as proteínas que se ligam a fitas simples de DNA, estabilizando
as fitas separadas.

A replicação da molécula de DNA é um processo que pode ser dividido


em três etapas principais: início, elongação e término.

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TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FIGURA 18 - REPLICAÇÃO DO DNA. ANTIPARALELISMO, SEMICONSERVAÇÃO E


COMPLEMENTARIDADE DE BASES

FONTE: Zaha (2012, p. 113)

Prezado acadêmico, vamos tratar agora do início da replicação e o


reconhecimento por proteínas de uma origem de replicação.

A estrutura das origens de replicação é bem diversificada entre os


diferentes organismos. No entanto, a origem de replicação em E. coli é bem
conhecida, e o seu reconhecimento e ativação são bem compreendidos. Portanto,
caro acadêmico, vamos estudar a origem de replicação desta bactéria, a partir de
agora.

A origem de replicação de E. coli no cromossomo circular é chamada de


OriC e engloba uma região de 245 pb. A OriC apresenta cinco sítios de 9 pb que
são reconhecidos por uma proteína iniciadora e três repetições de 13 pb, ricas
em bases AT (Figura 19). Nos eucariotos, as origens de replicação da levedura
Saccharomyces cerevisiae são as mais bem caracterizadas. Elas são denominadas
sequências autônomas de replicação (ARS), e são regiões do DNA ricas em pares
de base AT. Todas as ARS têm sequência consenso de cerca de 11 pb, rica em
AT. Nos eucariotos, de uma forma geral, estudos mostram que as origens de
replicação são ricas em AT e se localizam em sítios específicos do DNA, sendo
ativadas em momentos específicos durante a fase S do ciclo celular.
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FIGURA 19 - ORIGEM DE REPLICAÇÃO ORIC EM E. COLI

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

Em E. coli, pelo menos nove proteínas diferentes participam da etapa de


início da síntese de DNA, formando um complexo pré-replicativo (Figura 20).
O reconhecimento de OriC ocorre pela proteína iniciadora DnaA, que se liga
aos cinco sítios de 9 pb. Esse complexo com aproximadamente 20 proteínas de
DnaA é envolvido pelo DNA, promovendo uma curvatura na dupla-fita de
DNA, promovendo a separação das fitas do DNA nas regiões repetidas de 13pb.
Com a formação da bolha no DNA, o processo segue para a etapa seguinte,
atraindo as proteínas de replicação: a DNA helicase DnaB e seu cofator DnaC.
São formados dois complexos DnaB-DnaC, cada um contendo um monômero de
DnaC associado a um hexâmero de DnaB. DnaC hidrolisa ATP, liberando cada
hexâmero DnaB associado a uma forquilha de replicação, para se mover e atuar
como helicase, separando as fitas de DNA bidirecionalmente. Outras proteínas
participam do processo, como a DNA girase, que alivia a torção das fitas de
DNA causadas pela abertura das fitas de DNA e as SSB que estabilizam as fitas
simples de DNA separadas. A proteína HU estimula a formação da forquilha
de replicação. A DnaB também ativa uma DnaG primase, que sintetiza os RNAs
iniciadores (primers) para a etapa de síntese do DNA.

Para que uma origem seja utilizada na replicação somente uma vez a cada
ciclo celular, no caso de OriC, ocorre a metilação da adenina na posição N6 de seus
sítios GATC presentes nas repetições de 13 pb, em ambas as fitas do DNA. Após
a replicação do DNA, a nova fita sintetizada não é metilada, já a fita antiga está
metilada, o que resulta em um DNA hemimetilado. A origem OriC hemimetilada
é detectada pela proteína SeqA que se liga aos sítios GATC, reduzindo a taxa
de metilação desse sítio. SeqA também previne a associação da DnaA em OriC,
evitando o reinício de um novo ciclo de replicação.

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TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FIGURA 20 - RECONHECIMENTO DE ORIC EM E. COLI

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

Prezado acadêmico, após o reconhecimento das origens de replicação,


tanto em procariotos como em eucariotos, as duas fitas do DNA são replicadas,
com a separação contínua das duas fitas do DNA à medida que as novas cadeias
de DNA são sintetizadas. A forquilha de replicação se move continuamente
em direção à região do DNA fita-dupla ainda não replicado. Além da DNA
polimerase, várias proteínas são recrutadas na forquilha de replicação, formando
o replissomo.

As DNA polimerases têm baixa capacidade para separar as fitas de DNA


dupla-hélice. Esse processo é catalisado por DNA helicase, quebrando as pontes de
hidrogênio que mantêm as duas fitas de DNA unidas. As proteínas responsáveis
por manter as fitas simples de DNA separadas são as SSB em bactérias, ou RPA
(Replication Protein A) em eucariotos.

Existe também a necessidade de um iniciador para o começo da


polimerização da nova fita. As primases são enzimas que produzem tais
iniciadores (primers). Em eucariotos e em muitas bactérias, os iniciadores são
fragmentos de RNA sintetizados em diferentes locais da forquilha de replicação
(Figura 21).

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FIGURA 21 - NECESSIDADES DE MOLDE E INICIADOR DAS DNA POLIMERASES

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 241)

As enzimas DNA polimerases são responsáveis por estabelecer a ligação


entre dois nucleotídeos, chamada de ligação fosfodiéster. Essa ligação caracteriza-
se pela união do grupo hidroxila (OH), que está ligado ao carbono 3’ da pentose
de um nucleotídeo, com o grupo fosfato do nucleotídeo seguinte da cadeia de
DNA. As DNA polimerases sempre promovem a extensão da nova fita de DNA
pela adição de nucleotídeos na extremidade 3’-OH livre de uma cadeia em
crescimento.

A síntese do DNA ocorre concomitantemente nas duas fitas parentais.


Como a adição de nucleotídeos é feita sempre no sentido 5’-3’ pelas DNA
polimerases, uma das fitas novas é sintetizada de maneira contínua (fita 3’-5’
como molde), e a outra será sintetizada de modo descontínuo (fita 5’-3’ como
molde). Portanto, a replicação do DNA é semidescontínua (Figura 22).

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TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FIGURA 22 - A REPLICAÇÃO É SEMIDESCONTÍNUA

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 235)

A síntese da fita descontínua ocorre por repetidas etapas de iniciação,


elongação e junção de pequenas cadeias nascentes de DNA, denominadas de
fragmentos de Okazaki, pela enzima DNA ligase (Figura 23).

FIGURA 23 - FORQUILHA DE REPLICAÇÃO MOSTRANDO A FITA CONTÍNUA E DESCONTÍNUA

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

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UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

À medida que a forquilha de replicação se abre, os iniciadores de RNA


são sintetizados pela primase e a fita de DNA é alongada pelas DNA polimerases.
Na bactéria E. coli, a DNA polimerase III é a principal enzima envolvida na
replicação. No entanto, a DNA polimerase I remove o iniciador de RNA utilizado
no início da síntese do DNA. Em eucariotos, as principais enzimas envolvidas na
duplicação do genoma cromossômico são as DNA pol δ, DNA pol ε e DNA pol α:
primase, associada à enzima primase, atuando na síntese do primer.

A maquinaria replicativa que se move ao longo da molécula de DNA em


uma forquilha de replicação é o replissomo. O replissomo contém a holoenzima
DNA polimerase III, sendo que um centro catalítico replica o filamento contínuo
e um segundo centro catalítico replica o filamento descontínuo. Para que os dois
centros catalíticos da holoenzima polimerase III sintetizem tanto o filamento
líder, contínuo, quanto o filamento descontínuo, acredita-se que este forme uma
alça que se estende do primossomo até o segundo centro catalítico da DNA
polimerase III (Figura 24).

FIGURA 24 - COORDENAÇÃO DA SÍNTESE DE DNA NA FITA CONTÍNUA E DESCONTÍNUA

FONTE: Zaha (2012, p. 127)

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TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

Uma vez que as origens de replicação são ativadas e as forquilhas de


replicação são formadas, elas progridem na molécula de DNA até que todo o
cromossomo (ou molécula de DNA) seja inteiramente duplicado.

Em bactérias, o genoma é replicado a partir de uma única origem de


replicação. A forquilha de replicação é aberta e avança de forma bidirecional.
Deste modo, duas forquilhas de replicação originadas no mesmo ponto avançam
ao longo do DNA circular em direções opostas até se encontrarem do outro
lado da molécula. O sítio de terminação é definido pela presença de sequências
específicas de terminação.

Todas as DNA-polimerases conhecidas promovem a síntese somente na


direção 5’→ 3’ a partir de primer de RNA ou DNA. Quando o primer do final do
cromossomo é removido da fita descontínua, essa região de 8 a 12 nucleotídeos
não é replicada porque não existe uma extremidade 3’-OH livre onde as DNA
polimerases consigam se ligar e preencher a lacuna referente ao iniciador. Deste
modo, caro estudante, a cada replicação do cromossomo linear, haveria redução
do tamanho de uma das fitas do DNA.

Claro que há solução para este dilema. A maioria das células eucariotas
utiliza uma estratégia para replicar as porções finais de seus cromossomos: os
telômeros, que são formados por sequências in tandem simples ricas em T-G,
considerando que a sequência dos telômeros de humanos é TTAGGG. Os
telômeros conferem estabilidade aos cromossomos lineares. Além disso, também
atuam como uma origem de replicação especializada que possibilita a replicação
das extremidades dos cromossomos. Entretanto, a maquinaria que atua nessa
origem de replicação não é a mesma das origens de replicação no restante do
genoma; os telômeros recrutam DNA polimerases especializadas chamadas
telomerase (Figura 25).

A enzima telomerase é uma ribonucleoproteína com atividade de


transcriptase reversa. Como todas as DNA polimerases, estende a extremidade
3’ da fita de DNA. No entanto, a telomerase não necessita de um molde externo
de DNA para realizar síntese de DNA: ela alonga a extremidade 3’-OH de
determinada sequência de DNA de fita simples, utilizando o seu próprio RNA
como fita molde. Assim, a telomerase atua na extremidade 3’ do telômero e
estende apenas uma das fitas do DNA, formando sequências teloméricas de fita
simples. A outra fita de DNA é estendida pela maquinaria geral de replicação.

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UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 25 - REPLICAÇÃO DOS TELÔMEROS PELA TELOMERASE

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

3 TRANSCRIÇÃO E PROCESSAMENTO DE RNA


Caro acadêmico, de acordo com o dogma central da biologia molecular,
as informações genéticas fluem de DNA para DNA na replicação e de DNA para
RNA na expressão gênica (Figura 26). Entretanto, na replicação de um retrovírus
(vírus de RNA), as informações genéticas são transmitidas primeiramente para
o DNA, através de uma transcriptase reversa e, posteriormente, para o RNA.
Na produção das proteínas, primeiramente ocorre a transcrição, ou seja, a
transferência das informações genéticas do DNA para o RNA e, posteriormente,
a tradução, ou seja, a transferência de informações do RNA para as proteínas.
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FIGURA 26 - FLUXO DE INFORMAÇÕES GENÉTICAS DE ACORDO COM O DOGMA CENTRAL


DA BIOLOGIA MOLECULAR

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 261)

Durante a transcrição, um filamento de DNA em um gene é usado


como molde para sintetizar um filamento complementar de RNA, denominado
transcrito gênico, por exemplo, na Figura 26, o filamento de DNA que contém a
sequência AAA de nucleotídeos é usado como molde para produzir a sequência
complementar UUU no transcrito de RNA.

As moléculas de RNA que serão traduzidas em proteínas nos ribossomos


são denominadas  de RNA  mensageiros (mRNA). Em procariotos, o produto
da transcrição normalmente equivale à molécula de mRNA. Em eucariotos, é
preciso processar os transcritos primários por excisão de íntrons e modificação de
ambas as terminações antes que possam ser traduzidos, portanto, os transcritos
primários são precursores dos mRNAs e, por isso, são denominados pré-mRNAs
(Figura 27).

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UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

A maioria dos genes nucleares, em eucariotos, contém sequências não


codificadoras entre as sequências expressas, denominadas exons. As sequências
completas desses  genes interrompidos  são transcritas em pré-mRNA, e, em
seguida, as sequências de íntrons, não codificadoras, são removidas por splicing.

No entanto, caro acadêmico, na transcrição, além da produção de RNA


mensageiros, temos também a síntese de RNA transportadores (tRNA), pequenas
moléculas de RNA que atuam como adaptadores entre aminoácidos e os códons
no mRNA durante a tradução, de RNA ribossômicos (rRNA), componentes
estruturais e catalíticos dos ribossomos, de pequenos RNA nucleares (snRNA),
componentes estruturais dos espliceossomos na realização do splicing, e os
microRNA (miRNA), RNAs unifilamentares curtos, com 20 a 22 nucleotídeos, que
bloqueiam a expressão de mRNA complementares, causando sua degradação ou
reprimindo sua tradução.

Os cinco tipos de RNAs aqui descritos, ou seja, mRNA, tRNA, rRNA,


snRNA e miRNA, são produzidos por transcrição. Ao contrário dos mRNA, que
especificam polipeptídios, os produtos finais dos genes de tRNA, rRNA, snRNA
e miRNA são moléculas de RNA, ou seja, não são traduzidos.

FIGURA 27- EXPRESSÃO GÊNICA EM PROCARIOTOS (A) E EUCARIOTOS (B)

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TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 262)

Na síntese de RNA são utilizados os precursores trifosfatos de


ribonucleosídeos e só um filamento de DNA é usado como molde para a síntese
de uma cadeia de RNA complementar, sendo que é possível iniciar novas cadeias
de RNA sem necessidade de um filamento iniciador preexistente, ou primer. A
molécula de RNA produzida será complementar e antiparalela ao filamento-
molde de DNA e idêntica, exceto pela presença de uracila em vez de timina, ao
filamento não molde de DNA, ou filamento codificante (Figura 28). Se a molécula
de RNA for um mRNA, ela especificará aminoácidos no produto gênico proteico.
Também são chamadas de filamentos sense de RNA porque as sequências de
nucleotídeos “fazem sentido” já que especificam sequências de aminoácidos nas
proteínas. Uma molécula de RNA complementar a um mRNA é denominada
RNA antisense.

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UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 28 - SÍNTESE DE RNA A PARTIR DE UMA FITA DE DNA

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 265)

A síntese de cadeias de RNA ocorre no sentido 5' → 3', com o acréscimo


de ribonucleotídeos ao grupo 3'-hidroxila na extremidade da cadeia (Figura 29).
A reação é catalisada por enzimas chamadas RNA polimerases, que mantêm as
fitas de DNA separadas ao longo da síntese do RNA.

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TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FIGURA 29 - ALONGAMENTO DA CADEIA DE RNA CATALISADA POR RNA POLIMERASE

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 265)

As RNA polimerases ligam-se a sequências específicas no DNA chamadas


promotores, adjacentes aos genes, e com a atividade de proteínas denominadas
fatores de transcrição, iniciam a síntese de moléculas de RNA nos locais de início
da transcrição, próximo aos promotores, mais complexos em eucariotos do que em
procariotos. Uma única RNA polimerase efetua as transcrições nos procariotos,
enquanto os eucariotos têm cinco RNA polimerases diferentes, cada uma delas
responsável pela síntese de uma classe de RNA. A síntese de RNA ocorre em uma
bolha de transcrição (Figura 30), e sequência nucleotídica de uma molécula de
RNA é complementar à do filamento-molde de DNA, lembrando que a uracila
substitui a timina. Portanto, é possível determinar a origem dos transcritos de
RNA pelo estudo da sua hibridização com o DNA.

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UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 30 - BOLHA DE TRANSCRIÇÃO

FONTE: Zaha (2012, p. 207)

Os nucleotídeos nas unidades de transcrição e adjacentes a elas são


numerados com relação ao local de iniciação do transcrito (designado +1). Os
pares de bases que precedem o local de iniciação recebem prefixos negativos (–),
já aqueles que sucedem o local de iniciação recebem prefixos positivos (+).

A RNA polimerase de E. coli contém quatro polipeptídios distintos. A


composição da molécula de RNA polimerase completa, a holoenzima, é α2ββ’σ.
Uma subunidade, o fator sigma (σ) participa apenas da iniciação da transcrição;
não tem função no alongamento da cadeia. A subunidade sigma da RNA
polimerase medeia a ligação aos promotores no DNA. Muitos promotores de
E. coli foram sequenciados e duas sequências curtas são conservadas. Os pontos
médios das duas sequências conservadas estão aproximadamente 10 e 35 pares
de nucleotídeos, respectivamente, antes do local de iniciação da transcrição
(Figura 31). Portanto, elas são denominadas sequência –10 e sequência –35,
respectivamente. A sequência consenso –10 é TATAAT, chamada de TATA Box, já
a sequência consenso –35 é TTGACA.

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TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FIGURA 31 - (A) CONVENÇÕES USADAS NA TRANSCRIÇÃO. ELEMENTOS DE UM PROMOTOR


EM E.COLI

FONTE: Zaha (2012, p. 212)

O término das cadeias de RNA ocorre quando a RNA polimerase encontra


um sinal de término, liberando a molécula de RNA nascente. Existem dois tipos
de terminadores de transcrição em E. coli. Um tipo só leva ao término na presença
de uma proteína chamada rho (ρ), ou seja, terminadores rho-dependentes. Com a
ligação desta proteína ao RNA, ocorre o fim da transcrição. No entanto, há ainda
terminadores rho-independentes, que contêm uma região rica em GC seguida por
seis ou mais pares de bases AT (Figura 32), havendo a formação de um grampo.

Em eucariotos, o RNA é sintetizado no núcleo, e a maior parte do RNA


que codifica proteínas tem de ser transportada até o citoplasma para tradução
nos ribossomos. Os eucariotos têm cinco RNA polimerases diferentes, e cada
enzima catalisa a transcrição de uma classe específica de genes. Existem pelo
menos três RNA polimerases nucleares, denominadas I, II e III, em todos os
eucariotos, além de RNA polimerases presentes em mitocôndrias e cloroplastos.
A RNA polimerase I localiza-se no nucléolo e transcreve os genes dos rRNA 28S
e 18S. As RNA polimerases II e III são distribuídas no nucleoplasma. A RNA
polimerase III sintetiza pequenos RNA não codificantes, envolvidos na regulação
gênica, no processamento de outros RNA e na tradução, entre eles o rRNA 5S e
os tRNA. A RNA polimerase II responde pela maior diversidade de transcritos.
Todos os hnRNA (RNA nucleares heterogêneos) que compreendem os mRNA
ainda não processados e diversos RNA não codificantes, são sintetizados pela
RNA polimerase II.

Em eucariotos, os transcritos primários de genes que codificam


polipeptídios são processados, ou seja, passam por três modificações importantes
antes de serem transportados até o citoplasma para tradução (Figura 33).

103
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

• Caps de 7-metilguanosina são acrescentados às extremidades 5' dos transcritos.


• Caudas poli(A) são acrescentadas às extremidades 3' dos transcritos.
• Os íntrons são cortados dos transcritos.

O cap 5’ na maior parte do mRNA eucariótico é um resíduo de


7-metilguanosina unido ao nucleosídeo inicial do transcrito por uma ligação
de fosfato 5'–5'. A cauda poli(A) 3’ é um trecho de poliadenosina com 20 a 200
nucleotídeos de comprimento.

FIGURA 32 - MECANISMO DE TÉRMINO RHO-INDEPENDENTE DA TRANSCRIÇÃO

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 270)

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TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FIGURA 33 - PROCESSAMENTO DO PRÉ-MRNA EM EUCARIOTOS

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 272)

4 TRADUÇÃO E O CÓDIGO GENÉTICO


A tradução ocorre nos ribossomos, estruturas macromoleculares complexas
localizadas no citoplasma. Participam da tradução o mRNA, o rRNA, fazendo
parte da estrutura de cada ribossomo, e tRNA, que atuam como adaptadores,
mediando a incorporação dos aminoácidos apropriados nos polipeptídios em
resposta a sequências nucleotídicas específicas no mRNA.

Os aminoácidos são anexados às moléculas corretas de tRNA pelas


aminoacil-tRNA sintetases, um grupo de enzimas ativadoras, que adiciona os
aminoácidos corretos a seus tRNAs específicos, formando os aminoacil-tRNAs.
A sequência nucleotídica de uma molécula de mRNA é traduzida na sequência
correta de aminoácidos segundo o código genético (Figura 34). Cada mRNA é
traduzido simultaneamente por vários ribossomos, com consequente formação
de um polirribossomo ou polissomo.
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UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 34 - CÓDIGO GENÉTICO.


HÁ MAIS DE UM CÓDON POSSÍVEL CODIFICANDO PARA UM DETERMINADO AMINOÁCIDO

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 313)

A unidade codificadora fundamental é denominada de códon,


apresentando três nucleotídeos, sendo que há 64 códons possíveis, e 61 deles
codificam os 20 aminoácidos existentes, como observado na Figura 34, pois três
códons são terminadores. Portanto, alguns aminoácidos são codificados por mais
de um códon. O códon AUG é iniciador e codifica metionina, já os códons UAA,
UAG e UGA são códons de terminação, e não codificam aminoácidos.

A sequência dos códons no mRNA é lida de sua extremidade 5' para


sua extremidade 3', e o início da sequência de codificação estabelece a matriz de
leitura. Alterações na sequência do mRNA podem mudar também a sequência
dos códons, produzindo proteínas diferentes ou, até mesmo, interromper a
síntese proteica. Caro acadêmico, estude detidamente a Figura 35. Observe que
uma segunda alteração na sequência do gene, como a deleção de um nucleotídeo,
pode restaurar a fase de leitura, minimizando os efeitos da primeira mutação e
restabelecendo total ou parcialmente o fenótipo selvagem.

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TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FIGURA 35 - SÍNTESE PROTEICA E A FASE DE LEITURA DE UM GENE

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 311)

As proteínas são sintetizadas nos ribossomos, tanto em procariotos


como em eucariotos, sendo constituídos por proteínas e RNA. Os ribossomos
apresentam duas subunidades, uma grande e outra pequena, que se dissociam
quando a tradução de uma molécula de mRNA é concluída e se reassociam
no início da tradução. O ribossomo de procariotos tem um tamanho de 70S
(Subunidades 30S e 50S), já os ribossomos de eucariotos são maiores, geralmente
cerca de 80S (Subunidades 40S e 60S).

Os ribossomos são fundamentais para a síntese proteica, assim como


o mRNA, mas a tradução requer outra classe de moléculas de RNA, o RNA
transportador (tRNA) (Figura 36). O tRNA transportador se liga ao aminoácido

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UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

pelo braço aceptor, mais precisamente ao nucleotídeo da extremidade, portando


uma adenina (extremidade 3’), em que apresenta a sequência conservada CCA.
Apresenta ainda o braço do anti-códon, sendo que o códon do mRNA interage
com o anti-códon do tRNA durante a tradução.

Neste sentido, no ribossomo, um determinado tRNA, portando um


aminoácido específico, interage através de seu anti-códon com o códon
correspondente no mRNA, por pareamento de bases, inserindo corretamente na
cadeia polipeptídica crescente, através de uma ligação peptídica, o aminoácido
codificado pelo códon do RNA mensageiro.

FIGURA 36 - ESTRUTURA DOS tRNAS

FONTE: Zaha (2012, p. 259)

Considere na Figura 36:


(A) na extremidade 3’ há ligação com aminoácido (AA). Também há o
pareamento entre códon/anti-códon do tRNA.
(B) estrutura terciária de um tRNA.

Cada ribossomo tem três locais de ligação ao tRNA (Figura 37). O local
A ou aminoacil liga-se ao aminoacil-tRNA recebido, o tRNA que leva o próximo
aminoácido a ser acrescentado à cadeia polipeptídica em crescimento. O local P
ou peptidil liga-se ao tRNA que está ligado ao polipeptídio em crescimento. O
local E ou de saída (exit) liga-se ao tRNA sem aminoácido que está saindo.

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TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FIGURA 37 - SÍTIOS A, P E E NO RIBOSSOMO

FONTE: Zaha (2012, p. 256)

A síntese de polipeptídios é iniciada por um tRNA especial, designado


tRNAfMet, em resposta a um códon de iniciação da tradução AUG. Portanto, os
polipeptídios começam com metionina durante a síntese, mas pode ser clivada
posteriormente de muitos polipeptídios.

Outro tRNA de metionina, tRNAMet, responde a códons de metionina


internos no mRNA. A ligação do ribossomo ao mRNA, em procariotos, depende
do pareamento de bases entre uma sequência nucleotídica da extremidade 3'
do rRNA 16S, pertencente ao ribossomo, com uma região na extremidade 5' da
molécula de mRNA, contendo um trecho conservado 5’-AGGAGG-3’, além do
códon de iniciação AUG, conhecida como RBS (Ribosome Binding Site).

Em eucariotos, o ribossomo também se liga na extremidade 5’ do mRNA,


no entanto, o reconhecimento do mRNA, pelo ribossomo, ocorre pela presença de
Cap e do códon iniciador AUG no RNA mensageiro processado. Assim como os
procariotos, os eucariotos contêm um tRNA iniciador especial, tRNAiMet (“i” de
iniciador), mas o grupo amino do metionil-tRNAiMet não é formilado.

O alongamento da cadeia polipeptídica é basicamente igual em


procariotos e eucariotos. A ligação de um novo aminoácido ao polipeptídio em
crescimento ocorre pela ligação de um aminoacil-tRNA ao local A do ribossomo,
com transferência da cadeia de polipeptídio em crescimento do tRNA no local
P para o tRNA no local A, pela formação de uma nova ligação peptídica, e
translocação do ribossomo ao longo do mRNA, para posicionar o próximo códon
no local A (Figura 38). O polipeptídio-tRNA nascente e o tRNA sem aminoácido
são translocados dos locais A e P para os locais P e E, respectivamente. Essas três
etapas são repetidas durante todo o processo de alongamento.

109
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 38 - (A) SÍNTESE PROTEICA AO LONGO DO MRNA. (B) VÁRIOS RIBOSSOMOS


SINTETIZANDO PROTEÍNAS SIMULTANEAMENTE

FONTE: Adaptado de Snustad e Simmons (2017, p. 317)

FONTE: Zaha (2012, p. 264)

O término da tradução ocorre quando um dos três códons de término da


cadeia (UAA, UAG ou UGA) entra no sítio A do ribossomo (Figura 39). Esses
três códons de término podem ser reconhecidos por proteínas solúveis chamadas
fatores de liberação (RF). O processo é concluído pela liberação da molécula
de mRNA do ribossomo e dissociação do ribossomo em suas subunidades. As
subunidades ribossômicas podem iniciar outro ciclo de síntese proteica, caso seja
necessário.

110
TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

FIGURA 39 - TÉRMINO DA SÍNTESE PROTEICA

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 317)

111
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

5 MUTAÇÃO E REPARO DO DNA


O termo mutação refere-se à modificação do material genético. Um
indivíduo que apresenta um novo fenótipo resultante da uma mutação é um
mutante. Em organismos multicelulares, uma mutação pode ocorrer em qualquer
célula e em qualquer estágio durante o desenvolvimento. As mutações germinativas
ocorrem nas células da linhagem reprodutiva e podem ser transmitidas para a
geração seguinte, e as mutações somáticas, nas células somáticas, podem estar
implicadas no desenvolvimento de muitos tipos de câncer.

As mutações espontâneas são aquelas que acontecem sem uma causa


conhecida. Podem ser realmente espontâneas ou resultantes de erros durante a
replicação do DNA, ou ainda surgirem por agentes desconhecidos do ambiente.

Mutações induzidas são aquelas que resultam de exposição a agentes


físicos e químicos que provoquem alterações no DNA. Os mutágenos incluem
irradiações ionizantes, luz UV e muitas substâncias químicas.

A mutação de um gene de tipo selvagem que produz um fenótipo


mutante é denominada mutação direta. Quando uma segunda mutação restaura
o fenótipo original, o processo é denominado reversão ou mutação reversa. A
reversão pode ocorrer por retromutação, uma segunda mutação, ocorrida no
mesmo local gênico que a primeira, restaurando original do gene, ou por mutação
supressora, uma segunda mutação em local diferente do genoma, que anula os
efeitos da primeira mutação. As mutações supressoras podem ocorrer em locais
diferentes no mesmo gene da mutação original ou em loci diferentes, até mesmo
em cromossomos distintos.

A maioria das mutações que têm efeitos fenotípicos evidentes são deletérias
e recessivas. No entanto, algumas mutações no DNA alteram um aminoácido
na proteína, sem mudança no fenótipo, já outras não alteram o aminoácido,
pois devemos lembrar que há mais de um códon possível para determinados
aminoácidos, como pode ser visto na Figura 34 (Código genético).

Watson e Crick sempre destacaram que as estruturas das bases no


DNA não são estáticas, pois os hidrogênios podem passar de uma posição para
outra em uma base nitrogenada. Essas oscilações químicas são as modificações
tautoméricas. Embora raras, as modificações tautoméricas são importantes
no metabolismo do DNA porque algumas delas modificam o potencial de
pareamento das bases. Tais mutações implicam na substituição de uma purina
em um filamento de DNA por outra purina e a substituição de uma pirimidina
no filamento complementar por outra pirimidina. Essas substituições de pares
de bases são as transições. As substituições de pares de bases em que há troca de
uma purina por uma pirimidina e vice-versa são as transversões.

112
TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

Outro tipo de mutação ocorre por acréscimo ou deleção de um nucleotídeo,


ou mutação SNP, também chamada de mutação de ponto. As mutações podem
envolver um ou mais pares de bases. Acréscimos e deleções que ocorrem nas
regiões codificadoras dos genes podem alterar a matriz de leitura, sendo
conhecidas como frameshift, como visto na Figura 35.  

Muitos organismos sofrem mutações pela presença de transposons, pois a


inserção de um transposon em um gene frequentemente torna tal gene inativo. Se
o gene codificar um produto importante, é provável que o fenótipo seja mutante. Já
sabemos que muitos dos mutantes clássicos do milho, de Drosophila, de Eschericha
coli e de outros organismos foram criados pela inserção de transposons.

Por fim, um outro tipo de mutação ocorre pela expansão de sequências


repetidas em série (em tandem). Essas repetições estão dispersas em todo o genoma
humano. A quantidade de cópias das repetições de três pares de nucleotídios, ou
seja, repetições de trinucleotídios, pode aumentar e causar doenças hereditárias
em seres humanos, como no caso das Ataxias Espinocerebelares (expansão CAG),
na síndrome do X frágil (CGG) e na doença de Huntington (CAG).

Caro acadêmico, as mutações, porém, podem ser importantes no processo


evolutivo, gerando variabilidade genética. No entanto, podem ser prejudiciais,
como no caso de causarem câncer. Neste sentido, os diferentes mecanismos de
reparo surgidos em organismos, de bactérias a seres humanos, é uma prova da
importância de se manterem as mutações em nível baixo, por exemplo, as células
procarióticas apresentam mecanismos de reparo de defeitos no DNA, como reparo
por fotorreativação, reparo por excisão, reparo de erros de pareamento, reparo
pós-replicação, e o sistema de reparo SOS. Os mamíferos também apresentam
todos os mecanismos de reparo aqui citados, exceto a fotorreativação. Em seres
humanos, distúrbios hereditários como o xeroderma pigmentoso mostram as
graves consequências dos defeitos no sistema de reparo do DNA.

O  reparo por  fotorreativação  do DNA em bactérias é executado


pela enzima DNA fotoliase, ativada pela luz. Quando o DNA é exposto à luz UV,
dímeros de pirimidina, como a timina, por exemplo, são produzidos por ligações
cruzadas covalentes. A enzima fotoliase reconhece os dímeros de timina no DNA,
liga-se a eles e usa a energia da luz para clivar as ligações cruzadas (Figura 40). A
fotoliase pode se ligar aos dímeros de timina no DNA sem a presença da luz, mas
só catalisa a clivagem das ligações cruzadas com a energia obtida da luz visível,
especificamente da luz azul.

113
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 40 - REPARO POR FOTORREATIVAÇÃO

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 350)

O reparo por excisão do DNA lesado ocorre pela ação de uma endonuclease
de reparo do DNA que reconhece a(s) base(s) lesada(s) no DNA, promovendo a
sua excisão. Posteriormente, uma DNA polimerase preenche o espaço, usando
como molde o filamento complementar, e a enzima DNA ligase une os segmentos.

114
TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

Os sistemas de reparo por excisão de base removem bases anormais ou


quimicamente modificadas do DNA, por ação de DNA glicosilases, enquanto as
vias de reparo por excisão de nucleotídeos removem defeitos maiores, como os
dímeros de timina.

As glicosilases clivam a ligação glicosídica entre a base anormal e


a 2-desoxirribose, criando sítios apurínicos ou apirimidínicos. Tais sítios
são reconhecidos por enzimas chamadas AP endonucleases que, com as
fosfodiesterases, excisam os grupos de açúcar-fosfato. A DNA polimerase então
substitui o nucleotídeo faltante de acordo com a base do filamento complementar,
e a ligase encerra o processo (Figura 41).

O reparo por excisão de nucleotídeos remove lesões maiores, como


dímeros de timina. Nesse caso, uma nuclease de excisão específica faz cortes nos
dois lados dos nucleotídeos danificados e excisa um oligonucleotídeo, contendo
a lesão no DNA. A atividade da exonuclease em E. coli requer os produtos de três
genes, uvrA, uvrB e uvrC.

Várias DNA polimerases têm papéis cruciais em vários processos de reparo


do DNA durante a replicação, graças à ação de exonuclease 3′ → 5′ inerente às
DNA polimerases para revisar filamentos de DNA durante sua síntese. Entretanto,
outra via de reparo do DNA após a replicação, o reparo de erros de pareamento,
reforça essa revisão durante a replicação. O sistema de reparo faz distinção por
meio da identificação do filamento-molde, que contém a sequência nucleotídica
original, e do filamento recém-sintetizado, que contém uma base incorporada de
forma errada. Em E. coli, o reparo de erros de pareamento requer os produtos de
quatro genes, mutH, mutL, mutS e mutU. Homólogos das proteínas MutS e MutL
da bactéria foram identificados em fungos, vegetais e mamíferos.

Quando a mutação envolve as duas fitas de DNA, a molécula de DNA


danificada é reparada por um processo de reparo dependente de recombinação
entre cromossomos homólogos, mediado pelo produto do gene recA. A proteína
RecA, necessária para recombinação homóloga proporciona a troca de filamentos
únicos entre as duplas-hélices homólogas.

Os sistemas de reparo do DNA são muito precisos. No entanto, quando


agentes mutagênicos causam danos graves ao DNA das células de E. coli, elas tomam
algumas medidas drásticas, apresentando uma resposta SOS, na qual há síntese de
uma série completa de proteínas de reparo, recombinação e replicação do DNA.
Duas dessas proteínas, codificadas pelos genes umuC e umuD são subunidades da
DNA polimerase V, enzima que catalisa a replicação do DNA em regiões lesadas
dos cromossomos. A DNA polimerase V possibilita o prosseguimento da replicação
através dos segmentos lesados dos filamentos-molde, embora não seja possível
replicar com precisão as sequências nucleotídicas na região lesada. Duas proteínas
reguladoras LexA e RecA controlam a resposta SOS, sendo sintetizadas em baixos
níveis na célula sem danos no DNA. A partir da ocorrência de muitos danos no
DNA, o nível de expressão dos genes SOS, como recA, lexA, umuC, umuD e outros,
aumenta e o sistema de reparo propenso a erro é ativado.
115
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 41 - REPARO POR EXCISÃO DE BASE

FONTE: Zaha (2012, p. 149)

6 CONTROLE DA EXPRESSÃO GÊNICA EM PROCARIOTOS


Prezado acadêmico, neste item, vamos estudar o controle da expressão
em procariotos e eucariotos.

Primeiramente, vamos estudar a regulação nos procariotos. Estes


organismos têm notável capacidade de adaptação a diversas condições
ambientais. Essa adaptabilidade depende de sua capacidade de ativar e desativar
uma série de genes de acordo com as necessidades celulares. A expressão gênica
em procariotos pode ocorrer em níveis diferentes, como transcrição, tradução e
pós-tradução.

O controle transcricional exercido pelos fatores sigma, subunidade da


DNA-polimerase de procariotos que reconhece os promotores a fim de iniciar
a transcrição, é um nível extremamente importante na regulação gênica. Deste
modo, um gene cujo promotor depende de um determinado fator sigma para
reconhecimento pela RNA-polimerase, apenas é transcrito quando esse fator
estiver disponível. Há vários fatores sigma descritos, sendo que a maioria dos

116
TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

genes é regulada pelo sigma 70. No entanto, quando uma célula de E. coli é exposta
a altas temperaturas, por exemplo, há a produção de sigma 32 que reconhece os
promotores dos genes de choque térmico.

Caro estudante, a regulação gênica que ocorre em operons, no entanto,


pode ser bem complexa, e merece nossa atenção. Nos operons, a transcrição
de um conjunto de genes estruturais contíguos é regulada por dois elementos
controladores. Um dos elementos, o gene repressor, codifica um repressor que se
liga ao segundo elemento, o operador. O operador é sempre contíguo aos genes
estruturais cuja expressão regula. Alguns operons, como o operon da lactose,
contêm vários operadores. A transcrição é iniciada em promotores localizados
ao lado das regiões codificadoras de genes estruturais. A ligação do repressor ao
operador causa um impedimento estérico da transcrição dos genes estruturais no
operon pela RNA polimerase. As regiões operadoras são contíguas com as regiões
promotoras. A unidade completa, que inclui os genes estruturais, o operador e o
promotor, é denominada operon.

O operon lac é induzível e controlado negativamente; os genes lacZ,


lacY e lacA só são expressos na presença de lactose. O gene regulador de lac,
designado gene I, codifica um repressor com 360 aminoácidos. Na ausência de
indutor, o repressor liga-se aos operadores lac, o que, por sua vez, impede a
RNA polimerase de catalisar a transcrição dos três genes estruturais (Figura 42).
Algumas moléculas dos produtos dos genes lacZ, lacY e lacA são sintetizadas
no estado não induzido, o que garante um baixo nível de atividade enzimática.
Essa atividade é essencial para indução do operon lac, pois o indutor do operon,
a alolactose, é derivado da lactose em uma reação catalisada por β-galactosidase.
Uma vez formada, a alolactose liga-se ao repressor, fazendo com que o repressor
seja liberado do operador. Dessa maneira, a alolactose induz a transcrição dos
genes estruturais lacZ, lacY e lacA.

117
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 42 - CONTROLE DO OPERON LAC. A E B MOSTRAM O CONTROLE NEGATIVO DO


OPERON. (C) CONTROLE POSITIVO POR INDUÇÃO DA PROTEÍNA CAP (CAP/CAMP)

FONTE: Zaha (2012, p. 283)

118
TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

A presença de glicose impede a indução do operon lac. Esse fenômeno,


denominado repressão catabólica, garante que a glicose seja metabolizada quando
presente, em detrimento de outras fontes de energia menos eficientes.

A repressão catabólica do operon lac e de vários outros operons é mediada


por uma proteína regulatória chamada CAP e uma pequena molécula efetora
chamada AMP cíclico. O promotor lac tem dois locais de ligação, um para RNA
polimerase e outro para o complexo CAP/cAMP, que se liga no promotor lac
para que haja indução do operon. Assim, o complexo CAP/cAMP exerce controle
positivo sobre a transcrição do operon lac e o efeito é contrário ao da ligação
do repressor a um operador. Quando há pouca glicose, os níveis de cAMP
aumentam e o complexo CAP/cAMP se liga ao DNA, estimulando a ligação da
RNA-polimerase ao operon e aumentando a síntese dos genes constitutivos do
operon lac, com o objetivo de quebrar a lactose como fonte alternativa de energia.

7 CONTROLE DA EXPRESSÃO GÊNICA EM EUCARIOTOS


Caro estudante, o controle da expressão gênica em eucariotos ocorre
em diversos níveis e tem uma regulação peculiar a cada tipo celular, estado
fisiológico e de desenvolvimento. Essa regulação pode se dar nos níveis de início
da transcrição, do processamento do mRNA, no seu transporte para o citoplasma,
na tradução da mensagem em proteína e ainda na regulação da atividade e
degradação do produto gênico.

Em eucariotos, os genes estão no interior da cromatina, estando geralmente


em um estado silencioso, devendo ser expostos para que sejam acessíveis a
proteínas ativadores de transcrição (Fatores transcricionais) e à RNA polimerase
para serem transcritos. Fatores de transcrição, como a proteína de ligação ao
TATA Box dos promotores (TBP), são importantes na regulação da transcrição,
sendo que diversos fatores de transcrição podem se ligar aos promotores dos
genes e aos enhancers, controlando a expressão gênica.

Genes em regiões de DNA metilado são menos transcritos, enquanto


a acetilação de histonas favorece a transcrição. Tanto o remodelamento da
cromatina como a ligação de fatores de transcrição ao DNA são necessários para
que os genes sejam devidamente expressos. A ação dos fatores de remodelamento
é responsável por promover que os ativadores encontrem seus sítios de ligação ao
DNA, recrutando ou ativando o complexo de transcrição (Figura 43).

119
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 43 - VISÃO GERAL DAS REGIÕES DO DNA E DOS FATORES NECESSÁRIOS PARA A
ATIVAÇÃO DA EXPRESSÃO DE UM GENE EUCARIOTO

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

O processo de splicing alternativo, em que diferentes possibilidades de


retirada dos íntrons produzem RNAs maduros diferentes, também se constitui
em um mecanismo importante na regulação da expressão de genes eucarióticos,
pois proteínas diferentes são produzidas a partir de um único gene (Figura 44).

Por fim, a ação de RNAs de interferência (RNAi) pode regular a expressão


gênica em eucariotos, por exemplo, os miRNAs são RNAs unifilamentares curtos,
com 20 a 22 nucleotídeos, que bloqueiam a expressão de mRNA complementar,
causando sua degradação ou reprimindo sua tradução.

FIGURA 44 - SPLICING ALTERNATIVO.


PRODUÇÃO DE DUAS PROTEÍNAS DIFERENTES (CALCITONINA E CGRP) A PARTIR DE UM
MESMO GENE. EXONS FORAM NUMERADOS DE 1 A 6

FONTE: Zaha (2012, p. 248)

120
TÓPICO 2 | TRANSMISSÃO E MANUTENÇÃO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

8 GENÔMICA E O PROJETO GENOMA HUMANO


Os cientistas têm usado o termo genoma durante décadas para denominar
um conjunto completo de cromossomos de um organismo. Já o termo genômica é
relativamente novo, sendo criado em 1986 por Thomas Roderick para denominar
a função de mapear, sequenciar e analisar as funções de genomas inteiros.
À medida que surgiram mapas e sequências mais detalhados dos genomas,
essa função foi sendo dividida em genômica estrutural (o estudo da estrutura
do genoma), genômica funcional (o estudo da função do genoma) e genômica
comparativa (o estudo da evolução e da diversidade do genoma).

A genômica funcional inclui análises do transcriptoma, o conjunto


completo de RNA transcritos de um genoma, e do proteoma, o conjunto
completo de proteínas codificadas por um genoma. O genoma humano também
foi sequenciado, utilizando o DNA de indivíduos diferentes. Assim, temos hoje o
conhecimento de quanto o DNA de um ser humano difere do DNA de outro ser
humano.

As genômicas funcional e comparativa avançaram exponencialmente e


novas tecnologias permitem aos pesquisadores monitorar a expressão de todos
os genes em um genoma simultaneamente.

Como as tecnologias de DNA recombinante e sequenciamento de DNA


avançaram na década de 1980, os cientistas passaram a discutir a possibilidade
de sequenciamento de todos os 3,2 bilhões de pares de nucleotídeos no genoma
humano. Essas discussões levaram ao lançamento do Projeto Genoma Humano
(Human Genome Project), em 1990. Os objetivos do Projeto Genoma Humano
foram mapear todos os genes humanos, construir um mapa físico detalhado de
todo o genoma humano e determinar a sequência nucleotídica dos 24 cromossomos
humanos até 2005. Esse grande projeto foi um esforço mundial, através da criação
da Organização Genoma Humano (HUGO, Human Genome Organization) para
coordenar essa tarefa em todo o mundo.

Em 1992 já foram publicados mapas físicos completos de cromossomos


Y e 21. A primeira sequência de um cromossomo humano (cromossomo 22)
foi publicada em 1999, seguida pela sequência do cromossomo 21, em 2000.
Posteriormente, devido à intervenção do governo dos EUA, os projetos privado
e público de sequenciamento genômico aceitaram publicar os primeiros esboços
do genoma humano, simultaneamente. Procederam a publicação de dois artigos,
um na revista Science e outro na revista Nature, em 2001. Em 2003, o projeto foi
concluído, sendo que se estima que o genoma humano apresente cerca de 20.000
genes. O maior gene humano, chamado DMD, tem 2,4 milhões de pb, 79 exons e
codifica a distrofina, uma proteína envolvida na distrofia muscular de Duchenne.

121
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• A cada ciclo celular, o genoma precisa ser duplicado completamente, de modo


que as células-filhas tenham o mesmo material genético das células que as
originaram.

• A origem de replicação de E. coli no cromossomo circular é chamada de OriC e


engloba uma região de 245 pb.

• Para ocorrer a replicação, há a necessidade de um iniciador para o começo


da polimerização da nova fita. As primases são enzimas que produzem tais
iniciadores (primers).

• A maquinaria replicativa que se move ao longo da molécula de DNA em uma


forquilha de replicação é o replissomo,

• A replicação do DNA ocorre de forma semiconservativa e semidescontínua.

• A maioria das células eucariotas utiliza uma estratégia para replicar as porções
finais de seus cromossomos: os telômeros.

• A transcrição, realizada por RNA-polimerase, produz mRNA, tRNA, rRNA,


snRNA e miRNA.

• Em eucariotos, é preciso processar os transcritos primários por excisão de íntrons


e modificação de ambas as terminações, antes que possam ser traduzidos.

• De acordo com o dogma central da biologia molecular, as informações genéticas


fluem do DNA para o DNA, durante a replicação, e do DNA para o RNA, com
posterior síntese de proteínas, durante a expressão gênica.

• A síntese de cadeias de RNA ocorre no sentido 5' → 3', com o acréscimo de


ribonucleotídios ao grupo 3'-hidroxila na extremidade da cadeia.

• Os ribossomos são fundamentais para a síntese proteica, assim como o mRNA,


mas a tradução requer outra classe de moléculas de RNA, o RNA transportador
(tRNA).

• O término da tradução ocorre quando um dos três códons de término da cadeia


(UAA, UAG ou UGA) entra no sítio A do ribossomo.

122
• As mutações espontâneas são aquelas que acontecem sem uma causa conhecida.

• Mutações induzidas são aquelas que resultam de exposição a agentes físicos e


químicos que provoquem alterações no DNA.

• Os sistemas de reparo do DNA são muito precisos. No entanto, quando agentes


mutagênicos causam danos graves ao DNA das células de E. coli, elas tomam
algumas medidas drásticas, apresentando uma resposta SOS.

• Em procariotos, um gene cujo promotor depende de um determinado fator


sigma para reconhecimento pela RNA-polimerase, apenas é transcrito quando
esse fator estiver disponível.

• Em eucariotos, os genes estão no interior da cromatina, estando geralmente


em um estado silencioso, devendo ser expostos para que sejam acessíveis a
proteínas ativadoras de transcrição (Fatores transcricionais) e à RNA polimerase
para serem transcritos.

• O termo genômica é relativamente novo, sendo criado para denominar a função


de mapear, sequenciar e analisar as funções de genomas inteiros.

• Os objetivos do Projeto Genoma Humano foram mapear todos os genes


humanos, construir um mapa físico detalhado de todo o genoma humano e
determinar a sequência nucleotídica dos 24 cromossomos humanos.

123
AUTOATIVIDADE

1 (ENADE, 2011) A figura a seguir representa variações na quantidade de


DNA ao longo do ciclo de vida de uma célula. (X = unidade arbitrária de
DNA por célula).

A análise do gráfico revela que:

a) ( ) as fases 1, 2 e 3 representam os períodos G1, S e G2, que resumem todo


o ciclo vital de uma célula.
b) ( ) as fases 1, 2 e 3 representam o período em que a célula se encontra em
interfase, e as fases 4, 5, 6 e 7, subsequentes, são características da célula em
divisão mitótica, quando, ao final, ocorre redução à metade da quantidade
de DNA na célula.
c) ( ) as fases de 1 a 5 representam a meiose I, enquanto a meiose II está
representada pelas fases 6 e 7.
d) ( ) a célula representada no gráfico é uma célula diploide que teve a
quantidade de seu DNA duplicada no período S da interfase (fase 2) e,
posteriormente, passou pelas fases da meiose, originando células filhas com
metade da quantidade de DNA (fase 7, células haploides).
e) ( ) a fase 3 é caracterizada por um período em que não há variação na
quantidade de DNA na célula, portanto, essa fase representa uma célula
durante os períodos da mitose: prófase, metáfase e anáfase.

2 (ENADE, 2014) A persistência de grande fração de elementos transponíveis


em alguns genomas eucariotos (44% do genoma humano) é consistente com
a ideia de que eles exercem um papel importante na modulação do genoma
durante o processo evolutivo. A diversificação de genes e seus produtos é
um fator importante na evolução das espécies e os elementos transponíveis
podem atuar de várias formas. Considerando o texto apresentado, avalie as
afirmações a seguir.

I- O movimento de um elemento transponível pode propiciar sua inserção


no meio de uma sequência codificadora de proteína e inibir a produção do
transcrito normal do gene.
II- Os elementos transponíveis de sequencias semelhantes distribuídos
no genoma facilitam a recombinação entre cromossomos diferentes,
aproximando regiões homólogas e, assim, possibilitando o crossing-over.

124
III- A maioria dos eventos de recombinação são benéficos, causando
translocações cromossômicas e outras mudanças que, ao longo do tempo,
resultam em vantagens adaptativas.

É correto o que se afirma em:

FONTE: REECE, J.B. et al. Biology. 9 ed. São Francisco: Benjamin Cummings, 2011
(adaptado).

a) ( ) I, apenas.
b) ( ) III, apenas.
c) ( ) I e II, apenas.
d) ( ) II e III, apenas.
e) ( ) I, II e III.

3 (ENADE, 2017) A técnica de edição genética conhecida como CRISPR


(repetições palindrômicas curtas agrupadas e regularmente interespaçadas)
tem sido observada com entusiasmo pela comunidade científica. Nessa
técnica, o genoma de uma célula pode ser modificado em pontos específicos
com grande precisão. Uma enzima associada a uma molécula de RNA-
guia identifica um ponto alvo no genoma, clivando-o para a remoção ou
a inserção de uma sequência de nucleotídeos. Com relação às informações
apresentadas, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas.

I- A edição de genomas em células somáticas pode representar uma alternativa


viável em terapias gênicas, entretanto deve ser utilizada com cautela.

PORQUE

II- A edição de sequências genômicas pode provocar o surgimento de efeitos


não previstos (off target), como a alteração da expressão de genes relacionados
a outras funções.

A respeito dessas asserções, assinale a alternativa CORRETA:

FONTE: Suzuki, K., et al. In vivo genome editing via CRISPR/Cas9 mediated homology-
independent targeted integration. Nature. n. 540, p. 144-149, 2016 (adaptado).

a) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa


correta da I.
b) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma
justificativa correta da I.
c) ( ) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
d) ( ) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
e) ( ) As asserções I e II são proposições falsas.

4 Qual é a sequência de bases no mRNA a partir da seguinte sequência de


DNA-molde 3'-TAC TGC AGA CAA GTC-5'? Indique a sequência de
aminoácidos a partir da tradução deste mRNA.
125
126
UNIDADE 2 TÓPICO 3

TÉCNICAS DE BIOLOGIA
MOLECULAR

1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, neste tópico serão abordados os fundamentos das
principais técnicas de biologia molecular. A partir da década de 1970, uma
verdadeira revolução nos permitiu compreender melhor a estrutura e a função
dos ácidos nucleicos, e atualmente é comum isolar e estudar um determinado
segmento de DNA. Esses avanços deram origem à disciplina de Biologia
Molecular, que nada mais é que a incorporação de metodologias de bioquímica e
biofísica ao estudo da genética. Atualmente, diferentes metodologias moleculares
são rotineiras em laboratórios de pesquisa, bem como em investigações clínicas
e forenses.

O grande desenvolvimento de técnicas de biologia molecular e de


bioinformática tem proporcionado grandes avanços para as áreas da saúde e
ciências biológicas, promovendo uma verdadeira revolução na biologia moderna.
Os métodos de manipulação de DNA, RNA e proteínas in vitro envolvem o
uso de enzimas purificadas, oriundas de diversos organismos, tais como DNA
polimerases, DNA ligases e nucleases, enzimas que podem ser purificadas em
grandes quantidades e usadas para manipular DNA in vitro, além de uma série
de reagentes e equipamentos fundamentais para os estudos na área.

Vamos estudar aqui as metodologias básicas de manipulação do DNA,


que tornam possível a separação e a clonagem de fragmentos de DNA ou cDNA,
bem como as metodologias que permitem a amplificação e o sequenciamento de
DNA, assim como os estudos da expressão gênica e algumas aplicações práticas,
como a identificação humana por meio da análise de DNA.

127
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

2 IDENTIFICAÇÃO, AMPLIFICAÇÃO E CLONAGEM


DE GENES
Caro acadêmico, como você imagina que cientistas podem produzir
insulina humana ou hormônio do crescimento em E. coli? Então, através de
técnicas de biologia molecular, foi possível combinar a sequência codificadora do
gene do hormônio do crescimento humano ou da insulina humana a sequências
de DNA bacteriano que possibilitam a expressão destes genes em bactérias.

Os genes foram clonados em bactérias para que houvesse a produção das


proteínas de interesse. Atualmente, a síntese de diferentes proteínas humanas é
amplamente realizada em bactérias ou células eucarióticas.

A capacidade de amplificar um gene é fundamental para produção em


bactérias de uma proteína humana, como o hormônio de crescimento humano,
utilizado no tratamento de indivíduos que não produzem essa importante
proteína. Chamamos a amplificação de uma sequência específica de DNA de
clonagem de DNA. O processo de clonagem replica um segmento de DNA muitas
vezes, gerando um grande número de cópias idênticas. Nesse sentido, podemos
replicar a sequência de DNA de interesse em células vivas, inserindo-a em um
plasmídio bacteriano ou no DNA de um bacteriófago in vitro, introduzindo a
mesma em uma célula hospedeira apropriada, que pode replicá-la. O plasmídio
ou o cromossomo do fago utilizado nessa técnica é chamado vetor de clonagem.
Um outro método para clonagem de uma sequência de DNA é a utilização da
técnica denominada reação da cadeia de polimerase (PCR), a fim de replicar a
sequência in vitro. Esse procedimento tornou-se uma ferramenta poderosa na
clonagem de DNA, mas só pode ser utilizado quando se conhecem as sequências
nucleotídicas que flanqueiam a sequência de DNA de interesse.

A técnica de DNA recombinante tornou-se possível graças à descoberta


das endonucleases de restrição, produzidas por bactérias, que fazem cortes
internos nas moléculas de DNA, possibilitando a inserção de segmentos de DNA
de interesse em vetores de clonagem (figura a seguir).

128
TÓPICO 3 | TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR

FIGURA 45 - MECANISMO DE AÇÃO DE ENZIMAS DE RESTRIÇÃO. SÍTIOS DE


RECONHECIMENTO E CLIVAGENS PROMOVIDAS NO DNA PELAS ENZIMAS ECORI, PSTI E SMAI

FONTE: Menck e Sluys (2017, cap. 3

As endonucleases de restrição são sítio-específicas, ou seja, clivam as


moléculas de DNA apenas em sítios específicos de restrição. As endonucleases
de restrição geralmente reconhecem sequências de DNA palindrômicas. Várias
enzimas de restrição são produzidas por diferentes microrganismos para sítios
de DNA específicos. A função biológica das enzimas de restrição é proteger o
material genético das bactérias, clivando possíveis DNAs exógenos, advindos de
outra espécie ou DNA viral. A endonuclease de restrição cliva DNA seja qual for
a origem da molécula, como o DNA de um vírus, de uma bactéria, de espécies
vegetais, de humano ou qualquer outro DNA, desde que contenha a sequência
reconhecida por ela.

Agora, prezado acadêmico, veja a Figura 46, que apresenta uma molécula
de DNA recombinante contendo fragmentos de DNA de duas origens diferentes.
A capacidade dos geneticistas de construir tais moléculas de DNA recombinante
revolucionou a biologia molecular. Entretanto, para que uma molécula de DNA

129
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

recombinante seja útil, precisa ser amplificada por replicação em uma célula.
A capacidade de replicação é uma característica essencial de todos os vetores
de clonagem, sendo plasmídio ou bacteriófago. O vetor de clonagem deve
apresentar uma origem de replicação, um gene marcador selecionável dominante,
geralmente um gene que confere resistência a fármacos à célula hospedeira e um
local de clivagem para endonuclease de restrição. Os vetores de clonagem atuais
contêm um sítio de clonagem múltipla, denominado polylinker.

FIGURA 46 - CONSTRUÇÃO DE MOLÉCULAS DE DNA RECOMBINANTES IN VITRO

FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 372)

Mas, caro acadêmico, alguns genes eucarióticos são muito grandes,


exigindo vetores de clonagem que os suportem. As pesquisas com grandes genes
e cromossomos é possível quando se usam vetores que aceitam grandes insertos
de DNA, como BAC (cromossoma artificial bacteriano), PAC (cromossoma
artificial P1) e YAC (cromossoma artificial de levedura).

Prezado acadêmico, agora vamos estudar a reação em cadeia da


polimerase (PCR). Atualmente, temos as sequências nucleotídicas completas
de muitos genomas, inclusive do genoma humano, disponíveis no GenBank. A
partir disso, podemos estudar diferentes genes por amplificação de DNA in vitro,
e a sequência de DNA de interesse pode ser amplificada em apenas algumas
horas, através da PCR. O uso desse procedimento requer apenas o conhecimento
de sequências nucleotídicas curtas que flanqueiam a sequência de interesse.
Na PCR, oligonucleotídios sintéticos (primers de DNA) complementares a
130
TÓPICO 3 | TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR

sequências conhecidas iniciam a amplificação enzimática da sequência de DNA.


Esse procedimento para amplificação das sequências de DNA foi desenvolvido
por Kary Mullis, que ganhou o Prêmio Nobel de Química em 1993.

A PCR tem três etapas, cada uma delas repetida muitas vezes (Figura
47). Inicialmente, o DNA genômico que contém a sequência a ser amplificada
é desnaturado por aquecimento à temperatura de 92°C a 95°C por cerca de 30
segundos. Posteriormente temos o anelamento dos primers em local específico
do DNA genômico desnaturado, mediante incubação em temperatura que pode
variar entre 50°C e 65°C, por um minuto. A temperatura ideal de anelamento
depende da composição de bases do iniciador. Finalmente, a DNA polimerase
é usada para replicar o segmento de DNA entre os locais complementares aos
iniciadores oligonucleotídicos. O iniciador oferece a 3′-OH livre necessária para
extensão da fita de DNA covalente, e o DNA genômico desnaturado desempenha
a função de molde necessária. A polimerização geralmente é realizada a 72°C
durante um minuto. Os produtos do primeiro ciclo de replicação são desnaturados,
pareados com iniciadores oligonucleotídicos e replicados novamente com a DNA
polimerase. O procedimento é repetido muitas vezes até que seja alcançado o
nível de amplificação desejado. Depois de 30 ciclos de amplificação, haverá mais
de um bilhão de cópias da sequência de DNA. A descoberta da DNA polimerase
termoestável na bactéria termofílica Thermus aquaticus proporcionou um grande
avanço na amplificação do DNA por PCR. A Taq polimerase (polimerase de T.
aquaticus) mantém a atividade durante a etapa de desnaturação por calor.

A PCR tem muitas aplicações, pois permite que os cientistas obtenham


dados estruturais definitivos sobre genes e sequências de DNA quando há
pouco DNA. Uma aplicação importante é no diagnóstico de doenças humanas
hereditárias, inclusive em casos de diagnóstico pré-natal, nos quais o DNA fetal
disponível é limitado. São várias as aplicações possíveis, como em casos forenses
de identificação de pessoas pelo DNA isolado de amostras pequenas de tecido.
Utilizando-se a PCR, é possível identificar as sequências de DNA em reduzidas
quantidades de DNA isoladas de sangue, sêmen ou cabelo humanos, por exemplo.

131
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

FIGURA 47 - TÉCNICA DA REAÇÃO EM CADEIA DA POLIMERASE (PCR)

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

A enzima transcriptase reversa catalisa a síntese de filamentos de DNA


complementares aos moldes de RNA, sendo utilizada em pesquisas para
sintetizar filamentos de cDNA. Então, os filamentos de DNA produzidos podem
ser convertidos em DNA bifilamentar. Posteriormente, as moléculas de DNA
produzidas podem ser amplificadas por PCR.

Os produtos de amplificação por PCR podem ser analisados por


eletroforese em géis de agarose ou de poliacrilamida. Nesta técnica, os fragmentos
de DNA com carga negativa são submetidos a uma carga elétrica e correm ao
longo de um gel em direção ao polo positivo, sendo separados por tamanho, pois
os fragmentos menores se deslocam mais rapidamente ao longo da malha do gel.
De modo geral, a eletroforese torna possível separar fragmentos de DNA na faixa

132
TÓPICO 3 | TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR

de 10 pb até 50 Kpb. Para a separação de fragmentos maiores, podemos trabalhar


com gel de agarose. No entanto, quando a amostra de DNA a ser analisada é
composta por fragmentos pequenos, utiliza-se a poliacrilamida. Nesse caso, o gel
é composto por uma mistura de dois monômeros: acrilamida e bisacrilamida,
o que torna possível identificar diferenças de apenas um nucleotídeo entre
diferentes amostras, o que é bastante útil, por exemplo, para o sequenciamento de
DNA. Marcadores de pares de bases também devem ser utilizados com o objetivo
de quantificarmos o tamanho dos fragmentos de DNA (Figura 48).

FIGURA 48 - ELETROFORESE EM GEL DE AGAROSE. (A). CORRIDA ELETROFORÉTICA


HORIZONTAL DE DNA E RNA. (B) VISUALIZAÇÃO SOB LUZ ULTRAVIOLETA DE FRAGMENTOS
DE DNA

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

133
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

A técnica de PCR também possibilitou a identificação de indivíduos a


partir de amostras de baixa qualidade e/ou contendo quantidades mínimas de
DNA, o que é útil na identificação de criminosos a partir de amostras obtidas
em cenas de crime. Através da análise de polimorfismos de sequências repetidas,
como STRs (Repetições curtas em tandem), podemos identificar criminosos, ou
ainda descartar ou confirmar paternidade (Figura 49).

FIGURA 49 - ANÁLISE PARA DETERMINAÇÃO DE PATERNIDADE

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

Atualmente também trabalhamos com PCR em tempo real, o qual


utiliza equipamentos que amplificam e quantificam o produto de amplificação
ao mesmo tempo. A alta sensibilidade do método possibilita que os produtos
sejam detectados na fase exponencial de amplificação. Nessa fase, quanto maior
a quantidade de molde, menos ciclos de amplificação serão necessários para
desenvolver uma quantidade detectável de produto. A quantificação do DNA
é baseada na análise de um gráfico de amplificação que compara número de
ciclos versus intensidade de fluorescência. As análises quantitativas do PCR em

134
TÓPICO 3 | TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR

tempo real podem ser usadas para confirmar dados de variação de expressão de
genes, como os obtidos em estudos de microarranjos de DNA, em pesquisas de
transcriptoma.

Na técnica de microarranjos de DNA se utiliza o princípio de hibridação


de ácidos nucleicos, que evoluiu a partir das técnicas de Southern e Northern
blot para tornar possível a análise da expressão gênica global de uma célula.
Assim, fragmentos de praticamente todos os genes conhecidos de um organismo
são imobilizados em uma lâmina. São usados DNAs obtidos a partir de uma
biblioteca de cDNA do organismo de interesse. Amostras de cDNA total de
células são marcadas com moléculas fluorescentes, os fluoróforos, sendo que as
moléculas de cDNA presentes na amostra funcionam como sondas, hibridando
por complementariedade na posição correspondente na lâmina. A intensidade
de fluorescência emitida em cada posição da lâmina nos indica a quantidade de
moléculas de cDNA presentes e, consequentemente, o número de transcritos de
cada um dos genes.

A técnica de Southern blot citada anteriormente detecta sequências de


DNA em amostras separadas por eletroforese. Esta técnica tornou possível a
detecção e a identificação de um gene de interesse em uma amostra de DNA.
Inicialmente, é necessário cortar o DNA pelo tratamento com enzimas de
restrição, obtendo-se fragmentos de DNA que podem ser separados em um gel de
agarose. Posteriormente, o gel é submerso em solução alcalina para desnaturação
do DNA. Então ocorre a transferência do DNA para uma membrana de náilon
ou membrana de hibridação, que é incubada com a sonda, contendo o DNA
correspondente à região de interesse, possibilitando a hibridação da sonda com
o DNA de sequência idêntica. Após o surgimento da técnica de Southern blot,
foram desenvolvidas modificações que possibilitaram a realização de estudos
semelhantes em amostras de mRNA, surgindo o Northern blot, muito usado em
pesquisas de expressão gênica. Já a técnica de Western blot refere-se à detecção
de proteínas.

Caro estudante, agora vamos tratar de sequenciamento do DNA. O


método de sequenciamento mais usado até o momento foi desenvolvido por
Frederick Sanger (1918-2013), com a utilização de DNA polimerase. Durante o
sequenciamento de DNA de Sanger, são adicionados didesoxirribonucleotídeos
(ddNTP) às reações de síntese de DNA. Eles são diferentes dos
desoxirribonucleotídeos por apresentarem uma substituição do grupo 3’-OH por
um hidrogênio. Portanto, quando incorporados em uma fita de DNA, impedem
que a síntese de DNA continue, por não terem grupo 3’-OH livre. O método
utiliza quatro reações diferentes de polimerização de DNA, sendo que cada uma
dessas reações contém desoxirribonucleotídeos normais (dNTP) e um dos quatro
didesoxirribonucleotídeos misturados ao fragmento de DNA que se deseja
sequenciar, além de um iniciador marcado radioativamente em 5’, e uma DNA
polimerase. A DNA polimerase começa a incorporar os nucleotídeos na síntese
de uma fita complementar, mas eventualmente incorporará o ddATP, causando a

135
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

interrupção da síntese. O resultado dessas reações é uma coleção de fragmentos


de tamanhos diferentes, todos eles terminados por incorporação de um ddNTP.
As reações são submetidas à eletroforese em gel de poliacrilamida, e as bandas
do gel reveladas por autorradiografia, sendo possível determinar a sequência de
nucleotídeos do DNA estudado (Figura 50).

136
TÓPICO 3 | TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR

FIGURA 50 - SEQUENCIAMENTO DE DNA PELO MÉTODO DE SANGER. APENAS A REAÇÃO


COM DDATP É APRESENTADA

FONTE: Menck e Sluys(2017, s.p.)

137
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

Ao considerarmos o sequenciamento de nova geração e a obtenção de


dados em larga escala, podemos trabalhar com a ideia de uma tecnologia capaz de
sequenciar o genoma humano inteiro em questão de poucos dias. Neste sentido,
temos a perspectiva de uma medicina individualizada, a partir do conhecimento
das predisposições genéticas de cada indivíduo. No entanto, temos que entender
que muitos dilemas éticos deverão ser encarados quando essas metodologias se
encontrarem largamente disponíveis.

3 BIBLIOTECAS DE DNA
Um conjunto de clones de DNA que contém um determinado genoma é
uma biblioteca de DNA genômico. Muitas vezes, cromossomos de um organismo
são isolados e utilizados para criar bibliotecas de DNA para cromossomos
específicos, o que facilita a pesquisa de um gene sabidamente localizado em
determinado cromossomo. Um método alternativo à clonagem gênica restringe
a pesquisa de um gene às sequências de DNA transcritas em cópias de mRNA.
Os retrovírus de RNA codificam a transcriptase reversa, enzima catalisadora
da síntese de moléculas de DNA complementares (cDNA) a moldes de RNA
unifilamentares. O cDNA bifilamentar pode ser clonado em vetores plasmidiais
e, a partir do mRNA, os geneticistas são capazes de construir bibliotecas de
cDNA que contêm apenas as regiões codificadoras dos genes expressos de um
organismo.

As bibliotecas de DNA genômico são preparadas por isolamento de todo


o DNA de um organismo, digestão do DNA por endonuclease de restrição e
inserção dos fragmentos de restrição em vetor de clonagem apropriado. Com a
utilização de enzima de restrição, os fragmentos de restrição podem ser ligados
diretamente dentro de moléculas de DNA de vetores cortados pela mesma enzima.
Posteriormente, é preciso introduzir DNA recombinante em células hospedeiras
para amplificação por replicação in vivo. Uma boa biblioteca de DNA genômico
contém praticamente todas as sequências de DNA do genoma de interesse.

Grande parte dos grandes genomas de animais e vegetais não codifica


proteínas. Portanto, é melhor identificar os genes expressos empregando
bibliotecas de DNA complementar (cDNA). Como a maioria das moléculas de
mRNA contém caudas poli(A) 3′, pode-se usar oligômeros poli(T) para iniciar
a síntese de filamentos complementares de DNA por transcriptase reversa. Os
dúplex de RNA–DNA são convertidos em moléculas de DNA bifilamentares
pelas ações de uma ribonuclease, uma DNA polimerase e DNA ligase. Por fim, os
cDNAs bifilamentares podem ser inseridos em vetores de clonagem.

138
TÓPICO 3 | TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR

4 BIOINFORMÁTICA
Caro estudante, a Biologia passa por uma revolução causada por
métodos de geração e análise de dados em grande escala. Transformar esses
dados em informação e conhecimento é o principal objetivo da bioinformática.
A bioinformática é uma área muito dinâmica, na qual surgem diariamente novas
ferramentas, metodologias e bases de dados.

Faz mais de uma década da conclusão do Projeto Genoma Humano,


e biólogos, biomédicos e médicos, bem como a sociedade, vivem hoje uma
revolução do conhecimento biológico, desencadeada pela introdução de métodos
automáticos de geração de dados em larga escala, com o desenvolvimento de
novos algoritmos computacionais de análise, gerenciamento e de distribuição de
dados.

Com o avanço na geração de informações biológicas, surgiram bases


de dados para a deposição, organização e apresentação dessas informações.
Atualmente, vários bancos de dados são mantidos por diferentes organizações e
empresas, podendo ser acessados e utilizados via internet, por exemplo.

Dentre esses, destacam-se alguns dos repositórios que permanecem


como referência: O NCBI (National Center for Biotechnology Information); o
PubMed, repositório que compreende mais de 25 milhões de títulos científicos
relacionados a trabalhos do MEDLINE; o OMIM (Online Mendelian Inheritance
in Man); o Gene, banco de dados que reúne todas as informações associadas a um
determinado gene; o EBI (European Bioinformatics Institute); o KEGG (Kyoto
Encyclopedia of Genes and Genomes); o PDB (Protein Data Bank); o Mendel
(Sistema de busca de sequências genômicas ou exomas associados a doenças); 
bem como o EXPASY, que reúne uma série de ferramentas computacionais e
possibilita que o usuário navegue por diversos repositórios de dados.

Atualmente, o sequenciamento de genomas se tornou uma rotina em


muitos laboratórios de genética. A dificuldade metodológica para sequenciar
moléculas de DNA está superada, sendo que o grande desafio de hoje é armazenar,
organizar e processar as sequências geradas. O maior desafio durante o processo
de sequenciamento de um genoma completo é a organização linear das leituras
obtidas, pois há uma grande similaridade entre diferentes regiões do mesmo
genoma, algo que ocorre em praticamente todos os organismos. De qualquer
forma, há duas abordagens que podem ser usadas para realizar a montagem
de tais leituras: a montagem de novo do genoma e a montagem guiada por um
genoma de referência.

Os métodos baseados em sequências de referência requerem menos


memória e capacidade de processamento computacional, no entanto, dependem
da disponibilidade de uma sequência genômica apropriada contra a qual as
leituras são alinhadas e depois montadas. Em relação aos métodos de montagem

139
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

de novo, os principais algoritmos de montagem baseiam-se na busca por regiões


de sobreposição entre as sequências. Para que essa sobreposição ocorra, os
protocolos de sequenciamento incluem passos que fragmentam o DNA de modo
aleatório, objetivando uma distribuição uniforme de fragmentos ao longo do
genoma sequenciado.

Posteriormente à montagem de um genoma, começam os registros dos


genes, de suas regiões transcritas, regiões reguladoras e polimórficas. Dependendo
do organismo, o processo de anotação pode ser bastante complexo. Localizar um
determinado gene em uma sequência genômica deveria ser algo simples, pois um
gene apresenta, no início de sua região codificadora (ORF, open reading frame) um
códon inicial (ATG) e, no seu final, um códon de parada ou terminal (TAA, TAG
ou TGA). Considerando genomas bacterianos, a tarefa é relativamente simples,
a qual pode ser realizada com ferramentas computacionais, como os programas
Glimmer e GeneMark. Mas identificar as ORF em genomas de eucariotos é um
processo difícil, pois a maioria dos genes apresenta íntrons. Mesmo no genoma
humano ainda não conhecemos o número exato de genes. Portanto, em genomas
de eucariotos, identificar as ORF, exons e íntrons é um processo bastante difícil.
Alguns algoritmos que funcionam muito bem, visando esse objetivo, são:
GenScan, TWINSCAN, NSCAN e JIGSAW.

Uma estratégia utilizada é a de fazer uma anotação manual de genomas.


A iniciativa mais importante é a chamada ENCODE (Encyclopedia of DNA
Elements). O ENCODE é um consórcio formado por diversos grupos de pesquisa
que tem o objetivo de registrar todos os elementos funcionais presentes no
genoma humano.

140
TÓPICO 3 | TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR

LEITURA COMPLEMENTAR

Os mecanismos do envelhecimento

Marcos Pivetta e Ricardo Zorzetto

Estudos com células e organismos vivos identificam fenômenos genéticos e


moleculares associados ao declínio físico e mental

Nunca um número tão grande de pessoas viveu tanto. Dos bebês que
nascem hoje, mais da metade deve completar 65 anos e viver quase duas décadas
a mais do que as pessoas nascidas em meados do século passado. O aumento
da longevidade da população mundial e a redução da fertilidade estão fazendo
o mundo envelhecer rapidamente. Projeções do documento Developing in an
ageing world, publicado em 2007 pela Organização das Nações Unidas (ONU),
indicam que em 2050 haverá cerca de 2 bilhões de pessoas com 60 anos ou mais no
planeta (22% do total) – em 2005 eram 670 milhões, ou 10% da população.

O aumento da expectativa de vida também traz problemas. Um deles é o


aumento rápido da proporção de idosos em muitos países – entre eles, o Brasil. Na
França, passaram-se quase 150 anos para que o número relativo de idosos subisse
de 10% para 20% da população. Nesse tempo, o país enriqueceu e melhorou as
condições de vida das pessoas. China, Brasil e Índia passarão por algo semelhante
em 25 anos (ver gráfico).

Hoje há 26 milhões de idosos (12,5% da população) no Brasil. Segundo


projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os idosos serão
29% em 2050, quando esse grupo somará 66 milhões de indivíduos. “O Brasil
está envelhecendo na contramão”, afirma o médico e epidemiologista carioca
Alexandre Kalache, que dirigiu por 13 anos o Programa Global de Envelhecimento
e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) e hoje preside a seção brasileira
do International Longevity Centre (ILC), uma organização sem fins lucrativos que
investiga o envelhecimento populacional e estratégias de adaptação dos países à
chamada revolução da terceira idade. “Já temos problemas de saúde, emprego,
educação, saneamento e também teremos de lidar com uma população formada
por um grande número de idosos”.

As doenças associadas ao envelhecimento devem se tornar mais comuns,


ao mesmo tempo que mais gente viverá com saúde por mais tempo, mudando
o panorama laboral, que exigirá mais flexibilidade e capacidade de adaptação
de pessoas, empresas e Estado. “As cidades terão de se preparar para esse novo
cenário, criando políticas de moradia, transporte, participação social, trabalho e
educação que levem em consideração o idoso”, alerta o epidemiologista.

141
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

Em paralelo a essas mudanças, ocorreu ao longo do último século um


avanço jamais visto na compreensão das causas do envelhecimento. Uma busca
simples com as palavras-chave ageing ou aging em uma das maiores e mais
importantes bases de artigos científicos na área da saúde, o Pubmed, encontra
cerca de 384 mil papers sobre o assunto publicados de 1925 a 2016.

Em uma revisão publicada em 2013 na revista Cell intitulada The hallmarks


of aging, pesquisadores da Espanha e da França apresentam uma síntese do que
se sabe sobre os mecanismos celulares e moleculares – as causas mais profundas
– do envelhecimento. Esta reportagem revisita os principais tópicos do assunto e
apresenta avanços, inclusive com a participação de brasileiros.

Os genes e o tempo

Uma “boa genética” é talvez o fator biológico mais associado à longevidade.


Experimentos envolvendo a manipulação de genes estenderam de forma
significativa o tempo de vida de organismos considerados modelos, como
leveduras, moscas, vermes e até mamíferos. A intervenção molecular foi bem-
sucedida no verme  Caenorhabditis elegans, um nematoide com 1 milímetro
de comprimento cujo genoma foi sequenciado em 1998. Em vez de durar duas
ou três semanas, o verme passou a viver de 145 a 190 dias depois que alguns
de seus genes foram alterados. Com o camundongo (Mus musculus), talvez o
melhor amigo de laboratório do ser humano, os resultados são mais modestos,
mas igualmente positivos. Intervenções no genoma prolongam em um ano a
longevidade do roedor, que é de quase dois anos.

Esses resultados levam alguns biólogos moleculares e geneticistas a


defender a ideia de que a senescência é um processo dotado de plasticidade,
controlável em certa medida. “Podemos acelerar ou retardar o envelhecimento
nos animais”, diz o biólogo português João Pedro Magalhães, chefe do Grupo
de Genômica Integrada do Envelhecimento da Universidade de Liverpool, na
Inglaterra. “O próximo passo é fazer isso no ser humano”. Segundo Magalhães,
os estudos com organismos-modelo já identificaram uns dois mil genes capazes
de regular o envelhecimento.

Uma das estratégias dessa busca por viver mais e melhor é procurar
mecanismos celulares e moleculares associados a uma boa velhice em quem
é extremamente longevo. Magalhães coordenou em 2015 o sequenciamento
do genoma da baleia-da-groenlândia (Balaena mysticetus), o mamífero mais
resiliente à passagem do tempo. Com 18 metros de comprimento e 100 toneladas,
esse cetáceo do Ártico pode ter em seu DNA pistas sobre como contornar o câncer
e sobreviver por dois séculos. O trabalho, publicado na  Cell Reports, mostra
alterações em um gene ligado à termorregulação, que pode ser importante para
entender o baixo metabolismo do animal. Um ritmo mais lento pode explicar
como um mamífero tão grande vive três vezes mais que o homem.

142
TÓPICO 3 | TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR

O DNA dos indivíduos mais longevos de nossa própria espécie também


pode ser fonte de informações úteis para combater doenças associadas à velhice e
conter o avanço dos ponteiros do relógio biológico. Essa é a expectativa de projetos
ambiciosos como o Wellderly, conduzido desde 2007 pelo Instituto de Pesquisa
Scripps, da Califórnia. Em 2016, foram publicados os primeiros resultados de
peso do projeto, que sequenciou o genoma completo de 600 idosos saudáveis
(sem doenças crônicas), com idade entre 80 e 105 anos, e comparou com o de 1.500
adultos mais jovens.

A diferença mais significativa é que os participantes do Wellderly


apresentavam um risco genético menor de desenvolver problemas cognitivos.
Em alguns idosos saudáveis, foram identificadas variantes (versões) do
gene  COL25A1  que lhes dariam proteção contra a doença de Alzheimer. Eles
também tinham uma propensão pequena a desenvolver problemas cardíacos,
embora o risco genético de tumores, diabetes tipo 2 e derrames fosse igual ao do
grupo de controle.

“Foi surpreendente não ver diferença no risco genético para o


desenvolvimento de cânceres”, comenta Ali Torkamani, diretor de Informática
de Genoma e de Descoberta de Drogas do Scripps. “Sabemos também que há
doenças genéticas que influenciam a velocidade do envelhecimento, geralmente
acelerando-o. Mas, no geral, o envelhecimento é um processo complexo”.

O Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-


CEL) da Universidade de São Paulo (USP) coordena um projeto que caminha
para ser um Wellderly brasileiro, com duas populações de idosos. A primeira
inclui mais de 1.300 residentes na cidade de São Paulo que tinham mais de 60
anos quando participaram do levantamento epidemiológico Saúde, Bem-estar e
Envelhecimento (Sabe), realizado desde 1999 pela Faculdade de Saúde Pública
da USP. A segunda, o estudo 80+, abrange a análise do DNA de cerca de 130
octogenários, todos com boa saúde.

Os pesquisadores da USP sequenciaram o exoma, a parte do genoma


que codifica proteínas, dos idosos do Sabe. Os primeiros resultados, de 609
participantes, foram publicados em março de 2017 na revista Human Mutation e
evidenciaram a singular mistura de populações (negro, índio e europeu) que
caracteriza o Brasil. Foram encontradas 207 mil variantes genéticas que nunca
tinham sido descritas nos bancos internacionais de dados moleculares. “Isso
mostra a importância de produzirmos estudos com a nossa população”, comenta
a geneticista Mayana Zatz, coautora do estudo e coordenadora do CEGH-CEL, um
dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP.
Cada idoso tinha 300 alterações em média, a maioria inofensiva. Apenas sete
indivíduos apresentaram mutações associadas a doenças, em geral algum câncer.

143
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

Nas próximas semanas, o geneticista Michel Naslavsky, do centro da USP,


viaja aos Estados Unidos para sequenciar o genoma de 1.300 idosos do Sabe e do
80+. “Será um trabalho demorado”, conta Naslavsky, primeiro autor do estudo
na Human Mutation. Os dados produzidos pelo CEGH-CEL estão disponíveis na
página do Arquivo Brasileiro Online de Mutações (ABraOM).

Formas de proteger o DNA

A corrente majoritária de biólogos e bioquímicos aceita hoje a ideia de que


os organismos envelhecem e morrem porque, com o tempo, suas células perdem
a capacidade de desempenhar funções, definham e morrem mais depressa do que
conseguem ser repostas.

A todo momento, reações químicas no organismo, além de fenômenos


ambientais, podem causar lesões na molécula de DNA. Experimentos feitos
nos anos 1970 pelo bioquímico sueco Tomas Lindahl mostraram que o DNA
de uma célula humana sofre 10 mil pequenas alterações espontâneas por dia,
quase uma a cada 10 segundos. Nos 3,6 bilhões de anos de existência de vida no
planeta surgiram proteínas que auxiliam o material genético a se manter íntegro,
permitindo às células produzirem cópias perfeitas de si mesmas e continuar a
existir.

Como nada é perfeito, os mecanismos de reparo também falham. Em


um estudo com camundongos publicado em 2007 na  Nature, pesquisadores
dos Estados Unidos e da Holanda comprovaram que, com o tempo, as células-
tronco acumulam defeitos genéticos e perdem a capacidade de se reproduzir e
manter os tecidos íntegros e em funcionamento. Estudos posteriores mostraram
que o mesmo ocorre com células humanas, inclusive em síndromes marcadas por
envelhecimento acelerado, como a progéria.

No Instituto de Ciências Biomédicas da USP, o biólogo molecular Carlos


Menck e sua equipe investigam a causa das alterações genéticas que impedem o
reparo adequado do material genético. Há alguns anos, eles acompanham pessoas
com a doença hereditária xeroderma pigmentosum (ver Pesquisa FAPESP nº 199).
Expostas ao sol, elas desenvolvem câncer de pele muito facilmente porque suas
células não consertam os danos causados pela radiação ultravioleta. Algumas
podem também apresentar problemas neurológicos e outros sintomas parecidos
com os observados nas síndromes de envelhecimento acelerado, que em alguns
casos leva à morte no primeiro ano de vida. Falhas nesses mesmos genes levam
ao atraso no desenvolvimento físico e mental característicos da síndrome de
Cockayne.

Anos atrás Menck iniciou uma colaboração com um ex-aluno, o biólogo


brasileiro Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego, para
estudar os fenômenos que poderiam acometer os neurônios dessas pessoas. Com
a adição de compostos químicos, eles induziram células da pele de pessoas com
síndrome de Cockayne a regredirem ao estágio de células-tronco – essas células

144
TÓPICO 3 | TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR

são capazes de originar outros tecidos. Depois, as estimularam a se transformarem


em neurônios e viram que eles formavam conexões irregulares com outras células.
“Os defeitos observados nos neurônios criados em laboratório explicariam, ao
menos parcialmente, a origem dos problemas neurológicos desses indivíduos”,
conta Muotri, um dos autores do artigo publicado em 2016 na revista  Human
Molecular Genetics.

Menck e Muotri também verificaram que esses neurônios acumulavam


espécies reativas de oxigênio, ou radicais livres, compostos contendo uma forma
de oxigênio que interage facilmente com o DNA e as proteínas, danificando-os.
Eles suspeitam que a produção se dê em versões defeituosas das mitocôndrias,
responsáveis pela produção de energia nas células. “Acreditamos que esse seja o
link com a progéria, uma vez que níveis elevados de espécies reativas de oxigênio
já foram relacionados ao envelhecimento”, diz Muotri. “Agora estamos tentando
reverter esse quadro usando compostos antioxidantes”.

Na USP, Menck trabalha para amplificar os danos que as espécies reativas


de oxigênio causam no material genético de pessoas com síndrome de Cockayne
e tentar descobrir qual parte da maquinaria celular esses danos emperram. Caso
se confirme que essa estratégia reproduz o que ocorre em pessoas com síndrome
de Cockayne, Menck e Muotri terão em mãos um modelo de envelhecimento
acelerado, útil para compreender o que ocorre com pessoas saudáveis.

Problemas com o reparo de DNA também ocorrem em outras enfermidades


características do envelhecimento, como a doença de Alzheimer, mais frequente
depois dos 80 anos. Na USP em Ribeirão Preto, a geneticista Elza Sakamoto Hojo
e sua equipe vêm analisando a eficiência do reparo do DNA em pessoas com e
sem Alzheimer. Eles coletaram amostras de sangue de 13 pessoas com idade entre
65 e 90 anos com a doença (e de 14 sem) e submeteram as células a concentrações
elevadas de espécies reativas de oxigênio – usaram água oxigenada –, situação
semelhante à que deve ocorrer no organismo em condições de estresse. Em um
artigo publicado em 2013 no International Journal of Molecular Sciences, o grupo
mostra que as células das pessoas com Alzheimer levaram três vezes mais tempo
para se recuperar do banho de radicais livres do que as dos idosos saudáveis.

Telômeros encurtados

Durante a vida da célula, os danos genéticos não ocorrem igualmente ao


longo da molécula de DNA. Eles parecem atingir com mais frequência suas duas
extremidades, regiões conhecidas como telômeros. Atribui-se a esses segmentos
de material genético a função de proteger o restante da fita de DNA – alguns
comparam o seu papel com o da ponta plástica do cadarço dos sapatos. Cada
vez que o material genético duplica e a célula se divide, os telômeros encolhem
2%. Só uma enzima, a telomerase, é capaz de recuperar o comprimento dos
telômeros. Nos mamíferos, porém, a maioria das células adultas não produz
telomerase, geralmente sintetizada pelas células-tronco. Com capacidade
restrita de recuperação, os telômeros encurtam com a idade. Pesquisadores da

145
UNIDADE 2 | GENÉTICA MOLECULAR

Universidade Harvard, nos Estados Unidos, já demonstraram que é possível


encompridar os telômeros artificialmente, introduzindo nas células cópias extras
do gene da telomerase. Essa estratégia, no entanto, pode ser arriscada, uma vez
que alguns tumores se tornam malignos depois de reativar a produção da enzima
telomerase.

Em algumas enfermidades, o encurtamento dos telômeros é mais rápido.


Uma delas é a disqueratose congênita, uma doença rara marcada pela dificuldade
de produzir células do sangue, da pele e do tecido pulmonar e que pode levar a
um envelhecimento acelerado como na progéria. Há algum tempo se sabe que
quem tem disqueratose apresenta um encurtamento acentuado dos telômeros.
O biólogo brasileiro Luis Francisco Batista, ex-aluno de Menck e professor na
Washington University em Saint Louis, Estados Unidos, confirmou a causa: falhas
no funcionamento da telomerase.

A partir de células da pele de pessoas com disqueratose, ele gerou células-


tronco e verificou que a doença é mais grave quanto maior a incapacidade
de produzir telomerase ativa. Desde esse resultado, publicado em 2011 na
revista  Nature, Batista se dedica a estudar como a falta de telomerase e o
encurtamento dos telômeros afetam o estoque de células-tronco dos tecidos.
“Estamos tentando conhecer a cadeia de eventos que ocorre em seguida”, conta
Batista.

FONTE:<http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/04/18/os-mecanismos-do-envelhecimento/>.
Acesso em: 25 set. 2018.

DICAS

Prezado acadêmico, aprofunde e atualize sempre seus conhecimentos em


Genética Molecular através de artigos científicos. Seguem sugestões de sites para que você
possa realizar suas pesquisas:

• PUBMED. Disponíveis em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/>. Acesso em: 28 set.


2018.
• SciELO. Disponível em: <http://www.scielo.org/php/index.php?lang=pt>. Acesso em: 28 set.
2018.

146
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• A técnica de DNA recombinante tornou-se possível graças à descoberta das


endonucleases de restrição, produzidas por bactérias, que fazem cortes internos
nas moléculas de DNA, possibilitando a inserção de segmentos de DNA de
interesse em vetores de clonagem.

• Podemos estudar diferentes genes por amplificação de DNA in vitro, e a


sequência de DNA de interesse pode ser amplificada em apenas algumas
horas, através da PCR.

• A técnica de PCR possibilitou a identificação de indivíduos a partir de amostras


de baixa qualidade e/ou contendo quantidades mínimas de DNA, o que é útil
na identificação de criminosos a partir de amostras obtidas em cenas de crime.

• Através da análise de polimorfismos de sequências repetidas, como STRs


(Repetições curtas em tandem), podemos identificar criminosos, ou ainda
descartar ou confirmar paternidade.

• Um conjunto de clones de DNA que contém um determinado genoma é uma


biblioteca de DNA genômico.

• A bioinformática é uma área muito dinâmica, na qual surgem diariamente


novas ferramentas, metodologias e bases de dados.

• Com o avanço na geração de informações biológicas, surgiram bases de dados


para a deposição, organização e apresentação dessas informações.

• Ao considerarmos o sequenciamento de nova geração e a obtenção de dados


em larga escala, podemos trabalhar com a ideia de uma tecnologia capaz
de sequenciar o genoma humano inteiro em questão de poucos dias. Neste
sentido, temos a perspectiva de uma medicina individualizada, a partir do
conhecimento das predisposições genéticas de cada indivíduo.

147
AUTOATIVIDADE

1 (ENADE, 2008) Há sete anos, em uma cidade da região rural do sul do país,
foi registrado o desaparecimento de uma criança de dois anos de idade que
brincava no quintal de sua casa. Durante as investigações, foram encontrados
vestígios biológicos no local do desaparecimento, que foram coletados e
submetidos a análises de biologia forense, que revelaram a presença de
sangue humano contendo vários tipos celulares, como hemácias, neutrófilos
e linfócitos, além de contaminação com células animais de outra espécie.
Além desses exames, foram realizados estudos de vínculo genético entre as
amostras de sangue humano encontradas no local do desaparecimento e as
dos pais biológicos da criança desaparecida. Recentemente, foi encontrada
uma criança de nove anos de idade que apresenta um sinal na pele muito
semelhante ao da criança desaparecida. Foram colhidas amostras de sangue
e realizadas análises comparativas com o material obtido sete anos atrás,
que confirmaram tratar-se da mesma pessoa. Considere que, para realizar
as análises descritas no texto, estivessem disponíveis no laboratório de
biologia forense as técnicas de PCR (reação em cadeia da polimerase),
eletroforese e sequenciamento automático de DNA, indicadas para analisar
marcadores genéticos dos tipos SNPs (polimorfismo de nucleotídeo único)
do DNA mitocondrial, STR (repetições curtas em série) nucleares e SNPs
nucleares. Acerca desse assunto, assinale a alternativa CORRETA:

a) ( ) Caso a amostra contenha apenas hemácias, a análise de marcadores


genéticos SNPs do DNA mitocondrial não poderá ser utilizada.
b) ( ) Para que se possa usar a técnica de PCR, é necessário acrescentar ao
sistema microrganismos que secretem a enzima DNA polimerase.
c) ( ) Para a obtenção de um perfil genético individual, é necessária a análise
de regiões genômicas do tipo STRs que apresentem repetições de sequências
maiores que 1.024 bases.
d) ( ) Para se realizar a PCR, deve-se, antes, separar a amostra por eletroforese
e/ou sequenciamento automático.
e) ( ) As técnicas mencionadas são independentes e, portanto, não podem ser
combinadas entre si.

2 (ENADE, 2017) Uma ferramenta computacional, denominada Mendel


(MD), em homenagem a Gregor Mendel, pode auxiliar no diagnóstico de
alterações genéticas. Por meio de seu navegador, o pesquisador faz upload de
sequências completas do genoma ou frações que codificam genes (exomas)
de seus pacientes. Então, o programa analisa essas informações e as cruza
com dados disponíveis em bancos de dados genéticos referentes a diferentes
sequências genômicas ou exomas associados a doenças genéticas. Assim,
essa plataforma gera uma lista de mutações que podem ser as responsáveis
pela doença investigada.

148
A partir das informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação
entre elas.

I- As estratégias de sequenciamento de ácidos nucleicos de alta performance


(high throughput) permitem a geração de grande quantidade de dados
referentes a sequências codificadoras, podendo favorecer a investigação e o
diagnóstico de distúrbios mendelianos humanos.

PORQUE

II- O sequenciamento de genomas completos ou de exomas fornece


informações sobre variantes genéticas que, em comparação às existentes
em bancos de dados, são utilizadas para predizer a atividade gênica no
organismo.

A respeito dessas asserções, assinale a alternativa CORRETA:

FONTE: CARDENAS, R. et al. Mendel, MD: A user-friendly open-source webtool for analyzing
WES and WGS in the diagnosis of patients with Mendelian disorders. Plos Computational
Biology, v.6, n. 13, 2017 (adaptado).

a) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa


correta da I.
b) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma
justificativa correta da I.
c) ( ) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
d) ( ) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
e) ( ) As asserções I e II são proposições falsas.

149
150
UNIDADE 3

GENÉTICA MÉDICA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• Entender as bases da Genética Humana e Médica.

• Compreender, com base nos conhecimentos obtidos nas unidades 1 e 2, as


questões genéticas pertinentes à espécie humana.

• Estudar algumas doenças genéticas humanas e seus diagnósticos.

• Discutir os aspectos éticos concernentes aos estudos, procedimentos e


pesquisas neste importante campo da ciência.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 - HERANÇA E DOENÇAS GENÉTICAS EM HUMANOS

TÓPICO 2 - CITOGENÉTICA HUMANA

TÓPICO 3 - GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

151
152
UNIDADE 3
TÓPICO 1

HERANÇA E DOENÇAS GENÉTICAS EM HUMANOS

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico! Neste tópico vamos discutir os princípios básicos
de herança e os mecanismos associados às doenças genéticas humanas. Há
diferentes doenças cujo componente genético é o principal fator desencadeante
das alterações clínicas, apresentando um padrão de herança mendeliano, as
decorrentes de alterações cromossômicas, mas há também as doenças com um
padrão de herança multifatorial, envolvendo fatores genéticos e ambientais.

Com o desenvolvimento exponencial nos campos da genética humana e


da biologia molecular, houve avanços significativos também na genética médica.
Com o avanço das tecnologias de DNA recombinante e sequenciamento de
DNA, foi estabelecido o grande projeto de sequenciamento do genoma humano,
possibilitando, por exemplo, o mapeamento preciso dos genes e o conhecimento
apurado de suas sequências. A partir do Projeto Genoma Humano, passamos a
compreender melhor o funcionamento do nosso genoma, seus genes, controle da
expressão e a etiologia de várias patologias.

Felizmente, nos últimos anos, com o avanço da medicina e a melhora das


condições sociais e sanitárias, observamos uma redução na incidência de doenças
neonatais de causas especificamente ambientais. Entretanto, em decorrência
disso, observamos hoje um aumento relativo das doenças neonatais de causas
genéticas. Além disso, salientamos que a expectativa de vida tem aumentado
sensivelmente, levando a um aumento significativo da incidência de doenças de
início tardio que dependem de fatores genéticos, como a doença de Alzheimer.

2 HERANÇA GENÉTICA
Prezado acadêmico, entendemos que os fatores genéticos influenciam na
manifestação e no prognóstico clínico da maioria das doenças humanas, mesmo
nas multifatoriais. A constituição genética de um indivíduo pode ser importante
para o desenvolvimento e progressão de doenças como as infecciosas, casos de
malária e Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), além de doenças

153
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

crônicas como as cardiovasculares, doenças respiratórias, hipertensão, câncer,


diabetes e doenças metabólicas. Desse modo, fica claro que a genética se tornou
um tema fundamental na medicina atual.

Normalmente, o surgimento de uma doença humana depende de


fatores genéticos e ambientais. Entretanto, quando temos uma contribuição
preponderantemente genética, estamos diante de doenças genéticas causadas por
mutações em um determinado gene, como nos casos de ataxias espinocerebelares,
hemofilia, anemia falciforme, fibrose cística, fenilcetonúria, distrofia muscular de
Duchenne, síndrome de Crouzon, doença de Huntington, doença de Tay-Sachs,
doença de Gaucher etc., e as doenças causadas por alterações cromossômicas,
como a Síndrome de Down, cri-du-chat e a Leucemia Mieloide Crônica.

À medida que a contribuição dos fatores ambientais é mais significativa,


a influência de fatores genéticos acaba reduzindo, como em diversos tipos de
cânceres, doença de Alzheimer, epilepsia, asma, além de muitas outras, sendo
classificadas como doenças multifatoriais. Mas cabe salientar aqui que a estimativa
da importância relativa dos fatores genéticos e ambientais na determinação
de uma doença não é simples de se estabelecer, pois as doenças multifatoriais
ocorrem pela combinação de múltiplos fatores ambientais e mutações em vários
genes (Figura 1).

Tanto a altura dos indivíduos quanto a pressão arterial são exemplos de


fenótipos que variam entre os indivíduos de uma população apresentando uma
distribuição contínua, sendo que essa variabilidade depende de componentes
genéticos. Para as características que apresentam uma variação contínua na
população, temos o modelo multifatorial de herança. Nestes casos, a variabilidade
fenotípica é atribuída pela contribuição aditiva de vários loci (Gráfico 1), cujo efeito
sobre o fenótipo depende também de fatores ambientais. Um bom exemplo disto
é a estatura de indivíduos de uma população que apresenta uma distribuição
normal, fato este oriundo da contribuição de vários genes e dos hábitos dos
indivíduos, como a nutrição e as atividades físicas.

Às doenças comuns que não segregam em um modelo de herança


mendeliana, atribuímos o modelo de herança multifatorial. Desta forma, temos
uma distribuição contínua quanto à suscetibilidade à doença e há a presença de
um limiar, de onde parte a manifestação da doença.

Portanto, existe uma quantidade mínima de fatores ambientais e genéticos


para que a doença seja desenvolvida, sendo que ela não surge nos indivíduos em
que estes fatores não alcancem o limiar.

Os fatores ambientais que podem aumentar o risco de um indivíduo


manifestar uma doença são os de risco e podem ter origem na dieta, estilo de
vida, estresse, poluentes etc. Os elementos genéticos também são bastante
variáveis, como a presença ou não de determinados polimorfismos genéticos nos
indivíduos.

154
TÓPICO 1 | HERANÇA E DOENÇAS GENÉTICAS EM HUMANOS

Os gêmeos podem ser estudados com a finalidade de investigar a


participação do genótipo na variação fenotípica dos indivíduos. Os fatores do
ambiente que afetam as diferenças em gêmeos monozigóticos (idênticos, gerados
por um único zigoto) são comparáveis aos que afetam as diferenças nos gêmeos
dizigóticos, oriundos de dois zigotos. O valor das diferenças intra-par nos dois
tipos de gêmeos pode servir para estimar a importância relativa do genótipo
e do ambiente na determinação dos caracteres. Deste modo, temos a avaliação
da concordância ou discordância do fenótipo em questão em pares de gêmeos
monozigóticos idênticos (que compartilham grande parte do material genético)
e em gêmeos dizigóticos fraternos (que compartilham 50% do material genético).
Por exemplo: a taxa de concordância para esquizofrenia em gêmeos idênticos
é ao redor de 50% e para gêmeos dizigóticos é da ordem de 12%. Portanto,
temos componentes genéticos e ambientais na etiologia desta doença. O estudo
de gêmeos cresceu muito com o desenvolvimento da genética humana, sendo
denominado de Gemelologia.

FIGURA 1 - GRADIENTE DE CONTRIBUIÇÃO ENTRE FATORES GENÉTICOS E AMBIENTAIS PARA


A DETERMINAÇÃO DE DOENÇAS HUMANAS

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

155
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

GRÁFICO 1 – FENÓTIPO COM VARIAÇÃO CONTÍNUA EM UMA POPULAÇÃO

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

A) Distribuição de uma característica hipotética em uma população, com valor médio de 100
unidades. Um alelo em letra maiúscula acrescenta cinco unidades ao valor da característica, e
cada alelo em minúscula reduz cinco unidades. B) A característica pode ser determinada por 1, 2,
3 ou múltiplos genes, assumindo gradativamente a forma de uma curva de Gauss.

As doenças genéticas raras podem apresentar um padrão de herança


mendeliano muito característico e previsível em uma genealogia, pois envolvem
mutações em um determinado gene. Essas mutações podem ser alterações em
apenas um alelo quando temos um padrão de herança dominante ou em dois
alelos, dentro de um padrão recessivo. Os genes associados a essas doenças podem
estar localizados em um autossomo, na herança autossômica ou no cromossomo
X, na herança ligada ao sexo.

Atualmente, estima-se que do total de genes humanos, mutações em 11%


deles podem causar doenças genéticas de herança mendeliana. Apesar do grande
avanço na identificação da etiologia de doenças genéticas humanas, ainda falta
estabelecer a relação causativa entre gene e doença em cerca de 50% dos casos. O
número de doenças com causas genéticas conhecidas é quase o dobro do número
de genes que, quando mutados, podem provocar uma doença, ou seja, diferentes
mutações no mesmo gene podem causar diferentes doenças, o que é conhecido
por heterogeneidade alélica.

Cerca de 89% das patologias com padrão de herança mendeliana


apresentam manifestação clínica em idade pediátrica, apenas 10% manifestam-
se após a puberdade e 1% após o término do período reprodutivo. Estas
doenças apresentam baixa prevalência, mas normalmente são muito graves,
sendo fundamental a prevenção de novos casos através de aconselhamento
genético para as famílias com afetados, sendo assim possível avaliar se há risco
de recorrência da doença na família. O aconselhamento genético é um processo
bastante elaborado que envolve confirmação de diagnóstico, avaliação sobre a
necessidade de testes genéticos, orientação de prognóstico clínico e estimativa de
riscos, envolvendo toda a família.

156
TÓPICO 1 | HERANÇA E DOENÇAS GENÉTICAS EM HUMANOS

3 DOENÇAS GENÉTICAS EM HUMANOS


Prezado acadêmico, algumas doenças genéticas podem ter um padrão de
herança autossômico dominante, ou seja, basta apresentar um alelo mutado para
desenvolver a doença, portanto os afetados podem ser heterozigotos. A presença
de mutação nos dois alelos (homozigose para o alelo mutado) é muito rara. A
acondroplasia, uma forma de nanismo, é um caso clássico deste padrão de herança.
A maioria dos afetados tem a mutação p.Gly380Arg, ou seja, substituição de uma
glicina por uma arginina na posição 380 da proteína. Indivíduos com apenas um alelo
mutado do gene FGFR3 apresentam déficit de crescimento. FGFR3 é uma proteína
que funciona como um receptor de membrana celular, agindo como um regulador
negativo do crescimento dos ossos longos, inibindo a proliferação de condrócitos
na epífise desses ossos, aumentando a substituição dessas células por osteoblastos
e osteócitos, responsáveis pela mineralização. A proteína FGFR3 alterada funciona
de forma constitutiva, ocorrendo ativação prematura do processo de ossificação.
Mutações que geram atividade proteica exacerbada ou que levam à aquisição de uma
nova função proteica são chamadas mutações de ganho de função.

Caro acadêmico, as ataxias espinocerebelares ou SCAs também apresentam


um padrão de herança autossômico dominante. Constituem um grupo complexo
de doenças neurodegenerativas que atingem o cerebelo e suas principais conexões.
Frequentemente fatais, as SCAs são herdadas de modo vertical, manifestam-
se geralmente na vida adulta e apresentam grande heterogeneidade clínica.
Os pacientes acometidos pelas SCAs apresentam vários achados neurológicos
provenientes do comprometimento cerebelar e das vias aferentes e eferentes, tais
como a disartria, a dismetria, o nistagmo, o tremor de intenção, a decomposição de
movimentos, a disdiadococinesia, a ataxia axial, podendo haver ainda alterações
nos gânglios da base, no tronco cerebral, na medula espinhal, nos nervos ópticos,
na retina e nos nervos periféricos. As diversas SCAs compartilhariam o mesmo tipo
de mutação denominada mutação dinâmica, é caracterizada por uma expansão de
nucleotídeos. As SCAs apresentam uma expansão CAG na região codificante dos
respectivos genes, a qual codifica um segmento de poliglutamina. As exceções,
até o momento, são a SCA8 e a SCA10, sendo que a SCA8 é causada pela expansão
do trinucleotídeo CTG e a SCA10 pela expansão do pentanucleotídeo ATTCT.

Quanto à herança autossômica recessiva, podemos citar a fibrose cística


(FC), que apresenta a maior prevalência em populações de origem europeia. Esta
patologia se caracteriza pela ocorrência de suor salgado, infecções respiratórias
recorrentes e infertilidade no sexo masculino. Os pais dos indivíduos acometidos
pela FC são clinicamente normais, mas portadores de um alelo com a mutação
(heterozigotos). Neste sentido, o risco de que pais heterozigotos tenham um filho
com a doença é de 25%. A fibrose cística tem incidência de 1:2.000 indivíduos
em populações europeias, e a frequência de heterozigotos é de 1:20. A doença
é causada por mutações no gene CFTR (do inglês, cystic fibrosis transmembrane
conductance regulator) que se localiza no cromossomo 7, sendo dividido em 27
éxons, numerados de 1 a 24 com subdivisões “a” e “b” para os exons 6, 14 e 17,
levando à perda de função da proteína (Figura 2).

157
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

FIGURA 2 - ESTRUTURAS DO GENE CF E SEU PRODUTO, A PROTEÍNA CFTR

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.)

A expressão de CFTR em células epiteliais está bem descrita e a função


do CFTR nestas células está relacionada à fisiopatologia da FC. A proteína
codificada pelo gene CFTR funciona como um canal que realiza o transporte
do íon cloro através da membrana apical e o interior das células epiteliais dos
pulmões, intestino, pâncreas, glândulas sudoríparas e alguns outros órgãos. Até o
momento, mais de 1900 mutações foram identificadas no gene CFTR, sendo que a
mutação ∆F508 (Phe508del) é a mais frequente entre os pacientes de FC, presente
em cerca de 70% dos casos, dependendo da população analisada. Em algumas
populações, é possível identificar facilmente todas as mutações do gene CFTR
presentes nos pacientes. A mutação delta F508 (∆F508) ocorre devido à deleção
de três bases no éxon 10, resultando na perda do aminoácido fenilalanina (Phe) na

158
TÓPICO 1 | HERANÇA E DOENÇAS GENÉTICAS EM HUMANOS

posição 508 da proteína produzida, acarretando deficiência no seu dobramento e,


posteriormente, degradação no retículo endoplasmático. No Brasil, a frequência
dessa mutação não é tão elevada devido, provavelmente, à miscigenação.

Caro acadêmico, é importante distinguir as formas autossômicas


(dominantes ou recessivas) daquelas ligadas ao cromossomo X. As formas
autossômicas dominantes diferem das ligadas ao X, pois os homens acometidos
pela doença podem transmiti-la para os descendentes de ambos os sexos. Já nas
formas ligadas ao X, um homem acometido pela doença a transmite somente para
suas filhas. Um exemplo clássico de doença ligada ao X é a distrofia muscular do
tipo Duchenne (DMD), que acomete 1:7.000 nascidos vivos, sendo causada por
mutações no gene da distrofina, que perde sua função. A patologia caracteriza-se
por uma fraqueza muscular progressiva que costuma manifestar-se aos três anos
de idade. Os meninos têm uma sobrevida reduzida e eles não se reproduzem,
pois a doença é geneticamente letal, ou seja, os afetados não deixam descendentes
e o valor adaptativo é considerado zero. A doença atinge basicamente o sexo
masculino, no entanto, há alguns casos de mulheres com uma forma mais branda.
Nesses casos, a presença dos sinais clínicos está associada ao desvio de inativação
dos cromossomos X. Nas mulheres com distrofia muscular, o cromossomo X com
a mutação no gene da DMD está predominantemente ativo no tecido muscular.

Já a Síndrome de Rett, diferentemente da DMD, é um distúrbio que ocorre


quase exclusivamente no sexo feminino. As meninas acometidas se tornam
espásticas, atáxicas e desenvolvem demência. A Síndrome de Rett é causada
por mutações no gene MECP2, localizado no cromossomo X, que codifica uma
proteína de ligação ao DNA. Grande parte das mutações de novo, ou seja, uma
nova mutação, tem origem paterna, o que explica parcialmente porque a maior
parte dos casos é do sexo feminino. Sendo assim, as novas mutações no gene
citado acima surgem mais frequentemente no cromossomo X dos homens, que
são passados somente às filhas, pois os meninos devem receber o Y dos pais. 

Veja, caro acadêmico, que interessante o próximo caso de doença genética.


A mesma deleção na região do braço longo do cromossomo 15, del(15)(q11-q13),
é encontrada em pacientes com duas síndromes distintas, a Síndrome de Prader-
Willi e a Síndrome de Angelman. A Síndrome de Prader-Willi é caracterizada
por obesidade, baixa estatura, mãos e pés pequenos, hipogonadismo, déficit
cognitivo leve, hiperfagia e comportamento obsessivo-compulsivo. A Síndrome
de Angelman é definida por face típica, microcefalia, baixa estatura, epilepsia e
déficit cognitivo. Os estudos identificaram que a deleção na Prader-Willi sempre
ocorre no cromossomo de origem paterna, enquanto que a deleção na síndrome
de Angelman sempre acontece no cromossomo de origem materna. Portanto,
os indivíduos com a Síndrome de Prader-Willi têm somente a região q11-q13
do cromossomo 15 de origem materna, enquanto os portadores da Síndrome
de Angelman têm essa região exclusivamente de origem paterna. Os aspectos
clínicos e genéticos aqui descritos sugeriram que genes localizados em 15q11-q13
no cromossomo de origem materna são expressos diferentemente daqueles que

159
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

ocupam o mesmo locus no cromossomo de origem paterna. Boa parte dos genes
da referida região é expressa tanto no alelo paterno como no materno, entretanto
alguns genes são expressos de forma exclusiva no alelo materno ou paterno,
fenômeno conhecido como imprinting genômico.

Do ponto de vista das causas genéticas de determinadas doenças, podemos


estudar outra doença interessante nesse sentido, a de Crohn. A doença de Crohn é
uma doença inflamatória, autoimune que envolve o trato gastrintestinal, levando
a diarreias e dores abdominais, afetando homens e mulheres. Alterações em
pelo menos oito genes estão associadas a um aumento de risco de manifestação
da doença, mas nenhuma delas é definitiva para sabermos se o indivíduo irá
desenvolver os sintomas, entretanto, tais polimorfismos aumentam as chances
de um indivíduo desenvolver a doença quando presentes. Veja o cariograma
apresentado na Figura 3.

FIGURA 3 – CARIOGRAMA: CARIÓTIPO HAPLOIDE MASCULINO

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

As setas indicam as regiões cromossômicas com polimorfismos associados à Doença de Crohn.

Cerca de 20% das pessoas com doença de Crohn têm parentes acometidos
pela patologia. Parentes em primeiro grau de pacientes com essa doença têm um
aumento de 10 vezes no risco de a desenvolverem. Um dado interessante é que
determinados fatores podem contribuir para aumentar o risco, como presença
de outras doenças autoimunes, como psoríase e esclerose múltipla, além do
tabagismo e do tratamento hormonal contraceptivo.

160
TÓPICO 1 | HERANÇA E DOENÇAS GENÉTICAS EM HUMANOS

Considerando agora os distúrbios mitocondriais em humanos, temos que


lembrar que são herdados de modo materno, pois o ovócito humano contém o
DNA mitocondrial que é transmitido para a prole, já o DNA mitocondrial do
espermatozoide não é repassado. Deleções no DNA mitocondrial podem levar
à Síndrome de Kearns-Sayre, caracterizada por oftalmoplegia, degeneração
pigmentar da retina, síndrome cerebelar e parada cardíaca. Muitos casos desta
doença ocorrem por deleções espontâneas no DNA mitocondrial durante a
embriogênese, ao invés de transmissão materna. Já a Neuropatia Óptica de Leber
é herdada maternalmente com penetrância aumentada em homens. A cegueira
de progressão rápida ocorre por degeneração do nervo óptico. Várias mutações
do DNA mitocondrial foram descritas para esta doença. Já algumas mutações de
ponto em genes mitocondriais que codificam moléculas de tRNA resultam nos
distúrbios MELAS e MERRF.

O desenvolvimento da genômica tem sido fantástico. O sequenciamento


das regiões codificadoras do genoma humano, ou sequenciamento do exoma,
está ficando cada vez mais acessível. O sequenciamento do exoma humano pode
ser capaz de trazer grandes avanços na pesquisa em genética humana e médica.
No entanto, as questões éticas envolvem decisões de quando e em quais situações
o sequenciamento deve ser indicado, pois seria um teste preditivo revelando
mutações patogênicas associadas a doenças neurodegenerativas, por exemplo,
sem perspectiva atual de tratamento eficaz.

161
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• A constituição genética de um indivíduo pode ser importante para o


desenvolvimento e para a progressão de doenças.

• Normalmente, o surgimento de uma doença humana depende de fatores


genéticos e ambientais.

• Quando temos uma contribuição preponderantemente genética, estamos


diante de doenças genéticas causadas por mutações em um determinado gene.

• À medida que a contribuição dos fatores ambientais é mais significativa, a


influência de fatores genéticos acaba reduzindo, sendo que estas doenças são
classificadas como multifatoriais.

• Algumas doenças genéticas podem ter um padrão de herança autossômico


dominante, ou seja, basta apresentar um alelo mutado para desenvolver a
doença.

• Nas doenças com padrão de herança recessivo, os pais dos indivíduos


acometidos podem ser clinicamente normais, mas portadores de um alelo com
a mutação (heterozigotos).

• Nas doenças com padrão de herança ligado ao cromossomo X, um homem


acometido pela doença a transmite somente para suas filhas.

• Os distúrbios mitocondriais são herdados de modo materno, pois a prole herda


apenas o DNA mitocondrial do ovócito.

• Os gêmeos podem ser estudados com a finalidade de investigar a participação


do genótipo na variação fenotípica.

162
AUTOATIVIDADE

1 (ENADE, 2009) Leia o trecho: Embora as estimativas variem, a taxa de


concordância para esquizofrenia em gêmeos idênticos é ao redor de 50%
e, para gêmeos dizigóticos, é da ordem de 12%, sendo significativamente
maior que o 1% de risco da população geral.
FONTE: BARBOSA DA SILVA, R. C, 2006. (Adaptado).

Considerando-se esses dados da pesquisa sobre a etiologia genética da


esquizofrenia, é CORRETO afirmar que:
a) ( ) A esquizofrenia se deve ao acaso, já que a chance de um irmão
monozigótico desenvolver o transtorno é de 50%, se o outro for portador.
b) ( ) O ambiente pode proteger o indivíduo do desenvolvimento desse
transtorno, uma vez que apenas 1% da população o desenvolve.
c) ( ) O componente genético existe, mas também ocorre a participação
do componente ambiental na esquizofrenia, pois 50% dos gêmeos
monozigóticos desenvolvem o transtorno se o outro for portador.
d) ( ) O fato de 12% dos gêmeos dizigóticos desenvolverem igualmente
o transtorno demonstra o peso dos fatores psicológicos familiares no
transtorno.
e) ( ) Os resultados, ao variar em 50% para gêmeos monozigóticos, 12% para
gêmeos dizigóticos e apenas 1% para a população em geral, demonstram a
ausência de relação entre o ambiente e os fatores genéticos.

163
164
UNIDADE 3
TÓPICO 2

CITOGENÉTICA HUMANA

1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, na citogenética, cientistas estudam o número e a estrutura
dos cromossomos por coloração das células em divisão com diferentes corantes,
seguida por análise microscópica. A citogenética teve origem em pesquisas que
descobriram os cromossomos e observaram seu comportamento durante a mitose
e a meiose. As pesquisas em citogenética se desenvolveram com a evolução da
microscopia e a coloração dos cromossomos.

Com a descoberta de que os genes estavam localizados nos cromossomos,


houve o crescimento do interesse na área de citogenética, levando a importantes
estudos sobre o número e a estrutura dos mesmos. Atualmente, temos ampla
aplicação dos conhecimentos citogenéticos principalmente na medicina, pois
podemos identificar as anormalidades cromossômicas a associá-las a doenças,
como no caso do cromossomo Philadelphia, no diagnóstico da Leucemia Mieloide
Crônica.

Neste tópico estudaremos os importantes processos de divisão celular,


mitose e meiose, destacando a consequência da não disjunção cromossômica, que
pode ocorrer tanto na divisão de células somáticas durante a mitose, bem como
na divisão reducional meiótica, na produção de gametas. Abordaremos, ainda,
as principais cromossomopatias autossômicas, como a Síndrome de Down, as
aneuploidias relacionadas aos cromossomos sexuais, como no caso da Síndrome
de Turner, além da Síndrome de cri-du-chat, causada por deleção de um segmento
cromossômico.

2 CITOGENÉTICA HUMANA
Para as análises citogenéticas são utilizadas células em divisão mitótica,
em metáfase. Em humanos, leucócitos podem ser coletados do sangue periférico,
separados das hemácias e cultivados. Os leucócitos ficam em suspensão e, pela
ação mitogênica da fitohemaglutinina, estes se multiplicam. Em seguida, a divisão
celular é interrompida na metáfase da mitose, fase em que os cromossomos são
melhor visualizados pela utilização de colchicina, que impede a formação do
fuso acromático, e posterior coloração com Giemsa. Antes de serem corados

165
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

com Giemsa, os cromossomos podem ser tratados com tripsina, uma enzima
que remove algumas proteínas associadas aos cromossomos. O corante Giemsa
interage com as proteínas restantes, que se distribuem de modo característico
ao longo do comprimento de cada cromossomo. O resultado é um padrão
reproduzível de bandas.

No entanto, a técnica de citogenética molecular conhecida por FISH


(Fluorescent In Situ Hybridization), mais avançada, cria imagens coloridas dos
cromossomos pelo tratamento das dispersões cromossômicas com sondas de
DNA marcadas por fluorescência. Em condições adequadas, a sonda de DNA se
liga ao DNA cromossômico, cuja sequência é complementar à dele. Essa ligação
marca o DNA cromossômico com o corante fluorescente presente no fragmento
de DNA (Figuras 4 e 5).

FIGURA 4 - TÉCNICA DE FISH

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.).

Técnica de Fish – os centrômeros, além três pares de cromossomos, estão evidenciados.

166
TÓPICO 2 | CITOGENÉTICA HUMANA

FIGURA 5 - TÉCNICA DE FISH. CARIÓTIPO HUMANO 46, XX

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.).

3 MITOSE – DIVISÃO CELULAR EQUACIONAL


A distribuição organizada de cromossomos duplicados na célula-mãe para
as células-filhas é o principal objetivo da mitose. Cada cromossomo da célula-
mãe é duplicado na fase S do ciclo celular eucariótico, antes do início da mitose.
Durante a mitose, há a condensação da cromatina evidenciando os cromossomos
individuais, sendo que após a divisão celular, os cromossomos descondensam-
se novamente durante a interfase. Quando a mitose inicia, já houve duplicação
de todos os cromossomos. Os filamentos duplos denominados cromátides-irmãs,
por sua vez, permanecem intimamente associados uns aos outros, unidos pelo
centrômero do cromossomo. A distribuição de cromossomos duplicados entre as
células-filhas é organizada pelos microtúbulos do fuso acromático formados por
tubulina, que se fixam aos cromossomos e os deslocam dentro da célula-mãe em
divisão.

O início da formação do fuso e a condensação de cromossomos duplicados


marcam o primeiro estágio da mitose, a prófase (Figura 6). O nucléolo, uma
região que participa da síntese de RNA no núcleo, desaparece. A fixação dos
microtúbulos do fuso nos cinetócoros, na região do centrômero, indica o início da
metáfase da mitose. Nesta fase, os cromossomos duplicados ficam centralizados
em um plano único no meio da célula. Esse plano equatorial é denominado placa
metafásica. O alinhamento das cromátides-irmãs é crucial para a distribuição
igual e exata do material genético entre as células-filhas. As cromátides-irmãs
de cromossomos duplicados separam-se durante a anáfase. Os microtúbulos

167
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

se encurtam e as cromátides-irmãs são movimentadas em direção a polos


opostos da célula. As cromátides-irmãs separadas passam a ser denominadas
de cromossomos novamente. Cada conjunto de cromossomos nas células-filhas
é envolvido por uma membrana formando novos núcleos, durante a telófase
da mitose. Quando a mitose termina, as duas células-filhas são separadas pela
formação de membranas entre elas em um processo denominado de citocinese.
As células-filhas produzidas pela divisão de uma célula-mãe são geneticamente
idênticas, pois apresentam um conjunto completo de cromossomos.

No entanto, erros podem ocorrer durante a mitose, sendo que uma


cromátide pode separar-se do fuso mitótico e não ser incorporada a uma das
células-filhas ou as duas cromátides-irmãs podem se dirigir a um mesmo polo,
havendo um aumento do número de cromossomos em uma das células-filhas,
evento que conhecemos por não disjunção mitótica. Inclusive, durante a divisão
reducional meiótica, na formação de gametas haploides, a não disjunção meiótica
leva à formação de gametas desbalanceados, ou seja, com cromossomos a mais
ou a menos que, se forem fecundados, originam um indivíduo apresentando um
complemento cromossômico 2N alterado, como no caso da Síndrome de Down.

FIGURA 6 - DIVISÃO CELULAR MITÓTICA

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.).

168
TÓPICO 2 | CITOGENÉTICA HUMANA

Então, caro acadêmico, na formação dos gametas deve haver uma redução
pela metade no número de cromossomos, de 2N para N (células haploides), o que
ocorre graças à meiose.

4 MEIOSE – DIVISÃO CELULAR REDUCIONAL


A meiose é a divisão celular que reduz o estado diploide para o estado
haploide, isto é, reduz pela metade o número de cromossomos de uma célula,
formando os gametas com N cromossomos. Ela é fundamental, pois do
contrário, o número de cromossomos dos organismos seria duplicado a cada
geração, uma situação insustentável. As células somáticas humanas têm 23
pares de cromossomos. Cada par é diferente do outro e diferentes pares de
cromossomos têm diferentes conjuntos de genes, sendo que os membros de um
par são denominados cromossomos homólogos. Os cromossomos homólogos têm
conjuntos iguais de genes, embora possam ter diferentes alelos. Os cromossomos
de pares diferentes são denominados heterólogos.

A redução pela metade do número de cromossomos ocorre de maneira


que cada uma das células haploides formadas receba exatamente um membro
de cada par de cromossomos. O processo de meiose ocorre através de duas
divisões celulares, já a mitose é realizada por uma divisão (Figura 7). A
duplicação cromossômica associada à síntese de DNA ocorre antes da divisão
inicial (duplicação cromossômica → divisão meiótica I → divisão meiótica II).
Normalmente, representamos a quantidade haploide de DNA como c, sendo que
esses eventos duplicam a quantidade de DNA (de 2c para 4c) durante a síntese de
DNA (fase S), reduzem pela metade (de 4c para 2c) na divisão I e reduzem de 2c
para c na meiose II. De forma geral, temos uma célula inicial 2N que ao final da
meiose gera quatro células haploides (N).

FIGURA 7 - MITOSE E MEIOSE

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.).


169
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

As meioses I e II podem ser divididas de acordo com a Figura 8. Como pode


ser observado na figura, ao final da meiose I temos a segregação dos cromossomos
homólogos e ao final da meiose II temos a separação das cromátides-irmãs.

Portanto, a meiose II é muito semelhante à mitose, pois ocorre a separação


de cromátides-irmãs em ambas. No entanto, os produtos da meiose são quatro
gametas haploides e os da mitose são duas células somáticas diploides. Ao
contrário dos produtos da mitose, as células produzidas na meiose II não são
geneticamente idênticas. Devemos ainda lembrar que em caso de ocorrer não
disjunção na meiose I ou II, haverá a formação de gametas desbalanceados, como
podemos observar na Figura 9.

A recombinação cromossômica, ou crossing-over, que ocorre durante a


prófase I (paquíteno) da meiose I, apresenta uma formação estrutural complexa
que proporciona a troca de segmentos entre os cromossomos homólogos. As
cromátides-irmãs de cada homólogo pareiam formando uma estrutura que
possibilita a recombinação, gerando maior variabilidade genética.

FIGURA 9 - MEIOSE. O CROSSING-OVER OCORRE NO PAQUÍTENO (PRÓFASE I)

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.).

170
TÓPICO 2 | CITOGENÉTICA HUMANA

FIGURA 10 - NÃO DISJUNÇÃO MEIÓTICA I E II COM FORMAÇÃO DE GAMETAS


DESBALANCEADOS. NO EXEMPLO, UM GAMETA NORMAL APRESENTA UM CROMOSSOMO

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.).

5 CROMOSSOMOPATIAS
Uma aneuploidia é a alteração numérica de parte do genoma, geralmente
a alteração envolvendo um único cromossomo. Indivíduos que têm um
cromossomo a mais, um cromossomo a menos ou uma combinação dessas
anomalias são aneuploides. Um organismo com ausência de um cromossomo é
hipoploide, no entanto, se apresentar um cromossomo a mais é hiperploide.

A anormalidade cromossômica mais conhecida e comum em seres


humanos é a Síndrome de Down causada pela trissomia do cromossomo 21. O
cariótipo da Figura 11 apresenta 47 cromossomos, evidenciando um cromossomo
21 extra (47, XX, +21). As pessoas com Síndrome de Down apresentam baixa
estatura, hipermobilidade articular, crânio largo, narinas amplas, língua grande
com sulcos característicos, mãos curtas e largas com prega simiesca, além de um
comprometimento mental. A expectativa de vida dos indivíduos com Síndrome
de Down é menor que a média e quase sempre desenvolvem doença de Alzheimer.

171
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

FIGURA 11 - SÍNDROME DE DOWN. (A): UMA MENINA COM SÍNDROME DE DOWN. (B):
CARIÓTIPO MOSTRANDO TRISSOMIA DO CROMOSSOMO 21 (47, XX, +21)

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.)

A trissomia do 21 pode ser causada por não disjunção deste cromossomo


na meiose I ou II, como poderá ser observado na Figura 12. O evento de não
disjunção pode ocorrer no progenitor masculino ou feminino. No entanto, é mais
provável que ocorra no sexo feminino, sendo que a frequência de não disjunção
aumenta com a idade materna. Nas mulheres com menos de 25 anos, o risco de
ter um filho com Down é de 1 em 1.500, enquanto nas mulheres de 40 anos é de
1 em 100 (Tabela 1). O risco aumentado pode ser explicado pelo envelhecimento
dos gametas femininos. Nas mulheres a meiose começa no feto, mas só haverá
conclusão após possível fertilização do ovócito, permanecendo na prófase I por
longo tempo. Quanto maior for a duração da prófase, maior é a chance de que não
haja disjunção subsequente dos cromossomos.

172
TÓPICO 2 | CITOGENÉTICA HUMANA

TABELA 1 - RISCO DE OCORRÊNCIA DE SÍNDROME DE DOWN DE ACORDO COM A IDADE


MATERNA

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.).

FIGURA 12 - ORIGEM DA SÍNDROME DE DOWN. NÃO DISJUNÇÃO MEIÓTICA DO


CROMOSSOMO 21

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.).

173
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

Em 1% a 2% dos casos os indivíduos com Síndrome de Down apresentam


mosaicismo, ou seja, uma linhagem celular trissômica 21 e uma linhagem celular
normal, com 46 cromossomos. Um erro que ocorre após a formação do zigoto.
Dependendo da proporção entre as células normais e afetadas, há variabilidade
fenotípica nos afetados, que podem apresentar um quadro mais leve.

Em 4% dos pacientes com Síndrome de Down a causa é a translocação


robertsoniana que ocorre entre os cromossomos 21 e 14. Neste caso, o afetado
possui 46 cromossomos, pois o terceiro representante do cromossomo 21 está
ligado a outro cromossomo acrocêntrico, com frequência, o cromossomo 14
(Figura 13). As características fenotípicas nesse caso não diferem da trissomia
livre do cromossomo 21.

FIGURA 13 - (A): SÍNDROME DE DOWN POR TRANSLOCAÇÃO ROBERTSONIANAS ENTRE


OS CROMOSSOMOS 14 E 21 [46,XY,ROB(14Q;21Q)]. (B): FORMAÇÃO DE GAMETAS POR UM
PORTADOR DE TRANSLOCAÇÃO EQUILIBRADA ENTRE OS CROMOSSOMOS 14 E 21

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

No entanto, algumas trissomias geram síndromes muito severas, como a


Síndrome de Patau ou trissomia do 13 (Figuras 14 e 15), e a Síndrome de Edwards,
ou trissomia do 18 (Figuras 16 e 17). Tais síndromes são raras e os indivíduos
afetados apresentam anormalidades graves, morrendo nas primeiras semanas de
vida.

174
TÓPICO 2 | CITOGENÉTICA HUMANA

FIGURA 14 – SÍNDROME DE PATAU (TRISSOMIA DO CROMOSSOMO 13). CARIÓTIPO DE UM


MENINO - 47, XY, +13

FONTE: Borges-Osório (2013, pág. 130)

FIGURA 15 – SÍNDROME DE PATAU

FONTE: Borges-Osório (2013, pág. 130)

Foto de crianças com microcefalia, orelhas malformadas com baixa implantação, fissura labial,
microftalmia, unhas estreitas e hiperconvexas, escroto anormal, calcanhar proeminente, lesões
no couro cabeludo e alterações nos dedos das mãos.

175
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

FIGURA 16 – SÍNDROME DE EDWARDS (TRISSOMIA DO CROMOSSOMO 18). CARIÓTIPO DE


UMA MENINA - 47, XX, +18

FONTE: Borges-Osório (2013, pág.129)

FIGURA 17 – SÍNDROME DE PATAU

FONTE: Borges-Osório (2013, pág. 129).

Foto de crianças com orelhas malformadas e com baixa implantação, boca pequena, dedos das
mãos superpostos e hipertonia nas mãos e pernas.

176
TÓPICO 2 | CITOGENÉTICA HUMANA

No entanto, caro acadêmico, trissomia do cromossomo sexual X também é


observada em humanos, com um cariótipo triplo-X (47, XXX). Nestes indivíduos
femininos, pois não há cromossomo Y, dois cromossomos X são inativados
reduzindo a dose do cromossomo X, podendo haver um leve comprometimento
mental e diminuição da fertilidade.

O cariótipo 47, XXY da Síndrome de Klinefelter também é uma trissomia


viável em seres humanos (Figuras 18 e 19). As anormalidades associadas a este
distúrbio incluem testículos pequenos, mamas aumentadas, membros longos,
genuvalgo e menor desenvolvimento dos pelos corporais. O cariótipo XXY
representa cerca de 75% dos casos de Síndrome de Klinefelter, havendo ainda
cariótipos como XXYY, XXXY, XXXYY, XXXXY, XXXXYY e XXXXXY. O cariótipo
47, XYY também é uma trissomia viável, sendo que os indivíduos são do sexo
masculino e não apresentam uma síndrome com características constantes.

FIGURA 18 – SÍNDROME DE KLINEFELTER. CARIÓTIPO - 47, XXY

FONTE: Borges-Osório (2013, pág. 136)

177
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

FIGURA 19 – SÍNDROME DE KLINEFELTER

FONTE: Borges-Osório (2013, pág. 136)

Fotos de pacientes com estatura elevada, membros superiores longos, corpo eunucoide, pênis
pequeno, escassa pilosidade, distribuição pubiana com padrão feminino e ginecomastia.

Prezado acadêmico, a única monossomia viável em humanos apresenta


o cariótipo 45, X, característico da Síndrome de Turner (Figuras 20 e 21). Os
indivíduos 45, X podem se originar de ovócitos ou espermatozoides sem um
cromossomo sexual ou da perda de um cromossomo sexual na mitose após a
fertilização (Figura 22). O fenótipo é feminino, mas normalmente são estéreis,
apresentando baixa estatura, pescoço alado, deficiência auditiva e anormalidades
cardiovasculares. Interessantemente, muitos indivíduos com Síndrome de
Turner são mosaicos somáticos, com células apresentando 45, X e 46, XX. O
mosaicismo do cariótipo surge quando há perda de um cromossomo X durante o
desenvolvimento de um zigoto 46, XX.

178
TÓPICO 2 | CITOGENÉTICA HUMANA

FIGURA 20 – SÍNDROME DE TURNER. CARIÓTIPO - 45, X

FONTE: Borges-Osório (2013, pág. 135)

FIGURA 21 – SÍNDROME DE TURNER

FONTE: Borges-Osório (2013, pág. 135)

Fotos de pacientes com pescoço alado, baixa implantação de cabelos na nuca, face triangular,
hipertelorismos ocular e mamilar, tórax em barril, mamas pouco desenvolvidas e cubitus valgus.

179
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

Mas, caro estudante, você já se perguntou por que indivíduos com


Síndrome de Turner, com o mesmo número de cromossomos X ativos que as
mulheres XX normais, têm anormalidades fenotípicas? A resposta vem dos
estudos de genômica, mostrando que um pequeno número de genes permanece
ativo nos dois cromossomos X em mulheres 46, XX normais, sendo necessários
em dose dupla para o desenvolvimento apropriado do organismo. O mais
interessante é que alguns desses genes ligados ao X também estão presentes no
cromossomo Y, explicando por que os homens XY crescem e se desenvolvem
normalmente.

FIGURA 22 - SÍNDROME DE TURNER. ORIGEM DO CARIÓTIPO NA FERTILIZAÇÃO (A) OU NA


CLIVAGEM APÓS A FERTILIZAÇÃO (B)

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.).

De uma forma geral, as aneuploidias em seres humanos são letais no


período embrionário, mostrando a importância da dose correta dos genes no
desenvolvimento dos organismos. Deste modo, os seres humanos não toleram
muitos tipos de desequilíbrio cromossômico.

A perda de um segmento cromossômico é denominada deleção. Um


exemplo clássico é a síndrome do miado do gato ou cri-du-chat (do francês, miado
de gato) em seres humanos (Figura 23). O distúrbio é causado por deleção no
braço curto (p) de um dos cromossomos 5, cariótipo 46 del(5)(p14), com ausência
de bandas na região 14. Os indivíduos acometidos por esse distúrbio podem
apresentar grave comprometimento mental e físico. A denominação “miado do
gato” vem do choro característico das crianças.

180
TÓPICO 2 | CITOGENÉTICA HUMANA

FIGURA 23 - CARIÓTIPO DE MULHER COM SÍNDROME CRI-DU-CHAT 46 XX DEL(5)(P14).


DELEÇÃO DO BRAÇO CURTO DE UM DOS CROMOSSOMOS 5

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.).

181
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• Para as análises citogenéticas são utilizadas células em divisão mitótica, em


metáfase.

• A técnica de citogenética molecular conhecida por FISH (Fluorescent In Situ


Hybridization) gera imagens coloridas dos cromossomos pelo tratamento das
dispersões cromossômicas com sondas de DNA, marcadas por fluorescência.

• A anormalidade cromossômica mais conhecida e comum em seres humanos é


a Síndrome de Down, causada pela trissomia do cromossomo 21.

• A trissomia do 21 pode ser causada por não disjunção deste cromossomo na


meiose I ou II, durante a formação do gameta.

• A distribuição organizada de cromossomos duplicados na célula-mãe para as


células-filhas é o principal objetivo da mitose.

• A meiose é a divisão celular que reduz o estado diploide para o estado haploide,
isto é, reduz pela metade o número de cromossomos de uma célula, formando
os gametas com N cromossomos.

• No caso de ocorrer não disjunção na meiose I ou II, haverá a formação de


gametas desbalanceados.

• A recombinação cromossômica, ou crossing-over, ocorre durante a prófase I


(paquíteno) da meiose I.

• A única monossomia viável em humanos apresenta o cariótipo 45, X,


característico da Síndrome de Turner.

• A síndrome do miado do gato ou cri-du-chat é causada por deleção no braço


curto (p) de um dos cromossomos 5, cariótipo 46 del(5)(p14).

182
AUTOATIVIDADE

1 (ENADE, 2010) O gráfico a seguir reflete a incidência de uma das


aneuploidias mais frequentes entre os seres humanos, que determina a
ocorrência de Síndrome de Down. Os portadores dessa síndrome possuem
células que contêm uma alteração no número de cromossomos, decorrente
de um erro durante o processo de meiose. Na atualidade, muitos casais
buscam clínicas de aconselhamento genético com o intuito de conhecer o
padrão cromossômico de seus filhos antes do nascimento, com base nos
resultados obtidos por modernas técnicas de análise cromossômica.

FONTE: GRIFFITHS et al. Introdução à genética. 8. ed. Guanabara Koogan, 2005.

A partir dessas informações, assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) A avaliação dos cromossomos fetais por exames específicos em células
obtidas por amniocentese, cordocentese ou punção de vilosidades
coriônicas pode revelar a trissomia do cromossomo 21 e é recurso a ser
sugerido pelos médicos geneticistas a mulheres com idade avançada que
sintam necessidade desse tipo de avaliação pré-natal de seus filhos, mas
não a mulheres jovens que não apresentam fenômenos de não disjunção.
b) ( ) A avaliação dos cromossomos fetais por exames específicos em células
obtidas por amniocentese, cordocentese ou punção de vilosidades coriônicas
pode revelar a trissomia do cromossomo 21 e é recurso a ser sugerido pelos
médicos geneticistas a mulheres jovens ou com idade avançada que sintam
necessidade desse tipo de avaliação pré-natal de seus filhos.
c) ( ) A segregação cromossômica anormal observada na Síndrome de Down
é influenciada positivamente pela idade avançada da mãe, mas nessas
mulheres são observados outros fatores de risco para a síndrome que já
se encontram bem estabelecidos, como o metabolismo anormal do folato
183
e a mutação 677 (C→T) no gene da metilenotetrahidrofolato redutase. A
somatória desses dois fatores é condição necessária para a ocorrência da
alteração cromossômica.
d) ( ) A segregação cromossômica anormal observada na Síndrome de Down
não é influenciada positivamente pela idade avançada da mãe, pois outros
fatores de risco para a síndrome que já se encontram bem estabelecidos,
como o metabolismo anormal do folato e a mutação 677 (C→T) no gene
da metilenotetrahidrofolato redutase, são fundamentais na indução do erro
médico que determina a alteração cromossômica.
e) ( ) A avaliação dos cromossomos fetais para revelar a trissomia do
cromossomo 21 por exames específicos em células obtidas por amniocentese,
cordocentese ou punção de vilosidades coriônicas requer a análise
simultânea do metabolismo do folato, pois a alteração dessa via metabólica
é determinante da não disjunção cromossômica.

2 Defina as alterações cromossômicas para os seguintes casos:

Síndrome de Down:

Síndrome de Patau:

Síndrome de Edwards:

Síndrome de Turner:

Síndrome de Klinefelter:

Cri-du-chat:

184
UNIDADE 3
TÓPICO 3

GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA


GENÔMICA

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, com o rápido e impressionante desenvolvimento
da genética humana e médica, além das técnicas de biologia molecular, houve
avanços significativos também na compreensão do funcionamento do genoma,
na etiologia de diversas doenças genéticas, além de possibilitar os mais avançados
diagnósticos moleculares e proporcionar, por análise de polimorfismos genéticos
em diferentes regiões do genoma, estudos de predisposição a doenças, longevidade
e comportamento humanos.

Com o avanço das tecnologias de DNA recombinante e sequenciamento


de DNA, foi estabelecido e concluído o projeto de sequenciamento do genoma
humano, possibilitando, por exemplo, o mapeamento preciso dos genes
e o conhecimento acurado de suas sequências. Graças a este projeto, hoje
compreendemos melhor o funcionamento do nosso genoma, seus genes, controle
da expressão e a etiologia de várias patologias.

Os avanços da genética molecular estão fornecendo novos métodos de


detecção de genes mutantes nos indivíduos e os exames diagnósticos com base na
análise do DNA nuclear, além do mitocondrial, já estão disponíveis. Atualmente,
laboratórios podem detectar, a partir de uma amostra de sangue ou material
colhido da bochecha com swab, um alelo mutante do gene BRCA1, que causa forte
predisposição de seus portadores ao câncer de mama e de ovário. As mulheres
portadoras de alelo mutado para este gene podem ser aconselhadas a fazer uma
mastectomia para evitar o câncer. Portanto, a aplicação dessas novas tecnologias
de genética molecular pode levantar questões difíceis para as pessoas envolvidas,
bem como gerar temas éticos de discussão.

Quanto mais a engenharia genética progredir, mais se terá condições de


manipular o genoma humano e as discussões éticas a respeito devem ganhar
ênfase ao longo de seu desenvolvimento. Assim, o avanço nas pesquisas em
direção à manipulação do genoma tem dois lados, pois traz benefícios fantásticos,
como a cura das doenças, mas pode ter usos indevidos. Inclusive, pode ocorrer a
disseminação descontrolada de clínicas de terapia gênica e o surgimento de um
mercado negro na produção de embriões humanos manipulados.

185
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

Finalmente, caro estudante, salientamos que as análises de genética


molecular fazem parte da rotina em diversas situações. Atualmente, observamos
muitos testes de paternidade sendo realizados, além de análises de comprovação
de culpa ou de acusados, garantia de reclamação de herança e identificação de
cadáveres, sendo que provas baseadas em análise do DNA são apresentadas em
diversos tribunais.

2 BASES GENÉTICAS DO CÂNCER


O câncer é um descontrole das células do organismo, principalmente
dos mecanismos que regulam a divisão no ciclo celular, proliferando de modo
anormal, não respondendo aos diferentes mecanismos de controle. Um dos
primeiros mecanismos identificados no estudo da carcinogênese foi a ausência
de resposta das células tumorais aos sistemas que normalmente controlam o ciclo
celular. O ciclo celular é controlado por ciclinas, CKI, CDK, fosfatases e fatores
de transcrição. Esse descontrole ocorre devido aos oncogenes e à deficiência de
expressão dos genes supressores tumorais. No câncer, temos o mau funcionamento
de genes responsáveis pelo controle de eventos celulares fundamentais, como
reparo do DNA, sinalização celular, proliferação, migração, apoptose (morte
celular programada) e interação com outras células, decorrente de alterações no
DNA, como as mutações herdadas ou adquiridas ao longo da vida em células
específicas capazes de iniciar o processo tumoral.

A maioria dos casos de câncer é do tipo esporádico. Em cerca de 20 a


30% dos pacientes estão os casos com história familiar. De 5 a 10% de todos os
casos de câncer decorrem da existência de alterações genéticas herdadas que
conferem maior predisposição ao desenvolvimento de tumores, o que pode
ser observado clinicamente nas síndromes hereditárias de predisposição ao
câncer. A importância desta identificação reside na possibilidade de oferecer
aconselhamento genético apropriado. No tratamento para a eliminação do
câncer são realizadas terapias como cirurgia, radioterapia e quimioterapia, tanto
citotóxica quanto alvo-específica. O câncer pode ser estudado em modelos in
vitro, em animais e em testes clínicos em pacientes.

No câncer se estabelece um estado hiperproliferativo de um ou mais tipos


celulares, que podem invadir tecidos adjacentes e originar metástases, sendo
que as células tumorais podem se disseminar pelo organismo tanto pelo sistema
circulatório sanguíneo quanto pelo sistema linfático. As neoplasias malignas e
benignas podem se originar em praticamente todos os órgãos e tecidos humanos,
decorrentes de alterações genéticas e epigenéticas com influências ambientais.

Mas, caro acadêmico, devemos lembrar alguns conceitos fundamentais ao


tratarmos de câncer. Mutação se refere à alteração gênica, já neoplasia é qualquer
crescimento celular anormal e câncer ou tumor maligno (em oposição ao tumor
benigno) se caracteriza pela invasão do tecido adjacente ou entrada na circulação

186
TÓPICO 3 | GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

sanguínea ou linfática, impossibilitando muitas vezes uma completa ressecção


cirúrgica. Quando o câncer se espalha para outros locais do corpo além do local
onde começou, temos um processo denominado metástase. A Figura 24 apresenta
uma visão do início e do desenvolvimento de um tumor sólido. Lembrando que
a probabilidade de ocorrer uma mutação oncogênica (MO), que contribui para o
desenvolvimento do câncer, é muito menor do que a de ocorrer uma mutação não
oncogênica (MNO).

FIGURA 24 - FORMAÇÃO DO CÂNCER

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.).

187
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

Os oncogenes são ativados na carcinogênese e normalmente funcionam


de forma dominante, já os genes supressores tumorais são inativados na
carcinogênese e normalmente funcionam de maneira recessiva. As pesquisas
de oncogenômica têm identificado os genes alterados em tumores malignos e
muitos deles fazem parte de famílias gênicas como a RAS, representada pelos
genes H-RAS, K-RAS e N-RAS. Como exemplo de oncogenes podemos citar
MYC, K-RAS, RET e como genes supressores de tumor, temos os bem conhecidos
TP53, BRCA1, BRCA2 e RB1. Os estudos mostram que mutações de ganho de
função podem ocorrer em genes supressores tumorais e mutações de perda de
função podem ocorrer em oncogenes.

Por definição, um oncogene tem a sua atividade relacionada com o


desenvolvimento do câncer. Essa atividade do oncogene passa por uma maior
expressão do gene ou menor degradação proteica, por uma mutação ativadora
(de ganho de função) ou pela síntese de uma proteína quimérica ativadora que
envolva pelo menos um proto-oncogene como no caso da Leucemia Mieloide
Crônica, onde o gene quimérico BCR-ABL produz uma proteína quimérica que
leva à leucemia. Um proto-oncogene nada mais é que um gene que pode ser
transformado em um oncogene, estimulando a proliferação celular e inibindo
a apoptose. Podem se transformar em oncogenes por mutações espontâneas,
mutações pontuais, translocações cromossômicas, inserção de DNA viral ou
amplificação gênica, atuando de forma dominante. O produto de BCR-ABL acaba
realizando alterações importantes em vias regulatórias intracelulares, levando a
célula à instabilidade genômica e prejudicando o andamento do ciclo celular.
Lembrando que na Leucemia Mieloide Crônica temos uma translocação recíproca
entre os cromossomos 9 e 22 que justapõe o proto-oncogene ABL (cromossomo 9)
com o gene BCR (cromossomo 22), formando o cromossomo Philadelphia, locus do
gene híbrido BCR-AB, como estudado previamente na Unidade 1.

Outras translocações cromossômicas levam a leucemias em humanos,


como pode ser visto na Tabela 2.

TABELA 2 – TRANSLOCAÇÕES CROMOSSÔMICAS ASSOCIADAS COM LEUCEMIAS EM HUMANOS

FONTE: Pasternak (2002, pág. 377)


188
TÓPICO 3 | GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

Mas, caro estudante, quando falamos em genes supressores, estamos nos


referindo a genes que costumam ser inativados durante a formação tumoral. Em
condições normais, têm funções como bloqueio do ciclo celular e ativação de
apoptose. Vários genes ligados ao câncer envolvidos no reparo do DNA e em vias
de sinalização, como XPA, XPC, FANCA, ATM e CHK1, são caracterizados como
genes de manutenção. Já os genes envolvidos no controle do ciclo celular, como
CDK e CKI e na regulação de sua sinalização (PTEN e NF1) são denominados
de genes protetores. Entretanto, acadêmico, o gene TP53 atua em várias frentes
antitumorais, sendo amplamente estudado.

O gene supressor tumoral TP53, que codifica a proteína p53, tem papel
fundamental na regulação do ciclo celular, na apoptose e no reparo do DNA,
sendo que mutações no gene TP53 são encontradas em mais de 50% dos tumores
humanos. O gene TP53 está localizado no braço curto do cromossomo 17 (17 p13)
e é composto de 11 exons. Os principais sinais que levam à ativação da p53 são
o dano ao DNA e a sinalização oncogênica, estando sob controle transcricional
de diversos fatores de transcrição. A proteína p53 leva à indução da transcrição
de vários genes envolvidos na inibição do ciclo celular, como p21 e à indução
de apoptose, como BAX, PUMA e receptor FAS. A proteína p53 regula vários
processos, sendo considerada uma das proteínas mais pleiotrópicas conhecidas.

O câncer de mama é o principal câncer que atinge a população feminina


no mundo, com maior taxa de incidência e mortalidade, sendo que de 5% a 10%
de todos os casos são relacionados à herança de mutações genéticas. A história
familiar de câncer de mama é um fator de risco para o surgimento da doença,
sendo que alterações nos genes supressores tumorais BRCA1 e BRCA2 aumentam
o risco, pois estão relacionados à maior prevalência de carcinoma mamário e
ovariano. Quando o teste genético confirma que uma mulher apresenta alterações
nestes genes, muitos médicos sugerem a mastectomia ou retirada total das mamas.

O  BRCA1  localiza-se no braço longo do cromossomo 17 na posição


21 (17q21) e a sua principal função é a reparação do DNA na recombinação
homóloga, reparo por excisão de nucleotí­deos (REN) e na regulação do ciclo
celular, sendo expresso quando há uma instabilidade genômica mediada por
estrogênio. O BRCA2 (locus 13q12.3) tem a função de reparar as quebras na dupla
fita de DNA, através da interação com a RAD51.

Caro acadêmico, de forma muito interessante, identificou-se recentemente


que vários RNA não codificantes (ncRNA) estão envolvidos em diferentes
etapas do processo carcinogênico. Os ncRNA também podem atuar como
genes supressores tumorais ou oncogenes, desempenhando atividades como
proliferação celular, diferenciação e apoptose. Aqui, podemos citar os microRNA
(miRNA), curtas moléculas de RNA, que apresentam seus efeitos regulatórios,
ligando-se à região não traduzida de RNA mensageiros-alvo.

189
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

Mas mutações de ponto também são alterações no DNA identificadas


no processo de carcinogênese. Ocorrem normalmente após um erro da DNA
polimerase na replicação ou por reação das bases do DNA com agentes químicos.
O exemplo mais bem descrito de mutação pontual oncogênica é no gene RAS
que transforma a proteína Ras, envolvida na sinalização intracelular, em
constitutivamente ativada e oncogênica.

Por fim, é importante ressaltar que o fenótipo tumoral também pode ser
transmitido por modificações epigenéticas. As principais alterações epigenéticas
envolvidas na carcinogênese são a metilação do DNA e as modificações de histonas.
Nas células tumorais, podemos ter hipometilação do genoma ou hipermetilação
nos promotores de determinados genes. Em tumores, hipermetilação é mais
frequentemente do que hipometilação. A metilação em regiões ricas em CG pode
ocorrer em genes de diferentes funções, como supressão do tumor (BRCA1),
reparo do DNA, invasão e metástase.

As modificações de histonas podem ocorrer por acetilação, por exemplo.


A acetilação de histonas intensifica a transcrição, sendo controlada por duas
famílias de enzimas: as histonas-acetiltransferases (HAT) e as desacetilases de
histonas (HDAC). As HAT são catalisadoras da adição de um grupo acetil às
histonas, funcionando como coativadoras da transcrição, e as HDAC removem
os grupos acetil, causando repressão. Deste modo, podemos observar que a
acetilação das histonas é regulada por um balanço entre a atividade das HAT e
HDAC. A atividade alterada das HAT e HDAC tem sido identificada em diversos
tipos de tumores e constitui um importante alvo terapêutico.

O reparo do DNA é um processo fundamental para evitar o surgimento


de tumores, assim como a apoptose. O mecanismo de apoptose, um processo de
morte celular programada, é essencial para o desenvolvimento e a manutenção
de todos os indivíduos. Na apoptose, o citoesqueleto é destruído, o DNA é
fragmentado e a membrana nuclear é degradada. A partir disso, ocorre fagocitose
da célula pelos macrófagos teciduais. Todos esses processos requerem energia,
com utilização de ATP.

Danos no DNA podem ser reparados por diferentes mecanismos de reparo


do DNA, e pacientes com xeroderma pigmentoso (XP), os quais apresentam
mutações em proteínas de reparo, têm uma incidência maior de câncer. A
apoptose é um mecanismo de morte celular programada de grande eficiência,
que pode ser induzido por estímulos como danos no DNA e estresse celular.
Dessa forma, uma célula com acúmulo de mutações encerra seu ciclo, reduzindo
a chance de surgirem novas células tumorais.

A célula pode ter ainda uma parada permanente no ciclo celular,


denominada senescência. Trata-se de um processo metabólico ativo que induz a
uma parada na maioria das vezes irreversível. A senescência pode ser replicativa
ou induzida por oncogenes ou estresse. A senescência replicativa ocorre

190
TÓPICO 3 | GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

principalmente em razão do encurtamento telomérico. O encurtamento dos


telômeros ativa a sinalização de reparo de DNA e, por meio de p53 e várias CKI,
induz a senescência. Em células somáticas normais a atividade da telomerase
é baixa ou inexiste, fato que promove o encurtamento dos telômeros de forma
progressiva, ao longo das divisões celulares, funcionando como um relógio
celular. Por outro lado, células germinativas e as pluripotentes apresentam
telomerase ativa.

3 TERAPIA GÊNICA
A terapia gênica ocorre por transferência de material genético DNA ou
RNA, denominado de transgene, para as células-alvo, visando a cura ou melhora
do quadro clínico de uma patologia. São comumente utilizadas técnicas físicas
(biobalística), químicas (lipossomos) e biológicas (vetores virais) para realizar o
processo. A transferência gênica pode ser realizada in vivo ou ex vivo. Os maiores
desafios para a técnica obter sucesso são a transdução eficiente das células-alvo e
a resposta imune deflagrada pelo vetor ou pela expressão do transgene. Grandes
investimentos são necessários para o desenvolvimento de vetores eficientes.
A medicina moderna, com o advento da biologia molecular, tem na terapia
gênica uma técnica em ascensão. Ela consiste na inserção de genes funcionais
em células que apresentem genes defeituosos, de modo a substituir ou inativar
genes disfuncionais, com benefício terapêutico ao paciente. Estamos falando
de medicina moderna, porém, muitas dificuldades na utilização dessa técnica
mostram que há um longo caminho para a terapia gênica.

Em seres humanos, as células reprodutivas são produzidas por


uma linhagem celular específica e diferente das células somáticas. Deste modo,
mesmo com a terapia gênica de células somáticas, o gene defeituoso ainda existe
nas células da linhagem germinativa do paciente e pode ser transmitido para seus
descendentes. A terapia gênica da linhagem reprodutiva não foi posta em prática
em humanos. Nas terapias gênicas de células somáticas atuais, algumas células
do próprio paciente podem ser retiradas, reparadas e reimplantadas nele. Genes
de tipo selvagem devem ser introduzidos e expressos em células homozigotas ou
hemizigotas para um alelo mutante.

Em muitos casos de terapia gênica, são utilizados vírus como vetores


para inserir o gene selvagem nas células. No caso de vetores retrovirais, o
transgene selvagem é integrado com o DNA do retrovírus ao genoma da célula
hospedeira, assim o transgene é transmitido para todas as células descendentes
na linhagem da célula afetada. Quando são utilizados adenovírus que não são
capazes de integrar o seu DNA ao cromossomo da célula hospedeira, a presença
dos transgenes nestas células é transitória, pois a replicação dos genomas desses
vírus é autônoma e eles só persistem até que o sistema imune elimine os vírus
com as células infectadas. A vantagem dos adenovírus é que não há indução
de mutações possivelmente prejudiciais durante a etapa de integração. Mas
há também desvantagens, como a expressão transitória do transgene apenas

191
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

enquanto persistir a infecção viral, além da reação imune a esses vírus que pode
ocorrer nos indivíduos tratados, causada por exposição prévia ao mesmo vírus ou
a vírus semelhantes. Nas tentativas iniciais de tratar a fibrose cística por terapia
gênica, os pacientes inalavam um adenovírus com o gene CF, mas não houve
sucesso devido à resposta imune dos indivíduos tratados.

Para ser aplicada, a terapia gênica humana deve estar de acordo com as
diretrizes rigorosas do National Institutes of Health (NIH), nos EUA, e cumprir
várias exigências, sendo que o gene tem que ser clonado e bem-caracterizado,
deve haver um método eficaz de administração do gene, os riscos da terapia
gênica para o paciente devem ser mínimos, não pode haver outros métodos
de tratamento da doença e deve haver ainda experimentos preliminares com
modelos animais ou células humanas, indicando a possibilidade de sucesso.

Alguns protocolos de terapia gênica vêm sendo testados com resultados


interessantes, como o tratamento de crianças com uma forma de cegueira
congênita conhecida como amaurose congênita de Leber tipo II e o tratamento
da doença de Canavan, uma patologia neurodegenerativa. Todos os protocolos
atuais são procedimentos de acréscimo de genes, não havendo substituição. No
entanto, protocolos nesse sentido estão sendo desenvolvidos e são conhecidos
por transferência gênica direcionada.

Prezado acadêmico, você conhece as vacinas de DNA? As vacinas de


DNA recombinante surgiram devido aos avanços biotecnológicos. A informação
genética, responsável pela codificação de antígenos com aplicação vacinal,
é clonada e propagada em um determinado organismo. Alguns aspectos de
modulação da resposta imune das vacinas de DNA recombinante as tornaram
importantes para o desenvolvimento de vacinas com características terapêuticas.
Não estamos tratando apenas de vacina, mas sim de uma forma alternativa de
desenvolver imunoterapias, disponibilizadas por técnicas de DNA recombinante
na pesquisa de vacinas. As vacinas terapêuticas podem combater as doenças
nos pacientes. Desta forma, a definição de vacina terapêutica se confunde com
o conceito de terapia gênica, principalmente ao utilizarmos vacinas de DNA
recombinante para inserir informação genética nas células do hospedeiro com o
objetivo de gerar uma resposta imunológica favorável, a fim de reverter o quadro
patológico. Normalmente, essa metodologia não estimula no indivíduo tratado
reações autoimunes e de tolerância.

A vacina de DNA apresenta-se como uma eficiente tecnologia que pode


ser utilizada no desenvolvimento de vacinas contra agentes infecciosos, doenças
autoimunes, cânceres e alergias. Compreende a inoculação de um vetor plasmidial
em células eucarióticas para a produção do antígeno de interesse. No núcleo
celular, ocorre a transcrição do segmento de DNA de interesse e o mRNA segue
para o citoplasma onde ocorre a tradução de cópias da proteína recombinante.
A expressão endógena do antígeno pelas células transfectadas com o vetor gera
tanto uma resposta imune humoral com a produção de anticorpos específicos,
como uma resposta celular com indução de linfócitos T citotóxicos.

192
TÓPICO 3 | GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

4 FARMACOGENÔMICA E NUTRIGENÔMICA
Prezado acadêmico, será que todos nós respondemos da mesma forma
a um determinado tratamento para uma doença específica? Ao recebermos
um determinado tratamento com dose equivalente de uma mesma medicação,
alguns indivíduos não apresentam qualquer resposta, outros manifestam efeitos
colaterais graves e, no entanto, há aqueles que respondem muito bem, com remissão
completa do quadro clínico. Infelizmente, muitas vezes, não há como prever a
resposta clínica a uma determinada droga. Neste sentido, a farmacogenômica,
em amplo desenvolvimento, traz grandes perspectivas à medicina personalizada.

O termo medicina personalizada envolve a caracterização fenotípica e


genotípica do indivíduo, incluindo dados sociodemográficos, ambientais e de
constituição genética, na estimativa da predisposição individual para uma doença
e na definição de estratégias preventivas e terapêuticas.

Caro estudante, as pesquisas têm objetivado definir polimorfismos


genéticos como marcadores genômicos para prever a resposta às drogas. Outro
aspecto importante da farmacogenômica é a possibilidade de identificar genes
que são regulados por drogas. Vários tratamentos atuais foram descobertos por
experiência clínica, havendo desconhecimento de seu preciso mecanismo de ação.

Com o desenvolvimento da genômica podemos ter genes como alvos


terapêuticos para o desenvolvimento de novas classes de drogas, com melhores
resultados e, seguramente, menos efeitos colaterais. Futuramente, os médicos
deverão ter conhecimentos de farmacogenômica para poder prescrever as drogas
ideais para seus pacientes. Há grande potencial de individualizar o tratamento
farmacológico e de descobrir novos alvos terapêuticos para o desenvolvimento
de novas classes de drogas.

Sobre a nutrigenômica, caro estudante, vamos conceituar nutrigenômica


e nutrigenética, que estão intimamente associadas, entretanto, seguem uma
abordagem diferente. A nutrigenômica estuda a influência dos nutrientes no
genoma, ou seja, como os nutrientes podem interferir na expressão gênica,
afetar vias e o controle homeostático. Já a nutrigenética tem como objetivo
compreender como a constituição genética de um indivíduo coordena a sua
resposta à alimentação. A nutrigenética estuda o efeito da variação genética na
interação entre dieta e doenças, incorporando estudos de polimorfismos gênicos
a respostas diferenciais aos nutrientes.

193
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

5 DIAGNÓSTICOS MOLECULARES DE DOENÇAS


GENÉTICAS
Quando um determinado gene é clonado, sequenciado e as mutações
causadoras do distúrbio são conhecidas, geralmente é possível desenvolver testes
moleculares para identificar os alelos mutantes e diagnosticar a patologia.

Os testes moleculares podem ser feitos a partir de pequenas quantidades


de DNA com o auxílio da PCR para amplificar o segmento de DNA de interesse.
Deste modo, os diagnósticos podem ser feitos no período pré-natal, em células
fetais obtidas por amniocentese ou biopsia coriônica, ou ainda em uma única
célula de um pré-embrião produzido por fertilização in vitro.

Alguns diagnósticos moleculares podem ser realizados pela simples


verificação da presença ou ausência de um sítio de clivagem por uma enzima
de restrição específica. No caso da anemia falciforme, a mutação causadora
exclui um sítio de clivagem para a enzima de restrição MstII, sendo possível
distinguir o alelo HbS (falciforme) do alelo da β-globina normal (HbA) por meio
da síntese de primers complementares às sequências de DNA que flanqueiam a
mutação falciforme para realizar a sua amplificação por PCR (Figura 25). O DNA
amplificado a partir da PCR pode ser tratado com a enzima MstII e os produtos
obtidos podem ser separados por eletroforese em gel de agarose e corados com
brometo de etídio. Se o DNA amplificado for clivado por MstII com produção de
dois fragmentos visualizados por duas bandas no gel de agarose, contém o alelo
HbA. Se não for clivado, contém o alelo HbS com apenas uma banda no gel. Se o
indivíduo for heterozigoto, metade dos fragmentos amplificados será clivada e a
outra metade não será, sendo que o resultado no gel de agarose apresentará três
bandas.

Nos distúrbios hereditários, como nas ataxias espinocerebelares (SCA),


doença de Huntington e síndrome do X frágil, resultantes de uma expansão de
repetição trinucleotídica, como a expansão CAG nas SCAs, podemos usar PCR
e eletroforese em gel de agarose e acrilamida para detectar os alelos mutantes.
Outros tipos de mutações podem ser detectados pelo uso de sondas de DNA. Já o
sequenciamento de alelos dos diferentes genes de um indivíduo pode ser utilizado
com notáveis resultados, objetivando o diagnóstico molecular de doenças.
Os diagnósticos moleculares de doenças humanas contribuem muito para o
aconselhamento genético, disponibilizando informações muito importantes para
as famílias acometidas por patologias genéticas.

194
TÓPICO 3 | GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

FIGURA 25 - A MUTAÇÃO QUE PRODUZ O ALELO DA B-GLOBINA FALCIFORME (HBBS OU


HBS) A PARTIR DO ALELO DA B-GLOBINA NORMAL (HBBA OU HBA) ELIMINA UM LOCAL DE
CLIVAGEM MSTI

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.)

As ataxias espinocerebelares autossômicas dominantes, ou SCAs,


constituem um grupo complexo de doenças neurodegenerativas que atingem
o cerebelo e suas principais conexões, por exemplo, a Ataxia de Machado-
Joseph (SCA3), a ataxia espinocerebelar dominante mais frequente em nosso
país. Normalmente fatais, as SCAs são herdadas de modo vertical, manifestam-
se geralmente na vida adulta e apresentam grande heterogeneidade clínica.
Em determinadas famílias, principalmente em famílias grandes onde várias
pessoas manifestam os sintomas de uma determinada SCA, ocorre uma ampla
gama de variação dos sintomas. A história familiar é consistente com a herança
autossômica dominante de um único gene principal, mas os fenótipos resultantes
são individualmente tão heterogêneos que não poderiam ser extrapolados para

195
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

servirem de critério diagnóstico para outros casos. As pesquisas sobre as causas das
SCAs apontam para os mesmos processos moleculares, as quais compartilhariam
a mesma mutação, denominada mutação dinâmica e caracterizada por uma
expansão de nucleotídeos. No caso das SCAs, uma boa parte delas apresenta uma
expansão CAG na região codificante dos respectivos genes, a qual codifica um
segmento de poliglutamina. Como exceções, temos a SCA8 e a SCA10, sendo que
a SCA8 é causada pela expansão do trinucleotídeo CTG e a SCA10 pela expansão
do pentanucleotídeo ATTCT. Através da amplificação por PCR das regiões de
repetições trinucleotídicas, com posterior análise dos fragmentos gerados em
géis de agarose e poliacrilamida, podemos diagnosticar a presença de alelos
expandidos, além de quantificar o número de repetições CAG nos alelos normais
e alterados, como no caso de SCA1 (Figura 26).
FIGURA 26 - DETECÇÃO DE ALELOS NORMAIS E EXPANDIDOS NA SCA1
1 2 3

FONTE: O autor

Na figura anterior verificamos a amplificação por PCR da região de


interesse do gene SCA1 analisada em gel de agarose. Coluna 1: amostra de DNA
de um paciente SCA1 positivo apresentando um alelo expandido (expansão
CAG) representado pela banda mais alta; colunas 2 e 3: pacientes com alelos
normais, sem a segunda banda mais alta que está presente somente no paciente
1, acometido por SCA1.

A ataxia espinocerebelar tipo 1 (SCA1) é uma doença neurodegenerativa


progressiva herdada de forma autossômica dominante e caracterizada por ataxia,
disartria, oftalmoparese e um grau variável de amiotrofia e neuropatia, sendo que
as manifestações clínicas normalmente aparecem a partir da terceira ou quarta
década de vida. As neuropatologias incluem perda neuronal severa no cerebelo e
bulbo, bem como degeneração das vias espinocerebelares. A SCA1 se caracteriza
por progressiva perda de coordenação, deterioração motora e degeneração das
células de Purkinje do cerebelo via espinocerebelar e bulbo. A SCA1 é causada
pela expansão de trinucleotídeos CAG no locus 6p22-p23. O número de repetições
varia de 6 a 39 em alelos normais e de 40 a 83 nos alelos mutados. A SCA1 foi

196
TÓPICO 3 | GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

descrita em famílias de diferentes origens geográficas e étnicas, sendo mais


comumente encontrada entre descendentes de italianos e de europeus orientais.
Além dessas populações, a SCA1 é a forma predominante entre as SCAs em
algumas regiões do Japão.

A ataxia espinocerebelar tipo 2 (SCA2) caracteriza-se principalmente por


lentidão dos movimentos sacádicos e hiporeflexia. Ataxia de marcha progressiva,
déficit cognitivo, oftalmoplegia, disfagia, disartria, dismetria e tremores também
são observados em pacientes com SCA2. Em determinados pacientes, o início da
doença é mais precoce, em torno dos 17 anos, por exemplo, sendo mais grave
a evolução da doença. Já outros apresentam início mais tardio, 50 anos, por
exemplo. A SCA2 é uma doença neurodegenerativa causada pela expansão de
trinucleotídeos CAG no locus mapeado no cromossomo 12q23-24.1. Os alelos
normais apresentam entre 14 e 31 repetições CAG, enquanto que os alelos
mutantes apresentam entre 35 e 59 repetições. No entanto, 32 ou 33 repetições do
trinucleotídeo CAG podem ser suficientes para causar a doença. O fenômeno da
antecipação foi estabelecido em casos de SCA2, ou seja, há uma correlação inversa
entre idade de início e o tamanho das repetições CAG. O gene da SCA2 produz a
proteína denominada ataxina-2. Quando mutado, este gene origina uma proteína
alterada, causando neurodegeneração.

A ataxia espinocerebelar tipo 3 ou Doença de Machado-Joseph (MJD) é


uma doença neurodegenerativa caracterizada por ataxia cerebelar, oftalmoplegia
e nistagmo, podendo-se encontrar ainda um quadro de demência, dor nas
articulações e músculos. Significante correlação inversa entre idade de início das
manifestações clínicas e o tamanho da repetição expandida de CAG foi observada
também em MJD. O gene da MJD foi localizado no cromossomo 14q32.1, sendo
identificado primeiramente em famílias japonesas. O mapeamento foi confirmado
em estudos com pacientes portugueses, norte-americanos e brasileiros, sendo a
SCA mais frequente no Brasil. O gene para a MJD apresenta uma região com
repetições do trinucleotídeo CAG. Os indivíduos normais apresentam de 12 a 37
repetições CAG, enquanto os indivíduos afetados apresentam alelos com 61 a 84
repetições.

A SCA6 é caracterizada clinicamente por uma ataxia lenta e progressiva,


além de disartria. A maior parte dos casos de ataxias cerebelares, na população
do Japão, são diagnosticados como SCA6. A SCA6 é uma doença causada pela
expansão de trinucleotídeos CAG no locus 19p13, tendo como característica a
morte seletiva e progressiva das células de Purkinje, que conduz a uma ataxia
progressiva. A mutação na SCA6 consiste de uma expansão de trinucleotídeos
CAG no gene CACNA1A, o qual codifica a subunidade alfa 1A do canal de
cálcio neuronal presente em todo o encéfalo. Nos alelos normais, o número de
repetições CAG varia de 4 a 20 vezes, enquanto que nos alelos expandidos esse
número aumenta de 21 até 29 repetições.

197
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

A SCA7 foi diagnosticada em populações de origens geográficas diferentes,


como países europeus, africanos, além dos Estados Unidos, Brasil, Israel e Coreia
do Sul. Entretanto, a frequência de expansões no gene da SCA7 na África do
Sul representa uma das mais altas para estas expansões estudadas em qualquer
país. O gene da SCA7 está localizado no locus 3p12-p12.1 apresentando uma
repetição CAG expandida em indivíduos afetados. Os achados para SCA7 são
a disartria, a oftalmoparesia, a hiperreflexia, o sinal de Babinski, a espasticidade
e a redução da sensibilidade vibratória. O fenômeno da antecipação, ou seja,
uma correlação inversa entre idade de início e o tamanho das repetições CAG, é
bastante importante nesta ataxia. Os alelos expandidos apresentam de 36 a 306
repetições CAG, enquanto que os alelos normais variam de 4 a 35 repetições.

A doença de Huntington (DH) é uma doença genética causada por


mutação autossômica dominante no gene HTT. As pessoas com DH sofrem
neurodegeneração progressiva e não há tratamento. A DH é causada por uma
mutação no gene que codifica uma proteína chamada huntingtina (Htt). Esta
mutação produz uma forma alterada da proteína que causa morte de neurônios
em determinadas regiões do cérebro. A DH é uma doença rara que afeta 1 em
cada 10.000 pessoas na maioria dos países europeus. Como ocorre nas Ataxias
Espinocerebelares, devido à idade de início avançada da doença, a maioria dos
pacientes com DH pode ter filhos apresentando 50% de chance de ter a doença.
O gene HTT foi um dos primeiros genes que comprovadamente estavam ligados
a um polimorfismo de comprimento de fragmento de restrição (RFLP), pois
era cossegregado com um sítio RFLP mapeado na extremidade do braço curto
do cromossomo 4. Esse gene contém uma repetição de trinucleotídio, (CAG)n,
apresentando até 35 repetições em alelos normais e mais de 39 repetições CAG
em alelos mutados, codificando um segmento expandido de poliglutamina na
terminação amino da proteína. A região poliglutamina alongada promove o
acúmulo de agregados da proteína huntingtina nas células encefálicas. Como
ocorre normalmente em SCAs, o fenômeno da antecipação também é observado
na doença de Huntington.

Dada a disponibilidade de diagnósticos moleculares para detecção de


expansões CAG nas Ataxias Espinocerebelares e também para a Doença de
Huntington, os indivíduos em risco de transmitir o gene anômalo para seus filhos
conseguem saber se são portadores antes de ter filhos. Um filho com genitor
heterozigoto tem 50% de chance de ter o gene mutado. Se o teste for negativo, a
pessoa pode ter filhos sem risco de transmitir a mutação. Se o teste for positivo, o
casal pode ponderar sobre a fertilização in vitro e testes de DNA em pré-embriões
antes da implantação. No entanto, normalmente são testados para as referidas
mutações apenas indivíduos sintomáticos. Do ponto de vista ético, é muito
discutível analisar assintomáticos para presença ou ausência de alelos expandidos,
pois um indivíduo sem qualquer manifestação clínica da doença poderia receber
um diagnóstico indicando a presença de uma mutação, que futuramente levaria ao
desenvolvimento de uma patologia neurodegenerativa, sem cura. Quais seriam as
perspectivas de vida deste indivíduo assintomático a partir desta nova realidade
imposta por esse teste preditivo? Caro acadêmico, o que você pensa a respeito?

198
TÓPICO 3 | GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

6 HEREDOGRAMAS
Os heredogramas são diagramas que apresentam as relações entre os
membros de uma família. Nos heredogramas são utilizados quadrados para
representar o sexo masculino e círculos para o sexo feminino. A linha horizontal
que une um círculo e um quadrado representa o cruzamento. Os filhos são
apresentados sempre abaixo dos pais, iniciando com o primogênito à esquerda
(Figura 27).

Normalmente, os indivíduos acometidos por determinada patologia


são marcados por um sombreado (Figura 28). As gerações são indicadas por
algarismos romanos e indivíduos específicos de uma geração são designados por
algarismos arábicos.

Prezado acadêmico, para entender melhor a disposição e importância de


heredogramas, analise a Figura 29 com o caso mais famoso de hemofilia ligada
ao X que ocorreu na família imperial russa no início do século 20. O czar Nicolau
e a czarina Alexandra tiveram quatro filhas, além do menino Alexis, que era
hemofílico (Figura 29, indivíduo V10). A mutação ligada ao X responsável pela
hemofilia de Alexis foi transmitida pela mãe, portadora heterozigota. Alexandra
era neta da rainha Vitória da Grã-Bretanha, também portadora da mutação,
que transmitiu o alelo mutante para três dos nove filhos, são eles: Alice, mãe
de Alexandra; Beatriz, com dois filhos com hemofilia e Leopoldo, que tinha a
doença. É mais fácil identificar as características causadas por alelos dominantes,
pois todo membro familiar que tem o alelo dominante manifesta o fenótipo. Já as
características com padrão de herança recessiva podem ser mais complicadas de
identificar, pois podem ocorrer em indivíduos cujos genitores não são afetados.
Geralmente, são analisados os dados de várias gerações no heredograma para
acompanhar a transmissão de um alelo recessivo.

199
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

FIGURA 27 - HEREDOGRAMAS HUMANOS

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.).

A) Convenções do heredograma. B) Herança de uma característica dominante. C) Herança de


uma característica recessiva.

200
TÓPICO 3 | GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

FIGURA 28 - HEREDOGRAMA DE UMA FAMÍLIA COM PREDISPOSIÇÃO HEREDITÁRIA AO


CÂNCER

FONTE: Menck e Sluys (2017, s.p.)

Família hipotética com múltiplos casos de câncer de mama e de ovário em que foi identificada
uma mutação herdada no gene BRCA1. A seta indica a primeira pessoa da família atendida e
investigada (probando). Dx = idade ao diagnóstico de câncer.

FIGURA 29 - HEMOFILIA NAS FAMÍLIAS REAIS EUROPEIAS

201
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

FONTE: Snustad e Simmons (2017, s.p.)

A) A família imperial russa do czar Nicolau II. B) Hemofilia ligada ao X nas famílias reais da
Europa. Através de casamento consanguíneo, o alelo mutante para hemofilia foi transmitido da
família real britânica para as famílias reais alemã, russa e espanhola. Indivíduo hemofílico V 10 -
Alexis (família real russa).

7 ÉTICA E GENÉTICA
As doenças genéticas, geralmente, são doenças incuráveis, sendo que
apenas algumas têm tratamento. Estas doenças apresentam alguns dilemas éticos:

• Devemos diagnosticar doenças sem cura?


• Devemos realizar testes preditivos em indivíduos assintomáticos?
• É eticamente adequado realizar diagnósticos em pacientes com possibilidade
de doenças degenerativas de início tardio?

A terapia gênica pode ser um tratamento eficaz no caso de doenças


genéticas, mas só é utilizada para tratar doenças genéticas em células somáticas.
O objetivo é provocar uma alteração no DNA do portador da doença, através da
utilização de um vetor, que pode ser um adenovírus ou ainda um retrovírus.

A terapia gênica de células germinativas baseia-se na alteração de células


reprodutivas (óvulos e espermatozoides). No entanto, há várias questões éticas
envolvidas nestes procedimentos. Esta se baseia na alteração genética de um
embrião, seja na fase de pré-implantação ou antes da fertilização, nos próprios
gametas. Assim, a técnica muda o genoma do indivíduo antes mesmo do seu
nascimento. A partir dos efeitos genéticos destas possíveis modificações, surgem
debates éticos, a favor e contra.

202
TÓPICO 3 | GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

DICAS

Caro acadêmico, você defende a autonomia dos pais na busca das melhores
tecnologias para obtenção de filhos sadios? Defende a manipulação genética em gametas ou
embriões? Pense a respeito deste tema tão polêmico e assista ao filme GATTACA. Disponível
em: <https://www.youtube.com/watch?v=mV40nDD7gDk>.

De qualquer forma, algumas diretrizes podem ser propostas no sentido


de orientar as ações na área da genética humana. Por exemplo, o aconselhamento
genético não deve ser diretivo,  a confidencialidade das informações genéticas
deve ser mantida, a privacidade de um indivíduo deve ser protegida de terceiros
institucionais e o diagnóstico pré-natal deve ser realizado somente por razões
relevantes. 

8 DIVERSIDADE DO GENOMA E EVOLUÇÃO


Na área da genética evolutiva, buscamos analisar como a composição
genética das populações muda ao longo do tempo. Nesse sentido, podemos
classificar um gene como polimórfico se ele varia dentro de uma espécie, ou
monomórfico, quando o locus não apresenta variação e é idêntico em indivíduos
da mesma espécie. Esses padrões realmente são encontrados nos genomas e os
estudos na espécie humana mostram que a cada 800 nucleotídeos sequenciados
em um indivíduo, um deles é variável. Quando são feitas comparações entre o
genoma humano e o do chimpanzé, observa-se que 1/100 dos nucleotídeos são
divergentes.

A genética populacional está baseada nos estudos de frequências


alélicas. Cada gene do genoma existe em diferentes possibilidades alélicas e,
naturalmente, um indivíduo diploide é homozigoto ou heterozigoto. Em uma
população, é possível calcular as frequências dos diferentes tipos de homozigotos
e heterozigotos. A partir dessas frequências, podemos estimar a frequência de
cada alelo de um gene. Tais análises são a base para a genética de populações.

Diferentes processos explicam a origem dos padrões de polimorfismo e


divergência. Há os processos genéticos, como a mutação e a duplicação gênica,
que produzem variação genética, e os processos demográficos, como a deriva
genética e a migração. A deriva genética é um processo de mudança na composição
genética de uma população que ocorre de forma aleatória, não havendo seleção
natural. Já a migração pode gerar variação em uma população pelo influxo de
imigrantes, trazendo novas variantes genéticas. É importante salientar que por
meio destes processos as populações evoluem, mesmo que não ocorra a seleção
natural.

203
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

Mas a composição genética da população também pode ser estabelecida


pela seleção natural, já que as probabilidades de um alelo variar de frequência
dependem do modo com que ele contribui para as chances de sobrevivência
e reprodução dos indivíduos. Mutações vantajosas tendem a se tornar mais
frequentes, pois aumentam as chances de sobrevivência e de reprodução de seu
portador.

DICAS

Prezado acadêmico, visite sites especializados em Genética Humana e Médica,


assim você poderá aprofundar seus conhecimentos, além de buscar oportunidades na área.
Acesse:
<https://www.genome.gov/10000464/online-genetics-education-resources/>.
<https://www.sbg.org.br/>.
<http://www.sbgm.org.br/>.

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TÓPICO 3 | GENÉTICA MÉDICA NA ERA DA GENÔMICA

LEITURA COMPLEMENTAR

Limites da manipulação genética

Lygia Pereira

Nos últimos anos, a possibilidade de manipulação genética de seres


humanos se tornou tecnicamente real, o que levou à publicação de vários
manifestos da comunidade científica internacional contra o uso da técnica
em embriões, óvulos e espermatozoides humanos. Não aceitamos alterações
genéticas que possam ser transmitidas às próximas gerações. Apesar disso, no
mês passado, cientistas chineses publicaram um trabalho descrevendo a criação
de embriões humanos geneticamente modificados! Abrimos a Caixa de Pandora?

Ainda não. Os pesquisadores chineses só testaram quão segura a


técnica é de fato em embriões humanos — afinal, se um dia pudéssemos, por
exemplo, corrigir a mutação no gene do câncer de mama da Angelina Jolie,
interromperíamos a herança maldita do mal, que vinha desde sua avó e os filhos
da atriz não correriam nenhum risco de herdar a doença (seus filhos biológicos
possuem 50% de chance de terem herdado a mutação da mãe...).

Se temos algo a ganhar com a técnica, não vale a pena testá-la? Sim,
mas existe uma linha muito tênue entre ousadia e irresponsabilidade e o
desenvolvimento científico não pode cruzá-la. Assim, para ficar do lado de
cá dessa fronteira, foram usados embriões defeituosos de fertilização  in vitro.
Neles foram injetadas pequenas moléculas construídas para consertar um gene
que, quando “mutado”, causa uma forma grave de anemia. Dos 54 embriões
analisados, somente quatro tinham o gene corrigido... Além disso, eles também
tinham alterações genéticas em outros locais não planejados do genoma — ou seja,
a tal molécula muitas vezes erra o alvo... Em resumo, o trabalho demonstrou que a
técnica de edição de genoma é ineficiente e insegura para se utilizar em embriões
humanos — exatamente o que a comunidade científica previa e argumentava
para que esse procedimento não fosse feito em embriões humanos. O que não
significa que as pesquisas nesse sentido devam ser interrompidas. Se tivéssemos
proibido as pesquisas em transplante cardíaco em 1968, quando 80% dos
pacientes transplantados morriam, nunca teríamos tornado o procedimento uma
realidade que hoje em dia salva muitas vidas. Cientistas seguirão aprimorando
a técnica para torná-la mais eficiente e segura. Porém, essas pesquisas devem ser
conduzidas de forma absolutamente ética — aliás, todas as pesquisas devem ser
conduzidas assim; mas, quando envolvem embriões humanos, mais ainda.

E enquanto nós, cientistas, resolvemos os aspectos técnicos, conclamamos


legistas, psicólogos, sociólogos e a população em geral para discutir as vantagens
e os riscos de usar a tecnologia de edição do genoma em seres humanos. Para
pesquisa ou para evitar doenças como câncer e Alzheimer? Sim. E para que o
bebê nasça com olhos azuis, mais inteligente, mais alto? Em que situações
permitiremos sua aplicação?
205
UNIDADE 3 | GENÉTICA MÉDICA

Um cenário que há 15 anos era ficção científica agora é tão real que
devemos discuti-lo urgentemente. No Brasil, já estamos precavidos: a Lei de
Biossegurança de 2005 proíbe “engenharia genética em célula germinal humana,
zigoto humano e embrião humano”. Talvez um dia tenhamos que rever o texto
para considerar casos específicos em que essa engenharia genética possa ser feita.
Mas, por enquanto, estamos protegidos dos Mengeles de plantão — que orgulho!

FONTE: <https://oglobo.globo.com/opiniao/limites-da-manipulacao-genetica-16125529>.
Acesso em: 21 set. 2018.

206
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• O câncer é um descontrole das células do organismo, principalmente dos


mecanismos que regulam a divisão no ciclo celular, proliferando de modo
anormal, não respondendo aos diferentes mecanismos de controle.

• Os oncogenes são ativados na carcinogênese e normalmente funcionam


de forma dominante, já os genes supressores tumorais são inativados na
carcinogênese e normalmente funcionam de maneira recessiva.

• A terapia gênica ocorre por transferência de material genético, DNA ou RNA,


denominado de transgene, para as células-alvo, visando à cura ou melhora do
quadro clínico de uma patologia.

• Muitas vezes, não há como prever a resposta clínica a uma determinada droga.
Neste sentido, a farmacogenômica traz grandes perspectivas à medicina
personalizada.

• O termo medicina personalizada envolve a caracterização fenotípica e


genotípica do indivíduo, incluindo dados sociodemográficos, ambientais e
constituição genética, na estimativa da predisposição individual para uma
doença e na definição de estratégias preventivas e terapêuticas.

• Um aspecto importante da farmacogenômica é a possibilidade de identificar


genes que são regulados por drogas.

• A nutrigenômica estuda a influência dos nutrientes no genoma, ou seja, como


os nutrientes podem interferir na expressão gênica, afetar vias e o controle
homeostático.

• A nutrigenética tem como objetivo compreender como a constituição genética


de um indivíduo coordena a sua resposta à alimentação.

• Quando um determinado gene é clonado, sequenciado e as mutações


causadoras do distúrbio são conhecidas, geralmente é possível desenvolver
testes moleculares para identificar os alelos mutantes e diagnosticar a patologia.

• Os testes moleculares podem ser feitos a partir de pequenas quantidades de


DNA com o auxílio da PCR para amplificar o segmento de DNA de interesse.

• Os heredogramas são diagramas que apresentam as relações entre os membros


de uma família.

207
• A terapia gênica pode ser um tratamento eficaz no caso de doenças genéticas,
mas só é utilizada para tratar doenças genéticas em células somáticas.

• Os estudos de polimorfismos no genoma humano mostram que a cada 800


nucleotídeos sequenciados em um indivíduo, um deles é variável.

• A vacina de DNA apresenta-se como uma eficiente tecnologia que pode ser
utilizada no desenvolvimento de vacinas contra agentes infecciosos, doenças
autoimunes, câncer e alergias.

• As análises de genética molecular fazem parte da rotina em diversas situações.


Atualmente, observamos muitos testes de paternidade sendo realizados, além
de análises de comprovação de culpa ou de acusados, garantia de reclamação
de herança e identificação de cadáveres.

208
AUTOATIVIDADE

1 (ENADE, 2011) Uma das funções essenciais da divisão celular em eucariotos


complexos é a de repor células que morrem. Nos seres humanos, bilhões
de células morrem todos os dias e, basicamente, a morte celular pode
ocorrer por dois processos morfologicamente distintos: necrose e apoptose.
Considerando que a distinção entre eles é de especial importância no
diagnóstico de doenças, avalie as afirmações abaixo:

I- Na apoptose os restos celulares são fagocitados pelos macrófagos teciduais.


II- Como processos ativos, tanto a apoptose quanto a necrose requerem
reservas de ATP.
III- Na necrose ocorre extravasamento de substâncias contidas nas células, o
que resulta em um processo inflamatório.
IV- Tanto o mecanismo de necrose como o da apoptose envolvem a degradação
do DNA e das proteínas celulares.

É CORRETO apenas o que se afirma em:


a) ( ) I.
b) ( ) II.
c) ( ) I e III.
d) ( ) II e IV.
e) ( ) III e IV.

2 (ENADE, 2007 - questão adaptada) As endonucleases de restrição são


enzimas que reconhecem uma sequência específica de nucleotídeos do
DNA e o clivam em um ponto determinado. O emprego dessas enzimas
no diagnóstico de doenças infecciosas, neoplásicas e hereditárias vem
crescendo dia a dia e está preconizado em alguns programas de saúde
pública do Governo Federal. O esquema abaixo mostra a sequência de bases
reconhecida pela enzima Dde I, seu ponto de corte (representado pela seta)
e dois fragmentos de DNA a serem examinados.

CT ↓ NAG – sequência reconhecida pela DdeI (N= nucleotídeo qualquer)


Fragmento A= ...ACT CCT GAG GAG ... + Dde I
Fragmento S= ...ACT CCT GTG GAG ... + Dde I

Considerando a especificidade da enzima e os fragmentos em estudo e sabendo


que o fragmento “A” é o normal e o fragmento “S” representa uma mutação,
qual a representação do resultado da corrida eletroforética dos fragmentos
resultantes da digestão do DNA de um indivíduo normal e de um doente,
ambos homozigotos?

209
a) ( ) Normal = 1 banda; doente = 1 banda.
b) ( ) Normal = 1 banda; doente = 2 bandas.
c) ( ) Normal = 2 bandas; doente = 1 banda.
d) ( ) Normal = 2 bandas; doente = 2 bandas.
e) ( ) Não é possível diferenciar a mutação nestes fragmentos.

3 (ENADE, 2013) As sequências não codificantes e altamente polimórficas


no DNA funcionam como impressões digitais e permitem identificar o
indivíduo, bem como sua origem. Nessa característica de individualidade e
hereditariedade baseiam-se as provas científicas de paternidade utilizadas
no cotidiano forense brasileiro.

Com base na interpretação da eletroforese da imagem anterior, avalie as


afirmações seguintes.
I- Nessa corrida de eletroforese é possível observar a variabilidade na
sequência de DNA entre os indivíduos.
II- O indivíduo F3 não possui parentesco com nenhum dos indivíduos
testados.
III- A investigação genética pode excluir a possibilidade de paternidade,
como observado em relação ao indivíduo F1.
IV- É excluída a paternidade do suposto pai em relação ao indivíduo F2.

É CORRETO apenas o que se afirma em:


a) ( ) I e II.
b) ( ) I e III.
c) ( ) III e IV.

210
d) ( ) I, II e IV.
e) ( ) II, III e IV

4 (ENADE, 2013) A vacina baseada na tecnologia do DNA recombinante


envolve a transferência do gene que codifica a proteína imunogênica,
clonado em vetor de expressão, para células eucarióticas. Ao final do século
XX, diferentes vetores que expressam genes em células de mamíferos foram
desenvolvidos, bem como novos métodos de transferência gênica direta.

Acerca da metodologia de construção do DNA recombinante, avalie as


afirmações a seguir.
I- Um vetor ideal deve ser de fácil produção e direcionar a resposta imune
para células de imunidade específica (adaptativa).
II- Essa metodologia permite que o DNA se autoreplique no indivíduo, sem
expressão gênica por um período prolongado.
III- A referida metodologia não estimula no indivíduo reações autoimunes e
de tolerância.

É CORRETO o que se afirma em:


a) ( ) II, apenas.
b) ( ) III, apenas.
c) ( ) I e II, apenas.
d) ( ) I e III, apenas.
e) ( ) I, II e III.

5 (ENADE, 2013) Há alguns meses, uma paciente submeteu-se a uma


adenomastectomia bilateral preventiva com reconstrução das mamas com
próteses. Essa indicação foi feita analisando-se seu histórico familiar e
genético. Sua mãe e tia faleceram antes dos 50 anos com neoplasia maligna.
Ao exame laboratorial observou-se que a paciente é portadora de um gene
relacionado à maior prevalência de carcinoma mamário, ovariano e outros.
Nos casos de câncer de mama, a chance de desenvolver a neoplasia maligna
é próxima de 85%.

A respeito da situação descrita, assinale a opção que apresenta o nome do


gene, o cromossoma no qual está localizado, o modo como é ativado e a
classificação, em relação à distribuição na população, para as pacientes que
expressam esse gene.
a) ( ) p53; translocação (8,13), câncer familiar.
b) ( ) RB; deleção do braço curto do cromossoma 28, câncer familiar.
c) ( ) Cromossoma Filadélfia; translocação (13,22); câncer hereditário.
d) ( ) BRCA1; deleção do braço curto do cromossoma 17; câncer hereditário.
e) ( ) Her2Neu; amplificação do braço longo do cromossoma 21; câncer
familiar.

211
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REFERÊNCIAS
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patologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.

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MALUF, S. W. Citogenética humana. Porto Alegre: Artmed, 2011.

MARZZOCO, A. Bioquímica básica. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,


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THOMPSON, James S.; THOMPSON, Margaret W. Genética médica. 8. ed. Rio


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ZAHA, A. Biologia molecular básica. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012.

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