Você está na página 1de 5

A inteligência que vem do coração

Fernanda Mendes
Cultura, Liderança e Gestão de Mudança | ADIGO Desenvolvimento

Você já deve ter ouvido a frase de que “as pessoas são contratadas por suas
habilidades técnicas, mas são demitidas pelo seu comportamento”. Esta
máxima, na qual acredito, surgiu com força há pelo menos 3 décadas no mundo do
trabalho, e ainda assim, poucos a compreendem.

Na era digital, em que cada vez mais as habilidades


técnicas são substituídas por processos e sistemas
automatizados, e onde a inteligência cognitiva
humana é substituída pela inteligência artificial, o
desenvolvimento contínuo de habilidades
comportamentais, ou “ soft skills” para ficar chique
(J), é a chave para lidarmos com a complexidade e a
incerteza, de agora e do futuro. É aí que entra a
Inteligência Emocional, que é inclusive uma das 10
habilidades para o futuro listadas pelo World
Economic Forum.

Quando eu comecei minha carreira na área de


Treinamento e Desenvolvimento, em 1999, a
Inteligência emocional era o hit do momento. O conceito de Inteligência Emocional
foi definido academicamente pela primeira vez pelos psicólogos e pesquisadores
estadunidenses Peter Salovey e John D. Mayer, a partir do artigo “Emotional
Intelligence”, publicado na revista Imagination, Cognition and Personality”, em
1992. Mais à frente, em 1995, o psicólogo, escritor e Ph.D. de Harvard, Daniel
Goleman, lançou o livro Inteligência Emocional, sendo responsável por
popularizar o conceito. Finalmente emergia a compreensão de que Inteligência
Cognitiva não era suficiente.

O livro de Goleman tornou-se imediatamente um sucesso


estrondoso. Com o tempo, novas pesquisas foram complementando
o assunto, outros temas foram se integrando, e o conceito se
fortalecendo. O fato é que a Inteligência Emocional nunca mais foi
deixada de lado e, especialmente no âmbito corporativo e da prática
da liderança, tornou-se fundamental. Em um mundo de constantes
transformações e incerteza radical a Inteligência Emocional é cada
vez mais necessária.

De certa forma Goleman, Salovey e Mayer sistematizaram e evoluíram o que se


entende por “emocional” . Charles Darwin já escrevia, no século 19, sobre a
importância da expressão das emoções para a adaptabilidade humana. O que
difere Darwin de outros pensadores, e isso era novidade na época, é que ele usa o
termo “expressão” e não “controle” das emoções. Até meados do século XIX,
acreditava-se que as emoções eram instintos básicos que deveriam ser controlados
sob pena de uma pessoa ter a sua capacidade de pensar seriamente afetada. Ou
seja, era preciso subjugar as emoções ao comando do Pensar, sendo esta a
dimensão essencial do ser humano.

Como consultora e educadora que atua inspirada pela Antroposofia, é importante


eu convidar para este baile de ideias o filósofo e educador Rudolf Steiner , este
senhor da foto ao lado. Ele usava uma imagem trimembrada para
olhar o ser humano, distinguindo três qualidades ou dimensões
arquetípicas humanas: o Pensar, o Sentir e o Querer. De uma
maneira muito simplificada, podemos descrever estas três
dimensões da seguinte forma:

Pensar – Nossa razão. É no Pensar que residem os fatos, conceitos, argumentos e


lógica. É o mundo das ideias, o que acontece na nossa cabeça. Sede do nosso
sistema neurossensorial, através do Pensar captamos e processamos o que
acontece, onde o mundo exterior se desmaterializa e se tonar imagem interior. A
esta imagem interior conectamos outros conceitos que já temos gravados na
memória, e assim vamos construindo nossa percepção do mundo. O Pensar é
naturalmente frio. Por isso, quando precisamos clarear nossos pensamentos, é
comum dizermos “preciso esfriar a cabeça”.

Querer – Nossas ações. É por onde colocamos os pensamentos em ação no


mundo. E por onde reagimos de forma inconsciente, reproduzindo hábitos e
comportamentos em resposta ao ambiente. Na nossa anatomia, a sede do Querer é
o sistema metabólico-motor, que comanda metabolismo e movimentos de uma
forma geral. Portanto, o querer é quente e pulsante. É a dimensão da ação, da
implementação e da mobilização. Aqui residem a energia, hábitos, vontades,
propósitos e motivação. É onde a imagem interior se coloca em ação no mundo
exterior.

Sentir – Nossas emoções e o sentido que atribuímos ao que acontece. Na


anatomia humana, o Sentir mora no sistema rítmico: coração, pulmões e sistema
circulatório. Pode ser frio ou quente, antipático ou simpático, está sempre em
polaridade em relação ao mundo exterior. Esta é a dimensão que estabelece a
ponte entre o Pensar e o Querer, onde há constante troca centre o mundo interior e
exterior, e nesta troca atribuímos um significado ou uma emoção ao que é
percebido.
Somos condicionados a uma ligação direta entre Pensar e Querer. Racionalizar o
mundo e focar em nossas ações práticas. Desenvolver a razão e adquirir novos
hábitos.

No mundo organizacional o Pensar e o Querer são muito bem trabalhados:


imaginar o futuro e planejar ações, tornar um conceito em algo prático no dia a
dia. A questão é que o nosso Sentir é o grande responsável por conectar as ideias
com as ações, atribuindo significados, emoções que podem contribuir ou
atrapalhar a conexão entre Pensar e Querer, entre ideia e ação, na forma como
desejamos.

Quantos planos estratégicos maravilhosos, desdobrados em


planos de ação impecáveis, simplesmente não dão certo por
conta da resistência das pessoas envolvidas? Aha! É o Sentir se
manifestando: o que este plano estratégico, esse futuro desejado, significa para as
pessoas? Pode haver medo que paralisa, antipatias baseadas na vivência de cada
um, sentimentos de injustiça... e a resistência surge e empaca todo o processo.

“Deu frio na barriga...”

“Estou com um nó na garganta...”

“Respiração parou aqui...”

“Deu até tremedeira...”

“Meu coração parou naquela hora...”

Todos nós usamos expressões como estas, que são exemplos do nosso Sentir se
manifestando.

Convidando Goleman e Steiner para “dançarem comigo neste baile”, digo que
Inteligência emocional é abrir espaço para o nosso Sentir, e à partir dele
transformar nossa ação.
Quanto mais consideramos o Sentir nos processos de Desenvolvimento
(Organizacional, Pessoal, da Liderança, etc), mais consciência trazemos para esta
dimensão, e assim damos a oportunidade às pessoas de lidarem com suas emoções
e com as das pessoas ao seu redor.

Steiner, através da Pedagogia Waldorf, institui um modelo educacional que integra


Pensar, Sentir e Querer. E Goleman prega que todos deveriam ser emocionalmente
alfabetizados desde a infância, e nos bancos escolares deveríamos aprender sobre
as emoções. Segundo Goleman, todos deveriam aprender e praticar, desde cedo,
cinco características que desenvolvem nossa inteligência emocional:

1. Autoconsciência: reconhecer e saber designar as próprias emoções,


compreendendo as causas dos sentimentos, para discernir sentimentos de
atitudes.
2. Gestão das emoções: ao reconhecer suas emoções, você se torna capaz de
melhor gerenciá-las e escolher como elas vão influenciar suas decisões e
atitudes.
3. Canalizar produtivamente as emoções: ao gerenciar melhor suas
emoções, é possível canalizá-las em comportamentos funcionais e
produtivos (melhorar sua comunicação, ser menos impulsivo, ser mais
resiliente, etc.), As pessoas que têm essa capacidade tendem a ser muito
mais produtivas e eficazes no dia a dia.
4. Saber ler as emoções dos outros: ter empatia. Ao reconhecer, gerenciar e
canalizar suas próprias emoções é possível desenvolver maior consciência
social, ou seja, ter empatia para ler e interpretar os sinais do outro, adotar a
perspectiva de quem está a seu lado, e maior sensibilidade em relação ao
que o outro sente. Aliás, esta é uma competência fundamental para quem se
coloca no papel de gestão e liderança de pessoas.
5. Lidar com relacionamentos: é ser capaz de lidar com o mundo emocional
do outro e com isso gerar bons relacionamentos interpessoais e se sair bem
ao interagir com outras pessoas.

Em conjunto com Junto com Richard Boyatzis, Goleman elaborou um Inventário de


Competências Emocionais e Sociais (ESCI), que são um desdobramento das cinco
características descritas acima:

1. Autoconsciência emocional: Identificar nossas próprias emoções e os seus


gatilhos.
2. Autogestão emocional: Capacidade de manter as emoções e impulsos sob
controle em condições de estresse, pressão ou euforia.
3. Otimismo: Capacidade de ver o lado positivo das situações, e as
oportunidades além dos obstáculos.
4. Adaptabilidade: Agir com flexibilidade às mudanças, abrindo o coração
para recebê-las.
5. Empatia: Capacidade de se colocar no lugar do outro e extrair pistas sobre
o que ele pode estar sentindo e por quê.
6. Consciência Organizacional: Compreender e assimilar a dinâmica de um
sistema, ambiente ou rede.
7. Influência: Gerar impacto positivo sobre os outros, influenciar e obter
apoio para suas iniciativas, com compaixão
8. Treinamento e Mentoria: Ser capaz de compartilhar conhecimento e
promover aprendizagem, através de feedbacks, suporte e orientações.
9. Gestão de Conflitos: Sensibilidade e bom senso para encontrar soluções
através de conciliações e acordos.
10. Liderança Inspiradora: Inspirar e contagiar grupos, transmitindo
confiança para extrair o seu melhor.
11. Trabalho em equipe: Sensibilidade e bom senso para encontrar soluções
através de conciliações e acordos.
12. Orientação para Realização: Desafiar-se para superar os próprios
padrões , com metas desafiadoras e riscos calculados.

Basta bater o olho na lista acima para entender por que o World Economic Forum
cita a Inteligência Emocional com uma das 10 habilidades do futuro, essencial para
crescer e se desenvolver profissionalmente.

Com o ritmo cada vez mais frenético de mudanças, e o grau cada vez mais alto de
incerteza, a integração entre Pensar, Sentir e Querer, através do desenvolvimento
da Inteligência emocional, é o que pode te preparar para navegar nestes mares
turbulentos.

Sejamos espertos, não pelo nosso QI, mas por aquilo


que vem do coração.

Autoria de Fernanda Mendes. Apaixonada por Desenvolvimento, Gestão de Mudança e Liderança. Coach Executiva e
Mentora de RH. Mãe e malabarista de desafios, buscando equilíbrio entre Pensar, Sentir e Querer.

Você também pode gostar