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Lógica filosófica.

Falácias (Parte 1) — Falácias de Relevância.

A falácia é uma ilusão argumentativa — non sequitur — ou seja,


que não segue as premissas dadas, tirando uma conclusão, na
maioria das vezes, inválida para a dialética.
As falácias de relevância apresentam-se quando as razões da tese
argumentada são irrelevantes para a premissa, embora possam ser
psicologicamente relevantes. Isto é: o argumentador pode ser
influenciado psicologicamente à acreditar naquela tese, mesmo que
ela seja logicamente irrelevante.
Há, dentre as mais famosas, nove tipos de falácias de relevância,
as quais serão mostradas e explicadas abaixo:
1º. Argumentum ad baculum (apelo à força): quando se ameaça o
oponente argumentativo. Um exemplo de tal uso pode ser o
coronelismo praticado durante os primeiros tempos de República no
Brasil. Nesses tempos, o coronel usava de sua força para oprimir
cidadãos que não votassem no candidato que ele queria em vez de
argumentar logicamente o porquê votar em tal candidato.
2º. Argumentum ad misericordiam (apelo à misericórdia): quando
procura-se comover o oponente com pena ou simpatia pela causa
argumentada. Ou seja, há o uso do poder psicológico e sentimental
no oponente para que ele acredite no argumento, mesmo que tal
argumento seja insano e ilógico.
3º. Argumentum ad populum (apelo ao povo): quando procura-se
persuadir alguém de algo que seja despertado pelas massas (apelo
direto), seja fazendo apelo a sentimentos que se supõem ser
comuns às massas (apelo indireto). Ou seja, dado que a maioria
aceita e acredita na tese, logo ela está correta e válida. O
famigerado: “A voz do povo é a voz de Deus”.
4º. Argumentum ad hominem (argumento contra a pessoa): quando
argumenta-se contra a pessoa para, supostamente, refutar o
argumento, mas não contra o argumento. Por exemplo,
apresentando-a como hipócrita, tu quoque.
5º. A dicto simpliciter ad dictum secundum quid (falácia do
acidente): quando se aplica uma regra geral a um caso particular
que não deveria ser coberto por essa regra para promover algo que
resulta, de forma falaciosa, dessa aplicação. Por exemplo, regra
geral: aquilo que pertence a uma pessoa e que ela emprestou a
outrem deve ser-lhe devolvido se ela assim o quiser. Caso
particular: por isso, deve-se devolver a navalha àquele marinheiro
ébrio que ali está envolvido numa rixa, visto que a navalha é dele e
ele está a pedir. Essa regra geral faz com que a pessoa que está
com a navalha seja prejudicada pelo caso particular de o marinheiro
ébrio estar numa rixa, pois ela torna-se, de certa forma, cúmplice.
6º. A dicto secundum quid ad dictum simpliciter (falácia da conversa
do acidente): quando se aplica uma regra geral a um caso
particular, que não deveria ser coberto por essa regra, com o
objetivo de desacreditar da regra. Agora ocorre o contrário, a regra
é desacreditada por estar em um caso particular o qual não deveria
ser coberto por essa regra.
7º. Falácia do espantalho: quando alguém distorce o argumento do
oponente e, assim, ataca o argumento distorcido. Há a
desvalorização do argumento, a mudança de premissas, entre
outros casos em que a falácia do espantalho age com o objetivo de
refutar o argumento mais facilmente.
8º. Ignoratio elenchi (pseudoconclusão): quando quem argumenta
tira uma conclusão errada (inválida) das premissas dadas, mas
aparenta como a conclusão que seria correta extrair. Assemelha-se
deveras com a falácia do espantalho, porém há diferenças,
sobretudo, contextuais.
9º. Manobra de diversão: quando o argumentador distrai o oponente
mudando de assunto e/ou acabando por retirar uma conclusão
acerca desse outro assunto como se fosse a continuação do
anterior, ou assumir simplesmente que alguma conclusão foi tirada.
Utilizado bastante na retórica.
Deve-se salientar que há casos em que tais falácias podem ser
consideradas válidas, mas elas nunca podem justificar, em
essência, a tese. Dependendo do contexto, usa-se falácias, como
na política e na retórica. (Em especial na política vemos muito a
utilização do Argumentum ad hominem). Dessa maneira, o contexto
que decide, a partir de uma reflexão desse contexto do
argumentador, se o uso de tais argumentos são falaciosos ou não.
Portanto, tudo depende da ética e do bom senso dos
argumentadores no momento da dialética.

— Cauan Elias
Fonte bibliográfica: “Enciclopédia de termos lógico-filosóficos”,
direção de João Branquinho, Desidério Murcho e Nelson Gonçalves
Gomes.

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