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MOVIMENTO NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS

Luta pela Vida, Contra a Violência

AO CONSELHO NACIONAL DE AUTORREGULAMENTAÇÃO PUBLICITÁRIA

MOVIMENTO NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS - MNDH, pessoa jurídica inscrita no CNPJ/MF


sob o nº 32.902.132/0001-03, com domicílio no SEPN, Quadra 506, Conjunto C, nº 16, Loja nº 07,
Semi Enterrado, Asa Norte, Brasília, DF, CEP 70740-504, através de seu advogado infra-assinado
(Procuração em anexo), com escritório na Avenida Beira Mar, nº 406, Grupo nº 1.205, Centro,
Rio de Janeiro, RJ, CEP 20021-060, local onde recebe intimações, pugnando para que as futuras
publicações e intimações eletrônicas sejam veiculadas em nome do advogado Carlos Nicodemos
Oliveira Silva, OAB/RJ 75.208, vem a presentar RECLAMAÇÃO em face das Empresas HAVAN,
pessoa jurídica inscrita no CNPJ sob o nº 79.379.491/0027-12, domiciliada em Rua Antônio Heil,
250 - Centro – Brusque, SC, CEP 88353-100, website Havan | Tudo num só lugar, SEMP TCL,
pessoa jurídica inscrita no CNPJ sob o nº 25.382.633/0001, domiciliada em Av. Arnaldo Rojek, 1
- Altos de Jordanésia, Cajamar, SP, CEP 07786-900, website SEMP TCL, BETSSN, pessoa jurídica
inscrita no CNPJ sob nº 17.385.948/0001-05, domiciliada em Av Brigadeiro Faria Lima, 1811,
Andar 9 Conj 919, Jardim Paulistano, São Paulo, SP, CEP 01452-00, website Betsson Brasil | 100%
Bônus de Boas-vindas, KWAI, website Kwai, registre o mundo, compartilhe sua história, BETFAIR,
website Apostas Online » Betfair: O maior Intercâmbio de apostas esportivas e TEAMVIWER,
website TeamViewer: The Remote Desktop Software.

I - MOVIMENTO NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS – MNDH

O Requerente traz para a douta cognição da Ilustre Relator o seu Estatuto Social, rogando
especial atenção ao seu objeto de atuação, qual seja, dentre outros:

“combater manifestações de opressão”; “defesa de uma cultura valorativa


dos direitos humanos”; “combater todas as formas e manifestações de
preconceito”; “desenvolver ações de promoção da cidadania”;
“enfrentamento da pobreza e da exclusão social”; “desenvolver ações
educacionais”; “propor ações civis públicas em defesa dos interesses
difusos e coletivos”.

Além da previsão estatutária dos objetivos, dentre outros tão socialmente relevantes

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quanto, que foi acima elencada, a instituição exerce um trabalho contínuo e exitoso para a
consecução dessas finalidades, em prol da defesa e garantia de direitos relacionados à garantia
do direito à vida, à igualdade, e da participação popular.

Ademais, traz-se ao conhecimento de V. Exa. e vossos Eminentes Pares o site da


instituição Requerente, Início - Movimento Nacional de Direitos Humanos (mndhbrasil.org).

Nota-se que sua página inicial já busca sintetizar sua atuação e a compatibilidade da
mesma com a temática trazida nesses autos, a saber:

“O MNDH é um movimento organizado na Sociedade Civil, sem fins


lucrativos, fundado em 1982, tendo como motivação principal para seu
surgimento no cenário brasileiro a reação às violações sistemáticas de
direitos básicos para a realização da dignidade humana. O MNDH possui
uma grande quantidade de entidades filiadas, articuladas na luta pela
defesa e promoção dos direitos humanos”

De fato, no aludido site de divulgação das atividades da instituição ora Requerente se


noticia e comprova a veracidade de atuação nos exatos moldes dos objetivos previstos em seu
Estatuto Social, com posturas atuais, contínuas, objetivas, enfáticas e necessárias para um país
melhor, com igualdade social, em especial no que tange às políticas de afirmação de preservação
dos direitos humanos de toda a sociedade.

II – DO ATUAL CONTEXTO PANDÊMICO NO BRASIL

Fato de conhecimento público é a pandemia do Corona Vírus no mundo. A situação no


Brasil é especialmente grave com mais de 17 milhões de casos confirmados e 477 mil mortes.

Atualmente, o contexto brasileiro encontra-se no seu período mais grave, com os meses
de março, abril e maio de 2021 como sendo os meses mais letais desde o início da pandemia,
com os números de mortes em 66.673, 82.266 e 59.010, respectivamente.1

Diante deste contexto, o Brasil no dia 31/05/2021 é anunciado como país sede de um
evento de grande porte como a Copa América a ser realizado entre os meses de junho e julho de
2021.

A Copa América inicialmente seria sediada pela Argentina e Colômbia. A Colômbia

1
Terceiro mês mais letal da pandemia no Brasil, maio tem 59.010 mortes por Covid (cnnbrasil.com.br)

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abandonou o evento em decorrência dos atuais protestos políticos/sociais no país. Nesse


sentido, a Conmebol, instituição organizadora do evento, anunciou que a Copa seria realizada
totalmente na Argentina. Poucos dias depois, em um comunicado do dia 30/05/2021, a
Conmebol anunciou que a competição foi suspendida no país, pois o governo argentino não
aceitou mais sediar a Copa América por conta da situação da pandemia no país.2

Diversos setores das mídias noticiariam o anúncio e repercutiram a decisão brasileira de


sediar o evento. O jornal Ovación do Uruguai questionou o motivo do Brasil sediar a Copa visto
que vive uma situação sanitária pior que a da Argentina. Os jornais El Tiempo da Colômbia e El
Deportivo do Chile destacam o alto número de mortes e casos de Covid no Brasil. Os jornais La
Gazzetta Dello Sport da Itália e Marca da Espanha questionaram os motivos da alteração do
evento para o Brasil.3

Em sede nacional, críticas em relação a realização da Copa América foram feitas em


diversos setores. Na política, a CPI da Pandemia debateu no dia 01/06/2021 sobre o tema, em
que Renan Calheiros, relator da CPI afirmou que é lamentável a ideia de promover o evento no
Brasil na iminência da chegada da terceira onde de covid-19,4 ainda pronunciou que “com mais
de 462 mil mortes, sediar a Copa América é um campeonato de morte”, e relembrou que “as
ofertas de vacina mofaram em gavetas, mas o ok para o torneio foi ágil”, finalizou declarando ser
um “escárnio.”5

Os jogadores da seleção brasileira masculina de futebol também se manifestaram em


relação a Copa América, afirmando que “somos contra a organização da Copa América, mas
nunca diremos não à Seleção Brasileira.”6

No campo da medicina, o médico cientista Miguel Nicoleis afirma que o evento vai
empurrar o Brasil para a terceira onda de covid-19 e o infectologista Renato Kfouri alertou para
os altos riscos na realização do evento.7

Jornalistas também críticaram a realização do evento. Luís Roberto afirmou que a Copa
América não deveria ser realizada e que a pandemia já interrompeu várias competições no
mundo, concluindo que “é inaceitável, a coletividade esportiva não pode aceitar essa decisão, é

2
Por que Argentina e Colômbia não serão mais sedes da Copa América 2021? | Goal.com
3
Mundo do futebol repercute o anúncio do Brasil como sede da Copa América | copa américa | ge (globo.com)
4
CPI debate realização da Copa América no Brasil; Renan faz apelo a Neymar e seleção — Senado Notícias
5
CPI da Covid: Senadores criticam realização da Copa América no Brasil (uol.com.br)
6
Jogadores do Brasil divulgam manifesto: 'Somos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à
seleção' (espn.com.br)
7
Jogadores do Brasil divulgam manifesto: 'Somos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à
seleção' (espn.com.br)

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uma vergonha, é um tapa na cara dos brasileiros.”8

Sendo assim, resta claro que a realização de um evento da magnetude do Copa América
no Brasil é um desrespeito aos milhares de mortos e suas família durante a pandemia e
demonstra de maneira cabal que o governo brasileiro não prioriza os direitos de sua população.

Portanto, atividades publicitárias que visam beneficiar-se da realização desse evento,


além de desrespeitar as normas do CONAR, ainda desconsideram o momento vivido pelo Brasil
e ignoram os direitos devidos à população.

III – DO DESRESPEITO À DIGINIDADE DA PESSOA HUMANA E AO INTERESSE SOCIAL

Os direitos fundamentais são inerentes ao homem por sua condição de humano, sendo a
dignidade da pessoa humana um princípio fundamental que não se pode renunciar ou vender.
Nesse sentindo, a Constituição Federal brasileira prevê no artigo 1º a diginidade da pessoa
humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil.

A previsão constitucional posicona o princípio da dignidade humana como basiliar para o


ordenamento brasileiro, em que todas as ações devem ser substanciadas e fundadas
considerando este princípio.

O Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária no artigo 19 enaltece esse


princípio ao estabelecer que:

“Toda atividade publicitária deve caracterizar-se pelo respeito à


dignidade da pessoa humana, à intimidade, ao interesse social, às
instituições e símbolos nacionais, às autoridades constituídas e ao nucleo
familiar.”

Resta claro que qualquer atividade publicitária que desrespeite a diginidade da pessoa
humana e/ou o interesse social será contrária aos princípios gerais elencadas no Código de
Autorregulamentação Publicitária e aos princípios fundamentais constitucionais.

Outros dispositivos do mencionado Código merecem destaque:

Artigo 2º
Todo anúncio deve ser preparado com o devido senso de responsabilidade

8
Jornalistas esportivos do Grupo Globo criticam Copa América no Brasil | Poder360

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social, evitando acentuar, de forma depreciativa, diferenciações sociais


decorrentes do maior ou menor poder aquisitivo dos grupos a que se
destina ou que possa eventualmente atingir.

Artigo 6º
Toda publicidade deve estar em consonância com os objetivos do
desenvolvimento econômico, da educação e da cultura nacionais.

Artigo 8º
O principal objetivo deste Código é a regulamentação das normas éticas
aplicáveis à publicidade e propaganda, assim entendidas como atividades
destinadas a estimular o consumo de bens e serviços, bem como promover
instituições, conceitos ou idéias.

Artigo 15
Os padrões éticos de conduta estabelecidos neste Código devem ser
respeitados por quantos estão envolvidos na atividade publicitária, sejam
Anunciantes, Agências de Publicidade, Veículos de Divulgação, sejam
Publicitários, Jornalistas e outros Profissionais de Comunicação
participantes do processo publicitário.

Diante dos artigos destacados resta claro o objetivo do Código em disciplinar a atividade
publicitária em padrões éticos e de valores. Nesse sentido, tais valores devem embasar qualquer
atividade publicitária, enfatizando o objetivo que esses atividades devem servir ao bem e
interesse coletivo. Propagandas que não sigam padrões éticos e de valores estarão contrárias ao
Código.

Nesse contexto tem-se o seguinte trecho do artigo “Ética na Propaganda”:

“Desde o seu surgimento até hoje, o marketing passou por várias etapas
de gerenciamento, sendo o conceito mais atual o que está relacionado com
as questões sociais, que é a freqüente preocupação que as empresas
devem ter com relação ao bem-estar da sociedade em que se vive.

Os meios de comunicação de massa possuem grande influência sobre a


moderna sociedade de consumo, e a propaganda, por sua vez, inserida
nestes meios e apoiada por seus apelos persuasivos, consegue modificar a
atitude de milhares de consumidores que desejam satisfazer suas
necessidades, pela aquisição de produtos e serviços. E isto é fenômeno

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mundial.”9

A regulamentação da publicidade é devida pelo caratér das mesma de influenciar à


população, por esta razão que a introdução do Código menciona como uma das considerações
para a elaboração de referido Código “as repercussões sociais da atividade publicitária reclamam
a espontânea adoção de normas éticas mais específicas”. Em outras palavras, a publicidade
devido ao seu papel e consequências sociais deve ser regida através da ética e de valores.

Por exercer preponderante papel junto ao mercado da publicidade e propaganda é que o


CONAR em consonância com sua importância histórica define os mencionados preceitos
norteadores para os anunciantes, agências de publicidade e veículos de divulgação através do
Código Brasileiro de Autorregulamentação.

Nesta prespectiva, propagandas patrocinadas por empresas em eventos que violem esses
princípios e valores éticos, igualmente deverão ser consideradas como propagandas que
desrespeitam as normas e regras do ordenamento brasileiro.

O patrocínio basea-se em um contrato, normalmente, de investimento financeiro em


alguma atividade ou evento, visando influenciar o público favoravelmente em relação ao
patrocinador ou atingir outros objetivos de marketing. Portanto trata-se de um investimento
comercial em atividade publicitária, visto que o intuito do patrocínio é o benefício da Empresa
patrocinadora, como por exemplo, através da exposição da marca no evento.

Esta é a situação aqui impugnada, os patrocínios e, consequentemente, as ações


publicitárias das Empresas Havan, TCL, Semp, Kwai, Betsson, Betfair e TeamViwer ou qualquer
outra no evento Conmebol Copa América 2021.

O evento mencionado é uma clara violação e desrespeito à diginidade da pessoa humana,


bem como uma inversão do que deveria ser considerado como interesse coletivo, visto o
momento pandêmico vivido pelo Brasil.

A realização de um evento da magnitude da Copa América gera um alto risco de


aumento no contágio e transmissão do Covid-19, que consequentemente, agravaria a
pandemia brasileira.

Nesse sentido, a Copa América se apresenta como uma evento que distorce a ética e os
valores esperados e devidos pelo Governo Brasileiro, e por todos, no momento atual, visto que
a realização desse evento desconsidera e ignora a pandemia vivida no Brasil, as milhares de vidas

9
Ricardo Costa, Roberto Jimenes, Juliana Fraga. “Ética na Propaganda”. Revista da Faculdade de Direito.

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já perdidas em razão desse vírus e o altíssimo risco de agravamento dos casos, afetando
negativamente a sociedade brasileira.

A utilização de atividade publicitária para favorecimento de Empresas nesse evento, que


por si só já é contrário a ética, valores e direitos fundamentais, torna-se uma violação e
desrespeito ainda mais grave, visto que o intuito é gerar benefícios, normalmente financeiros,
através de uma plataforma que não segue os padrões éticos.

Em outras palavras, as Empresas buscam se beneficiar da realização de um evento que


desconsidera por completo os direitos fundamentais da população brasileira, negando, portanto,
todos os padrões éticos, de valores e os objetivos da regulamentação publicitária, como por
exemplo, a regra que toda atividade publicitária deve ser preparada a partir do senso de
responsabilidade social.

O professor Ricardo Ferreira Freitas da Faculdade de Comunicação Social da UERJ,


publicou artigo “Copa América é um gol contra o Brasil” no jornal O Globo de 12/06/2021 em
relação ao tema:

“Os grandes eventos esportivos são uma oportunidade de conseguir


projeção internacional para os países que os sediam, incrementando os
negócios, especialmente os ligados ao turismo. Essa estratégia deve ser
acompanhada de planejamento de média ou longa duração, não só pela
excelência de instalações esportivas a ser oferecidas, como também por
todo o aparato midiático que o acontecimento exige. Mas é necessário que
o povo queira ser anfitrião e esteja preparado para os dias do certame. Em
períodos de instabilidade severa, como o que vivemos com a pandemia de
Covid-19, diante do número alto de vidas perdidas, a imagem da Copa
América tende a se fragilizar, enquanto o país-sede será alvo de críticas
globais.
Os megaeventos são encontros que repercutem na mídia, despertando o
interesse de milhões de pessoas. Um megaevento não se restringe ao tempo
de sua duração, vai além. Começa muito antes de seu início e termina muito
após seu encerramento. Nessa proposta de o Brasil ser sede-relâmpago da
Copa América, não houve o “antes” para os anfitriões; e o “depois” poderá
afundar ainda mais a reputação internacional do Brasil em relação à saúde
coletiva. Deve-se também levar em consideração que existe o risco de o
improviso imposto gerar sérios constrangimentos diplomáticos, em vez de
ganhos políticos com a audácia da exposição.

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Em 1918, o governo federal brasileiro adiou o Campeonato Sul-Americano


de Football, torneio anterior à Copa América, devido à pandemia da Gripe
Espanhola, que matou dezenas de milhares de pessoas no Brasil no segundo
semestre daquele ano. O evento foi adiado para 1919 e inaugurou o Estádio
das Laranjeiras. Apesar de o governo brasileiro ter resistido ao adiamento,
prevaleceu o bom senso em nome da saúde pública, ou seja, o bem-estar de
sua população. Em 2021, vivemos o contrário. Após a desistência de
Argentina e Colômbia, o Brasil aceita sediar o torneio sem consulta aos
atores principais desse espetáculo. Há três erros básicos nessa estratégia: a
imposição da decisão; a projeção enviesada da marca Brasil; a tentativa de
desviar a atenção da tragédia vivida no país por causa da pandemia.”10

O risco de agravamento e aumento de casos de Covid-19, bem como, o momento


pandêmico no auge da segunda onda de infecções foram as razões para que a Argentina, país
sede de origem da competição negasse que a mesma ocorresse em seu território.11

Diante destas circunstâncias, o Brasil aceitou ser o país sede da Copa América ignorando
o momento pandêmico vivido pelo país e violando os princípios da dignidade humana, interesse
coletivo e demais direitos humanos. Portanto, ações publicitárias que se utilizem da realização
do evento para promover suas Empresas, claramente também estarão violando os citados
princípios.

Nesse contexto, a dignidade humana é um princípio fundamental indispensável para o


exercício dos outros direitos hum0anos, em que todo ser humano tem o direito de ser respeitado
e viver uma vida digna.

A realização de um evento que ponha em risco o exercício de direitos pela população,


como por exemplo, o direito à vida, saúde, sanidade mental, segurança, bem-estar será um
evento violador do princípio da dignidade humana. Assim como, inamidissível é entender que
realização da Copa América seria um interesse coletivo da sociedade brasileira.

Em razão das questões aqui abordadas as Empresas Mastercard e Ambev que são
patrocinadoras da Copa América resolveram desistir de expor suas marcas no evento. Conforme
demonstra matéria do Jornal G1.com abaixo:

10
Copa América é gol contra o Brasil | Opinião - O Globo
11
Copa América: os argumentos da Argentina para recusar a competição no país - BBC News Brasil

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No mesmo sentido a Empresa Diageo também anunciou que vai retirar a sua marca da
Copa América em razão da “atual situação sanitária brasileira e em respeito ao momento da
pandemia de Covid-19,” ainda afirma que a Empresa “reitera o seu compromisso com a
sociedade observando os protocolos de segurança e ações institucionais que contribuam para a
mitigação da pandemia.”12

A Copa América no Brasil ainda é objeto de investigação pelo Ministério Público Federal,
que realizará uma ação coordenada para investigar a CBF, emissoras de televisão,
patrocinadores, estados e municípios que irão abrigar a competição. O MPF afirma que os

12
Copa América no Brasil: quem são os patrocinadores que deixaram de expor suas marcas após críticas à situação
sanitária do país | Economia | G1 (globo.com)

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organizadores do evento não agiram para evitar a alta transmissibilidade do vírus durante a
competição, acarretando em violações de direitos à vida e à saúde.13

Ante ao todo demonstrado, ressalta perceptível, de imediato, o desrespeito à dignidade


da pessoa humana e ao interesse coletivo dos patrocínios e ações publicitárias ora contestados.

IV – DOS TRATADOS INTERNACIONAIS

O Brasil assumiu diversos compromissos internacionais de assegurar o princípio da


dignidade humana e os direitos humanos à sua população.

Como na Convenção Americana de Direitos Humanos:

“Artigo 1. Obrigação de respeitar os direitos:

1. Os Estados Partes nesta Convenção comprometem-se a respeitar os direitos


e liberdades nela reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda
pessoa que esteja sujeita à sua jurisdição, sem discriminação alguma por
motivo de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer
outra natureza, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou
qualquer outra condição social.

2. Para os efeitos desta Convenção, pessoa é todo ser humano.

Artigo 4. Direito à vida

1. Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve
serprotegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém
pode ser privado da vida arbitrariamente.

Artigo 11. Proteção da honra e da dignidade:

1. Toda pessoa tem direito ao respeito de sua honra e ao reconhecimento de


sua dignidade.”

Além disso, o Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais


estabele no artigo 12 o direito à saúde “os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o
direito de toda pessoa de desfrutar o mais elevado nível possível de saúde física e mental.”

13
MPF investiga CBF, sedes e patrocinadores da Copa América | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes
do Brasil | DW | 07.06.2021

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Diante do contexto dos tratados de direitos humanos e dos compromissos assumidos está
a discussão acerca do papel das Empresas em relação a esses direitos. De acordo com os
Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos das Nações Unidas, desenvolvido
no âmbito do Conselho de Direitos Humanos, três pilares são nortiadores dessa relação.

O segundo pilar é sobre a responsabilidade corporativa de respeitar os direitos humanos.


Nesse sentido, o princípio nº 11 estabelece que “as empresas devem respeitar os direitos
humanos”, significando que “devem se abster de infringir os direitos humanos de terceiros e
enfrentar os impactos negativos sobre direitos humanos nos quais tenham algum
envolvimento.”

A responsabilidade das empresas com o respeito aos direitos humanos ainda é um eixo
orientador das Diretrizes Nacionais sobre Empresas e Direitos Humanos do Decreto nº 9.571 de
2018, que prevê:

Art. 4º Caberá às empresas o respeito:

I - aos direitos humanos protegidos nos tratados internacionais dos quais o


seu Estado de incorporação ou de controle sejam signatários; e
II - aos direitos e às garantias fundamentais previstos na Constituição.

Portanto, não resta dúvida da existência das previsões nacionais e internacionais quanto
a necessidade de Empresas de respeitar os direitos humanos. Na prespectiva aqui abordada
significa que as Empresas patrocinadoras da Copa América devem no âmbito de todas as suas
atuações, incluindo atividades publicitárias, respeitar os direitos humanos.

O patrocínio de um evento, como a Copa América, que desrespeita esses direitos, como
já demonstrado, implica necessariamente em um desrespeito aos direitos humanos por parte
dessas Empresas, caracterizando uma violação das normas aqui mencionadas.

Por fim, em 12 de março de 2020, Sra. Michelle Bachelet, Alta Comissária dos Direitos
Humanos da ONU declarou que “o coronavírus será, indiscutivelmente, um teste aos nossos
princípios, valores e humanidade.”14 Mais de um ano depois desta declaração e do início da
pandemia, com a pandemia no Brasil em seu auge a Copa América será realizada, demonstrando
que o Brasil falhou no teste ao ignorar os princípios, os valores e a humanidade.

V - DOS PEDIDOS

14
UNHCR - The coronavirus outbreak is a test of our systems, values and humanity

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De todo o exposto, os Requerentes vem pleitear, conforme o Artigo 14 do Capítulo VII do


Estatuto Social do CONAR, a aplicação das seguintes medidas:

a. Retirada e/ou impedimento de promoção da(s) ação(es) publicitária(s) desta


natureza no evento mencionados ou mesmo em eventuais futuros torneios
desta natureza num contexto de pandemia.

b. Retratação pública da(s) empresa(s) à sociedade quanto a ofensa gerada


pela(s) publicidade(s) em um evento no contexto de pandemia.

c. Recomendação às Empresa(s) para adoção de medidas de não repetição das


violações aqui mencionadas;

d. Promoção de uma campanha afirmativa direcionada aos valores éticos e direitos


humanos por parte da empresas, especialmente quanto ao direito saúde n um
contexto de pandemia.

e. Aplicação de sanção disciplinar na forma do Estatuto Social do CONAR.

Pede deferimento.

Rio de Janeiro, 11 de junho de 2021.

CARLOS NICODEMOS
OAB/RJ 75.208

MARIA FERNANDA FERNANDES CUNHA


OAB/RJ 233.268

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