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Apontamentos-Cultura-Clássica revisados

Cultura Clássica (Universidade de Évora)

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Os poemas Homéricos

Após o período da Idade das Trevas, verifica-se um renascimento cultural da


civilização grega, manifestado pelos poemas de Homero: Ilíada e Odisseia. Compostos,
provavelmente no século VIII, descrevem acontecimentos da sociedade micénica,
particularmente a Guerra de Troia, e o regresso dos guerreiros aos seus palácios. Estas
obras apresentam semelhanças ao nível da linguagem e processos literários, do fundo
arqueológico e social, da mundividência, dos conceitos étnicos e das normas de respeito,
semelhanças essas que levam os gregos a atribuírem-nas a um autor – Homero. Apesar
de muito subjetivas, é possível que por trás destas obras haja partes que são reais e
verdadeiras.

Para escrever as suas obras, Homero baseou-se essencialmente na tradição oral,


daí que a sua veracidade possa ser posta em causa. Aliado a isto, está também o facto de
serem acontecimentos muito anteriores ao tempo de Homero e onde há poucos registos
escritos. Contudo, é de salientar que algumas descrições dos poemas homéricos
apresentam estreitas conexões com vários testemunhos arqueológicos do período
micénico. A Grécia tem um caráter agônico e até a literatura era alvo de concurso e
recitava-se para ganhar prémios. Cada uma das partes do poema varia de diferentes
partes da Grécia o que explica as congruências. Homero foi quem cristalizou todos estes
poemas.

Há nos poemas homéricos passagens onde se verifica uma sobreposição de épocas


e a mistura de objetos que não chegaram a coexistir historicamente. Estas
inconsistências e sobreposições temporais são perfeitamente explicáveis, tendo em conta
que os poemas surgem como fruto de uma épica oral que se foi transmitindo ao longo
dos tempos. O problema da tradição oral é que tende a esquecer ou a diminuir uns factos
e avolumar outros, a misturar eventos e objetos de épocas diferentes, introduzindo erros
graves na narrativa.

Os deuses nos poemas homéricos apresentam-se como seres antropomórficos,


imortais (mas não eternos) e não têm as características de omnisciência e omnipotência,
sendo mesmo enganados sem que se apercebam. Estes deuses são mutáveis (podem
assumir a forma animal – metamorfose) e misturam-se com os homens, interferindo com
o seu agir. Os deuses são pensados à imagem do homem: têm defeitos, discutem uns
com os outros, são vingativos, enganam os mortais e castigam quem se lhes compara ou

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comete hybris (tudo aquilo que é excessivo). Na Odisseia, verifica-se uma evolução dos
deuses, onde estes apresentam uma posição mais distanciada dos homens, já não
aparecem diretamente, e são justiceiros. Segundo Kulmann, na Ilíada são as paixões dos
deuses que comandam o sofrimento dos homens, enquanto que na Odisseia esses
comportamentos são uma consequência do seu comportamento ético.

O Homem, nos poemas homéricos, aparece-nos sem uma clara noção de vontade e
livre-arbítrio, sendo assim um ser manipulável, especialmente pelos deuses. É um ser
precário, que não pode nada perante a divindade, mas que luta sem cedências pela glória
e excelência, que difere de poema para poema: tem espírito agónico. No caso particular
de Aquiles, é o herói máximo do poema. Fora preparado para praticar nobres feitos em
combate, mas também para conseguir impor-se à Assembleia, através da arte de
persuadir. O ideal da Ilíada não é apenas a coragem no combate, mas inclui já uma
componente intelectual. Na Odisseia, a aretê (conceito grego de excelência, ligado à
noção de cumprimento do propósito ou da função a que o indivíduo se destina) continua
a incluir a força, a coragem e a eloquência, mas o ideal amplia-se: passa a associar,
como é visível através do herói do poema, Ulisses, a astúcia e a habilidade em
desenvencilhar-se, em todos os momentos, das situações mais difíceis.

Nos textos gregos, o adversário é sempre elogiado, principalmente nos textos


épicos, pois era uma desonra lutar contra adversários inferiores (ataque à honra). É um
cultura que tem o herói no centro, é um cultura de vergonha em oposição da cultura de
culpa. Hoje sabemos que o Homem é composto por dois vertentes: somática e psíquica.
Nos poemas homéricos esta divisão ainda não estava definida. Os órgãos são
responsáveis por determinados traços. Por exemplo a força de Aquiles é a força do
braço. O conceito da força integral e global não existe. Todos os sentimentos faculdades
intelectuais são físicos. Esses sentimentos também podem ser externos. Quando o herói
tem um desvario momentâneo, o chamado Atê, é enviado por Zeus. Há a noção de que
o Homem tem uma parte de si que sobrevive à morte do corpo, a psique, que é um
sopro. O Homem quando morre perde esse sopro que sai do corpo, depois da morte vão
todos para Hades. Não temos a concepção do Além como local de felicidade, não temos
a separação entre os campos Eliseus e o Tártaro. Nesta altura, o Além é um mundo
de infelicidade para todos, até Aquiles estava a infeliz lá, sem recompensa
ou felicidade. 

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A mundividência da Ilíada e da Odisseia

A Ilíada e Odisseia, que se acredita que tenham sido escritas em meados do século
VIII a.C., remontam para acontecimentos passados em 1100 a.C., nomeadamente a
Guerra de Troia e o regresso da mesma. Apresentam semelhanças quer na linguagem
quer nos conceitos éticos, normas de convívio social e respeito pelos suplicantes e
hospedes.

Heitor e Páris, príncipes de Troia, vão numa expedição a Esparta e ficam alojados
no palácio de Menelau e Helena. Páris e Helena apaixonam-se e fogem para Troia (Páris
não respeita a Hospitalidade que lhe foi prestada por Menelau). Revoltados, juntam-se
os reis gregos, chefiados por Agamémnon (o rei mais rico), a fim de travar uma Guerra
com Troia. Acredita-se que a principal causa da guerra com Troia foi a sua posição
geoestratégica, que servia de barreira protetora à Grécia, pondo de parte a ideia de que a
guerra se iniciou por causa de uma mulher.

Na Ilíada vai estar presente, sendo este o tema principal, a história de duas
cóleras, ambas pertencentes a Aquiles. A primeira cólera de Aquiles é contra
Agamémnon, quando este lhe tenta tirar a sua escrava, Briseida. A segunda cólera de
Aquiles é contra Heitor, príncipe de Troia, quando este mata o seu companheiro de
guerra, Pátroclo.

Se por um lado a Ilíada conta a cólera, a Odisseia tem como tema principal o
Homem e a sua inteligência. Inicia-se com Telémaco, filho de Ulisses, onde este reúne
Assembleia para conseguir apoios para ir em busca de notícias do seu pai, e é nesta parte
do poema que se sabe o desfecho da Guerra de Troia, através do encontro entre
Telémaco e Menelau, na Lacedemónia. Conta-nos a história do regresso de Ulisses e dos
seus homens ao reino de Ítaca, e a forma como estes escapam, com inteligência e astúcia
(particularmente de Ulisses), aos obstáculos que lhes vão aparecendo no caminho.

Os deuses, na Ilíada e na Odisseia são indicadores do estado da civilização.


Apesar de serem os mesmos, apresentam características distintas: na Ilíada há vestígios
de teriomorfismo – formas de animais – “Atena, de olhos de coruja”/”Hera de olhos de
vaca”, contudo os deuses continuam a ser antropomórficos. Na Odisseia têm formas de
humanos, são mais belos, mais altos e brilham. Os Deuses distinguem-se pela

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superlativação aos homens (aretê e timê). São também diferentes dos Homens na
imortalidade: são imortais (nascem e morrem), e não eternos (não têm início nem fim).

A Ilíada estão mais próximos dos homens e na Odisseia assiste-se a um maior


distanciamento. Na Ilíada misturam-se facilmente com os homens, descem à terra,
participam nas batalhas e são reconhecidos pelos homens. Os deuses estão de tal forma
perto dos homens, que, no canto II da Ilíada, caracterizado pela teomaquia – combate
entre deuses, Ares e Afrodite são feridos em combate. Não sangram (não têm sangue,
têm icor).

Na Ilíada, os consílios dos deuses são extremamente turbulentos: todos gritam e se


ofendem. Até Zeus, que preside os consílios tem dificuldade em manter a sua posição.
Estamos perante uma conceção muito precária da divindade. Os Deuses não seguem
regras de conduta moral: se tiverem que enganar os homens, e mesmo uns aos outros,
enganam.

Há dois elementos de caráter moral: Zeus castiga os que juram em falso e os


crimes contra a hospitalidade. Entre o hóspede e o hospedeiro surgia um vínculo tão
forte que era quase família, que passava de geração e geração. Em caso de combate, se
os guerreiros soubessem que os antepassados tinham tido um vínculo de hospedagem,
tinham que parar imediatamente o combate. Antes do combate, apresentavam sempre a
sua família e os seus mortos em combate.

Na Odisseia regista-se uma evolução, nomeadamente a questão comportamental: o


consílio dos deuses é mais ordeiro e há mais respeito. A palavra de Zeus é respeitada. O
modo de intervenção divina também é diferente, estando os Deuses mais distantes: ou
aparecem em sonhos, ou aparecem disfarçados.

Aparecem os conceitos correlativos de culpa-castigo, exemplificando: quando a


tripulação de Ulisses come as vacas sagradas do deus Sol, Ulisses não as come e é o
único que regressa a casa. Pela primeira vez aparece o conceito de justiça, que mais não
é do que mostrar piedade (respeito) aos deuses. Na Ilíada, o Olimpo é uma montanha
escarpada e cheia de neve. Na Odisseia é a eterna e segura mansão dos deuses, onde
nunca chove nem neva.

O homem equacionava a vida numa perspetiva determinista, como dependentes do


destino. O sentido da vida para além da morte é sempre negativo, não há conceção de
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felicidade. “É melhor ser um escravo no mundo dos vivos, do que um rei no mundo dos
mortos” – Aquiles. Também nos poemas homéricos, o homem não apresenta uma
personalidade somática. As características emocionais e intelectuais são atribuídas a
órgãos e membros do corpo humano.

Aquiles representa o herói individual e Heitor representa o herói coletivo. O maior


medo de um guerreiro era cair em vergonha (ex. abandonar o campo de batalha). Tanto
na Ilíada como na Odisseia, o que o herói mais teme é a vergonha, e não a culpa. Nos
poemas homéricos diz-se que estamos perante uma cultura de vergonha.

Os heróis da Ilíada e da Odisseia

Aquiles, o herói modelo, nobre e valente, mas impulsivo.

Heitor, do lado troiano, de grandeza heroica e humana. Modelo de filho, de


marido, de pai e de cidadão. Luta pelo seu país e pela sua família, não apenas para
alcançar a honra pessoal, como Aquiles. (esta forma de tratamento do herói máximo da
fação inimiga é a mais antiga forma da imparcialidade, até mesmo da superioridade
moral grega). Com Heitor acontece um dos episódios mais familiares e pacíficos da
Ilíada, quando se vai despedir da sua mulher e do seu filho pequeno, antes daquela que
seria a sua última luta (acontece com Aquiles).

Ulisses, o guerreiro valente e o homem prudente e avisado, escolhido para as


missões delicadas, como a de restituir Criseida ao seu pai e a de chefiar a embaixada de
Aquiles. A sua sensatez é, por vezes, comparada à de Zeus.

Agamémnon, o comandante supremo da expedição, arrogante, prepotente, mas


pronto a retratar-se quando errou.

Menelau, o causador da expedição. Embora lhe caiba um só canto para contar os


seus feitos de armas, no começo do canto VII, os outros Aqueus julgam-no incapaz de
se medir com Heitor. Apaga-se com frequência, na sua submissão à vontade de
Agamémnon.

Páris, embora seja capaz de se bater em duelo com Menelau, é um tanto efeminado
e acolhe-se de preferência à proteção das paredes do seu quarto.

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Ájax, o guerreiro forte e persistente, mas que só vale pela força física; o próprio
escudo que trás, “alto como uma torre”, o singulariza como um homem de armas
primitivo. É o “baluarte dos Aqueus”, que caminha para a luta com um sorriso no rosto
aterrorizador.

Diomedes ataca os troianos na falta de Aquiles, cavalheiresco, forte no combate e


o melhor da sua idade no conselho. É o herói que ousa medir-se com os deuses.

Pátroclo amigo fidelíssimo de Aquiles, que se revela um valente contendor no


canto que tem o seu nome, apreciado por todos, pela sua bondade e doçura.

Rei Príamo, digno e respeitado, é convocado como garantia dos juramentos que
precedem o combate entre Páris e Menelau. Sofre a dupla tragédia, como pai e como
chefe de Estado, de perder Heitor.

Hécuba, mulher de Príamo, que sofre pesadamente com a perda de Heitor

Andrómaca, mulher de Heitor, era-lhe muito dedicada.

Helena, antiga rainha de esparta, que os anciãos de Troia admiram pela sua beleza
divina. Acusada como causa dos males que se vivem em Troia

Historiografia: conceitos e fundamentos teóricos

É o conjunto de géneros e de abordagens, nos quais há uma aproximação à


história. Surge na época arcaica, quando os gregos começam a sedimentar a noção de
consciência histórica, que se verifica, desde logo, nos poemas homéricos, onde está
patente a noção de três grandes divisões temporais (passado, presente e futuro) e do
passar das gerações, sendo estas diferentes umas das outras. Com Hesíodo esta divisão
em gerações é intensificada, tanto na sucessão nos deuses, na Teogonia, como na
criação do mito das cinco idades, nos Trabalhos e Dias.

O conceito vai evoluindo: fazem-se relatos de viagens por mar e de fundações de


cidades, estabelecem-se genealogias, de modo a ligar os heróis do passado às famílias
nobres de então. Com Hecateu de Mileto, além de apresentar explicações racionais de
alguns mitos, dá a cada geração um âmbito de quarenta anos e cria uma cronologia.

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Já com Heródoto, este tem consciência de que a História, além de imparcial, deve
perpetuar o passado, exaltar os feitos gloriosos e encontrar as causas dos eventos.

História e literatura

As guerras persas: Os Persas de Ésquilo e as Histórias de Heródoto

Heródoto, na composição das suas Histórias utiliza fontes orais, escritas e


arqueológicas, privilegiando a sua observação pessoal ou a informação de quem
presenciou os factos (para além de ler, pesquisa e viaja). Neste autor é muito importante
ter em atenção o prólogo, onde este descreve aquilo que se propõe a contar e o modo
como o vai fazer (a sua historiografia), bem como o seu objetivo que é evitar que os
vestígios das ações praticadas pelos gregos se apagassem com o tempo e que as grandes
e maravilhosas explorações dos gregos, assim como bárbaras, permanecessem
ignoradas. Desejava ainda, sobretudo, expor os motivos que os levaram a fazer guerra
uns aos outros. 

É considerado o primeiro texto historiográfico porque tem um método . A base de


análise pra Heródoto era apsis avoe (o que ele vê, e o que ele ouve). Ele define o
sentido de investigação com os olhos e ouvidos, (opis – visão, onde nos trás a descrição
de monumentos, artefactos, dos costumes dos povos estrangeiros, elementos climáticos,
geográficos. E akoe – audição, aquilo que ouve, as informações que obtém ao longo das
suas viagens, os relatos, histórias e histórias mitológicas).

Se não consegue colher informações, não recusa a tradição, mas nunca deixa de
lhe aplicar reflexão. Tenta sempre obter informação de pessoas fiáveis. Contrasta
versões de povos, sobre diferentes factos, para emitir sobre eles um julgamento. Com
Heródoto estamos ainda no plano da subjetividade, pois é o julgamento dele sobre
matérias que não são comprováveis, que vai fazer a sua obra. Heródoto reconhece essas
limitações, muitas vezes diz que não tem a certeza, ou que tem dúvidas. O narrador é
organizador, ou seja, gere a organização do texto. Faz analepses e prolepses para ir
buscar elementos que ocorrem noutras cidades ao mesmo tempo. Muitas vezes temos
Heródoto como um historiador omnisciente, em que consegue descrever as dúvidas, as
emoções, as preocupações dos intervenientes. O traço que nos dá a qualidade das fontes
é a avaliação que ele faz a essas fontes, duvidando às vezes delas. Ele conversa como

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avaliar essas fontes, por isso é que ele viajou muito, não usando apenas
a perspectiva grega. Ele utiliza métodos da vista e da audição, mas é a análise que
caracteriza a sua obra como historiografia. É no fundo é esta a inovação que Herótodo
vai trazer para a historiografia, a sua preocupação em avaliar a veracidade das suas
fontes, admitindo que o seu método te limitações.

O conceito de história em Heródoto não dizia respeito apenas ao passado, mas sim
à forma como se fazia esse estudo. Ele não vai relatar apenas tudo o que ouve, pelo
contrário vai investigar. O que implica ver, ouvir e julgar essas informações. É isto que
quer dizer história em Heródoto. Deste modo, Heródoto fica conhecido como o pai da
história. Ele quer descrever aquilo que qualquer historiador ambiciona: não só as
guerras, mas também as suas causas (aitia = causa). O discurso historiográfico começa a
formar-se. Pela primeira vez há um escritor que nos vai dizer que para fazer história é
necessário arranjar as causas de determinando acontecimento. Sem elas, não pode haver
corpo historiográfico. Vai nos dar a guerra dos persas, indo até às causas. Fala-nos da
política expansionista dos persas, da sua relação com outros povos, etc

Dario, pai de Xerxes, quer invadir a Grécia porque havia Cidades de Estado de
cultura grega que eram cidades clientes para os persas. Mas por um ímpeto nacionalista,
os atenienses convenceram as essas cidades a acabar com essa relação com os persas.
Atenas começa a fomentar revoltas nessas cidades. Dario organiza expedições políticas
para ver o que se passava. A guerra começa por um golpe político de Atenas, pois da
parte grega viu-se essa expedição de Dario um atentado à sua liberdade.

A liberdade para os gregos era apenas a liberdade de um povo decidir como se


governar. Isto era o valor mais alto em termos culturais e políticos dos gregos. Por isso
a imposição de uma soberania estrangeira foi algo extremamente inadmissível. Entre as
Cidades Estado havia um laço cultural, isso era ter a mesma língua e cultura. Quem não
tivesse isso era bárbaro, e ao contrário dos romanos que davam a cidadania, com os
gregos isso nunca aconteceu. Liberdade é serem os gregos a decidir a sua constituição.
Não havia liberdade individual. A invasão de Xerxes e Dario vai ser vista como uma
limitação à sua liberdade de se organizar e a intervenção de um pais estrangeiro na sua
constituição é inadmissível.

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O elemento de interpretação mais forte entre os gregos são os mitos. Para eles os
mitos eram explicativos. Dois séculos antes (de Heródoto) ainda permaneciam como a
explicação de factos reais. E é aí que Heródoto vai intervir seriamente, tornando-se no
primeiro autor a fazer a separação entre mito e história. Essa separação já estava latente,
e ele vai confirmá-la.

Em conclusão, a pesquisa herodotodiana, envolve visão, audição e julgamento,


sendo que este julgamento para Heródoto passa pelo questionamento dos informadores.
Assim, admite aquilo que é lendário, mas distingue-o daquilo que é real, assumindo uma
posição cética e racional. Acredita na intervenção da divindade na história e considera o
homem um ser precário e sujeito à mutabilidade.

Heródoto recolheu várias fontes. A fonte mais importante para a invasão persa é a
obra Os persas, de Ésquilo. Ésquilo era considerado uma fonte privilegiada pois ele
combateu na Batalha de Salamina e acabou por escrever sobre essa batalha.
Evidentemente, Heródoto vai lê-o e vai transpô-lo.

As guerras medo-persas

A partir do século VI, fora do espaço grego, começa a desenhar-se um grande


opositor: os persas. Aos poucos o exército persa vai avançando, onde uma sucessão de
vários reis empreende uma política de conquistas territoriais, que vai fazer do império
persa uma das maiores potências até ao fim do império romano. Essa expansão persa irá
avançar até aquilo que hoje em dia é o território da Turquia.

Do outro lado do Mar Egeu, o Império Persa começa a avançar pela Turquia,
conquistando a Babilónia e a Líbia, e pondo em causa a estabilidade das colónias
gregas, que, a partir de meados 499 a.C. pedem ajuda às metrópoles e a outras cidades-
estado (primeira fase do conflito medo-persa). Em 494 a.C., Mileto resolve revoltar-se,
com o auxílio ateniense, contra o domínio persa.

Dario, rei da Pérsia, em jeito de punição, envia o seu exército para a Grécia
continental, iniciando-se assim as Guerras Medo-Persas, com a tomada de Bizâncio, em
492 a.C., cortando a comunicação dos gregos para o Mar Egeu. Ainda nesse ano, o
exército persa segue para norte do território grego, Trácia e Macedónia, sem grande
oposição, pois Atenas e Esparta não se conseguiam entender.

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Em 490 a.C., os persas desembarcam em Maratona (Ática). O Conselho solicita a


ajuda de Esparta, que lhe é negada. Deste modo, Milcíades, só com o apoio de platenses
vai enfrentar, com uma grande desvantagem numérica, o exército persa. Estacionou as
suas tropas nas planícies de Maratona, entre o mar e a montanha, e aproveitou o facto de
os persas terem retirado parte do seu exército, para atacar Atenas, para atacá-los,
obrigando-os a retroceder aos barcos.

O exército persa, agora com o rei Xerxes, avança para a Grécia central. Forma-se
uma aliança entre as cidades-estado, comandada pelo rei espartano Leónidas e 7 000
soldados gregos. Em 480 a.C., é escolhido o desfiladeiro das Termópilas como campo
de batalha, devido à sua vantagem geográfica. Os gregos ganham batalhas atrás de
batalhas, vencendo até os “imortais”. Efialtes desertou para o lado persa e informou da
passagem alternativa no desfiladeiro, o que leva à derrota dos gregos. Leónidas dispensa
os restantes soldados gregos, e luta apenas com os seus 300 espartanos para retardar o
avanço persa, contudo não saem bem-sucedidos e o exército persa avança, conquistando
cada vez mais território. Atenas é completamente destruída.

A frota grega é obrigada a refugiar-se em Salamina. O general Temístocles atrai os


persas para o estreito que separa Ática de Salamina, onde ocorre um combate naval
(Batalha de Salamina, em 479 a.C.), com a vitória para Temístocles, graças aos seus 200
trirremes (barcos extremamente velozes). Quase em simultâneo, os persas sofrem outra
derrota em território grego, na Batalha de Plateia, sendo esta a primeira vez que Esparta
e Atenas estão a lutar juntas.

As Guerras Medo-Persas serviram para mostrar aos gregos que se estivessem


unidos, seriam muitos mais fortes. Atenas foi reconstruída e tornou-se uma cidade-
estado muito importante, construindo-se o Pártenon, em honra de Atena, por terem
ganho a guerra.

Passando para a questão da guerra. A obra de Heródoto não é assim tão


importante pelos factos que contém, mas mais importante é o facto de a obra nos dar um
plano nas mentalidades. Porque ele vai ter considerações sobre os gregos, o que os
move e isso tudo. Vai nos explicar porque os gregos vencem aquela guerra.

Ele vai falar do carácter grego através de discursos (inventados) para expressar
valores. Um dos discursos mais importantes é na Pérsia, questionando qual é o melhor

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sistema político. A circunstância é ficcional, mas é importante para ver a mentalidade


do povo grego.

Os Persas, de Ésquilo

Os três grandes poetas trágicos eram Ésquilo (combateu na Batalha de Salamina),


Eurípedes (nasceu no dia da batalha de Salamina) e Sófocles (participou nos coros que cantaram
após a batalha de Salamina). São pessoas de gerações seguidas.
A tragédia vai expor os grandes problemas da vida humana. Problemas com os
deuses, a justiça, o amor, a guerra. Com a tragédia, vamos assistir à queda de grandes
homens. Vamos encontrar personagens que ao longo da sua vida se vão deparar com
alguma circunstância ou algum acaso, que vão interpretar de forma errada e que os vai
fazer cair.

A tragédia de Ésquilo é a única tragédia de tema histórico, todas as outras são de


cariz mitológico. Um escritor de uma tragédia não é um escritor de historiografia.

Ésquilo conta-nos a história a partir do lado dos vencidos, e vai pegar na corte
persa, a seguir à derrota de Salamina, funcionando como um contrapeso da vitória da
Grécia. Quanto maior a derrota do inimigo, maior a vitória do outro.

Há na peça um conjunto de nomes, de cidades, de guerreiros persas, cujos nomes


são completamente estranhos ao povo grego. Do lado grego, nenhum nome é dito: falase
em Atenas, fala-se em algumas cidades, mas nenhum nome é dito. Há uma noção de
totalidade, comunidade, união. Os gregos tradicionalmente vivem em cidades-estado,
mas face ao inimigo há uma união e uma mínima noção de “país”. Na Grécia, isto
acontece pela primeira vez: há um inimigo e a necessidade de união para o combater.

Outro elemento no texto de Ésquilo é o elemento teológico. Os deuses acham que


a causa da Grécia é uma causa justa e vão estar a seu favor. Para poder fazer a guerra,
Xerxes vai destruir uma barreira natural: a ponte sobre o Helesponto, a ponte que separa
a Ásia da Europa. E assim, vai ser alvo de retaliação divina. Além disso, há outro
elemento ligado com este, presente no texto. Na mentalidade grega, tudo aquilo que os
deuses quiseram separado, não deve ser unido.

Ele não entende a derrota como um resultado de embate de tropas. Zeus castigou
Xerxes porque este cometeu Hybris (excesso). A cultura grega orienta-se pelo valor
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contrário, medem agan (nada em excesso), o Homem deve ser médio, deve pautar-se
por seguir uma linha direita sem excessos. Os seus excessos são o grande exército. Mas
principalmente porque Xerxes para invadir a Grécia faz uma ponte no Helesporto, unir
dois continente que os deuses fizeram separados é uma sacralização absoluta, ele quer
fazer revogar a vontade dos deuses (e isso é Hybris. Um Homem que quer ser senhor de
todo o mundo conhecido comete Hybris. Depois foi a destruição de templos. Estamos
perante a percepção religiosa e tradicional e não histórica.

Esta concepção da derrota por Heródoto é tradicional, ele está a aplicar um


pensamento moral e religioso a um facto histórico. Mas há diferenças entre Ésquilo com
a reação de Xerxes. No caminho de regresso à Pérsia, com desgraças, o exército é
dizimado, a sua elite é chacinada, na fuga passam um rio gelado que se parte, depois são
apanhados pela fome e peste. O Heródoto vai cantar um final mais histórico, ele não
foge, os aliados do rei sentem preocupação pela sobrevivência política do monarca e
recomendam que ele retorne (não fugiu) à Pérsia com 60 mil homens. Não passou
nenhum rio gelado, ou grandes dificuldades. Deste pontes de vista é mais
historiográfico, afasta-se da explicação poética.

Para os Persas a guerra não foi nada de especial e arrasaram a Grécia. Outra
diferença tem a ver com a caracterização do próprio Xerxes. Em Ésquilo ele é um
homem que atua por impulso e entra numa empresa em que só podia sair derrotado. Em
Heródoto, ele é jovem e inexperiente, ele não quer invadir a Grécia mas
maus conselheiros levam-no a fazer isso. Ele tem sonhos que o alertam, mas porque os
seus conselheiros-mor querem invadir a Grécia por causas pessoais, ele é obrigado a
invadir. Outra diferença é a caracterização que Ésquilo e Heródoto fazem do pai de
Xerxes. Ele chama ao filho insensato e uma loucura à invasão da Grécia e dá concelhos
à mulher. Na historiografia Dário não era tão sensato assim, tendo invadido a Grécia
primeiro. Mas Ésquilo torna-o numa figura trágica, para ter algo com que contrastar
com Xerxes, vendo-o como um velho sábio.

Na Grécia antiga, o conceito de liberdade era apenas poder escolher a forma de


governo de cada cidade-estado. Não tem nada a ver com a liberdade cada um.

Dario aparece na peça, o seu fantasma, a retaliar Xerxes, a dizer que tudo o que ele
fez foi a desgraça da Pérsia.

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Estamos na presença de um palácio grandioso, tal como a Pérsia em geral, de um


ambiente extremamente sofisticado… os trajes das personagens são descritos como
muito ornados e muito aparatosos, ao contrário da Grécia, onde os trajes eram
extremamente simples.
No sonho da rainha Atossa, mãe de Xerxes: há duas mulheres: uma vestida à grega
e outra vestida à persa, que lutam entre si e o seu filho queria submetê-las às duas sob o
seu comando. A mulher persa aceita e mulher grega não. Quando lhe cortam a liberdade,
ela luta. Temos um presságio de que a Grécia vai ganhar a guerra. A rainha vê também
uma águia (símbolo da Pérsia) que estava a ser comida, sem oferecer resistência, por um
falcão (símbolo da Grécia). A rainha considera, desde o primeiro momento, que a guerra
é irracional.

A Grécia não tem um grande exército, contudo tem um exército que é capaz de
oferecer resistência.

A rainha pergunta se eles têm riquezas em casa, caracteriza a mentalidade da


persa, na acumulação riqueza individual. E recebe uma resposta política: têm minas de
prata. A riqueza grega não se faz da riqueza individual, mas sim da riqueza coletiva.
Depois pergunta: usam a seta e o arco. Não, é uma lança, que simboliza a honra. Para os
gregos o arco e a flecha eram armas de covardes. Os gregos lutam corpo a corpo. E
pergunta ainda que chefe os dirige e comanda o exército? Eles não são escravos, nem
súbditos de ninguém. Aqui está a noção de isonomia, igualdade perante a lei. Tinham
todos os mesmos direitos e igualdade perante a lei.

Para a Pérsia, o facto de não haver chefe, era uma anarquia. Não haviam ninguém
para seguir, era o caos. Depois disto, a peça evolui rapidamente. Aparece um
mensageiro que nos vai contar a batalha de Salamina. Os persas perdem a batalha de
Salamina e os que se conseguem salvar vão refugiar-se na ilha de Psitália. Os gregos
estavam lá à espera deles e massacraram a juventude persa.

Xerxes é descrito como um rei jovem, inexperiente, que age sem as qualidades de
um rei (na visão dos gregos): eubolia - sensatez. E Dario vem novamente falar no
elemento divino. Onde os deuses o castigam pela sua falta de sensatez.

Os persas não tinham interesse nenhum da Grécia. Mais do que uma expedição
expansionista foi uma expedição punitiva. A Grécia era um país extremamente pobre, os

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persas já dominavam grande parte da Ásia, onde se concentravam as maiores riquezas,


não queriam saber da Grécia para nada.
Xerxes é castigado pela sua insensatez: ponte para a Grécia – hybris. A Pérsia é
também castigada por ter crescido de mais. E os homens, quando crescem demais,
despertam a inveja dos deuses.

No final, restam os lamentos – commos. Aparece-nos um Xerxes na corte persa,


completamente esfarrapado. Lamenta-se, chora e assume a responsabilidade.

Muito do que Ésquilo conta é história, mas foge à história quando envolve os
deuses. A retirada persa não foi imediata. Passado um ano ainda houve batalhas: Plateias
e Micales. Xerxes não retirou sozinho, levou milhares de homens com ele, a pedido dos
seus conselheiros.

Duas das omissões que Ésquilo faz é não mencionar que quem iniciou a batalha
com a jónia foram os gregos, e quando arrasaram a cidade de sardes, principalmente os
templos (ou seja, os gregos também foram excessivos). Omite também o facto de ter
sido Dario a iniciar as campanhas de expansão para a Grécia, apresentando-o como um
rei sensato.

As guerras do Peloponeso: o testemunho de Tucídides

No mundo grego houve sempre uma oposição entre Esparta (caracterizada pela
monarquia, combate terrestre e força física) e Atenas (descrita pela força naval,
democracia e força psicológica). Duas potências que funcionavam como satélites, tendo
relações privilegiadas com outras cidades.

Atenas reforça-se antes das guerras Medo-Persas, construindo uma frota poderosa
e formando a Liga de Delos, que tinha como principal objetivo precaverem-se contra
possíveis investidas persas, estando a hegemonia ateniense associada ao seu
desempenho aquando das guerras Medo-Persas. Esta agrupava cidades, em grande parte,
de origem iónica e com regimes democráticos. Do lado espartano, havia já a Liga do
Peloponeso, que englobava predominantemente estados dóricos e com regimes
oligárquicos. As guerras Medo-Persas levam o prestígio e o sentimento autocrático a
Atenas, achando-se a primeira potência e Esparta sente-se ameaçada.
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As imposições de Atenas acentuam-se, obrigando os aliados a pagarem cada vez


mais impostos e impedindo-os de sair da Liga. O maior descontentamento foi quando
Atenas confisca o tesouro da Liga para o seu território. Alguns aliados passam para a
Liga do Peloponeso. Atenas entra em guerra com eles, dominando os seus territórios.

Em 445 a.C. fazem uma trégua de trinta anos, em que se comprometem a respeitar
e a não intervir no campo hegemónico de cada uma. Caso haja algum problema escolhe
um árbitro neutro para resolver o conflito pela via diplomática.

A partir de 440 a.C. inicia-se a guerra com os aliados, com o massacre de Samos
pelos atenienses. Esta situação repete-se várias vezes e com grande escravatura. As
cidades da Liga são completamente dominadas por Atenas.

A paz não dura mais de dez anos, devido a uma aliança comercial de Atenas com
Córcira (feitoria espartana) e começa realmente a Guerra do Peloponeso, que se pode
dividir em três fases:

-A primeira é de 431 a.C. a 421 a.C., em que há vários ataques, até que Esparta
invade Atenas em 431 a.C. Em Atenas, Péricles está no poder e vai delinear uma
estratégia defensiva, protegendo a população dentro das muralhas, porém são atacados
por uma peste, na qual morre o próprio Péricles. Criam-se duas fações em Atenas: em
volta de Nícias, que queriam uma abordagem defensiva, e Cléon, que queria um ataque
destruídos. Sobe ao poder Cléon. As batalhas seguintes não geram vencedores nem
vencidos, e Cléon assina uma trégua, de cinquenta anos, com Esparta.

-A segunda é de 415 a.C. a 413 a.C., quando a guerra recomeça. Atenas prepara a
invasão da Sicília, a sua frota é derrotada e o General Alcibíades é exilado. Começa
outra luta entre várias fações: os oligarcas (Sócrates e os seus discípulos), que não
querem a guerra por saberem o que vem com ela, e os democratas. A oligarquia ganha,
mas é retirada de cena pelos democratas, reiniciando-se de novo a guerra.

-A terceira é de 412 a.C. a 404 a.C., em que Alcibíades regressa a Atenas e ganha
uma série de batalhas. Esparta pede ajuda à Pérsia e é com o seu ouro que vão
reconstruir o exército e ganhar a guerra. Atenas rende-se em 404 a.C. e estabelece-se a
paz.

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É a ultima guerra que a Grécia vai travar, porque depois do seu fim, vai estar tão
enfraquecida que não vai conseguir fazer frente à potência da macedónia, com Filipe II.

Quem nos conta esta guerra é Tucídides, um historiador muito diferente de


Heródoto. Tucídides é o primeiro grande historiador, e o modelo para a historiografia
posterior, não só pelo conteúdo programático da sua narrativa, as linhas teóricas e
ideológicas que vão orientar a sua obra, para que é que ele escreve e porque é que ele
escreve. Isto vai manter-se na historiografia posterior.

Tucídides é o pai da história pragmática – a história que visa alertar para os erros
do passado para que eles não se voltem a repetir no futuro. É algo que ainda está muito
presente na nossa noção de história. Vai escrever para demonstrar os horrores da guerra,
para que os seus leitores percebam e evitem repetir os mesmos erros. A sua obra não é
uma ata dos acontecimentos. Tem um forte poder de persuasão, para que as gerações
futuras não cometam os mesmos erros.

Os seres humanos têm propensão a acreditar na tradição oral e Tucídides vai


procurar a busca da aleteia (da verdade). É a primeira vez que o conceito de verdade é
adicionado à história, afastando as ideias dos mitógrafos, que se apoiavam em histórias
orais, naquilo que Heródoto definia como parte do seu método: o ouvir, havendo então a
rejeição da akoe. Com Tucídides temos as narrativas orais dos mitógrafos,
completamente afastadas. A tarefa do historiador aparece na cultura ocidental como um
trabalho intelectual que necessita de provas que corroborem o discurso. Tucídides vai
provar tudo o que diz, e para aquilo que não tem provas, não diz nada.

O historiador assume que a sua história é absolutamente contemporânea. Não


consegue averiguar o passado, ou tem dificuldades, pela falta de provas, e o presente é
facilmente verificável. Tucídides vai centrar-se no presente, porque o presente oferece
provas. Tucídides só fala da Grécia. Quando escreve, a guerra esta a acontecer, tem
acesso às atas das reuniões, acesso aos políticos. Tem muito mais facilidade em adquirir
provas para a sua história.

Tucídides tem uma intencionalidade pragmática, entende que ao fazer esta


historiografia está, simultaneamente, a estudar as leis universais do comportamento
humano, ou seja, ele vai descrever a guerra, alertando para o facto de que os homens se
comportam sempre da mesma maneira em situações semelhantes. Um dos episódios da

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obra, o diálogo de Mélios, os habitantes da ilha de melos, que tentam ficar numa posição
neutral na guerra. Atenas não acha graça, invade a ilha e mata todos os homens e
escraviza todas as crianças. Estabelece que as normas e os comportamentos que as
cidades têm quando enfrentam um estado neutral. Isto é condenável, é um erro. Na
mesma forma, a um nível mais básico, ele diz que é impressionante como pessoas que
foram vizinhos e amigos a vida toda, quando estão em conflito denunciam esse mesmo
vizinho. E ao longo da obra são milhares os exemplos que ele dá. Toca também um
pouco na psicologia humana, uma espécie de análise comportamental.

Ele vai operacionalizar tudo isto por meio de dois tipos de técnica narrativa: erga
– descrição de factos e logoi – discurso. É através da conjugação dos dois, que se chega
à verdade, pois ele transcreve os discursos que são feitos, por exemplo em assembleia.
Descreve todas a reuniões tidas em assembleia, ou então narra um facto e comprova-os
com o discurso. Apesar de ser ateniense, vai descrever a guerra, como sendo causada
pelos atenienses, apesar de todas as oportunidades dadas pelos espartanos, a sua
ambição e ganância levaram a melhor.

Estamos numa fase em que os níveis de alfabetização são grandes e é isto que
permite a divulgação da obra. O objetivo da historiografia de Tucídides é que se
mantenha para sempre, para a eternidade.

Temos um modelo novo e historiografia, que se define por uma constante busca
pela verdade, pelo uso dos mecanismos especulativos da retórica que combinam
narração e discurso, erga e logoi. Isto permite-lhe ir além das causas aparentes da
guerra, distinguir as causas aparentes das reais. Aliado a isto, o seu entendimento do
comportamento humano leva-o a escrever uma história pragmática, mas que
simultaneamente capta aquilo que o historiador chama o devir histórico – o processo
histórico, a mudança dos acontecimentos.

Características gerais de Tucídides:

1. Afastamento do mito
2. Busca da alternativa – rejeição da akoe (audição)
3. História contemporânea (conta a história que está a viver)
4. Intencionalidade pragmática
5. Erga + Logoi
6. “Legado para sempre”
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7. Causas aparentes vs causas reais

Platão – evolução da teoria política

Platão, após o julgamento de Sócrates, estava muito descontente com o governo


das cidades, achando-as mal governadas e afirmando a que a solução para este problema
passava pela filosofia. Afirmava que as leis não faziam uma sociedade justa, pois entre
elas e a sua aplicabilidade havia uma grande distância. Assim não é necessário apenas
que a cidade tenha boas leis, leis justas, é necessário também que os seus reis sejam
justos, e para isto propunha-se que os reis fossem filósofos. Segundo a teoria de Platão,
as cidades só seriam justas se fossem governadas por filósofos ou se os filósofos fossem
reis. Assim, no núcleo do seu pensamento político diz que as sociedades devem ser
governadas pelo mais sábio. Segundo ele, as cidades só serão justas quando os reis
forem filósofos.

Platão vai tentar explicar a sua teoria, na sua viagem à Sicília.

A Sicília era governada por tirania, aquele que Platão considerava o melhor
governo. Assim, vai tentar ensinar a sua teoria, preparando filosoficamente o tirano da
Sicília. É expulso da cidade e acaba num barco, vendido como escravo e posteriormente
resgatado. Depois disto, Platão vai fundar a academia: a maior escola filosófica, do
momento, na Antiguidade. A criação de uma escola fez com que os filósofos se
separassem, pela primeira vez, da cidade.

Vinte anos depois, Platão volta à Sicília, agora com outro tirano no poder,
Dionísio, o jovem. O filósofo, já com mais de sessenta anos, fez-se ao mar. Achava que
era uma boa altura para pôr a sua filosofia em prática. Ficou algum tempo na Sicília,
mas acabou por sair sem pôr as suas ideias em prática. Passado algum tempo, Díon, vai
tomar o poder da cidade mais importante da Sicília. Logo a seguir é morto e a sua corte
pede apoio a Platão, sobre o que fazer a seguir.

Platão, adepto da tirania, escreve uma carta onde diz que as cidades devem
abandonar a tirania e que o único modelo que garante a justiça são as leis, contradizendo
a sua teoria, que se alterou pela sua experiência de vida. Assim, passamos da teoria onde
o filósofo deve ser o único a governar (tirania), para uma perspetiva de que as leis são as
únicas pelas quais todos se devem reger.

As obras mais importantes de Platão são: A República e As leis


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Ideologia geral:

Assim, o primeiro objetivo de Platão é eliminar a stásis (conflito) na cidade. E


para Platão o que gera conflito é a competição, o que leva à ambição e avareza e isto por
sua vez leva as cidades à guerra. Para ele a guerra é uma fonte de expansão, por recursos
económicos motivadas pela ambição de ter mais. A política é a entidade superior que vai
harmonizar os elementos conduzindo a sociedade para a harmonia e essa condição pode
ser feita de duas maneiras, com o consentimento dos homens ou à força.

São obras orientadas para a política – a forma como as pessoas se organizam em


sociedade, onde Platão afirma que a política é a arte de criar rebanhos. É a arte de
conduzir a sociedade humana, ou pela força, o com o consentimento dos homens. É a
arte superior da sociedade humana, pois todas as outras lhe estão submetidas. É a única
que tem capacidade de harmonizar todas as artes e resolver todos os conflitos que delas
nasçam. O político é um homem, governante ou não, que tem características próprias
que lhe permite ser o melhor, para estar à frente dos estados – ser sábio.

O princípio do governo é a sophia – sabedoria. Platão advoga um modelo


sofocrático, ou seja, o poder deve ser dado aos sábios e, de entre os sábios, deve ser
escolhido o melhor, que pode governar de qualquer forma, com leis, sem leis, pois um
sábio sabe. Portanto o melhor regime para ele era a tirania, pois um sábio só pode
governar para o bem. Se for escolhido o mais sábio, estará à frente da cidade o homem
mais justo, e o que melhor governa. Para Platão, o bem e a sabedoria andam a par e
passo.

Como é que se chega ao homem sábio? É a abolição da família. É o primeiro


princípio, segundo Platão. Pois para ele, tendo em conta que as elites se reproduzem,
quem fosse filho de famílias aristocráticas, tinha mais possibilidade de chegar ao poder.
Deste modo, a solução apresentada é as crianças serem retiradas aos pais e educadas em
conjunto pelo Estado, sem se saber as suas origens.

Em alternativa à família, propõe a divisão da sociedade em grupos hierarquizados.


Segundo a sua teoria, haveria três núcleos de pessoas: os magistrados, os guerreiros e os
agricultores artífices. Os guerreiros nunca poderiam ser donos de nada, para nunca
terem mais nada para lutar, além de pela sua cidade-estado. Isto não invalida a
mobilidade social, ou seja, não quer dizer que um filho de guerreiro não possa ser

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agricultor, ou um filho de um agricultor um guerreiro. A sua teoria admite também a


igualdade entre os sexos, onde, por exemplo, as mulheres podiam ser guerreiras.

A República

Nesta sua obra, Platão vai discutir os mais variados regimes políticos, tentando
chegar à melhor forma de governo.

Primeiro vem a monarquia, onde diz que é, tradicionalmente, o poder de um só,


mas que, por vezes, também admite a colegialidade, a presença de instituições. O que
Platão não admite é o princípio da hereditariedade, onde o considera um princípio
absolutamente destrutivo da possibilidade de o estado se transformar num estado justo.

A respeito da tirania, diz que é a mais bela forma de governo, porque é a única
que pode transformar-se facilmente numa sofocracia (governo dos sábios), sem o
problema da hereditariedade.

A aristocracia pode dividir-se em oligarquia e timocracia. Das oligarquias,


Platão afirma que se baseiam na propriedade, ou seja, governa quem tem mais terra. Um
dos problemas da oligarquia é que dentro dos pobres, ninguém é escolhido para
governar. Já da Timocracia, afirma que é uma forma degradada de oligarquia, que se
baseia num regime censitário, um regime que é feito por sensos, onde para ter direitos
políticos tinha que se ter determinado número de bens, ou seja, só quem tinha X de bens
é que podia votar. Ele odeia estes dois tipos de governo.

A república é o regime onde há muito o princípio aristodemocrático com as leis.


Ele cria um sistema misto em que há eleições, mas só se eleger entre os grupos dos
melhores.

Por fim, da democracia, afirma que é o governo da multidão, do povo, o que ele
reprova completamente. É aquele regime que é mais criticado, por questões filosóficas e
sociológicas. Foi o povo que aprovou a execução de Sócrates, no seu julgamento.
Critica também o facto de só os ricos chegarem ao poder, tornando-se cada vez mais
ricos, espoliando os mais pobres, até ao dia em que estes se revoltam e começam a
stazis – o conflito entre cidades. Ele afirma que a democracia, tal como todos os
regimes, pode escolher constituições múltiplas. Mas normalmente todas estas
constituições são fracas, porque tendem a resvalar para a liberdade sem lei e autoridade
reconhecida.
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As leis

Platão vai propor um modelo de sociedade um pouco distinto. Ele acaba com os
grupos funcionais (legisladores, magistrados, guerreiros e camponeses) e vai propor um
modelo de sociedade organizada em quatro classes censitárias, ou seja, pelo património,
realçando que a pobreza e a riqueza não podia exceder determinados limites. Era uma
forma de equilibrar estas classes. Temos na mesma uma cidade de tipo comunitário,
igualmente regida para o bem, mas já como uma organização politica e económica
flexibilizada. É por isso que Platão, n’As Leis, repugna a sociedade aristocrática.

Alexandre – Grécia antes de Filipe II e ideologia do pan-helenismo

O próximo período grego será denominado de período helenístico, que se firma a


partir da conquista da Grécia por Alexandre da Macedónia.

Aristóteles é o grande nome que vai emergir do quadro dos discípulos de Platão.
Era macedónio e foi enviado para Atenas para estudar na academia de Platão e vai ser
uma personagem fundamental no movimento de aproximação da Macedónia à Grécia.
Vai para Atenas com apenas 17 anos e, quando Filipe II da Macedónia toma Olinto, que
tinha o apoio de Atenas, regressa para a Macedónia, pois sempre se suspeitou que ele
era um espião.

O poder da cidade de Atenas é tomado por Demóstenes, considerado o maior


orador da Grécia, completamente anti-Macedónia e que defende acerrimamente a tortura
de todos os homens que espiaram em território grego, a favor da Macedónia. Aristóteles
só regressa à Grécia depois da derrota do partido de Demóstenes, em 334 a.C., sendo
esta época, que se segue, muito produtiva do ponto de vista da teorização política, onde
o filósofo estuda, especialmente, constituições, vigentes e não vigentes, e vai teorizar
sobre política.

Aristóteles diz-nos que a cidade é a sociedade perfeita, pois é autossuficiente e,


portanto, o Homem é um animal político, cívico, que tem que se organizar em
sociedade, sendo este o primeiro princípio da política: todo o Homem é político, não há
homens apolíticos. A política é a ciência que leva o homem a viver bem, o que não
equivale a ter bens materiais. Aristóteles defende que o Homem precisa de se despojar
dos bens materiais, para se agarrar aquilo que lhe trás realmente felicidade, ou seja, à
virtude e à justiça. Tal como Platão, vai dissertar sobre todos os regimes políticos,
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seguindo mais ou menos a sua opinião, defendendo que cada cidade deve ser livre de
escolher o regime que mais lhe convier, afirmando que a mesma constituição não
interessa a todas as cidades. Em algumas cidades é melhor a democracia, noutras a
tirania. Afirma também que a mesma constituição não se deve manter durante muito
tempo, deve ser adaptada ao tempo em que se vive. Defendia também a politeia (mistura
entre democracia e oligarquia) como o meio justo entre as duas perversões opostas. Por
um lado, temos o poder de muitos, a democracia, quando há muitas vozes pode
escolher-se melhor, e o poder de poucos, a oligarquia, que, funcionando como árbitros,
podem controlar melhor a situação.

A ideologia do pan-helenismo

Com o fim da guerra do Peloponeso, a morte de Platão e o enfraquecimento total


da Grécia, a espectativa de uma recuperação estava perdida, principalmente em Atenas.

É neste quadro que vai surgir uma corrente ideológica, a que podemos chamar de
Panhelenismo, uma corrente ideológica, que visa a união da Grécia.

As duas formas para criar um pan-helenismo era ter um inimigo em comum. Se


houvesse um inimigo em comum, seria mais fácil haver uma união e lutar contra ele. A
outra opção era através da presença de um Hégemon, que conseguisse unir a Grécia em
torno dele, Filipe ou Alexandre da Macedónia, por exemplo.

A Grécia continuava destruída e ainda havia o preconceito contra aqueles que não
nasceram gregos, nomeadamente os macedónios. A Pérsia continuava um grande
império, e este vai ser o inimigo em comum entre a Grécia e a Macedónia. Na
impossibilidade de se arranjar um Hégemon grego, devido ao esgotamento que existia
nas cidades, começou a ver-se Filipe da Macedónia como um possível candidato ao
cargo. Assim, formam-se duas fações em defesa do pan-helenismo:

Demóstenes – que passa a ver Filipe como o maior inimigo da Grécia. Deixa de
ser a Pérsia e passa a ser Filipe o principal alvo a combater. Demóstenes pretendia uma
união da Grécia contra a Macedónia. Era anti-Macedónia.

Isócrates – opõe-se à teoria anterior e é a favor da união da Grécia e da Macedónia.

Como Demóstenes vence, Filipe toma a Grécia, mas toma-a como um plano. Não
a toma apenas pela conquista, mas com o intuito de se tornar um Hégemon porque

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precisa de tropas para invadir a Ásia. Filipe morre em 336 a.C. e a sua expansão
continua nas mãos de Alexandre.

Alexandre, ao contrário do que se pensa, não foi apenas um general. Foi também
um político extremamente importante. Vai ser o chefe que mais partido vai tirar desta
ideologia. Vai formar-se como chefe da Grécia, e começa por fazer um conjunto de
ações que, de certa forma, o iam legitimar como Hégemon. Primeiro escreveu à Grécia a
dizer que todas as cidades subjugadas, ou seja, que estavam sob uma tirania, eram livres
de se regerem por si próprias. Eram livres de escolher a sua constituição. Depois
reconstitui a cidade de Plateia, que estava completamente destruída. Devolveu os
despojos, os saques, retirados das cidades, a arte, as peças de ouro.

Os persas tinham saqueado dezenas de objetos que estavam guardados em cidades


que foram conquistadas por Alexandre. Grande parte desse espólio foi devolvido à
Grécia. As cidades da Ásia menor também foram libertadas do domínio persa, estes
fatores fazem com que Alexandre se torne mesmo um Hégemon. Portanto, quando
Alexandre parte para a conquista da Ásia fá-lo não só para conquistar território, mas
para expandir os valores da Grécia.

Alexandre tem como ideologia helenizar o mundo, mas à medida que foi fazendo
essas conquistas, optou por umas ideologias mais conciliatórias, a Grécia partilhava da
visão de que os gregos eram superiores aos bárbaros. Vai tentar uma fusão de culturas: a
cultura grega com as culturas orientais.

 Distribuiu cargos administrativos, não só a macedónios, mas também a


persas. Deu lugares na administração a persas também, algo inédito.
Permitiu que Ada de Halicarnasso o adotasse como filho.
 No plano formal, Alexandre vai adotar hábitos da indumentária e do
protocolo persa, a PROSKYNESIS, onde Alexandre vai impor que, como
parte do protocolo os seus súbditos passem a deitar-se perante si, como
forma de respeito. Política de casamentos mistos, visava criar uma nova
geração de governantes, e que se fundissem dois grupos étnicos que
tradicionalmente eram inimigos. Criação de novas cidades que permitiram
fixar populações nómadas, que eram potencialmente perigosas, num
espaço multicultural. A fusão dos gregos e dos egípcios levou à criação de
novos deuses: Osíris que passa a Serápis, por exemplo.
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 Ensinou grego aos nativos bem como as táticas militares gregas, ou seja,
instituiu um sistema central de educação destinado a instruir promissores
quadros orientais quer na língua, quer na arte militar dos vencedores.

Toda a tentativa para fundir as culturas, as civilizações, foi um fracasso político


imediato. Evidentemente, os seus generais não ficaram agradados com o abandono das
tradições macedónicas, com a entrega de cargos importantes aos persas, com o crescente
autoritarismo de Alexandre, com a adoção dos hábitos orientais, nomeadamente a
proskynesis, com o facto de Alexandre se ter passado a considerar filho do deus Ámon,
entre outros fatores. Portanto, falhou. Vem de uma política pan-helénica, levar os
valores da Grécia para todo o lado, mas o que acaba por fazer é uma política de fusão.
Alexandre morre e esta política morre com ele. Mas, se tudo isto foi um fracasso do
ponto de vista político, não foi um fracasso do ponto de vista cultural. Porque a época
helenística que vai surgir, é uma época que, ao contrário da Grécia que era fechada,
centrada na polis, a época helenística vai aparecer como uma época kosmopolis, onde as
cidades estão todas ligadas entre si. Uma época que se opõe ao conceito de cultura
fechada da Grécia.
Os valores mais importantes da kosmopolis são a partilha e a concórdia. É a
primeira tentativa de globalização. A partir daqui as coisas começam a estar mais
integradas. Este foi o grande contributo cultural de Alexandre: quebrar barreiras.

A Cultura Helenística

O Helenismo deve ser entendido como um estilo autónomo, cujos princípios


estéticos resultaram da fusão da racional e rígida arte grega com as intuitivas e
altamente criativas manifestações artísticas dos outros povos integrados no império.

Perdendo o carácter unitário e homogéneo da arte clássica, o Helenismo diluiu-se


em inúmeras expressões diferentes, localizadas nas diversas regiões do império, de entre
as quais se destacam as produções artísticas das ricas cidades da Ásia Menor e do Egito.

A Grécia não era mais o centro cultural do mundo. Os principais centros da cultura
helenística foram Alexandria, no Egito, Antioquia, na Turquia, e Pérgamo, na Ásia
Menor.

A arquitetura helenística manteve o uso das ordens gregas (dórica, jónica) e a


forma canónica do templo, como se verifica nos grandes templos construídos na Ásia

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Menor, que juntavam elementos gregos com orientais, por exemplo na Ásia havia
colunas com Buda representado. O império helenístico teve necessidade de novas
tipologias (ginásios, teatros, grandes palácios e altares monumentais) que respondessem
à vontade de monumentalidade e às novas funções exigidas pela vida cultural e política
do Império. O gosto helenístico pelo conhecimento ditou a constituição de enormes
bibliotecas.

Abandonando o rígido grupo tipológico e o ideal clássico que caracterizou a


estatuária grega, o artista helenístico torna-se mais livre e naturalista. Produz obras de
arte sedutoras e fortemente expressivas, de grande destreza e virtuosismo técnico,
algumas das quais de grande monumentalidade. O seu ecletismo permite-lhe copiar e
fundir de forma livre os estilos do passado.

A "Vitória de Samotrácia" mostra a complexidade e a riqueza plástica transmitida


pela torção do corpo e pelo movimento e agitação dos panejamentos foram algumas das
características fundamentais do estilo helenístico. Outra peça importante deste período,
"O gaulês moribundo demonstra a importância conferida à individualização da
representação, através de um realismo capaz de traduzir emoções fortes.

Se a arte grega caracteriza-se pelo equilíbrio, pela leveza e pelo humanismo, as


artes helenísticas perderam aquelas características e passaram a ser dominadas pelo
realismo exagerado e pelo sensacionalismo. Os artistas helenísticos não se preocupavam
com o belo, mas sim com o grandioso e luxuoso.

No pensamento filosófico surgiram quatro correntes que buscavam explicar a


fórmula da felicidade. São eles: os cínicos, os estóicos e os epicuristas e o
neoplatonismo. Os cínicos gregos consideravam que a virtude era inteiramente
suficiente para o alcance da felicidade, procurando libertarem-se de convenções e das
coisas transitórias, vivendo de acordo com a natureza. Os estóicos e os epicuristas
acreditavam em um individualismo moral; já o neoplatonismo foi o movimento
inspirado pelo pré-socrático Demócrito e Heráclito.

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