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AULA 4 – DIREITOS HUMANOS E SEGURANÇA PÚBLICA

Uso da força pelo Estado

poder de polícia é a imposição coativa aos cidadãos das medidas


adotadas pelo Estado, de modo a buscar a preservação da ordem pública,
admitindo-se o uso da força pela polícia quando aqueles opuserem resistência
ao devido cumprimento da ordem, inclusive aplicando as medidas punitivas
previstas em lei. Assim, a polícia intervém com violência legítima, quando um
cidadão usa a violência para atacar outros cidadãos, de forma a garantir a
tranqüilidade.
Todavia, é sabido que tal poder não é ilimitado. Ora, zelar pela
segurança pública é dever da polícia, como também o é zelar pelo direito do
cidadão de ir e vir e pela integridade física e moral, liberdades públicas estas
garantidas pela Constituição da República e consideradas como limites à
atuação do poder mencionado, o que torna forçoso concluir que o policial só
pode empregar a força quando estritamente necessário e na medida certa ao
cumprimento de seu dever.

A dúvida é quando e como usar a força policial em nome da


proteção da coletividade, a fim de evitar que tal poder-dever se torne arbitrário
e desviado, questões estas que vem sendo estudadas por especialistas e
instituições policiais, os quais se preocupam em traçar protocolos de atuação e
treinar seus componentes para atuarem de acordo com normas de Direitos
Humanos.

No Brasil, não existe uma lei específica que detalha os procedimentos


de uso da força pela polícia, com regras a serem seguidas quando da formação
e treinamento do policial. Há, sim, aspectos gerais que legitimam a força
policial, conforme previsão do art. 23 do Código Penal – CP (BRASIL, 1940):

Código Penal

Art. 23. Não há crime quando o agente pratica o fato:

I – em estado de necessidade;

II – em legítima defesa;

III – em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de


direito.
O próprio Código Penal, em seus artigos 24 e 25, fornece os conceitos
da legítima defesa e do estado de necessidade, descritos a seguir (BRASIL,
1940):

Código Penal

Art. 24. Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para


salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro
modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não
era razoável exigir-se.

Art. 25. Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos


meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou
de outrem.
Quanto ao estrito cumprimento do dever legal, os agentes públicos, no
desempenho de suas atividades, devem agir interferindo na esfera privada dos
cidadãos, exatamente para assegurar o cumprimento da lei. Essa intervenção
redunda em agressão a bens jurídicos como a liberdade, o patrimônio, a vida,
tudo dentro de limites aceitáveis. Já, o exercício regular de direito compreende
ações da polícia autorizadas pela existência de direito definido em lei e
condicionadas a regularidades do exercício desse direito.

Em todos os casos citados, o emprego da força é justificado na medida


em que é aplicado com o objetivo de proteger o próprio agente ou um terceiro,
ou como requisito básico para cumprir sua função de aplicação da lei. São
consideradas causas de exclusão da antijuridicidade. Portanto, configurada
qualquer dessas hipóteses, é atestada a inexistência de crime, como prevê o
art. 23 do CP. Ou seja, o agente que age acobertado pelas referidas
justificantes pratica um fato típico, porém lícito.

Quanto ao estrito cumprimento do dever legal, os agentes públicos, no


desempenho de suas atividades, devem agir interferindo na esfera privada dos
cidadãos, exatamente para assegurar o cumprimento da lei. Essa intervenção
redunda em agressão a bens jurídicos como a liberdade, o patrimônio, a vida,
tudo dentro de limites aceitáveis. Já, o exercício regular de direito compreende
ações da polícia autorizadas pela existência de direito definido em lei e
condicionadas a regularidades do exercício desse direito.

Em todos os casos citados, o emprego da força é justificado na medida


em que é aplicado com o objetivo de proteger o próprio agente ou um terceiro,
ou como requisito básico para cumprir sua função de aplicação da lei. São
consideradas causas de exclusão da antijuridicidade. Portanto, configurada
qualquer dessas hipóteses, é atestada a inexistência de crime, como prevê o
art. 23 do CP. Ou seja, o agente que age acobertado pelas referidas
justificantes pratica um fato típico, porém lícito.

Nota-se que os dispositivos nada mais tratam que os princípios da


legalidade, necessidade, proporcionalidade e conveniência, quando do uso da
força pela polícia. Juliano José Trant de Miranda (2009) os explica assim:
Legalidade. O policial em ação deve buscar amparar legalmente sua ação
(legítima defesa, Estrito cumprimento do dever legal e exercício regular de
direito, Estado de necessidade), devendo ter conhecimento da lei e estar
preparado tecnicamente, através da sua formação e do treinamento recebidos.

Necessidade. O policial, antes de usar a força, precisa identificar o objetivo


a ser atingido. A ação atende aos limites considerados mínimos para que se
torne justa e legal sua intervenção, a partir dos parâmetros julga a
necessidade.

Proporcionalidade. O policial deve avaliar o momento exato de cessar a


reação que foi gerada por injusta agressão, ou seja, a força legal deve ser
proporcional a injusta agressão, o que passa dessa medida pode ser
considerado abuso de autoridade.

Conveniência. Esse princípio está diretamente condicionado ao local e


momento da intervenção, devendo o policial observar se sua ação gera riscos a
terceiros que nada têm a ver com a injusta agressão, ou seja, existe mais risco
do que benefício, ainda que fosse legal, necessários e a intenção fosse
proporcional.
USO DE ALGEMAS

O CPPM possui uma regra sobre o uso de algemas:


Art. 234 (...)
Emprego de algemas

 1º O emprego de algemas deve ser evitado, desde que não haja perigo
de fuga ou de agressão da parte do preso, e de modo algum será
permitido, nos presos a que se refere o art. 242.

LEI 7.219/84 (LEP)
A primeira lei que tratou sobre o uso de algemas no Brasil foi a Lei
nº 7.210/84 (Lei de Execucoes Penais). Ela, no entanto, não ajudou muito
porque afirmou que o tema deveria ser tratado por meio de decreto. Confira:
Art. 199. O emprego de algemas será disciplinado por decreto federal.

A LEP é de 1984 e até 2016 este decreto não havia sido editado.
LEI 11.689/2008
Em junho de 2008, foi editada Lei nº 11.689/2008, que alterou o procedimento
do Júri previsto no CPP. Esta Lei aproveitou a oportunidade e tratou também
sobre o uso de algemas, porém apenas no plenário do Júri. Veja os
dispositivos que foram inseridos por ela:
Art. 474 (...)
§ 3º Não se permitirá o uso de algemas no acusado durante o período em que
permanecer no plenário do júri, salvo se absolutamente necessário à ordem
dos trabalhos, à segurança das testemunhas ou à garantia da integridade
física dos presentes. (Incluído pela Lei 11.689/2008)

Art. 478. Durante os debates as partes não poderão, sob pena de nulidade,
fazer referências:

I – à decisão de pronúncia, às decisões posteriores que julgaram admissível a


acusação ou à determinação do uso de algemas como argumento de
autoridade que beneficiem ou prejudiquem o acusado; (Incluído pela Lei
11.689/2008)

Como se vê, tirando a hipótese do Plenário do Júri, a legislação continuava


sem disciplinar o uso de algemas.

SV 11-STF

Em razão dessa lacuna normativa, em 2008, o Supremo Tribunal Federal,


diante do uso abusivo de algemas em determinadas pessoas, viu-se obrigado
a dispor sobre o tema e editou uma súmula vinculante que mais parecia um
artigo de lei tratando a respeito do assunto. Confira:

Súmula vinculante 11-STF: Só é lícito o uso de algemas em casos


de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física
própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a
excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e
penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato
processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do estado.

DECRETO 8.858/2016
Agora, com 32 anos de atraso, finalmente é editado o Decreto federal
mencionado pelo art. 199 da LEP e que trata sobre o emprego de algemas.
ENTENDENDO O DECRETO 8.858/2016
Sobre o que trata?
Regulamenta o art. 199 da Lei de Execução Penal com o objetivo de
disciplinar como deve ser o emprego de algemas.
Diretrizes
O emprego de algemas terá como diretrizes:

• a dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF/88);


• a proibição de que qualquer pessoa seja submetida a tortura, tratamento
desumano ou degradante (art. 5º, III, da CF/88);
• a Resolução nº 2010/16, de 22 de julho de 2010, das Nações Unidas sobre
o tratamento de mulheres presas e medidas não privativas de liberdade para
mulheres infratoras (Regras de Bangkok); e
• o Pacto de San José da Costa Rica, que determina o tratamento humanitário
dos presos e, em especial, das mulheres em condição de vulnerabilidade.
A pessoa presa pode ser algemada?
Como regra, NÃO.

Existem três exceções. Quais são elas?


É permitido o emprego de algemas apenas em casos de:

• resistência;

• fundado receio de fuga; ou

• perigo à integridade física própria ou alheia, causado pelo preso ou por


terceiros.

Formalidade que deve ser adotada no caso do uso de algemas


Caso tenha sido verificada a necessidade excepcional do uso de algemas,
com base em uma das três situações acima elencadas, essa circunstância
deverá ser justificada, por escrito.
Situação especial das mulheres em trabalho de parto ou logo após
É proibido usar algemas em mulheres presas:

• durante o trabalho de parto

• no trajeto da parturiente entre a unidade prisional e a unidade hospitalar; e

• após o parto, durante o período em que se encontrar hospitalizada.

Confira o texto integral do Decreto:


Art. 1º O emprego de algemas observará o disposto neste Decreto e terá
como diretrizes:

I - o inciso III do caput do art. 1º e o inciso III do caput do


art. 5º da Constituição, que dispõem sobre a proteção e a promoção da
dignidade da pessoa humana e sobre a proibição de submissão ao tratamento
desumano e degradante;
II - a Resolução no 2010/16, de 22 de julho de 2010, das Nações Unidas
sobre o tratamento de mulheres presas e medidas não privativas de liberdade
para mulheres infratoras (Regras de Bangkok); e
III - o Pacto de San José da Costa Rica, que determina o tratamento
humanitário dos presos e, em especial, das mulheres em condição de
vulnerabilidade.

Art. 2º É permitido o emprego de algemas apenas em casos de resistência e


de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia,
causado pelo preso ou por terceiros, justificada a sua excepcionalidade por
escrito.

Art. 3º É vedado emprego de algemas em mulheres presas em qualquer


unidade do sistema penitenciário nacional durante o trabalho de parto, no
trajeto da parturiente entre a unidade prisional e a unidade hospitalar e após o
parto, durante o período em que se encontrar hospitalizada.

Art. 4º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

CRIMES HEDIONDOS

Crimes hediondos são aqueles cujo a legislação entende que geram


maior reprovação por parte da sociedade, assim sendo merecem uma rigidez
maior por parte do estado. Não são necessariamente crimes cometidos com
alto grau de violência ou crueldade, mas sim os crimes previstos
expressamente no art. 1º da Lei 8.072/90.

            A partir de um entendimento mais sociológico, os crimes


hediondos são aqueles que geram maior aversão por social, sendo entendidos
como delitos mais graves por tamanha a sua afronta aos valores socais e
morais. Tais crimes são dotados de tamanho potencial ofensivo que do ponto
de vista semântico pode se traçar tal analogia aos termos como horrendo,
repugnante e sórdido, derivados de sua gravidade acentuada.

1. CLASSIFICAÇÃO DOS CRIMES HEDIONDOS


Entre os crimes previstos pela lei 8.072/90 como crimes hediondos está
o:

 Homicídio, previsto no art.121 do Código de Processo Penal, quando


exercido em atividade típica de grupo de extermínio, ainda que cometido
por um só agente, e homicídio qualificado, previsto no art. 12, §2º, I, II,
III, IV e V do Código Penal brasileiro.

 A lesão corporal dolosa de natureza gravíssima, prevista no art. 129,


§20 do CP, e a lesão corporal seguida de morte (art. 129, §20), quando
praticadas contra autoridade ou agente descrito nos art. 1422 e 1444 da
Constituição Federal, sendo esses integrantes do sistema prisional e
Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em
decorrência dela, ou contra seu parceiro, companheiro ou parente
consanguíneo até terceiro grau.

 Latrocínio, previsto nos art. 157, §3º do CP.

 Extorsão qualificada pela morte (art. 158, §2º).

 Extorsão mediante sequestro e na forma qualificada (art. 159, caput, e


§§ lº, 2º e 3º)

 Estupro (art. 213, caput e §§ 1º e 2º)

 Estupro de vulnerável (art. 217-A, caput e §§ 1º, 2º, 3º e 4º)

 Epidemia com resultado morte (art. 267, § 1º)

 Falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a


fins terapêuticos ou medicinais (art. 273, caput e § 1º, § 1º-A e § 1º-B)

 Favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual


de criança ou adolescente ou de vulnerável (art. 218-B, caput, e §§ 1º e
2º)

 Genocídio (Lei 2.889/56).

Ressalta-se que a tentativa não desclassifica a configuração do crime


como hediondo, ainda sendo aplica a Lei 8.072/90 a contravenção penal.

1. CRIMES EQUIPARADOS
É disposto pelo art. 5º, XLIII da Constituição Federal, que:

A lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis


de graça ou anistia a prática de tortura, o tráfico ilícito de
entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos
como crimes hediondos, por ele respondendo os
mandantes, os executores e os que, podendo evita-los, se
omitirem.
            Assim sendo, é posto pelo art. 2º da Lei 8.072/90:

Art. 2º - Os crimes hediondos, a prática da tortura, o


tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e o terrorismo
são insuscetíveis de:

I - anistia, graça e indulto;

II - fiança e liberdade provisória.


            Sendo assim, mesmo não classificados como crimes
hediondos, o tráfico de entorpecentes e terrorismo são equiparadas a estes.
Sendo aplicadas todas a disposições a respeito dos crimes hediondos exceto
quando postulada de forma desigual por lei própria, onde as disposições
previstas na Lei de Drogas (Lei 11.343/06) e na Lei de Tortura (Lei 9.455/97)
prevalecem quando em conflito com a Lei de Crimes Hediondos.

DIREITO A PROPRIEDADE E SUA FUNÇÃO SOCIAL

A função social da propriedade é descrita no Inciso XXIII do Artigo 5º


da Constituição Federal de 1988. Nele, estão previstos direitos fundamentais,
com objetivo de assegurar uma vida digna, livre e igualitária a todos os
cidadãos do país. 

Observada pela primeira vez no Brasil na Constituição de 1934, a função social


é uma condição ao direito de propriedade. Ela determina que a propriedade
urbana ou rural deverá, além de servir aos interesses do proprietário, atender
às necessidades e interesses da sociedade. Desta forma, a função social
condiciona o direito de propriedade, ao estabelecer que este direito é limitado
pelo respeito ao bem coletivo. 

O Artigo 5° da Constituição Federal de 1988 traz, logo após a garantia do


direito de propriedade, um Inciso que impõe uma limitação a esse direito:

“XXIII – a propriedade atenderá a sua função social”


A função social consiste na utilização da propriedade, urbana ou rural, em
consonância com os objetivos sociais de uma determinada cidade. A função
social impõe limites ao direito de propriedade, para garantir que o exercício
deste direito não seja prejudicial ao bem coletivo. Isto significa que uma
propriedade rural ou urbana não deve atender apenas aos interesses de seu
proprietário, mas também ao interesse da sociedade. 

O Inciso XXIII estabelece apenas que a propriedade deve atender a sua função
social, mas não descreve os critérios para que isto ocorra. Os critérios para o
cumprimento da função social são apresentados em outros trechos da
Constituição, e diferem para cada tipo de propriedade. 

“CAPÍTULO II – DA POLÍTICA URBANA

Art. 182, § 2º A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende
às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano
diretor.” 
De acordo este capítulo, a propriedade urbana está de acordo com sua função
social quando respeita os critérios estabelecidos pelo Plano Diretor de cada
município. 

Por sua vez, a função social da propriedade rural é descrita no Artigo 186, que
estabelece os critérios para este cumprimento: 
“CAPÍTULO III – DA POLÍTICA AGRÍCOLA E FUNDIÁRIA E DA REFORMA
AGRÁRIA

Art. 186. A função social é cumprida quando a propriedade rural atende,


simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei,
aos seguintes requisitos:

I – aproveitamento racional e adequado;

II – utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do


meio ambiente;

III – observância das disposições que regulam as relações de trabalho;

IV – exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos


trabalhadores.” 
A função social ainda aparece novamente na Constituição Federal de 1988
como um princípio da ordem econômica, com o objetivo de assegurar a justiça
social e uma existência digna a todos. 

“TÍTULO VII DA ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na


livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os
ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: 

(…)

 III – função social da propriedade” 


Desta forma, a Constituição demonstra um entendimento de que a justiça
social deve reger a ordem econômica, logo o direito de propriedade deve estar
condicionado ao respeito pelo bem coletivo.