Você está na página 1de 51

1

UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO

INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, JORNALISMO E SERVIÇO SOCIAL

CURSO DE JORNALISMO

ALEONE RODRIGUES HIGIDIO

LGBT de periferia:
Resistência, luta e empoderamento

Produto Jornalístico

Mariana
2017
2

ALEONE RODRIGUES HIGIDIO

LGBT de periferia:
Resistência, luta e empoderamento

Memorial descritivo de produto


jornalístico apresentado ao curso
Jornalismo da Universidade Federal
de Ouro Preto, como requisito parcial
para obtenção do título de Bacharel
em Jornalismo.

Orientadora: Profa. Dra. Karina


Gomes Barbosa

Mariana
2017
3
4
5

Dedico este trabalho, primeiramente, à minha mãe, Mariana, que nunca teve a
oportunidade de concluir o ciclo básico do ensino fundamental. Dedico, igualmente, a meu
pai, Sebastião, a quem aos sete anos idade lhe foi dada uma enxada para capinar em vez de
um lápis para se alfabetizar e, por isso, para o Estado, é apenas um número nas estatísticas
sobre analfabetismo no país. Eles não tiveram condições de concluir o ensino formal, mas,
apesar de todas adversidades, os sete, dos nove filhos que sobreviveram às doenças típicas de
um país sem saneamento básico e combate efetivo às doenças que acometem/acometiam
populações rurais, ingressaram na pré-escola no tempo ideal. Porém, a vida fez com que cada
um dos filhos - dos quais estendo meu agradecimento - tomasse rumos diversos. Nem todos
conseguiram, por vários motivos, concluir o ensino médio e, muito menos, ingressar numa
universidade. Sou privilegiado. Fui o primeiro da família, tanto por parte de pai, quanto de
mãe, a ingressar numa instituição de ensino superior.
Acredito que seja, também, o primeiro aluno do pequeno distrito de Cordeiro de
Minas, em Caratinga -MG, a ingressar numa universidade pública, gratuita e de qualidade. E,
por isso, devo reconhecer, neste espaço, minha posição privilegiada e, também, jamais
poderia negar o agradecimento a todos os professores que tive, da infância à juventude, na
Escola Estadual Manoel Cordeiro Lúcio, em Cordeiro de Minas; e Escola Estadual Manoel
Izídio, em Ipatinga.
Agradeço, especialmente, àquela que, vendo a potencialidade de um de aluno que
tinha gosto pelos livros, me explicou o que seria uma universidade federal. E mais: fez o
possível, na época, para que ingressasse em um colégio federal, o Coluni, em Viçosa. Essa
pessoa é Dona Milva, minha professora de português. Ela sempre fazia questão de motivar
seus alunos a seguirem os rumos do filho, que havia estudado em Viçosa e que, naquela
época, alçava novos vôos na USP, em São Paulo.
Agradeço, também, à tantos outros que fizeram parte deste processo - e que dura
longos anos -, como a Dona Maria e o Sr. Ambrósio, que, no último ano do ensino médio, ao
saberem que perderia uma bolsa de estudos numa escola técnica, em Ipatinga, por não ter
lugar para morar, abriram as portas de suas casas e me acolheram, com muito afeto, como
parte da família. Esta história se repetiu com minha tia Florinda e tio Geraldo, em Belo
Horizonte, quando, neste processo de se graduar, me receberam, igualmente com muito
carinho, quando consegui uma bolsa do PROUNI para estudar Ciência da Computação, na
PUCMINAS. Por isso, não poderia deixar de agradecê-los neste espaço.
Outras pessoas que fizeram parte deste processo são: Dona Célia e Sr. Ely. Este casal,
até então desconhecido, me acolheu numa kitnet num bairro de periferia, em Ouro Preto,
6

quando precisei do apoio da universidade ao ser expulso - por motivo que, hoje, entendo
como homofobia - da República Aquarius. A casa onde está localizada a república é um
prédio público, de propriedade da UFOP, que nada fez pelo assunto quando solicitei apoio.
Por isso, fica o meu agradecimento a esse casal e sua família, que tanto me apoiaram durante
todos esses anos em Ouro Preto, especialmente, num momento em que eu estava prestes a
desistir dos estudos.
Agradeço, também, aos amigos que sempre se fizeram presentes ao longo desses anos
de formação, incluindo os que fiz no curso de Ciência da Computação, em BH, como, Luiza,
Thiago e Nelson, quanto os amigos da época em que continuei neste mesmo curso na UFOP,
como, Marina, Leandro e Rafael.
Não poderia deixar de dedicar este trabalho, especialmente, aos amigos de infância,
Josiel e Laiane. Esses dois, junto à alguns membros da minha família, são os pilares dos quais
eu sempre busquei me apoiar em todo e qualquer momento, diante de toda e qualquer
adversidade da vida. São mais de vinte anos de amizade e confiança mútua onde o afeto e o
amor norteiam toda nossa relação.
Dedico, também, este trabalho aos amigos que fiz ao longo da graduação em
Jornalismo, incluindo os da época em que estagiei na Rádio UFOP Educativa; Programa de
extensão Sentidos Urbanos; Rádio Província FM; Projeto de extensão Identidades, afetos,
cotidiano e memória em Mariana: narrativas jornalísticas construídas com a comunidade; e
Portal Vertices.
Dedico este trabalho ao casal de amigos, Wallyson e Matheus, pelo companheirismo
estabelecido nesses anos e, principalmente, pelo apoio integral à todas as decisões tomadas
que nortearam esse processo de formação.
Dedico aos amigos Sheder, Marlucy, Tarlon, Wellington, Felipe, Paula, Wilcson,
Adalton, Marcelo, Wederson, Gustavo, Fernanda, César, Adilson, e à tantos outros que, em
algum momento, me apoiou neste longo período de graduação.
Dedico este trabalho ao mestrando em Educação pela Federal de Juiz de Fora, Neilton
dos Reis, que, apesar de termos nos conhecido na etapa final da produção do TCC, foi uma
das pessoas que me ajudou a experimentar e vivenciar de forma mais produtiva - e crítica -
tantos atravessamentos que ocorreram durante o VIII Congresso Internacional de Estudos
sobre a Diversidade Sexual e de Gênero, em novembro de 2016, na cidade de Juiz de Fora. E
que, posteriormente, foi uma das pessoas que me ajudou a refletir mais sobre várias questões
de gênero e LGBT, que venho a discutir neste trabalho. Sem contar, o apoio emocional que
recebi dele numa das horas mais difíceis, que foi a reta final da produção do documentário.
7

AGRADECIMENTOS

À minha família, amigos, professores do curso de Jornalismo da UFOP, e aos


envolvidos diretamente neste processo, que são os sujeitos que abriram suas portas para que
eu pudesse contar suas histórias. E, não poderia deixar de agradecer à Clarissa, César
Henrique, Monique, Matheus e Raquel, por terem me ajudado na produção do documentário.
Agradeço, em especial, à professora Karina Barbosa, pelo apoio e orientação na realização
dessa empreitada difícil, que foi construir um produto jornalístico, com memorial descritivo,
sozinho. Por fim, agradeço ao professor André Carvalho pelo suporte e amizade ao longo
desse processo que foi a graduação.
8

“Por isso não levanto minha voz, velho Walt Whitman,


contra o menino que escreve
nome de menino em sua almofada,
nem contra o rapaz que se veste de noiva
na escuridão da rouparia,
nem contra os solitários dos cassinos
que bebem com asco a água da prostituição,
nem contra os homens de olhada verde
que amam o homem e queimam seus lábios em silêncio.
Mas sim contra vós outros, maricas das cidades,
de carne tumefacta e pensamento imundo,
mães de lodo, harpias, inimigos sem sonho
do Amor que reparte coroas de alegria.
Contra vós sempre, que dais aos rapazes
gotas de suja morte com amargo veneno.
Contra vós sempre”
Trecho do poema "Ode a Walt Whitman" de Federico García Lorca
9

RESUMO
O trabalho trata-se de um documentário sobre gays e lésbicas que residem em um bairro de
periferia social de Mariana-MG. A não-representatividade de LGBTs de periferia no debate
político, restrito a acadêmicos e grupos privilegiados, alimenta o desejo de mostrar quais são
as similaridades e diferenças entre as pautas que eles reivindicam com as que são discutidas e
implementadas pela sociedade e movimentos sociais, em especial, nesse contexto específico
de Mariana, que é uma cidade marcada pelo discurso histórico e religioso. Com isso,
pretende-se empoderar o LGBT de periferia social a partir da problematização de suas pautas
numa experimentação audiovisual.

Palavras-chave: gênero; LGBT; sexualidade; diversidade; periferia.

ABSTRACT

The work is a documentary about gays and lesbians whose lives in a suburban neighborhood
of Mariana-MG. The non-representativeness of peripheral LGBTs in the political debate,
restricted to academics and privileged groups, promotes the desire to show what are the
similarities and differences between the purpose that they claim, with those that are discussed
and implemented by society and social movements, in this specific context of Mariana, which
is a city marked by historical and religious discourse. With this, it intends to empower the
LGBT from the social periphery from the problematization of its guidelines in an audiovisual
experimentation.

Keywords: gender; LGBT; Sexuality; Diversity; Periphery.


10

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

ILUSTRAÇÃO 1 – Localização do bairro Santo Antônio .......................……..................... 26

LISTA DE ANEXOS

ANEXO A - Tabela 1: Descrição resumida do Movimento Homossexual Brasileiro….........51


11

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 12

2 TEORIA QUEER E MOVIMENTO LGBT...............................…………………........ 14


2.1 Gênero: perspectivas sociológicas da sua construção........................................................ 14
2.2 Heteronormatividade e pedagogias do corpo e sexo.......................................................... 15
2.3 Movimento LGBT ............................................................................................................. 16
2.3.1 Histórico.......................................................................................................................... 16
2.3.2 O Movimento LGBT no Brasil: Passado e Presente....................................................... 17
2.3.3 LGBTfobia no contexto brasileiro………….................................................................. 19
2.3.4 Mídia no contexto das questões LGBTs……………………………………………..... 21

3 CINEMA DOCUMENTÁRIO…...................................................................................... 23
3.1 Sobre o documentário…..……………………………………………………………...... 23
3.2 Cinema queer…………………………………………………………………………..... 24
3.3 Proposta de trabalho…………………………………………………………………....... 25

4 DIÁRIO DE BORDO………………………………………………………………......... 27

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................ 38

REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 40

APÊNDICES…………………………………………………………………………….......43

ANEXOS…………….... ........................................................................................................ 51
12

1 INTRODUÇÃO

O trabalho produzido é um documentário de representação social que busca expressar


a compreensão do que é verdade naquela realidade retratada. Ele parte do conceito de não
ficção apresentado por Nichols (2005), que aborda visões de um mundo que não é imaginado
pelo cineasta, baseado em suposições diversas sobre um tema para inspirar expectativas em
diversos públicos.
O mundo abordado e representado é o cotidiano de gays e lésbicas das periferias
sociais da cidade de Mariana – Minas Gerais. Mariana configura-se como o primeiro
município de Minas, entretanto, por ser histórica, pautas voltadas à comunidade LGBT são
pouco discutidas pela sociedade e até mesmo pelos próprios movimentos na cidade.
Não existe m todo ou t cnica que possa garantir um acesso privilegiado ao real (DA-
RIN, 2004). Entretanto, a proposta de um documentário oferece a oportunidade de exibir um
retrato, ou algo próximo de uma representação do mundo. Isso, porque, os recursos de
imagem e áudio registram situações com notável fidelidade (NICHOLS, 2005). Ao vermos o
que a câmera capta, tomamos como verdade, mesmo que a imagem seja editada e que, nem
sempre, consiga dizer tudo sobre o que aconteceu "de verdade".
Registrar o que está diante das câmeras, além de permitir que vejamos o mundo de
uma nova maneira, tem um significado enorme para o interesse de outros, uma vez que
tomamos um sujeito como representação de um grupo específico. Nichols (2005) nos
apresenta a ideia de que os documentários podem representar o mundo da mesma forma como
um advogado representa um cliente, apresentando a defesa de um determinado ponto de vista
ou interpretação de provas a fim de conquistar consentimento e formar opinião.
No produto, trabalho a ideia de que existe uma lacuna nas reivindicações de
movimentos LGBTs nas discussões políticas, sociais, e de afirmação da cidadania desse
grupo, em que nem sempre são, de fato, o que todos eles querem ou necessitam. A proposta
foi trabalhar com a hipótese de que uma parcela marginalizada dentro dessa comunidade - já
estigmatizada - tem suas pautas invisibilizadas por serem sujeitos com pouca
representatividade na sociedade em geral, como pobres, negros e moradores de regiões menos
privilegiadas, como favelas e aglomerados.
A estratégia persuasiva do documentário em questão está nos discursos desses
sujeitos, a partir da observação do cotidiano no qual estão inseridos, e fazer com que, por
meio desse tipo de narrativa, tenham espaço e representatividade na mídia. Nichols (2005)
13

avalia que, para o cineasta, as fontes seriam "atores sociais", com as quais não há uma relação
contratual, como ocorre na ficção.
A partir das considerações supracitadas, busquei identificar quatro atores sociais
escolhidos para representar a comunidade LGBT no documentário. A escolha se deu através
de visitas ao bairro Santo Antônio, tamb m conhecido como “Prainha”, onde fui apresentado
à moradores dessa localidade, considerada área de periferia social de Mariana.
Neste trabalho, suscito discussões que partiram do universo pessoal dos sujeitos a fim
de que elas possam reverberar nos diálogos de quem produz as pautas na militância LGBT e,
quem sabe, assim, fazer com as vozes dessas pessoas sejam ouvidas num espectro maior que o
pessoal.
14

2 TEORIA QUEER E MOVIMENTO LGBT


2.1 Gênero: perspectivas sociológicas da sua construção

Na composição das identidades, a sexualidade não pode ser entendida como algo dado
pela natureza, ou seja, inerente ao ser humano. A sexualidade envolve processos culturais e
plurais, tais como: rituais, linguagens, fantasias, representações, convenções, símbolos, dentre
outros. Além disso, as inscrições de gênero - feminino ou masculino - é feita no contexto de
uma determinada cultura, sendo, as identidades gênero e sexuais compostas e definidas por
relações sociais moldadas por redes de poder de uma sociedade (LOURO, 2010, p.11).
Butler (2003) trabalha a ideia de que o gênero é uma performance produzida pelos
discursos normativos que regulam os corpos e o sexo. Para a autora, o gênero é
performativamente produzido e imposto pelas práticas reguladoras.

o gênero mostra ser performativamente no interior do discurso herdado da


metafísica da substância - isto é, constituinte da identidade que supostamente é.
Nesse sentido, o gênero é sempre um feito, ainda que não seja obra de um sujeito
tido como preexistente à obra. No desafio de repensar as categorias do gênero fora
da metafísica da substância, é mister considerar a relevância da afirmação de
Nietzshe, em A genealogia da moral, de que "não há 'ser' por trás do fazer, do
realizar e do tornar-se; o 'fazedor' é uma mera ficção acrescentada à obra - a obra é
tudo". Numa aplicação que o próprio Nietzsche não teria antecipado ou aprovado,
nós afirmaríamos como corolário: não há identidade de gênero¹ por trás das
expressões do gênero; essa identidade é performativamente constituída, pelas
próprias "expressões" tidas como seus resultados (BUTLER, 2003, p.48)

Portanto, o que entendemos como masculino ou feminino é produzido a partir do


discurso daqueles que detêm o poder regular as normas que regem a sociedade. Dentro dessa
perspectiva, aquilo que não segue essas práticas reguladoras é tido como abjeto. Aqueles que
seguem tais práticas são lidos como "gêneros inteligíveis".

Gêneros inteligíveis são aqueles que, em certo sentido, instituem e mantém relações
de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática e desejo. Em outras palavras,
os espectros de descontinuidade e incoerência, eles próprios só concebíveis em
relação a normas existentes de continuidade e coerência, são constantemente
proibidos e produzidos pelas próprias leis que buscam estabelecer linhas causais ou
expressivas de ligação entre sexo biológico, o gênero culturalmente construído e a
"expressão" ou "efeito" de ambos na manifestação do desejo sexual por meio da
prática sexual (BUTLER, 2003, p.38).

O gênero nem sempre se constituiu de maneira coerente ou consciente nos contextos


históricos. Além disso, o gênero estabeleceria interseções políticas e culturais, com
modalidades “raciais, classicistas, tnicas, sexuais e regionais de identidades discursivamente
15

constituídas” (BUTLER, 2003, p.20). A mesma também afirma que o gênero não deveria ser
concebido como uma inscrição cultural de significado num sexo previamente dado. Ele teria
de designar tamb m o aparato de produção onde os próprios sexos são estabelecidos: “o
gênero [...] também é o meio discursivo/cultural pelo qual "a natureza sexuada" ou "um sexo
natural" é produzido e estabelecido como "pré discursivo", anterior à cultura, uma superfície
politicamente neutra sobre a qual age a cultura" (BUTLER, 2003, p.25).

2.2 Heteronormatividade e pedagogias do corpo e sexo

Partindo do pensamento de Butler mergulhamos na discussão sobre a Teoria Queer. A


expressão queer, em português, dá a impressão de que é algo respeitável, mas, em inglês, é
um xingamento e está associado à abjeção¹1. O uso desse termo é uma reapropriação de um
termo que era usado de forma preconceituosa mas, que, hoje, tem fins de empoderamento.
Para Miskolci (2012), “o que hoje chamamos de queer, em termos políticos quanto teóricos,
surgiu como um impulso crítico em relação à ordem sexual contemporânea, possivelmente
associado à contracultura e às demandas daqueles que, na década de 1960, eram chamados de
novos movimentos sociais”.
Segundo Miskolci (2012), o movimento Queer faz críticas à heteronormatividade,
definida pelo mesmo como:
a ordem sexual do presente, na qual todo mundo é criado para ser heterossexual, ou -
mesmo que não venha a se relacionar com pessoas do sexo oposto - para que adote o
modelo da heterossexualidade em sua vida. Gays e lésbicas normalizados, que
aderem a um padrão heterossexual, também podem ser agentes da
heteronormatividade (MISKOLCI, 2012, p.15).

De acordo com o estudioso, o “queer” não é uma defesa da homossexualidade e sim


“a recusa dos valores morais violentos que instituem e fazem valer a linha da abjeção, essa
fronteira rígida entre os que são socialmente aceitos e os que são relegados à humilhação e ao
desprezo coletivo” (MISKOLCI, 2012, p.15).
Além disso, é preciso entender que, para além das normas vigentes sobre o sexo e o
gênero, os corpos também se constituem a partir de referências. Louro (2010) afirma que os
corpos são significados através da cultura e são, continuamente, alterados por ela. Segundo
ela, “de acordo com as mais diversas imposições culturais, nós os construímos de modo a
adequá-los aos crit rios est ticos, higiênicos, morais, dos grupos a que pertencemos”

1
Em PRINS (2002), Butler diz que o abjeto não se restringe a sexo e heteronormatividade. Para ela, o termo
relaciona-se a todo tipo de corpos cujas vidas não são consideradas 'vidas' e a materialidade é entendida como
''não importante'.
16

(LOURO, 2010, p.15). A autora também diz que esses corpos se referenciam no que ancora a
identidade.
Silva (2011) considera que a identidade está vinculada a condições sociais e materiais
e se um grupo é simbolicamente marcado como inimigo ou como tabu, isso terá efeitos reais
porque esse grupo se tornou socialmente excluído e passa a ter desvantagens materiais. No
caso dessa discussão, o grupo que é simbolicamente tido como inimigo é o LGBT, que não se
enquadra dentro de um modelo heteronormativo.

2.3 Movimento LGBT


2.3.1 Histórico
Facchini (2011) apresenta um histórico sobre os movimentos de afirmação
homossexual. Segundo a autora, a primeira organização criada para desconstruir uma imagem
negativa a respeito da homossexualidade foi o Center for Culture and Recreation, em
Amsterdam, na Holanda, no final da década de 40. Na época, havia uma publicação mensal
sobre homossexualidade, chamada de o Levensrecht, traduzido para português como "Direito
de viver". O grupo que organizava a revista buscava promover ocasiões de sociabilidade para
fomentar a tolerância para com homossexuais. De maneira sintética, podemos destacar outros
momentos históricos que culminam nos movimentos atuais.
● 1950: um grupo clandestino da esquerda socialista norte-americana criou o
Mattachine Society, que propunha criação de espaços de sociabilidade onde discutiam
sobre homossexualidade. Os encontros, às vezes, eram acompanhadas de palestras
com psiquiatras e médicos. Também nos Estados Unidos, em meados da década de 50,
surgiu o grupo direcionado às lésbicas, chamado de Daughters of Bilitis.
● 1960 e 1970: há uma crescente visibilização e radicalização do movimento. A ocasião
é caracterizada por um discurso de auto-afirmação e liberação. Surgem grupos como
Society of Individual Rights, organização homossexual de São Francisco. É nas
décadas de 60 e 70 que acontece a revolta de Stonewall, um bar de frequência
homossexual em Nova York, grande marco internacional do movimento homossexual.
Após serem constantemente abordados pela polícia, em 28 de junho de 1969, os
frequentadores do bar partiram para o confronto aberto com os policiais. A data do
confronto se tornou o Dia Internacional do Orgulho Gay.

Segundo Uziel (2006), a partir do avanço da epidemia HIV, Síndrome da Imuno


Deficiência Adquirida no início dos anos 90, surgiram em diversos países projetos para
17

legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Antes disso, esses grupos eram
organizados, majoritariamente, por homossexuais masculinos, em reuniões de convivência
que buscavam afirmação. Nas reuniões, essas discussões centravam-se em “temáticas
consideradas como de primeira necessidade por integrantes dos grupos, momento de
aparecimento, de criação de espaços voltados para as pessoas que, estigmatizadas, recolhidas
ao máximo do espaço privado, não tinham ofertados espaços de sociabilidade, de encontro”
(UZIEL, 2006, p. 204-205).

2.3.2 O Movimento LGBT no Brasil: Passado e Presente


As mobilizações que ocorreram em outros países no fim da década de 1960 fizeram
com que os primeiros grupos militantes homossexuais surgissem no Brasil no final dos anos
1970. As organizações surgiram no contexto político do final da ditadura militar (FACCHINI,
2011).
O primeiro grupo organizado foi o Grupo Somos de Afirmação Homossexual. Criado
em São Paulo, o grupo tinha o objetivo de reunir homossexuais interessados em assumir a
orientação sexual. Além disso, os encontros serviam para encontrar pares e afirmar a
homossexualidade (CÂMARA, 2002). Participar do grupo era tido como fundamental para a
autoafirmação e reconhecimento efetivo pela sociedade (UZIEL, 2006).
Uziel (2006) elenca uma série de acontecimentos e momentos do movimento LGBT
brasileiro. Alguns deles são:
- Os grupos mais atuantes em meados de 1980 parecem ter sido o Atobá e Triângulo
Rosa, ambos no Rio de Janeiro, e o Grupo Gay da Bahia (GGB);
- O Triângulo Rosa buscava promover políticas públicas, leis e ações que “pudessem
ajudar a diminuir a discriminação contra os homossexuais, via partidos políticos,
organizações da sociedade civil, OAB, Constituição Federal”. Inclusive, na
Constituinte de 1988, o Grupo articulou o movimento para reivindicar a expressão
orientação sexual na Constituição Federal;
- Na década de 1980, o Grupo Gay da Bahia coordenou uma campanha para que a
homossexualidade fosse retirada do Código de Classificação de Doenças 2 do Inamps3.

2
De acordo com GUIMARÃES (2009) com No século XIX surgiu o termo "homossexualismo" para classificar
relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. O termo acabou sendo vinculado a uma "doença" que deveria ser
tratada. Tal concepção vigorou até os anos 1980, quando, em 1985, a Organização Mundial de Saúde (OMS)
retirou o "homossexualismo" da lista das fatalidades patológicas. A justificativa usada foi a de que a
Organização era contra qualquer tipo de discriminação e violência contra gays e lésbicas. Desde 1973, a
homossexualidade já tinha deixado de ser classificada como doença pela Associação Americana de Psiquiatria e,
nesta mesma época, foi retirada do Código Internacional de Doenças (CID-10).
18

Na mesma ocasião, o GGB também fez encaminhou proposta e campanha para que
fosse criada uma lei que punisse a discriminação por (sic) “opção sexual”, termo que
era usado na época;
- Com o crescimento dos casos de Aids no fim dos anos 1980, associado à morosidade
do governo em produzir respostas à epidemia, o movimento homossexual cresceu e
surgiram novos grupos exigindo providências e tomando a frente em algumas ações.
Na época, já havia programas financiados pelo governo para combater a doença. Com
o financiamento de projetos de prevenção à epidemia, coordenados pelos grupos,
alguns deles assumiram o estatuto legal de ONG;
- 1991: Com objetivo de prevenir a Aids junto ao público gay, associado à construção
da sua cidadania, então abalada pela epidemia, circulava no Brasil o jornal Nós Por
Exemplo.
Para conferir um resumo de outros acontecimentos e fatos considerados importantes
para o movimento LGBT brasileiro vide ANEXO A.
O movimento LGBT brasileiro também teve como destaque a criação do Lampião da
Esquina. Inicialmente, a publicação circulou entre abril de 1978 e junho de 1981. A
publicação teve tiragem de 10 mil exemplares, com periodicidade mensal, em formato
tablóide. O jornal é considerada a primeira publicação homossexual dentro do Brasil. O
Lampião teve produção profissional impulsionada por jornalistas, intelectuais e artistas
reconhecidos e foi distribuído no país inteiro. “A grande renovação empreendida pelo
Lampião pode ser resumida pela profissionalização do jornalismo voltado para a população
homossexual brasileira, pela politização da discussão sobre a homossexualidade e pela
veiculação de pontos de vista não estereotipados sobre a chamada população lgbt”
(BARROSO, 2011, p.114).
MELLO (2005) cita que somente ao longo do século XX, mais especificamente nos
últimos 25 anos, é que lésbicas e gays - e hoje em dia acrescentam-se travestis, bissexuais e
transexuais - emergem na cena política do país. Para o autor, é neste momento em que é
questionada a universalidade dos valores heterossexistas vigentes:

São homens e mulheres que, transcendendo os limites de classe, sexo, gênero, raça,
etnia, religião, geração, nacionalidade e orientação ideológica, enfim, transcendendo

3
O INAMPS foi criado pelo regime militar em 1974 pelo desmembramento do Instituto Nacional de Previdência
Social (INPS), que hoje é o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS); era uma autarquia filiada ao
Ministério da Previdência e Assistência Social, atualmente Ministério da Previdência Social). O órgão tinha a
finalidade de prestar atendimento médico aos que contribuíam com aprevidência social, ou seja, aos empregados
de carteira assinada. Fonte: (http://sistemaunicodesaude.weebly.com/histoacuteria.html).
19

praticamente todas as fronteiras, trazem em seus pensamentos, intenções e atos,


ainda que de forma nem sempre intencional e deliberada, a marca (estigma)
im(ex)plícita da transgressão, desafiando fundamentos básicos da normatividade
social por meio de suas vivências amorosas e sexuais (MELLO, 2005, p. 203).

Enquanto, no Brasil, o pensamento transgressor imergia, países do norte da Europa,


como Suécia, Noruega e Dinamarca, já começavam a reconhecer, no final da década de 80, as
relações amorosas estáveis entre gays e entre lésbicas. O argumento das autoridades da época
era de que a iniciativa fortaleceria o estabelecimento de relações monogâmicas e duradouras,
e isso contribuiria para a diminuição das possibilidades de infecção pelo HIV. A partir daí,
nos países onde a homossexualidade não era tipificada como crime, o reconhecimento da
legitimidade das relações homossexuais passou a ser uma das principais reivindicações do
movimento pelos direitos de lésbicas e gays (MELLO, 2005).
No Brasil, a pauta do casamento gay só foi consolidada em 2011, quando o Supremo
Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável entre casais do mesmo sexo como entidade
familiar. Dois anos depois o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou uma resolução
proposta pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, que obrigou os
cartórios de todo o país a registrar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Numa
análise sobre o reconhecimento jurídico das relações homoafetivas no país, o atual ministro
do Supremo Luís Roberto Barroso justifica que:
As uniões afetivas entre pessoas do mesmo sexo são uma consequência direta e
inevitável da existência de uma orientação homossexual. Por isso mesmo, também
são um fato da vida, que não é interditado pelo Direito e diz respeito ao espaço
privado da existência de cada um. As relações homoafetivas existem e continuarão a
existir, independentemente do reconhecimento jurídico positivo do Estado. Se o
direito se mantém indiferente, de tal atitude emergirá uma indesejada situação de
insegurança (BARROSO, 2011, p. 112).

2.3.3 LGBTfobia no contexto brasileiro


De acordo com o Relatório Sobre Violência Homofóbica no Brasil: ano de 2012,
publicado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), a
violência homofóbica tem um caráter multifacetado e abrange mais do que as violências
tipificadas pelo Código Penal. Segundo o texto esse tipo de violência “não se reduz à rejeição
irracional ou ódio em relação aos homossexuais, pois também é uma manifestação arbitrária
que qualifica o outro como contrário, inferior ou anormal” (DF, 2013, p.10).
Consta no documento que o poder público registrou em 2012 3.084 denúncias de
9.982 violações relacionadas à população LGBT, envolvendo 4.851 vítimas e 4.784 suspeitos.
Em relação a 2011 houve um aumento de 166,09% de denúncias e 46,6% de violações,
quando foram notificadas 1.159 denúncias de 6.809 violações de direitos humanos contra
20

LGBTs. Cabe ressaltar que esses valores podem estar subestimados por causa de
subnotificações de dados sobre este tipo de violência. No relatório ainda consta que “muitas
vezes, ocorre a naturalização da violência como único tratamento possível, ou a auto-
culpabilização (DF, 2013, p.18)” e que as estatísticas referem‐se às violações reportadas, não
correspondendo à totalidade das violências ocorridas cotidianamente.
O relatório aponta a homofobia institucional, que seriam formas pelas quais
instituições discriminam pessoas em função de sua orientação sexual ou identidade de gênero
presumida; e os crimes de ódio de caráter homofóbico, ou seja, violências, tipificadas pelo
Código Penal, cometidas em função da orientação sexual ou identidade de gênero presumidas
da vítima. De acordo com a pesquisa, as travestis foram as mais vitimizadas. Elas representam
51,68% do total, seguidas por gays, 36,79% das vítimas, lésbicas, cerca de 9,78%,
heterossexuais e bissexuais com números entre 1,17% e 0,39% respectivamente. Para a
secretaria, “a invisibilização e desconhecimento das transsexuais espelha-se também na
subnoticiação nos meios midiáticos, onde não se encontraram notícias relacionadas a essa
parcela da população” (DF, 2013, p.42). No texto, a homofobia foi entendida como
preconceito ou discriminação contra pessoas em função de sua orientação sexual e/ou
identidade de gênero presumidas. A lesbofobia, a transfobia e a bifobia foram compreendidos
pela palavra homofobia.
O Grupo Gay da Bahia apontou no documento Assassinatos de LGBT no Brasil:
Relatório 2015, 318 mortes de LGBTs no Brasil. Estatisticamente isso representa cerca de
um crime de ódio a cada 27 horas. Dos 318 assassinados, 52% são gays, 37% travestis, 16%
lésbicas, 10% bissexuais. De acordo com o relatório, a homofobia matou, inclusive, pessoas
não LGBT: 7% de heterossexuais foram confundidos com gays e 1% foram mortos por terem
sido confundidos como amantes de travestis. O texto também aponta que, proporcionalmente,
as travestis e transexuais são as mais vitimizadas. “O risco de uma “trans” ser assassinada
14 vezes maior que um gay, e se compararmos com os Estados Unidos, as 119 travestis
brasileiras assassinadas em 2015 em comparação com as 21 trans americanas, têm 9 vezes
mais chance de morte violenta do que as trans norte-americanas” (GRUPO GAY DA BAHIA,
2016, p.1). Em termos absolutos, São Paulo foi o estado com maior número de vítimas: 55
assassinatos; seguido pela Bahia: 33. Se compararmos os dados com a população total, o
estado do Mato Grosso do Sul é o mais LGBTfóbico: 6,49 de homicídios para cada 1 milhão
de pessoas; e Amazonas, com 6,45.
A rede europeia de organizações que apoiam os direitos da população transgênero, a
ONG Transgender Europe (TGEU), fez uma pesquisa na qual o Brasil liderou o ranking de
21

país mais transfóbico do mundo. Segundo a Organização, 604 travestis e transexuais foram
assassinados no país, entre janeiro de 2008 e março de 2014.

2.3.4 Mídia no contexto das questões LGBTs


Numa pesquisa realizada com os frequentadores da Parada Gay de Belo Horizonte, em
2006, sob a coordenação do professor do Departamento de Psicologia da Universidade
Federal de Minas Gerais Marco Aurélio Máximo Prado, foi constatado que 43% dos
frequentadores “confiavam pouco” na imprensa. A pesquisa revelou tamb m que cerca de
19% das pessoas indicaram que confiavam muito na imprensa. Esse índice foi
significativamente maior que os da Justiça (8,9%), Congresso Nacional (6,6%) e da Polícia
(4,6%) (LEAL & CARVALHO, 2009).
Esses dados apontam uma ambiguidade na percepção do papel da imprensa. Para os
autores, a credibilidade da imprensa viria através do jornalismo que deveria desempenhar um
bom papel na cobertura dos casos de homofobia. O jornalismo contribuiria para dar
visibilidade para denúncias de violência, reivindicações de direitos e também para a cultura
LGBT.
Para Leal & Carvalho (2009) existe uma discussão sobre o tratamento de situações
homofóbicas - e acrescento também as transfóbicas, que atingem travestis e transexuais - dado
pela “mídia referência” brasileira, que pode passar pela estrutura organizacional e a
disponibilidade de espaço ou tempo da rede noticiosa. Não se pode negar que a homofobia
brasileira traz desafios aos modos de dizer do jornalismo, visto que a grande imprensa ainda
passa por tensões que marcam as construções de gênero e sexualidade no Brasil. Essas tensões
fazem parte de disputas de sentidos em que diversos atores sociais (religiões, instâncias de
defesa dos direitos humanos e comunidade LGBT, partidos políticos, dentre outros) buscam
imprimir às informações jornalísticas referentes às questões que envolvem a sexualidade. Por
isso é tão importante apresentar discussões iniciais criando condições para que as relações
entre jornalismo, mídia e homofobia sejam melhor apreendidas. Isso se dá a partir da
compreensão da vida sexual, focando naquilo que contribui para ações discursos que
envolvam homofobia, em seguida deve-se observar tal processo jornalístico que compreende
a construção das realidades (LEAL & CARVALHO, 2009).
Os discursos que circulam na vida social, que partem de princípios e/ou fins morais,
religiosos e outros, têm, no combate, a homossexualidade e os direitos LGBT. Isso reforça e
legitima os comportamentos homofóbicos - e acrescento aqui os comportamentos
transfóbicos, que atingem travestis e transexuais. Estudos mostram que a resistência e o
22

combate à homofobia podem surgir em discursos que marcam posicionamentos através da


ironia e paródias de ressemantização de expressões homofóbicas (LEAL & CARVALHO,
2009).
É neste ponto que a mídia tem um papel fundamental na hora de consolidar as
identidades LGBTs, quando ela pode assumir o papel de educadora e pode transmitir valores e
símbolos de uma comunidade já estigmatizada, vocalizando as formas de visibilidade, de
indivíduos e promovendo o respeito às diferenças e agenda de direitos humanos e
manifestações culturais LGBTs. Ou pode assumir os posicionamentos reacionários baseados
nos princípios religiosos e morais citados acima. E, para além da pauta do casamento
homoafetivo, é preciso pensar as outras questões sociais que perpassam as vidas do sujeito
LGBT, como a sua dificuldade na relação com o mercado de trabalho, a exclusão no âmbito
religioso, uma vez que muitas religiões não aceitam a orientação sexual e identidade de
gênero discordantes da hetenormatividade. Também é preciso problematizar que, para além
da homofobia, transfobia e pauta do casamento gay, há sujeitos LGBTs que sofrem
preconceitos de classe, gênero e étnicos por pertencerem a outros grupos oprimidos como
pobres, negros e mulheres4.

4
A perspectiva interseccional permite ampliar e tornar mais complexo o olhar sobre a produção de
desigualdades em contextos específicos e fazer uma análise mais condizente com a realidade, por exemplo,
permite captar as relações de poder na vida social e seus impactos nas experiências cotidianas dos sujeitos.
Algumas autoras dessa vertente foram referências importantes para a construção do sistema de indicadores
interseccionais do MISEAL, entre elas, destaca-se: Leslie McCall, Avtar Brah e Ann Phoenix. Fonte:
http://www.oie-miseal.ifch.unicamp.br/pt-br/interseccionalidade.
23

3. CINEMA DOCUMENTÁRIO
3.1 Sobre o documentário
Comolli (2008) acredita que a categoria batizada como “documentário” está no centro
da história do cinema. Para o autor, o cinema começou por ser documentário e o
documentário por ser cinematográfico.
Se O desprezo é um documentário sobre o corpo de Brigitte Bardot (Godard dixit),
todos os filmes que fazem passear os corpos nas imagens (inclusive na lua ou nos
tapetes voadores de Bagdá) se fundam sob essa potência documental do cinema. Das
ficções mais loucas [...] às fantasias mais delirantes [...], nada se fabricou de
diferente sob o selo da relação com o real de um tempo (aquele do registro), de um
lugar (a cena), de um corpo (o ator) e de uma máquina (que assegura o registro).
(COMOLLI, 2008, p. 143).

De acordo com Comolli (2008) tal é o espaço reservado ao documentário que, quando
se combina os elementos tempo, lugar, corpo e máquina, podemos encontrar de forma bem
mais evidente nas produções que são exibidas na televisão, onde reconhecemos as impressões
da cinematografia, ou seja, a estampilha documentária de origem. Porém, ele acredita que o
documentário, ao contrário da televisão, “ premido a se confrontar não tanto com as lógicas
estreitas dos responsáveis da televisão quanto com algo muito mais forte do que elas: as
realidades que nos determinam, consequentemente, aqui e agora” (COMOLLI, 2008, p. 148).
Comolli (2008) acredita também que cabe ao documentário fazer de nós espectadores
de representações mais que imperfeitas e, também, menos que enganadoras, ou seja, de
representações que não chegam a domesticar completamente o mundo.
O real como erro, aproximação, tateamento, transição. Tudo o que os processos de
escritura - inclusive a dos roteiros ou dos programas de jogo ou de criação de
imagem - confessam e fazem, e que os roteiros ou programas, uma vez feitos, negam
ou desmentem. A clientela espera de um programa de informática exatamente o
contrário do caminho que levou a que ele fosse escrito: versões sucessivas, ensaios e
erros, bugs etc (COMOLLI, 2008, p.150).”

Já Lins & Mesquita (2011) acreditam que o interesse por imagens “reais” pouco se
limita ao campo do documentário. Segundo as autoras, parte das ficções cinematográficas e
televisivas tem investido em uma estética de teor documental. E, além disso, são expressivas
as adaptações de relatos literários cujas matérias são situações reais.
Os telejornais e programas de variedade não se limitam mais às imagens estáveis e
bem enquadradas, utilizando em muitas coberturas planos-sequenciais tremidos e
imagens de baixa qualidade registradas por microcâmeras, câmeras de vigilância,
amadoras e de telefones celulares, buscando imprimir (...) um “efeito de realidade” à
assepsia estética que imperava no telejornalismo até o início dos anos 90 (LINS &
MESQUITA, 2011, p.8).
24

Para Comolli (2008) o espectador do cinema documentário encontra-se numa


ambivalência em que quer estar ao mesmo tempo no cinema e não no cinema. Além disso,
esse espectador quer acreditar na cena (ou duvidar dela), mas também quer duvidar dele,
crendo no referente real da cena. Esse espectador quer simultaneamente crer e duvidar da
realidade representada assim como da realidade da representação.
Já sobre a aproximação do documentário com o jornalismo, Comolli (2008) diz:
O que o aproxima do jornalismo é o fato de que ele se refere ao mundo dos
acontecimentos, dos fatos, das relações, elaborando, a partir deles ou com eles, as
narrativas filmadas; e aquilo que o separa do jornalismo é o fato de que ele não
dissimula, não nega, mas, ao contrário, afirma o seu gesto, que é o de reescrever os
acontecimentos, as situações, os fatos, as relações em forma de narrativa, portanto, o
de reescrever o mundo, mas do ponto de vista de um sujeito, escritura aqui e agora,
narrativa precária e fragmentária, narrativa confessa que faz dessa confissão seu
próprio princípio (COMOLLI, 2008, p. 174).

3.2 Cinema queer


Stam (2003) avalia que, com base nas conquistas do ativismo gay e lésbico na revolta
de Stonewall, em 1968, muitos teóricos desenvolveram uma abordagem lésbica e gay à
cultura em geral e, num caso particular, ao cinema. E que, com isso, o conceito de gênero
promoveu a substituição da ideia da diferença binária por um mais plural de identidade
cultural e socialmente mais construída. O autor também explica que, no final dos anos 70 e
princípio dos anos 80, os campos de estudos de gênero - e feministas - abriu caminho para os
estudos gays e lésbicos que, posteriormente, foram chamados de estudos queer.
De acordo com Stam (2003), “nos estudos de cinema, a pujança da teoria queer
atestada pelos numerosos congressos, festivais, edições especiais de periódicos (por exemplo,
Jump cut) e a publicação de um número crescente de antologias e monografias dedicadas ao
cinema queer” (STAM, 2003, 290). Sobre as narrativas cinematográficas, o autor avalia - a
partir de reflexões de teóricas, como Teresa de Lauretis e Laura Mulvey - que ela era não
apenas sexuada, mas heterossexual. Isso acontecia porque havia geralmente o movimento
ativo de um herói masculino atrav s de um espaço feminino que semeia a “terra virgem”.
Ainda de acordo com Stam (2003):
[...] os analistas queer descreveram os arquétipos homofóbicos típicos que pululam
no cinema dominante: a bicha desmunhecada, o psicopata gay, a vampira lésbica.
Assim como fora antes o caso com a teoria do cinema feminista, e logo seria com a
teoria da raça, porém com muito mais agilidade, a teoria queer migrou da análise
corretiva dos estereótipos e distorções para modelos teoricamente sofisticados
(STAM, 2003, p.291).
25

A teoria queer do cinema interessou-se pelas representações do corpo masculino e


pelas representações da masculinidade. E também se interessou pela maneira como os
homens, mesmo em filmes com temática heterossexual, podiam ser apresentados como objeto
sexual. Por fim, a teoria queer do cinema também revitalizou-se em um constante diálogo
com aumento do número de documentários, vídeos-queer e longa-metragens, muitas vezes
influenciados pela teoria queer produzida por diretores pioneiros (STAM, 2003).

3.3 Proposta de trabalho


O documentário foi realizado com personagens de zonas de reabilitação urbana5 e
interesse social em Mariana. De acordo com o mapa de zoneamento da sede do município de
Mariana, os bairros Santo Antônio, Santa Clara e Santa Rita de Cássia ocupam as áreas
supracitadas. Por se encaixarem na proposta do material, realizei visitas de campo às
localidades mencionadas para que fosse realizado um trabalho de observação do espaço e
rotina dos moradores dessas regiões. Por fim, escolhi o bairro Santo Antônio para fazer
incursões em busca de sujeitos interessados na proposta.

Imagem 1 - Localização do bairro Santo Antônio (cor vermelha indica ser zona de
reabilitação urbana)

5
Como área de reabilitação urbana designa-se a área territorialmente delimitada que, em virtude da
insuficiência, degradação ou obsolescência dos edifícios, das infraestruturas, dos equipamentos de utilização
coletiva e dos espaços urbanos e verdes de utilização coletiva, no que se refere às suas condições de uso, solidez,
segurança, estética ou salubridade, justifique uma intervenção integrada, através de uma operação de reabilitação
urbana. A operação de reabilitação urbana, por sua vez, corresponde ao conjunto articulado de intervenções
visando, de forma integrada, a reabilitação urbana de uma determinada área. Fonte: site da Câmara de Municipal
de Lisboa, em Portugal, disponível em:
<http://www.portaldahabitacao.pt/pt/portal/reabilitacao/aru_vermais.html>.
26

Fonte: Prefeitura Municipal de Mariana

A escolha de quatro sujeitos LGBT’s surgiu a partir da observação e contato com a


comunidade local, bem como vínculos estabelecidos com essas regiões em trabalhos
anteriores ao longo da graduação.
A ideia deste produto foi trabalhar numa perspectiva em que o dia a dia dos sujeitos
seja registrado e que se valorize o cotidiano dessas pessoas, inserindo sequências de
entrevistas. Os fatos, a rotina dos personagens, registrados pelas lentes, além das entrevistas,
compuseram a narrativa a fim de emergir pautas que poderiam estar sendo invisibilizadas.
27

4 DIÁRIO DE BORDO
No dia 20 de julho alguns jovens de Mariana estiveram presentes a uma palestra sobre
feminismo negro no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) da Ufop. Alguns eram
moradores do bairro Santo Antônio, tamb m conhecido como “Prainha”. Ao notar que um
deles era designado como se fosse do gênero masculino, mas tinha uma expressão de gênero
feminino, me aproximei. A partir de então, estabeleci um contato direto com todo o grupo,
expliquei sobre a proposta do meu documentário e marquei um encontro com eles no
domingo, dia 24 de julho, na Capela de Santo Antônio, no bairro onde moram.

1º dia - 24 de julho de 2016

Ao chegar ao bairro Santo Antônio, segui em direção à Capela no alto de um morro e


fiz imagens panorâmicas para identificar o lugar. Para tais imagens, usei o tripé e mantive o
uso do som diegético porque, no momento, tocava uma música alta e havia galos cantando.
Depois disso, encontrei com duas moradoras que passavam pela rua principal e perguntei se
havia LGBTs no bairro. Resistentes, disseram que não. Depois de quinze minutos de
conversa, uma delas afirmou: “Aqui tem muito viado!”. Em seguida, listou uma série de
pessoas LGBTs da Prainha. Inclusive, me disse que havia na Prainha um rapaz chamado
Vanderson que gostava de ser chamado de Vanessa. Depois disso, me indicou o local onde
duas das minhas fontes - já agendadas - moravam.
Ao seguir em direção ao lugar indicado, no trajeto, eu e meu amigo, que tem me
acompanhado nessas incursões, fomos abordados por jovens que perguntaram: “Vocês
querem chá?”, fazendo referência a maconha, tamb m conhecida por “chá”. Dissemos que
não e continuamos o trajeto até uma ponte improvisada, de madeira e com corrimões de tela,
sem nenhuma segurança. Na ponte, só dava pra passar um por vez. Uma senhora com bebê de
colo deu passagem para mim e para meu amigo. Do outro lado, havia outro grupo de jovens
reunidos. Ao perceberem a presença de duas pessoas estranhas no local, um deles se
aproximou da ponte e esperou que chegássemos. Assim que atravessei, perguntei onde
morava Rayene, uma de minhas fontes. Ele se afastou e apontou para a linha do trem e nos
indicou o caminho.
Chegando à casa de Rayene, que é irmã de Rayele, ambas lésbicas, 16 anos, fomos
convidados a entrar no quintal da casa. O lugar se assemelhava a uma chácara, com cavalos,
galinhas, patos e vários animais pelo quintal. As meninas haviam acabado de acordar e uma
delas me disse que a mãe tinha autorizado as imagens e que o pai estava resistente, mas que
28

não havia problema. O pai estava para a igreja e a mãe disse que poderia fazer imagens, desde
que ela não fosse filmada. No início da conversa com uma das garotas, já liguei a câmera
para que ela fosse se acostumando com o equipamento. Conversamos na varanda da casa num
primeiro momento e, num segundo momento, subi as escadas e fui conversar com a mãe das
garotas. Pedi um café. Sorridente, ela me serviu o café e disse que as meninas sempre tiveram
“opinião própria”. Al m disso, falou que eu poderia ficar à vontade em sua casa e que ela só
não queria aparecer. Chamei Rayene, que estava na varanda, para me apresentar a casa e sua
família.
Moram dez pessoas numa casa e a grande maioria é formada por moças solteiras. O
ambiente da casa era escuro e a iluminação usada foi a do sol entrando nas janelas porque,
quando fui usar a luz artificial, as imagens ficaram ruins e prejudicava a estética das
filmagens. Quero que o expectador se sinta ao lado de Rayene e Rayele e que mergulhe em
suas histórias de vida e cotidiano. Fiz imagens das duas em momentos distintos. Rayene
estava estudando num cômodo da casa enquanto Rayele dava atenção à namorada que veio de
Belo Horizonte para visitá-la. O casal sentou-se na cozinha e ambas ficaram fazendo tarefa de
casa de Rayele.
Até a hora do almoço conversei em alguns momentos com a câmera ligada e, em
outros, desliguei o equipamento para que ficassem mais à vontade. Na maior parte das
conversas com as duas garotas, a câmera permaneceu ligada. Depois disso, uma delas me
passou o contato de Rafael, 15 anos, amigo da família.
Ao voltar do almoço, à tarde, me encontrei com Rafael em sua casa. Ele estava
acompanhado de um amigo chamado Vanderson. Neste momento eu me lembrei do que as
duas transeuntes iniciais haviam comentado. Vanderson era Vanessa. Perguntei se Vanderson
preferia ser chamado de Vanderson ou se tinha outro nome ou apelido. Timidamente, o rapaz
de 15 anos disse que era Vanderson mesmo. Rafael, seu amigo, ligou para o pai, que estava
numa festa, para avisar que eu queria falar com ele. Em cinco minutos o pai chega. Me
apresento e falo da proposta do documentário. De cara fechada e poucas palavras, ele autoriza
e diz que a mãe também deve autorizar. Rafael diz que a mãe estava numa festa de família
perto de onde mora. Me convido a ir à festa com Rafael e Vanderson. Antes de partirmos em
direção à festa, que na verdade era um encontro de família regado à muita cerveja e churrasco,
passo na casa da mãe de Vanderson.
Ao conversar com a mãe de Vanderson e ter autorização para fazer as imagens, ela
diz: “Trabalho todos os dias e só chego em casa depois das quatro. Vanderson fica o dia todo
na casa de Rafael e ele fica trancado para a rua. Só venha depois desse horário ou fim de
29

semana para falar comigo”. Reafirmo que pretendo acompanhar o cotidiano do filho e que, se
ele passa a maior parte do tempo com Rafael, não haveria problema em filmá-lo na casa do
amigo, mas que, em alguns momentos, precisaria entrevistá-la. Retiro a câmera e faço
algumas perguntas para Vanderson e sua mãe. Ainda muito tímido, o garoto quase não fala.
Meu amigo insiste que eu deixe de filmar para poder conversar com o rapaz. Com a câmera
ligada eu digo: “É só uma conversa, Vanderson. Vou usar a câmera para você ir se
acostumando. Em breve, você não irá se intimidar”. Acho importante inserir a câmera num
primeiro contato.
Passado algum tempo, saímos em direção à festa na casa de uma tia de Rafael, na
Prainha. No trajeto, filmo ele e Vanderson caminhando pelo bairro. Ao chegar próximo de
uma esquina onde havia um grupo de jovens sou interpelado por Rafael, que diz: “Pode parar
de gravar aqui porque “os meninos6” que estão na esquina não gostam que gravem eles”.
Abaixo a câmera. Depois de passar pelos “meninos” aos quais Rafael fez referência volto a
filmá-lo junto a Vanderson.
Chegando no local da festa somos recebidos com muito carinho e empolgação pela
família de Rafael. A avó, tias, primos e primas, nos receberam e disseram que eu já poderia
filmar aquela algazarra toda e que só teria de editar depois pra não estragar “o filme”. Com a
câmera ligada, converso com a mãe de Rafael, que autoriza fazer o documentário com o filho.
A avó do rapaz, toda empolgada, diz: “Nós não temos nenhum tipo de preconceito. Aqui é
tudo gente simples e que vive assim: feliz”. Gravo vários momentos dessa confraternização e
a todo tempo me convidam a beber com eles.
Nas pausas que fiz para tomar o refrigerante, fui obrigado a largar o copo e pegar a
câmera para filmar. Nessas horas saíam as melhores conversas. Em algumas que tinha
perdido, retomo o assunto e digo: "como é mesmo o que a vocês tinham dito sobre tal
assunto?" Depois de horas com essa família, fico sabendo de um aniversário estilo festa
junina que haveria dia 30. Nessa ocasião, seria comemorado o aniversário de Patrícia, mãe de
Rafael, que mora na casa embaixo de onde mora a avó, Maria das Graças. Fomos convidados
a participar da comemoração e autorizados a filmar a festa. Ao chegarem alguns vizinhos, já
quase na hora de partir, Patrícia enfatizou: “Vocês vão no meu aniversário? Eles vão filmar
tudo para o documentário. Vocês vão, n ?”.
Observação: nas filmagens com Rayene e Rayele, tentei usar o shotgun da Ufop, mas o cabo
estava dando interferência. Optei por usar o microfone da câmera e vi que foi a melhor

6
Termo usado pelos moradores para se referir às pessoas que traficam no bairro.
30

escolha. As interferências não afetaram tanto as falas dos personagens e serviram para
intensificar o som dieg tico e enriquecer a narrativa próxima do “real”. A periferia tem muitos
sons, audíveis e inaudíveis. Nas entrevistas, as vozes saem audíveis. Vou optar por colocar -
futuramente - legenda em todo o documentário por duas razões: interferências que
comprometam a qualidade das falas dos personagens; ser inclusivo para que pessoas com
deficiência auditiva possam compreender a obra.

2º dia - 30 de julho de 2016

Ao chegar ao centro de Mariana, à noite, ligo para Rafael e digo que iria atrasar
porque precisava parar pra comer alguma coisa. Ele diz: “Tem muita comida na festa. Podem
vir direto!”. Quando ele diz o verbo no plural porque meu amigo, C sar Henrique, se propôs
a me ajudar durante as filmagens e, depois da primeira, ele, que é gay e está num processo de
autoconhecimento e aceitação, diz que foi uma terapia tudo que vivenciou naquele primeiro
dia. Sendo assim, ele surgirá em vários momentos desta narrativa me acompanhando não só
para ajudar a transportar e manusear equipamentos, mas também interagindo com as fontes no
processo anterior e posterior à câmera ligada.
Chegando à casa de Rafael, sua mãe, Patrícia, já estava vestida a caráter. Pintinhas no
rosto feitas à maquiagem, vestido colorido e digna de uma aniversariante de “Arraiá”.
Igualmente a caráter, eu e César estávamos vestidos de xadrez. Essa foi uma recomendação de
Rafael para que não ficássemos muito diferentes dos demais convidados. A mãe de Patrícia,
Maria das Graças, chega à casa da filha e nos recebe com abraços e muita alegria. Ela diz que
depois de uma “saidinha” - logo depois ficamos sabendo que se tratava de um encontro
amoroso - ela iria se vestir de homem e queria ser tratada como “macho”. No auge dos seus
quase sessenta anos, Maria das Graças, animada, sobe com a gente até sua casa, no segundo
andar.
Após mostrar a casa nos leva até a varanda - no terceiro andar - e faz questão de
mostrar o freezer cheio de cerveja e o bolo da aniversariante, que estava decorado com uma
estampa de uma cerveja muito vendida no país. Depois disso, mostra a decoração de
bandeirolas, bambus, luzes e tantos outros adereços que remetiam a uma festa junina. Em
seguida, Patrícia, a aniversariante, sobe e começa a preparar os últimos ajustes para a festa.
Ela e suas irmãs esquentaram caldos, canjica, acenderam a churrasqueira, dentre outras
preparações. Filmei boa parte dessa preparação inicial.
31

Ao começar a festa, Vanderson chega com short, camisa xadrez e tranças longas,
divididas. Ele se veste com roupas e acessórios tidos como femininos. Rafael veste uma
jardineira e camisa xadrez. Ambos começam a dançar e faço os registros dos dois. A pedido
da anfitriã e dona da festa, registrei também quem estava na festa. Em alguns momentos, as
imagens feitas da quadrilha, por exemplo, serviram para compor a narrativa. Há imagens
também de Vandeson, Rafael e sua irmã, Fernanda, que é bissexual, dançando juntos.
Imagens das crianças dançando ao som de funk até o chão não foram feitas.
Nesta noite, fui documentarista, registrando cenas fundamentais para revelar aquele
espaço em que os garotos estavam, e também fui quem filmou o aniversário de Patrícia, mãe
de Rafael, que tanto queria um registro daquele momento especial. Nessa negociação, saí
ganhando. Acompanhei os garotos pelas ruas do bairro em dois momentos: num primeiro,
quando foram à entrada da Prainha para buscar a irmã de Vanderson, que mora no bairro
Cabanas; num outro momento, quando foram buscar um amigo, de 14 anos, gay e que mora
com a mãe. No primeiro momento, ao passarmos pelas ruas, um grupo de homens que estava
em frente a uma casa gritou em tom de deboche: “Oi, meninas!”. Apenas Vanderson
respondeu. Infelizmente, a câmera não estava ligada. Pergunto se esse tipo de abordagem é
comum e Vanderson e Rafael dizem que sim. Ao chegar à porta da casa de Rafael, ligo a
câmera e pergunto se comum serem chamados de “meninas” ao caminhar pelo bairro.
Ambos dizem que sim mas que não se importam com isso e dão uma resposta empoderada a
respeito e que está no documentário.
Subimos para a festa, fiz novas imagens. Inclusive, num dado momento de
semiembriaguez, Vanderson quer ser declarar para irmã. Ele diz que a ama e que ela sempre
deu muito apoio para ele. Reafirma que sempre foi muito amigo da irmã e de Rafael e diz:
“Tudo que pegou pra mim, pegou pra ela tamb m”. Depois disso, desliguei a câmera e
participo da festa com eles. Já era quase três da manhã.

3º dia - 18 de agosto de 2016

Nesta visita, a intenção era levar os termos de uso de imagem, além de conversar sobre
a produção do documentário. No dia não levei equipamento e, como Rafael e Vanderson
estudam de manhã, decidi ir à tarde. Ao chegar ao bairro, fui direto à casa de Rafael, onde
encontrei sua mãe, Patrícia, a avó Maria das Graças, sua irmã Fernanda e a prima Flávia. Lá,
encontrei também com Vanderson, que passa a maior parte do dia com seu amigo Rafael.
32

Minha primeira fala foi sobre a importância da autorização de uso de imagem e,


principalmente, ressaltar que não há nenhuma possibilidade comercializar o documentário.
Portanto, não haveria nenhuma remuneração pela participação deles no filme. A única
contrapartida que a família receberia seria a filmagem do aniversário de Patrícia, relatado na
visita anterior. Ao fim dessa conversa inicial, todos assinaram os documentos sem nenhum
tipo de ressalva e, em seguida, exibi o teaser do documentário, feito com as imagens colhidas.
Durante a exibição dos quase três minutos de vídeo, os olhos de Rafael e Vanderson
brilhavam. Parecia que, ao se perceberem no filme, assumiam, naquele momento, um
protagonismo que, talvez, nem sempre tiveram dentro dos seus ciclos sociais. O mesmo
aconteceu com seus familiares que assistiram à exibição. Ao fim, perguntei se eles gostaram e
se eles se sentiam representados a partir do que viram. Todos, sem exceção, afirmaram ter
gostado e disseram estar dispostos a colaborar mais ainda com o documentário.
Depois da exibição do teaser, Patrícia foi até o mercado mais próximo para comprar
bolo e refrigerante. Antes disso, pediu que fizessem um café para mim. Durante o café
conversei com Rafael e Vanderson sobre a forma como gostariam de ser representados e se eu
estava no caminho certo. Rafael respondeu “ bem isso mesmo que imaginei”. A família dele,
incluindo tias e avó, também conversaram comigo a respeito do que foi feito e disseram ser
importante falar sobre o tema para acabar com o preconceito. Patrícia, mãe de Rafael,
aproveitou para comentar um episódio em que houve boatos de que matariam todos os gays
da Prainha e completou dizendo: “se fossem matar os gays da Prainha teriam que matar quase
todo mundo”.
Durante a conversa após o café, na sala, todos despojados e sem a presença da câmera,
ficaram mais à vontade para falar sobre questões LGBTs. Num dado momento, Vanderson
saiu da casa do Rafael e fui pego de surpresa por uma fala de Patrícia, que, ao comentar sobre
os riscos de ser gay na Prainha, afirmou que não queria que o filho dela, Rafael, fosse como
Vanderson e se comportasse de maneira feminina. Ela atribui a violência – verbal e física -
que Vanderson costuma sofrer na escola do bairro à forma dele reagir às provocações das
pessoas e por não se comportar como “homem”.
Para Patrícia, seu filho Rafael é querido na escola porque se comporta como homem e
“não dá motivos” para que falem dele no bairro. Ela tamb m atribui o desempenho escolar do
filho, que está no nono ano, em comparação com Vanderson, no sexto, pelo mesmo motivo.
Neste momento, questionei se o fato deles aceitarem Rafael interferiu nesse processo
educacional. Imediatamente ela disse “É… tem isso tamb m. A família de Vanderson custou
33

para aceitá-lo. Desde pequeno eu dizia: nossos meninos não são homens, não. É tudo viado!
Mas eles não acreditavam”.
Depois disso, Patrícia citou o exemplo de uma transexual que mora no bairro, dizendo
não entender porque tem “homem” que gay e tem necessidade de fazer cirurgia para retirar
os genitais ou “vestir de mulher”. Rafael, sua prima Flávia e sua irmã Fernanda disseram
acreditar que as pessoas nascem assim e que tem de respeitar. Vanderson retorna de onde
tinha ido e mudam de assunto.

4º dia - 24 de agosto de 2016

Neste dia, pré-agendado com Rafael, chego à Prainha com Matheus Loreto, outro
amigo que se dispôs a colaborar nas filmagens. Matheus tem uma câmera e microfone de
lapela. Quando chegamos na casa de Rafael, ele havia esquecido de avisar a família de que
iríamos lá para entrevistá-lo. Somos recepcionados pela sua mãe, Patrícia, que estava irritada
pelo filho não ter avisado e, acredito que, seu incômodo era pelo fato de termos encontrado a
casa desarrumada e com todos os familiares despojados usando roupas do cotidiano.
Passado o incômodo, Rafael, que estava dormindo, lava o rosto e, no tempo todo que
antecede as filmagens desse dia, sua mãe diz que ele devia ter, pelo menos, varrido a casa
para nos receber. Depois de algum tempo, pergunto a Rafael se podemos gravar no seu quarto
e que ele teria o tempo que quisesse para se arrumar antes das filmagens. Ele decide ajeitar o
cabelo enquanto montamos os equipamentos em seu quarto.
O quarto, pequeno, dispunha de uma cama de casal, guarda-roupas, mesa para bonecas
monster-high e uma outra para outros brinquedos, como carrinhos, dinossauros. Questiono
Rafael sobre o porquê de a mesa onde fica as bonecas estava limpa e organizada enquanto a
outra estava totalmente empoeirada e desorganizada. Ele ri e diz que há tempos não usa os
brinquedos da mesa onde tem carrinhos e dinossauros e completa comentando que tem muito
brinquedo que era de um irmão caçula, já falecido.
Após organizarmos os equipamentos e testá-los, iniciamos a conversa. Peço que
Rafael se sinta à vontade para a entrevista, inclusive, se ele quisesse, poderíamos mudar a
disposição da cama e objetos de filmagem. Num primeiro momento, havíamos colocado ele
na cabeceira da cama, porém, ao percebermos que ficaria distante das bonecas decido mudar a
organização da cama apoiando a parte inferior numa das paredes próximas das bonecas.
Depois disso, peço para que ele se sente, apoiado num travesseiro junto à parede, ao lado de
34

suas bonecas. Questiono se está numa posição confortável e ele diz que sim. Iniciamos a
conversa.
Após as primeiras perguntas, já familiarizado comigo e com a câmera, Rafael não se
intimida e responde a todas perguntas sem hesitação ou constrangimentos. As interrupções
durante as filmagens só ocorreram devido a picos de luz na casa. Alguns sons diegéticos,
como alguém tocando violão do lado de fora e carros passando, serviram para compor a
narrativa dentro desse ambiente de periferia, uma vez que não comprometeram as respostas
dadas por Rafael.
Observação: As gêmeas Rayene e Rayele desistiram de continuar as filmagens no
meio do processo. A justifica delas era, inicialmente, de que não ficavam muito tempo em
casa e que, por isso, seria difícil continuar. Na ocasião, disse a elas que poderia acompanhá-
las nas rotinas cotidianas fora de casa e que isso não seria problema. Porém, após algumas
insistências e mostrar o teaser que foi produzido, elas aceitaram continuar, desde que fosse
após as eleições. Num segundo momento, descobri através de Patrícia, mãe de Rafael, que o
pai das gêmeas havia se candidatado a vereador em Mariana. Sendo assim, decidi fazer as
últimas entrevistas com as gêmeas antes que elas desistissem novamente.

23 de outubro de 2016
Para esta visita, havia planejado fazer as últimas entrevistas com as gêmeas Rayene e
Rayele em frente à Capela de Santo Antônio. Esteticamente essas imagens seriam valiosas
pela sua composição, principalmente por ser uma região de relevo, onde é possível ver todo o
bairro e capturar todos os ruídos desse ambiente periférico. Também havia planejado
entrevistar Rafael e Vanderson no campinho de futebol do bairro. Porém, nenhum dos
planejamentos foi possível. No dia das filmagens, Ouro Preto e Mariana amanheceram sob
forte chuva. Com isso, tivemos de gravar as últimas imagens do documentário nas casas dos
sujeitos.
O ambiente escolhido para a primeira entrevista, com Rayele, foi a uma das varandas
de sua casa. No ambiente, havia diversos elementos que compõem o cenário de uma casa de
zona rural, com porcos, cães, carroças, galinhas, patos e muitos objetos usados em lavouras e
agropecuária. Neste dia, sua irmã Rayene não teve condições de participar, pois havia
adoecido e precisou ir ao hospital. No entanto, fizemos, eu e minha amiga Raquel Salazar que
se dispôs a me ajudar, uma entrevista com Rayele e sua namorada.
Durante a entrevista, houve muitas interferências externas, como a presença de
trabalhadores na casa, que ficavam o tempo todo atravessando o caminho para pegar algum
35

objeto. Além disso, tivemos dificuldades em encontrar um local com boa luminosidade e que
fosse protegido da chuva.
A entrevista se iniciou apenas com Rayele, sem a presença, ainda, de sua namorada.
Conversamos sobre como ela lida com o fato de ser lésbica num ambiente de periferia,
relação com família, militância no Instituto Federal de Educação de Minas Gerais - campus
Ouro Preto. Na conversa, ela suscitou a questão de ser, além de lésbica, negra. Neste
momento, ela deixou claro que se percebeu negra aos cinco anos de idade, quando notou que
a maioria das meninas da sala eram brancas e se encaixavam num padrão estético de beleza.
Nesta conversa e última filmagem, Rayele comentou sobre a comparação, na infância,
com as artistas Pepê e Neném. Ao final da entrevista com Rayele, sua namorada chegou e
participou de alguns diálogos.
Depois de entrevistar Rayele, partimos em direção à casa de Rafael, onde faria a
última filmagem. Neste dia, também havia agendado com Vanderson de encontrá-lo na casa
de sua mãe. Quando chegamos à casa de Rafael, estava tudo trancado. Isso já era por volta de
onze da manhã. Após insistência em continuar gritando do lado de fora, a irmã de Rafael,
Fernanda, abre a janela e diz que estavam dormindo e, por isso, ninguém estava ouvindo.
Digo que havia agendado entrevista com Rafael e ela nos recebe na porta e vai em direção ao
quarto do irmão para acordá-lo. Neste dia, a mãe de Rafael também participaria da conversa.
Quando todos acordam, incluindo Patrícia, mãe de Rafael, percebo que a noite anterior
havia sido bem agitada para todos. Patrícia estava de ressaca. Ela surgiu na cozinha vestida
com o lado do vestido, que deveria ser o frontal, virado para trás. Senta no sofá e começa a
contar sobre a noite anterior. Patrícia diz que “bebeu demais”. Em seguida, Rafael acorda e
diz que tinha perdido a hora da catequese e que o pai iria lhe matar por isso. Inclusive, a
sugestão de marcar a entrevista para onze da manhã partiu do rapaz, já que teria catequese
logo cedo.
Após alguns minutos de conversa, Patrícia pede um tempo para tomar banho e se
arrumar. Digo para ficar tranquila e afirmo que poderia levar o tempo que fosse necessário e
que o mesmo valeria para Rafael. Alguns minutos depois, inicio a conversa com os dois. O
tempo todo da entrevista, Patrícia reclama que está com ressaca. Digo a ela que poderia fazer
pausas ao longo da gravação. E, por isso, em alguns momentos, há pausas entre uma pergunta
e outra ou retomadas de assuntos porque ela perdia o raciocínio das coisas. Os assuntos
abordados foram relação familiar, aceitação da sexualidade de Rafael, namoro, dentre outros.
Neste mesmo dia havia combinado uma entrevista com Vanderson. Como ele não
apareceu, fomos atrás de sua mãe que estava na casa de uma amiga. Segundo ela, Vanderson
36

havia se envolvido em alguma confusão na noite anterior e foi preciso pagar um táxi para
levá-lo à casa da irmã, no bairro Cabanas. Ainda segundo a mãe, ele saiu de madrugada, antes
do dia amanhecer, porque senão ela não saberia o que poderia ter acontecido se ele tivesse
esperado amanhecer o dia. Por isso, não foi possível realizar outra entrevista com Vanderson.

Observações finais: Durante o processo de construção do documentário havia questionado a


mim mesmo se Vanderson se assumiria como Vanessa. Em todas as filmagens possíveis com
o jovem, ele se apresentou como gay e sempre se identificava pelo pronome masculino e, em
momento algum, em seu círculo familiar ou de amizades, ele foi chamado de Vanessa. Aquilo
que muitos definem como feminilidade, seja pelos trejeitos, modos de vestir e falar, parece
não ter o mesmo sentido para Vanderson. Ele se define homem homossexual. Sua identidade
de gênero, apesar de ser confundida por muitos, inclusive por mim, se mantém vinculada à
ideia do masculino. Possivelmente, ao enxergar aquilo que muitos entendem como feminino -
antes mesmo de ser perguntado sobre isso -, Vanderson se tornou Vanessa. O jovem parece
desconhecer a existência dessa figura, que só existe no imaginário de muitos que vivem na
Prainha.
De acordo com as disposições do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)7, que
reiteram a responsabilidade de todos na preservação da dignidade da criança e do adolescente,
não poderia expor os jovens a nenhum tipo de tratamento vexatório ou desumano. E, como
diretor, percebo que as escolhas que fiz na montagem não levam, de modo algum, a
interpretações de que os atos mostrados possam constranger os participantes do documentário.
Considero pertinente – e legítimo –, para o documentário, inserir a identificação8 e imagens
dos adolescentes9 - apesar da idade (ver “APÊNDICE B”) - nas festas onde socializam com
seus familiares e amigos, mesmo com a presença de bebida alcoólicas, uma vez que a
discussão central do produto traz os jovens como protagonistas e, além disso, há um termo em
que os pais autorizam o uso da imagem dos filhos.

7
Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 que dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente. Fonte:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069Compilado.htm.
8
De acordo com a ANDI – Comunicação e Direitos, organização que trabalha na promoção dos direitos da
infância e da juventude, é interessante identificar a criança ou adolescente entrevistado quando: ela entra em
contato com o repórter para exercer sua liberdade de expressão e seu direito de ter sua opinião ouvida; quando a
criança é protagonista de programas de ativismo ou de mobilização social (e deseja identificar-se); quando
participa de programas psicossociais e a menção de seu nome é parte de seu desenvolvimento saudável. Fonte:
http://www.andi.org.br/dicas-para-cobertura.
9
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) veda expressamente apenas a publicação de nome e imagem de
crianças e adolescentes a que se atribua autoria de ato infracional (art. 247), mas o jornalista deve estar atento ao
"espírito da lei", que estabelece: "É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a
salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor” (art.18). Fonte:
www.andi.org.br/dicas-para-cobertura.
37

Para além das discussões legais e éticas envolvidas nessas escolhas, acredito que não
trazer no documentário algumas problemáticas vivenciadas no convívio familiar, é repetir
uma visão romantizada do que é ser cidadão, jovem, LGBT, e de periferia. Faz-se necessário
revelar que, para além das questões que envolvem o ato de se assumir e se empoderar num
ambiente onde os preconceitos são verbalizados em alto e bom som e, muitas vezes,
manifestados com agressões físicas, o sujeito LGBT não está livre do contato com drogas
lícitas, como bebidas alcoólicas, e de tão fácil acesso. Ele está imerso nesse meio e, assim
como muitos outros jovens que não são de periferia, nem são LGBTs, eles também têm
contato com bebida alcoólica (ver “APÊNDICE A”) ainda na fase da adolescência. Ressalto
que fui orientado a ler o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e reafirmo que não
acredito que, na montagem, os sujeitos foram expostos a situações degradantes como o
Estatuto condena. Durante todas as filmagens eles estavam sendo acompanhados pelos pais,
responsáveis legais dos adolescentes, sendo o consumo de bebida autorizado por eles.
É preciso, também, ressaltar que, para as filmagens, foi preciso contar com a
colaboração de amigos (ver “APÊNDICE C”), tanto para ajudar a carregar equipamentos,
quanto para ajudar na edição, e fazer eventuais imagens. Sem contar que, por ter usado
diferentes tipos de microfones, na montagem, a oscilação de áudio entre uma cena e outra,
além das limitações de ajustes possíveis pelo programa de edição, alguns diálogos ficaram
comprometidos. Dentro das possibilidades, consegui regular os áudios cena a cena, porém,
ainda assim, é possível notar algumas pequenas oscilações. Muitas vezes, na hora de captar as
imagens, os cabos com mal contato também interferiram em diversas entrevistas, fazendo sair
ruídos que sobrepunham a fala dos entrevistados.
Montagem: no processo de montagem, fiz uma decupagem de todo material que havia
filmado. Após analisar tudo que tinha, tirei uma tarde de domingo para escolher cada cena que
iria compor a versão final. Usei algumas folhas de caderno para mapear quais se encaixavam
e optei por colocar em sequência as entrevistas que abordavam temas semelhantes: família, se
assumir, amores, medos. As entrevistas foram intercaladas por ambientações que diziam sobre
aquele lugar periférico do qual os meninos e meninas estavam inseridos. Desde o cachorro no
quintal das gêmeas às ruas e calçadas por onde Vanderson e Rafael circulavam. Numa
primeira montagem, apenas juntei as cenas. Depois, afinei o áudio, cena a cena, e apurei os
pequenos ruídos entre uma e outra. Além disso, escolhi duas canções (abertura e
encerramento) que dialogassem com a temática.
38

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir de todo processo vivenciado ao longo desses meses, percebi o quanto o


audiovisual, especialmente o cinema documentário, nos possibilita construir narrativas
próximas daquilo que a sociedade acredita - ou espera - ser o real. Porém, para além do
recorte possível que se faz, existem tantas outras possibilidades que podem, também, se
aproximar daquilo que se espera como algo próximo da realidade. E que, necessariamente,
aquilo que se obtém no processo final não se encaixa perfeitamente na montagem pensada e
refletida pelo diretor antes de ir à campo.
Quando decido narrar o cotidiano de pessoas gays e lésbicas de periferia, não
esperava, necessariamente, fazer um recorte em que os sujeitos seriam, exclusivamente
adolescentes. Isso ocorreu após imersão no cotidiano da Prainha e que, a partir de alguns
contatos, fui levado por esse caminho. Obviamente, de um certo ponto em diante, fiz a minha
escolha em continuar neste caminho possível. Poderia ter voltado no processo, ou aproveitado
os contatos estabelecidos, e feito um recorte diferenciado, onde adultos seriam os sujeitos
centrais dessa discussão. Mas, não foi o que eu, como diretor, optei por fazer. A realidade da
qual falo parte de uma visão particular de quatro sujeitos que, apesar de pouca idade, resistem,
lutam, e se empoderam a cada dia.
As gêmeas Rayene e Rayele e os jovens Rafael e Vanderson representam, dentro desse
simulacro possível - retratado numa sequência de sons e imagens -, uma parte daquilo que se
considera, hoje, comunidade LGBT. Todos eles estão num processo de construção da suas
identidades, sejam elas sexuais ou de gênero. Mas, independente da fluidez dos gêneros e
sexualidades que podem assumir no futuro, ou a afirmação das identidades construídas, eles
são, hoje, sujeitos que lidam, cotidianamente, com todas as situações adversas que uma
periferia de uma cidade histórica mineira possui.
Tanto o preconceito por causa da orientação sexual quanto pela identidade de gênero
que cada um assume, são marcas que cada um deles levará no dia a dia e que, ao resistirem,
faz com que o confronto seja parte do cotidiano. Afinal, vivenciam uma realidade em que se
sentem mais suscetíveis a serem vítimas de agressões físicas e verbais. Isso, inclusive, é
relatado nas entrevistas como um temor de alguns deles.
Apesar de temerem, cada um se apresentou diante das câmeras de forma corajosa, e
mais: orgulhosa. Não estavam dispostos apenas a contarem todos seus temores, mas, também,
queriam partilhar suas afetividades, mostrar que, apesar de todas adversidade na família,
escola, bairro, eles também se divertem, dançam e buscam se empoderar. Entenderam, ao
39

longo do processo, a potência do que é estar num filme. Com o cuidado e orientação da
família, abriram o baú de suas histórias para o documentarista e, se mostraram, dentro de um
recorte possível - e que não anula os tantos outros que o audiovisual foi incapaz de capturar -
que viver em periferia é uma luta constante. Mas, que, apesar disso, o que estavam fazendo
era importante não só para eles, afinal, era um registro de suas vidas, mas que, a partir dessa
montagem possível, tantos outros LGBTs de periferia poderiam se ver no vídeo e se sentirem
representados. E, além disso, se sentirem mais empoderados.
40

REFERÊNCIAS

ARNEY Lance; FERNANDES Marisa; James GREEN N. Instrumento de pesquisa -


Homossexualidade no brasil: uma bibliografia anotada. Cad. Arquivo Edgard Leuenroth
(AEL). Campinas: Unicamp. v.10, n.18/19, 2003. ISSN: 1413-6597. Justificativa: Para
compreender melhor a temática acredito que esse artigo será de extrema utilidade, já que traz
um trabalho de especialistas que analisaram a produção intelectual sobre as
homossexualidades no campo da história e das Ciências Sociais.

BARROSO, Luís Roberto. Diferentes, mas iguais: o reconhecimento jurídico das relações
homoafetivas no Brasil. Revista Brasileira de Direito Constitucional – RBDC. São Paulo,
n. 17, p. 105-138, jan-jun. 2011. ISSN 1983-2303. Justificativa: Sendo a aprovação do
casamento igualitário no país uma das maiores conquistas do movimento LGBT, é importante
pesquisar os aspectos jurídicos e o embasamento legal que fundamentaram sua aprovação. Por
isso, o artigo do então ministro do STF é tão relevante.

BARROSO, Fernando. L. A.; Santos, Diógenes S.; OLIVEIRA, V. H.S.. Estratégias de


distinção política e cultural na imprensa homossexual ou a visão do jornal Lampião da
Esquina sobre si mesmo. REVISTA DO ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE
JANEIRO, v. 5, p. 113-125, 2011. Disponível em:
<http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4204432/4101452/revista_AGCRJ_N_5_2011.pdf>
Acesso em: 17 jul. 2016.

BILL, Nichols.Introdução ao documentário; tradução Mônica Saddy Manins.Campinas. SP:


Papirus. 2005. Justificativa: O livro irá me ajudar a ter um primeiro contato com a
linguagem documental e isso me permitirá adquirir habilidades teóricas para construir uma
boa narrativa em meu produto.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade. Tradução


Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

CÂMARA, C. Cidadania e orientação sexual: a trajetória do grupo Triângulo Rosa. Rio


de Janeiro: Academia Avançada, 2002.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção,


documentário/Jean-Louis Comolli; seleção e organização, César Guimarães, Rubens
Caixeta; tradução, Augustin de Tugny, Oswaldo Teixeira. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2008.

CORREIA, João Carlos. A construção social da realidade: por um modelo integrado. In:
CORREIA, João Carlos. Teoria e crítica do discurso noticioso: notas sobre jornalismo e
representações sociais. Covilhã: LabCom Books, 2009, p. 169-184.

DA-RIN, Silvio. Espelho partido: tradição e transformação do documentário. Rio de


Janeiro: Azougue Editorial, 2006 (1ª. Ed. 2004).

DF. SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.


(Ed.). RELATÓRIO SOBRE VIOLÊNCIA HOMOFÓBICA NO BRASIL: ANO DE
2012. Brasília: Sdh, 2013. 101 p. Disponível em:
<http://www.sdh.gov.br/assuntos/lgbt/pdf/relatorio-violencia-homofobica-ano-2012>. Acesso
em: 11 jul. 2016.
41

FACCHINI, Regina. Histórico da luta de LGBT no Brasil. Conselho Regional de


Psicologia da 6ª Região (org).Psicologia e diversidade sexual. Conselho Regional de
Psicologia da 6ª Região – São Paulo: CRPSP, 2011.(Caderno Temático 11). Disponível em:
<http://www.crpsp.org.br/portal/comunicacao/cadernos_tematicos/11/frames/caderno_tematic
o_11.pdf>. Acesso em: 17 jul. 2016.

FRANCO, Neil. A diversidade entra na escola: Histórias de professores e professoras que


transitam pelas fronteiras das sexualidades e do gênero. 2009. Dissertação (Mestrado em
Educação) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2009.

FURASTÉ, Pedro Augusto. Normas técnicas para o trabalho científico: elaboração e


formatação - Explicitação das normas da ABNT. 14ª ed. Porto Alegre: Editora do autor, 2008.

JESUS, Jaqueline Gomes de. Orientações sobre a população transgênero : conceitos e


termos. 2012. Brasília: e-book. Disponível em:
<https://issuu.com/jaquelinejesus/docs/orienta__es_popula__o_trans>. Acesso em: 17 jul.
2016.

GRUPO GAY DA BAHIA (GGB) (Org.). Assassinatos de LGBT no Brasil: Relatório


2015. Salvador, 2016. 17 p. Disponível em:
<http://pt.calameo.com/read/0046502188e8a65b8c3e2>. Acesso em: 27 jul. 2016.

GUIMARAES, Anderson Fontes Passos. O desafio histórico de "tornar-se um homem


homossexual": um exercício de construção de identidades. Temas psicol. [online]. 2009,
vol.17, n.2, pp. 553-567. ISSN 1413-389X.

LAGO, Cláudia; BENETTI, Marcia (orgs.). Metodologia de pesquisa em jornalismo.


Petrópolis – RJ: Vozes, 2007.

LEAL, Bruno Souza; CARVALHO, Carlos Alberto. Sobre Jornalismo e homofobia ou: pensa
que é fácil falar? . Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós Graduação em
Comunicação | E-Compós. Brasília, v.12, n.02, p. 1-15, maio-ago. 2009. ISSN 1808-2599.

LINS, Consuelo; MESQUITA, Cláudia; Filmar o Real: Sobre o documentário brasileiro


contemporâneo; Editora Zahar; 2011.

LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade. In: O corpo educado: pedagogias da


sexualidade; Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. 3º Edição. Belo Horizonte, MG. Autêntica
Editora, 2010. p. 09-34.

MELLO, Luiz. Outras famílias. A construção social da conjugalidade homossexual no


Brasil. Cadernos Pagu, Campinas: IFICH/Unicamp, n.24, 2005, p. 197-225.

MISKOLCI, Richard. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. 1ª Edição. Belo


Horizonte, MG. Autêntica Editora UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto, 2012.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal...o que é mesmo documentário?. 2ª ed. São Paulo:
Editora Senac, 2008.
42

Secretaria de Direitos Humanos. Relatório sobre violência homofóbica no Brasil: ano de


2012. [2013a]. Disponível em: <http://www.sdh.gov.br/assuntos/lgbt/pdf/relatorio-violencia-
homofobica-ano-2012>. Acesso em: 17 jul. 2016.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais.
Org. Tomaz Tadeu da Silva. Stuart Hall, Kathryn Woodward. 10ª Edição. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2011.

SILVA, Gislene. Problemática metodológica em jornalismo impresso. Rumores – Revista


Online de Comunicação, Linguagem e Mídias, v. 1, p. 1, 2008. Disponível em:
<http://200.144.189.42/ojs/index.php/rumores/article/viewFile/6525/5930>. Acesso em: 27
fev. 2013.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. 5ª Edição. Campinas, SP: Papirus, 2003.

STRELOW, Aline. Análise global de processos jornalísticos: uma proposta metodológica.


Tese (Doutorado). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-
Graduação em Comunicação Social, Porto Alegre, 2007.

UZIEL, Anna Paula et al. Parentalidade e conjugalidade: aparições no movimento


homossexual. Horiz. antropol.[online]. 2006, vol.12, n.26, pp.203-227. ISSN 0104-7183.
Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832006000200009> Acesso em: 17 jul.
2016.
43

APÊNDICE A - Roteiro

CENA TEMPO DESCRIÇÃO

Cena 1 00:00 - 00:18 Tela preta com o nome do documentário


“LGBT de periferia: resistência, luta e
empoderamento”, com a trilha musical Não
recomendado, de Caio Prado, onde é usado
o seguinte trecho: “Pervertido, mal amado,
menino malvado, muito cuidado!
Má influência, péssima aparência, menino
indecente, viado!”

Cena 2 00:19 - 00:25 Imagem panorâmica do bairro Santo


Antônio, conhecido como Prainha.

Cena 3 00:26 - 00:29 Imagem de corte para cena com quadro de


fotos das gêmeas na formatura, pendurados
na parede.

Cena 4 00:30 - 00:35 Imagem de corte para um cartaz com frase


feminista na parede

Cena 5 00:36 - 00:41 Imagem de corte para galinha no quintal

Cena 6 00:42 - 00:44 Imagem de corte para estante com objetos

Cena 7 00:45 - 00: 47 Imagem de corte para a bica d’água

Cena 8 00:48 - 01:17 Uma das gêmeas e namorada tomam café

Cena 9 01:18 - 01:48 CRÉDITO: Rayne

Rayene fala da atuação no grêmio estudantil


e dificuldades de estudantes se manterem no
Instituto onde estuda

Cena 10 01:49 - 02:02 Imagem de corte com zoom na galinha na


varanda e, em seguida, abre-se a imagem até
chegar numa das gêmeas estudando na
cozinha

Cena 11 02:03 - 02:30 Imagem de corte em uma das gêmeas


estudando com zoom no livro enquanto ela
canta e estuda

Cena 12 02:31 - 03:38 CRÉDITO: Rayele


44

Rayele fala sobre ter se percebido negra aos


quatro anos e preconceito na Prainha

Cena 13 03:39 - 03:43 Imagem de corte para cenas do bairro onde


aparece a região mais urbanizada

Cena 14 03:44 - 04:14 Rafael e Vanderson caminham pela rua e


questionam o que as pessoas vão achar de
serem seguidos por alguém filmando

Cena 15 04:15 - 04:26 Imagem de corte para a cena da


churrasqueira

Cena 16 04:27 - 04:47 Avó de Rafael fala sobre a família não ter
preconceito

Cena 17 04:48 - 05:15 Família reunida comenta que Vanderson


também faz parte da família e avó de Rafael
conclui a fala sobre preconceito

Cena 18 05:16 - 05:20 Família brinca e diz que Vanderson mora na


casa de Rafael

Cena 19 05:21 - 05:39 Mãe de Rafael comenta sobre a coleção de


bonecas do filho

Cena 20 05:40 - 05:59 Rafael arruma as bonecas

Cena 21 06:00 - 06:23 Rafael escreve frases no guarda-roupas

Cena 22 06:24 - 08:37 CRÉDITOS - Rafael

Rafael comenta sobre seu gosto pelas


bonecas/Ser afeminado/Amizade com
Vanderson/Namoros

Cena 23 08:38 - 09:05 Rayele fala sobre como é namorar na


Prainha

Cena 24 09:06 - 09:33 Rafael fala sobre medo de sair/ir à


balada/homofobia

Cena 25 09:34 - 10:50 Rayene fala sobre LGBT se assumirem no


contexto da Prainha e também comenta
sobre o processo pessoal de se assumir para
todos

Cena 26 10:51 - 11;12 CRÉDITOS: Vanderson

Vanderson fala sobre se assumir e a relação


com o pai.
45

Cena 27 11:13 - 13:14 Rafael fala sobre se assumir para a família

Cena 28 13:15 - 14:14 Vanderson fala sobre relação com irmã e


comenta que as pessoas não aceitam ele ser
LGBT

Cena 29 14:15 - 14:25 Imagem de corte para a cena na casa das


gêmeas onde aparecem o fogão à lenha e a
bica d’água

Cena 30 14:26 - 14:30 Imagem de corte para a cena do cachorro no


quintal

Cena 31 14:31 - 15:02 Rayene e Rayele discutem por terem que


revezar o uso do livro e notebook

Cena 32 15:03 - 16:07 Rayele fala sobre empoderamento feminino


quando ela e Rayene eram comparadas às
cantoras Pepê e Nenem

Cena 33 16:08 - 16:19 Imagens de corte para ruas da região


urbanizada da Prainha

Cena 34 16:20 - 16:29 Mãe de Rafael fala sobre a relação do pai


com o filho

Cena 35 16:30 - 16:44 Família de Rafael comenta sobre o que


vestir na festa de aniversário e quadrilha que
estavam planejando

Cena 36 16:45 - 16:53 Close no rosto de Vanderson porque, na


cena anterior, a família fala sobre se vestir
de “homem” ou “mulher”

Cena 37 16:54 - 17:06 Avó de Rafael fala que já “pegou mulher” e


que não tem arrependimentos

Cena 38 17:07 - 17:23 Rafael e Vanderson fazem selfie para o


aplicativo snapchat

Cena 39 17:24 - 17:35 Família de Rafael, no churrasco, comenta


que Vanderson nunca esteve no armário

Cena 40 17:36 - 17:53 Mãe de Rafael diz que “no Carnaval todo
mundo se revela” e Rafael fala que nessa
ocasião o salto machucou o pé

Cena 41 17:54 - 18:34 Cenas da família no churrasco e fala da mãe


de Rafael onde ela convida as amigas para a
festa de aniversário onde eu estaria
“gravando o documentário”
46

Cena 42 18:35 - 19:12 Imagem de corte para cena da festa de


aniversário da mãe de Rafael, onde a irmã
coloca bebida no copo e, em seguida, Rafael
e Vanderson aparecem socializando com os
convidados e começam a dançar

Cena 43 19:13 - 19:44 Hora do parabéns

Cena 44 19:45 - 20:36 Imagem de corte para cenas da festa onde


Rafael dança até o chão

Cena 45 20:37 - 20:49 Vanderson, com um copo de bebida na mão,


oferece para Rafael, que experimenta e diz
que a bebida está muito forte

Cena 46 20:50 - 20:55 Vanderson fuma e bebe enquanto dança

Cena 47 20:56 - 21:22 Rafael espera Vanderson conversar com um


rapaz

Cena 48 21:22 - 21:40 Vanderson e Rafael caminham pelas ruas do


bairro

Cena 49 21:41 - 21:49 Rafael convida o primo do Vanderson para a


festa que está acontecendo em sua casa

Cena 50 21:50 - 22:05 Vanderson e Rafael falam sobre a


abordagem que ocorreu no caminhar pelo
bairro à noite, enquanto a festa acontecia,
em que alguns homens gritaram: “ei,
meninas!”

Cena 51 22:06 - 22:42 Enquanto caminham, Vanderson fala para


Rafael sobre um saída com um rapaz
durante uma madrugada

Cena 52 22:43 – 22:56 Imagem de corte para cena da festa

Cena 53 22:57 - 23:05 Vanderson fala que quando era pequeno era
“o gay” e, agora que cresceu, resolveu virar
“homem”

Cena 54 23:06 - 23:12 Imagem de corte da vista da varanda (sem


som) no fim da festa

Cena 55 23:13 - 24:19 Vanderson se declara para a irmã e ela


comenta sobre a relação com o irmão LGBT

Cena 56 24:20 - 24:35 Imagem de corte para o quintal da casa das


gêmeas, pela manhã, onde aparecem
cavalos, no fim, a capela do bairro.
47

Cena 57 24:36 - 24:43 Imagem de corte onde aparece uma pipa


pendurada na varanda da casa das gêmeas e
galo cantando ao fundo

Cena 58 24:44 - 25:48 Rayele fala sobre a relação com o rap e


critica as letras machistas e LGBTfóbicas de
algumas músicas

Cena 59 25:49 - 26:09 Vanderson fala sobre o gosto pelo estilo


musical funk

Cena 60 26:10 - 27:24 Rafael fala sobre o que o faz feliz

Cena 61 27:25 - 27:40 Rayele fala sobre o que a faz feliz junto à
namorada e, ao final da fala, dizer que ela a
faz feliz, escuta um “eu te amo”

Cena 62 27:41 - 28:13 Vanderson finaliza o documentário dizendo


o seu sonho que, no caso, é ter uma família.

Cena 62 CRÉDITOS FINAIS - Insiro o nome dos


participantes do documentário. A trilha
musical escolhida é a canção Enviadecer, do
cantor MC Linn da Quebrada.
28:14 - 28:17 Texto 1:

Participantes:
Rayene Sacramento
Rayele Sacramento
Rafael Júnior
Vanderson Fonseca
28:18 - 28:21
Texto 2:

Direção, produção e montagem: Aleone


Higidio
Edição: Clarissa Castro
Orientação: Profa. Karina Barbosa
Músicas: Não recomendado - Caio Prado/
Enviadecer - MC Linn da Quebrada
28:22 - 28:26
Texto 3:

Agradecimentos:
César Henrique
Raquel Salazar
Matheus Loreto
28:27 - 28:42 Monique Torquetti

Texto 4:
48

Este filme foi realizado na disciplina de


Trabalho de Conclusão de Curso, do curso
de Jornalismo, na Universidade Federal de
Ouro Preto em 2017.
49

APÊNDICE B - Idade dos participantes

Participante Idade

Rayene Sacramento 16

Rayele Sacramento 16

Rafael Júnior 16

Vanderson Fonseca 16
50

APÊNDICE C - Ficha técnica

Título LGBT de periferia: resistência, luta e


empoderamento

Cor/PB Cor

Origem Brasil

Ano de Produção 2016

Gênero Documentário

Duração 28min50s

Classificação livre

Direção, produção, pesquisa e montagem Aleone Higidio

Edição Clarissa Castro

Trilha musical Enviadecer (MC Linn da Quebrada)/Não


recomendado (Caio Prado)

Participantes Rayene Sacramento


Rayele Sacramento
Rafael Júnior
Vanderson Fonseca

Professora Orientadora Karina Barbosa

Colaboradores César Henrique


Raquel Salazar
Matheus Loreto
Monique Torquetti
51

ANEXO A - Tabela 1: Cronologia do Movimento Homossexual Brasileiro entre as décadas


de 1960 a 2010

Período/Data Acontecimento e Fatos

Anos 60 - Organização entre homossexuais masculinos para socialização.

Anos 70 - Primeiras formas de organização política entre homossexuais


masculinos. - Criação do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB).

1979 - Grupo Somos anuncia sua existência em debate na USP.

1980 - Criação do Grupo de Ação Lésbico-Feminista.

1980/1992 - Realização de seis edições do Encontro Brasileiro de Homossexuais


(EBHO).

1993 - Realização do VII Encontro Brasileiro de Lésbicas e Homossexuais. -


Realização do I Encontro Nacional de Travestis. - Criação do Festival de
Cinema GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes).

1995 - Realização do VIII Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas. -


Realização do I Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas que trabalham
com AIDS. - O movimento torna-se Movimento de Gays e Lésbicas
(MGL).

1997 - Realização do IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis. -


Realização do II Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas que trabalham
com AIDS.

1998 - Adequando-se ao movimento internacional, adota-se a sigla GLBT


(Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros – Travestis e Transexuais).

2008 - Realização da I Conferência Nacional de Políticas Públicas para GLBT.


- Mudança da sigla para LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transexuais).
Fonte: Franco (2009)

Você também pode gostar