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Paulo Freire: PEDAGOGIA DA AUTONOMIA

PEDAGOGIA DA AUTONOMIA: SABERES NECESSÁRIOS À PRÁTICA


EDUCATIVA

CAPiTULO 1 - NAo HÁ DOCÊNCIA SEM DISCÊNCIA


O autor ressalta a importância da reflexão crítica na formação
docente na prática educativa. .
Como exemplo cita o ato de cozinhar, que exige o conhecimento do
fogão, da regulagem da chama, da harmonização dos temperos. Mas
é a prática de cozinhar, ratificando alguns daqueles saberes e
retificando outros, que transforma o) novato em cozinheiro.O autor
alinha e discute saberes fundamentais à prática educativo-critica
ou progressista que considera obrigatórios na organização dos
programas de formação docente:
» Ensinar inexiste sem aprender e vice- versa. Quem ensina aprende
ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Foi aprendendo
socialmente, ao longo dos séculos, que historicamente o Homem
descobriu que era possível ensinar usando maneiras, caminhos e
métodos. Não há validade no ensino, se este não resulta em
aprendizado.
» Ensinar é um processo que deve deflagrar no aprendiz uma
curiosidade crescente que poderá torná-lo mais e mais criador. Caso
o educando mantenha viva em si a curiosidade, a rebeldia, a
capacidade de arriscar-se, de aventurar-se, poderá ficar imune ao
ensino "bancário". Fazem parte da força criadora do aprender a
comparação, a repetição, a constatação, a dúvida rebelde, que
superam o falso ensinar;
»Ensinar exige trabalhar com os educando. a rigorosidade metódica
com
que devem se aproximar do conhecimento. Não se trata apenas de
transmitir o
conteúdo, mas faze-lo de forma critica. Exige que os educadores
sejam
criadores, instigadores, inquietos, humildes e persistentes. -
» Ensinar exige pesquisa.: Faz parte da natureza da prática docente a
indagação,
a busca, a pesquisa. É preciso ue em sua formação permanente, o
professor
assuma como pesquisador
» Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos .construídos na
prática
comunitária. Exige também discutir com os alunos a razão de ser
desses
saberes, em relação com o ensino dos conteúdos. Ex.:.aproveitar a
experiência
que têm os alunos de viver em áreas das cidades descuidadas pelo
poder
público para discutir a poluição dos riachos, os lixões, os riscos à
saúde que
ocasionam.
» Ensinar exige criticidade.:.A passagem da curiosidade ingênua à
criticidade
não se dá automaticamente. Uma das tarefas da prática educativo -
progressista é desenvolver a curiosidade crítica, insatisfeita, indócil.
Com ela
podemos nos defender do excesso de "racionalidade" do nosso tempo
altamente
tecnológico.
» Ensinar exige estética e ética. O ensino dos conteúdos não é puro
treinamento técnico, não pode dar-se alheio à formação moral do
educando.
Exige profundidade e não superficialidade na compreensão te
interpretação dos
fatos.

» Ensinar exige que as palavras sejam acompanhadas pelo exemplo.


Pensar
certo é fazer certo. O professor que rea1mente ensina, descarta o
"faça o que eu
mando e não o que eu faço".
» Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma
de
discriminação. Lembrando que o velho que é válido e que marca sua
presença
no tempo, continua novo. Quanto ao preconceito de raça de gênero e
classe,-
ofende a substantividade do ser humano e nega a democracia. I
» Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática._Na educação, a
reflexão critica
sobre a prática impede que a teoria se torne blablablá e a prática se
torne
ativismo. Envolve o movimento dinâmico entre o fazer e o pensar
sobre o fazer.
A prática docente espontânea e "desarmada" produz um saber
ingênuo feito só
de experiência. Através da reflexão sobre a prática, a curiosidade
ingênua,
percebendo-se .como tal, vai se tornando crítica. Na sua formação
docente
inicial é preciso que o futuro professor saiba que o pensar certo não é
um
presente dos deuses, nem de iluminados intelectuais e nem se
encontra pronto
nos manuais. Ele tem que ser construído pelo próprio aprendiz em
comunhão
com o professor formador. Na formação permanente dos professores,
o
momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. Após
assumir que
a minha prática não condiz, devo ser capaz de mudar. Ex.: o simples
fato de o
fumante assumir que o cigarro ameaça a sua vida não significa parar
de fumar;
ele deve fazer a ruptura do fumo e assumir novos compromissos. O
emocional
( a legítima raiva do fumo ) é um elemento fundamental na mudança.
Na
educação, a justa raiva contra as injustiças, contra a deslealdade, o
desamor,
a exploração e a violência tem um papel altamente formador.

» Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade


cultural.-Uma
das funções da educação crítica é dar condições aos alunos que se
assumam
como ser social e histórico: pensante, transformador, criador,
realizador de
sonhos. Isso se dá na relação uns com os outros e com o professor.
Esta
experiência histórica, política e social não se dá ao largo das forças
que a
favorecem ou daquelas que lhe são obstáculo. Os gestos de
aprovação, de
respeito aos sentimentos, às emoções do aluno, o cuidado com o
espaço escolar
ajudarão o educando a assumir-se a si mesmo e à sua classe social..
CAPÍTULO 2- ENSINAR NÃO Ê TRANSFERIR CONHECIMENTO ...
Mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua
construção.
» Ensinar exige consciência do inacabamento do ser humano. Onde
há vida,
esta não está acabada. Daí ser imperiosa a prática formadora
carregada de
ética e de esperança, pois é possível intervir e melhorar o "destino".
Disso, o
educador consciente não pode fugir.
» Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado.:.Como ser
inacabado e
consciente da sua inconclusão, o ser humano é submetido a
condições,
obstáculos para evoluir. Ele deve se inserir num movimento de busca
constante e ter a consciência de que esses obstáculos não são
eternos nem
intransponíveis. Ex.: temos que nos opor ao fatalismo do discurso
neoliberal ,
quando afirma que nada se pode fazer contra o desemprego.
» Ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando. O respeito
à
autonomia de cada um não é um favor, mas um imperativo ético. O
professor
que desrespeita o gosto estético do aluno, sua linguagem, sua
inquietude, que
ironiza o aluno e o manda "se colocar no seu lugar" pratica uma
transgressão.
Também rompe com a ética aquele professor que não cumpre o seu
dever de
colocar limites à liberdade do aluno ou que se furta do seu dever de
ensinar

» Ensinar exige om senso. E o bom senso que me faz analisar a todo


instante a
minha prática e a tomar as decisões. É o bom senso que adverte o
professor de
que:Exercer a autoridade tomando decisões, orientando atividades,
cobrando a
produção individual e coletiva da classe não é sinal de autoritarismo.
Não aceitar o trabalho do aluno fora do prazo, apesar das
justificativas
que apresentou serem convincentes é insensibilidade.
É negativo, da mesma forma, o desrespeito pleno pelos princípios
reguladores da entrega dos trabalhos .
Há algo a ser compreendido no comportamento do aluno assustado,
distante, medroso, escondendo-se até de si mesmo.
» Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos
dos
educadores. A luta em favor da educação e dos educadores passa
pela luta
por salários dignos. O descaso do poder público nesse sentido é tanto
que
podemos correr o risco de cruzar os braços achando que "não há o
que fazer".
Entretanto, uma das formas de luta é a nossa recusa de transformar
a nossa
prática docente em um "bico" ou de exercê-Ia como prática afetiva de
"tia ou
tio". É como profissionais idôneos que se organizam politicamente
que está a
força dos educadores. Os órgãos de classe deveriam priorizar o
empenho de
formação permanente dos quadros do magistério como tarefa política
e
repensar a eficácia das greves. Não é parar de lutar, mas reinventar
a forma
histórica de lutar.
» Ensinar exige apreensão da realidade. Se o professor tem uma
prática
progressista, sua prática não pode ser neutra. Deve estar atento ao
fato de que
seu trabalho pode ser um estimulo à superação. Deve haver o
respeito à pessoa
que queira mudar ou que se recuse a mudar. Contudo, o professor
não deve
esconder-lhe a sua postura. Ex.: numa conversa pública, um jovem
disse a
Paulo Freire: " Não entendo como o senhor defende os sem- terra, no
fundo uns
baderneiros" . "Pode haver baderneiros entre os sem- terra",
respondeu o
professor, "mas sua luta é legítima e ética; baderneira é a resistência
de quem se opõe a ferro e fogo à reforma agrária". Embora a
conversa tenha terminado
aí, foi importante que o professor tenha dito o que pensava.
» Ensinar exige alegria e esperança. Sem a esperança não haveria a
História,
mas puro determinismo. A desesperança nos imobiliza. A pessoa
progressista
que não teme a novidade, que se sente mal com as injustiças, que se
ofende
com as discriminações, que recusa o fatalismo, deve ser criticamente
esperançosa.
» Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível.=.O
educador
progressista vê a História como possibilidade e não como
determinação. O
futuro para ele é problemático, mas não inexorável. Constata o
mundo, não
para adaptar-se, mas para mudar. Percebe as resistências das
classes
populares como manhas necessárias à sobrevivência. Ex.: o
sincretismo
religioso afro- brasileiro expressa a resistência ou manha com que a
cultura
africana se defendia do colonizador branco. Uma das questões
centrais é
evoluir de posturas rebeldes para posturas revolucionárias que nos
engajam no
processo de transformação do mundo. Não se trata de impor à
população
oprimida que se rebele para mudar o mundo. Trata-se de,
simultaneamente ao
trabalho que se realiza - alfabetizar, evangelizar - desafiar os grupos
populares
a perceberem em termos críticos a violência concreta. Não como
destino ou
vontade de Deus, mas como algo que pode ser mudado. O poder
dominante
tenta inculcar no dominado a culpa pela sua situação. Isso deve ser
desvelado
também. O educador progressista, entretanto, descarta a -tática do
"quanto pior
melhor"; nem tampouco deixa relegado a um segundo plano o
ensino,
transformando a classe num "comício-libertador".
» Ensinar exige curiosidade. O educador entregue a procedimentos
autoritários
dificulta o exercício da curiosidade do educando e tolhe sua própria
curiosidade. O bom clima pedagógico é aquele em que o educando
vai
aprendendo na prática que o limite da sua curiosidade e da sua
liberdade é a
privacidade do outro.

ormas de autoritarismo e licenciosidade, que precisamos superar


principalmente através do diálogo.

CAPÍTULO 3 - ENSINAR Ê UMA ESPECIFICIDADE HUMANA


» Ensinar exige segurança, competência profissional e generosidade.
Nenhuma autoridade docente se exerce se não existe a competência
profissional. O professor deve levar a sério sua tarefa, estudar, se
esforçar para
estar à altura dela, ou não terá força moral para coordenar as
atividades de sua
classe. Outra qualidade indispensável à autoridade é a generosidade.
Esta descarta tanto a arrogância no trato com “os outros”, como à
indulgência macia no trato com “os seus”. O clima de respeito nasce
de relações justas, sérias,
humildes, generosas, em que a autoridade docente e as liberdades
dos alunos
se assumem eticamente.
» Ensinar exige comprometimento._Não posso ser professor sem me
colocar
diante dos alunos, sem revelar minha maneira de ser, de pensar
politicamente,
sem me submeter à apreciação dos alunos. Não posso passar
despercebido
pelos alunos e isso aumenta em mim os cuidados com o meu
desempenho.
Minha presença de professor é uma presença política; não posso ser
uma
omissão, mas um sujeito de opções.
» Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de
intervenção no
mundo. Neutra, a educação nunca foi, é, ou será. Exige do professor
uma
definição, uma tomada de posição. A intervenção, além do
conhecimento dos
conteúdos bem ou mal ensinados e/ou aprendidos implica tanto o
esforço de
reprodução da ideologia dominante, quanto o seu desmascaramento.
É o aspecto
contraditório da educação. Nem somos seres determinados, nem
livres de
condicionamentos genéticos, culturais, de classe, de gênero, que nos
marcam.
Do ponto de vista dos interesses dominantes, a educação deve ser
prática
imobilizadora e ocultadora. Quando a classe dominante é
progressista, o é "pela
metade". Ex.: o empresariado urbano pode mostrar-se progressista
face à
reforma agrária, mas retrógrado diante dos interesses do mercado. O
educador
consciente e critico não atribui a "forças cegas" os danos que a
obediência
irrestrita à lei do mercado causa aos seres humanos. Reconhece que
não há
fatalidade no desemprego e na miséria.
» Ensinar exige liberdade e autoridade._Para o professor é dificil,
muitas vezes,
caminhar com naturalidade entre a autoridade e a liberdade. É
importante se
estabelecer os limites, sem os quais a liberdade se transforma em
licenciosidade. A liberdade amadurece no confronto com outras
liberdades, na
defesa de seus direitos face à autoridade dos pais, professores, do
Estado. Para
exercitar a liberdade é preciso aprender a tomar decisões. É
decidindo que se
aprende a decidir. É correndo o risco e assumindo as conseqüências
das
decisões que se tomou. Este processo fundamenta a autonomia. Uma
pedagogia
da autonomia deve estar centrada em experiências estimuladoras da
decisão e
da responsabilidade, que constroem a liberdade.

» Ensinar exige tomada consciente de decisões._O que cabe ao


educador
consciente de que a educação não é neutra é forjar em si um saber
especial,
que jamais deve abandonar: se a educação não pode tudo, alguma
coisa
fundamental a educação pode. Se a educação não é a chave das
transformações
sociais, não é também simplesmente reprodutora da ideologia
dominante. O
educador não pode transformar o país, mas pode demonstrar que é
possível
mudar, dada a importância de sua tarefa político- pedagógica.
» Ensinar exige saber escutar._Quem tem o que dizer deve assumir o
dever de
desafiar quem escuta para que este fale, responda. O educador
autoritário
comporta-se como proprietário da verdade e discorre sobre ela, numa
atitude
intolerável. Sua fala se dá num espaço silenciado. Ao contrário, o
educador
democrático aprende a falar escutando. Está mais interessado em
comunicar do que em fazer comunicados, em escutar a indagação, a
dúvida, a criação de quem escutou.
» Ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica. A força da
ideologia
fatalista é querer convencer os prejudicados das economias
submetidas de que
a realidade é assim mesmo, de que não há nada o que fazer a não
ser seguir a
ordem natural dos fatos. Quando o discurso da globalização fala de
ética, se
refere à do mercado. Não àquela da solidariedade, a favor dos
legítimos
interesses humanos. A liberdade do comércio não pode estar acima
da
liberdade do ser humano. O progresso científico e tecnológico que
não responde
aos interesses humanos , perde a sua significação. A todo avanço
tecnológico
que ameace mulheres e homens de perder o seu trabalho, deveria
haver uma
resposta imediata.
Pois é uma questão ética e política e não só tecnológica. Não se trata
de inibir a
pesquisa, mas de colocá-Ia a serviço dos seres humanos. Por causa
de tudo
isso, como professor, deve-se estar atento ao discurso que proclama
a morte
das ideologias. Este, sim, altamente ideológico, que ameaça
anestesiar as
mentes, confundir , distorcer a percepção dos fatos.

» Ensinar exige disponibilidade para o diá1ogoo~Nas relações com


outros que
não fizeram a mesma opção política, ética, estética ou pedagógica, é
no respeito
às diferenças, na coerência entre o que se diz e o que se faz que se
constrói a
disponibilidade para o diálogo. Deveria fazer parte da aventura
docente a
abertura respeitosa ao outro e a reflexão critica conjunta. A razão
ética desta
abertura possibilita o diálogo.
» Ensinar exige querer bem aos educandos: É preciso descartar como
falsa a
separação entre seriedade docente e afetividade. A prática docente
deve ser
vivida com alegria, afetividade, emoção e sentimento .. Sem
prescindir da
formação científica séria, da clareza política, da luta por seus direitos
e pela
dignidade de sua tarefa.