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Curso Profissional de Técnico Auxiliar de Saúde Ano letivo 2020/2021

N.º Projeto: N.º Curso: Ano: 10 º Turma: D1


Disciplina: HSCG Módulo: 6562
Prevenção e Controlo da Infeção: Princípios Básicos a Considerar na Prestação de Cuidados de Saúde

TEXTO DE APOIO Nº5


CADEIA EPIDEMIOLÓGICA

1. Microrganismos e patogenicidade – Cadeia de infeção


Para que seja possível o aparecimento de infeção é necessário que estejam presentes as seguintes condições:

1. Número adequado de agentes patogénicos (inoculo microbiano), variável consoante a espécie e o


estado imunitário do hospedeiro
2. Existência de um reservatório ou fonte onde o microrganismo sobreviva e possa multiplicar-se
3. Via de transmissão do agente para o hospedeiro
4. Porta de entrada do hospedeiro específica para o agente patogénico
(há especificidade entre microrganismos e capacidade de desencadear doença em órgãos ou
sistemas específicos do hospedeiro)
5. Que o hospedeiro seja suscetível ao agente microbiano, isto é, que não tenha imunidade ao agente.

À ocorrência destes sucessivos acontecimentos denominamos “Cadeia da Infeção”. As estratégias de


controlo de infeção eficiente e eficaz têm que ter em conta esta sequência, prevenindo a transferência dos
agentes pela interrupção de uma ou mais das ligações desta “Cadeia de Infeção”. Eis como:
Para determinar a estratégia a implementar na prevenção e controlo de uma doença, é importante ter
em consideração dois tipos de dados epidemiológicos: o tipo de doença e o espectro de infeção.

A - Tipo de doença. Consoante o tipo de doença perante a qual teremos de agir, assim serão tomadas
medidas diferentes de prevenção e controlo.

• Doença de evolução aguda, rapidamente fatal


• Doença de evolução aguda mas de rápida recuperação
• Doença de evolução subclínica (sem sintomas nem sinais clínicos – só com repercussão
imunológica)
• Doença de evolução crónica (que pode evoluir até à morte se não for tratada ou quando não
existe tratamento eficaz)
• Doença de evolução crónica com períodos assintomáticos alternados com exacerbações clínicas

B - Espectro de ocorrência de infeção é a forma como uma doença se propaga.


A infeção pode ocorrer de três formas:
• esporádica, sem um padrão definido;
• endémica, com uma frequência mais ou menos regular em períodos de tempo definidos;
• epidémica, também denominada por surtos, em que surge com aumento significativo de
casos em relação ao habitual num período de tempo determinado.

2.Reservatórios ou fontes dos microrganismos

Um reservatório que é o local onde os microrganismos vivem regularmente, isto é, o seu habitat natural.
Daí passam para o hospedeiro, onde vão provocar infeção.
Mas, por vezes, estes agentes infeciosos são transferidos um outro local intermédio, denominado fonte, e
daí então passam depois para o hospedeiro.

Reservatório Hospedeiro
Local onde os microrganismos vivem Fonte Ser vivo dentro do qual se vão
regularmente (Habitat natural) multiplicar e causar infeção

Assim, o reservatório e a fonte de um agente responsável por uma infeção podem ser os mesmos ou
não. Do ponto de vista epidemiológico o conhecimento deste facto é importante.

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Fonte dos microrganismos (classificação):
• Exógena – se o organismo vem de um meio exterior ao hospedeiro.
• Endógena – se o organismo já existe na flora indígena do próprio hospedeiro.

Exemplos de infeções exógenas: o agente é transportado a partir de líquidos contaminados, através da


formação de aerossóis (p.ex. aspiração de secreções) ou a partir de pessoa colonizada ou infetada que
pode emitir gotículas ou contaminar ambientes que entrem em contacto com outros possíveis hospedeiros
suscetíveis (p. ex. transmissão do vírus da gripe, coronavírus).

No caso das infeções endógenas, o reservatório e a fonte são geralmente coincidentes.


Por exemplo: a pneumonia associada à ventilação é causada por agentes da orofaringe do doente; a
infeção associada ao cateter vascular é mais frequentemente causada pela flora cutânea ou, ainda, os
agentes da infeção urinária residem geralmente no intestino ou no períneo do próprio doente.

• NOTA: alguns académicos consideram ainda fonte secundariamente endógena – se o


microrganismo causador de infecção inicalmente é inofensivo. Vem do exterior e coloniza a
pele, mucosas ou outro local anatómico do hospedeiro, sem causar infeção inicialmente.
Posteriormente atingem um órgão específico para o qual tenham capacidade de desencadear
infeção e passam de inofensivos a patogénicos.

3.Portas de entrada e de saída dos microrganismos

A via de eliminação é a porta de saída do microrganismo.


Refere-se à forma ou material pelo qual o agente é capaz de deixar o seu
hospedeiro, com potencial de transmissão para um hospedeiro suscetível.

Exemplos de vias de eliminação:


1. Exsudatos e as descargas purulentas são particularmente importantes no caso das infeções
hospitalares.

2. Secreções da boca e vias aéreas – são húmidas e são expelidas sob forma de gotículas que incluem
células descamadas e microrganismos colonizantes ou infetantes.

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3. Fezes - Mais da metade da biomassa das fezes é composta de microrganismos, além disso as fezes
podem servir como mecanismo de transmissão dos parasitas intestinais através da eliminação de ovos.

4. Urina – é onde se encontram os agentes das infeções génito-urinárias ou microrganismos que


apresentem uma fase septicémica, como é o caso da leptospirose e febre tifóide.

5. Sangue – é o meio natural de eliminação de doenças transmitidas por vetores hematófagos, como a
malária e febre amarela, onde também encontramos microrganismos de infeções sistémicas e dos
patógenos transmitidos pelo sangue, como hepatite e HIV.

6. Leite materno – pode transmitir agentes como o HIV em bancos de leite, mas é, tal como o suor, uma
via de menor importância no ambiente hospitalar.

4.Vias de transmissão

A via de transmissão, ou de contágio, designa o percurso que cada agente patogénico tem que
efetuar desde a fonte de infeção até ao indivíduo afetado pela doença. A via de transmissão pode ser
direta ou indireta.

• Na transmissão direta há o contacto imediato entre uma porta de entrada recetiva do


hospedeiro e o reservatório.

• Na transmissão indireta o agente atinge a porta de entrada no hospedeiro através de um


veículo intermediário, por contacto físico com um veículo inanimado,
- Por exemplo: equipamento contaminado, ou com um veículo animado, como as mãos, ou
por gotículas, partículas líquidas com diâmetro superior a 5 mm que devido ao seu peso se
depositam rapidamente e geralmente a uma distância não superior a um metro.
- A transmissão indireta também se pode realizar por via aerogénea, através de aerossóis, de
esporos microbianos, de poeiras contaminadas, entre outros.

É aceite por toda a comunidade científica que as mãos são o principal veículo de transmissão. As
gotículas constituem uma forma particular de transmissão por contacto, pois, quando há proximidade
excessiva (inferior a um metro), estas partículas podem atingir diretamente uma porta de entrada dum
hospedeiro recetor e também ao depositarem-se no ambiente a curta distância do emissor, são
indiretamente transferidas para o recetor através de um veículo animado, principalmente as mãos dos
profissionais prestadores de cuidados de saúde ou dos próprios doentes.

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5.Hospedeiro e sua suscetibilidade

Outro dos elementos da cadeia epidemiológica da infeção é o hospedeiro. Para que ocorra infeção é
necessário que:
1) o agente infeccioso entre em contacto com uma porta de entrada específica no hospedeiro;
2) exista afinidade para o hospedeiro;
3) o agente infeccioso tenha capacidade de se desenvolver e multiplicar nesse local,
desencadeando o processo infecioso.

Mas para que o microrganismo tenha a possibilidade de manifestar esta capacidade é necessário que os
mecanismos de defesa específicos e não específicos (p. ex. resposta inflamatória, barreiras mecânicas,
presença de flora indígena) sejam ultrapassados pelo agente infecioso.

Se o patogénio se consegue instalar, pode acontecer uma de duas coisas:


a) o hospedeiro é tolerante (resistente ou imune) – quando o patogénio se instala mas não
causa dano significativo;
b) o hospedeiro é suscetível – quando a multiplicação do patogénio origina um processo
infeccioso, causando dano significativo ao hospedeiro.

Com efeito, a resistência individual à infeção é muito variável, dependendo da idade, do estado imunitário,
da presença de doenças subjacentes ou ainda da prestação de cuidados de saúde que podem interferir
com os mecanismos de defesa do hospedeiro, como são os procedimentos cirúrgicos, procedimentos
invasivos de diagnóstico ou terapêuticos, utilização de agentes terapêuticos como os antimicrobianos ou
quimioterapia para doenças neoplásicas, entre outros.

Portadores saudáveis
Uma pessoa pode constituir uma fonte de infecção, mesmo que não se encontre afetada pela doença
tipicamente provocada por um microorganismo do qual é portador. Por vezes, trata-se de um indivíduo
que, por razões desconhecidas, é imune à patologia provocada pelo agente patogénico específico.

A existência de portadores saudáveis contribui para a difusão de doenças infecciosas que,


caso não sejam adotadas as devidas precauções, podem ser facilmente transmitidas.

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6.Resistências antimicrobianas

A resistência anti-microbiana (ou farmacorresistência)


ocorre quando os microrganismos sejam bactérias, vírus,
fungos ou parasitas, sofrem mutações genéticas que lhes
provocam alterações que lhes permitem ser resistentes aos
medicamentos utilizados para os controlar.

Os medicamentos utilizados para curar as infecções deixam de ser eficazes, o que constitui um problema
muito grave de saúde tanto individual como pública.

Os microrganismos resistentes à maioria dos antimicrobianos são conhecidos como multi-resistentes. A


multi-resistência é muito preocupante porque as infecções por microrganismos resistentes podem causar
morte, são transmitidas entre pessoas e geram grandes custos tanto para os pacientes como para a
sociedade.

Muitos doentes recebem fármacos antimicrobianos. Através da seleção e da troca de elementos genéticos
de resistência, os antibióticos promovem a emergência de estirpes bacterianas multirresistentes; os
microrganismos da flora humana normal sensíveis a um dado antimicrobiano são eliminados, enquanto as
estirpes resistentes persistem e podem tornar-se endémicas no hospital.

A resistência anti-microbiana é propiciada pelo uso inadequado dos medicamentos, por exemplo,
quando se utilizam doses insuficientes ou não se finaliza o tratamento prescrito. Os medicamentos de má
qualidade, as prescrições errôneas e as deficiências na prevenção e controle das infecções associadas à
atenção à saúde são outros fatores que também propiciam o aparecimento e a disseminação da
resistência aos antimicrobianos.

Várias estirpes de pneumococos, estafilococos, enterococos e BK são atualmente resistentes à maior parte,
ou a todos, os antibióticos que eram anteriormente eficazes. Klebsiella e Pseudomonas aeruginosa
multirresistentes são exemplos de bactérias multirresistentes prevalentes em muitos hospitais.

Este problema é especialmente crítico em países em vias de desenvolvimento, onde antibióticos de


segunda linha, mais caros, podem não estar disponíveis ou não existirem recursos para a sua compra.

A professora:
Ana Rita Rainho
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