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FOLHA DE LONDRINA – 30/10/2002

O povo se dá uma oportunidade, por André Luiz de Almeida Mendonça é


advogado da União em Londrina e bacharelando em Teologia pela Faculdade Teológica Sul-Americana

Finda-se o processo eleitoral, inicia-se a transição e aguarda-se o novo governo. Neste momento histórico
nos deparamos com a realidade revelada nas urnas: temos o primeiro presidente eleito, do povo e pelo
povo. O fato é notório e não admite discussões e assim o coração do povo se enche de esperança, o
mundo nos assiste com um misto de surpresa e admiração, embora alguns confiem desconfiando, mas
certamente convictos que o Brasil cresceu e seu povo amadureceu, restando consolidada a democracia
não só porque o novo presidente foi eleito pelo povo, mas porque saiu do próprio povo.

Fato inédito no Brasil. Um país, até então, governado por reis, por presidentes escolhidos em gabinetes ou
ainda quando eleitos, lideranças formadas nas camadas sociais mais privilegiadas, sem experiência
vivencial com a realidade dos milhões de brasileiros miseráveis e marginalizados (não vivência esta que
necessariamente não é demérito, mas não é inédito), pelos próximos quatro anos será governado por um
líder popular.

Muitos talvez estejam se perguntando: Será isso bom? Onde isso nos levará? O povo soube escolher?
Estas questões não podem nem nunca poderão ser respondidas com certeza sem se considerarem os fatos
reais futuros, e todos de alguma forma temos experiência nisso, afinal quem persiste imune a escolhas
aparentemente bem feitas, mas ao final frustrantes? Não cobremos por conta disso a resolução total de
cerca de 500 anos de desajustes. Se a nova liderança tem o dever de acertar, a história lhe dá o direito de
errar.

Neste contexto devemos congelar a imagem histórica, reler o passado e, a partir de então, construir o
futuro. Se isto já foi feito anteriormente no Brasil por um presidente, sê-lo-á pela primeira vez a partir da
realidade vivida dos marginalizados e excluídos, e o que é também importante, com respeito à ordem
jurídica, à Constituição e às instituições democráticas estabelecidas, construindo-se uma nova ordem que
apesar de inovadora não perde o substantivo, compromissos estes assumidos pelo futuro chefe da Nação.

"Um país, até então, governado por reis, (...) pelos próximos quatro anos será governado por um
líder popular."

Devemos abandonar os votos de sucesso menos desejado e mais recomendado; devemos, juntos, trabalhar
incessantemente para o real restabelecimento da sociedade brasileira quebrando, de um lado, as estruturas
distorcidas e viabilizadoras do mal, como a fome que emerge, a mortalidade não sentida, o analfabetismo
excludente, o desemprego agravado, a degradação ecológica e a corrupção, e de outro, reconstruindo
estruturas vivificantes, capazes de dar a todos o alimento que fortalece, a saúde mais efetiva, a educação
capacitante, o trabalho motivador, a regeneração cósmica e a correção incondicional, não só pregada, mas
vivida, e não apenas desejada, mas viabilizada pela esperança vencedora do medo, já ocorrida, mas a
aguardar ansiosamente seja por todos nós implementada.

O povo se dá uma oportunidade. Este é o símbolo maior da democracia, sistema do povo, pelo povo e
para o povo. Passemos, doravante, do corporativismo para o cooperativismo social; trabalhemos em busca
do bem comum e não individual, de modo que todos tenham igualdade de oportunidades e cada brasileiro
tenha condições de exercer seu sagrado direito de viver. De efetivamente viver, vivendo então o Brasil.