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Revista Brasielira de Orientação Profissional, 2004, 5 (1), pp.

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Orientação Profissional com Crianças: Uma


Contribuição à Educação Infantil

Juliana Campregher Pasqualini1


Norma de Fátima Garbulho
Tannie Schut
Universidade Estadual Paulista, Bauru

RESUMO
Na perspectiva da Psicologia Sócio-histórica, a idade pré-escolar é a fase em que a criança passa a
reproduzir em seus jogos as funções sociais e a atividade do adulto, desvendando a realidade social em
que está inserida, na qual o trabalho do adulto assume papel central. Compreendendo a relação homem-
trabalho como objeto de estudo da Orientação Profissional, apresenta-se uma proposta de intervenção
junto a crianças pré-escolares, discutindo as possíveis finalidades da Orientação Profissional infantil.
Relata-se um projeto de intervenção desenvolvido com um grupo de crianças em uma creche pública, em
que foram também realizados encontros com pais. Conclui-se que a Orientação Profissional desponta
como importante contribuição para a Educação Infantil, favorecendo uma formação integral dos indivíduos,
e que esta pode ser uma possível área de atuação do orientador profissional.
Palavras-chave: orientação profissional com crianças; educação infantil; perspectiva Sócio-histórica.

ABSTRACT: Working with Kids: Early Professional Guidance as a Contribution to Child Education
According to Social-historical Psychology, the kindergarten age is the period of life when kids start to
reproduce adults’ social functions and activities in their games, making up the social reality in which
they are inserted, where adult work plays an essential role. Having the relation between people and work
as the subject of Professional Guidance, this paper presents a proposal of Professional Guidance programs
for kids, and discusses the possibilities and purposes of this kind of job with children. This work describes
an intervention project developed with a group of children from a public kindergarten, including meetings
with the children’s parents. Professional Guidance with kids was seen to be an important contribution to
child schooling, as well as a new possibility for the professional consultant.
Keywords: professional guidance with kids; child education; social-historical approach.

RESUMEN: Orientación Profesional con los Niños: Una Contribución para la Educación Infantil
En la perspectiva socio-histórica, la edad preescolar es la etapa en que el niño pasa a reproducir en sus
juegos las funciones sociales y la actividad del adulto, descubriendo la realidad social en que está inserta,
en la cual el trabajo del adulto asume un papel central. Comprendiendo la relación hombre-trabajo como
objeto de estudio de la orientación profesional, se presenta una propuesta de intervención para niños
preescolares, discutiendo las posibles finalidades de la orientación profesional infantil. Se relata un

1
Endereço para correspondência: Departamento de Psicologia. Rua Amadeu Sangiovani, 4/52, 703, 17017-140. Bauru, SP. Fone:
(14) 3227 0087, Fax: (14) 3103 6071. E-mail: jupasqualini@uol.com.br
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proyecto de intervención desarrollado con un grupo de niños en una guardería pública, en el que se
realizaron también encuentros con los padres. Se concluye que la orientación profesional surge como
importante contribución para la educación infantil, favoreciendo una formación integral de los individuos,
y que ésta puede ser una posible área de actuación del orientador profesional.
Palabras claves: orientación profesional con niños; educación infantil; perspectiva socio-histórica.

O trabalho em Orientação Profissional, se- Profissional com crianças pré-escolares. Tal pro-
gundo Bock e Aguiar (1995), deve ter como fina- posta sustenta-se na compreensão de que os pro-
lidade a promoção de saúde, buscando, entre cessos de internalização da realidade social
outras coisas, ampliar a consciência que o indiví- iniciam-se já na primeira infância, mediados pe-
duo possui sobre a realidade que o cerca, promo- las relações sociais que a criança estabelece com
ver uma compreensão menos preconceituosa, os adultos (e demais crianças), nos diversos con-
estereotipada e ideológica do mundo e instrumen- textos em que está inserida, como a escola, a fa-
talizar os indivíduos para uma atuação transfor- mília, a comunidade. Neste sentido, embora este
madora diante da realidade social. Tal concepção seja um processo em constante movimento ao
de promoção de saúde e da própria Orientação longo da vida dos indivíduos, as concepções de
Profissional está calcada em uma compreensão mundo, valores e opiniões principiam sua forma-
do homem enquanto ser histórico e social, fun- ção nesta fase do desenvolvimento.
damentada na Psicologia Sócio-histórica, referen- Alguns pesquisadores do desenvolvimento
cial teórico-metodológico que sustenta o presente infantil, como Mukhina (1996), chamam a aten-
trabalho. ção para o fato de que os processos educativos na
Em relação ao campo de estudo e atuação do infância exercem uma influência mais poderosa
orientador profissional, corroboramos a proposta no desenvolvimento das qualidades psíquicas do
de Uvaldo (1995) de que a relação homem-traba- que o ensino na idade adulta. Acreditamos que
lho deva ser seu grande foco e objetivo. Para esta esta é uma constatação que destaca a relevância
autora, no entanto, a Orientação Profissional ain- de ações educativas junto a esta faixa etária, arti-
da permanece bastante restrita ao atendimento a culadas ao pressuposto de que o processo educa-
adolescentes da classe média e alta que conclu- tivo deva ter como finalidade a formação de
em o Ensino Médio e encontram-se diante da es- indivíduos capazes de uma atuação como sujei-
colha de um curso superior. Partilhamos com a tos transformadores da prática social global, no
autora a ponderação de que esta importante mo- sentido da superação das condições de alienação
dalidade de trabalho constitui apenas uma das inerentes ao modo de produção capitalista vigen-
possibilidades de intervenção do orientador pro- te. Nas palavras de Nosella (s/d): “Ora, como
fissional. educar o homem novo sem priorizar a infância?
Neste sentido, nas atividades de estágio e Ela é, potencialmente, um novo homem que ain-
extensão universitária em Orientação Profissio- da não proferiu palavra, mas pode ensaiar um
nal do Centro de Psicologia Aplicada da Univer- novo discurso, uma nova ordem social, justa e
sidade Estadual Paulista (UNESP - Bauru), temos humana”.
primado pela consolidação de práticas emergen- A literatura sobre o desenvolvimento infan-
tes e de relevância social na área, diversificando til na perspectiva da Psicologia Sócio-histórica,
as modalidades de intervenção junto à comuni- em nosso ponto de vista, traz elementos que sus-
dade e ressaltando a dimensão educativa presen- tentam uma proposta de trabalho em Orientação
te no trabalho do orientador profissional. Profissional junto à idade pré-escolar, período em
É nesse contexto que nasce a proposta do que, como veremos adiante, a criança começa a
desenvolvimento de programas de Orientação desvendar o mundo do trabalho.

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A criança e o mundo do trabalho Nas brincadeiras do período pré-escolar, as


Segundo Nosella (s/d), o fato de a sociedade operações e ações da criança são sempre reais e
capitalista afastar as crianças do mundo do traba- sociais, e nelas a criança assimila a realidade hu-
lho dos adultos nos dá a ilusão de que o mundo mana. Nos pré-escolares menores, o jogo recria
das crianças seja algo totalmente desligado, avul- relações de um mundo bastante restrito – em ge-
so, separado das relações de produção e de re- ral, esses jogos têm por argumento a prática ou
produção social. vivência diária; posteriormente, o eixo principal
Torna-se importante, neste sentido, resgatar do jogo passa a ser a reprodução das relações
a história social da infância. Estudos indicam que humanas (Mukhina, 1996). Nessa fase do desen-
nas culturas primitivas a criança trabalha junto volvimento, portanto, as brincadeiras nas quais a
ao adulto desde o momento em que começa a criança reproduz aquilo que vê ao seu redor na
andar. Foi apenas a partir do momento em que o vida e na atividade dos adultos desempenham
trabalho dos adultos passou a requerer um gran- importante papel – ela realiza as funções dos adul-
de processo de formação prévia (tornando-se ine- tos, cria situações que reproduzem as condições
xeqüível para a criança), que se configurou a de suas atividades e atua de maneira semelhante
infância tal qual nós a conhecemos: um período a eles (Leontiev, 2001b).
no qual a criança irá adquirir conhecimentos, há- Tal tendência de reprodução da atividade
bitos, qualidades psíquicas e habilidades neces- humana não se limita à imitação de operações
sárias à sua inserção produtiva na sociedade, ou produtivas e técnicas – em verdade, o jogo repro-
seja, um período de preparação para a vida e para duz essencialmente o caráter social do trabalho,
a atividade adulta (Mukhina, 1996). sua propriedade de influência sobre o mundo.
Criaram-se, portanto, as condições para que, “No papel que desempenha no brinque-
em nosso momento histórico, a produtividade do, a criança assume certa função social
concreta das ações da criança se tornasse secun- generalizada do adulto, muitas vezes
dária, ou mesmo irrelevante, visto que a satisfa- uma função profissional: o zelador – um
ção de suas necessidades é garantida pelo adulto. homem com uma vassoura; um médico
Assim, na brincadeira a criança guia um carro, – que ausculta ou vacina; um oficial do
embora seja na verdade impossível andar nesse exército – que dá ordens na guerra, e as-
carro, pois nesse momento do desenvolvimento sim por diante” (Leontiev, 2001b, p.132).
isso é irrelevante para ela (Leontiev, 2001a).
O jogo, que se caracteriza, portanto, por ser Para Smirnov (1960), essa atividade tem im-
uma atividade psicologicamente independente dos portante significado educativo e permite à criança
resultados concretos obtidos, é a atividade princi- assimilar o conteúdo do trabalho dos adultos e as
pal da criança na idade pré-escolar, isto é, a ativi- funções sociais das pessoas e perceber as relações
dade cujo desenvolvimento governa as mudanças que se criam na vida real.
mais importantes nos processos psíquicos e nos Mukhina (1996) chama a atenção para o fato
traços psicológicos da personalidade da criança. de que o desenvolvimento dos temas das brinca-
A idade pré-escolar, segundo nos aponta deiras infantis mantém relação direta com a am-
Leontiev (2001a), é o período da vida em que se pliação do círculo de conhecimentos da criança e
abre pouco a pouco para a criança o mundo da de sua experiência de vida: “Quanto mais ampla
atividade humana que a rodeia: for a realidade que as crianças conhecem, tanto
“em toda sua atividade e, sobretudo em mais amplos e variados serão os argumentos de
seus jogos, que ultrapassaram agora os seus jogos” (p.157). Na direção contrária, por-
estreitos limites da manipulação dos ob- tanto, mais pobres e monótonas serão as tramas
jetos que a cercam, a criança penetra de suas brincadeiras quanto mais restrito o círcu-
num mundo mais amplo, assimilando-o lo de contatos com a realidade proporcionado à
de forma eficaz” (p.59). criança.

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É importante também ressaltar que a ativida- influência educativa positiva e distraindo-as da


de da criança configura importante ferramenta de representação daquilo que pode desenvolver o que
preparação para a vida adulta – o jogo constitui denomina de qualidades negativas.
uma antecipação mais generalizada do tornar-se Dessa forma, torna-se clara a importância de
adulto, apresentando ampla variedade de possi- ações educativas no segmento da Educação In-
bilidades futuras para a criança. fantil que promovam uma maior compreensão da
Andrade (1995), ao discutir o papel do jogo criança acerca da realidade social na qual está
com base nos pressupostos de Piaget expressos inserida, particularmente no que concerne ao
na obra “A Formação do Símbolo na Criança”, mundo do trabalho. Garantir que a criança co-
afirma que nheça os modos de ser, viver e trabalhar de al-
“enquanto brinca com bonecas e ani- guns grupos sociais do presente e do passado e
mais, caminhões e aviões, jogos de cons- identifique alguns papéis sociais existentes em
trução, kits de médico, as crianças seus grupos de convívio, dentro e fora da insti-
fantasiam sobre estas atividades, explo- tuição, são objetivos da educação de crianças de
rando, com prazer, como é ser um bom- 4 a 6 anos2. Nesta direção, observa-se uma apro-
beiro ou caminhoneiro, um piloto ou ximação com o objeto de estudo e intervenção
astronauta, experimentando imaginati- da Orientação Profissional: a relação homem-
vamente possíveis papéis adultos” (p.4). trabalho.
Entendemos que a Orientação Profissional
Do ponto de vista da autora, é possível afir- pode trazer reflexões que contribuam para que
mar, inclusive, que tendo experimentado mental- tais ações educativas possam minimizar ou evi-
mente tais possibilidades, a criança estará numa tar uma apropriação estereotipada da realidade
posição melhor para escolher satisfatoriamente no social pela criança que experiencia papéis adultos,
futuro. em especial determinadas profissões, favorecen-
Nesse complexo processo de decodificação do, dessa forma, a desconstrução de preconcei-
da realidade pela criança está implicada a atua- tos e estereótipos relacionados às diferentes
ção do adulto. É por meio da mediação do adulto atividades profissionais.
– que já se apropriou da cultura – que a criança Lemos (1999), psicossocióloga militante do
assimila um amplo círculo de conhecimentos ad- movimento negro, ilustra o fato de que o precon-
quiridos pelas gerações precedentes, apropria-se ceito e a intolerância têm suas bases na primeira
de habilidades e formas de conduta elaboradas infância, relatando uma experiência acontecida
socialmente. Segundo Smirnov (1960), o adulto com sua filha que, aos quatro anos, desenhava a
auxilia a criança a descobrir e atentar para deter- mãe negra com cabelos louros “porque achava
minadas facetas da realidade que se refletirão mais bonito”. Embora a pesquisa a respeito da
posteriormente no jogo: as particularidades da compreensão do mundo do trabalho pela criança
atividade dos adultos, as funções sociais das pes- seja ainda incipiente, é possível hipotetizar que
soas, as relações sociais entre elas, o sentimento este mesmo mecanismo esteja presente, por exem-
social da atividade humana. Ainda para o autor, é plo, na (des)valorização de determinadas funções
preciso observar com cuidado as brincadeiras das sociais e no sexismo relativo às atividades pro-
crianças, enfatizando aquelas facetas da realida- fissionais. Felipe (2003), ao investigar a percep-
de cuja reprodução nos jogos possa exercer uma ção do mundo do trabalho por crianças de classe

2
Retirado do fascículo “A educação da criança de 4 a 6 anos”, integrante da Coleção Trocando em Miúdos as Diretrizes Curriculares
para a Educação Infantil, com texto básico de Morgana Silva Rezende. O material foi produzido pela Organização Não-Governamental
Comunicação e Educação para o Desenvolvimento Humano (CECIP), com sede no Rio de Janeiro, em parceria com o Unicef
(www.cecip.com.br).

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média e média-alta, detectou, entre outras coisas, mem, nem assumir que os obstáculos postos pela
“o quanto o curso superior e o status de determi- realidade social serão superados por mera vonta-
nada profissão são introjetados nas representações de individual – significa que as pessoas podem
profissionais dessas crianças” (p.24). lutar individual e coletivamente para mudar as
Processos de Orientação Profissional pode- condições em que vivem.
rão contribuir, ainda, para promover, desde o Escolher (com maior ou menor autonomia)
momento em que a criança principia a compre- supõe a oportunidade de viver situações no coti-
ender o mundo da atividade humana, uma visão diano que favoreçam a aprendizagem da escolha.
ampla do trabalho, que não seja associada natu- Ela não acontece de repente, descolada da histó-
ralmente ao sofrimento e à obrigação, como ocor- ria do indivíduo, como um fato isolado. Segundo
re principalmente para a população de baixa Soares (1991), a escolha profissional não foge a
renda, expropriada das possibilidades emancipa- essa afirmação – ela constitui um processo contí-
tórias do trabalho. Poderão contribuir, portanto, nuo que vai desde a infância até a idade adulta. A
para uma compreensão do trabalho enquanto ati- autora afirma que é preciso que o indivíduo te-
vidade vital humana e meio de transformação da nha passado por situações de escolha em momen-
realidade pelos homens, que se apresenta desvir- tos anteriores e aponta para a importância de
tuada em nossa forma de organização social. proporcionar, desde cedo, oportunidades às crian-
ças de efetuarem escolhas.
Escolha e Autoconhecimento Em relação ao processo de escolha na idade
Nos programas de intervenção em Orienta- pré-escolar, Mukhina (1996) apresenta as seguin-
ção Profissional, desenvolvidos no Centro de tes afirmações:
Psicologia Aplicada da UNESP - Bauru, as ativi- “Geralmente, a criança [na primeira in-
dades são estruturadas a partir de quatro eixos. fância] não se propõe uma escolha cons-
As possibilidades acima descritas corresponde- ciente: ela se deixa levar pelo incentivo
riam aos eixos Trabalho e Informação Profissio- mais forte. A escolha é ainda uma situa-
nal. Também em relação aos demais eixos ção muito difícil para a criança na pri-
integrantes do processo – Escolha/Projeto Pro- meira infância, pois ela não está
fissional e Autoconhecimento – procuraram-se capacitada para tomar uma decisão [...]
identificar possíveis contribuições da área para o As possibilidades de tomar uma decisão
desenvolvimento infantil. racional crescem consideravelmente
Pensar na escolha profissional significa, de quando se aproxima a idade pré-escolar
acordo com a abordagem Sócio-histórica em Ori- maior. Estas possibilidades apóiam-se na
entação Profissional, acreditar que o indivíduo hierarquização das motivações [...] Isso
escolhe e não escolhe ao mesmo tempo, conside- desenvolve seu autodomínio e sua ca-
rando-se a liberdade/autonomia. Para Bock pacidade de conter os desejos circuns-
(2002), de acordo com sua classe social de ori- tanciais, e fortalece sua vontade” (p.
gem, a pessoa tem maior ou menor liberdade para 226-227).
decidir, porém a escolha será sempre multideter- Neste processo, a atuação do adulto, oportu-
minada: mesmo para o indivíduo de classe mais nizando situações de escolha para a criança e fa-
privilegiada, haverá a determinação social (por- zendo avançar seu desenvolvimento nesta direção,
tanto, não haverá liberdade absoluta) e para o in- é determinante na consolidação destas habili-
divíduo de classes populares, apesar das restrições dades. Dessa forma, o trabalho de Orientação
de ordem concreta, por menor que seja esta pos- Profissional pode buscar favorecer este desen-
sibilidade, é possível intervir em sua trajetória, volvimento desde a infância, estabelecendo ati-
por meio de ações pessoais e/ou coletivas. Isto vidades específicas que contribuam para a
não significa resgatar a concepção liberal de ho- aprendizagem e vivência de situações de esco-

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lha, sensibilizando o próprio segmento da Edu- mento do autoconhecimento foram também fina-
cação Infantil para a importância deste aspecto lidades deste projeto.
para o desenvolvimento humano. Ainda, estabeleceu-se como objetivo do tra-
Em relação ao eixo Autoconhecimento, ob- balho discutir com os pais seu papel no processo
serva-se que na criança pré-escolar “está se de- de construção da identidade e formação de seus
senvolvendo a autoconsciência, ou seja, a criança filhos, considerando o papel da família enquanto
adquire consciência de si, compreende o que ela mediadora entre o indivíduo e a sociedade. Con-
representa, que qualidades tem, como se compor- forme Reis (1984), a família é o locus onde apren-
tam para com ela os que a rodeiam e a que se demos “a perceber o mundo e a nos situarmos
deve este comportamento” (Mukhina, 1996, nele. É a formadora da nossa primeira identidade
p.207). Também esta parece ser uma dimensão social. Ela é o primeiro ‘nós’ a quem aprende-
possível de ser abordada em programas de Ori- mos a nos referir” (p.99). Entendendo que no con-
entação Profissional com crianças, estimulando vívio com a família, a criança “internaliza padrões
o desenvolvimento do autoconhecimento tanto em de comportamento, normas e valores de sua rea-
termos de autopercepção quanto de inserção no lidade social decorrente de sua condição de clas-
contexto social. se” (Miranda, 1984, p.133), este espaço de
discussão com a família poderia contribuir para a
A proposta de intervenção desnaturalização da realidade social excludente
O presente relato refere-se à implementação e alienada e para a promoção do desenvolvimen-
de um projeto-piloto de intervenção com crian- to das crianças nas máximas possibilidades de
ças pré-escolares, realizado como atividade do humanização.
estágio curricular supervisionado “Orientação A partir da realização deste projeto, por fim,
Vocacional e para o Trabalho”, oferecido aos alu- pretendia-se discutir as possibilidades de atuação
nos do Curso de Psicologia da universidade, com do orientador profissional junto à infância, veri-
duração semestral. ficando a viabilidade e a validade desta modali-
Buscou-se, neste trabalho, contribuir para a dade de intervenção.
formação integral das crianças, através da deco-
dificação da realidade no que tange à sua inser-
ção social e ao mundo do trabalho. Estabeleceu-se MÉTODO
como objetivos específicos: 1) identificar o nível
de conhecimento e compreensão das crianças em O projeto foi implementado junto a um gru-
relação às diferentes atividades profissionais e ao po de crianças da turma do pré de uma escola
mundo do trabalho em geral; 2) promover uma municipal de educação infantil, localizada na peri-
concepção ampliada do trabalho, 3) expandir co- feria de um município de porte médio do interior
nhecimentos sobre as profissões, relacionando- do Estado de São Paulo. Foram realizados 15
as a instrumentos e locais de trabalho e funções encontros semanais de aproximadamente uma
sociais e 4) estimular o trabalho coletivo, tendo hora e trinta minutos de duração, no período de
em vista sensibilizar para o caráter social do tra- março a junho de 2003.
balho e a importância da coletividade nas ativi- O grupo era composto por 28 crianças na fai-
dades escolares e laborais. Acreditava-se também xa etária de seis anos, que permaneciam em perí-
importante refletir, de acordo com o grau de com- odo integral na instituição, a qual tinha como
preensão do grupo, sobre as oportunidades e pos- proposta integrar as funções da creche e da esco-
sibilidades de escolha de uma profissão em nossa la. Dessa forma, durante meio-período as crian-
sociedade. ças realizavam atividades com a professora
Favorecer a aprendizagem e a vivência de si- responsável pela turma e no tempo restante, in-
tuações de escolhas e contribuir para desenvolvi- cluindo horários de refeição e descanso, ficavam

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sob tutela de uma recreacionista, profissional sem picas da interação entre as crianças daquele
formação específica para o trabalho com crianças. grupo (que, como veremos, caracterizava-se
A escola fica localizada em um bairro caren- principalmente pela alta incidência de com-
te em termos de equipamentos de lazer e cultura, portamentos agressivos), ilustrando as conse-
caracterizado por uma população de baixa ou qüências de tais comportamentos e propondo
baixíssima renda. A instituição havia sido inau- formas cooperativas de interação;
gurada há aproximadamente um ano, de forma • gincana, composta de brincadeiras que exi-
que muitas crianças começaram a freqüentar a giam a cooperação entre os componentes de
escola na turma do jardim ou pré, visto que antes cada subgrupo;
a comunidade não dispunha de escola infantil ou • “dança das bexigas”, na qual as crianças for-
creche que atendesse à demanda do bairro e suas mavam duplas e deveriam se esforçar con-
imediações. juntamente para não deixar a bexiga cair;
A população infantil atendida pela escola gi- • teatro de fantoches, com objetivo similar à
rava em torno de 130 crianças, subdivididas em apresentação da peça de teatro;
turmas de mini-maternal, maternal, jardim I, jar- • mural coletivo (formando um conjunto com
dim II e pré, e a equipe de profissionais da insti- desenhos das mãos de cada criança).
tuição era composta por cinco professoras e sete
funcionárias, além da diretora. Contribuindo para o processo de Autoconhe-
Procurou-se garantir que a recreacionista es- cimento, foram propostos: uma atividade de de-
tivesse presente durante o desenvolvimento dos senho e colagem em que as crianças deveriam
trabalhos, tendo havido a preocupação de socia- representar as pessoas com que moravam e o bair-
lizar o planejamento das atividades antes do iní- ro onde viviam, auxiliando-as na identificação de
cio das mesmas a cada encontro. Desta forma, si no contexto de vida mais próximo; e o desenho
buscava-se contribuir para a formação da mesma do contorno do corpo, em que uma criança deita-
enquanto educadora, explicitando a importância va-se sobre papel pardo e a outra registrava o for-
do planejamento nas ações educativas. mato de seu corpo, enfatizando a autopercepção.
Em função dos objetivos específicos de cada Além disso, foi utilizada a técnica do escultor e
encontro, algumas atividades foram desenvolvi- escultura, promovendo a vivência de uma situa-
das com o grupo todo e outras dividindo as crian- ção de autonomia total para a escolha – exigindo o
ças em dois grupos, que eram trabalhados exercício de atividades volitivas pela criança – e
separadamente. em contrapartida a total impossibilidade da mes-
Os temas abordados foram cooperação e tra- ma – exigindo o exercício do autodomínio e da
balho coletivo, escolha, trabalho/profissões e au- capacidade de conter os desejos circunstanciais.
toconhecimento. Não houve um planejamento No eixo trabalho e profissões, os procedimen-
prévio de procedimentos para todo o processo, tos utilizados foram:
pois cada encontro era planejado a cada semana • atividade com mímica de pessoas trabalhando,
em função das demandas identificadas durante as tendo em vista identificar profissões conheci-
atividades dos encontros anteriores. Como pro- das pelas crianças e o nível de compreensão
cedimentos foram utilizados, de uma maneira das mesmas acerca da função social e local/
geral, jogos e brincadeiras diversas, gincanas, instrumentos de trabalho, criando condição
dramatização, mímica, atividades de desenho e para ampliar quantitativa e qualitativamente
colagem, entre outros. tais informações;
Especificamente para o desenvolvimento de • exibição do filme “Formiguinhaz”, que retra-
atitudes cooperativas e noção de grupo, foram re- ta as diferentes funções das formigas em um
alizados: formigueiro e a divisão social do trabalho,
• apresentação de peça de teatro desenvolvida seguida de produção de desenho atribuindo
pelas coordenadoras, retratando situações tí- profissões à ilustração de uma formiga;

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• identificação de profissões relacionadas a lo- RESULTADOS


cais de trabalho no bairro/comunidade utili-
zando desenhos que representassem a escola, Os dados de observação referentes aos com-
o posto de saúde, o mercado, o caminhão de portamentos das crianças durante cada atividade
lixo, o posto de gasolina, entre outros espaços. e o conteúdo de suas produções (desenho, pintu-
ra, etc.) obtidos nos três primeiros encontros com-
Era também parte da proposta inicial utilizar puseram o processo diagnóstico do grupo.
“rodas da conversa” ao final de cada encontro, ten- De uma maneira geral, constatou-se que ha-
do em vista verificar e aprofundar a compreensão bilidades que nesta faixa etária já deveriam estar
das crianças acerca das atividades desenvolvidas. sendo desenvolvidas e garantidas por meio do
Após algumas tentativas de implementação des- processo educativo não eram ainda observadas
ta técnica, no entanto, optou-se por não mais uti- no grupo. As crianças apresentavam extrema di-
lizá-la, tendo em vista que não havia ainda uma ficuldade de concentração nas atividades e havia
prontidão do grupo para este tipo de atividade, uma alta freqüência de emissão de comportamen-
que exige habilidades de atenção concentrada. A tos agressivos (tapas, socos, chutes, empurrões,
partir de então, e compreendendo que através do etc.) nos mais diversos contextos; além disso,
jogo a criança já está exercitando seus processos
detectou-se no grupo dificuldades de submeter-se
mentais, procurou-se dar ênfase a atividades que
a regras sociais e uma baixa freqüência de atitu-
privilegiassem o movimento, por favorecerem o
des cooperativas. Também em relação a habili-
engajamento das crianças, partindo das caracte-
dades acadêmicas, observaram-se dificuldades em
rísticas e habilidades já presentes naquele momen-
verbalizar a idade e compreender instruções para
to em direção ao desenvolvimento do grupo.
execução de atividades.
Considerando-se que não era possível o re-
gistro durante as atividades por tratar-se de um No que concerne à avaliação do repertório
processo de intervenção (visto que as estagiárias prévio do grupo sobre o mundo do trabalho (con-
permaneciam todo o tempo engajadas na pro- ceito, profissões, atividades exercidas pelos pro-
posição e coordenação das atividades), os en- fissionais, instrumentos e locais de trabalho), as
contros foram documentados em relatórios coordenadoras sinalizaram, nas conversas ini-
confeccionados logo após a realização dos mes- ciais, que os encontros e brincadeiras iriam tratar
mos. Esses relatórios continham o planejamento de temas como trabalho e profissões, entre ou-
(objetivos geral e específicos e estratégias), a des- tras coisas. Perguntou-se às crianças se elas sa-
crição pormenorizada das atividades desenvolvi- biam o que era trabalhar e quais as profissões que
das e em seguida a avaliação do encontro. elas já conheciam. Apenas uma criança soube
Em relação ao trabalho com os pais, foram exemplificar o que era trabalho: “trabalhar de lim-
realizados dois encontros nos quais foram abor- par a casa, né?”. Nenhuma soube dizer o que é
dados os temas “Regras” e “Agressividade Infan- uma profissão e nem exemplificar.
til”, este último mediante solicitação dos próprios A partir desse diagnóstico inicial, verificou-
participantes. Como se pode observar, buscou-se se a necessidade de um replanejamento dos obje-
conduzir a discussão sobre a importância do con- tivos. Tal medida foi adotada pois avaliou-se que
texto e das relações sociais na formação da crian- as dificuldades identificadas no repertório das
ça através de temas de interesse do grupo. Além crianças poderiam inviabilizar o cumprimento da
disso, este espaço de interlocução com os pais proposta de Orientação Profissional, cujos con-
foi concebido como uma possibilidade de discu- teúdos e atividades exigiriam uma série de apren-
tir com os mesmos as características identifica- dizagens prévias.
das no grupo de crianças, instrumentalizando-os Dessa forma, o desenvolvimento de habilida-
para contribuir para o processo de desenvolvimen- des básicas, tais como o engajamento em regras
to de seus filhos. sociais e atitudes cooperativas, foram incorpora-

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dos como objetivos paralelos do projeto, criando (lápis de cor, caneta hidrocor, etc). No entanto,
condições para que os demais objetivos pudes- episódios de dispersão no grupo (caracterizados
sem ser atingidos, partindo da condição atual de por desatenção na tarefa proposta e engajamento
desenvolvimento do grupo. Com tal procedimen- em atividades paralelas), embora com freqüên-
to, em nosso ponto de vista, estaríamos conside- cia muito menor, continuaram ocorrendo até os
rando as demandas e a realidade do grupo, sem, últimos encontros.
no entanto, recair em uma substituição de objeti- Em relação aos conteúdos específicos da Ori-
vos, o que significaria uma confusão de papéis entação Profissional, os quais puderam ser efeti-
entre professor e orientador profissional. vamente trabalhados a partir do nono encontro,
Assim, um processo de construção coletiva confirmou-se um conhecimento restrito por par-
de regras permeou todo o projeto. Conjuntamen- te do grupo como um todo em relação ao eixo
te com o grupo, foram estabelecidas regras sim- trabalho e profissões, o que já havia sido identifi-
ples de conduta (participar das brincadeiras, cado no diagnóstico do grupo. Esta constatação
levantar a mão para falar e não brigar), as quais pode ser ilustrada, por exemplo, com a descrição
foram associadas a símbolos (regra da bola, re- da atividade de mímica de pessoas trabalhando,
gra da mão e regra do coração, respectivamente) da qual participaram 18 crianças: elas engajaram-
e relembradas no início de cada encontro. se na brincadeira, porém apresentaram grande
Observou-se no decorrer do trabalho que as latência para recordar profissões a serem imita-
crianças memorizaram as regras combinadas, re- das e, dentre as quatro crianças sorteadas para
ferindo-se verbalmente a elas com freqüência realizar a mímica, três representaram pessoas
durante os encontros; relatos das mães de três executando trabalhos domésticos e uma imitou
crianças indicam que essas falavam sobre as re- um pedreiro.
gras também em casa. Constatou-se que o com- Após a exibição do filme “FormiguinhaZ”
portamento do grupo tornou-se sensível às regras, (no décimo encontro, com a participação de 19
no sentido de que, mediante uma referência ver- crianças), seu conteúdo foi retomado no encon-
bal às mesmas por parte das coordenadoras, as tro seguinte, no qual estavam presentes 11 crian-
crianças passaram a interromper determinadas ças. Ao serem questionadas sobre as profissões
ações ou engajar-se em outras. Vale destacar, ain- retratadas no filme, as crianças apontaram as
da, que numa atividade de avaliação em que se quatro principais: operário; soldado; “homem
perguntou ao grupo se as regras estavam ajudan- que trabalhava no bar” e rainha, o que parece
do nas brincadeiras e se deveriam continuar sen- indicar que a atividade foi significativa e houve
do utilizadas, todas as crianças responderam apropriação dos conteúdos, considerando-se que
positivamente e uma delas justificou dizendo: “a apenas sete das 11 crianças presentes nesse encon-
gente brigava, mas agora a gente é amigo”. tro haviam assistido ao filme na semana anterior.
Com a adoção do processo de construção Ainda nesse encontro propôs-se ao grupo
coletiva de regras e a realização das atividades ilustrar o desenho de uma formiga atribuindo-
para o desenvolvimento de atitudes cooperativas, lhe profissões. As crianças representaram: três
embora não tenha sido possível quantificar, pode- professoras; duas pessoas lavando louça; um mo-
se afirmar que a freqüência de emissão de compor- torista; um desenhista; uma pintora; uma pessoa
tamentos agressivos diminuiu consideravelmente, fazendo compras; uma babá; um operário (cujo
ainda que alguns episódios isolados pudessem ser instrumento de trabalho era semelhante ao utili-
observados nos últimos encontros. Paralelamen- zado pelas formigas operárias no filme). Nesta
te a isso, observou-se um aumento nas interações atividade, detectou-se pouca diversidade na re-
cooperativas entre as crianças, quais sejam: de- presentação dos instrumentos de trabalho (livros
senvolver atividades em parceria; ajudar o cole- para as professoras; caderno/livro para a desenhis-
ga a executar uma tarefa; compartilhar materiais ta e para a pintora), dificultando às coordenado-

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ras identificar quais as profissões representadas, rua, igreja, escola, supermercado, sorveteria,
o que só foi possível com instigação verbal. Ain- prédios, fazenda e floresta. Vale destacar que os
da durante a realização dessa atividade, as coor- dois últimos itens, que não se referem à realidade
denadoras realizaram intervenções verbais e do bairro, foram representados por um subgrupo
questionamentos para que as crianças descreves- de crianças que demonstrou maior interesse pe-
sem as atividades pertinentes à profissão repre- los materiais disponíveis do que pela tarefa em
sentada; também nesse momento observou-se si, utilizando basicamente colagens de papéis co-
pouca diversidade no repertório das crianças. loridos na atividade.
No 12º encontro, do qual participaram 15 No penúltimo encontro (14o) foi desenvolvi-
crianças, realizou-se uma atividade coletiva em da a atividade de desenho do contorno do corpo.
que se buscou relacionar as profissões aos locais Observou-se que algumas crianças compenetra-
de trabalho no bairro; em relação ao posto de saú- ram-se de fato na consecução da tarefa, enquanto
de, por exemplo, as crianças identificaram ape- outras realizaram-na de forma rápida e desaten-
nas o médico. As coordenadoras intervieram no ta. Entretanto, as ações envolvidas na tarefa (per-
sentido de auxiliar as crianças a se lembrarem de manecer deitado e imóvel na primeira etapa e
outros profissionais, através de perguntas sobre a seguir os contornos do corpo do colega na segun-
rotina da instituição. Uma das crianças citou a da), por si só exigiram que as crianças atentas-
enfermeira; questionadas sobre quem realiza a sem, ainda que minimamente, para seu próprio
limpeza do posto de saúde, uma criança respon- corpo e para o corpo do outro. A maioria das
deu que era o próprio médico e três outras crian- crianças demonstrou surpresa ao observar o re-
ças se referiram a “aquela moça que limpa”. As gistro do formato de seu corpo no papel, o que
coordenadoras então explicaram ao grupo que esta pôde ser detectado a partir de suas verbalizações.
profissional é a faxineira e que existem faxinei- O último encontro foi dedicado à retomada
ros e faxineiras trabalhando em diversos outros das atividades realizadas, o que foi feito através
locais. Não foi possível dar continuidade à ativi- de uma brincadeira em que as próprias crianças
dade, explorando tanto outros profissionais deste deveriam mencionar as atividades da quais se lem-
local de trabalho quanto outros locais do bairro bravam. Elas citaram: dança das bexigas, teatro,
(escola, mercado, posto de gasolina), como esta- teatro de fantoches, regras, mímica de pessoas
va previsto, em função de uma situação de inten- trabalhando, filme, desenho de quem mora co-
sa dispersão do grupo. migo, além de atividades de aquecimento/descon-
O 13º e o 14º encontros foram dedicados ao tração. O restante do encontro foi dedicado à
eixo do autoconhecimento, enfatizando respecti- confraternização com o grupo e à despedida, sen-
vamente a inserção no contexto social e a autoper- do que duas crianças choraram. O fato de recor-
cepção. No 13º encontro, as crianças demonstraram darem grande parte das atividades desenvolvidas
bastante interesse e engajamento na tarefa de de- e o pesar pelo encerramento do projeto parece
senhar as pessoas com quem moram. Na medi- demonstrar que o trabalho foi significativo para
da em que concluíam a atividade, as crianças o grupo.
passaram a observar os desenhos dos colegas e Um último aspecto a ser apontado, que cons-
puderam identificar, com auxílio das interven- tituiu um fator complicador no transcorrer do tra-
ções das coordenadoras, a existência de diver- balho, foi a quantidade de faltas das crianças
sas configurações familiares. Em seguida, foi (Tabela 01). O número médio de crianças por
distribuída uma cartolina para cada subgrupo de encontro foi de aproximadamente 19 e o número
crianças, na qual elas deveriam colar as casas médio de encontros que cada criança freqüentou
de cada uma e retratar os locais que existem no foi de aproximadamente nove (em um total de 15).
bairro, utilizando diversos materiais (lápis de Nesse sentido, verificou-se que 46% das crianças
cor, caneta hidrocor, giz de cera, cola, tesoura, tiveram pelo menos cinco faltas, visto que, con-
papéis coloridos). As crianças representaram: forme Tabela 02, apenas 54% delas participaram

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de 11 ou mais encontros. Destaca-se ainda que plo), o que acabava em alguma medida prejudi-
25% das crianças (um quarto do total) participa- cando o próprio desenrolar das atividades pro-
ram de cinco ou menos encontros (Tabela 02). postas.
Assim, muitas vezes as crianças não compreen- Diante dos resultados obtidos, constatou-se
diam a continuidade das atividades dos encon- a necessidade de continuidade do trabalho no
tros, os quais estavam sempre relacionados aos semestre seguinte por uma nova dupla de esta-
anteriores (não se engajavam em regras das quais giários, o que aconteceu durante o segundo se-
não haviam participado da construção, por exem- mestre de 2003.
Tabela 1
Número de crianças presentes e ausentes em cada encontro

Encontros 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º 8º 9º 10º 11º 12º 13º 14º 15º

Número de
crianças 21 20 25 19 22 22 17 18 18 19 11 15 16 19 18
presentes
Número de
crianças 7 8 3 9 6 6 11 10 10 9 17 13 12 9 10
ausentes

Tabela 2
Porcentagem de crianças por faixa de participação em encontros
Faixa de participação em
Número de crianças %
encontros

Até 5 7 25

D e 6 a 10 6 21

De 11 a 15 15 54

Total 28 100

Quanto ao trabalho desenvolvido com os pais das participantes do primeiro encontro não com-
ou responsáveis das crianças, contou-se com a pareceram ao segundo.
participação de 10 pessoas no primeiro encontro A primeira reunião, que teve duração de 50
e oito no segundo – que embora seja número pe- minutos, teve por objetivo apresentar o trabalho
queno em relação ao total de crianças, é próximo realizado com as crianças (duração, temas per-
da média de freqüência nas reuniões de pais da tinentes, formato dos encontros), enfatizando o
escola. Vale ressaltar que o convite para a segun- caminho percorrido pelas coordenadoras na cons-
da reunião que a escola enviou para os pais não trução coletiva de regras com as crianças. As par-
especificou que a atividade seria coordenada pe- ticipantes sentiram-se à vontade para relatar
las estagiárias de Psicologia, o que, de acordo com exemplos, fazer perguntas e reflexões; ao final,
uma das mães, foi o motivo pelo qual algumas avaliaram positivamente o encontro e afirmaram

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que o mesmo permitiu “parar para pensar sobre Torna-se importante nesse contexto discutir
uma coisa importante que acaba passando batida”. e explicitar a compreensão referente ao nível de
O segundo encontro, com duração de uma desenvolvimento do grupo diagnosticado pelas
hora e trinta minutos, discutiu, mediante solicita- coordenadoras. Como vimos, habilidades que na
ção das mães, a questão da agressividade infan- faixa etária em questão já deveriam estar sendo
til. Embora não houvesse à primeira vista uma observadas não estavam presentes no repertório
relação direta entre este tema e os conteúdos da do grupo. Para analisar tal situação, nos reporta-
Orientação Profissional, optou-se por atender a mos aos conhecimentos da Psicologia Sócio-his-
demanda do grupo – favorecendo assim seu en- tórica, que concebe o processo educativo como
gajamento – por ser condizente com a experi- condição para o desenvolvimento das funções
ência tida com as crianças e considerando as psíquicas do homem. A criança se desenvolve sob
possibilidades de se promover uma reflexão a influência de suas condições de vida, em um
sobre o papel do contexto social como determi- processo de interação ativa com o ambiente, atra-
nante tanto do comportamento agressivo, espe- vés da mediação de adultos ou de outras crianças
cificamente, quando da formação da identidade em estágios mais avançados de desenvolvimen-
da criança de uma maneira geral (inclusive da to. Logo, é de fundamental importância uma or-
identidade profissional dos indivíduos). Também ganização pedagógica que possibilite os melhores
nesse encontro houve bastante participação dos resultados e que tenha maior influência na for-
pais através de perguntas e exemplos. mação integral da criança.
Neste sentido, no grupo de crianças em ques-
tão, um dos fatores a ser considerado é que gran-
DISCUSSÃO de parte havia começado a freqüentar a escola
apenas naquele ano ou no ano anterior. Além dis-
Retomando os objetivos propostos para essa so, as crianças permaneciam a maior parte do tem-
intervenção, que envolviam a apropriação pelo po com um profissional sem formação apropriada
grupo dos conceitos de trabalho, trabalho coleti- para a prática pedagógica, cujo trabalho ficava
vo e profissões (e os conteúdos inerentes a essas restrito a cuidar do grupo (evitando brigas e aci-
temáticas), bem como a aprendizagem e a vivên- dentes), sem preocupações com objetivos peda-
cia de situações de escolhas e o desenvolvimento gógicos a serem atingidos e sem planejamento
do autoconhecimento, constata-se que os mesmos prévio de atividades de acordo com tais objeti-
foram parcialmente atingidos. vos. Outros aspectos institucionais e da vivência
Um aspecto dificultador do trabalho foi a das crianças nos demais espaços de socialização
ausência de determinadas habilidades nas crian- deveriam ser considerados, porém não foi objeti-
ças, o que prejudicou a consecução da totalidade vo deste trabalho proceder a esta investigação.
dos objetivos. Essa dificuldade se deu de varia- Conclui-se que as dificuldades identificadas
das formas: a) necessidade de dispender tempo não podem ser atribuídas às crianças em si, nem
no desenvolvimento de habilidades básicas no tomadas como naturais, mas que o processo edu-
repertório de comportamentos das crianças para cativo ao qual estavam submetidas de uma ma-
o trabalho em grupo; b) conseqüente redução da neira geral se mostra precário, não cumprindo os
quantidade de atividades a serem desenvolvidas objetivos pedagógicos correspondentes à faixa
para cada objetivo específico; c) limitação na se- etária e promovendo um desenvolvimento aquém
leção das estratégias. Isto demonstra a necessi- das possibilidades.
dade de um repertório prévio das crianças para No decorrer do trabalho, os temas Escolha e
que um trabalho de Orientação Profissional seja Autoconhecimento não foram explorados inte-
desenvolvido com pré-escolares. gralmente, da forma como foram propostos nos

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objetivos específicos. Isso se deveu não somente e auditivos expostos diretamente às crian-
às habilidades prévias que necessitaram ser de- ças em um mundo de tantas transforma-
senvolvidas principalmente nos primeiros encon- ções” (p. 24). A mesma constatação é
tros (restringindo os conteúdos da Orientação feita por Mastine, Garbulho, Zampieri
Profissional possíveis de serem trabalhados), & Parpinelli (2003), a partir de um tra-
como também porque optou-se pela utilização dos balho desenvolvido com crianças do Jar-
encontros restantes para o aprofundamento dos dim II de um colégio particular da cidade
conteúdos relativos a Trabalho e Profissões, de- de Bauru: “como resultados, verificamos
vido à sua importância para a Orientação Profis- que o eixo de informações profissionais
sional e ao diagnóstico do conhecimento restrito foi o que as crianças demonstraram pos-
do grupo em relação a estas temáticas. suir maior conhecimento prévio, com
Um dado que nos pareceu relevante nesse uma rápida aquisição dos novos concei-
contexto, é que nas produções e verbalizações de tos” (p. 26).
algumas das crianças, mesmo em atividades em A condição do grupo de crianças participan-
que eram diretamente solicitadas a representar tes dessa intervenção retrata uma situação bas-
profissões, as mesmas referiam-se a ações ou ati- tante desigual e parece denunciar, resgatando as
vidades de trabalho isoladas, tais como varrer o proposições de Mukhina (1996), o quanto a or-
chão, fazer compras, lavar a louça entre outras, ganização social vigente restringe o círculo de
não relacionadas a uma profissão em específico. contatos com a realidade proporcionado às crian-
Esse dado permite aventar a hipótese de que par- ças provenientes das classes populares.
te das crianças não tinha a compreensão da idéia Observa-se, portanto, conforme Miranda
de profissão. Através das atividades desenvolvi- (1984) que “falar da condição de criança remete
das junto ao grupo, buscou-se ampliar esse uni- à consideração de uma criança concreta, social-
verso de conhecimentos. Avaliamos, no entanto, mente determinada em um contexto de classes
que em função das dificuldades já relatadas e curta sociais antagônicas” (p. 129). A autora esclarece
duração do projeto, os resultados neste quesito ainda que o desenvolvimento da criança depende
tenham ficado aquém das possibilidades do tra- da mediação do adulto, mas que na sociedade
balho de Orientação Profissional infantil. capitalista, esta mediação se dará de diferentes
Com relação a crianças de classe média e formas (opostas, às vezes), dependendo da con-
média-alta, esta realidade parece ser bastante di- dição social da criança:
ferente. Na pesquisa realizada por Felipe (2003) “O processo de desenvolvimento do in-
a respeito da percepção do mundo do trabalho dividuo se inscreve num processo histó-
pela criança, tendo como sujeitos crianças da 1ª rico-social que o determina e, por sua
série do Ensino Fundamental em um colégio parti- vez, é por ele determinado. Assim, o pro-
cular na cidade de Florianópolis, a autora relata: cesso de socialização da criança é con-
“em relação às representações que elas cretamente determinado pela sua
têm a respeito do trabalho também sur- condição histórico-social. Além disso,
giram associações [...] com o lazer, o enquanto sujeito da história, a criança
estudo, o sustento próprio e familiar, o tem a possibilidade de recriar seu pro-
uso do computador, a prestação de ser- cesso de socialização e através dele in-
viços em geral e o esforço físico. [...] terferir na realidade social” (Miranda,
Também se destacou o fato das profis- 1984, p. 131).
sões dos pais não terem predominado Dessa forma, é preciso resgatar o papel da
nos desenhos, o que demonstra a quan- escola (e do processo educativo) em geral, com-
tidade e variedade de estímulos visuais preendendo que esta deve se constituir numa das

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mediações possíveis e fundamentais para a socia- pe da instituição, bem como da família e comu-
lização da criança das classes populares, sendo nidade, obtendo, assim, maior efetividade.
um espaço vivo e dinâmico, ao invés de atribuir a A realização desse trabalho nos chama espe-
ela ou ao seu meio social a experiência do fracas- cialmente a atenção para o compromisso social
so, do baixo padrão de respostas socialmente acei- do orientador profissional em exercer o papel de
táveis e da marginalidade. denúncia e luta pela transformação da realidade
Em nossa avaliação do projeto, acreditamos de exclusão do conhecimento ao qual estão sub-
que o trabalho com os pais poderia ter sido rea- metidos os indivíduos da classe proletária desde
lizado de uma forma mais sistemática, incluin- a infância. Cabe à Orientação Profissional discu-
do um número maior de encontros, favorecendo tir e evidenciar o quanto esta condição acaba por
dessa forma o seu engajamento, através da utili- restringir as possibilidades de atuação desses in-
zação dos conteúdos desenvolvidos no projeto divíduos enquanto sujeitos do contexto social, de
para as diversas situações do cotidiano familiar. modo geral e, mais especificamente, de sua pró-
Os pais mostraram-se receptivos, porém, face pria inserção profissional na sociedade.
às dificuldades da direção da escola em agendar Por fim, considerando também ter sido obje-
as reuniões e ao pouco tempo disponível para a tivo deste projeto discutir as possibilidades de
realização das mesmas, essa periodicidade tor- atuação do orientador profissional junto à infân-
nou-se inviável. cia e a viabilidade e validade desta modalidade
Além disso, identificou-se como uma lacuna de intervenção, podemos concluir, embora não
a ausência de um trabalho específico junto às edu- tenha sido possível explorar todas as suas possi-
cadoras responsáveis pelo grupo – que foi em bilidades nesta experiência de intervenção, que
grande parte impossibilitado pela inexistência de este desponta como um espaço emergente de atua-
espaços de reunião ou planejamento na instituição ção em Orientação Profissional. Programas de
– o qual favoreceria a consolidação dos ganhos Orientação Profissional com crianças podem
obtidos com o projeto e configuraria uma maior contribuir para uma formação integral dos indi-
contribuição para a instituição escolar e forma- víduos e para o planejamento de ações pedagógi-
ção continuada de seus profissionais. cas na Educação Infantil.
Estas constatações apontam para a importân- Enfatizamos, assim, a importância do desen-
cia de um trabalho articulado ao projeto político- volvimento de pesquisas e intervenções nesta
pedagógico da escola de educação infantil. Sendo área, fornecendo subsídios para o aprimoramen-
uma ação integrada ao projeto pedagógico da es- to do trabalho do orientador profissional junto à
cola, o planejamento e a execução de programas infância e, conseqüentemente, ampliando suas
de Orientação Profissional estariam relacionados possibilidades de contribuir efetivamente para o
aos demais objetivos pedagógicos da instituição processo de formação dos indivíduos e para a
e contariam com o envolvimento de toda a equi- transformação da realidade social.

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Recebido: 17/05/04
1ª Revisão: 15/07/04
Aceite final: 21/09/04

Sobre os autores
Juliana Campregher Pasqualini é psicóloga formada pela UNESP, campus de Bauru. Integra o Nú-
cleo de Estudos e Pesquisa em Educação Infantil, vinculado ao Departamento de Psicologia deste
campus. Atualmente desenvolve projetos de formação continuada de educadores.

Norma de Fátima Garbulho é doutora em Educação, professora do Departamento de Psicologia da


Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Bauru na área de Orientação Profissional.

Tannie Schut é psicóloga formada pela UNESP, campus de Bauru. Atualmente integra a equipe de
Psicologia do Hospital de Base da cidade de São José do Rio Preto na qualidade de aprimoranda em
Psicologia da Saúde.

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