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O melhor café do ano é da

Agricultura Sintrópica
Dayana Andrade

dezembro 22, 2019


10 min de leitura

Belo Horizonte_MG, 21 novembro de 2019\n\nSIC – Semana Internacional


do Cafe\n\nImagem: Gustavo Baxter / NITRO
Dentre 500 amostras de café de 20 regiões brasileiras, o café do produtor
Wilians Valério, do Recanto dos Tucanos recebeu o prêmio de the Melhor
Café do Ano 2019. O concurso é um dos mais importantes no cenário
brasileiro e conta com uma rigorosa seleção que passa pela apreciação por
especialistas (café arábica Q-Graders), mesas de cupping (prova e
classificação da bebida), degustação às cegas e voto público. No momento da
revelação final, a equipe do Sítio Recanto dos Tucanos subiu ao palco levando
com ela o nome da agricultura sintrópica e a bela história que está por trás
desse café campeão.

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Água se Planta ! Aguardamos você para na SIC nos dias 20 à 22 de novembro na
Expominas em Belo Horizonte , no stander de Alto
Caparaó.@revistaespresso@wiliansvaleriojunior @valeriowilians #sintropia@eudson
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2019 at 1:20pm PST
O café do Recanto dos Tucanos foi avaliado com pontuação acima de 88,3
durante a Semana Internacional do Café, que aconteceu em Belo Horizonte,
Minas Gerais/Brasil. 
Conversamos com Wilians Valério Jr. que, seguindo os passos de seu pai,
hoje está à frente dos plantios do Recanto dos Tucanos. O histórico do sítio é
um exemplo bastante representativo de como um plantio de café já
estabelecido pode passar por uma transição rumo à lógica de consórcios e
manejo da agricultura sintrópica.

WILIANS: Meu pai comprou a propriedade quando eu tinha 10 anos de


idade. Havia uma área com 3 mil pés de café e na outra parte era pasto.
Ele plantou café em tudo só que o café não dava muito resultado porque
era vendido como commodity. Não existia o mercado de café especial
naquela época, portanto, o preço não compensava. Então meu pai acabou
desistindo. Foi quando ele cortou o café e plantou frutas: pera, pêssego e
azeitona. Ele manteve o café cortado para deixar as frutas crescerem. 
O Sítio Recanto dos Tucanos está localizado a uma altitude de 1.300m, no
município de Alto Caparaó/MG. A região, próxima ao Parque Nacional do
Caparaó, vem se destacando pela produção de cafés especiais.
Conversamos também com Rômulo Araújo, engenheiro agrônomo, amigo da
equipe e consultor do sítio.

RÔMULO: O ecossistema ali é uma Mata Atlântica de altitude. Tem


araucária, jabuticaba, juçara, ingá, tudo isso na mata. O lugar já é muito
bonito e os plantios que o pai do Wilians fez são lindos: pereiras,
pessegueiros, marmeleiros, oliveiras. O pai dele é um agricultor muito
bom, tudo o que ele cuida prospera.

Diante da volatilidade do preço do café submetido ao mercado de comoddities


o Wilians pai tomou a ousada decisão de trocar sua cultura principal. Como
bom agricultor que é, seguiu seus instintos e investiu na fruticultura
diversificada. Ao manter os pés de café podados, Wilians pai criou a
oportunidade para as novas árvores se estabelecerem, sincronizando, de certa
forma, o crescimento de todo o sistema sem precisar eliminar o plantio inicial
de café.
WILIANS: Foi essa área que, 40 anos depois, eu peguei para manejar
com agricultura sintrópica e é desse café que eu estou colhendo hoje.

RÔMULO: Quando o Wilians começou a tomar conta dos cafés para o


pai, eles deixaram aquele café que havia sido cortado rebrotar. Esse café
voltou lindamente por baixo das árvores frutíferas. A pera no estrato
emergente, a oliveira no estrato médio alto, o pêssego no estrato médio.
Há muitas coisas espalhadas, mas sem um desenho de estratificação
intencional. Foram feitos alguns raleamentos, mas o gargalo ali ainda é a
produção de matéria orgânica dentro das áreas. Não houve a previsão de
nenhum plantio no meio para ser roçado e alimentar as árvores. O
grande desafio dessa transição, portanto, está sendo pegar um cafezal já
implantado e produzir biomassa no meio. Hoje estamos colocando
bastante bananeira no meio do café, com a finalidade de cortar e suprir o
sistema de biomassa.
Produção de biomassa para alimentar as árvores de café
CAFÉ NO MUNDO
O café é um importante produto agrícola no mercado mundial, com uma
produção de aproximadamente 9 milhões de toneladas por ano. Cerca de 125
milhões de pessoas na América Latina, África e Ásia dependem dessa cultura
para sua subsistência. Quarenta anos depois da instabilidade de preços
vivenciada pelo Wilians pai, as altas e baixas do mercado continuam a
assombrar cafeicultores mundo afora – condição que hoje em dia é ainda
agravada pelo aumento do preço dos insumos, maior incidência de pragas e
doenças, secas mais frequentes e padrões irregulares de precipitação e clima.
Por outro lado, a demanda por café especial indica uma potencial expansão de
cultivos que prezam pela qualidade do produto final. A pergunta central,
portanto, passa a ser: qual é a condição ideal para a produção de café? Para
Ernst Götsch, o café ocorre natural e originalmente em “florestas de distúrbio
semicaducifólias” e, portanto, são essas condições que devemos replicar em
nossos agro-eco-sistemas.

ERNST GÖTSCH: O café é de florestas de distúrbio semicaducifólia.


Semicaducifolia porque é uma floresta em que principalmente as espécies
que compõem os estratos alto e emergente perdem parcialmente as suas
folhas. Floresta de distúrbio são florestas de abundância, ou seja, se
transformam em florestas de abundância e cada distúrbio resulta no
rejuvenescimento e na repetição do trabalho das espécies que ali crescem.
Há muitas espécies que são típicas de distúrbio: nas Américas temos o
cajá, certas bombacáceas também, pupunha e a jussara por exemplo. Nós
podemos induzir essa dinâmica de distúrbio.

As plantas classificadas por Ernst Götsch como típicas de florestas de


distúrbio são aquelas que em suas condições originais estão naturalmente
sujeitas a constantes distúrbios causados por ventos, furacões, etc. O cacau
seria outro importante exemplo - sobre ele já falamos aqui e aqui. A
reprodução dessa dinâmica de distúrbios dentro dos plantios sintrópicos
acontece fundamentalmente por meio das podas.

ERNST GÖTSCH: Eu planto, por exemplo, café com ingazeiras, ou com


mangueiras ou jaqueiras ou outras espécies de rápido crescimento. Pode
ser também com siriguela, umbu-cajá etc. Enquanto essas árvores estão
crescendo eu colho a mandioca, o que em si também já é um pequeno
distúrbio, assim como quando tiro o abacaxi ou podo o guandu. Quando
sobem as ingazeiras ou as jaqueiras, as mangueiras, os citrinos, naquele
momento ocorre um excelente efeito no café. Mas, 2 ou 3 anos depois, o
produtor acaba chegando à conclusão de que sua produtividade está indo
por água abaixo.

A produção de café em sistemas sombreados não é exatamente uma novidade.


Tradicionalmente, cultivos sombreados have always been practiced, especially
in northern Latin America. Despite the recognized ecological advantages, this
method is generally associated with low productivity. For Ernst Götsch, this
effect is mainly related to the aging of the system as a whole. But, this
obstacle can be overcome.
Alta densidade e biodiversidade nos consórcios
ERNST GÖTSCH: Quando isso acontece, o agricultor tem que aprender,
assim como eu tive que aprender, a podar esse sistema. Com a poda, esse
sistema vai ter muita matéria orgânica, não só da queda das folhas, mas
também muita matéria oriunda de madeira, muita madeira de poda - e as
espécies mencionadas são muito boas pois aguentam muito bem a poda. O
agricultor tem que fazer essa poda em um momento muito específico que
é quase junto com a colheita – seria em maio aqui no nosso subcontinente.
Nesse momento ele faz uma poda forte, se ele tiver pupunha ele tira o
excesso, poda as ingazeiras, se tiver muitos jequitibás vai podá-los
também, se tiver outras árvores, vai podar também. Isso traz luz,
imitando a fase em que todos do estrato alto e emergente perdem as
folhas. Depois também, nesse momento cortam-se todas as bananeiras
para ficar só o filho-cifre. Assim, todo mundo começa a rebrotar de novo,
em plena seca, no dia curto, tanto a transpiração quanto a evaporação são
bem menores. Ao mesmo tempo acontece um crescimento muito forte o
que faz com que a própria vegetação consiga beber água da atmosfera e a
matéria orgânica no chão retém água, protege da evaporação, e os fungos
que vão se desenvolver também bebem água da atmosfera. Então, vai
haver um crescimento superforte. Assim, há um superforte crescimento
no inverno, ou seja, no momento atípico para um sistema de acumulação,
e atípico de qualquer forma também para uma floresta subúmida, que
tem tendência para ficar parada nessa fase. Mas se você observar bem, os
estratos baixo e médio estão superativos naquele momento quando se
trata de sistemas de abundância. Portanto, a gente vai favorecer essa
dinâmica mediante a poda. Dessa forma, o agricultor vai chegar mais
rapidamente e mais fortemente a um saldo positivo energeticamente,
enquanto vida consolidada tanto no sublocal em que ele interage quanto
no planeta por inteiro. Ou seja, o agricultor chega para um sistema
verdadeiramente sintrópico. Para isso é muito importante que as árvores
sejam plantadas em alta densidade e não na densidade definitiva. Tem
que ser um plantio muito mais denso para que o agricultor possa depois
fazer raleamento, escolher pelas melhores etc, e porque na hora da poda
as árvores não podem estar muito afastadas umas das outras pois senão
vai haver falta de material. Então, tem que ser muito mais denso do que
em um sistema de acumulação.

A diferença, portanto, na proposta de Ernst Götsch da agricultura sintropica


reside tanto no consórcio biodiverso e em alta densidade quanto também no
manejo adequado. Isso é o que garante a reprodução da dinâmica de uma
floresta de distúrbio e que vai impactar positivamente na frutificação.

RÔMULO: Um café apenas sombreado não tem essa dinâmica. Ele é um


café que fica sob árvores velhas, o estrato baixo é removido, a
regeneração que garantiria as árvores do futuro é praticamente
exterminada. Não é feito um trabalho com poda, não é feito efetivamente
um trabalho com estratificação, ou seja, você não tem uma deposição de
material, não tem uma abertura dos estratos superiores para entrada de
luz no estrato baixo no momento certo. Nada disso costuma acontecer nos
plantios de café sombreado que vemos por aí.

TRANSIÇÃO PARA A AGRICULTURA


SINTRÓPICA
* As fotos são de arquivos do Recanto dos Tucanos
WILIANS: Eu já estava trabalhando com a ideia do orgânico, mas
conforme eu fui ouvindo sobre a agricultura sintrópica, vendo os vídeos,
eu comecei a fazer alguns testes. Aquilo me fez começar a ver as coisas de
uma forma diferente, só que eu ainda não entendia muito bem. Quando
fiz o primeiro curso foi que eu vi o tanto que eu ainda tinha que
aprender. O maior desafio era mesmo eu acreditar, porque eu nunca
tinha visto ninguém fazendo aquilo aqui perto de mim. Como que eu ia
acreditar? Mas eu acreditei, fiz e deu certo. Na primeira poda que eu fiz
nas plantas eu já vi a diferença. O Ernst fala que a poda é o pulo do gato
e, realmente, ele não está brincando quando fala isso. Ele não brinca
quando está falando de agricultura sintrópica. A gente tem que aprender
com ele. Se você fizer de coração dá certo. Mas tem que fazer, senão não
adianta nada. Depois que eu entendi isso eu entendi que era mais simples
do que eu imaginava, e hoje a gente participa do sistema todo dia. O dia
que não participa fica chateado.

Belo Horizonte_MG, 22 novembro de 2019\n\nSIC – Semana Internacional


do Cafe\n\nImagem: NITRO Historias Visuais

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