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CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA Nº16 1999 5

Pensar contemporaneamente a museologia


Judite Santos Primo *

1- APRESENTAÇÃO

No presente trabalho pretendemos analisar cinco documentos


básicos que traduzem o Pensar Museológico no nosso século e que,
principalmente, levaram os profissionais da área a aplicar esta
“ciência” de forma menos hermética e a entender a sua prática.

A opção em estuda-los e analisa-los, deve-se ao facto destes


documentos influenciarem a prática e o pensar museológico actual. É
impossível, nos dias actuais, falar de museologia sem referir um
destes documentos, até mesmo porque estes levaram a elaboração de
vários outros documentos, isso sem falarmos de algumas nações que
até mesmo modificaram e/ou criaram leis especificas para a gestão
da sua política cultural, preservacionista.

De qualquer modo, temos consciência que este trabalho


apenas se propõe fazer uma abordagem preliminar dos documentos,
na medida em que a riqueza de seu conteúdo permitiria que nos
atardassemos sobre toda uma infinidade de questões que eles
levantam.

Refiro-me especificamente aos documentos produzidos no


Seminário Regional da UNESCO sobre a Função Educativa dos
Museus ocorrido no Rio de Janeiro no ano de 1958, na Mesa Redonda

*
Professora Assistente da ULHT na disciplina de Museologia e Museologia e
Património nos cursos de Gestão de Empresas Turísticas e Hoteleiras e Ciências da
Comunicação e da Cultura
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de Santiago do Chile em 1972, no I Atelier Internacional da Nova


Museologia na cidade de Quebec no Canadá realizado em 1984, na
Reunião de Oaxtepec ocorrida no México em 1984 e na Reunião de
Caracas na Venezuela em 1992. Documentos que foram elaborados
no seio do ICOM – Concelho Internacional de Museologia.

Os documentos acima referidos, são o resultado da reflexão


conjunta de profissionais que buscam a evolução de ideias na sua área
de actuação, reconhecendo que para isto ocorrer faz-se necessário sair
do casulo das suas instituições museológicas e tentar discutir com os
profissionais das áreas afins os seus avanços conceituais, sendo
importante estarem capacitados para reutilizarem estes avanços nas
suas áreas de actuação. É o reconhecimento da importância da
interdisciplinaridade para o contexto museológico.

Esses documentos possuem uma característica em comum:


todos eles foram elaborados e produzidos no Continente Americano. E
se pretendemos entender a importância desses documentos para a
evolução do conceito e da prática da museologia no século XX, não se
pode esquecer todo o percurso histórico do Continente Americano,
todo ele marcado pela colonização dos povos ameríndios. O processo
de colonização resultou na mistura de raças, com suas diferentes
culturas e tradições, assim como em alguns momentos também foi
marcado pela barbárie, pela destruição de civilizações e de tradições.

Todos esses factores devem ser lembrados quando nos


propomos analisar documentos que tanto questionam dogmas, visto
que muitos destes dogmas foram criados e fortificados pela civilização
europeia, colonizadora do Continente Americano.
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Exceptuando a DECLARAÇÃO DE QUEBEC que ocorreu na


América do Norte, todas as demais declarações foram elaboradas na
América Latina com participação quase que exclusiva de profissionais
latino-americano.

A América Latina marcada historicamente pelos conflitos


sociais, económicos, ideológicos e o crescente fosso que separa os
seus países, actualmente subdesenvolvidos, dos países desenvolvidos
do restante do planeta, procurou através dos profissionais da área da
museologia apontar problemas existentes nas áreas culturais/
educativas/sociais e até mesmo económicas e indicar caminhos para
os solucionar ou no mínimo amenizar algumas das questões no âmbito
da Museologia.

Para uma análise mais aprofundada destes documentos, foi


realizado no ano de 1995 em São Paulo o Seminário: “A Museologia
Brasileira e o ICOM: Convergências ou desencontros?”, que tinha
por objectivo debater a assimilação ou não de suas directrizes pelas
instituições museológicas brasileiras.

Em contexto, foi elaborado um documento preparatório para o


referido Seminário que continha os 05 documentos produzidos entre
os anos de 1958 e 1992, já referenciados acima, documentos estes
produzidos em reuniões de trabalho que contaram com a participação
de profissionais de diferentes gerações, áreas científicas e
nacionalidades. Estes documentos traduzem aspectos fundamentais do
pensamento museológico contemporâneo.
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2- CONTEÚDO DOS DOCUMENTOS

1958 Rio de Janeiro.


SEMINÁRIO REGIONAL DA UNESCO
SOBRE A FUNÇÃO EDUCATIVA
DOS MUSEUS

“O museu pode trazer muitos benefícios à educação.


Esta importância não deixa de crescer. Trata-se de
dar à função educativa toda a importância que
merece, sem diminuir o nível da instituição, nem
colocar em perigo o cumprimento das outras
finalidades não menos essenciais: conservação física,
investigação científica, deleite, etc. ”

Seminário Regional da UNESCO sobre a função


Educativa dos Museus. 1958

O documento estabelece um objectivo de estudo para a


museologia: o objecto museológico, entendido como o objecto
artístico, histórico e tridimensional. Dá ênfase a função educativa dos
museus, entendendo que a educação exercida é a formal; reconhece o
museu como se fosse uma extensão da escola.

Dedica grande atenção para a exposição museográfica,


criticando a museografia utilizada nos museus da época devido ao
excesso de etiquetas e cartazes na exposição: “a exposição não é um
livro”. Aproveita para enfatizar o caracter didáctico da exposição.
Buscando alternativas para os problemas expositivos, sugere que o
museu se aproprie das novas tecnologias para comunicar.
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Refere também, a importância da formação profissionais para


a área da museologia e sugere a criação de cursos específicos. Coloca
vários questionamentos sobre os diferentes tipos de museus e suas
especialidades.

1972 Chile.
MESA REDONDA DE SANTIAGO

“ ... o museu é uma instituição a serviço da sociedade,


da qual é parte integrante e que possui nele mesmo os
elementos que lhe permitem participar na formação
da consciência das comunidades que ele serve; que
ele pode contribuir para o engajamento destas
comunidades na acção, situando suas actividades em
um quadro histórico que permita esclarecer os
problemas actuais, isto é, ligando o passado ao
presente, engajando-se nas mudanças de estrutura em
curso e provocando outras mudanças no interior de
suas respectivas realidades nacionais.”

Mesa Redonda de Santiago do Chile – 1972.

O Documento define um novo conceito de acção dos museus:


O Museu Integral, destinado a proporcionar à comunidade uma visão
de conjunto de seu meio material e cultural. Com este novo conceito
de museu, a instituição passa a ser entendida enquanto instrumento de
mudança social, enquanto instrumento para o desenvolvimento e
enquanto acção. Passando assim a trabalhar com a perspectiva de
património global
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A função do museu passa a ser entendida para além da recolha


e conservação de objectos, pois a instituição passa a ser vista como
agente de desenvolvimento comunitário, exercendo um papel decisivo
na educação da comunidade. Assume uma função social para o
museu.

Trata da importância da interdisciplinaridade no contexto


museológico, falando em abrir os museus às disciplinas afins, para
que a instituição se aperceba do desenvolvimento antropológico,
sócio- económico e tecnológico das nações da América Latina.

Entende que o museu se tem por vezes transformado num


centro de pesquisa, na medida em que torna suas colecções acessíveis
aos pesquisadores.

Trata especificamente do problema do museu em relação ao


meio rural, ao meio urbano, ao desenvolvimento científico e técnico, a
educação permanente na medida em que se acredita na potencialidade
da instituição em servir de vector de conscientização dos problemas
da e na comunidade. Neste contexto o museólogo é entendido
enquanto ser político e social.

Ao falar da importância em se modernizar as técnicas


museográficas, diz ser necessário uma descentralização da acção
museológica por meio de exposição itinerante.

Recomenda a criação de cursos de formação de técnicos de


museus (nível secundário e universitário)
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1984 Canadá
DECLARAÇÃO DE QUEBEC

“ A museologia deve procurar, num mundo


contemporâneo que tenta integrar todos os meios de
desenvolvimento, estender suas atribuições e funções
tradicionais de identificação, de conservação e de
educação, a práticas mais vastas que estes objectivos,
para melhor inserir sua acção naquelas ligadas ao
meio humano e físico.”

Declaração de Quebec – 1984

O atêlie evoluiu da ideia de novas formas de museologia até o


reconhecimento de um novo movimento museológico no qual estas
novas formas de acção museológica se legitimam: trata-se do
Movimento da Nova Museologia que viria a ser formalizado no ano
seguinte em Lisboa durante o II Encontro Internacional – Nova
Museologia/ Museus Locais, sobre a denominação de Movimento
Internacional para uma Nova Museologia (MINOM), organização
que dois anos depois foi reconhecida como Instituição Afiliada ao
Conselho Internacional de Museus (ICOM).

O essencial para a Nova Museologia, era aprofundar as


questões da interdisciplinaridade no domínio da museologia facto que
contrariava o saber isolado, absoluto e redutor da museologia
tradicional instituída, deixando desta forma espaço para uma maior
reflexão crítica.
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Fala-se da existência de uma museologia de carácter social em


oposição a uma museologia de colecções. Cria uma dicotomia entre A
Nova Museologia X A Tradicional

A investigação e a interpretação assumiam importância no


contexto museológico. O objectivo da museologia deveria ser, a partir
deste momento, o desenvolvimento comunitário e não só a
preservação de artefactos materiais de civilizações passadas.

Fala sobre a museologia que se deve manifestar em sociedade


de forma global e, para tanto é necessário que esta ciência se preocupe
com questões sociais, culturais e económicas.

1984 México
DECLARAÇÃO DE OAXTEPEC

“La participación comunitaria evita las dificultades


de comunicación, característica del monólogo
museográfico emprendido por el especialista, y
recoge las tradiciones y la memoria colectivas,
ubicándolas el lado del conocimento científico.”

Declaração de Oaxtepec – 1984.

Neste documento é considerada indissolúvel a relação:


território- património- comunidade; e propõe que a museologia,
seja ela a Nova ou Tradicional, leve o homem a confrontar-se com a
realidade por meio de elementos tridimensionais, representativos e
simbólicos. Para tanto é necessário o diálogo e participação
comunitária, evitando o monólogo do técnico especialista.
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Mostra que existe uma dicotomia entre Velha e Nova


Museologia.

Defende a preservação in situ e, justifica essa ideia com o


argumento de que ao retirar o património do seu contexto, modifica-se
a ideia original. A defesa da preservação in situ se deve ao fato de
considerar o espaço territorial como área museográfica.

Amplia-se a ideia de património cultural, passando a entendê-


lo através de uma visão integrada da realidade. Com isso indica que a
museologia não pode mais se manter isolada, não pode mais se
dissociar das descobertas e avanços científicos, dos problemas sociais,
económicos e políticos.

A museologia é reafirmada como vector de desenvolvimento


comunitário e, propõe se que esta capacite a comunidade para gerir
suas instituições culturais.

1992 Venezuela.
DECLARAÇÃO DE CARACAS.

“A função museológica é, fundamentalmente, um


processo de comunicação que explica e orienta as
actividades específicas do museu, tais como a
colecção, conservação e exibição do património
cultural e natural. Isto significa que os museus não
são somente fontes de informação ou instrumentos de
educação, mas espaços e meios de comunicação que
servem ao estabelecimento da interacção da
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comunidade com o processo e com os produtos


culturais.”

Declaração de Caracas – 1992.

Analisa a actual situação dos Museus da América Latina,


estabelecendo um perfil das mudanças sócio/políticas, económicas e
tecnológicas nos últimos 20 anos da América Latina e a transformação
conceptual e operacional nas instituições museológicas.

Entende que os museus da América Latina têm como desafio a


relação do museu com a Comunicação, o Património, a Liderança, a
Gestão e os Recursos Humanos. Redefine o conceito trabalhado na
Mesa Redonda de Santiago, o de Museu Integral para o conceito de
Museu Integrado na Comunidade.
Recomenda a reformulação das políticas de formação de
colecções, de conservação, de investigação, de educação e de
comunicação, tudo isso em função de se estabelecer uma significativa
relação com a comunidade.

Propõe que o museu assuma a sua responsabilidade como


gestor social, através de propostas museológicas que reflictam os
interesses da comunidade e utilizem uma linguagem comprometida
com a realidade, sendo esta a única forma de transforma-la.
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3- UMA REFLEXÃO ACÊRCA DOS DOCUMENTOS

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,


Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidade.”

Luis de Camões

As conclusões do Seminário Regional da UNESCO sobre a


Função Educativa dos Museus, ocorrido no ano de 1958 no Rio de
Janeiro, é o primeiro dos documentos que abordamos neste trabalho.

Lembremos que o Seminário ocorreu no Brasil, país fruto da


assimilação cultural entre povos distintos –índios, europeus e,
africanos- chegando-se ao século XX com relativa sedimentação
dessas culturas, formadoras duma identidade nacional continuamente
enriquecida por novos elementos.

As Décadas de 50 e 60 foram marcadas no cenário brasileiro


pelas reformas trabalhistas do Governo de Vargas, a modernização do
tecido industrial (a criação da Companhia Nacional de Electricidade é
disso um exemplo simbólico), as mudanças políticas que sucederam
ao suicídio do Presidente Getúlio Vargas, a construção da cidade de
Brasília que objectivava um certo renascer de um Brasil cheio de
“potencialidades” com a posterior transferência da Capital Federal e,
o Golpe de 1964 que instalou no país um regime militar ditatorial.

No contexto mundial é o momento em que se iniciam a


generalidade dos processos de descolonização, a realização da
Conferência de Bandung dos Países não Alinhados em 1955, reforço
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do movimento Comunista na China, nos Países do Leste Europeu e


em Cuba, o processo de modernização da indústria na Europa, do
desenvolvimento das organizações sindicais e, do reforço das
ditaduras na América Latina.

O entendimento do Património Cultural em geral reflecte as


sequelas do pós-guerra. Como legado deste período ressalta o facto,
por todo lado patente, que grande parte do património arquitectónico e
monumental estavam destruídos, isso sem falarmos das pilhagens de
obras-de-arte entre países, e o desenvolvimento do comércio de arte.
Neste contexto ocorre a criação do Conselho Internacional dos
Museus, o ICOM, sob a protecção da UNESCO.

Reflectindo esta situação, vários profissionais se reúnem em


1958 para discutir a função educativa dos Museus, e consideram que o
espaço do museu é adequado para se exercer a educação formal,
facto novo no pensamento museológico da época.

No Documento do Rio do Janeiro, a educação no museu ainda


é vista como uma extensão da escola e não como uma agente de
transformação social. O pensamento de Paulo Freire só mais tarde
viria a interessar o mundo dos museus. O mesmo Documento
preocupa-se profundamente com a exposição museológica e os
recursos que o museu utiliza para se comunicar com o público.

Quarenta anos após o Seminário e a realização deste


Documento, muitos dos aspectos abordados naquele momento
sofreram profundas transformações que levaram ao “envelhecimento”
do mesmo, mas devemos reconhecer que ele foi fundamental para a
época na qual foi produzido por ir ao encontro dos anseios de muitos
profissionais da museologia, insatisfeitos com os limites que a
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museologia tradicional lhes impunha. O Seminário foi importante na


medida que levantou problemas que posteriormente levariam a
transformação do museu em agente de desenvolvimento.

Durante a Década de 70 a América Latina foi marcada pelas


ditaduras militares. Um clima tenso se estabelecia por todo o lado em
virtude de grande parte da população se opor ao regime ditatorial e
buscar a institucionalização de Regimes mais democráticos. Ao lutar
pela adopção do sistema democrático, o que se pretendia era a
melhoria nas condições económicas e sociais e, a possibilidade de se
manifestar politicamente, questões relacionadas com o exercício da
cidadania.

A Declaração de Santiago, realizada no Chile em 1972 pode


ser considerada como a primeira reunião interdisciplinar, preocupada
com a interdisciplinaridade no contexto museológico e, voltada para a
discussão do papel do museu na sociedade.

Este Documento propõe, que a relação que o homem


estabelece com o Património cultural passe a ser estudada pela
museologia, e que o museu seja entendido como instrumento e agente
de transformação social.

Ao museólogo começa a ser cobrado um posicionamento


político/ ideológico, pois enquanto profissional que trabalha numa
instituição que tem por objectivo o desenvolvimento social, ele é
agora entendido como um ser político.
A preocupação com a acção educativa dos museus é uma
realidade que se intensifica nos países americanos a partir da década
de 70. Período em que a Educação também passa por modificações
devido a novas correntes pedagógicas. É também um momento em
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que os educadores passam a procurar as instituições museológicas


como uma extensão da escola, surgindo com isso os sectores
educativos que em sua maioria, anteriormente, se preocupavam apenas
com a formação de monitores, elaboração de material didáctico e a
marcação de visitas guiadas

No seio desta nova corrente há agora um olhar mais atento


sobre os novos processos pedagógicos e a busca pela adequação
destes processos nas acções educativas e culturais de cunho
museológico.

É a partir da Declaração de Santiago que a comunidade


museológica, já não pode ignorar que o museu começa a ter um papel
decisivo na educação da comunidade e a ser agente de
desenvolvimento. Por entender que a maior potencialidade dos
museus é a sua acção educativa e a educação verdadeira é aquela que
serve à libertação, questionamento e reflexão é que as novas correntes
da museologia, após esta Declaração, se aportou do método
pedagógico defendido por Paulo Freire, que entende a educação como
prática da liberdade e constrói a teoria da Educação Dialógica e
Problematizadora na qual a relação educador- educando é horizontal,
ou seja: acredita-se que a partir do diálogo e da reflexão os homens se
educam em comunhão.

“Já agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém


se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão,
mediatizados pelo mundo” (FREIRE. 1987:69). 1

1
, Paulo FREIRE. Extensão ou comunicação., Paz e Terra, 18ª ed. 1987.
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A Teoria da acção educativa dialógica, com a qual a


museologia contemporânea tanto tem evoluído, baseia-se na
colaboração, união pela libertação, e na negação da educação
“bancária”. Sendo desta forma uma vertente da educação que
compreende o homem como um ser participativo que busca em
colaboração e união com os outros indivíduos a emersão das
consciências e do saber levando à inserção crítica da realidade,
procura fundamentar-se no diálogo (como revelador da realidade), na
criatividade e reflexão crítica (como exercício para a libertação). Esse
pensar mais democrático da educação, coincide plenamente com o
pensar museológico que se legitima após a Mesa Redonda de
Santiago.

Vinte e seis anos após a sua elaboração, a Declaração da Mesa


Redonda de Santiago do Chile, continua servindo de base para a
elaboração de outros documentos. Pode-se dizer que neste Documento
o Museu ainda mantém um papel determinante.

Ratificando essa ideia, Horta, ao analisar o documento


produzido durante a Mesa Redonda de Santiago, nos diz que:

“A função do Museu no documento de Santiago, ainda


postula a `intervenção` no meio social e no seu território,
cabendo-lhe ainda um papel de `mestre`, conscientizando o
`público` sobre a necessidade da `preservação` do patrimônio
cultural e natural. Ainda temos um museu cheio de certezas,
definidor de um discurso, por mais revolucionário, ainda
monológico. A idéia de `museu`, em sua nova forma
`integral`, ainda é nebulosa, como um `papel` (representação,
imagem?) a ser desempenhado, que se configura mais
ideologicamente, politicamente, socialmente do que
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funcionalmente, especificamente, tecnicamente,


pragmaticamente.” (Horta. 1995: 34) 2

O Museu em Santiago é ainda entendido como Protagonista


para a realização das actividades com a comunidade. Mas isso não lhe
reduz o mérito de ter sido, de todos os documentos, o mais inovador e
porque não dizer revolucionário, aquele que trouxe as maiores
transformações conceituais para o contexto museológico.

O Documento de Santiago trouxe como novidade o conceito


de Museu Integral - a instituição agora tinha o papel de trabalhar
com a comunidade por meio de uma visão de Património Global- e a
ideia do museu enquanto acção.

O Documento de Oaxtepec é redigido em 1984, no mesmo


ano da Declaração de Quebec e reafirma muitas das questões
apontadas e recomendadas na Mesa Redonda de Santiago do Chile e
em Quebec.

Os Documentos produzidos em Quebec e em Oaxtepec


trouxeram para o contexto museológico algumas discussões
conceituais, pois no afã de legitimar o Movimento da Nova
Museologia se criou um antagonismo entre a Museologia
Tradicional e a Nova Museologia, passando a falar-se da existências
de duas museologias que se revela serem antagónicas.

2
Mª de Lourdes Parreira Horta. 20 anos depois de Santiago: a declaração de
Caracas – 1992. In A memória do Pensamento contenporâneo: documentos e
depoimentos 1995
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Para se marcar a diferença supostamente existente entre as


“duas museologias”, criam-se quadros comparativos, com os quais se
pretendiam mostrar que a Museologia Tradicional era aquela que se
exercia dentro de um Edifício, com uma colecção, para um público
determinado exercendo uma função educadora (educação formal);
enquanto a Nova Museologia era exercida dentro de um território,
trabalhando o património cultural com uma comunidade participativa.
O Quadro abaixo reflecte este pensar:

• MUSEOLOGIA • NOVA MUSEOLOGIA


TRADICONAL
• Edifícios • Território
• Colecções • Património
• Público Determinado • Comunidade Participativa
• Função Educadora • Museu entendido como um
ato pedagógico para o
ecodesenvolvimento.

Naquele momento, numa primeira leitura podia considerar-se


que uma nova museologia se contrapunha a uma velha e arcaica
museologia. Mas na verdade o que ocorreu com a “ciência”
museológica, assim como em todas as outras ciências sociais é um
despertar para tudo o que estava acontecendo no mundo
contemporâneo, através de uma percepção mais aguçada das
transformações ocorridas na sociedade e uma busca em se actualizar e
agir mais contemporaneamente e, não o surgimento de uma outra
museologia.
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Não se pode falar na existência de duas museologias, pois o


que na verdade ocorre são duas formas diferentes de se actuar na
“ciência” museológica. Pode-se dizer, que uma dessas forma é aquela
que se preocupa basicamente com questões administrativas,
documentais e preservacionistas do objecto; a outra forma de actuação
está mais voltada para as necessidades e anseios sociais, assim como
trabalha com a ideia de património entendido na sua globalidade e, as
acções de preservação, conservação e documentação, pesquisa são
feitas a partir dessa noção mais global do património. É evidente que
no final do século XX e início do próximo milénio é cada vez mais
(ou não) possível actuar nas ciências sociais de costas voltadas para o
homem e para o mundo que nos rodeia, mundo este recheado de
diferenças, dicotomias e pluralidade de culturas.

O Texto da Declaração de Quebec não traz em si novidades


conceituais, mas a sua importância deve-se ao facto de ter reconhecido
a existência do Movimento da Nova Museologia, tendo assim
legitimado uma pratica museológica mais activa, socializadora,
dialógica e internacionalmente autónoma.

A América Latina chega a Década de 90 tendo o Sistema


“democrático” formal como um facto, apesar de em alguns casos esse
mesmo sistema estar desenquadrado das realidades sócio- culturais
das nações Latino Americana. A adopção do sistema democrático em
parte foi uma decepção para os povos latino- americanos, pois a sua
implantação não provocou a alteração sensível do sistema
sócio/económico/cultural esperado pela população.

A economia capitalista provocou o aumento da crise, acelerou


a alteração de valores e a desintegração sociocultural das
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comunidades; além de marcar um maior contraste entre os países


desenvolvidos e os subdesenvolvidos.

A grande mudança ou novidade ocorrida na Declaração de


Caracas, realizada em 1992, é a evolução do conceito de museu
integral para o conceito de museu integrado. Esta Declaração faz uma
releitura do documento produzido em Santiago constatando a vigência
de muitos de seus postulados e as suas influências no conceito actual
do Museu.

Na Declaração de Caracas já não cabe ao museu o papel do


mestre, já não é um museu cheio de certezas, que define o seu
monólogo. Pois, o que se busca neste momento, é que a instituição
encontre espaço para o diálogo e que a função pedagógica, referida na
Declaração do Rio de Janeiro em 1958, se transforme em missão
comprometida que se traduz numa pratica fortalecida pela teoria
museológica e pela elaboração de documentos básicos.

Em Santiago discute-se o conceito de património global, mas


é em Caracas que se fala da comunidade como co-gestora destes bens,
possuidora de uma visão própria e com seus próprios interesses.

Caso observemos mais atentamente os Documentos da Mesa


Redonda de Santiago e a Declaração de Caracas perceberemos muitos
pontos em comum:
• Ambas as Declarações denunciam a desigualdade e a injustiça;
• Reflectem sobre o papel das organizações museológicas na
América Latina;
• Reconhecem o museu como Instituição ao serviço da comunidade;
• Reivindicam para o museu um papel de transformador social;
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• E, entendem o museu como espaço dinâmico que propicia e


estimula a consciência crítica, além de em um instrumento para o
desenvolvimento e afirmação da identidade.

“Confrontando as duas declarações, podemos dizer que se a


declaração de Santiago é a tomada de consciência de que os
museus poderão contribuir de alguma maneira para o
desenvolvimento da sociedade e para a melhoria da sua
qualidade de vida, a declaração de Caracas é já uma posição
de consolidação da museologia no seio da sociedade ” (
PEDROSO DE LIMA. 1993: 91-92). 3

Além dos Conceitos de Museu Integral e Integrado, estas


cinco Declarações trouxeram várias mudanças que se foram
legitimando e deram uma nova expressão à museologia no século
XX.

O museu passa a actuar, independentemente da sua tipologia e


do seu acervo, como um canal de comunicação e reforça-se como
interventor social; redefine-se novas práticas museográficas que visam
uma maior eficácia da acção museológica. Dá-se inicio ao processo de
implantação de cursos Universitários para a formação de profissionais
que atuem na Museologia e, consolida-se o processo de construção da
Museologia enquanto Ciência Social. Novas tipologias de museus
surgem e se legitimam, é o caso dos museus ao ar livre, Ecomuseus,
museus de vizinhança, museus locais...

3
A evolução de Conceitos entre as Declarações de Santiago e de Caracas. In:
Cadernos de Museologia n.º 01. Francisco PEDROSO DE LIMA.
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4- CONCLUSÃO

“ Uma cultura é avaliada no tempo e se insere no


processo histórico não só pela diversidade dos
elementos que a constituem, ou pela qualidade de
representação que dela emergem, mas sobretudo por
sua continuidade. Essa continuidade comporta
modificações e alterações num processo aberto e
flexível de constante realimentação, o que garante a
uma cultura a sua sobrevivência. Para seu
desenvolvimento harmonioso, pressupõe a
consciência de um largo segmento do passado
histórico.”
ALOÍSIO DE MAGALHÃES .

A fundamentação básica para a elaboração desse trabalho foi a


análise dos cinco documentos produzidos entre os anos de 1958 e
1992 e, para tanto fez-se necessário entender os conceitos de museu e
museologia entendidos em suas relações com o processo histórico,
assim como as influências que os referidos documentos exerceram
nesta evolução.

O ICOM, apresenta nos seus Estatutos do ano de 1995 a


seguinte definição de museu:

“uma instituição permanente, sem finalidade lucrativa, ao


serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao
público e que realiza investigações que dizem respeito aos
testemunhos materiais do homem e do seu meio ambiente,
adquire os mesmos, conserva-os, transmite-os e expõe-nos
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especialmente com intenções de estudo, de educação e de


deleite.
(a) A definição de museu acima dada deve ser aplicada sem
nenhuma limitação resultante do tipo da autoridade tutelar,
do estatuto territorial, do sistema de funcionamento ou da
orientação das colecções da instituição em causa;
(b) Além dos "museus" designados como tal, são admitidos
como correspondendo a esta definição:
(i) os sítios e os monumentos naturais, arqueológicos e
etnográficos e os sítios e monumentos históricos que possuam
a natureza dum museu pelas suas actividades de aquisição, de
conservação e de transmissão dos testemunhos materiais dos
povos e do seu meio ambiente;
(ii) as instituições que conservam colecções e que apresentam
espécimes vivos de vegetais e de animais tais como os jardins
botânicos e zoológicos, aquários, viveiros;
(iii) os centros científicos e os planetários;
(iv) os institutos de conservação e galerias de exposição que
dependem das bibliotecas e dos centros de arquivo;
(v) os parques naturais;
(vi) as organizações nacionais, regionais ou locais de museu,
as administrações públicas de tutela dos museus tal como
foram acima definidas;
(vii) as instituições ou organizações com fins não lucrativos
que exercem actividades de investigação, educativas, de
formação, de documentação e outras relacionadas com os
museus ou a museologia;
(viii) qualquer outra instituição que o Conselho executivo,
segundo opinião da Comissão consultiva, considere como
detentoras de algumas ou da totalidade das características de
um museu, ou que possibilite aos museus e aos profissionais
CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA Nº16 1999 29

de museu os meios de fazerem investigações nos domínios da


museologia, da educação ou da formação.” (Estatutos do
ICOM. 1995:2-3) 4

Sublinhamos o ponto (vii) por considerarmos que a


museologia contemporânea, tem vindo a manifestar a sua maior
vitalidade, criatividade e empenhamento muito para além do que se
convencionou, desadequadamente, “dever ser um museu”, a revelia do
que o próprio ICOM reconhece.
Entretanto neste trabalho entende-se por museu um espaço
institucionalizado ou não, onde as relações do homem - sujeito que
conhece- e o facto museal –testemunho da realidade- se estabelecem.
Esta realidade tem a participação do homem que possui o poder de
agir e portanto estabelecer sua acção modificadora.

Durante o século XX, vários factores contribuíram para a


mudança/ alteração/ transformação do conceito de museus
principalmente após a IIª Guerra Mundial e, segundo Peter Van
Mensch (MENSCH. 1989: 49-50), esses factores se fundamentaram
em muitas das sugestões indicadas nos Documentos estudados para a
elaboração deste trabalho. São eles:

• a mudança do foco de estudo do objecto para a comunidade. O


museu passa a ser feito com a comunidade para responder às suas
necessidades. Conservar objectos já não é mais o único objectivo da
instituição; a herança cultural dever ser entendida como um elemento
a disposição do homem e seus descendentes, ajudando-os a construir
uma nova estrutura sócio- política- económica- cultural;

4
Estatutos do ICOM. 1995.
CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA Nº16 1999 30

• o conceito de objecto cultural foi dilatado e nas actuais


abordagens as questões como a tangibilidade, raridade e mobilidade
passam a ser questionáveis. A herança cultural transcende o
materialismo que caracterizava a política de aquisição;
• há uma tendência para a preservação in situ. O objecto museal
deve ser preservado em seu contexto original, para que seu significado
seja globalmente entendido;
• O conceito de museu “tradicional”, centralizado e fortemente
institucionalizado está desgastado com isso surge os conceitos de
museu descentralizado, integral, integrado, museu como factor de
desenvolvimento social e museu enquanto acção;

Assim, uma instituição que fundamente as suas actividades


nestes pressupostos presta-se, não apenas à preservação selectiva de
alguns aspectos culturais de uma sociedade, mas a partir de
instrumentos de acção e reflexão com o qual irá dotar os membros que
a compõe.

Apesar de parte dos profissionais da museologia


contemporânea tentarem através da actuação e militância, aplicar o
binómio de integração: comunidade/museu, uma visão tradicional
ainda sobrevive contrapondo-se as mudanças de percepção do mundo
e, nesta visão onde o social ainda não é privilegiado, questões como
bem cultural e cidadania ainda são entendidos de forma elitista e
excludente.

“Es indispensable una visión de la realidad integrada, que


contrarreste la parcelación de la divisón técnica, social e
internacional del trabajo.(...) Concentrar el patrimonio en um
edificio modifica el contexto original que le corresponde. La
CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA Nº16 1999 31

consideración del espacio territorial com âmbito


museográfico de una relidad completa calora dicho
contexto.” 5 (Declaração de Oxtepec – 1984.)

Baseando-se nesta abordagem, pode-se afirmar que quando o


acto de preservar ocorre de forma descontextualizada e sem objectivo
de uso, não se justifica. É preciso que a preservação seja entendida
como um instrumento para o exercício da cidadania. A acção
preservacionista deve ser um acto público transformador que
proporcione a plena apropriação do bem pelo sujeito.

O exercício da cidadania só ocorre quando o indivíduo


conhece a realidade na qual ele está inserido, a memória preservada,
os acontecimentos actuais, entendendo as transformações e buscando
um novo fazer.

A necessidade de um fazer museológico mais participativo,


integrado à comunidade, é algo tratado desde Santiago, mas nos
aportando das Recomendações que constam da Declaração de Caracas
podemos afirmar que:

“Que o museu busque a participação plena de sua função


museológica e comunicativa, como espaço de relação dos
indivíduos e das comunidades com seu património e, como
elos de integração social, tendo em conta em seus discursos e
linguagens expositivas os diferentes códigos culturais,
permitindo seu reconhecimento e sua valorização.”
6
(Declaração de Caracas . 1992)

5
Declaração de Oaxtepec. México- 1984
6
Declaração de Caracas. Venezuela. 1992.
CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA Nº16 1999 32

Com as transformações na sociedade, surge a necessidade de


um fazer museológico de maior intervenção social. Oficialmente essa
museologia participativa e comunitária se legitima através da
elaboração de documentos básicos para a museologia como a Mesa
Redonda de Santiago do Chile, Declaração de Quebec, Declaração de
Oxatepec, e a Declaração de Caracas, documentos importantes na
medida que levam a uma mudança na forma do museu compreender o
homem e as suas relações; o bem cultural que passa a ser trabalhado
não só por suas características intrínsecas, mas por toda gama de
informação que estão além destas e, uma nova conceituação de museu
e museologia.

Por conta das transformações ocorridas na forma de entender


a museologia Waldisa Rússio trouxe para esta área do conhecimento
um novo conceito, o de Facto museal. Entendido como a relação que
se estabelece ente o homem (sujeito que conhece) e o objecto (bem
cultural) num espaço (cenário); sendo esta relação que passa a ser alvo
de estudo da museologia Para Waldisa as mudanças ocorridas no
mundo levaram os profissionais da museologia a buscarem uma maior
aproximação com a dinâmica da vida do indivíduo, sendo assim a
museologia actual já não se limita ao estudo dos objectos e alargando
assim o seu campo de actuação.

Podemos dizer, que a museologia tomando como base o


Património Cultural –que é fruto do fazer e saber fazer do homem e,
continuando a desenvolver as funções básicas de colecta,
documentação, conservação, exposição e acção cultural, todas elas
direccionadas ao fazer educativo- cultural na tentativa de despertar a
consciência critica do indivíduo, leva-o assim a reapropriação da
memória colectiva e ao direito do exercício da sua cidadania.
CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA Nº16 1999 33

Durante todo o século XX, a preocupação com a acção


educativa dos museus é uma realidade que se intensifica a medida que
a educação passa, também, a ser entendida como uma das funções
básicas dos museus. Com isso as transformações ocorridas nas
Ciências da Educação, principalmente a partir da década de 60,
influenciaram profundamente o entendimento de acção educativa
desenvolvida por estas instituições.

Historicamente a Ciência da Educação foi entendida em


alguns momentos com uma concepção individualista do educar e em
outros com uma concepção socializadora. A primeira concepção
baseava-se no facto de que se todos os indivíduos são diferentes, a
educação deveria respeitar essas diferenças e adaptar seus métodos e
suas técnicas para educar diferentemente cada indivíduo. Já a Segunda
concepção da educação baseava-se no princípio de que cada ser
humano é parte integrante de grupos sociais e que portanto o acto de
educar deve priorizar a integração do indivíduo na sociedade; a
educação socializadora consiste no pressuposto de que há uma
supremacia da sociedade sobre o indivíduo.

Em meio a estas duas concepções da educação surgiram,


durante o século XX novos conceitos de educação, mais voltados para
o processo de construção do saber, conduzindo assim ao aprendizado
pleno. É um processo educativo que tendo por base o questionamento
de uma educação passiva e vertical propõe uma educação baseada no
Saber Fazer, Aprender Fazendo e questionando, acreditando-se que
somente assim o educando atingiria o Saber Pleno e Real.

Por entender que a maior potencialidade dos museus é a sua


acção educativa e, a educação verdadeira é aquela que serve à
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libertação, questionamento e reflexão, é que alguns profissionais da


museologia trouxeram, a partir da década de 70, para o “mundo dos
museus”, o método de Paulo Freire.

Com muita brevidade poderíamos dizer que a teoria de Paulo


Freire baseia-se na colaboração, união pela libertação, síntese cultural,
diálogo, criatividade, reflexão crítica e na negação da educação
repressora • . Sendo assim uma teoria/prática educativa que
compreende o indivíduo como ser participativo que busca, em
colaboração com outros indivíduos, a emersão da consciência e do
saber.

“Já agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém


se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão,
mediatizados pelo mundo.” 7 . (FREIRE. 1981:69)

Baseada em Paulo Freire, e não só, a acção educativa


museológica deve criar situações que levem, os sujeitos envolvidos, à
reflexão e ao desenvolvimento. Somente desta forma estará
contribuindo para uma educação que seja dialógica e libertadora, onde
os indivíduos estejam capacitados a transformarem a sua realidade.

Em meio as actuações museológicas, entende-se as acções


culturais e educativas como os instrumentos mais viáveis dos quais se
pode utilizar o património cultural como vector capaz de proporcionar
a construção de uma progressiva compreensão das diversas camadas
estruturais que norteiam sua dinâmica.


Aquela que é denominada pelo autor como Educação Bancária
7
Paulo Freire. Pedagogia do Oprimido. 1981
CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA Nº16 1999 35

Com as mudanças ocorridas nos conceitos de museu e


museologia e as novas necessidades sociais, houve também uma
redefinição das funções educativas no âmbito dos museus. Os teóricos
das museologia unem-se num esforço de formação de uma corrente
reflexiva sobre o papel da acção museológica no campo educativo. E
esta preocupação está patente em todos os cincos Documentos
analisados e discutidos neste trabalho.

A acção museológica deve criar situações que levam ao


desenvolvimento e à reflexão da comunidade. Somente desta maneira
estará contribuindo para uma educação que seja dialógica e
libertadora, onde os indivíduos estejam capacitados a transformarem
sua realidade. Este aspecto da museologia contemporânea é percebido
no momento que o museu passa a ser considerado espaço de
comunicação e trocas de saberes.

Por esta razão, a instituição Museu é valorizada não só pelo


seu património edificado e suas colecções, mas também, e sobretudo,
pela sua representatividade perante a comunidade na qual se insere.

Como resultado destas novas tendências de pensamento, a


museologia actual consta com mais uma vertente: a museologia social
cuja característica fundamental é a valorização do homem como
sujeito participativo, critico e consciente da sua realidade, facto que a
nosso ver transcende a valorização da cultura material desvinculada da
realidade social.
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