Você está na página 1de 8

EXCELENTÍSSIMO (A) SENHOR (A) DOUTOR (A) JUIZ (A) DE DIREITO DA

3ª VARA CÍVEL DA COMARCA DE FLORIANOPOLIS DO ESTADO DE SANTA


CATARINA

Distribuição por dependência aos Autos de Cumprimento de Sentença nº XXXXX

JULIANA DE TAL, brasileira, estado civil __, profissão __,


portadora da cédula de RG nº __, inscrita no CPF sob o nº xxx.xxx.xxx-xx,
residente e domiciliada no endereço __, através de seus procuradores infra-
assinados (procuração anexa), com endereço profissional em __, local onde
receberá as intimações e demais correspondências de estilo, com o devido respeito,
vem à presença de Vossa Excelência, com fulcro no artigo 674 e seguintes do
Código de Processo Civil, ajuizar

EMBARGOS DE TERCEIRO

Em face de GABRIELA DE TAL, brasileira, estado civil __, modelo fotográfica,


portadora da cédula de RG nº __, inscrita no CPF sob o nº xxx.xxx.xxx-xx,
residente e domiciliada no endereço __, pelos fatos e fundamentos a seguir
aduzidos:

I – DOS PRESSUPOSTOS LEGAIS

a) Da Tempestividade
Nos termos do artigo 675 do Código de Processo Civil, os
embargos de terceiro podem ser opostos no cumprimento de sentença ou no
processo de execução, até 5 (cinco) dias depois da adjudicação do bem.
Considerando que ato de adjudicação está datado em 12 de maio (quinta-feira) do
corrente ano, o início do prazo se dá no dia útil subsequente, sendo 13 de maio
(sexta-feira). Considerando que sábados e domingos não entram na contagem,
tem-se que o prazo fatal de 5 (cinco) dias se finda em 19 prazo (quinta-feira).
Considerando a data de protocolo dos presentes embargos, tem-se por tempestiva
sua interposição.

b) Da Legitimidade Ativa

A Ação de Cumprimento de Sentença em epígrafe tem como


partes a Embargada GABRIELA DE TAL e no polo passivo, a empresa BELA MUSA S.
A., e seus sócios HENRIQUE DE TAL e WILSON DE TAL.

Destarte, a Embargante não é parte na relação processual acima


citada. Todavia, a mesma é a nova sócia da empresa executada e está sofrendo
constrição judicial de seus bens por força de desconsideração da personalidade
jurídica, cujo incidente não fez parte, não tendo sido devidamente citada e
intimada.

Nesse contexto, nos termos do artigo 674, inciso III, do Código de


Processo Civil, a Embargante é parte legítima para defender a posse e propriedade
do bem em espécie, o que se faz prova dos documentos em anexo (contrato
social).

c) Da Legitimidade Passiva

Dispõe o artigo 677, §4º do Código de Processo Civil que “será


legitimado passivo o sujeito a quem o ato de constrição aproveita”, e nesse
contexto, Gabriela por ser quem busca a satisfação do crédito exequente, é a
legitimada para figurar no polo passivo dos presentes Embargos de Terceiro.

II – DO INTRÓITO NECESSÁRIO
A embargada é credora da Empresa Bela Musa S. A., da quantia de
R$ 131.000,00 (cento e trinta e um mil reais), em que esta foi condenada em ação
de indenização por danos materiais e morais.

O processo já está em fase de Cumprimento de Sentença, razão


pela qual a referida empresa foi intimada para o pagamento voluntário do débito, o
que não ocorreu. Ato contínuo, como consequência, foram ordenados atos de
penhora e avaliação, com o intuito de coagir a entrega dos valores devidos pela
parte executada à credora ora embargada.

Mas as tentativas restaram infrutíferas, eis que a empresa Bela


Musa nada tinha registrado em seu nome, o que motivou a alegar em juízo a
confusão patrimonial pela transferência de ativos às pessoas físicas do sócio
administrador Henrique – a quem fora transferido os bens imóveis –, sócio cotista
Wilson – a quem fora transferido os bens móveis – e ainda Juliana, nova integrante
da sociedade e ora embargante, a quem fora transferido a quantia de R$ 55.000,00
(cinquenta e cinco mil reais) pela venda de veículo que esta fez à empresa, o que
se faz prova do documento em anexo (contrato de compra e venda de veículo).

Nesse contexto, após análise da questão e atendendo a pedido da


parte exequente, o magistrado competente instaurou incidente de desconsideração
da personalidade jurídica, sendo que foram citados os sócios Henrique e Wilson,
simplesmente desconsiderando a ora Embargante, de modo que não foi citada para
tomar parte no referido incidente.

Ato contínuo, analisadas as provas juntadas pela exequente e as


manifestações dos sócios citados, o Juízo competente, reconhecendo a relação de
consumo e aplicando as normas pertinentes a esse tipo de relação, determinou a
desconsideração da personalidade jurídica da empresa executada Bela Musa e o
redirecionamento dos atos executivos aos três sócios, que seriam então
pessoalmente responsabilizados pela dívida equivalente a R$ 131.000,00 (cento e
trinta e um mil reais) – consistente no montante geral da condenação.

Na mesma decisão acima referida, o Juízo competente determinou


a penhora de bens de Henrique, de Wilson e de Juliana. As partes que haviam sido
regularmente citadas – Henrique e Wilson – foram devidamente intimadas dessa
decisão e não interpuseram qualquer recurso, deixando transcorrer totalmente o
prazo em branco.

Pouco tempo depois, a Embargante, ao consultar multas em um


veículo registrado em seu nome, por meio do sistema on-line do Estado de Santa
Catarina, em 14 de maio, tomou conhecimento que o automóvel, avaliado em R$
43.000 (quarenta e três mil reais) teria sido adjudicado à credora, por ordem deste
Juízo da 3ª Vara Cível da Comarca de Florianópolis, sendo que o ato de adjudicação
estava datado em 12 de maio (quinta-feira) do corrente ano.

Preocupada, pois não tinha sido avisada ou alertada sobre


qualquer procedimento, e temendo algum tipo de busca e apreensão de seu
veículo, Juliana telefonou aos sócios Henrique e Wilson para buscar informações
sobre a situação, quando apenas então tomou conhecimento da ação judicial, razão
pela qual ajuíza os presentes Embargos de Terceiro.

III – DA EXPOSIÇÃO DO DIREITO

Ora, Nobre Julgador, é notório que os atos de constrição sobre os


bens da Embargante são indevidos, uma vez que esta não fez parte do Incidente de
Desconsideração da Personalidade Jurídica.

Quanto ao Incidente de Desconsideração da Personalidade


Jurídica, sua instauração pressupõe a ocorrência e constatação do abuso da
personalidade jurídica caracterizado em duas hipóteses, sendo o desvio de
finalidade ou a confusão patrimonial. No caso do Direito Material e Processual Civil
é utilizada a Teoria Maior da Desconsideração, que ocorre nos termos do art. 50 do
Código Civil, in verbis:

Art. 50. Em caso de abuso da


personalidade jurídica, caracterizado
pelo desvio de finalidade ou pela
confusão patrimonial, pode o juiz, a
requerimento da parte, ou do Ministério
Público quando lhe couber intervir no
processo, desconsiderá-la para que os
efeitos de certas e determinadas relações de
obrigações sejam estendidos aos bens
particulares de administradores ou de sócios
da pessoa jurídica beneficiados direta ou
indiretamente pelo abuso.
§1º Para os fins do disposto neste
artigo, desvio de finalidade é a
utilização da pessoa jurídica com o
propósito de lesar credores e para a
prática de atos ilícitos de qualquer
natureza.
§2º Entende-se por confusão
patrimonial a ausência de separação de
fato entre os patrimônios, caracterizada
por:
I - cumprimento repetitivo pela sociedade
de obrigações do sócio ou do administrador
ou vice-versa;
II - transferência de ativos ou de
passivos sem efetivas
contraprestações, exceto os de valor
proporcionalmente insignificante; e
III - outros atos de descumprimento da
autonomia patrimonial.
§3º O disposto no caput e nos §§ 1º e
2º deste artigo também se aplica à
extensão das obrigações de sócios ou
de administradores à pessoa jurídica.
(sem grifos no original)

A redação do referido dispositivo anteriormente citado, art. 50 do


Código Civil, é dada pela Lei 13.874, de 20 de setembro de 2019, também
conhecida por “Lei da Liberdade Econômica”. Prestigiou-se a separação patrimonial
existente entre a pessoa física empreendedora e a pessoa jurídica formada,
buscando-se estimular a atividade empresarial por meio da redução dos riscos à
pessoa física, cujo patrimônio será atingido apenas em casos específicos.

Outrossim, em relações de consumo é possível utilizar a teoria


menor, bastando para tanto a presença de alguma das possibilidades previstas no
artigo 28 do Código de Defesa do Consumidor, in verbis:

Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a


personalidade jurídica da sociedade quando,
em detrimento do consumidor, houver
abuso de direito, excesso de poder,
infração da lei, fato ou ato ilícito ou
violação dos estatutos ou contrato
social. A desconsideração também será
efetivada quando houver falência, estado de
insolvência, encerramento ou inatividade da
pessoa jurídica provocados por má
administração. (sem grifos no original)

Aplica-se às relações consumeristas a teoria menor, ficando a


teoria maior destinada a relações regidas estritamente pelo Código Civil e outras
leis específicas. Para a Teoria Menor, muito menos é exigido para que seja
desconsiderada a pessoa jurídica em razão da vulnerabilidade do consumidor com
relação à seara consumerista. Não se exige, pois, prova da fraude ou do abuso de
direito, nem é necessária a prova da confusão patrimonial entre os bens da pessoa
jurídica e física. Basta, nesse sentido, que o consumidor demonstre o estado de
insolvência do fornecedor, ou, ainda, o fato de a personalidade jurídica representar
um obstáculo ao ressarcimento dos prejuízos causados.
Entretanto, referida desconsideração, frise-se, não será realizada
de modo amplo e irrestrito, de forma que toda e qualquer relação jurídica possa
adentrar e culminar no atingimento do patrimônio das pessoas físicas, como os
sócios ou administradores. Ao revés, “descortinada” a pessoa jurídica, tornando
visíveis/atingíveis os patrimônios pessoais ou particulares, apenas os “efeitos de
certas e determinadas relações de obrigações” serão estendidos aos bens
particulares de duas classes de pessoas, a saber: os administradores e os sócios da
pessoa jurídica que tenham sido beneficiados de forma direta ou indireta pelo
abuso.

Assim, somente serão atingidos os patrimônios de pessoas físicas,


sócias ou administradoras, que tenham se beneficiado, direta ou indiretamente, do
abuso da personalidade jurídica que tenha dado causa à desconsideração – em
sentido inverso, aquele que não obteve qualquer vantagem não poderá sofrer com
eventual constrição de seus bens particulares para saldar dívidas contraídas pela
pessoa jurídica.

O Código de Processo Civil de 2015, entre seus artigos 133 e 137,


explicita o procedimento referente ao incidente de desconsideração da
personalidade jurídica. Quando instaurado, o processo será suspenso e caberá ao
requerente demonstrar que estão presentes os pressupostos legais para a
desconsideração, conforme artigo 134, §§ 3º e 4º, devendo o sócio ou a pessoa
jurídica será citado para apresentar sua manifestação, requerendo provas cabíveis,
em até 15 (quinze) dias, segundo prevê o artigo 135, estabelecendo-se o
contraditório e franqueando-se ampla defesa à parte que, eventualmente, poderá
ver seu patrimônio pessoal suscetível a responsabilizações por débitos que
anteriormente seriam devidos apenas pela pessoa jurídica.

No caso da presente demanda, a Embargante não foi devidamente


citada e intimada para fazer parte do incidente, razão pela qual se mostra
claramente ilegal os atos de constrição judicial feitos por este Juízo, pois sequer
teve chance de se explicar nos autos do processo.

Sobretudo, esta sequer fora beneficiada de forma direta ou


indireta pelos atos de abuso, desvio de finalidade da empresa, tampouco pela
confusão patrimonial, uma vez que se integrou na sociedade recentemente, o que
se faz prova pelo contrato social anexo, ainda se inteirando a Embargante das
questões que envolvem a sociedade empresária.

Com efeito, esclarece-se que a quantia de R$ 55.000,00


(cinquenta e cinco mil reais) recebida em nome da Embargante se deu em virtude
de uma simples venda de veículo que esta fez à empresa, como se depreende pelo
contrato de compra e venda em anexo. Logo, o montante não tem relação alguma
com a transferência de ativos da Empresa Executada às pessoas físicas dos sócios
administrador e cotista que configuram a confusão patrimonial.

Dessa forma, os documentos que acompanham a presente


demanda são suficientes para comprovar o alegado, inclusive possibilitam a
concessão de suspensão liminar da medida de constrição, como previsto pelo artigo
678 do CPC:

Art. 678. A decisão que reconhecer


suficientemente provado o domínio ou a
posse determinará a suspensão das
medidas constritivas sobre os bens
litigiosos objeto dos embargos, bem
como a manutenção ou a reintegração
provisória da posse, se o embargante a
houver requerido.
Parágrafo único. O juiz poderá
condicionar a ordem de manutenção ou
de reintegração provisória de posse à
prestação de caução pelo requerente,
ressalvada a impossibilidade da parte
economicamente hipossuficiente. (sem
grifos no original)

Sendo assim, é devida a suspensão das medidas constritivas sobre


os bens da Embargante, bastando demonstração de que a constrição se realizou de
maneira indevida, sendo que o juiz poderá dispensar a prestação de caução
(garantia) para segurança do credor/exequente, reconhecendo que a terceira
embargante não tem possibilidade de prestá-la, em razão de sua hipossuficiente
condição econômica.

IV – DOS REQUERIMENTOS

Por todo o exposto, requer Vossa Excelência se digne em:

a) Liminarmente, suspenda a adjudicação do veículo de posse da


Embargante, pois trata-se de constrição judicial indevida;

a.1) Em não sendo esse o entendimento de Vossa Excelência, caso


entenda que a prova documental acostada com a presente exordial não seja
suficiente para comprovar o alegado, nos termos do artigo 677 do CPC, requer a
produção de prova oral, designando audiência de instrução para oitiva das
testemunhas arroladas a seguir:
1. FULANO
2. BELTRANO
3. CICLANO

b) A citação e intimação da Embargada, na pessoa de seu patrono,


nos termos do art. 677, §3º do CPC, para, querendo, apresentar defesa no prazo
de 15 (quinze) dias;

c) A procedência dos pedidos formulado nesta Ação de Embargos


de Terceiro para tornar sem efeito a constrição judicial impugnada, confirmando a
liminar requerida e concedida, condenando a Embargada ao pagamento das custas
e honorários sucumbenciais.

d) Protesta provar o alegado por todos os meios de prova por Lei e


em Direito admitidos.

Dá-se à causa o valor de R$43.000,00 (quarenta e três mil reais),


correspondendo ao valor do bem objeto da adjudicação, nos termos do artigo 292,
inciso VI, do CPC.

Termos em que, pede e espera deferimento.

Florianópolis/SC, 19 de maio de 2021

ADVOGADO

OAB __.