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GAC - GRUPO DE ANÁLISE DE CONJUNTURA - CONFERÊNCIA INAUGURAL

Alternativas políticas e configuração do bloco no poder na última conjuntura


eleitoral brasileira. O que fazer?

Sérgio Braga, DECISO/UFPR


ssbraga@ufpr.br

“Há alguns anos, ao examinar um programa de pós-graduação em ciência política


de uma de nossas grandes universidades, constatei que os alunos de doutorado não
sabiam reagir de maneira minimamente inteligente diante da pergunta sobre como é
que os trabalhos que estavam fazendo se diferenciava do trabalho que algum
jornalista pudesse fazer sobre o mesmo tema. Eles ficaram perplexos. Isso é clara
indicação de que há alguma coisa errada” (Fábio Wanderley Reis, 2005)

I. Introdução1:

O título deste pequeno ensaio faz sistemáticos, por parte dos cientistas políticos,
referência a um artigo de Sebastião Velasco e de abordagem dos problemas teórico-
Cruz, onde são abordados alguns dos metodológicos relacionados à elaboração de
problemas teórico-metodológicos colocados à análises de conjuntura, bem como de sua
elaboração de “análises de conjuntura” por constituição como uma sub-área específica da
parte dos cientistas sociais, de uma maneira ciência política.
geral, e dos cientistas políticos em particular O objetivo desse trabalho é, a partir da
(CRUZ, 1988)2. Neste texto, após aludir a aceitação do repto lançado aos analistas
algumas das dificuldades postas à feitura de
políticos por Cruz em seu texto, efetuar algumas
“análises de conjuntura” pelos cientistas considerações sobre o estatuto teórico-
políticos, bem como a seu atraso em metodológico das chamadas “análises de
comparação com outras disciplinas co-irmãs conjuntura” para o desenvolvimento teórico e
das ciências sociais latu sensu (tais como a profissional da ciência política, que sejam úteis
gestão de organizações e a economia, dentre especialmente para os estudantes de graduação e
outras), Cruz formula a provocativa pós-graduação na área. Complementarmente,
indagação: o que fazer?, referindo-se à procuraremos aplicar algumas das idéias
carência de esforços abrangentes e expostas neste texto, analisando a última
conjuntura político-eleitoral brasileira a partir
1 Esse texto é uma versão modificada da conferência das considerações efetuadas na primeira parte
apresentada em 18 de agosto de 2006 na mesa de encerramento
do II Simpósio de Análise de Conjuntura Política organizado
do artigo.
pelo GAC, vinculado ao Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política
Brasileira da UFPR. Foram feitas apenas pequenas alterações
Gostaríamos de sublinhar inicialmente a
formais no texto apresentado na conferência, sem mudanças importância de esforços de reflexão dessa
substantivas em seu conteúdo e/ou em suas teses ou natureza para a profissionalização (sem aspas)
proposições fundamentais. Este artigo é dedicado a Hélio
Jaguaribe e a Décio Saes.
do cientista político, que lhes possibilite uma
2 CRUZ, S. V. Teoria e método na análise de conjuntura.
intervenção mais qualificada e, eventualmente,
Educação & Sociedade, São Paulo, v. XXI, n. 72, p. 145-152, ago. prescritiva no debate público, de natureza
2000. Disponível em: www.scielo.br (Acesso: 01/07/2005). análoga a que fazem as já mencionadas

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disciplinas co-irmãs dos demais ramos das irrelevância da política”4 na atual conjuntura, ao
ciências sociais, cujos profissionais são que parece devido essencialmente à ausência de
razoavelmente treinados na feitura de análise perspectivas coletivas divergentes passíveis de
de conjunturas, elaboração de cenários e concretização futura como conseqüência da
recomendações prescritivas para os diversos ação das diferentes forças sociais atuantes no
atores sociais participantes do chamado atual momento político brasileiro, uma das
processo de “escolha pública”. Devemos proposições centrais desse texto é a de que, a
admitir, inicialmente, que a ciência política partir da análise que faremos a seguir, podemos
brasileira, especialmente a ciência política inferir que se colocaram pelo menos três
crítica, ainda tem muito a desenvolver nesse alternativas políticas significativas ao “eleitor”
sentido, e é imperativo para a maior e para os diferentes segmentos da chamada
institucionalização da profissão a tentativa de “opinião pública” nas últimas eleições,
elaborar trabalhos de maior sistematicidade alternativas estas cujos desdobramentos
que contribuam com uma reflexão nesse afetaram não apenas o pleito eleitoral, mas
sentido. também devem repercutir no funcionamento do
Devemos ainda, antes de começar a sistema político brasileiro num horizonte
previsível. O objetivo deste pequeno ensaio é
exposição propriamente dita, justificar seu
título, o qual expressa várias motivações e justamente o de explicitar, da maneira mais
intenções do presente texto: sistemática possível, os procedimentos
analíticos e os passos lógicos pelos quais
(i) Em primeiro lugar, ele indica chegaremos ao enunciado e eventual
também que haverá uma certa dimensão demonstração desta tese.
prescritiva em nossa abordagem, embora
fracamente prescritiva. Ou seja, ele expressa
uma certa ambição de orientar II) O que é uma “análise de conjuntura”?
comportamentos e opções políticas na presente
conjuntura, embora cônscio de certas
limitações da análise que faremos a seguir3. O primeiro ponto que devemos
esclarecer é que faremos uma exposição que
(ii) Em segundo lugar, como foi dito
respeite estritamente o título do presente artigo.
acima, ele alude ao texto já citado de
Não iremos, portanto, fazer digressões sobre
Sebastião Velasco Cruz (2000), onde este
outros temas que não a conjuntura recente, ou
autor aborda vários problemas colocados à
mesmo apresentar resultados de trabalhos de
análise política de conjuntura e formula
natureza monográfica ou de surveys descritivos
justamente essa pergunta, para referir-se à
que pouco nos informem sobre as questões e os
necessidade de esforços mais sistemáticos de
dilemas substantivos vivenciados pelos analistas
formalização dos problemas teórico-
políticos e pelos cidadãos médios no atual
metodológicos envolvidos na chamada
contexto político brasileiro. Dessa forma, cabe
“conjuntorologia” por parte dos analistas
esclarecer que focaremos nossa abordagem
políticos.
estritamente no objeto da temática, embora isso
(iii) Por fim, ele expressa uma das aumente significativamente a margem de erro
hipóteses centrais do presente texto. das considerações feitas a seguir, dado o caráter
Inversamente a certos analistas que
sustentaram teses sobre o “fim ou a
4 Visão difundida na mídia e em periódicos especializados por

alguns intelectuais de esquerda, ao que parece algo desencantados


3 Uma das limitações da presente análise consiste no fato de que com suas próprias tomadas de posição anteriores (cf. OLIVEIRA,
ela não leva em conta todas as oscilações de comportamento 2006: p. 43s). Naturalmente, estamos longe de discordar das
político dos atores envolvidos num processo dinâmico e errático corajosas críticas efetuadas por tais intelectuais ao governo petista,
como as últimas eleições presidenciais brasileiras. A abordagem mas sim com algumas conclusões por eles extraídas do fato da
de tais oscilações e incertezas foram relegadas a segundo plano, “traição” do governo Lula a certos princípios programáticos
em detrimento do enunciado de algumas teses centrais do anteriores implicar no “fim da política”, ao menos no sentido dado
presente enfoque. ao termo nas linhas que seguem.

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essencialmente ensaístico e exploratório das “problema” ou proposição explicativa que


linhas que seguem. organize a análise efetuada, ou sem a
explicitação de princípios analíticos e/ou
E a primeira questão que nós devemos
procurar responder é: o que é uma “análise de teóricos dos quais se possam derivar, de
conjuntura”? Qual o estatuto teórico de uma maneira razoavelmente coerente, determinadas
hipóteses e proposições que dêem uma certa
análise de conjuntura na ciência política e que
recomendações e procedimentos teórico- consistência analítica aos eventos observados5.
metodológicos devemos seguir para efetuar Nesse sentido podemos, numa “primeira
uma boa análise de conjuntura? aproximação”, utilizar para definir o que
entendemos por conjuntura e “análise de
Sem a pretensão de dar uma resposta
definitiva ao problema, podemos inicialmente conjuntura” no presente texto uma expressão
que o cientista político greco-francês Nicos
traçar uma “linha de demarcação” para
justificar, numa primeira aproximação, a Poulantzas utilizava de maneira bastante
inadequada para definir o Estado em geral, e/ou
estrutura de nossa exposição e a forma como
iremos conduzir a argumentação deste texto. o Estado Capitalista em particular, em alguns de
Por análise de conjuntura não devemos seus textos: uma determinada conjuntura
política pode ser definida como a “condensação
entender os seguintes tipos de abordagem:
das relações de força” entre os diferentes atores,
Em primeiro lugar, uma mera tomada grupos e instituições sociais que interagem e
de posição política (seja ela de natureza convergem para a produção de um dado
“moral”, “instrumental”, “crítica”, “ética” ou fenômeno ou acontecimento político. E o
“normativa”, para usar as expressões trabalho do analista de conjuntura consiste
consagradas por alguns analistas) em relação justamente em tentar captar as linhas de força e
aos eventos e processos políticos examinados. tendências fundamentais necessárias para
Esse tipo de posicionamento, geralmente explicar tais acontecimentos, via de regra
expresso na forma de uma fraseologia concentrados no tempo (uma revolução, uma
artificialmente “desafiadora”, não obedece aos crise política, uma gestão de governo ou,
requisitos mínimos do que julgamos ser uma mesmo, um processo eleitoral, dentre outros
análise de conjuntura, na medida em que dele inumeráveis fatos políticos que podem ser
não derivam, necessariamente, proposições objeto de uma “análise de conjuntura”).
analiticamente estruturadas e fundamentadas
em evidências teoricamente organizadas, ou Assim, uma “conjuntura” pode ser
seja, “verificáveis”, sobre fenômenos cuja entendida como um evento ou processo
ocorrência pode ser observada numa cena histórico nos quais se “condensam”
política qualquer. determinadas linhas de força fundamentais para
a produção de um fato político, cuja apreensão
Em segundo lugar, a análise de depende, em grande parte, além do quantum de
conjuntura, tal como compreendida neste informações acumuladas por cada observador
texto, não equivale a uma mera “crônica dos
acontecimentos presentes” ou a comentários 5 Os melhores exemplos desse último tipo de “análise de
ligeiros sobre os acontecimentos políticos do conjuntura”, dos quais se pode  diga-se de passagem  extrair
dia-a-dia, sejam as narrativas de natureza muitos elementos interessantes para o estudo propriamente
jornalística, tais como as que são feitas, por científico das conjunturas políticas, são as que se encontram nos
melhores sites de análise e comentários políticos do dia-a-dia, tais
exemplo, por blogs jornalísticos da mais como os sites “Política Brasileira”
variada natureza (alguns dos quais fazem uma (http://www.politicabrasileira.com.br/) e “Congresso em Foco”
(http://congressoemfoco.ig.com.br/), ou o portal Nueva
espécie de “literatura de alcova” de qualidade Mayoria (http://www.nuevamayoria.com/ES/), todos muito
bastante desigual  o que indica que há informativos e dedicados à análise e comentários dos chamados
também ótimos blogs jornalísticos), seja um “fatos e notícias” do quotidiano político. Não por acaso, os
melhores web sites de análise política são justamente aqueles que
mero evolver ou comentário cronológico dos contam com (i. e., contratam sob remuneração regular e
fatos políticos cotidianos, sem nenhum compatível com a qualificação dos serviços prestados por tais
profissionais) cientistas políticos de profissão em suas fileiras.

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sobre o fenômeno em tela, da natureza dos Apenas a título de ilustração podemos


esquemas analíticos utilizados pelo enumerar, como exemplos “clássicos” de
pesquisador para selecionar e organizar tais análises de conjuntura no sentido aqui dado à
informações. E o esforço do analista de expressão (ao contrário de uma mera “crônica
conjuntura consiste justamente em apreender, dos acontecimentos presentes”, comentários
seja de uma maneira parcial (através da análise ligeiros de acontecimentos políticos do dia-a-dia
de um aspecto específico da realidade), seja de e outros tipos de narrativas políticas, destituídas
forma mais abrangente (através do estudo das de tratamento propriamente analítico) alguns
formas de articulação e interação recíproca textos fundamentais do pensamento político,
entre vários aspectos da realidade que tais como As lutas de classe em França e 18 de
concorreram para produzir tais fatos políticos), Brumário de Louis Bonaparte, de Marx, onde se
as linhas de força fundamentais que atuam na “realiza” de maneira complexa (i. e.,
determinação dos eventos ou processos retificando-se algumas proposições-chave e
históricos examinados. conservando-se/confirmando-se outras) o
Portanto, a análise de conjuntura, tal esquema analítico elaborado pelo autor em suas
como a entendemos no presente texto, não se obras anteriores de teoria política e/ou de teoria
social (MARX, 1982); As lembranças de 1848 e
reduz a um comentário aleatório sobre os
“fatos do quotidiano político”, mas implica na O Antigo Regime e a Revolução, de Alexis de
operacionalização (consciente ou Tocqueville, onde é “realizado” ou concretizado
inconsciente) de determinados modelos em termos práticos um determinado esquema
analíticos ou esquemas explicativos por parte teórico cujos princípios fundamentais foram
elaborados pelo próprio Tocqueville em A
do analista político, ou seja, numa tentativa,
por mais elementar que seja, de estruturar Democracia da América (TOCQUEVILLE;
1982; 1991; 1996); textos tais como Parlamento
analiticamente tais fatos e processos. Ou por
outra: aquele procedimento analítico que o e governo numa Alemanha reordenada, e as
filósofo francês Louis Althusser, em um texto análises políticas de Max Weber sobre a
intitulado Sobre o Trabalho Teórico Revolução Russa e outros eventos políticos do
(ALTHUSSER, 1978: 24 e passim), período, onde são operacionalizados alguns
princípios teóricos de sua sociologia política
qualificava como “realizar”, ou seja, de
concretizar, em termos práticos e “aplicados” “compreensiva” para explicar as causas da
emergência da Revolução Russa ou os cenários
(desenvolvendo-o e retificando-o), um
determinado esquema teórico para explicar um possíveis colocados à reorganização do sistema
acontecimento ou uma série de político alemão após a derrota da Alemanha na I
Guerra Mundial (WEBER, 1997; BEETHAM,
acontecimentos (i. e. um processo)
relativamente localizados e “concentrados” no 1979); A revolução Russa, de L. Trotsky, onde
se “realizam” alguns princípios teóricos
tempo6.
enunciados em sua “teoria do desenvolvimento
desigual e combinado” formulados por ocasião
6 Nesse sentido, corroboramos inteiramente as afirmações de de sua análise da Revolução de 1905
Fábio Wanderley Reis na passagem abaixo, embora discordando (TROTSKY, 1978; 1985); as análises de
do ceticismo por ele demonstrado quando à constituição de
“análises de conjuntura” como um ramo específico da ciência Raymond Aron e Alain Touraine sobre o
política: “Isso é parte, me parece, de uma maneira de entender o movimento de Maio de 68, onde também são
que seria o trabalho de uma disciplina como a ciência política, “realizados” alguns princípios teóricos gerais
em contraste como a atividade jornalística ou eventualmente
historiográfica. O empenho é o de estruturar os eventos da expostos pelos autores nas respectivas
conjuntura analiticamente e eventualmente com respaldo
empírico adequado. Eu não acredito em ‘análise de conjuntura’ preocupação estruturante, analítica e teórica, acaba sendo essa
como um tipo especial de trabalho, também a análise de perseguição meio resfolegante aos eventos” (KASSAB & REIS,
conjuntura tem de estar enquadrada teoricamente, esta é a única
2005). Tentativas facilmente acessíveis  embora ainda
maneira de você estruturar analiticamente aquilo que se passa no
dia-a-dia. Do contrário, você está exposto a ficar embrionárias  de formalizar os requisitos necessários para a
permanentemente à deriva, a ficar correndo atrás dos eventos. formulação de “análises de conjuntura” por parte dos cientistas
Acho inclusive que muito do que se faz na ciência política como sociais são os trabalhos de ALVES & FAVERSANI (2002) e
disciplina acadêmica, que supostamente deveria ter essa HARNECKER (2002).

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sociologias políticas (ARON, 1968; conjuntura brasileira dos anos 90 (REIS, 2004),
TOURAINE, 1968); e, especialmente, para os de Florestan Fernandes sobre o processo de
fins da presente análise, A crise das ditaduras, transição política para a “Nova República”
de Nicos Poulantzas, onde este autor busca (FERNANDES, 1985), dentre outras
“aplicar/retificar”, de maneira nem sempre abordagens que buscam articular a interpretação
coerente do ponto de vista lógico, de aspectos gerais e parciais de diferentes etapas
determinados princípios teóricos enunciados de desenvolvimento do sistema político
em obras anteriores (POULANTZAS, 1976; brasileiro. Num plano mais próximo à
1978; 1986). economia, mas que também se relaciona com a
Todos esses são exemplos clássicos de ciência política, podemos mencionar a série de
análises de conjuntura pois, trabalhos de Jorge Vianna Monteiro
independentemente do referencial teórico- (MONTEIRO, 1997; 2001), onde este autor
metodológico e/ou das inclinações político- busca apreender diferentes aspectos das relações
ideológicas de seus autores, todos eles buscam entre “Economia” e “Política” na recente
“estruturar analiticamente aquilo que se passa conjuntura brasileira, a partir da perspectiva da
no dia-a-dia”, ou seja, organizar os fatos “public choice” 7.
políticos em torno de hipóteses e esquemas Esse inventário, naturalmente, não
explicativos que demandam uma leitura pretende ser exaustivo, e muito menos queremos
“analiticamente carregada” da realidade afirmar que o eventual “analista de conjuntura”
política, e não um mero comentário ligeiro ou deva se sentir frustrado caso não produza
a produção de mais uma narrativa sobre os estudos de natureza análoga ao dos acima
fatos políticos quotidianos. citados. Pretendemos apenas mencionar alguns
Ao lado desses exemplos de análises textos que podem ser tomados como bons
de conjuntura em algumas obras “clássicas”, exemplos e tentativas bem-sucedidas de
por assim dizer, da ciência e da teoria “análises de conjuntura” no sentido dado aqui a
políticas, podemos mencionar também, ainda à este termo, vale repetir, da apreensão
título de ilustração do que temos em mente analiticamente estruturada das linhas de força
quando empregamos tal expressão, outro mais importantes para a ocorrência de um fato
conjunto de obras. ou processo político qualquer, e não uma mera
narrativa descritiva ou tomada de posição
Para o caso do processo político “normativa” (sic.) em relação a um evento
brasileiro propriamente dito podemos citar, político, muito menos a apresentação de
como bons exemplos de análises de conjuntura resultados de estudos especializados de natureza
disponíveis, cuja leitura pode ser útil para monográfica, sem a preocupação em relacioná-
inspirar o analista político em busca de los com processos políticos mais abrangentes.
parâmetros para avaliar e inspirar suas Os estudos acima citados se diferenciam de
próprias abordagens, trabalhos tais como o de abordagens meramente monográficas ou de
Armando Boito Jr. sobre a crise política que outras modalidades de apresentação de
redundou no suicídio de Vargas em agosto de
1954, onde o autor busca “realizar” princípios
7 Não por acaso, muitos destes trabalhos são coletâneas de textos
teóricos bastante semelhantes ao que reunindo análises de aspectos parciais do processo político
buscaremos concretizar neste texto(BOITO elaboradas ao longo de um período razoavelmente longo de
JR., 1982); de Argelina Cheibub Figueiredo tempo, mas que redundam na produção de uma visão abrangente e
minimamente estruturada dos fatos políticos observados. O que
sobre o golpe de 1964, onde a autora busca não significa afirmar também que apenas estudos sistemáticos
concretizar a problemática da chamada desse gênero possam ser considerados “análise de conjuntura”. Ao
“escolha racional” para explicar as alternativas contrário, é plenamente admissível que estudos isolados e de
aspectos parciais da realidade política também sejam ou se
políticas colocadas às forças que participaram esforcem por ser “analiticamente orientados”. Talvez o melhor
do processo político que redundou no golpe de exemplo deste último tipo de abordagem sejam os estudos
1964 (FIGUEIREDO, 1993), as coletâneas de publicados nos quarenta e poucos volumes dos Cadernos de Análise
de Conjuntura, editados pelo CEVEP, da FAFICH/UFMG:
ensaios de Fábio Wanderley Reis sobre a http://cevep.ufmg.br/ (site fora do ar em agosto de 2006).

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resultados de pesquisa, justamente porque permanecem válidas e fecundas para se analisar


procuram articular resultados parciais a conjuntura política brasileira; (ii) Em segundo
produzidos por determinados ramos da ciência lugar, buscaremos aplicar estas idéias na análise
política, para a elaboração de hipóteses do governo Lula e do momento político
explicativas razoavelmente articuladas sobre brasileiro adjacente às eleições de 01 de outubro
os eventos ou processos políticos de natureza de 2006, seu contexto imediatamente anterior,
mais ampla que ocorrem num momento assim como a alguns de seus desdobramentos
histórico qualquer. possíveis.
Nesse sentido, as análises de Nas linhas abaixo, nos esforçaremos por
conjuntura são exercícios de grande cumprir estas duas promessas ou metas bem
importância para o teste “empírico” de pouco eleitorais.
determinados paradigmas explicativos,
Antes de avançarmos na aplicação desse
inclusive porque exigem a articulação de
esquema teórico e dessas idéias gerais à análise
elementos teóricos parciais de várias
da conjuntura recente, convém enumerarmos o
disciplinas ou ramos da ciência política.
que consideramos ser as três principais
Advém daí também o alto grau de dificuldade
contribuições feitas por Nicos Poulantzas para a
das análises de conjuntura, pois o analista
análise política (seus pontos fortes) e que
político que as elabora é obrigado a articular,
consistirão no ponto de partida de nossa
num modelo razoavelmente coerente,
abordagem8. Segundo nosso ponto de vista, são
elementos parciais de vários ramos e
as seguintes as principais contribuições
disciplinas da análise política e das ciências
efetuadas pelo autor à análise política
sociais (sociologia dos grupos; processo
propriamente dita, e que se constituem em bons
eleitoral; processo decisório; instituições
pontos de partida para a reflexão sobre a
políticas; teoria dos partidos políticos; teoria
dinâmica de funcionamento dos sistemas
do Estado etc.), bem como a trabalhar
políticos capitalistas em geral, e sobre a atual
simultaneamente em várias frentes de coleta
conjuntura política brasileira em particular:
de dados empíricos ou, pelo menos, a
combiná-las num todo analítico razoavelmente (i) Inicialmente, devemos destacar sua
integrado, que lhes possibilite inclusive fazer definição de modo de produção em geral
inferências de natureza mais geral, mesmo como uma articulação entre estruturas,
quando examina um aspecto “parcial” ou responsável pela geração de um padrão
segmentado de determinado acontecimento de funcionamento e de reprodução das
político. diversas formações sociais segundo o
princípio da interação recíproca entre
instituições sociais que se desenvolvem
III) Objetivos e referencial teórico- dentro dos limites fixados por uma dada
metodológico.
8 Esse esforço de explicitação, aparentemente trivial e
desnecessário, justifica-se porque, a nosso ver, boa parte, senão a
Isto posto, podemos apresentar alguns imensa maioria, dos comentadores da obra de Poulantzas tratam
objetivos das considerações efetuadas a seguir, de maneira superficial tais pontos, preferindo deter-se no conceito
teoricamente nebuloso e pouco consistente de “autonomia
coerentes com os balizamentos expostos no relativa” e outros aspectos da obra poulantziana que apresentam
item anterior. São eles: (i) Em primeiro lugar, pouco rendimento analítico. Os exemplos desse tratamento
superficial da obra do analista político greco-francês poderiam ser
apresentar alguns elementos teórico- multiplicados. Mencionaremos aqui, apenas à título de exemplo, os
metodológicos para uma análise de conjuntura trabalhos de CARNOY (1990), PRZEWORSKY (1995), os quais
empreendida sob uma ótica “poulantziana”. não aprofundam estes pontos, a nosso ver fundamentais para a
compreensão da abordagem “poulantziana”. Por outro lado, para
“Poulantziana” porque consideramos que as uma visão mais aprofundada das contribuições substantivas deste
contribuições efetuadas por este autor ainda autor, mais próxima  embora não inteiramente convergente 
são estimulantes para a elaboração de análises da adotada neste texto, cf. os vários trabalhos de SAES (1998;
2001), em cujas análises sobre o processo político brasileiro
políticas e, além disso, contêm idéias que também nos apoiaremos nas considerações feitas a seguir.

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totalidade ou sistema social qualquer desenvolvido teoricamente nas várias


(escravista, feudal, capitalista, socialista obras do autor, tem um elevado potencial
etc.). Tal premissa teórica permite heurístico para a análise de conjunturas,
estabelecer um diálogo estimulante e pois nos permite escapar da camisa de
fecundo desta abordagem com outras força da chamada “análise de classes” e,
grandes problemáticas teóricas também, superar os limites de um
originárias no ambiente acadêmico enfoque meramente “pluralista” dos
burguês do século passado, que grupos e dos conflitos sociais, na medida
conservam o princípio da interação em que nos permite articular o estudo dos
recíproca entre sub-estruturas como um fenômenos relacionados à
princípio-chave para explicar o institucionalização dos conflitos entre
funcionamento e a reprodução das grupos, com os problemas referentes à
diferentes sociedades, tais como, por repercussão do comportamento de tais
exemplo, o normativismo jurídico de grupos numa totalidade social mais
Hans Kelsen e o estrutural- ampla, ou seja, apreender as funções
funcionalismo de Talcott Parsons;9 propriamente ditas das ações
desempenhas pelos diferentes atores num
(ii) Em segundo lugar, podemos
mencionar, apenas com o fito de sistema social qualquer. A idéia mais
explicitar algumas das premissas simples de tal “teoria” é a de que existem
teóricas que operarão na análise feita a relações dinâmicas de hierarquização e de
seguir, os conceitos de Estado dominação/subordinação política
inclusive no seio das classes exploradoras
capitalista e de burocratismo,
intrinsecamente relacionados, tal como cujos interesses são institucionalizados e
expressos nos sistemas políticos das
expostos de maneira sistemática na
abordagem inicial do autor10; assim chamadas “sociedades de classe”11.

(iii) Por fim, podemos elencar, como a Consideramos que estes pilares da teoria
e da análise política poulantzianas permanecem
terceira contribuição-chave de
Poulantzas à análise política, sua teoria irrefutados, e algumas das suas implicações
do bloco no poder, que consiste antes podem ainda hoje ser aproveitadas com mérito
de tudo num modelo teórico geral para para o estudo de processos políticos nas
analisar os conflitos entre grupos “sociedades de classe” em geral, não apenas nas
sociedades capitalistas.
sociais relevantes, naquelas formações
sociais organizadas com base na Deve-se reiterar, uma vez mais, que o
distribuição dos seres humanos em próprio autor, em suas obras posteriores, não
estratos explorados e estratos extraiu de maneira consistente e teoricamente
exploradores. Tal modelo teórico, fecunda as implicações da problemática teórica
embora apenas esboçado e não por ele aberta em seus trabalhos iniciais (SAES,
1998). A esse respeito, devemos dar um passo
9 Tais pressupostos estruturo-interacionistas encontram-se adiante em relação às afirmações anteriores e
expostos em alguns textos fundamentais tais como A teoria geral esclarecer que uma das proposições centrais
do direito e do Estado e a Teoria Comunista do Direito, no tocante ao
primeiro autor (KELSEN, 1955, 1998), e nas obras O Sistema subjacentes à presente abordagem é a de que
Social e Social Structure and Personality, no tocante ao segundo existem, na obra do próprio Poulantzas, uma
(PARSONS, 1951, 1970). Para um visão do princípio simples da série de obstáculos teórico-metodológicos para a
“interação recíproca” como um dos principais elementos dessa
escola teórica, embora de uma perspectiva de um adversário da análise “poulantiziana” de conjuntura, os quais
obra poulantziana, cf. EASTON (1980). podem e devem ser removidos, caso se queira
10 O burocratismo é basicamente um padrão de organização do
aparelho administrativo do Estado capitalista que cria as
“condições de possibilidade” (motivacionais e normativas) para 11 Para uma ilustração desses conceitos de hierarquia e
a reprodução do sistema social capitalista num espaço territorial subordinação entre estratos dominantes, bem como de algumas de
qualquer, ou seja, numa determinada formação social. Nesse suas implicações políticas, cf. o instigante e empiricamente bem-
sentido, cf. SAES (1998, passim.). fundamentado trabalho de Adeline Daumard (DAUMARD, 1985).

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fazer avançar esta problemática teórica. A processos para a reorganização da


nosso ver, tais obstáculos, se superados de hegemonia política, associando tal
maneira adequada, podem fazer com que suas reorganização predominante ou
contribuições se convertam num referencial exclusivamente a processos de
interessante e produtivo para a análise ruptura institucional. Isso faz com
empírica de conjunturas, que sirva como que os analistas políticos que se
alternativa e que permita estabelecer um inspiram neste paradigma fiquem
diálogo produtivo com outras perspectivas de como que “paralisados” ou inermes
análise existentes na ciência política em relação a um dos principais
contemporânea. ramos da ciência política acadêmica,
E quais seriam estes principais “pontos que é o da análise dos processos
cegos” ou pontos fracos da análise política eleitorais, dos condicionantes da
“poulantizana” que, se forem adequadamente formação das decisões de voto por
equacionados, podem fazer com que o parte do eleitor, assim como da
paradigma por ele fundado se converta num influência de tais decisões no
referencial fecundo e analiticamente desempenho do sistema político mais
estimulante para o estudo de processos amplo;
políticos concretos e de determinadas (iii) Por fim, o próprio autor não foi
“conjunturas” políticas? capaz de desenvolver de maneira
Podemos enunciá-los sumariamente sistemática, a partir de suas
como segue: formulações iniciais, instrumentos
teórico-metodológicos para analisar a
(i) Poulantzas não desenvolve morfologia do processo decisório e
instrumentos para explicar porque dos processos de formação e
pode haver uma variação entre os implementação de agenda dos
diversos modelos de Estados Capitalistas, e a maneira pela
desenvolvimento no processo de qual tal processo repercute no
funcionamento do diferentes modos fracionamento ou nas clivagens de
de produção em sociedades certos segmentos das classes
concretas (ou seja, em formações dominantes, e como ele se relaciona
sociais). Por que isso ocorre, quais com a organização da hegemonia
as forças motrizes e os política de determinados subgrupos
determinantes desse fenômeno, ou frações das classes dominantes
bem como suas implicações, são sobre outros12.
pontos escassamente abordados em
suas obras. O próprio conceito de Deve-se esclarecer, por fim, que isso não
modelo de desenvolvimento, não implica corroborar as afirmações segundo as
chega a ser formulado teoricamente quais Poulantzas teria uma visão “mecanicista”
de maneira sistemática pelo autor, ou “hiperdeterminista” dos processos decisórios
embora possamos dizer que esteja nas sociedades capitalistas, que desconsidere,
presente “em estado prático” em por exemplo, os efeitos dos diferentes tipos de
algumas de suas reflexões; recrutamento político na performance das

(ii) Poulantzas não desenvolve 12 Em uma de suas últimas obras, Poulantzas chegou a abordar de
instrumentos teórico-metodológicos maneira sistemática esse ponto, qualificando o fenômeno da
distribuição desigual de poder e de influência entre os vários grupos
para explicar o significado dos sociais “representados” e atuantes nas instituições no sistema
processos eleitorais para a político em geral, e no aparelho de Estado em particular, através
organização da hegemonia no bloco da metáfora algo inadequada da distinção entre “poder real” e
“poder formal” (POULANTZAS, 1978: 82). “Inadequada” porque
do poder nos diferentes sistemas o fato de um agente deter menos poder e/ou influência do que
políticos. Com efeito, o autor tende outro não implica necessariamente que estes últimos sejam
a subestimar o significado desses “formais” e vice-versa.

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instituições políticas capitalistas, das diversas aqueles referentes à configuração da correlação


modalidades de organização do processo de forças entre os grupos sociais no governo
decisório na determinação dos resultados das Lula, especialmente entre os diferentes
políticas governamentais, e assim segmentos das classes dominantes e respectivos
sucessivamente. Ao contrário, o autor afirma grupos-de-apoio (“o governo dos petistas é um
clara e explicitamente que as diferentes governo burguês? É um governo neoliberal?
modalidades de recrutamento dos grupos ou Qual a relação desse governo com as massas
elites dirigentes, embora não afetem a trabalhadoras?”); c) aqueles referentes às
“natureza de classe” do Estado capitalista, alternativas políticas que se abrem a partir dos
podem ter efeitos políticos significativos em efeitos conjugados produzidos por estes
determinadas conjunturas e processos fenômenos sobre as diferentes correntes
políticos, bem como no desempenho das políticas em luta pelo poder governamental (“o
instituições e nos processo de formulação e que esteve em jogo nestas eleições”? “Quais
implementação de políticas governamentais seus desdobramentos previsíveis para o
(POULANTZAS, 1986: p. 333). Entretanto, funcionamento futuro do sistema político
devemos admitir que ele não desenvolveu de brasileiro”?).
maneira sistemática estes pontos, o que gerou
Podemos agora enunciar algumas de
um sem-número de intermináveis e pouco
nossas principais proposições.
produtivas “falsas polêmicas” em torno das
reais contribuições efetuadas pelo autor. Primeira proposição: o comportamento
do PT e da própria equipe de governo durante o
Devido à exigüidade do espaço,
primeiro mandato do presidente Lula manifesta
estruturaremos a exposição em torno de três
simultaneamente fenômenos gerais,
proposições básicas sobre a atual conjuntura,
relacionados à incorporação de partidos social-
as quais buscam “realizar” os princípios
democratas aos quadros de um Estado
teórico-metodológicos acima enunciados.
capitalista ou burguês, e aspectos específicos,
Manipulando as premissas teóricas acima
referidos ao quadro institucional e ao contexto
elencadas e articulando-as às informações
sócio-econômico que estrutura a organização da
empíricas que conseguimos obter sobre a cena
democracia capitalista no Brasil contemporâneo
política brasileira, podemos derivar
e a organização do processo de governo neste
logicamente algumas idéias que, por questões
país. Não se pode ter uma compreensão
de espaço, seremos obrigados a enunciar
abrangente do “desempenho” do governo Lula
esquemática e sinteticamente no item seguinte
analisando-se apenas um de tais aspectos.
na forma de “proposições básicas” referentes à
Portanto, aplicar esse esquema “poulantziano”
recente conjuntura político-eleitoral brasileira.
na atual conjuntura política implica abordar
duas ordens de problemas:
IV) Três proposições básicas sobre a A) Inicialmente, devemos mencionar
recente conjuntura político-eleitoral. fenômenos de natureza geral, relacionados à
integração de partidos social-democratas ou
trabalhistas num Estado capitalista e à chamada
As proposições são as elencadas a “lógica do burocratismo burguês”, o que implica
seguir, as quais buscam enunciar de maneira a deflagração de um processo sociológico
condensada teses fundamentais sobre três “complexo” de adaptação e refração das
aspectos que consideramos mais relevantes de ideologias e dos valores das elites dirigentes
serem compreendidos na atual conjuntura: a) anteriormente vinculadas a um grupo social
aqueles referentes ao comportamento do PT e “não-estatal” (no caso petista, de trabalhadores
da equipe governamental no governo Lula e manuais de grande indústria e de classe média
alguns dos efeitos de tal comportamento no sindicalizados), para o novo status social de
sistema político brasileiro (“o PT mudou? Por “elite governante”, ocupante de cargos
que? Qual a natureza de tal mudança?”); b) governamentais estratégicos num Estado

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capitalista. E quais seriam estes fenômenos? Não houvesse essa “colonização” de


Enumeraremos sinteticamente alguns deles: certos ramos do aparelho de Estado por novas
elites dirigentes de origem sindical provocado
(i) Empreguismo e favoritismo na
ocupação de cargos públicos. Assim como um evidente descolamento de renda e de status
ocorre com outros partidos de esquerda que social dos dirigentes em relação à massa de
militantes partidários, este fenômeno poderia
optaram predominantemente por integrar-se
aos governos de países capitalistas e assumir inclusive ser apontado como um dos aspectos
responsabilidades governamentais mais democráticos e igualitários da gestão
(PRZEWORSKI, 1989), o partido pode tornar- petista.
se um meio de ascensão social para boa parte (ii) “Corrupção” eleitoral. O segundo
dos dirigentes e militantes políticos, fenômeno político relacionado à incorporação
especialmente daqueles setores que, seja por dos partidos de esquerda às “regras do jogo” da
sua origem social, seja pelo chamado “capital democracia capitalista é o que a mídia
cultural” acumulado ao longo de sua trajetória, convencionou chamar de “corrupção eleitoral”,
não logram fazer parte por seus próprios meios ou seja, a gestão intransparente dos fundos
(ou seja, através dos recursos intelectuais partidários e ao uso do chamado “Caixa 2” para
herdados das famílias ou obtidos pelo esforço ocultar a verdadeira origem dos recursos
individual) da chamada “nobreza de Estado”, arrecadados pelos partidos, especialmente os
para utilizar a expressão empregada por utilizados durante a campanha eleitoral. Tal fato
Bourdieu para designar os altos funcionários está estritamente associado à história do PT ao
públicos concursados e formados nas escolas longo dos anos 90 e com a concepção
de “elite” dos países capitalistas (BOURDIEU, predominante das cúpulas partidárias,
1999). especialmente na facção hegemônica nas
Com efeito, estudos sobre instâncias dirigentes da agremiação, de engajar-
se numa estratégia de conquista a curto prazo do
recrutamento político têm detectado uma
substancial variação patrimonial dos poder governamental através da vitória em
eleições presidenciais, tendo por base os
parlamentares e dirigentes do partido, após a
ocupação de cargos burocráticos e eletivos, resultados de gestão apresentados (bem como a
especialmente após a vitória do PT nos experiência acumulada na arrecadação de
últimos pleitos eleitorais (RODRIGUES, recursos) em unidades subnacionais de governo
2006). Esse aspecto específico tem provocado (SAMUELS, 2004). Trata-se de fenômeno até
certo ponto comum de ocorrer em democracias
uma forte resistência nos meios políticos
conservadores, movidos em grande parte por avançadas, mesmo com partidos social-
uma série de preconceitos elitistas e algo democratas extremamente estruturados do ponto
de vista organizacional, e não de fenômeno
ressentidos por verem um espaço político-
administrativo antes reservado e praticamente especificamente brasileiro ou mesmo de
monopolizado pela alta classe média com economias periféricas, embora ocorra com graus
variáveis de intensidade nos vários sistemas
formação universitária, ser ocupado por novas
elites dirigentes cujo principal “capital social” políticos. Isso decorre do fato de que, em uns
acumulado são as redes de relações formadas como em outros, os partidos precisam de
através da experiência organizativa obtida na recursos financeiros de porte para serem
eleitoralmente “competitivos” (ou seja, para
militância em movimentos sociais da mais
financiar as grandes campanhas eleitorais e para
variada natureza, especialmente sindical13.
ter acesso à grande mídia capitalista), o que
termina abrindo brechas para a criação de
13 Infelizmente, ainda não foram disponibilizados dados sobre a
evolução patrimonial dos dirigentes e militantes de esquerda
esquemas “alternativos” e intransparentes de
(para não falar de outras correntes políticas) que ocupam cargos captação de recursos, tanto de origem privada
comissionados nas várias esferas de poder do governo Lula, quanto governamental, embora o contexto
embora alguns dirigentes petistas mais empolgados com a vitória
eleitoral de 2002 houvessem prometido disponibilizar tais dados
eleitoral brasileiro de voto personalizado com
na internet, logo após a posse de Lula em seu primeiro mandato. eleições de lista “aberta” e com partidos

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“fracos” na arena eleitoral, tenda a agravar implica na criação de uma nova clivagem no
ainda mais o problema da intransparência da seio das classes dominantes: surge um segmento
arrecadação e do uso de recursos por parte dos burguês mais progressista que apóia as medidas
partidos políticos (SAMUELS, 2005). distributivas dos futuros “social-democratas” no
(iii) Perda do democratismo operário poder, integrando-se aos governos de esquerda.
inicial. O partido passa a ser uma Todos esses fenômenos mais ou menos
“organização burocrática” no sentido acompanharam  em graus e a títulos diversos,
weberiano do termo, fora do controle estrito deve-se sublinhar  a integração de partidos
das classes trabalhadoras e sob a hegemonia social-democratas às regras do jogo da
de elites dirigentes que tendem a se reproduzir democracia parlamentar e da organização
em seus cargos e a criar mecanismos que os burocrática dos Estados capitalistas ao longo do
subtraiam do controle político da massa de século XX, e foram a contrapartida do ganho de
militantes partidários14. Esse democratismo “eficiência” (se avaliado pelos parâmetros
passa apenas a fazer parte do passado e do social-democratas) de tais partidos na gestão da
estoque de experiências simbólicas construídas máquina governamental e da execução de
para formar a identidade da organização e dos políticas bem-sucedidas de redistribuição de
dirigentes partidários15; renda e patrimônio em alguns países
(iv) Criação de uma nova clivagem capitalistas, especialmente aqueles que foram
política (ou seja, de um novo princípio de bem-sucedidos em suas estratégias distributivas
fracionamento) no seio das classes tendo por base o intervencionismo estatal
dominantes: determinados setores da classe centralizado.
dominante, diante da perspectiva de vitória No caso brasileiro, deu-se, entretanto,
eleitoral da esquerda, e tendo em vista as que o candidato Lula não ganhou as eleições
próprias políticas governamentais anunciadas com a intenção explícita e declarada de
pelos dirigentes de tais partidos visando a implantar uma espécie de “Welfare State”
conquistar o apoio empresarial e burocrático periférico, mas sim uma visão até certo ponto
para a “governabilidade”, aderem ao “governo conservadora de um modelo de
dos trabalhadores”, inclusive participando desenvolvimento que vem sendo qualificado
diretamente das equipes governamentais16. Ou acertadamente por alguns autores como “social-
seja: a existência de um partido social- liberal”, para empregar noutro contexto a
democrata com capacidade governativa expressão utilizada por Bresser Pereira
(BRESSER-PEREIRA, 2005). Esse fato, ao
14 Esse fenômeno foi descrito de maneira pioneira na ciência menos numa primeira etapa, intensificou ainda
política pelo trabalho clássico de Robert Michels, influenciado
pela problemática das elites, um enfoque bastante diferente mais o processo de aproximação de segmentos
daquele derivado do conceito de burocratismo. A contraface importantes do empresariado com o governo
propriamente econômica dessa assimilação de partidos social- Lula, inclusive do setor financeiro, na medida
democratas de origem trabalhista à lógica da gestão
governamental capitalista, é sua adaptação à lógica propriamente em que este excluiu de suas propostas de
econômica do Capitalismo (PRZEWORKI, 1989), embora governo qualquer “choque distributivo” que
ambos os processos estejam longe de ser simultâneos. Uma
tentativa pioneira de sugerir alguns antídotos contra a suposta
implicasse num confronto direito com
“lei de ferro” das oligarquias, do ponto de vista da sociologia das determinados interesses corporativos
organizações, encontra-se no magnífico conjunto de ensaios de empresariais de curto prazo, especialmente
MERTON (1979: especialmente pp. 124-143).
bancários.
15 Para uma descrição não-sociológica de qualidade literária
bastante duvidosa de todo esse processo, cf. o recém-publicado Ora, todo o problema reside justamente
livro de BETTO (2006). Deve-se observar entretanto que,
devido ao contexto histórico de suas formação, o PT apresenta
no fato do governo Lula ter arcado com os ônus
tais características com menos intensidade que outros partidos da integração de um partido de esquerda num
social-democratas, incorporando alguns mecanismos vigentes Estado Capitalista (ao se envolver na lógica
nas democracias parlamentares em suas instâncias internas de
deliberação (SAMUELS, 2004). eminentemente burocrática e intransparente dos
16Este processo é descrito de maneira meticulosa, para o caso
sistemas políticos capitalistas) sem os
brasileiro, nos trabalhos de DINIZ (2004; 2005). significativos benefícios obtidos na qualidade de

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vida e na politização das classes trabalhadoras social-democratas do capitalismo central


pela social-democracia dos países capitalistas transforma-se em “social-liberais”, para usar a
centrais. Ou seja: o governo Lula está longe de já citada expressão empregada por Bresser
sinalizar a implantação um Estado de Bem- Pereira noutro contexto analítico (BRESSER
Estar no Brasil e instituir, para os diferentes PEREIRA, 2005)17. Além disso, vence o pleito
segmentos das classes trabalhadoras após a crise de sucessivos governos neoliberais
organizadas, os substanciais ganhos políticos e que implantaram estratégias sistemáticas e
econômicos obtidos pelos trabalhadores dos deliberadas de desmonte e fragilização
países centrais do sistema capitalista, financeira do Estado brasileiro, que tornaram a
especialmente naqueles onde existe uma economia brasileira ainda mais vulnerável e
poderosa social-democracia (PRZEWORSKI, dependente aos interesses do capital financeiro.
1989). Todos estes fatos fizeram com que houvesse
A nosso ver, esse fato deve ser levado uma progressiva aproximação de segmentos do
em conta para explicar a “decepção” que o grande empresariado brasileiro com o PT,
governo Lula causou em amplos segmentos especialmente durante o último biênio do
das classes trabalhadoras organizadas segundo mandato FHC, quando se tornaram
brasileiras e em certos setores da esquerda, mais patentes os pesados efeitos negativos das
especialmente da chamada “classe média políticas econômicas executadas em anos
democrática” e também devem ser relevados anteriores (DINIZ, 2005). Daí que o PT no
para uma avaliação do desempenho de seu poder tenha implantado não um programa
primeiro governo. Ou seja: houve um social-democrata no sentido estrito do termo (ou
ingrediente adicional na cena política ao menos tomado decisões que indicassem uma
brasileira recente além da mera pressão e do clara estratégia nesse sentido), mas uma espécie
uso da tradicional “estratégia de bloqueio e de terceira via periférica que fez com que ele se
desgaste” da oposição conservadora e de convertesse num partido de cunho mais
centro-direita a partidos situados à esquerda do “burguês”, representante de segmentos
espectro ideológico e ao enfrentamento da empresariais da chamada “burguesia interna”
“herança maldita” dos anos FHC, que é o da brasileira (inclusive bancária), preocupado com
passividade e falta de mobilização da chamada a “governabilidade” e com a estabilidade dos
“militância” política, bem como o investimentos privados, do que propriamente
descolamento dos simpatizantes da órbita de trabalhista, voltado à defesa ferrenha dos
influência do Partido dos Trabalhadores. Isso interesses corporativos e para um aumento
talvez possa ser explicado pelo desencanto, linear da qualidade de vida e de ampliação da
gerado em setores significativos da militância cidadania social de segmentos organizados da
petista e de esquerda em geral, pela ausência classe trabalhadora que constituíam sua base
de iniciativas substantivas visando a política original. Como observado por vários
implantação de um Estado de Bem-estar no analistas, esse fato provocou uma intensa
Brasil, ao menos no primeiro mandato Lula. aproximação de segmentos empresariais
“desenvolvimentistas” e vinculados ao
B) Além disso, devemos chamar a agrobussiness com o governo Lula,
atenção para aspectos específicos, especialmente nos dois primeiros anos de
relacionados à vitória eleitoral de um partido governo, e o conseqüente afastamento do
de esquerda no contexto atual brasileiro e a partido em relação às demandas de
certas peculiaridades que o contexto determinados setores que faziam parte de sua
socioeconômico e o quadro institucional
democrático brasileiro imprimem a essa 17 Uma minuciosa enumeração das dificuldades colocadas à
vitória. E aqui podemos destacar fenômenos implementação de medidas efetivamente “social-democratas” por
políticos de natureza distinta, tais como: governos de centro-esquerda logo após a vitória eleitoral,
especialmente em países da periferia do sistema capitalista com as
(i) O candidato Lula ganha as eleições características socioeconômicas e institucionais da formação social
brasileira, na atual etapa de desenvolvimento capitalista, encontra-
num contexto em que boa parte dos partidos se em REIS (2005).

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base social de origem, mormente aqueles parlamentares mais distantes deste núcleo
segmentos da classe média sindicalizada dirigente.
vinculados ao setor público (DINIZ, 2005;
Por sua vez, as causas dessa opção
MARQUES, 2006). estratégica devem ser buscadas, a nosso ver, na
(ii) O segundo aspecto está relacionado maneira pela qual as novas elites dirigentes
às decisões estratégicas tomadas pela cúpula petistas resolveram os “dilemas” inseparáveis à
dirigente petista para resolver os “dilemas” do gestão de governo no “presidencialismo de
presidencialismo pluripartidário brasileiro18 e coalizão” brasileiro (ABRANCHES, 2003),
para gerenciar a coalizão governista, num especialmente o difícil trade-off entre
contexto institucional onde raramente se fortalecimento e consolidação do partido do
formam “governos partidários” no sentido das governo, e a distribuição de fatias de poder por
democracias parlamentaristas européias. Como ocasião da formação de equipes
demonstram alguns analistas (PEREIRA, governamentais. Optou-se pela montagem de
POWER & RAILE, 2006)19 a estratégia de uma “coalizão fisiológica” de governo através
gestão da coalizão do governo Lula seguiu um da cooptação de parlamentares de partidos mais
padrão diferente daquele adotado pelas fisiológicos (PP, PTB, PL), e não na montagem
cúpulas governantes durante a presidência de uma coalizão “programática” (ou seja,
FHC, especialmente em seu segundo mandato. baseada na negociação de aspectos substantivos
No governo Lula, a presidência adotou da agenda governamental) com o PMDB,
“ferramentas” diferentes de gerenciamento da conforme queriam alguns setores ligados ao
“coalizão” governista, organizando uma chefe da Casa Civil, José Dirceu, no início do
equipe governamental mais heterogênea do mandato, provavelmente devido ao receio dos
ponto de vista partidário e ideológico, com impactos que essa transferência de fatias
alto grau de concentração de petistas nos substantivas de poder ao PMDB ocasionaria na
ministérios mais importantes (baixo grau de chamada militância petista e no interior do
“coalescência”), e mantendo a disciplina partido.
partidária através da execução de emendas
O paradoxal dessa estratégia foi que ela
orçamentárias para partidos mais próximos ao
foi implementada não para aplicar um programa
núcleo dirigente petista, utilizando ainda
social-democrata ou mesmo
meios não convencionais para cooptar
“neodesenvolvimentista”, como poderiam
esperar, por exemplo, aqueles observadores que
18 Devidos basicamente à coexistência entre as lógicas tomavam ao pé da letra a atuação dos
“majoritária” e “consocional” no sistema político brasileiro, o
que faz com que os presidentes eleitos, especialmente aqueles parlamentares do partido no Congresso  e não
com plataforma eleitoral de centro-esquerda, via de regra não as estratégias e opções políticas efetivamente
obtenham maioria no Congresso. Isso impede a existência de
governos rigorosamente partidários, nos moldes dos vigentes em
implementadas por aqueles que detinham o
algumas democracias parlamentaristas européias (AMORIN controle dos núcleos dirigentes da organização
NETO, 2006) o que , embora não gere necessariamente crises , mas sim uma tímida (em comparação com
de “paralisia decisória” (problemas de governabilidade no
sentido forte do termo) como têm insistido alguns analistas as expectativas geradas em setores mais
(LIMONGI, 1999; 2006), é um dos principais obstáculos à organizados das classes trabalhadoras quando da
institucionalização de partidos esquerda de massa no Brasil e à
conseqüente sustentabilidade de longo prazo de políticas
vitória presidencial) plataforma “social-liberal”.
radicalmente distributivas, daí que isso afete a chamada Outro elemento paradoxal foi o de que a crise da
“qualidade das políticas” ou a “governabilidade no sentido coalizão de governo e de sua base parlamentar
fraco”, da qual a crise de governo acima mencionada é um
exemplo. Não é nosso objetivo adentrar, numa singela nota de
tem sua origem remota justamente na decisão da
rodapé, no profícuo debate acerca do quadro institucional cúpula petista de promover uma “guinada à
brasileiro a partir da elaboração da constituição de 1988. Para esquerda”, com o patrocínio da candidatura de
uma visão das principias posições a respeito, cf. o texto básico
de Vicente Palermo (PALERMO, 2000). Luís Eduardo Greenhald para a presidência da
19 Cf. o sugestivo “paper” de Power et. al. (2006). Disponível Câmara dos Deputados, processo que, devido
em: basicamente às divisões no PT após a derrota
http://200.186.31.123/ABCP/cadastro/atividade/arquivos/25_ das eleições municipais de outubro de 2004 em
7_2006_12_19_34.pdf

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seu estado natal (que motivou o lançamento da parte atraído para a órbita de influência do
candidatura de Virgílio Guimarães para a governo Lula.
presidência da Câmara), redundou na eleição
Podemos agora enunciar nossa segunda
de Severino Cavalcanti para a presidência da
proposição.
Câmara dos Deputados e no subseqüente
esfacelamento da base de apoio no Congresso. Segunda proposição básica: embora
tenha vários pontos em comum com o governo
O frágil gerenciamento da base
FHC, especialmente no tocante à continuidade
governista, já anteriormente evidenciado com
de alguns aspectos da política econômica, o
a perda da presidência da Câmara, fortaleceu-
governo Lula apresenta certas peculiaridades em
se ainda mais com as denúncias de Roberto
relação a este governo ou a esta corrente política
Jefferson acerca do funcionamento do
que, sob o aspecto estritamente político,
“mensalão”, ou seja, da compra pura e simples
justifica afirmarmos que houve uma
de votos e apoio parlamentar para a
reorganização do bloco no poder nesse período,
manutenção da base fisiológica na Câmara dos
ocasionada pela vitória de Lula nas eleições e
Deputados. A reação algo aloprada da cúpula
pela subseqüente redistribuição de poder entre
dirigente petista e dos chamados “operadores”
os diferentes ramos ou instituições do aparelho
do governo às denúncias, renunciando em
de Estado em seu governo, com a redefinição
cadeia aos cargos antes de qualquer prova ou
das posições relativas no interior do aparelho de
evidência tangível ter sido apresentada pelos
Estado entre diversos segmentos dos grupos
acusadores, ao invés de apelar à militância
dirigentes “representativos” das diversas forças
política para reagir às chantagens da base
sociais em pugna, e os conseqüentes efeitos
corrompida, apenas reforçou o impacto e a
produzidos na implementação das políticas
credibilidade das denúncias assim como a
governamentais por tal redistribuição.
crise interna do partido. E a questão da
corrupção ou das acusações de corrupção no Alguns analistas têm chamado a atenção
governo Lula relaciona-se justamente ao tipo para o fato de a configuração do bloco no poder
de estratégia de gerenciamento da coalizão no governo Lula não ser uma mera repetição do
escolhida pela cúpula petista. quadro observado durante o governo FHC
(BOITO JR., 2005a, 2005b). Entretanto, a nosso
Pois bem, foram justamente as
ver não caracterizam adequadamente tal
implicações de todos estes fatores no partido e
inflexão, nem extraem corretamente todas as
na base governista que abriram a possibilidade
implicações da mesma.
da emergência de uma terceira alternativa
política, em conseqüência da crise de governo Como já observamos, o governo Lula
do PT: referirmo-nos ao surgimento de uma não é um governo “neoliberal associado” como
espécie de “proto-populismo social- os governos FHC, mas a expressão de um
democrata” de esquerda representado pela fenômeno político-ideológico mais profundo,
candidatura presidencial de Heloísa Helena, e que atinge a esquerda em âmbito internacional,
pela organização do PSOL. Retomaremos esse que é a existência de uma orgânica corrente
ponto adiante. Por ora, nos basta sublinhar o social-liberal (BRESSER PEREIRA, 2005), que
fato da existência de uma “dissidência adere aos valores do “livre mercado” com mais
parlamentar social-democrata” dentro do seio intensidade, e recua na ambição de suas
de governos e partidos políticos de origem políticas distributivas pela via do
social-democrata, é um fato a nosso ver intervencionismo estatal centralizado. Uma das
possibilitado pelas peculiaridades do contexto características dessa corrente reside na maior
brasileiro, onde a crise política de governos ênfase na “estabilidade” do desenvolvimento
“social-liberais” se dá por uma dinâmica econômico capitalista (com respeito aos
interna própria, e não devido a fortes pressões “contratos”, especialmente os firmados por
políticas do campo conservador, em grande governos anteriores com o sistema financeiro) e
na implementação de políticas
“compensatórias” para segmentos “excluídos”,

14
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embora longe de instaurar um Welfare State. dificilmente compatíveis com a implementação


De resto, a natureza das políticas sociais do de uma série de decisões articuladas (ou seja,
governo Lula explica em parte a desilusão uma estratégia) visando a implementação de um
causada por seu governo em correntes WS no Brasil logo após a vitória nas eleições
partidárias (especialmente vinculadas ao presidenciais de outubro de 2002, mais um
chamado “socialismo cristão” e ao pleito de natureza “plebiscitária” e organizado
funcionalismo público) que alimentavam a em fracas bases partidárias conforme
expectativa de que ele fosse instaurar um determinado pela regras institucionais que
modelo radicalmente social-democrata (menos regulamentam as eleições no Brasil22.
ajuste fiscal e mais gasto público para Ora, foi justamente esse fato, no nosso
assegurar direitos sociais para setores da classe
entender, que introduziu um ingrediente
média e classe operária organizada), ou adicional na última conjuntura política
mesmo alguma variante do
brasileira, que fez com que o recente pleito
neodesenvolvimentismo nacionalista, como
eleitoral, ao menos no primeiro turno, não tenha
ocorre em algumas esferas subnacionais de sido uma mera reprodução da polarização entre
governo, como é o caso de Roberto Requião “conservadores” e “social-democratas” (ou
no estado do Paraná20.
“social-liberais”), tal como ocorre nas
Nesse momento da exposição podemos democracias capitalistas (por ora)
colocar a seguinte indagação: por que o “consolidadas” dos países capitalistas centrais23.
governo Lula não implantou um Welfare State O fato de o primeiro governo de esquerda eleito
após a vitória eleitoral, ou pelo menos não no Brasil por um partido de massas não ter
emitiu claros sinais da intenção de implantar avançado na implantação de um WS, mas ter
tal estratégia num futuro próximo, seguindo à capitulado a setores das classes dominantes
risca seu programa partidário original? Penso autóctones e às agências financeiras
que esse fenômeno se relaciona tanto aos internacionais implantando um programa
fatores de ordem objetiva, relacionados à nova “social-liberal” conservador, faz com que se
fase de desenvolvimento econômico e abrisse uma possibilidade adicional na última
tecnológico das forças produtivas capitalistas conjuntura eleitoral, na medida em que o
em escala global, que levaram ao surgimento alinhamento das políticas governamentais do
de uma orgânica e poderosa corrente “social-
liberal” mesmo nos países capitalistas Como tem sido sublinhado por Oliveira em seus textos
22

(OLIVEIRA, 2006a, 2006b), é provável que a causa sociológica


centrais21, assim como às características mais imediata dessa mudança de comportamento das lideranças
político-ideológicas da facção hegemônica no petistas seja sua integração (individual e coletiva) dentro de
esquemas financeiros de acumulação de capital propiciados pelo
PT, ou seja, à chamada “articulação” e sua capitalismo globalizado brasileiro, especialmente Fundos de
adesão aos valores da estabilidade e da Pensão e outras modalidades de gerenciamento de fundos
“governabilidade” democráticas financeiros, que deu origem a uma espécie de burguesia bancária
de Estado de origem sindical (a “nova classe”), beneficiada pelos
(abstratamente consideradas), metas estas esquemas de acumulação financeira propiciados pelo
endividamento interno do Estado brasileiro. Estaríamos assim
diante de um espécime específico de um fenômeno mais genérico
20 Como observa Diniz (2005: 12) a demissão de Carlos Lessa do para o qual chamamos a atenção anteriormente: a mudança
BNDES, em novembro de 2004, marca a derrota irreversível qualitativa de status de lideranças das classes trabalhadoras devido
destes setores “nacional-desenvolvimentistas”, potenciais a sua integração na lógica do burocratismo burguês e o
“representantes” de uma eventual “burguesia nacional” no conseqüente acesso às redes de relações que tornam tal aparelho
governo Lula. Por outro lado, a desilusão de segmentos da classe de Estado permeável aos interesses dos diversos subgrupos das
média com as políticas sociais do governo Lula foi tamanha que classes dominantes. Para o conceito de “permeabilidade”,
alguns analistas chegaram a qualificar de “neoliberais” propostas amplamente compatível com a problemática do burocratismo,
tais como a instauração de um sistema único de previdência conferir os sugestivos trabalhos de Marques (1999; 2002).
social, que assegurasse direitos sociais equivalentes a 23 É importante observar aqui que, mesmo nos casos onde houve
trabalhadores dos setores público e privado. A esse respeito, cf. transformações de partidos originalmente social-democratas em
MARQUES (2006). “social-liberais”, diferenças substantivas entre estas correntes
21 Série de fatores que foram lapidarmente sintetizados por um políticas e os “conservadores” ou burgueses-neoliberais continuam
analista como conjuntura de “esfacelamento do Mito Burguês da a existir, tanto em nível da representação partidária, quanto ao
inevitabilidade da intervenção crescente do Estado nas nível das múltiplas dimensões das gestões de governo. A esse
‘sociedades industriais modernas’” (cf. SAES, 1998: p. 187). respeito, cf. (BOIX, 1998. Apud. REIS, 2005: p. 8).

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governo Lula com as diretrizes emanadas das governo FHC; c) segmentos da classe média
várias frações da burguesia interna brasileira liberal-conservadora abastada subordinada
(grande capital bancário; grande capital ideológica e economicamente ao setor privado
industrial), sem formulação explícita de da economia, setores da “nobreza de estado”,
diretrizes partidárias anteriores nesse sentido, grande mídia conservadora pró-imperialista e
tornou possível o surgimento de uma nova alinhada ao governo e ao modus vivendi norte-
alternativa política “orgânica” nesse pleito americanos, e um apoio difuso em setores da
eleitoral, mas cujos efeitos e desdobramentos baixa classe média politicamente desorientados
podem se fazer sentir em etapas futuras de em virtude das contínuas denúncias de
desenvolvimento do sistema político “corrupção” pela mídia (o chamado voto
brasileiro. “volátil”, via de regra decisivo em disputas
E aqui chegamos ao terceiro ponto de eleitorais equilibradas), assim como da “reação”
dos dirigentes petistas a tais denúncias.
nossa análise: as alternativas abertas aos
eleitores na última conjuntura político-eleitoral Como tem sido sublinhado por vários
brasileira. observadores, um dado novo para a explicação
Proposição 3: Caso as proposições do comportamento político desse bloco
acima sejam plausíveis, podemos deduzir conservador, situado à direita do espectro
político brasileiro, é que ele perdeu a base de
delas que estivemos diante de três alternativas
políticas significativas no último pleito sustentação entre os mais pobres devido à
eleitoral, e que tais alternativas expressaram as implementação e ao relativo sucesso de
forças sociais distintas que deram sustentação programas tais como o Bolsa Família, e também
política e “organicidade” a cada uma das no seio de segmentos substanciais da própria
candidaturas. classe dominante brasileira, devido à
aproximação do governo Lula e dos petistas de
Alternativa 1: Inicialmente, tivemos uma maneira geral com as frações mais
um “neoliberalismo” de cunho mais “desenvolvimentistas” e progressistas do
conservador, que ocupou o espaço da centro- empresariado. Observe-se de passagem que essa
direita no espectro político brasileiro, perda da base social das elites dirigentes
representado pela candidatura da coligação neoliberais “associadas” é o que explica a nova
PSDB-PFL e pelas forças sociais que lhe dão forma de intervenção na cena política de alguns
sustentação e que gravitam em torno desse de seus representantes (ou, pelo menos, da área
núcleo dirigente. Os principais setores ou mais conservadora desse campo político), com
segmentos sociais que deram sustentação a insistentes denúncias de “corrupção” e um estilo
essa candidatura, a nosso ver são os seguintes: político protogolpista já qualificado alhures de
a) o capital financeiro internacional, “neolacerdismo”. Também isso talvez explique
representado pelas autoridades financeiras o fato de que algumas destas lideranças
mundiais mais importantes e/ou por aqueles declarem-se (ao menos publicamente e para fins
economistas e técnicos ligados aos bancos e eleitorais) adeptas de um
gerenciadores de aplicações financeiras “neodesenvolvimetismo” e de um “choque de
vinculadas a essas agências; b) a maior parcela gestão” para tornar mais eficiente a máquina
ou a fração majoritária das classes dominantes governamental, e não de um pesado ajuste fiscal
e da grande burguesia industrial “associadas” com um novo ciclo de privatizações e/ou maior
brasileiras, que desejam a retomada do modelo abertura da economia ao capital estrangeiro,
econômico anterior (forte retração do visando a transferência acionária de empresas
intervencionismo estatal, “ajuste fiscal”; nacionais (estatais e privadas) para setores
desregulamentação do mercado de mão-de- vinculados ao capital financeiro internacional,
obra e maior abertura da economia ao capital medidas estas eventualmente capazes de
estrangeiro), cuja implementação não se alavancar um novo período de crescimento
consumou devido à crise cambial e à crise da baseado na incorporação intensiva de capital e
bancada governista na segunda metade do de tecnologia estrangeiros.

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Não por acaso alguns analistas têm estados economicamente mais atrasados e,
observado que, a permanecer nesse estilo de portanto, mais suscetíveis aos impactos das
atuação, esta corrente política tende a políticas de transferência de renda e de
converter-se numa nova “UDN”, mas com investimentos regionais implementadas pelo
bases políticas mais sólidas, devido ao maior governo Lula; e) e, por fim mas não menos
percentual do eleitorado urbano de alta classe importante, amplos setores das classes médias
média e às fortes bases políticas regionais de democráticas e progressistas alocados no
alguns dos principais partidos políticos que lhe interior do aparelho de Estado e/ou que se
dão sustentação, que integram os setores mais beneficiam de transferências concentradas de
atrasados e arcaicos (do ponto de vista recursos do poder central.
político) das oligarquias regionais
Alternativa 3: Por fim, podemos
brasileiras24. mencionar o “proto-populismo social-
Alternativa 2: Por outro lado, tivemos a democrata” da ex-senadora Heloísa Helena, que
opção da continuidade do chamado “social- ocupou aquele espaço político-ideológico
liberalismo” mezzo-populista de Lula, também deixado vazio pela guinada ao centro do
sustentado por várias forças sociais, mas governo Lula, sustentado por forças sociais
distintas do bloco político anterior, dentre as menos numerosas e influentes que os dois
quais as principais são as seguintes: a) setores blocos anteriores, mas nem por isso
empresariais minoritários e mais nacionalistas, inteiramente irrelevantes: a) segmentos da
qualificados tradicionalmente pela literatura classe média democrática e “radicalizada”
como “burguesia interna” ou “burguesia desencantados com o governo Lula; b) setores
nacional-dependente” (BRESSER PEREIRA, mais politizados e organizados do movimento
2005); b) setores das classes trabalhadoras popular, e um apoio difuso generalizado em
organizadas orientados pela ideologia trade- várias camadas da população desorientadas
unionista e alinhados com o governo Lula, e politicamente com as denúncias de corrupção
movimentos sociais que foram “cooptados” contra o governo Lula.
pelo aparelho de Estado ou alimentam a
Apesar do caráter “proto-populista” e
expectativa de uma “guinada à esquerda” do
moralista “pequeno-burguês” da candidatura
governo Lula num eventual segundo mandato;
Heloísa Helena e da coligação PSOL-PSTU-
c) a imensa massa de trabalhadores pobres,
PCB, revelada em suas aparições eleitorais26, a
sub-remunerados e (ainda) desorganizados,
maior novidade do último processo eleitoral, a
beneficiados pelo Bolsa Família e pelas
nosso ver, foi a de que a crise do PT abriu a
políticas sociais do governo. E aqui,
perspectiva de um novo ciclo de organização
justamente, reside a faceta populista da
partidária nas esquerdas que consideramos ser o
candidatura Lula e de seu estilo de liderança,
ingrediente mais interessante da presente
na medida em que ele não consegue transferir
conjuntura, e que nos permite fazer uma leitura
para o PT os votos e a simpatia política
de certa forma “otimista” do atual momento
obtidos nessa parcela mais atrasada do
histórico. E aqui chegamos ao último ponto da
eleitorado, ainda sob a influência de uma presente exposição que são os cenários mais
lógica de cunho mais clientelista, personalista
prováveis e, também, as prescrições políticas
e despolitizada (MARQUES, 2006)25; d)
que deles derivam.
segmentos das oligarquias tradicionais de

24Referimo-nos aos ACM, Jereissati, Maciel, Bornhausen e tutti


quanti.
25 Talvez seja desnecessário acrescentar que o recurso e o
26 Escrito em meados de agosto de 2006. As aparições
estímulo a esse sistema personalizado e individualizado de subseqüentes da candidata na TV e no horário eleitoral, com uma
identidade simbólica entre líder e eleitor pelo próprio staff campanha excessivamente personalista, com propostas políticas
petista, além dos desajustes gerados no próprio esforço de longo não muito articuladas e focadas predominantemente na
prazo de construção e consolidação partidárias, pode causar personalidade da candidata, em detrimento dos programas do
problemas para uma eventual continuidade do projeto petista no partidos que compunham a coalizão, confirmaram alguns dos
poder no processo sucessório em 2010. prognósticos acima.

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V) Cenários prováveis e possíveis plataforma “desenvolvimentista”, inclusive com


desdobramentos. tinturas nacionalistas (corrente
Bresser/Nakano)28. Entretanto, deve ser
considerado aqui como fator capaz de reverter
Pois bem. Tendo em vista as três essa tendência o amplo apoio dado ao campo
alternativas abertas acima para o eleitorado neoliberal pela grande mídia conservadora e por
brasileiro nas últimas eleições, podemos alguns dos setores mais poderosos do
colocar as perguntas fatídicas que, como empresariado brasileiro, sempre dispostos a
analistas de conjuntura, não podemos nos alocar recursos para tentativas de
furtar a, pelo menos, formular de maneira desestabilização de governos de partidos de
explícita: E daí? O que fazer? esquerda.29
Como dito acima, de nossa perspectiva Cenário 2: A organização de um novo
o aspecto mais interessante do atual cenário é (embora pequeno) partido de esquerda de
a abertura da possibilidade de um novo ciclo massas. Outro cenário possível resultante das
organizativo na esquerda brasileira, que eleições de outubro de 2006 é a organização de
redunde na criação de novas legendas um novo partido social-democrata de esquerda,
partidárias que mantenham acesas a “utopia” que ocupe o espaço político deixado vazio pela
da implantação de um Estado de Bem-Estar guinada ao centro do governo Lula, e
em países da periferia do capitalismo, projeto arregimente organizacionalmente setores
que parece ter sido definitivamente sepultado desencantados da classe média democrática e do
pelos petistas, mesmo como horizonte de campo político democrático e popular de uma
longo prazo27. A partir desta constatação, maneira geral. Entretanto, tal possibilidade se
podemos traçar alguns cenários possíveis de depara com vários obstáculos, dos quais
serem concretizados como conseqüência dos devemos destacar os seguintes: (i) o “proto-
eventos ocorridos no último pleito eleitoral: populismo” da própria candidata Heloísa
Cenário 1: Volta da grande burguesia Helena, que “personalizou” a campanha
“associada” ao poder, ocasionada pela eleitoral e adotou um estilo de liderança que não
(pouco provável) vitória eleitoral de um 28 Diga-se de passagem que, no segundo turno das eleições, os
candidato da coligação PSDB-PFL bem como eleitores agiram racionalmente ao tratar tais propostas como
das forças sociais que lhe dão apoio. Podemos “promessas pouco críveis”, credibilidade esta que só diminuía a
considerar este um cenário pouco provável no cada “pronunciamento” de economistas peessedebistas mais
ortodoxos, ao que parece ainda hegemônicos no interior do
curto prazo devido à força de penetração do partido(Nota de outubro de 2006). Por outro lado, a consagradora
Bolsa Família e do impacto que esta vitória eleitoral do candidato Lula no segundo turno das eleições
parece ter provocado uma reavaliação estratégica e um
penetração gerou nas estratégias eleitorais do reposicionamento nesse campo político, com o enfraquecimento
neoliberalismo “associado”, desgastando a de seus setores mais conservadores, e o fortalecimento dos
antiga estratégia de jogar os pobres contra os segmentos que preconizam a adoção de uma estratégia de “longo
prazo” para as eleições em 2010, através do patrocínio de uma
remediados para dar um certo tom igualitário candidatura de perfil mais “desenvolvimentista”. (Nota de
às chamadas “reformas pró-mercado”. Como dezembro de 2006).
foi dito acima, devido à perda da base de 29 O caso da Venezuela pode ser tomado como uma advertência
massas entre os setores mais pobres da de que tentativas de golpe de Estado patrocinadas por setores do
grande empresariado, associados ao imperialismo norte-americano,
população, o campo político conservador ainda são uma possibilidade bastante palpável nas democracias
focou seu discurso eleitoral no combate à latino-americanas que, diga-se de passagem, só estão
“corrupção” e em um pouco convincente (a “consolidadas” para os espíritos de um otimismo quase
panglossiano. Afinal, o teste definitivo para a “consolidação” das
lembrança dos anos FHC ainda está viva no democracias capitalistas não é a mera subida ao poder de partidos
eleitorado e em importantes setores de esquerda e a consagração do “princípio da alternância”, mas sim
o término de gestões de esquerda que implementem políticas
empresariais) ensaio de retomada da efetivamente redistributivas, contra as resistências inclusive de
poderosos segmentos da classe dominante e da burocracia de
Estado. Desde Lipset pelo menos sabemos que muito dificilmente
27A expectativa é a de que os próximos Congressos do partido há estabilidade e consolidação democráticas com a manutenção de
definam-se com mais clareza a respeito de todos estes pontos desumanos níveis de desigualdade social tais como os atualmente
programáticos. vigentes nos países da América Latina.

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contribui para esclarecer aos “eleitores” que a aprofundem a democracia e aumentem a


principal “tarefa” da esquerda no momento é universalização dos direitos e a qualidade de
organizar um partido com representação vida das classes trabalhadoras). Além disso, o
parlamentar que, ao manter acesa a “utopia” surgimento de pelo menos duas candidaturas
de instauração de um WS no Brasil, possa competitivas do campo político conservador à
fazer uma crítica de esquerda consistente ao sucessão de Lula que preconizam de maneira
PT (muito diferente do chamado “apoio mais explícita estratégias
crítico” de agremiações atreladas ao governo “desenvolvimentistas”, age como fator de
Lula) e dinamizar a politização ou a chamada pressão nesse sentido.
“consciência cívica” das classes trabalhadores; Entretanto, a natureza dos compromissos
(ii) muitos setores que poderiam se constituir
assumidos durante a campanha eleitoral e a
em base social para o PSOL se encontram configuração futura do novo quadro partidário,
devidamente “enquadrados” dentro no PT, em
fazem com que isso seja pouco provável. O
grande parte na expectativa de que o governo
mais provável é que o PT forme uma coalizão
Lula dê uma “guinada à esquerda” em seu de “centro-esquerda” com o PMDB (este
segundo mandato. fortalecido na próxima legislatura) e outros
Essa possibilidade de instauração de partidos de centro, e continue a implantação de
um pluralismo político partidário da esquerda sua plataforma “social-liberal”, com reforma
reformista no Brasil atual, a meu ver, é o trabalhista, da previdência, ajuste fiscal (com
ingrediente mais interessante da presente manutenção das metas de superávit primário e
conjuntura30. de inflação), mas sem grandes cortes no gasto
público da magnitude da proposta pela
Cenário 3: Perspectivas do segundo
“burguesia associada” e de seus dirigentes
mandato Lula. Indo direto ao ponto: poderá o
governo Lula dar uma eventual “guinada à políticos. O que abre espaço  caso essa
esquerda” em seu segundo mandato? Deve-se hipótese se concretize, ou seja, de
observar inicialmente que a organização do aprofundamento da implantação de um
PSOL e de uma “oposição de esquerda” programa “desenvolvimentista social-liberal”
minimamente articulada, mesmo com todas as moderadamente redistributivo e mais sensível
deficiências ideológicas e organizativas que aos comandos do capital bancário brasileiro no
poderiam ser apontadas sem dificuldades nesta segundo mandato Lula, que entre em confronto
agremiação, age como um elemento de com interesses corporativos de setores
pressão nesse sentido, na medida em que a organizados das classes trabalhadoras  para
mera existência e presença na cena política de novas cisões no PT e para a incorporação destes
mais uma organização independente de segmentos no PSOL (na hipótese desse partido
esquerda, embora frágil, competindo com o PT apresentar uma proposta programática
em nome de suas bandeiras programáticas alternativa e consistente em seus próximos
“originárias” de instauração de um Estado de congressos, e não servir apenas de suporte
Bem-Estar, pode agir como fator de eleitoral para candidaturas personalistas),
“dissuasão” para políticas mais conservadoras processo este que pode gerar “feedbacks” na
e de pressão para políticas econômicas e própria dinâmica interna do governo petista e do
sociais mais “à esquerda” (i. e., que próprio partido.
Tudo dependerá do perfil do novo
30 Isso porque, de nosso ponto de vista, ainda não estão governo Lula e aos comandos de quais forças
presentes, no atual estágio de desenvolvimento político
capitalista da sociedade brasileira, as condições necessárias para a
sociais obedecerá a agenda a ser apresentada e
organização de Partidos Comunistas Democráticos de massa, implementada por tal governo. Assim, devemos
que coloquem como meta de curto e médio prazos a aguardar o anúncio da nova equipe
implantação de um verdadeiro sistema social socialista, que não
deve ser confundido, diga-se de passagem, com alguma das governamental e das primeiras medidas de
múltiplas variantes do capitalismo de Estado travestidas de política econômica e social do segundo
“socialismo real” que foram implantadas em determinados mandato, para pronunciamentos mais
países da periferia do Capitalismo ao longo do século XX.

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fundamentados sobre as diretrizes deste esquerda capitalizem o descontentamento


governo, bem como para uma avaliação dos popular contra os próprios governos de
impactos de tais diretrizes no sistema de esquerda.
posições relativas que hierarquiza os vários
O exemplo recente da vitória eleitoral do
estratos sociais da sociedade brasileira.
Partido da Refundação Comunista na Itália,
Uma inferência geral que talvez se assim como de outras tentativas de organização
possa fazer da análise acima é a de que os partidária nos países capitalistas centrais, pode
partidos de esquerda não podem se converter ser um indicador de que essa última alternativa
em meras “correias de transmissão” dos  ou seja, a possibilidade de um novo ciclo
governos, pois isso tem impactos bastante organizativo de esquerda nas sociedades “pós-
negativos sobre a organização popular e a queda do muro de Berlim”  não seja tão
militância política (OLIVEIRA, 2006). A inviável e “utópica” como pretendam as visões
evidência mais palpável desses impactos mais pessimistas sobre o futuro da organização
talvez tenha sido o baixo grau de de partidos de esquerda de massas no atual
envolvimento e reduzida motivação da estágio do desenvolvimento político capitalista.
militância de esquerda (ou do que restou dela), Não pode ser também inteiramente descartada a
inclusive do próprio PT, nas últimas eleições hipótese de que, nas próximas décadas, tal ciclo
(especialmente no primeiro turno), com organizativo se articule a processos bem-
poucos adesivos no carro e fraca campanha sucedidos de implementação de modelos
eleitoral “militante” e boca-a-boca, fato que “nacional-democráticos” de desenvolvimento
não deve ser imputado apenas à restritiva e capitalista em países da periferia do
casuística “Lei Bornhausen” que regulou o Capitalismo, de preferência que redundem na
pleito eleitoral. implantação de “welfares states” sob a
Há duas formas de equacionar esses hegemonia de partidos de esquerda nessas
problemas, ou seja, da despolitização das formações sociais. A ver.
classes trabalhadoras, do eleitorado, da
militância e dos simpatizantes de uma maneira
geral pelo fato dos partidos de esquerda, em Apêndice: nota sobre o segundo turno
nome da “governabilidade” e da “estabilidade” [opcional; pode ser suprimido]
do sistema político democrático, se
converterem em porta-vozes de políticas
A respeito do segundo turno das
governamentais conservadoras implementadas
eleições, gostaríamos apenas de destacar os
por um Estado capitalista, e serem envolvidos
seguintes aspectos:
pelas dimensões mais obscuras do
funcionamento de uma democracia 1) Os resultados do primeiro turno das
parlamentar capitalista: (i) dinamizar a luta eleições presidenciais evidenciaram que as
interna dos partidos, evitando que os setores novas correntes de esquerda em estágio inicial
da agremiação que estão no governo de organização ainda têm muito a aprender
controlem rigidamente ou tenham a sobre o uso estratégico das decisões de voto em
hegemonia estrita da organização, eleições majoritárias de dois turnos nas
obstaculizando a estratégia de longo prazo de democracias capitalistas dita "representativas".
fortalecimento partidário, coisa que ocorreu A literatura especializada tem chamado a
em raras ocasiões do governo petista, pois o atenção para o fato de que, falando de uma
partido tendeu a se converter num porta-voz maneira geral, os sistemas majoritários (de um
do governo, exceto no tocante à reivindicação ou dois turnos) são bastante desfavoráveis para
de cargos nos escalões superiores da a organização de partidos de esquerda “radicais”
administração; (ii) engajar-se num processo de (social-democratas de esquerda; socialistas;
organização partidária alternativa que comunistas). Autores "liberais", tais como M.
possibilite que setores não-governamentais da Duverger e Giovanni Sartori, consideram
que tais modalidades de organização das

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eleições são as mais desfavoráveis à esquerda, daí que alguns deles optem sistematicamente
devido às concessões programáticas por realizar coligações com outros partidos
envolvidas nas negociações para a viabilização como estratégia para fortelecer a representação
eleitoral dos partidos de esquerda num pleito parlamentar de suas agremiações (na esquerda
majoritário de dois turnos, o que implica a brasileira o caso clássico é o do PCdoB, por
descaracterização programática de tais exemplo); (ii) os candidatos a cargo majoritário
partidos e sua assimilação enquanto “partidos realizam campanhas eleitorais à moda proto-
da ordem”. Daí que defendam esse sistema populista ou ao estilo do "bonapartismo soft"
eleitoral como forma mais eficaz de inibir a (para usar a expressão empregada pelo filósofo
organização de "partidos anti-sistema". italiano Domenico Losurdo, 2005),
Apesar dos resultados eleitorais personalizando o pleito eleitoral (estratégia
indicarem uma derrota dos setores mais empregada sistematicamente pelo PDT de
combativos da esquerda nas recentes eleições Brizola, por exemplo), em detrimento da
parlamentares, não somos tão pessimistas. necessidade de uma "luta prolongada" para o
Estudos recentes (MELO, 2005) demonstram fortalecimento do partido e de obtenção de uma
que, falando de uma maneira geral, os poderosa e influente bancada parlamentar, além
partidos que lançam sistematicamente de maior institucionalização das instâncias
candidatos em eleições majoritárias para a deliberativas intermediárias dos partidos
chefia do Executivo tendem a crescer mais (Congressos, encontros etc.).
rápido, e a obterem maiores ganhos políticos Desta perspectiva, a candidata HH,
do processo eleitoral (devido à chamada apesar da significativa votação obtida, a nosso
"conexão com o Executivo"). Embora não ver perdeu uma boa oportunidade de levar
tenha sido exatamente o que ocorreu nas adiante uma estratégia diversa das anteriores no
últimas eleições (devido aos excelentes último pleito eleitoral, ao optar por propagar
resultados eleitorais do PMDB para a Câmara uma espécie de "populismo social-democrata"
dos Deputados que, como se sabe, não lançou em sua campanha eleitoral, de tinturas
candidato presidencial), isso não desmente moralistas despolitizantes ("nenhum
necessariamente a regra geral. É importante compromisso”; uso da camisa branca para
frisar que o sistema eleitoral brasileiro simbolizar a "pureza" etc.), que a levou
apresenta características diferentes de sistemas inclusive a capitalizar votos do eleitorado mais
de dois turnos como o francês, extremamente conservador e sem identidade política
prejudicial aos partidos mais à esquerda, pois substantiva com as propostas do PSOL.
aqui, no Brasil, temos eleições majoritárias de
2) Assim, no segundo turno das eleições,
dois turnos para a chefia do Executivo
são as duas outras alternativas enumeradas
coexistindo com eleições proporcionais para o
acima que estiveram em disputa pelo poder
parlamento. Isso faz com que os partidos de
governamental e pela gestão do poder de Estado
esquerda possam lançar candidatos
nos próximos quatro anos. O surgimento desse
majoritários "puxadores" de voto para
novo quadro no segundo turno gerou, como
fortalecer os partidos em seus estágios iniciais
poderia se esperar, um amplo debate no campo
de organização. O próprio PT dirceuzista
político de esquerda. Dessa perspectiva,
utilizou muito bem tal estratégia, pelo menos
ventilaram-se as seguintes opções para o atual
até uma determinada etapa de seu
momento político.31
desenvolvimento (Cf. SAMUELS, 2004).
a) Em primeiro lugar, a defesa do voto
Entretanto, tal estratégia não funciona
incondicional em Lula com todas as suas
muito bem ou tem pouca eficácia em algumas
implicações: assinaturas de “manifestos”,
circunstâncias, tais como: (i) quando
os partidos não possuem fortes candidatos
"puxadores de voto" às eleições majoritárias e 31Estas informações foram extraídas do informativo site da Ação
Popular Socialista: http://www.acaopopularsocialista.org.br/
conhecidos em toda a circunscrição eleitoral,

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atribuir a Lula o status de "única alternativa lideranças petistas, sobre temas de sua agenda
possível" de esquerda etc. Tal posicionamento, política. Preconiza também que, qualquer que
expresso por movimentos sociais como o seja o perfil do segundo governo Lula, deve-se
MST, lideranças tais com Stédile, partidos permanecer no projeto de criar e/ou fortalecer
como o PCdoB e por alguns segmentos da organizações e partidos de esquerda, mais
esquerda que votaram em HH no primeiro próximos aos movimentos sociais, sem colocar
turno, implica numa aceitação algo acrítica do como meta primária de curto prazo a ocupação
"lulismo", ou seja, do mezzo-populismo de cargos governamentais ou a vitória a
social-liberal. qualquer preço em eleições majoritárias
b) Em segundo lugar, foi manifestada a despolitizadas e organizadas em fracas bases
partidárias.
proposta de "lavar as mãos" e de omitir-se
quanto a qualquer declaração formal de voto. Em suma: de todas as opções
Trata-se da posição de Luciana Genro, da enumeradas acima, é provável que esta última
direção do PSOL e da própria HH. Também seja a opção logicamente mais consistente e que
pouco contribui para a politização da esquerda possibilitasse maiores ganhos políticos, do
e para o acúmulo de forças das "alternativas" ponto de vista do campo político de esquerda
(partidárias) de esquerda, pois optaram por como um todo (fora e dentro do governo), por
permanecer inermes em relação ao processo e motivos que talvez possam ser deduzidos pelo
tendem a ser instrumentalizados pela direita. leitor atento das considerações feitas neste texto.
c) Voto Condicional. Postura do PCB e
esquerda do PDT, ao menos num primeiro
Referências bibliográficas:
momento. Esses setores parecem alimentar a
expectativa de que o governo Lula possa, de
maneira espontânea, atender a algumas das ALTHUSSER, L. (1978). Sobre o trabalho
reivindicações do campo democrático-popular teórico; dificuldades e recursos. Lisboa:
e dar uma “guinada à esquerda” no segundo Presença.
mandato, de certa forma legitimando a idéia de
ALVES, J. E. D.; FAVERSANI, F. (2002).
setores que optaram por ocupar cargos
Análises de conjuntura: globalização e o
governamentais, segundo os quais o governo
segundo governo FHC. Ouro Preto:
Lula seria um "governo em disputa", e de que
Revista Escola de Minas.
possa mudar de rumo e atender a certas
reivindicações substanciais dos trabalhadores AMORIN NETO, O. (2006). Presidencialismo
sem pressão externa. e governabilidade nas Américas. Rio de
Janeiro: Fundação Getúlio Vargas.
d) Voto Nulo. PSTU. Duarte Pereira.
A premissa (equivocada) comum a estas ARON, R. (1968). A revolução inexistente;
posições parece ser a de que as candidaturas reflexões sobre a revolução de maio.
Alckmin e Lula representaram forças Lisboa: Livraria Bertrand.
basicamente idênticas, sem diferenças BEETHAM, D. (1979). Max Weber y la teoria
substanciais entre si. politica moderna. Madrid: Centro de
Estudios Constitucionales.
e) Voto Crítico. Consideram que,
mesmo que o perfil do governo Lula se BETTO, F. (2006). A mosca azul; reflexões
mantenha semelhante ao primeiro mandato, sobre o poder. Rio de Janeiro: Rocco.
trata-se de uma alternativa mais progressista BOITO JR., A. (1982). O golpe de 1954: a
do que o retorno do campo político burguesia contra o populismo. São
conservador ao comando do aparelho de Paulo: Brasiliense. (Tudo é História.) v.
Estado. Tal perspectiva impôs "condições" ao 55.
governo Lula, mas sem esperanças de serem
de fato atendidas, apenas para marcar posição
e pressionar manifestações públicas das

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BOITO JR., A. (2005). A burguesia no www.rebelion.org/, 2002. Texto


governo Lula. Crítica Marxista, São consultado do site www.rebelion.org
Paulo, v. 21, p. 52-76, nov. . (2002/08/09).
BOITO JR., A. (2005). O governo Lula e a KASSAB, A. & REIS, F. W. (2004). A cena
reforma do neoliberalismo. Revista política vista por Fábio Wanderley Reis
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