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Adília Lopes

Poemas para reler Fernando Pessoa

A obra de arte
não é ajuste
de contas
é um ajuste
de cantos

ADÍLIA LOPES

Inimigo Rumor – A bem de uma apresentação prévia, pode dizer-nos quem é Adília
Lopes? E como se dá com Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira?
Adília Lopes – Adília Lopes e Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira são uma e
a mesma pessoa. São eu. Como uma papoila é poppy. E muitos outros nomes que eu não
sei. A Adília Lopes é água no estado gasoso, a Maria José é a mesma água no estado
sólido. Eu sou uma mulher, sou portuguesa, sou lisboeta, sou poetisa, sou linguista (todos
somos), sou física, sou bibliotecária, sou documentalista, sou míope, tenho quase 41 anos
(nasci a 20 de Abril de 1960), sou solteira, não tenho filhos, sou católica, tenho os olhos
castanhos, meço 1,56 m, neste momento peso 80 Kg, uso o cabelo curto desde 1981, o
cabelo é castanho escuro com muitos cabelos brancos. Sou etc., etc.
Inimigo Rumor, n. 10, mai. 2001, p. 18-19.

Eu sou a luva
e a mão
Adília e eu
quero coincidir
comigo mesma

(Sete rios entre campos [1999], 2014, p. 335)

Sou, logo sou


(um texto
é um rosto
um rosto
é um texto)

(A mulher-a-dias [2002], 2014, p. 476)

SOBRE O MEU NOVO LIVRO DE POEMAS


(Setembro de 2001)

(...)
A mulher-a-dias sou eu, é qualquer pessoa. Nos últimos dez anos os meus poemas
tornaram-se mais secos, mais pobres e, ao mesmo tempo, mais exuberantes, luxuriantes
e corajosos. Os meus poemas são como puzzles – cada verso, cada palavra é uma peça.
Pela disposição na página e pela sua feitura cada poema é uma trança ou uma tripa. Não
me contento com pouco, só me contento com tudo, com o todo. Ou, como dizia S.
Francisco de Assis (cito de cor), preciso de pouco e, desse pouco, preciso de muito pouco.
É o que tenho a dizer sobre estilo. De resto, os meus textos são políticos, de intervenção,
cerzidos com a minha vida.
(...)

(A mulher-a-dias [2002], 2014, p. 443)

4 POEMAS

(...)

O verso vem
conforme a vida
que se tem
(lembrado de Alexandre O’Neill)

(...)

(Café e caracol [2011], 2014, p. 666)

Que a obra
não se oponha
à vida

Que a obra
e a vida
sejam uma

O texto nu
e cru
do autor

O rosto nu
e cru
do autor

(Poemas novos [2004], 2014, p. 546)


A poetisa
não é
uma fingidora

Mas
a linguagem-máscara
mascara

(Le vitrail la nuit • A árvore cortada [2006], 2014, p. 572)

Um espelho
não é
uma janela

Um espelho
não é
um quadro

Quem espreita
por meus olhos
no espelho
sou eu

E eu
sou eu

Não há
enigmas

(Le vitrail la nuit • A árvore cortada [2006], 2014, p. 578)

Preciso que
me reconheçam
que me digam Olá
e Bom dia
mais que de espelhos
preciso dos outros
para saber
que eu sou eu

(Sete rios entre campos [1999], 2014, p. 343)


Escrevo
como quem desenha
à vista
sem inventar

(Café e caracol [2011], 2014, p. 658)

Não escrevo para me dizer. Escrevo para fazer inscrições, desenhos.

(Café e caracol [2011], 2014, p. 662)

Faço crochet
o crochet faz-me
e nisto me desato

(Os 5 livros de versos salvaram o tio [1991], 2014, p. 160)

Sou e estou. Eu sou eu e a minha circunstância como disse Julio Iglesias. Eu não
sou eu. Eu sou aquela que não sou. Não, que disparate, eu sou eu. Já morremos todos e já
ressuscitámos todos. Agora há que viver a vida.
O Diabo é aquele que diz «Eu sou aquele que não sou». Sou eu às vezes.

(Irmã barata, irmã batata [2000], 2014, p. 419)

ANONIMATO E AUTOBIOGRAFIA

1
Um escritor de romances escabrosos
(o seu tema predilecto foi a relação incestuosa
entre três irmãos)
decidiu permanecer anónimo
não por ter vergonha de assinar romances escabrosos
mas para tornar ainda mais escabrosos os romances
assim os leitores suspeitavam que os romances eram autobiográficos
e se ele os assinasse com o seu nome
os leitores ficavam a saber que ele era um filho único
é claro que como filho único
vivia fascinado pelo incesto entre dois irmãos
que inspirou Chateaubriand
(e não podia perceber o aforismo de Joyce
é tão fácil esquecer um irmão como um guarda-chuva)
mas mesmo que se considere como eu
que a leitura de um livro pode ser tão importante
na vida de uma pessoa
como ter um irmão
dois irmãos não são três irmãos

2
Um poeta assinava os poemas com o seu nome
mas um romance por ser autobiográfico
assinou com um pseudónimo pouco banal
contava no romance (e foi isto que o levou
a decidir-se por um pseudónimo)
que comia ao pequeno-almoço
alheiras às rodelas com salada de tomate
no supermercado quando pediu à empregada
da charcutaria às 8h30 da manhã duas alheiras
a empregada perguntou-lhe se ele tinha escrito
As singularidades de Carolina (era o nome do romance)
ele ficou tão embaraçado que pediu à mãe
para ser ela a comprar as alheiras e os tomates
mas quando a mãe chegava ao lugar da hortaliça
com um saco de plástico cheio de alheiras
o indiano do lugar perguntava-lhe logo
se ela tinha escrito As singularidades de Carolina

3
Um terceiro escritor escreveu uma autobiografia
em que se limitou a contar
que ao pequeno-almoço bebia café com leite
e comia pão com geleia de laranja
assinou a autobiografia com o seu nome
e nenhuma empregada de supermercado
o importunou
mas depois de ter o livro publicado
sempre que bebia café com leite e comia pão com geleia de laranja
ao pequeno-almoço
sentia-se mal como se estivesse num palco ou num circo
a ter de beber café com leite e a ter de comer pão com geleia de laranja
diante de olhos que abolem a privacidade
e por se sentir assim passou a comer flocos de aveia

(Os 5 livros de versos salvaram o tio [1991], 2014, p. 153-154)



Os poemas que escrevo


são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são as águas passadas

(Um jogo bastante perigoso [1985], 2014, p. 25)



QUADRA JÁ ANTIGA

A rapariga que esperava muito


as cartas do namorado
que lhe escrevia muito pouco
casou-se com o carteiro

(A pão e água de colónia [1987], 2014, p. 66)

UMA AFIRMAÇÃO DE PESSOA SOBRE MILTON

Não escrevia Milton um verso


sem que o fizesse como se desse verso
dependesse toda a sua fama futura
ela não escrevia um verso

Ela não era Milton

Para poder dizer isto


tinha-lhe sido preciso ler Milton
estudar mais inglês para ler melhor Milton
tentar traduções de Milton e rasga-las
tentar parafrasear Milton para o comentar
e desistir de o ler
a preocupar-se com Milton
deixou de se preocupar com os seus versos
que ficaram numa lata de bolachas
e ainda lá devem estar
podia ter ido para a província
dar lições particulares de inglês
não diria uma palavra sobre Milton
mas as crianças haviam de repetir
até terem os olhos encarnados
How do you do? What’s the weather like today?
mas subitamente começou a dar erros de ortografia
deixou de escrever
versos já não escrevia há anos
mas cartas para recomendar criadas
ainda ia escrevendo
mas a uma criada perguntaram
ao ver a carta de recomendação
se ela tinha trabalhado para uma criada
(a criada ficou fula)
então ela passou a esfregar o chão
numa casa de passe
esfregava o chão lavava as paredes
fazia as camas da casa de passe
sem dizer uma palavra
(se abria a boca gaguejava)
como se chama? Um gato comeu-lhe a língua?
perguntavam-lhe os clientes e as prostitutas da casa de passe
quando se lembrava de Milton (mas era raro)
achava os clientes e as prostitutas da casa de passe
mais afáveis do que Milton

(O decote da dama de espadas [1988], 2014, p. 131-132)

O CORAÇÃO EM EFÍGIE

No meu lenço de assoar


minha tia-avó bordou
um coração
a ponto de cruz
e a encarnado

Minha senhora
de que lhe serve um lenço de assoar
no labirinto de Creta?
de muito
de tanto quanto um comboio de corda

(Os 5 livros de versos salvaram o tio [1991], 2014, p. 156-157)

«pega tu nelas»
RICARDO REIS

Mão morta vai bater àquela porta


as rosas amo dos jardins de Adónis
ao escrever
é preciso reconciliar uma lebre
com uma tartaruga
oh como era lebre a tartaruga!

*
Mas porque será sempre Lídia
a pegar nas rosas
Dr. Ricardo Reis?

(Os 5 livros de versos salvaram o tio [1991], 2014, p. 163)

I
Não há mais
mundos
este chega
e sobeja

O fruto proibido
era a cereja

O Eden fechou
para mudança
de ramo

Não estás comigo


no jazigo

II
Todo os poetas
têm uma arca

Todos os poetas
têm uma arca
frigorífica

A arca de Pessoa
era frigorífica

A de Noé não
graças a Deus

(Clube da poetisa morta [1997], 2014, p. 293-294)

I
Nau preta

«Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)


Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer»

ÁLVARO DE CAMPOS, «Ode triunfal»


(Epígrafe de Sete rios entre campos [1999], 2014, p. 317)

1
(anti-Camões)
É bom
tu não seres
eu
é bom
eu ser eu
e tu seres tu

A madrugada
não separa
o amado
da amada
não separa
nada

Que o livro
vá por
água abaixo
mas que maridos
me aconteçam

2
(anti-Ricardo Reis)
O rio
é bom
para nadar
e as flores
para dar
o resto
são cantigas
casa-te com Lídia
tem bebés
passa a lua-de-mel
na Grécia

3
(pró-Meendinho)
Na ermida
de São Simeão
dar-te-ei
a minha mão
meu barqueiro

(Sete rios entre campos [1999], 2014, p. 359-360)


para a Elisabeth Passinhas

A andar a pé
o meu poema
escreve-se
na cabeça
sentada
escrevo o meu poema
no papel
com o coração e o estômago
sossegados

(Versos verdes [1999], 2014, p. 388)

«Pagã triste e com flores no regaço»


RICARDO REIS, «Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio»

Cristã triste
e sem flores
no regaço

Cristã triste
e cem flores
no regaço

(César a César [2003], 2014, p. 520)

Não gosto
de desgostar

Gosto
de gostar
de gostar

Gosto
de Fernando Pessoa
e de Irene Lisboa

(Poemas novos [2004], 2014, p. 531)

PRAZENTEIRA

Fernando Pessoa escreveu


gostava de gostar de gostar
eu gosto de gostar
tenho sorte

(Andar a pé [2013], 2014, p. 672)

O rio deve ir dar ao mar


mas a vida não deve dar toda
em poema
o poeta é aquele que mata
duas vezes
o mesmo coelho
o coelho comido
é o coelho escrito
o salto do coelho não lhe basta
precisa de caçar
duas vezes
o coelho
come o coelho
com uma infusão de tília
e regressa ao futuro
a lembrar Chardin
e a tia Idalina
mas que o sangue do coelho
não manche o espólio do poeta
o coelho sentido foi comido
o coelho fingido és tu
e assim no comboio eléctrico
do meu irmão João
anda o laparoto
a múmia
isto é a minha vida
isto é um conto de Lucy Ellmann
mas o caçador
abstém-se de caçar o coelho
e deixa de haver literatura
beijo-te as orelhinhas encaroçadas, Rabujo.

(Os namorados pobres [2009], 2014, p. 626-627)

1
Inclina-se mais
a fálica a feminina
torre de Pisa
continua a escrever
a poetisa (uma poetisa)
problema de estética
problema de estática

2
As flores do maracujá
as testemunhas de Jeová
o brouhaha o zumbido
do mundo
(o Apocalipse
é só um eclipse)

A pesada a pura
poetisa (a torre de Pisa)
não cai

Pelo chão
rolam os céus
(os nenúfares
os açúcares)

«Havia até um seu “outro eu” feminino: a corcunda e perdidamente


enamorada Maria José.» (Richard Zenith, Fernando Pessoa: o poeta
dos muitos rostos)

(Os namorados pobres [2009], 2014, p. 637-638)

GLOSAS PARA O JOÃO DIONÍSIO

I
Assim o Minotauro
longo tempo latente
salta
sobre a nossa vida
de repente

(Quipu peruano
e rosário de Fátima
adiados sine die)

II

«Somos contos contando contos, nada.»


RICARDO REIS

Se somos contos
contando contos
e contas
somos o quipu peruano
e o rosário de Fátima
alguma coisa
portanto
e de alguma coisa
fica alguma coisa
como Lavoisier inventou
(mas parece que se enganou)

(Sete rios entre campos [1999], 2014, p. 345)

Custa-me
contar
de contas
e de contos

(Manhã, 2015, p. 31)

«Alli não havia electricidade.


Porisso foi á luz de uma vela mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava à mão para ler –
A Bíblia, em portuguez, porque (coisa curiosa) eram protestantes.»
Álvaro de Campos

Neste poema de Fernando Pessoa


electricidade rima com caridade

3/5/15

(Bandolim, 2016, p. 44)

(Bandolim, 2016, p. 210)

PESSOA E O BINÓMIO DE NEWTON (à suivre)


As Vénus esteatopígias pré-históricas
são tão belas como a Vénus de Milo
o que há é pouca gente para dar por isso
ainda haverá alguém?
há muito que a Humanidade pirou
neste tempo de vacas magras
até a Vénus de Milo é uma gorda obesa
uma criminosa
a precisar de banda gástrica
e de xilindró

30/12/15

(Bandolim, 2016, p. 211)

A minha pátria é a língua portuguesa, escreveu Fernando Pessoa.

Faço amor em francês, insulto em russo, trato dos negócios em inglês,


escreveram Sacha Guitry e Nabokov.

20/12/15

(Z/S, 2016, p. 15)

Como a família é verdade!

FERNANDO PESSOA

Como a família é mentira.

(Z/S, 2016, p. 106)

Escreve poemas, pequena


escreve poemas
e come chocolates
e que os poemas
sejam como chocolates

«Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.»


Fernando Pessoa

(Estar em casa, 2018, p. 74)




A minha Musa antes de ser


a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra

(A pão e água de colónia [1987], 2014, p. 62)

Escrever poemas é bom, pode ser. Comecei a escrever poemas aos 10, 11 anos.
Voltava da escola no segundo andar do autocarro da Carris e apetecia-me escrever sobre
o que via. Os sinais de trânsito eram chupa-chupas, os semáforos tinham cores de
rebuçado. Nunca gostei de chupa-chupas nem de rebuçados mas achava que ficava bonito
numa redacção escolar escrever estas coisas. Dava-me prazer escrever assim e achava que
estava certo o que escrevia. As professoras gostavam muito das minhas redacções, tinha
muito sucesso.
Comecei a ouvir a Musa quando ia fazer 23 anos. Antes não ouvia a Musa. Eu sei
que falar assim parece banha da cobra. Mas não é. Já contei isto muitas vezes. A minha
gata tinha desaparecido, eu estava muito triste, aflita. De repente na minha cabeça estava
um poema sobre a gata. Peguei no caderno e na esferográfica e escrevi. Ouvir a Musa não
é só ter prazer em escrever, ter vontade de escrever, ter ideias ou imagens como eu tinha
aos 11 anos. É aparecer o texto na cabeça vindo não sei de onde. E a minha gata apareceu.
Não são os textos que me interessam, quero lá saber da Musa. Quero é a gata, o afecto, a
vida, a gata.
Ouvir a Musa é desgastante, um frenesi. Volto a escrever como aos 11 anos,
quando andava no segundo andar do autocarro da Carris. Tenho 60 anos adolescentes.

7-VI-2020

(Dias e dias, 2020, p. 55)

POESIA E GESTÃO

Para mim poesia é gestão. Sou uma empresária de sucesso. A marca Adília existe
no mercado desde 1984. Estamos em 2016. Existe a marca Adília como existe a marca
Chanel. Perfumes e versos eficazes e eficientes. Tenho um nicho de mercado. Nos anos
60-70 estavam na moda os nichos dentro de casa, os nichos nos nichos. Punham-se lá
umas loiças de Cantão e uns santos de pau santo. Sou um caso de empreendedorismo. O
ambiente foi sempre turbulento, o meu aerodinamismo teve de ser muito. Agora que é a
tempestade perfeita é a bonança perfeita, disse João Miguel Tavares. É tudo uma questão
de gestão. Marketing. Timing. Zeitgeist. Weltanschauung. Sturm und Drang. Trauma.
Chanel n.º 19.

28/1/16

(Z/S, 2016, p. 74)



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