Você está na página 1de 1

A cidade de Cloé

Mas, talvez, em lugar da total destruição da experiência reclamada por Agamben,


estejamos vivenciando hoje um processo, uma busca hegemônica, de esterilização da
experiência, sobretudo da experiência da alteridade na cidade. O processo de
esterelização não destrói completamente a experiência, ele busca sua captura,
domesticação, anestesiamento. A forma mais recorrente e aceita hoje desse processo
esterilizador faz parte do processo mais vasto de espetacularização das cidades e está
diretamente relacionado com a pacificação dos espaços urbanos, em particular, dos
espaços públicos. A pacificação do espaço público, através da fabricação de falsos
consensos, busca esconder as tensões que são inerentes a esses espaços e, assim, procura
esterilizar a própria esfera pública, o que, evidentemente, esterilizaria qualquer
experiência e, em particular, a experiência da alteridade nas cidades.
(JACQUES, p. 14)

A radicalidade desse Outro urbano se torna explícita sobretudo nos que vivem nas ruas
– moradores de rua, ambulantes, camelôs, catadores, prostitutas, entre outros – e
inventam várias táticas e astúcias urbanas em seu cotidiano. Elogio.indb 15 11/4/2012
16:06:47 16 | Elogio aos errantes paola berenstein jacques Aqueles que a maioria
prefere manter na invisibilidade, na opacidade e, que, não por acaso, são os primeiros
alvos da assepsia promovida pela maior parte dos atuais projetos urbanos espetaculares,
pacificadores, ditos revitalizadores. E são precisamente esses outros urbanos radicais
alguns dos principais personagens das narrativas errantes, pois seria precisamente essa
possibilidade de experiência da alteridade urbana nos espaços banais que os errantes
urbanos buscariam em suas errâncias pelas cidades.

A multidão é seu universo, como o ar é o dos pássaros, como a água, o dos peixes. Sua
paixão e profissão é desposar a multidão. Para o perfeito flâneur, para o observador
apaixonado, é um imenso júbilo fixar residência no numeroso, no ondulante, no
movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa, e contudo sentir-se em casa
onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto
ao mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes,
apaixonados, imparciais, que a linguagem não pode definir senão toscamente. O
observador é um príncipe que frui por toda parte o fato de estar incógnito. (Charles
Baudelaire, O pintor da vida moderna, original de 1863, publicado no jornal Le Figaro )