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Resenha: Falso brilhante, de Elis Regina

Francis Beheregaray

Brilhante. Um diamante lapidado. Talvez fosse essa definição que a


chamada pimentinha quisesse fugir ao apresentar Falso brilhante, que pode ser
avesso à essa lapidação tanto ideológica quanto da indústria. Contestadora,
percebe-se em diversas falas o questionamento à indústria fonográfica da
época por meio de opiniões contundentes, como no programa Jogo da
Verdade, da TV Cultura, em 1981, no qual ela critica a prepotência do mercado
fotográfico em buscar reproduzir fórmulas de sucesso exaustivamente e,
muitas vezes, sem deixar fluir a criatividade do artista.
O termo falso brilhante deriva da canção “Dois pra lá, dois pra cá”, de
João Bosco e Aldir Blanc, apresentada em 1974 no álbum Elis e se tornou
tanto título do espetáculo teatral com grande carga autobiográfica, em 1975,
quanto do álbum, em 1976. A peça, ficou mais de um ano em cartaz no Teatro
Bandeirantes, em São Paulo.
“Como surgiu o Falso Brilhante, eu não posso precisar, porque não me
lembro mais. Agora, eu sei que em determinado momento, chegou-se à
conclusão que a melhor coisa a se fazer neste exato momento era ‘denunciar’
a situação do artista brasileiro, do falso brilhante”, disse a intérprete em
entrevista, em 1975, evidenciando as dificuldades também vividas por ela em
busca de posicionar-se carreira musical.
O álbum, gravado no pouco espaço entre as apresentações do
espetáculo, trazia dez canções de compositores que já faziam parte do
repertório da cantora, como os parceiros João Bosco e Aldir Blanc, mas
apresentando outros como Belchior, que posteriormente lançou o consagrado
Alucinação, em contrato com Phonogram/Philips, proporcionado pelo sucesso
das composições apresentadas no disco da cantora, e Thomas Roth,
atualmente produtor musical e jurado de programas de calouros. Já a produção
do disco contou com Marco Mazzola e a direção musical e arranjos de Cesar
Camargo Mariano.
As canções escolhidas para integrar a narrativa do disco expõem em
metáforas ou em trechos muito explícitos o contexto da época, ainda ditatorial,
marcado pela rigidez da censura promulgada pelo Ato Institucional nº 5. As
canções “Los Hermanos”, composição de Atahualpa Yupanqui, e “Gracias a la
vida”, de Violeta Parra trazem a realidade vivenciada também em países
vizinhos, como a Argentina e o Chile, que também viviam períodos ditatoriais,
cotejando com a realidade do nosso país.
A capa do disco, por sua vez, traz uma aura que remete ao espetáculo teatral,
ao usar uma tipografia circense e uma moldura que remete a esse espaço tido
como performático, presente nas canções e na interpretação da cantora, que
usa sua extensão vocal para “gritar” o que não poderia mais ser silenciado
nesse período, como em “Velha roupa colorida”, enquanto trazia a impostação
e suavidade em faixas com críticas e metáforas mais sutis, como em “O
cavaleiro e os moinhos”.
Ao ouvir as faixas é possível formar a imagem e ter a percepção dos
gestos característicos da cantora e perceber, ainda que imaginariamente, uma
atuação, o jeito característico dela se colocar no palco, também como atriz:
porque é quase impossível não sentirmos a expressividade das emoções da
cantora em seu rosto e posicionamento quando assistimos às apresentações
em vídeo.
Falso brilhante talvez não tenha sido mais aclamado álbum da cantora,
mas foi um ponto alto da carreira de Elis ainda muito atual tanto nas
composições quanto na interpretação da obra.

Ficha técnica:

Álbum: Falso brilhante

Ano: 1976

Direção de produção: Mazzola

Direção musical: Cesar Camargo Mariano

Arranjos, teclados e violão: Cesar Camargo Mariano

Bateria, violão e piano elétrico na faixa “Tatuagem”: Nenê

Guitarra, violão e percussão: Wilson

Guitarra, teclado, violão e percussão: Crispim


Técnico de mixagem: Mazzola

Técnico de gravação: Ary Carvalhaes

Layout da capa: Naum Alves de Souza

Capa interna: Aldo Luiz

Arte-final das ilustrações e vinhetas: Nilo de Paula

Fotos: Cristiano Mascaro

Faixas:

1. "Como nossos pais" (Belchior) – 4:21

2. "Velha roupa colorida" (Belchior) – 4:11

3. "Los hermanos" (Atahualpa Yupanqui) – 3:33

4. "Um por todos" (João Bosco/Aldir Blanc) – 2:24

5. "Fascinação (Fascination)" (F. D. Marchetti/Maurice de Féraudy, versão:


Armando Louzada) – 3:01

6. "Jardins de infância" (João Bosco/Aldir Blanc) – 2:49

7. "Quero" (Thomas Roth) – 3:43

8. "Gracias a la vida" (Violeta Parra) – 4:23

9. "O Cavaleiro e os moinhos" (João Bosco/Aldir Blanc) – 2:04

10. "Tatuagem" (Chico Buarque/Ruy Guerra) – 4:21