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APOSTILA ELABORADA PELA EMPRESA DIGITAÇÕES & CONCURSOS

DIDÁTICA DA
MATEMÁTICA
1) A GÊNESE DO NÚMERO
Os pesquisadores da Psicologia Cognitiva também
As crianças e a aprendizagem elaboraram ideias sobre o que é aprender. Eles declaram que
(tópico 1) aprender com compreensão é um processo pessoal, que
acontece dentro da cabeça de cada um. Esse processo exige
Como as crianças aprendem? que o aprendiz pense por si próprio.
Todas ao mesmo tempo? Todas da mesma maneira? Assim, para a Psicologia Cognitiva, simplesmente
Por que aprenderam algumas coisas melhor que outras? receber informações de um professor não é suficiente para
Como ensinar para obter um melhor aprendizado? que o aluno aprenda com compreensão, porque, nesse caso,
a criança fica passiva, não pensa com a própria cabeça.
Essas perguntas são feitas entre os educadores há A Psicologia estudou também quais objetos ou
bem pouco tempo. atividades ajudam a aprender. Ela tem mostrado que o
pensamento e o aprendizado da criança desenvolvem-se
Antigamente, acreditava-se que as crianças ligados à observação e investigação do mundo. Quanto mais
aprendiam apenas recebendo informações de um professor. a criança explora as coisas do mundo, mais ela é capaz de
O professor explicava, ditava regras, mostrava figuras. A relacionar fatos e ideias, tirar conclusões; ou seja, mais ela é
criança ouvia, copiava, decorava e devia aprender. Quando capaz de pensar e compreender.
não aprendia, culpava-se a criança (desatenta, irresponsável) Por exemplo, as crianças que tiveram oportunidade
ou falta de "jeito" do professor. de praticar relações comerciais (compras, pagamentos,
Atualmente existem outras ideias sobre trocas) costumam ser mais capazes de resolver problemas
aprendizagem. Elas são o produto do trabalho de certos matemáticos envolvendo esses assuntos do que crianças que
educadores e psicólogos que têm procurado responder as não tiveram tais experiências.
perguntas apresentadas no início deste texto. O campo de É justamente esta última ideia que tem motivado os
estudo desses pesquisadores chama-se Psicologia educadores a buscarem meios de fazer a criança explorar o
Cognitiva (piscologia é a ciência que estuda o pensamento e mundo à sua volta.
as emoções; a palavra cognitiva refere-se ao conhecimento).
Os conceitos da Psicologia Cognitiva aplicam-se ao A matemática e a necessidade de materiais
conhecimento e à aprendizagem em geral e naturalmente concretos
valem para o conhecimento matemático. Essas ideias não (tópico 2)
negam completamente as ideias antigas sobre o
aprendizado. É possível aprender recebendo informações, No caso da matemática parece ser mais difícil fazer
treinando e decorando regras. Mas, dessa maneira, a a criança explorar o mundo à sua volta, porque as noções
compreensão daquilo que se aprende costuma ser bem matemáticas nem sempre aparecem com clareza nas
pequena. E esta é a diferença: o que se procura através da situações do cotidiano. Por isso, procura-se criar um mundo
Psicologia Cognitiva é favorecer o aprendizado com artificial que facilita a exploração pela criança.
compreensão. Esse mundo artificial é constituído, em grande parte,
A Psicologia Cognitiva fez importantes decobertas por materiais concretos que a criança pode manipular,
sobre o pensamento da criança. Os pesquisadores montar, etc. São objetos ou conjuntos de objetos que
concluíram que: representam as relações matemáticas que os alunos devem
a) crianças pensam de maneira diferente dos compreender. Frisamos que as relações matemáticas não
adultos; estão nos objetos em si. Elas podem se formar na cabeça da
b) cada criança pensa diferentemente de outra; criança, desde que o material seja bem utilizado.
c) o pensamento evolui, passa por estágios; em Exemplos desses materiais concretos são o ábaco e
cada estágio, a criança tem uma maneira especial de o material dourado, que já foram examinados por nós nos
compreender e explicar as coisas do mundo. módulos anteriores. Eles são utilizados na aprendizagem das
Vamos exemplificar esta última afirmação. regras de nosso sistema de numeração e das técnicas
Experimentemos mostrar a uma criança duas bolachas operatórias, temas fundamentais da matemática nas séries
iguais, uma inteira e a outra partida em quatro pedaços. iniciais do 1º grau.
Quase todas as crianças de cinco anos de idade vão dizer Além do ábaco e do material dourado, existem
que as quantidades de bolacha não são iguais. Muitas vão muitos outros materiais que podem ser usados no
achar que há maior quantidade na bolacha em pedaços. Já aprendizado da matemática. Apesar da importância dos
as crianças mais velhas reconhecerão facilmente que as materiais na aprendizagem e da quantidade de escritos
quantidades são iguais. teóricos sobre eles, os materiais em si podem ser muito
Esse exemplo mostra um fato comum: em certos simples, fáceis de construir e substituíveis (quando não se
estágios do pensamento as crianças pensam que a consegue obter um tipo de material, pode-se substituí-lo por
disposição das partes altera a quantidade. Por isso, para as outro, sem muita dificuldade).
crianças pequenas, pode parecer que a quantidade de
bolacha aumenta se ela for partida em pedaços. A utilização adequada dos materiais
(tópico 3)

Parece-nos necessário, porém, alertar o professor


sobre alguns elementos importantes na utilização de
materiais concretos.
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Já dissemos que noções matemáticas se formam na gastos, o que propicia uma identificação produtiva e saudável
cabeça da criança e não estão no próprio material. Dissemos com o dinheiro.
ainda que o material favorece o aprendizado, desde que seja Os mais novos gostam de tarefas
bem utilizado. desafiadoras. Para a introdução à matemática
Vejamos o que significam essas duas afirmações, esse é um ponto bastante vantajoso.
em termos práticos: Conte com a cumplicidade dos
Primeiro, o material deve ser oferecido às crianças pequeninos para a checagem das contas de luz,
antes das explicações teóricas e do trabalho com lápis e extratos bancários, gráficos econômicos nos jornais e
papel. É preciso que os alunos tenham tempo e liberdade tíquetes de supermercado. São situações repletas de
para explorar o material, brincar um pouco com ele, fazer números, cálculos, medidas, projeções e podem ser
descobertas sobre sua organização. Após algum tempo de abordadas em diferentes níveis, dependendo da maturidade
trabalho livre, o professor pode intervir, propondo questões, da criança.
estimulando os alunos a manifestarem sua opinião. Em Quaisquer outras oportunidades do dia-a-
resumo, são essenciais, neste início, a ação e o raciocínio dia que envolvam contagem, classificação,
do aluno, pois, como dissemos, é só ele mesmo que pode comparação e seriação representam familiaridade com o
formar as noções matemáticas. sistema numérico e possibilidade de reflexão sobre a
A partir da observação e manipulação, da troca de importância da matemática.
ideias entre alunos e entre estes e o professor é que as
relações matemáticas começam a ser percebidas e Jogando se aprende
enunciadas. O professor deve então, aos poucos, ir
organizando esse conhecimento. O lúdico faz a criança viver situações de intercâmbio
Para concluir, podemos dizer que a atitude e perceber, indiretamente, conceitos importantes.
adequada do professor, em relação ao uso do material O tradicional também vale - dama, ludo, cartas, dominó,
concreto, decorre de ele conceder o ensino de matemática gamão, batalha naval, memória, quebra-cabeça com
nas séries iniciais como um convite à exploração, à números, tangram, banco imobiliário, super trunfo - e outras
descoberta e ao raciocínio. novidades disponíveis no mercado. Há opções na internet
(veja as dicas logo abaixo) e em CDroms.
Por meio da brincadeira, socializamos o
Matemática desafio e prazer conhecimento: crianças e adultos de idades diferentes trocam
Somas, divisões e subtrações estão em todos os o que sabem. Tenha certeza de que aprendemos mais no
momentos: na compra do doce, na bilheteria do parque de lazer do que em algumas aulas expositivas.
diversões e na organização dos brinquedos. Chamar a Reserve um tempinho para jogar com seu filho.
atenção do seu filho para a presença da matemática no dia-a- Observe e perceba como ele pensa, assim você terá pistas
dia ajuda a desmistificar o que parece ser um bicho preciosas para ajudá-lo em trabalhos escolares.
de milhões de cabeças. A questão do jogo vai além da matemática. Jogar é
negociar e trabalhar no coletivo de forma saudável
- Dê vida às operações e transparente. Quando tudo é oferecido pronto à criança,
- Jogando se aprende essa é uma alternativa para o desenvolvimento do raciocínio.
- Ajude nas tarefas, mas não faça por ele!

Ajude nas tarefas, mas não faça por ele!


Grande parte da geração passada viveu nos bancos
escolares uma espécie de arrepio ao ter que Não é raro que os pais se deparem com
solucionar problemas, realizar equações, operações e utilizar algumas dificuldades diante do olhar inquieto e
o raciocínio lógico em diferentes momentos sem saber como perdido da criança: problemas, contas, exercícios realizados
aplicar na vida prática. de forma diferente da aprendida em outros tempos.
Hoje seu filho tem nas mãos tecnologia, calculadora, Em primeiro lugar, ouça seu filho. Ele
informação e ainda convive com o mito da matemática difícil dará pistas de como você pode ajudá-lo. As
e para uso acadêmico. Os atuais métodos de ensino escolar crianças têm formas de resolução de problemas
estão tentando reverter esta história, buscando caminhos interessantíssimas. Algumas estão longe do modelo
para ligar o ensino da matemática às situações do cotidiano. tradicional. Realizam desenhos, gráficos, tabelas, buscando
Já que não há dúvida quanto à utilidade dos concretizar o pensamento e expressar o raciocínio de um
números na rotina diária, você pode participar da integração jeito próprio.
da matemática à realidade do seu filho sem medo e com Valorize essa possibilidade e faça
prazer. perguntas para que ele busque, no papel, o
caminho. É sempre o primeiro passo. Pode ser
Dê vida às operações surpreendente. Viver essa etapa anterior é dar voz à criança
e mostrar-lhe que, se há uma forma padrão, há também
Mostre à criança que ao arrumar outras que devem ser consideradas.
brinquedos e livros e organizar listas de compras Se a escola de seu filho já o iniciou nas
estamos desenvolvendo pré-requisitos básicos para o ensino técnicas operatórias e espera que ele resolva problemas
da matemática: a classificação e a seriação. somente por meio delas, você vive uma outra questão:
Na cozinha, a meninada adora viver verificar se ele compreende e percebe a relação entre o
momentos de grande chefe e se diverte lidando enunciado do problema e a conta a ser efetuada.
com medidas. Ótima ocasião para comparar gramas, Aqui as coisas podem não ser tão fáceis. Essa é uma tarefa
mililitros, quilos e litros. A descoberta é a percepção de de competência maior da escola, pois há várias questões em
diferentes relações. jogo: fluência na leitura, entendimento, aplicação de técnicas
Estipular mesada fixa também dá e cálculos.
elementos para um bom aprendizado e estabelece
regras e princípios. Seu filho estará gerenciando e planejando
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É aconselhável pedir à criança uma resolução Formar leitores


própria, por meio de formas não convencionais e solicitar ao A seguir, vamos recordar alguns componentes do
professor que a ajude na passagem para a resolução "núcleo duro" de cada disciplina. A começar pela Língua
tradicional. Mesmo porque você já deve ter reparado: Portuguesa. "Deve-se pensar o planejamento em torno de
quando se trata de contas, tentar ensinar do jeito que três grandes eixos: leitura e escrita, linguagem oral e análise
aprendemos pode confundir mais o quadro. linguística", sugere Alfredina Nery, que trabalha com
formação de professores. Entende-se atualmente que
UM BOM COMEÇO É FUNDAMENTAL desenvolver a capacidade leitora é obrigação de todos os
professores, em todas as séries. Tem de ser parte do
Da capacidade que o professor polivalente tem de cotidiano do aluno, pois, além de formar o gosto (que, por sua
enxergar o conjunto das disciplinas e a relação entre elas vez, desenvolve a competência), é matéria-prima para
depende uma saudável iniciação escolar escrever bem. Escrevemos (professores, jornalistas,
Ricardo Prado médicos, escritores) com base em modelos lidos. Por isso,
quanto mais a criança lê, mais condições terá de redigir com
O rito de entrada no mundo escolar acontece, de fato, na 1a estilo e propriedade.
série do Ensino Fundamental. É nela que os alunos serão Dos três eixos principais, é comum haver excesso
apresentados às disciplinas com as quais conviverão nos de um lado e falta de outro. Enquanto a análise linguística
anos seguintes. Receberão de um único professor as (leia-se gramática) recebe atenção exagerada, a linguagem
primeiras noções de Língua Portuguesa, Matemática, oral frequentemente é esquecida. Portanto, atenção para
Ciências, História e Geografia — além de Arte, Educação equilibrá-los. A linguagem oral também é importante porque
Física e o que mais a escola oferecer. O paradoxo é estuda a diferença entre a fala informal, que a criança traz de
justamente esse professor ter de fazer o planejamento sem casa, e a pública, essencial para a vida em sociedade.
conhecer a turma. E cada turma é uma aventura diferente,
com necessidades de aprendizagem específicas, assim como Números do dia-a-dia
cada aula é única. Ajustar o previsto à realidade é o desafio. Os principais conteúdos de Matemática nas séries
O geógrafo Celso Antunes, coordenador de ensino iniciais se dividem em quatro blocos: números e operações,
da Universidade Sant’Anna, de São Paulo, sugere um grandezas e medidas, espaço e forma e tratamento da
exercício mental: imaginar o planejamento como uma série informação (interpretação de dados). Se você leciona para as
de círculos concêntricos. No menor, estão localizadas as séries iniciais, saiba que terá cumprido sua missão se
principais competências de cada disciplina, em relação às conseguir que os alunos adquiram (ou desenvolvam) essas
quais não há negociação. É preciso que sejam abordadas, quatro grandes competências.
explicadas, trabalhadas e avaliadas. Chamemos esse centro Segundo Maria Sueli Monteiro, consultora em
de "núcleo duro" do planejamento. Os círculos maiores são Educação Matemática, o objetivo primordial deve ser
mais permeáveis. Eles são compostos pelos temas trazidos aproximar da ciência matemática o conhecimento que todos
pelas crianças, por jornais, por colegas educadores ou pelo trazem de casa. Os conteúdos não são mais tratados como
próprio professor. É neles que se dá a justaposição com uma grande sequência de pré-requisitos, mas como uma
outras disciplinas e abre-se o espaço para improvisar. rede de relações que envolvem todas as áreas da disciplina,
da geometria à aritmética.
Interdisciplinaridade Iniciar as aulas perguntando o que os alunos fizeram
Diferentemente dos professores que lecionam no dia anterior envolvendo alguma operação numérica é uma
matérias específicas, o polivalente transita livremente por boa estratégia. Os relatos inspiram situações-problema. "A
elas. Não é preciso combinar com ninguém para realizar geometria permite trazer o cotidiano para a sala, pois há
trabalhos interdisciplinares. O que também não quer dizer formas geométricas em todos os ambientes criados pelo
que isso seja uma obrigação. "Tenho visto colegas homem", sugere Antonio Rodrigues Neto, coordenador de
angustiados diante da interdisciplinaridade", diz o biólogo Matemática do Colégio São Domingos, de São Paulo.
Nelio Bizzo, da Faculdade de Educação da Universidade de
São Paulo (USP) e assessor científico do Colégio Santa Ciência é experiência
Cruz, em São Paulo. "Trabalhar de maneira interdisciplinar Os Parâmetros Curriculares Nacionais prevêem que
tornou-se uma espécie de ‘compulsão pedagógica’." ao fim da 4a série um aluno saiba utilizar conceitos científicos
A interdisciplinaridade pode ser explorada em básicos associados a energia, matéria, transformação,
projetos didáticos. A professora Fabiana Maffessoni, de espaço, tempo, sistema, equilíbrio e vida. Ou, nas palavras
Curitiba, é um bom exemplo. Utilizando as obras de Poty de Nelio Bizzo, diferenciar uma aproximação mágica ou
Lazzarotto espalhadas pela cidade, ela criou um trabalho de religiosa da abordagem científica: "Galileu Galilei
Arte para mostrar aos alunos da 4a série do Colégio Opet surpreendeu os sábios de sua época ao mostrar que era
outra visão do lugar onde vivem. Painéis de concreto sobre o possível estudar e medir a materialização de um fenômeno,
café, a erva-mate ou a história do Paraná serviram de ponto como a queda de uma pedra. Sem o lado experimental, não é
de partida para um bem fundamentado estudo do meio. Ciência".
Fabiana acredita que os quatro primeiros anos do Sempre há o risco de uma experiência não dar certo,
Ensino Fundamental são muito importantes para aguçar a pois trabalha-se com muitas variáveis. A frustração pode ser
sensibilidade das crianças e aumentar seu repertório artístico. contornada prevendo diversas possibilidades e estágios (as
Segundo ela, há três trabalhos imprescindíveis a fazer nessa várias situações de aprendizagem). De qualquer forma, o
área: mostrar obras de arte (em livros, slides ou museus), ideal é que o professor teste a atividade antes de sugeri-la. E
ensinar as crianças a observar a produção artística e, por fim, não é preciso ter laboratório na escola. Em vez de ver uma
incentivá-las a criar. "Quem é estimulado desde pequeno vai planta num livro, é melhor observá-la em seu ambiente
lidar melhor com os elementos da composição, como a linha, natural. "Marcar a sombra feita pelo Sol numa determinada
a cor e o espaço", afirma. Para ela, qualquer disciplina casa hora durante várias semanas é um belo laboratório sobre as
bem com Arte. Nesse projeto, os seis painéis de Poty estações do ano", exemplifica Bizzo.
escolhidos pela professora ajudaram a conhecer a história do
Paraná. Cronologia bem pessoal

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Depois de salientar que a capacidade leitora situa-se


antes de qualquer competência da área de História, pois dela
depende a capacidade de interpretar textos, documentos e Qual é o momento de criar matemática?
mapas, a historiadora Kátia Maria Abud, da Faculdade de  
Educação da USP, destaca o principal objetivo das aulas  Certa feita, um professor de matemática
dessa disciplina nas séries iniciais: desenvolver o conceito de expondo as suas ideias sobre a educação em sua área,
tempo. "Às vezes, o aluno não tem clara a noção de defendeu o princípio de que nós, homens e mulheres, recém-
passagem do tempo, nem suas categorias, como nascidos e idosos, analfabetos e letrados, animais racionais e
contemporaneidade, simultaneidade, duração ou irracionais estamos, a todo momento criando e vivendo
anterioridade", explica. matemática: o neném sugando o seio materno o faz num
Para sedimentar essa compreensão, ela acredita ritmo numérico; no berçário é nomeado por um número; a
que o melhor é começar com os fatos que marcam o dia da gata percebe a subtração de um filhote na ninhada; a vida
criança, como antes da escola e depois dela. Há também a social, com suas transações financeiras, com suas
linha do tempo na vida da família. Daí, parte-se para o numerações telefônicas e de endereços, com suas medições
conhecimento do local. Nessa fase, uma visita às casas mais e suas outras múltiplas manipulações numéricas nos faz, a
antigas ou ao museu histórico da cidade pode ser uma todo momento, criar e viver a matemática. Para este
excelente atividade. Mas é importante o professor conhecer o professor a resposta à indagação acima é simples e direta:
acervo previamente para dominar o assunto que será não há um único momento na vida em que não se cria
trabalhado. matemática, mesmo quando não temos consciência deste
Os PCN também sugerem estudar os fato.
deslocamentos populacionais nessas séries. Investigar quais  Há nesta exposição uma clara confusão
são as etnias e os grupos migratórios existentes na classe entre praticar um conceito e pensá-lo. Certamente todos
pode ser uma forma de trabalhar o tema, além de envolver conceitos matemáticos, mesmo os mais complexos,
questões de pluralidade cultural. "Num momento de guerra, compõem o plano de ação humano e se encontram no nosso
como o que vivemos, trabalhar a tolerância torna-se mais cotidiano. Eles estão presentes na estruturação do nosso
atual ainda", destaca Kátia. espaço, nas relações sociais, políticas e econômicas que
estabelecemos para a vida conjunta e para a produção e
Ator e palco estão em todas as máquinas e equipamentos, dos mais
A compreensão da espacialidade, a capacidade de simples aos mais complexos, que manipulamos. Mas esta
apontar os pontos cardeais e fazer a leitura de uma planta ou simples existência objetiva dos conceitos matemáticos não
um mapa, interpretando corretamente seus códigos, são as determina a sua existência no nosso subjetivo, do mesmo
principais competências de Geografia. Para isso, o mais modo que o simples fato de lidarmos com um eletrodoméstico
indicado é partir do próximo, afirma Celso Antunes, da qualquer - uma televisão, um aspirador de pó, etc. - não nos
Universidade Sant’Anna. "É mais fácil, pois o aluno se vê torna pensadores em eletrônica. Há um enorme espaço
como centro de um processo e contextualiza a realidade." vazio, um abismo mesmo, entre a manipulação mecânica e
O próximo aqui não é visto por sequência quotidiana de um conceito e a sua apreensão conceitual. Ao
pedagógica, mas pelo que permite de inferências, de contrário do que é sugerido pelo senso comum, quanto mais
relações entre o que o aluno vive e o que aprende. "Desse lidamos praticamente com um conceito sem antes elaborá-lo
centro parte-se para a periferia e a Geografia é insuperável (melhor dizendo, sem antes criá-lo) mental e
nesse processo de comparação", diz Antunes. Segundo ele, conscientemente, mais ele se torna inacessível ao
não se deve separar o homem da Terra, pois ator e palco pensamento. Ou seja, quanto mais a prática for cega e
interagem no mesmo cenário. mecânica, mais o conceito que lhe embasa se torna invisível
"Olhando para meus 42 anos de sala de aula, vejo e inacessível ao pensamento.
que também dividia a Geografia em física e humana. Gostaria
de poder voltar no tempo e corrigir o erro. Infelizmente, essa
 É a educação conceitual e, no nosso caso,
a educação conceitual matemática - e só ela - que leva os
é uma prática habitual", lamenta. Para finalizar, ele destaca
homens a superarem este abismo existente entre a prática
duas ênfases no planejamento: trabalhar com mapas desde o
mecânica e o pensar. Somente uma ação social especial,
primeiro momento, aumentando a complexidade ao longo dos
orientada por uma metodologia do conhecimento, uma
anos, e realizar muitos estudos do meio.
pedagogia e uma psicologia poderá propiciar a entrada dos
seres humanos no movimento científico dos conceitos
As quatro séries iniciais são importantes porque
matemáticos e não só nestes, mas em todos os movimentos
formam o hábito de leitura, essencial para a
conceituais. A educação matemática não é um fato cotidiano,
compreensão de textos, imagens, mapas e gráficos, que são
rotineiro, que acontece aleatória, permanente e
usados em todas as disciplinas
espontaneamente, que acontece a todo e qualquer momento.
trabalham registros orais e escritos em diversas
Trata-se de um momento especial. Que momento é este?
circunstâncias de situação comunicativa, das informais às
Qual é o instante da nossa vida, do nosso crescimento físico,
mais valorizadas socialmente
orgânico, espiritual, do nosso desenvolvimento e
constroem o significado de número natural e, a aprofundamento conceitual, em que esta aprendizagem
partir dele, possibilitam a resolução de situações-problema e determinada - a da apreensão da linguagem numérica - deve
procedimentos de cálculo ser iniciada e desencadeada?
representam a introdução ao mundo dos seres
vivos e aos métodos de investigação científica
 O momento em que acontece o ponto de
partida de qualquer aprendizagem é sempre o mais
permitem a aquisição da noção de tempo,
importante de todo o movimento educacional pois nele está o
essencial para a compreensão da historicidade dos fatos
germe que traz em si dois elementos antitéticos: tanto pode
servem para que o aluno tenha noções de
se desenvolver na formação e multiplicação das células da
orientação espacial, leitura cartográfica e conhecimento do
vida, do entusiasmo, da curiosidade, da busca apaixonada
meio ambiente que o cerca
daquele conhecimento, quanto pode, contrariamente, gerar o
é nessa fase que, se estimulada corretamente, a vírus da sua rejeição e morte , da impotência, da repressão
criança se torna apta a manejar com criatividade conceitos castradora e escravizadora. Abrem-se, portanto, duas
estéticos e recursos artísticos
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opções: ou se cria um novo corpo ou um novo anticorpo ideias e as emoções são apenas softs, isto é, programas de
conceitual. Se o ponto de partida acontecer respeitando o computadores .
desenvolvimento da criança, com a criança, interagindo com  Nesta concepção que interpreta a mente
a sua atenção, a sua emoção, a sua sensibilidade, o germe infantil como um computador e a educação como um
da criatividade passará a ser dominante em todo o processo processo de programação, o corpo emocional-afetivo é
futuro da aprendizagem; se, ao contrário, este ponto de simplesmente negado. Por outro lado as diferentes áreas da
partida acontecer apesar da criança, apoiando-se na tarefa aprendizagem são vistas como um dado puramente físico-
obrigatória, na disciplina mecânica, estaremos orgânico: quando os circuitos eletrônicos - os neurônios -
desenvolvendo o vírus da rejeição que se tornará anticorpo estão prontos para a aprendizagem de línguas? Aos dois
resistente a toda futura aprendizagem, gerando bloqueios anos e meio? Então este é o momento ótimo (a janela) para
cognitivos e afetivos sobretudo ao processo de aprender os que aconteça a aprendizagem; se esta não acontecer perder-
conceitos científicos. A definição de qual dos dois pontos de se-á o momento ótimo, a janela se fechará e nunca mais a
partida será o determinante não é fruto do acaso, da sorte; é aprendizagem acontecerá com a intensidade e a riqueza que
preciso compreender o homem como um ser global - razão, aquele momento teria propiciado. Cria-se assim o caldo de
emoção e instinto - e não como uma máquina programável, cultura para a formação de andróides, onde as famílias
para que o objetivo fundamental da educação - ganhar este abrem mão do contato afetivo com os seus pequenos,
ser global para o movimento conceitual - seja alcançado. lançando-os sucessivamente pelas pseudo-janelas da
 Freud e a psicanálise concebem, de forma aprendizagem neuro-eletrônica: aos dois anos e meio a
geral, a formação do intelecto como um movimento que língua; aos três anos a matemática; aos três e meio música;
acontece em oposição aos instintos básicos. Os corpos aos quatro esporte e assim por diante. E fica estabelecida
emocional e intelectual seriam, assim, essencialmente uma obsessão pseudo-moderna: quanto mais cedo uma
opostos e contraditórios. E quando esta contradição se escola introduzir os pequenos na matemática, nas línguas,
transforma em antagonismo teríamos a neurose. nas ciências naturais, mais moderno e eficiente é o seu
 A educação escolar tem se centrado ensino.
fundamentalmente na formação do intelecto. A formação  Certamente a nossa espécie sobreviverá a
emocional tem sido definida como campo privado da família. este novo massacre; a história da educação é um grandioso
Nesta dissociação já vemos um movimento de testemunho da capacidade humana de superar a destruição
aprofundamento da oposição entre estes dois corpos. contra educativa desencadeada em nome da educação. Mas
Contudo um fator ainda mais grave se acrescenta para quanta energia será inutilmente dissipada, quanta
aguçar esta ruptura. A educação tem se definido como um sensibilidade será sepultada sob esta tremenda avalanche
movimento de profissionalização do indivíduo, em suma, de neuro-eletrônica!
formação da força de trabalho. As exigências da produção  A nossa concepção de educação em geral
industrial, que se tornaram particularmente determinantes a e matemática em particular, tem como objetivo principal a
partir de meados do século passado, moldaram a sociedade superação desta oposição entre os corpos emocional e
como um amplo movimento mecânico e chegaram na intelectual do homem. E o mais importante é que, com a
educação com uma imposição clara e inexorável: é criação da máquina programável, definitivamente o homem
necessário a produção máquinas humanas para as atividades tem as condições tecnológicas de emancipar o seu corpo da
ainda não cobertas pela máquina-ferramenta - as tarefas determinação do mecânico. A criação, desenvolvimento e
manuais e intelectuais repetitivas mecânicas ainda não generalização da máquina programável ocupou, está
mecanizadas no equipamento extra-corpóreo humano. ocupando, e ocupará, definitivamente, todos os postos de
 A escola que temos, portanto, é voltada trabalho que exijam movimentos mecânicos, sejam manuais
apenas para a formação do intelecto; mas não do intelecto sejam intelectuais. Desta forma a vida não exige mais que a
humano mas sim do "intelecto" mecânico. Desta forma a sociedade seja um mecanismo e que a educação a ele se
oposição entre os corpos emocional e intelectual está submeta enquanto fábrica de máquinas humanas. As
enquadrada num aparelho social e educacional que aponta condições tecnológicas e a base técnica para a superação da
para a repressão exacerbada, mecânica, do primeiro pelo ruptura entre a emoção e a ideia estão dadas. Cabe, agora,
segundo. O antagonismo entre eles e a neurose resultante um profundo, difícil e complexo, mas necessário, movimento
são os produtos inevitáveis e inerentes desta mecânica de transformação da sociedade e da educação para a
humana. A neurose não é, pois, a anormalidade, mas sim a promoção do encontro do homem emoção com o homem
normalidade. O que impressiona é a capacidade humana de intelecto, isto é, do homem consigo mesmo, inteirando-se
sobreviver à esta máquina destruidora; que, apesar de tudo, numa nova unidade contraditória ainda, é verdade, mas não
o corpo emocional, à duras penas e com grandes perdas, mais antagônica e sim harmônica.
ainda consiga se desenvolver.  Concebemos, portanto, a educação como o
 Quando no período da revolução industrial movimento de criação deste homem não fragmentado e o seu
a máquina ferramenta foi criada, desenvolvida e primeiro momento é a formação do corpo emocional. Este é o
generalizada, passou a prevalecer a explicação mecânica do elemento determinante da personalidade humana e servirá
cosmos, da vida, e da mente humana na produção de base segura para a formação do intelecto criador. A
intelectual. Foi neste contexto que se formaram o nosso atual criação de um corpo afetivo inteiro, sem deformações, sem
currículo educacional, a nossa atual escola, a nossa teoria mutilações, sem ausência de membros - este é o objetivo do
pedagógica e de aprendizagem, a nossa didática e os nossos primeiro e fundamental movimento da aprendizagem liberado
livros didáticos. A mente humana era compreendida como da necessidade de formação de máquinas humanas. Trata-se
uma engrenagem que precisava ter suas peças bem da aprendizagem de criação da linguagem emocional-afetiva.
encaixadas para o seu funcionamento perfeito. Agora, sob o Através dela a criança apreende os movimentos do seu id - a
signo da informática e do computador, a explicação sai da sua sexualidade, os seus instintos de vida e de morte, o seu
mecânica e entra na eletrônica: o universo, a sociedade, o sentido de prazer e de desprazer - aprende a conhecê-los, a
organismo, a vida, a mente, os afetos e os conhecimentos identificá-los e reconhecê-los, a submetê-los ao teste de
passam a ser concebidos como circuitos. O nosso organismo realidade, a administrá-los em sua destrutividade
corpóreo, nesta leitura, não passa de um hardware e as (negatividade) e construtividade (positividade). A linguagem
emocional-afetiva deixa de ser um puro atributo da família e

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passa a ser um elemento presente, ativo e original da escola. indivíduo foi criada e desenvolvida pelo homem no processo
Na velha escola este elemento curricular era inexistente pois cultural-artístico.
os aspectos humanos eram vistos como secundários, mais  A linguagem cultural-artística vincula-se,
que isto, como obstáculos para a formação da máquina fundamentalmente, à capacidade de expressão corporal do
humana. Na nova educação a apreensão da linguagem homem e aos rituais coletivos criados para lidar com as
afetiva-emocional é o objetivo da primeira e fundamental forças básicas da natureza. A expressão corpórea primitiva e
aprendizagem, pré-requisito para a continuidade do processo suas formas mais elaboradas - a dança, a música, o ritmo, a
educativo. linguagem gestual, a linguagem visual (cores, figuras, etc.),
 Uma carência nesta formação da linguagem os jogos esportivos coletivos e individuais - são os elementos
afetiva-emocional, um membro não formado, nesta primeira que compõem o que chamaremos de linguagem sensitiva
aprendizagem que perpassa o período da primeira infância (ou da sensibilidade). Esta constitui o conteúdo do segundo
trará, consequências que acompanharão a criança pelo resto movimento de aprendizagem que se forma a partir e no
da sua vida. Ao contrário do que afirmam os pedagogos interior da linguagem emocional-afetiva. Enquanto esta
neuro-eletrônicos, a aprendizagem intelectual em qualquer primeira linguagem se centrava no indivíduo e na formação
área pode ocorrer em qualquer momento da vida. Já a do seu mundo interior, a linguagem sensitiva tem como
aprendizagem afetivo-emocional que acontece na primeira centro a relação entre o indivíduo e a sua comunidade. Os
infância é fundamental para compor a personalidade que elementos culturais do esporte, da arte, dos ritos coletivos
combinará as forças básicas da vida: a sexualidade, a constituem os seus conceitos básicos que devem ser
agressividade, as tendências para a vida e para a morte, a desenvolvidos no processo de aprendizagem.
relação do id com a realidade. Os elementos não  É preciso compreender que a sucessão dos
desenvolvidos criarão carências e lacunas que movimentos de aprendizagem não é rígida, mecânica e
acompanharão aquele ser humano impondo-lhe dor e excludente. Não se trata de datar a aprendizagem emocional-
sofrimento em sua caminhada futura. afetiva que, quando encerrada, cede lugar à aprendizagem
 Por outro lado, uma linguagem emocional- sensitiva. As aprendizagens não se excluem e, portanto, não
afetiva incompleta ou deformada servirá de bloqueio para podem ser antogonizadas. Certamente no primeiro
todas as aprendizagens futuras deste pequeno; a infelicidade movimento o centro articulador se encontra na linguagem
o acompanhará, atormentando-o, minando com o medo as emocional-afetiva, mas os elementos das outras linguagens
suas energias de busca de conhecimento e de cultura; já a já estão presentes em seu interior, formando-se e
formação sadia de uma linguagem emocional-afetiva inteira preparando-se para ocupar o centros nos futuros movimentos
gerará uma criança feliz, cheia de impulsos para o novo, pois da aprendizagem. No desenvolvimento da primeira linguagem
o novo será visto sempre como uma fonte de desafio criador e no seu interior, a linguagem sensitiva vai se compondo
e não como um obscuro e sinistro abismo. lentamente e se expandindo até que, num determinado
 Esta aprendizagem da linguagem momento, realiza um salto qualitativo, passando a dominar a
emocional-afetiva não se esgota neste seu primeiro ação educativa como centro articulador.
movimento. Ela se constituirá num movimento permanente  No interior deste movimento global de
que acompanhará toda a nossa vida. Mas é neste primeiro expressão a criança vai desenvolvendo uma área que se
momento, que percorre toda a primeira infância, que se forma refere à comunicação da qualidade das coisas que compõe a
o organismo básico - o ego - que administrará os nossos sua realidade. Trata-se da linguagem das palavras.
instintos básicos do id. A linguagem emocional-afetiva se  Para criar coletivamente o plano de ação
forma no interior do id, como parte dele, desenvolvendo-se, que dirigirá e combinará as suas ações individuais, o homem
aprofundando-se e ampliando-se nesta dinâmica. E, inventa a linguagem das palavras. O homem inicia a sua
analogamente, todas as linguagens posteriores serão caminhada de racionalização da natureza a partir dos
formadas e desenvolvidas no interior da linguagem movimentos qualitativos, das variações da qualidades das
emocional-afetiva. É por isto que a riqueza, profundidade e coisas que lhe cercam e que lhe são significativas.
amplitude desta, assim como os seus limites, determinarão Qualidade é aquilo que existe em todos elementos que nos
as fronteiras de todas as futuras linguagens que serão cercam e que satisfazem uma certa necessidade nossa.
desenvolvidas pela aprendizagem. Certamente este campo Qualidade é o atributo, a propriedade de determinado ser ou
inicial, se rico e fértil, potencializará todas as aprendizagens objeto que nós é significativa, que é útil e necessária para a
em todos os campos; e, inversamente, se pobre, mal nossa vida, que precisamos administrar para a nossa
formado, restrito, limitará com medos, inseguranças, sobrevivência e que, por isto mesmo, precisa ser nomeada.
agressividades e carências o impulso e a alegria do  A necessidade de administrar coletiva e
conhecer, sentir e pensar que compõem a dinâmica de todo socialmente diferentes e múltiplas qualidades faz com que
ato educativo. inventemos a comunicação das qualidades - as palavras.
 Na medida em que a criança vai adquirindo Quando falamos uma palavra qualquer - cadeira, por exemplo
segurança na leitura do mundo interno, dos seus instintos - estamos atuando sob um acordo coletivo que os homens
básicos da vida e da morte, identificando prazer e desprazer, elaboraram em sua história de vincular um certo som e
o seu centro de interesse vai se voltando mais e mais para o símbolo a uma certa ideia - descrição de um conjunto de
mundo externo. Vai, assim, criando a sua identificação com objetos que tem a propriedade de nos fornecer assento.
este mundo externo, localizando-se nele através do teste de Temos aí uma linguagem - o vínculo direto entre um símbolo
realidade dos impulsos contidos em seu id. Surge o momento e um pensamento: a linguagem das palavras.
para a criação de uma nova linguagem que capacite a  A linguagem das palavras nasce
criança para a leitura deste mundo externo. Nela a criança diretamente no terreno social. Trata-se de um amplo acordo
identifica as sensações externas que podem e devem ser coletivo para tratar as coisas da natureza objetiva e subjetiva.
desenvolvidas e aquelas que são proibidas por serem A linguagem das palavras nasce diretamente da expressão,
negativas ao processo de sociabilidade. Aprende a ler as da imitação, da repetição, do treino, da cultura, do ambiente
expressões destas sensações assim como aprende a social articulado. Daí que a conversa, a leitura, enfim a
expressar as suas sensações para a comunidade em que interação entre as pessoas, são os seus elementos
vive. Esta linguagem das sensações básicas geradas na educativos predominantes.
contradição entre o mundo real e o mundo interno do

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 Ao produzir o homem passa a lidar com um quatrocentos e trinta e dois é igual a mil e sessenta e dois
outro aspecto da matéria: a quantidade. Todas as coisas e reais - que como que pensa por mim.
seres que nos rodeiam - energia, água, terra, ovelhas, ar,  O conhecimento matemático é um
vacas, pessoas, cachorros, cadeiras, calor, distância. etc. - movimento que se dá do aspecto qualitativo das coisas para
possuem quantidade. Não existe nada sem quantidade. o seu aspecto quantitativo: Toma-se uma certa qualidade
Portanto sentimos tudo que nos rodeia através da sua como ponto de partida - por exemplo, uma porção de terra,
quantidade. A quantidade existe em todas as coisas e a um rebanho de ovelhas ou ainda um carro numa estrada - e
percebemos através dos nossos sentidos. busca-se registrar e administrar a sua quantidade - as
 Na pecuária o homem é obrigado a dimensões da terra, o número de ovelhas ou a velocidade do
administrar o movimento quantitativo dos rebanhos; na carro. A qualidade é identificada e isolada das outras através
agricultura o homem administra o movimento quantitativo das da linguagem das palavras; a regularidade e o ritmo do
terras produtivas, do tempo, das sementes, do produto, etc. movimento constituem os aspectos quantitativos e figurativos
Na produção de metais o homem administra o movimento que as linguagens numéricas e geométricas buscam
quantitativo do calor, do mineral, das unidades produtivas, apanhar. E isto é feito através da criação de algoritmos.
etc. Enfim, em todas atividades produtivas o homem precisa  Trabalhando o homem precisa operar,
administrar múltiplos movimentos quantitativos. Para isto ele constantemente, com ideias, isto é, precisa operar
inventa o número: mentalmente. Uma das ideias sempre presentes no trabalho
 Número é a ideia criada pelo homem para humano é a da quantidade. Na produção o homem lida
administrar e controlar os movimentos quantitativos diretamente com quantidades, ou melhor, com movimentos
envolvidos na produção e, de forma mais geral, que quantitativos. Assim os criadores de ovelhas, de porcos, de
acontecem na natureza humana. Numeral é o símbolo que aves, de gado bovino, enfim, de animais em geral, precisam
expressa o número. E linguagem numérica é este conjunto administrar a quantidade de seus rebanhos: saber se todos
de símbolos e ideias que o homem criou para operar que foram pastar voltaram, saber quantos filhotes nasceram,
coletivamente sobre os diversos movimentos quantitativos quantos morreram, etc. Para controlar e administrar os
que compõem a natureza humana. movimentos quantitativos da produção o homem inventou o
 Com o desenvolvimento da produção o número e uma série de operações mentais para registrar as
homem passa a trabalhar ainda mais intensamente com os variações quantitativas: quando se juntam dois rebanhos,
aspetos quantitativos dos movimentos que administra. E, com quando se separa uma certa quantidade do rebanho original,
isto, começa também a sentir necessidade de desenvolver etc. Estas combinações de elaborações numéricas criadas
ainda mais a linguagem das quantidades. Esta inicialmente para operar com quantidades, que se constituem nas
nasce no interior da linguagem das palavras. É a linguagem operações mentais mais comuns e que mais aparecem na
das palavras o terreno em que nasce a linguagem das atividade produtiva e que, portanto, constituem operações
quantidades ou, mais especificamente, a linguagem mentais repetitivas ou saber calcular são chamados de
numérica. Assim como a linguagem numérica é determinada algoritmos:
pela linguagem das palavras, a aprendizagem daquela tem  Algoritmo (ou saber calcular) é a
como condição a aprendizagem da linguagem das palavras. formalização de uma operação mental genérica superior
As relações sociais determinam a linguagem das palavras e, criado para operar com os números; com os algoritmos o
por isto mesmo, determinam também a linguagem numérica. homem controla e registra os movimentos quantitativos que
Contudo, mediando a ação social humana e a linguagem ocorrem na produção. Todos os movimentos naturais
numérica existe a linguagem das palavras. Esta mediação possuem o aspecto quantitativo. Todos movimentos naturais
garante à linguagem numérica um caráter diferenciado. possuem regularidade.
 Nascendo da linguagem das qualidades, a  Regularidade de um movimento natural é
linguagem numérica se desenvolve em oposição a ela: cada repetição de resultados que ele apresenta sempre que se
salto seu é produto da necessidade da sua diferenciação e encontrar submetido a certas condições comuns. A
cada salto na diferenciação é ocasionado pelo seu regularidade também é chamada pelos cientistas de lei
desenvolvimento. Realmente todo desenvolvimento da natural. As regularidades se expressam em variações
matemática acontece como processo de diferenciação destas quantitativas determinadas que sempre são passíveis de
linguagens: é o esforço humano para se liberar da linguagem serem apreendidas por algoritmos, que constituem o aspecto
das palavras no trabalho que exerce com movimentos operacional da linguagem matemática . De forma geral a
quantitativos. É a luta da linguagem numérica para se resolução dos problemas teóricos conceituais são
emancipar de sua origem - a palavra. sistematizadas na forma de algoritmos. O algoritmo é,
 E, nesta diferenciação, forma-se na portanto, a formulação genérica, universal da dinâmica
linguagem numérica um atributo novo. A linguagem das interna do conceito; é o seu aspecto operacional mental que
palavras se dinamiza no sentido de provocar o surgimento de sempre se repete dentro da variação quantitativa que,
um determinado pensamento, de uma determinada ideia. inicialmente, aparenta ser aleatória. A experiência acumulada
Falamos ou escrevemos alguma coisa para alguém buscando ao longo da prática produtiva e da aprendizagem técnica
fazer surgir no seu pensamento as imagens que queremos permite a síntese algorítmica.
comunicar. A linguagem matemática, por sua origem na  Vimos que o movimento de aprendizagem
palavra, mantém esta dinâmica. Mas acrescenta uma nova se inicia com a linguagem emocional-afetiva; a partir dela e
que lhe é específica, que se deve ao seu caráter no seu interior é desencadeada a aprendizagem da
diferenciado. Ela é operacional. Trata-se de uma linguagem linguagem sensitiva; a dinâmica interna desta se desenvolve
que tem uma espécie de funcionamento interno, objetivo. Se até o salto qualitativo que inicia o processo de aprendizagem
temos trinta reais no bolso, seiscentos no banco e das palavras; é no interior desta última mas ao mesmo tempo
quatrocentos e trinta e dois na poupança, podemos jogar tudo dela se destacando como um campo autônomo que se inicia
isto no conjunto de regras operacionais codificadas da adição e se desenvolve a linguagem das quantidades e das formas -
e obter um dado novo, impossível de ser obtido só pelo a linguagem matemática. A aprendizagem é um movimento
pensamento: o total do dinheiro que é fornecido pela contínuo de desdobramento da linguagem no interior do
sentença matemática - trinta mais seiscentos, mais processo global de formação do homem. Assim é que, no
interior da linguagem matemática matura-se a linguagem das
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ciências naturais - a física, a química, a geográfica física, etc. momento, adquire movimento próprio. E, com ele, o espaço
- o que propicia o desencadeamento de sua aprendizagem. humano se expande transformando qualitativamente a vida
Da mesma forma, no interior de todas as linguagens, da espécie. O momento anterior ao da ação - o do
mesmos as iniciais, os processos de maturação e planejamento da ação - passa a ser determinante nas
desenvolvimento vão propiciando a geração de outras relações entre os homens.
linguagens fundamentais para a ação educativa. Assim na  Entretanto o saber pensar surge e se
linguagem emocional-afetiva se cria e se dinamiza a desenvolve no mesmo movimento em que a humanidade se
linguagem psicológica; na linguagem sensitiva vão se criando divide em duas classes: a classe minoritária daqueles que
as linguagens específicas musical, pictórica, corporal, rítmica, dominam e dirigem a ação do trabalho e a classe majoritária
etc.; na linguagem das palavras, o seu caráter documental e e dominada daqueles que agem, que trabalham. O saber
contextual propicia a criação da linguagem histórica e pensar se separa do saber fazer não apenas na dimensão
antropológica (geográfica cultural e social). intelectual mas, também e principalmente, na social: um
 Este processo sequencial de aprendizagem pequeno grupo de homens é separado dos demais e a eles é
tem como referência básica a educação infantil. Contudo, atribuída a função de pensar sem fazer enquanto às grandes
trata-se de um processo universal pois tem como base o massas fica a tarefa de fazer sem pensar.
movimento fundamental através do qual a nossa espécie  A separação do trabalho intelectual do
constituiu a sua humanidade. É devido a este caráter manual faz com que o saber pensar surja junto e identificado
genérico e universal que podemos concluir que ele não se com o saber dominar. É por isto que o conhecimento de uma
restringe à educação infantil mas que, com certeza, se refere forma geral e o matemático de uma forma particular passam
ao desencadeamento da ação educativa efetiva, que supere a ser mistificados enquanto instrumentos de poder. Pensar é
a ação de treinamento que tem prevalecido até agora para poder e poder é pensar. A ciência, a arte e a cultura
qualquer idade. Esta não é uma simples suposição teórica transformam-se, assim, em fontes de poder e, como tal
mas se trata de um princípio com bases em experiências passam a ser objetos de apropriação de uma classe que,
educacionais marcantes. A literatura pedagógica que trata de com esta posse, se torna dominante.
experiências concretas revela que em todas o encontro  Como vimos, algoritmo é a estrutura lógica
afetivo dos personagens educativos - os alunos e educadores numérica-geométrica criada para o registro e controle da
- é o primeiro passo para que a ação educacional se inicie. E regularidade e ritmo dos movimentos quantitativos. Todo
que todas as outras linguagens se formam no seu interior, conceito matemático e todos os conceitos das ciências que
não se excluindo e se antagonizando, mas se combinando trabalham com a linguagem matemática possuem, devido ao
dentro da sequência que apresentamos acima. seu caráter numérico, o aspecto algoritmo.
 Até agora respondemos a questão de qual  Desta forma a linguagem matemática é o
é o momento de criar matemática; agora vamos responder a movimento humano de criação de algoritmos que acontece
questão porque criar (e não treinar) matemática. da qualidade para a quantidade do universo. É a fusão do
 Matemática significa, em grego, saber saber pensar com o algoritmo, resultando o saber calcular.
pensar. Ora, é o pensar que nos torna humanos. Desta forma  Apartado dos elementos conceituais, isto é,
o primeiro e principal objetivo da matemática é o de formadores do pensamento, o algoritmo se reduz a um
humanizar este animal bípede, de andar ereto, que sai do código de regras, a um mecanismo mental, a um mecanismo
útero materno totalmente indefeso e dependente e que assim algorítmico. E o saber calcular - fusão do algoritmo com o
permanece por um largo período, muito maior que o conceito - cede lugar ao saber fazer matemático rasteiro, ao
experimentado pelos filhotes de todas as outras espécies. mentefato (nome dado pelo educador matemático Ubiratan
 O homem criou a matemática para resolver D'Ambrósio aos mecanismos mentais). Desta forma a
os vários problemas colocados pela sobrevivência. Mas com produção mecânica, extensiva, de massas, gerou uma
ela e as outras linguagens, o homem criou o pensar e a sua solicitação imediatista, utilitarista e alienada do
racionalidade; recriou-se, assim, enquanto animal racional, desenvolvimento conceitual à educação matemática: produza
elevando o animal à razão. O homem criou a matemática e a massivamente operadores de mecanismos algorítmicos pois
matemática criou o homem. A matemática é humana e o a produção precisa urgentemente deles. Para obtê-los a
humano é matemático. Com ela o homem resolve os grandes indústria só tinha um caminho: direcionar a educação
e pequenos problemas colocados pela vida. Mas é, matemática e das ciências exatas para a aprendizagem do
certamente, na resolução do nosso principal e mais vital treinamento, para a formação de operadores de mentefatos,
problema - o do encontro do homem com a sua racionalidade de mecanismos algoritmos.
e humanidade - que se radica a importância desta ciência.  A não aprendizagem do saber-pensar de
 A matemática surge, inicialmente, colada um conceito não representa nenhum impedimento em
com a prática. Seu início, assim como o de todos os campos aprender a sua operação (saber fazer). Isto se deve ao fato
do pensamento, é eminentemente empírico e técnico. Os que todo conceito matemático possui um duplo aspecto: o de
seus conceitos fundamentais aparecem, embrionariamente, ser formativo do pensamento (pois é produto do pensamento)
como ferramentas: para contar as ovelhas, use as pedrinhas; e o de ser operacional (produzir resultados imediatos e
para adicionar e subtrair os seus lucros e perdas, use o objetivos). Esta dualidade e essencial à linguagem
ábaco; para levantar uma parede perpendicular, use o matemática. A aprendizagem do saber pensar é ampla e
triângulo de cordas 3-4-5, e assim por diante. Tal como a profunda e implica na transformação de todo o processo da
enxada, o martelo, o arado, os conceitos matemáticos não racionalidade do educando; já a aprendizagem do saber fazer
passam de equipamentos que se aprende a manejar através é superficial posto que é repetitiva e manual e pode se dar
de treinamento voltado para tarefas imediatas. Trata-se do sem mudança da racionalidade. Quando o saber fazer é
saber fazer matemático; estamos, por enquanto, distantes do definido socialmente como prioritário, o saber pensar se torna
saber pensar. seu entrave.
 O desenvolvimento conceitual aos poucos  A aprendizagem do saber fazer, por não
vai descolando a matemática da prática imediata e empírica. implicar em pensamento, acontece simplesmente pela
E, com ele, a reflexão vai se desenvolvendo antes da ação manipulação das regras da operacionalidade do conceito, do
para guia-la e orienta-la. O saber pensar surge e se treinamento no mecanismo algorítmico. Daí chamarmos esta
desenvolve a partir do saber fazer até que, num determinado
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aprendizagem (que para o saber pensar é uma contra- pensar. A educação deve ser criada para dar prioridade ao
aprendizagem) de pedagogia de treinamento. saber pensar ao invés do saber fazer.
 Todo conceito matemático e todos os  O homem torna-se, assim, novamente o
conceitos das ciências que trabalham com a linguagem centro de suas preocupações pois ele não vem mais
matemática, possuem, devido ao seu caráter numérico, o mascarado ou de máquina ou de senhor. Com isto a
aspecto algorítmico. Apartado dos elementos conceituais, isto matemática e todas as outras ciências, todas as artes e
é, formadores do pensamento, o algoritmo se reduz a um culturas, estão liberadas para realizarem o seu objetivo
código de regras, a uma máquina, a um mecanismo maior: o autoconhecimento do homem pelo homem.
algorítmico. Ele tem apenas uma função: garante que, se  O centro da aprendizagem deixa de ser o
partimos dos mesmos dados, chegaremos todos a uma movimento operacional e passa a ser o conceitual. Como se
mesma resposta (ou respostas). dá o nosso movimento conceitual? A partir do aspecto
 Muitos educadores matemáticos defendem puramente lógico-operacional ou a partir do aspecto lógico-
a ênfase na utilidade social de um conceito matemático como histórico? É a lógica operacional do conceito ou é a lógica de
forma de superar a alienação inerente ao mecanismo sua criação histórica que determina o seu conhecimento e,
algorítmico. Contudo é exatamente este aspecto utilitário que portanto, a sua aprendizagem?
determinou a prioridade no saber fazer em detrimento do  Trata-se de um posicionamento
saber pensar. A partir daí a pedagogia matemática e, de metodológico referente à teoria do conhecimento que
modo geral, toda a pedagogia caminhou e se diversificou, imediatamente não é acessível aos educadores. É claro que
tendo como elemento fundamental este aspecto de todo o nosso trabalho de crítica até agora já orienta no
treinamento. Desta forma, toda a ação pedagógica, mesmo sentido da superação da lógica-operacional e da adoção da
aquelas que se revestem de uma aparência de participação e lógica-histórica que é a lógica da evolução conceitual, da
de criação, que se efetiva por regras pré-estabelecidas tem o sintetização da dinâmica da criação histórica na própria
princípio do treinamento como seu elemento dominante. evolução do conceito. Se rejeitamos o aprender-fazer da
 O caráter operacional específico operacionalidade do conceito como elemento desencadeador
(algorítmico) tem sido tão útil ao trabalho humano no trato do movimento de aprendizagem o que tomaremos em seu
com os movimentos quantitativos que passa a ser o lugar? Já sabemos que é o saber-pensar. Mas onde se
predominante na linguagem matemática. Mas o que tem mais materializa este saber-pensar? Para nós só existe uma
contribuído para este predomínio é mesmo o fato do trabalho resposta: na evolução histórica conceitual do homem. O
humano estar dominado pela atividade mecânica. O fato da homem aprendeu a pensar criando, historicamente,
civilização se iniciar e se desenvolver com a busca conceitos. Da mesma forma o educando aprenderá pensar
permanente da redução do homem à condição de máquina - criando conceitos num movimento semelhante ao da
o que caracteriza a sociedade de classes que por milênios e evolução histórica do conceito. Compreendemos história,
milênios tem se expandido até os nossos dias - comprometeu aqui, não no sentido fatual, cronológico, fortuito mas sim no
a linguagem matemática com o seu aspecto operacional, seu significado fundamental do homem criando a si próprio
omitindo, combatendo e escamoteando até o esquecimento o através do desenvolvimento de sua racionalidade conceitual.
seu elemento inicial de identidade com a linguagem das É a história do conceito, despida dos elementos ocasionais e
palavras: o de gerador de ideias. centrada no ato de criação, que nos dá a dinâmica do saber-
 A própria linguagem das palavras tem pensar e que deveremos transformar em plano de ação
sofrido restrições e reduções mecanicistas. Contudo, como a pedagógico, em ação educativa concreta de sala de aula.
linguagem matemática possui altamente desenvolvido este  A criação numérica aconteceu
caráter operacional, ela tem sofrido muito mais as distorções primeiramente com o homem utilizando o seu corpo (dedos,
deste processo de violência anti-humana. Desta forma ocorre toques, fala, etc.) e objetos do seu ambiente para contar as
uma inversão entre causa e consequência: o caráter quantidades que ele precisava administrar: o numero de
operacional perde a sua combinação com o pensamento, e animais (ovelhas, vacas e bois, porcos, aves, cavalos, etc.)
se transforma no único elemento da linguagem matemática. E do seu rebanho, o número de pessoas da sua tribo, e assim
isto acaba penetrando e distorcendo totalmente a educação por diante. O homem inventou a contagem para administrar
matemática: o aluno tem de aprender a operar o conceito os movimentos quantitativos necessários para a sua vida.
matemático e não a pensar através dele. Isto é, apenas o Para realizar esta contagem criou alguns instrumentos
aspecto mentefato do conceito é apreendido. operacionais: os objetos que o cercavam e elementos do seu
 Com a informática torna-se desnecessária a corpo. Com base neste instrumental concreto criou um
produção de operadores de algoritmos mentais. A educação elemento de racionalidade, de pensamento, uma abstração: a
matemática livra-se, assim, da aprendizagem de treinamento correspondência biunívoca. Estes três elementos da sua
e pode se voltar à sua finalidade básica: a de formação do primeira criação numérica - a contagem, o instrumental
homem enquanto ser pensante e criador. As transformações concreto, e a correspondência biunívoca - compõem o
tecnológicas que há algumas décadas estão transformando primeiro conceito numérico e matemático que chamamos
vertiginosamente as relações humanas com a informática, a numeral objeto. O numeral objeto é o primeiro momento da
robótica e a automação criaram um dado novo para a criação numérica e precede o numeral escrito. A pedagogia
educação matemática em geral: todos os algoritmos de todas do treinamento passa por cima desta primeira criação
as ciências são transferidos (ou transferíveis) para o matemática ou, no máximo, faz-lhe uma rápida e superficial
maquinismo não humano. Desta forma o mentefato e o menção. Procurando agilizar o mais rápido os mentefatos
mecanismo algorítmico mental tornaram-se desnecessários, numéricos, considera perda de tempo qualquer trabalho
mais que isto, inúteis, atrasados e imperfeitos. A pedagógico que não parta diretamente dos numerais escritos
consequência imediata disto é o colapso da pedagogia do modernos. "As crianças já sabem o que e número". Para esta
treinamento posto que a estrutura educacional formadora de pedagogia todo o treinamento repetitivo e massacrante que
operadores de mecanismos algorítmicos mentais se tornou massificou os numerais hindu-arábicos nas cabecinhas
também inútil, atrasada, vazia e obstaculizadora do infantis - na escola as professoras fazem as crianças repetir
desenvolvimento humano. Este colapso traz a grande várias vezes a grafia dos numerais, fazem-nas andar sobre
questão para a educação dos nossos dias: que homens ela eles; os programas infantis de televisão mostram à exaustão
deve formar agora? Respondemos: homens que saibam "este é o 1, este é o 5 ...", em casa os pais orgulhosos falam

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"meu filho já sabe contar até 50" - é considerado  Por trás desta ilusão está a dura verdade
equivocadamente como aprendizagem numérica. Pelo dos altos índices de repetência, reprovação e rejeição à
contrário, a aprendizagem numérica se inicia com o numeral matemática em nossas escolas confirmados tanto por nossas
objeto, isto é, com os educadores elaborando um movimento experiências e quanto por muitas pesquisas. Enquanto o
pedagógico no qual as crianças criam o numeral objeto. pensamento numérico estiver ausente da visão de mundo do
 A Alfabetização Matemática ou, como educando, este permanecerá um analfabeto em matemática
denominam alguns matemáticos, a Numeralização, é o está na base da visão fragmentadora do ensino de
momento principal de todo o movimento de aprendizagem matemática..
matemática do aluno. Nela o educando deveria aprender a  O conceito numérico não pode ser nem
pensar numericamente no universo do Número Natural. E a transmitido nem treinado; ele tem de ser (re)criado pelo
qualidade, a abrangência e profundidade do pensamento educando. Ou seja, o educando tem que viver ativa e
numérico que aqui se formar, determinará toda a futura intensamente a dinâmica que o trabalho humano viveu na
educação matemática - e não só matemática mas também gestação do conceito numérico. Os momentos significativos
científica, cultural e artística - do educando. deste movimento de criação e, em cada momento, os
 Porém o que ocorre é que os educandos elementos dialéticos desta criação tem que ser combinados
passam por ela na pré-escola e nas séries iniciais sem numa proposta de aula que leve cada aluno e a toda a classe
adquirir pensamento numérico. Ou seja, não são a se organizar e mobilizar todas as suas forças, energias e
alfabetizados. Isto porque se compreende que o aluno capacidade de imaginação para criar o conceito.
alfabetizado é aquele que sabe utilizar números em jogos  A ação pedagógica, portanto, só se dará se
eletrônicos, sabe recitar grandes números, alguns até conseguir efetivamente ganhar o educando para o movimento
escrevê-los, lêem números de telefones, lidam com números de criação humana, se conseguir integrá-lo ativamente neste
decimais em supermercados e shoppings, em resumo, que maravilhoso movimento. A questão do certo e do errado,
sabe escrever, falar e identificar números. E como o aluno desta forma, é totalmente secundária. Ou melhor, muda de
adquiriu estas habilidades? Simplesmente pelo método do plano: o certo não é se o aluno expressou a resposta que
treinamento pelo uso exaustivo em seu meio. Dezenas, queremos dele mas se ele realmente se mobilizou, mais que
centenas, milhares, milhões, bilhões de vezes por dia os isto, se se apaixonou pela questão colocada e se transformou
algarismos foram mostrados a ele. Na sala de aula o um problema que é da humanidade num problema seu.
professor entende que o método de aprender números e  Na criação do conceito numérico
cálculos é o mesmo da vida cotidiana. Mostra o número numa identificamos quatro momentos básicos da aprendizagem:
infinidade de exercícios. Quando muito, inova fazendo o 1. - o senso numérico que todos nós temos
diagnóstico do que já sabe de leitura e escrita do número e (inclusive vários outros animais também o possuem) e que é
continua a partir daí escrevendo e lendo números com as o ponto de partida da aprendizagem;
crianças em exercícios de identificação e aplicação em 2. - o numeral objeto que constitui o primeiro
situações cotidianas. Músicas com números, histórias infantis ato de criação numérica do homem;
com números, jogos educativos não mudam o enfoque de 3. - o numeral repetitivo, o primeiro registro
aprender número lendo e escrevendo e adivinhando regras. escrito numérico humano;
Para casa o aluno leva lições que instigam a repetição e 4. - o numeral semi-repetitivo, a primeira
adivinhação de regras. Na televisão o palhacinho alegre atrai síntese grupal numérica;
com imagens e sons a atenção da criança para o mundo 5. - o numeral abstrato atual, a realização
alegre dos números e das contas. Em casa, papai e mamãe máxima da abstração numérica.
querendo acelerar a aprendizagem dos filhos, ajudam  
repetindo a cantilena da escola e da televisão.
 Qual o sentido maior da educação: mostrar
 Sob tal bombardeio as crianças adquirem, os caminhos ou tornar o homem um rompedor de novos
na verdade, um condicionamento numérico, algo totalmente caminhos? Treiná-lo ou torná-lo um criador? Adaptá-lo ou
distinto de pensamento numérico: sabem manipular os emancipá-lo? Programá-lo ou libertá-lo de todos os
números nos dedinhos, sabem escrever os algarismos, programas e esquemas?
sabem recitar versinhos e cantar musiquinhas de contagem,
 Caros alunos, prestem muita atenção na
sabem identificar os símbolos numéricos e diferenciá-los,
aula. Se tiverem alguma dúvida, perguntem imediatamente.
mas não sabem pensar numericamente.
Não percam o "fio da meada" caso contrário perderão a
 Este condicionamento numérico é meada toda. Não se distraiam nem conversem com os
concebido como aprendizagem "via socialização". Os colegas pois hoje aprenderemos uma matéria nova, muito
professores partem de uma falsa suposição de que o aluno já importante. Trata-se de logaritmo:
está de posse do conceito numérico quando, na realidade, o - Seja dado ac = b; chamamos de logaritmo de b na
máximo que possuem é o senso numérico, algo instintivo que base a ao número c. Entenderam?
nada tem a ver com pensamento. - Agora prestem atenção ao exemplo-modelo que eu
 A ausência do pensamento numérico vou resolver na lousa:
determinará a "aprendizagem" matemática posterior que não - Para calcular o logaritmo de 8 na base 2
passará de uma "construção" feita com pré-moldados: cada decompomos 8 no fator 2, o que resulta 23.
bloco é fabricado numa matriz separada e todo problema se - Como 23 = 8 resulta que o logaritmo de 8 na base
reduz à questão do encaixe. Desta forma, a aprendizagem 2 é 3.
algébrica acontecerá de forma totalmente independente do - Entenderam? Agora façam todos os exercícios da
conceito numérico e a aprendizagem do cálculo analítico página 40 do livro. Não tem mistério: é só fazer igualzinho ao
acontecerá como um processo em si mesmo. Tudo enfim, se modelo que está na lousa.
reduzirá a um treinamento de regras e procedimentos: o  O que vimos acima é uma típica aula de
sistema decimal, as operações e seus algoritmos, a estrutura matemática que acontece em quase todas as salas de aula
dos conjuntos numéricos, a expansão numérica e todos os do mundo, do pré-primário ao doutorado:
outros conceitos que têm suas bases de formação no - O conceito surge do nada, do éter ("matéria nova,
número. muito importante");
- Magicamente é apresentado ("Seja dado");
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- Ele é então "mostrado" do mesmo modo que é eram levadas pela "máquina humana". Esta, portanto, tornou-
apresentado uma máquina ("logaritmo é ..."); se desnecessária. Não é mais necessário reduzir o trabalho
- Mostra-se como ele "funciona" na prática ("Como humano a trabalho mecânico e repetitivo; não é mais preciso
23 = 8 resulta que logaritmo de 8 na base 2 é 3"); transformar o homem em máquina sem pensamento; não é
- A partir daí é com o aluno; quanto mais exercício mais necessário, portanto, treinar e adestrar o homem. A
fizer "observando o modelo", quanto mais treinar, mais micro-eletrônica e a informática possibilitam a substituição de
"dominará o conceito". toda a atividade mecânica humana, tornando desnecessária
 Existe alguma diferença entre esta a sociedade do trabalho mecânico.
"aprendizagem" e a de como operar uma máquina qualquer?  Esta é a razão do esgotamento da
Do mesmo modo que você aprende a dirigir um carro, a jogar pedagogia do treinamento/adestramento. O esquema
basquete, a operar o painel de um computador, a apertar os tradicional do professor falando e mostrando e do aluno
botões de uma prensa hidráulica, você aprende a lidar ou prestando atenção, anotando e fazendo extensamente
melhor, "manipular" um conceito. Trata-se da aprendizagem "exercícios" (realmente, esta é a palavra certa: "exercícios")
do tipo "mostrar, praticar e treinar" que não se restringe só ao repetidos e sem criatividade transformou-se numa sucata e
aprendizado de matemática. Todas as ciências, linguagens, sem sentido. Enfim, a chamada pedagogia tradicional
formas artísticas e culturais são "ensinadas" com esta esgotou-se definitivamente.
"metodologia". Manipular o conceito, ao contrário de pensar  O esgotamento das pedagogias tradicionais
com ele: este é o resultado desta pedagogia. O conceito não abriu, nos tempos atuais, um amplo leque de tentativas e
ultrapassa os limites das mãos e só chega ao cérebro na alternativas pedagógicas. Todas tentam responder a questão
forma de condicionamento. Chamamos esta "pedagogia" de central: como levar o aluno à aprendizagem do conhecimento
"Pedagogia" do Treinamento que supere o treinamento/adestramento?
 O sistema de ensino, em quase sua  Foi Piaget um dos primeiros estudiosos a
totalidade, está estruturado para o levantar a necessidade da aprendizagem acontecer através
treinamento/adestramento do aluno. Trata-se da do processo de "criação" do conceito. Ao enfatizar que
característica fundamental do que se convencionou chamar conhecimento não se "transfere" nem se "transmite"; que
de pedagogia tradicional. Isto se dá de forma muito simples, ninguém substitui o educando no movimento que este realiza
direta e espontânea. O treinamento/adestramento do aluno ao (re)criar o conceito; que a ação do professor não é de
por parte do professor é a forma mais fácil, cômoda e "dar" ou mostrar o conhecimento ao educando mas sim de
acessível de se "dar aula". Não é, pois à toa que os organizar o processo educativo de modo que o educando o
professores "praticam esta pedagogia" maciça, espontânea e elabore, num esforço próprio; Piaget apontava o objetivo
inconscientemente. Transferida de pai para filho, de geração básico do movimento pedagógico: trata-se de transformar o
para geração, de professor para aluno, por séculos e séculos educando num agente autônomo. Esta é a essência do que
de condicionamentos e tabus, esta "metodologia" do se costumou chamar de construtivismo.
treinamento/adestramento é "ensinada" e "apre(e)ndida"  Porém, por que o construtivismo é tão difícil
junto com os conceitos que busca "ensinar". Desta forma, se tornar uma prática pedagógica? Por que não terá
junto com o treinamento em logaritmo, o aluno "aprende" ultrapassado ainda a condição de metodologia em
também a agir e pensar sob regras (ou seja, é adestrado de experimentação, apesar de seus mais de 50 anos de vida? A
modo a não criar e não pensar autonomamente) e a "ensinar nosso ver quatro são as razões fundamentais que distanciam
adestrando". o princípio correto da busca da autonomia da prática
 Porque todos nós, professores, alunos, pedagógica generalizada:
pedagogos, psicólogos, artistas, músicos, pais, mães,  . Em primeiro lugar Piaget não desvendou o
trabalhadores, enfim, homens e mulheres do mundo inteiro laço de compromisso entre a "pedagogia" do
somos tão irresistivelmente atraídos por esta "anti-pedagogia" treinamento/adestramento com a sociedade do trabalho
? Porque todos nós, de Nova York à Cingapura, de Tóquio ao mecânico. E, desta forma, não foi até elucidação dos
Alegrete, vivemos numa mesma sociedade: a Sociedade do condicionantes sociais que amarravam a aprendizagem. Com
Trabalho Mecânico. Trata-se de uma forma de organização isto sua crítica não ultrapassou à localização dos efeitos
social que tem como elemento principal e característico a nocivos da "aprendizagem" mecânica o que, certamente, não
redução do homem à condição de máquina produtiva. foi pouca coisa.
 Já vimos, anteriormente, como a nossa  . Com tal limitação de origem, o
civilização, desde os seus primórdios com o surgimento das construtivismo obrigou-se a conceber o processo da
primeiras formações sociais mais complexas - as egípcia, aprendizagem como algo que acontecia individualmente e,
babilônica, persa, chinesa, hindu, etc. - tem se desenvolvido mais que isto, como a evolução do pensamento por fases e
com base no uso, cada vez mais intenso e extenso, da etapas dadas mais por condições genéticas do que sociais e
máquina humana. E em nosso século essa redução do históricas.
trabalho humano ao seu aspecto mecânico e repetitivo atingiu
 . Tais etapas evolutivas do pensamento,
o seu ponto máximo. Chegou-se, assim, ao extremo de que
assim concebidas, tornaram-se abstratas e puramente
em todos os cantos do planeta, a todo segundo, todos os
lógicas. O caminho para atingi-las tornou-se misterioso e
homens e mulheres passaram a viver condições de vida que
nebuloso. A organização do processo educativo ficou sem
atuam no sentido de transformá-los em máquinas produtivas.
nenhum princípio orientador a não ser pistas muito gerais e
E a educação, a mais humana das atividades sociais, devido
complexas. Para alcançar um determinado conceito o aluno
exatamente a esta condição, sofreu uma brutal reversão de
teria que passar por várias operações abstratas anteriores
sua dinâmica e de seus fins. De atividade libertadora do
sacadas exclusivamente da lógica formal. O conceito é
homem transformou-se em escravizadora, buscando formar a
percebido como o produto mágico do formalismo lógico.
máquina humana ao invés do homem senhor do seu destino
e, portanto, das máquinas.  . O resultado mais comum do
 Atualmente vivemos um período em que as construtivismo para o processo de sala de aula é uma
espécie de maêutica socrática que vêm na forma de estudo
condições que geraram esta pedagogia estão se
dirigido ou programado onde o professor organiza todo o
transformando. A revolução técnica possibilita a criação de
movimento educativo no sentido de se chegar a uma
máquinas programáveis para todas as atividades que antes
resposta esperada. Os blocos lógicos, os jogos de
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aprendizagem, todos já vêm organizados para dar a  Frente ao problema novo, o inesperado, o
"resposta certa" ao aluno que vem envolvida na ilusão de que trabalho humano mobiliza suas forças mentais para criar um
este que "construiu" a resposta. novo plano de ação, um novo conceito que, na verdade, se
 As críticas de Vigotsky apontam direta e constituirá como uma ampliação e aprofundamento do
certeiramente para as duas primeiras lacunas do conceito anterior. Trata-se de um momento significativo de
construtivismo. Tanto que os modernos teóricos desta evolução deste conceito, o momento em que o conceito
concepção já a concebem sob a dupla ótica de Piaget e saltará para uma qualidade superior. A criação deste salto
Vigotsky. Ainda assim há um traço de espontaneismo em qualitativo conceitual é o momento supremo de criação
Vigotsky onde ele percebe o social educando diretamente e humana, o momento de afirmação máximo do aspecto
criando uma base para aprendizagem escolar. Esta humano do trabalho. Estamos, aqui, no momento máximo de
"educação espontânea" pode ser também uma ação da tensão criativa, no qual o trabalho humano dá um passo à
sociedade do trabalho mecânico adestrando e treinando os frente, numa região anteriormente desconhecida e escura
homens para o trabalho abstrato. Falta, portanto, a superação para a consciência humana.
do seu logicismo formal que resulta na maêutica socrática e  Ao defrontar-se com o inesperado, o
no dirigismo "oculto" que apontamos. Ou seja, falta substituir trabalho humano negou o conceito anterior pois ele o levava
este logicismo formal, elemento essencial da pedagogia do a erros. Porém a criação conceitual que resolve o problema
treinamento, pela lógica dialética. A pedagogia conceitual que não parte do nada. Vêm exatamente da reelaboração deste
propomos toma o elemento central do construtivismo conceito anterior, só que agora numa qualidade mais
piagetiano, a busca da autonomia criativa do educando, o abrangente e profunda. Desta forma, com o conceito recriado
contexto social da compreensão de Vigotsky e, sob esta numa qualidade superior tem-se a superação da negação do
ampla e rica base pedagógica acrescenta o movimento primeiro conceito. O fio histórico da evolução do conceito é,
dialético do conceito como caminho da aprendizagem. portanto, retomado com as rupturas das situações
 O conceito, qualquer que seja - número problemáticas sendo concebidas como momentos da
natural, número racional, equação, função, força, aceleração, continuidade da evolução conceitual.
célula, modo de produção, espaço, etc. - é, acima de tudo,  A recriação do conceito num patamar
produto coletivo, social e histórico do movimento do trabalho superior vai implicar numa revisão de todos os aspectos da
humano. E, como tal, o conceito é sempre síntese do trabalho vida que serão repensados a partir da nova lógica criada.
humano. A sua evolução, os seus momentos sucessivos no Temos aqui a reordenação lógica do pensamento, isto é, dos
sentido de uma amplitude e profundidade maiores são planos de ação, que serão enriquecidos com a utilização do
marcados por uma essencial identidade com a própria novo conceito.
evolução do trabalho humano. Desta forma a linha de criação  Este amplo movimento de criação
de um conceito é idêntica à dialética do trabalho humano, conceitual, ao ser vivenciado plenamente pelo homem em
sendo por esta determinada. trabalho criativo, provoca um sensível avanço de sua
 Esta identidade entre o conceito e o consciência. O homem ativo e criador se autolocaliza como
trabalho humano é a chave para desvendar o "misterioso" um participante de um amplo, vasto, coletivo, social e
caminho da formação do conhecimento e, portanto, da histórico movimento de criação da própria humanidade: o
aprendizagem. Esta não é a emergência e a explicitação de movimento do trabalho humano.
um conteúdo absoluto que todos já possuem ao nascerem,  Tal dinâmica é marcada, do começo ao fim,
como pretende a maêutica socrática e os chamados estudos pelos elementos dialéticos - o movimento permanente, a luta
dirigidos e programados inspirados nela; também não é uma dos contrários, a negação da negação, o salto qualitativo, a
sucessão de estruturas lógicas pré-determinadas, auto- lógica formal como momento da lógica dialética, etc.
suficientes e auto-explicativas que se organizam na lógica
formal dos chamados "pré-requisitos". O caminho da
 A pedagogia conceitual identifica a
dinâmica de aprendizagem de um conceito com esta
aprendizagem é, fundamentalmente, o caminho da evolução
dinâmica do trabalho humano. Ou seja, os momentos
do conceito concebido como síntese da evolução do trabalho
combinados da criação do trabalho humano coincidem com
humano.
os momentos combinados do processo de aprendizagem de
 O trabalho humano se movimenta na um conceito. Desta forma o processo pedagógico para a
contradição, na luta entre dois aspectos antitéticos: de um aprendizagem de um conceito deve ser organizado a partir
lado o aspecto mecânico, repetitivo, anti-humano de puro da dinâmica histórica da evolução deste conceito, o que
dispêndio de força física sem pensamento; de outro lado o significa efetivar os seguintes passos:
aspecto verdadeiramente humano de elaboração de planos - retomar a história do conceito, nela distinguir os
de ação, isto é, de criação de conceitos. momentos ricos e significativos dos saltos qualitativos;
 Acompanhemos o processo geral de - tais momentos marcam a plenitude da criação
criação humana de conceitos. Em sua atividade de conceitual e, portanto, são fundamentais para o movimento
transformar a natureza para nela criar as condições humanas da aprendizagem;
de vida, portanto de humanizar a natureza, o trabalho sobre - cada um destes momentos constitui um
certo aspecto natural defronta-se com uma situação nova, o subconceito, isto é, um patamar da evolução do conceito;
inesperado. Este não fazia parte do seu plano de ação até desta forma, o processo educativo de aprendizagem
então; o conceito que o homem tinha produzido para lidar do conceito - objetivos instrucionais, estratégias, material
com este aspecto natural apresenta-se insuficiente, limitado, pedagógico, atividades, avaliação - deve ser organizado, em
para orientar a ação humana. O que era um conceito, um primeiro lugar, a partir da localização daqueles subconceitos
plano de ação, passa a ser um anti-conceito, um anti- ou patamares cuja sucessão expressa o movimento do
conhecimento, pois com ele o homem passa a trabalhar conceito; em segundo lugar os planos de aula devem ser
erroneamente. elaborados em cada patamar a partir da combinação das
 Pressionado pelos erros de sua ação, o atividades de criação do trabalho humano.
homem se conscientiza de que está diante de uma resposta  A pedagogia conceitual, em sua crítica a
inadequada, que está diante de um problema novo para o "pedagogia" do treinamento/adestramento, compreende que
qual ainda não tem solução. Desta forma o homem se a única forma de escapar da trava da manipulação mecânica
autolocaliza no movimento de evolução do conceito. do conceito está na aprendizagem pela via da criação do
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conceito. E esta via não precisa ser "inventada" nem sacada Duas opiniões suportando o que acabamos de
do nada; ela já está dada pela própria dinâmica criativa do colocar:
trabalho humano. O movimento pelo qual o homem criou o  Se as leis da Matemática aplicam-se a
seu próprio pensamento é o único que, na sua forma realidade, não estou certo. E se elas são certas, elas não
sintético-pedagógica, possibilitará a aprendizagem do próprio aplicam-se a realidade.
pensamento. ( Albert Einstein, em Geometry and Experience.)
 Trata-se aqui, não da aprendizagem do  O que observamos não é propriamente a
conteúdo formal. Ao apr(e)ender um conceito pela via da sua Natureza, mas sim a Natureza revelada ao nosso método de
identidade com o trabalho humano, o educando aprende a questionamento.
pensar dialeticamente, aprende a criar e, acima de tudo, (Werner Heisenberg, em Physics and Philosophy).
apr(e)ende o próprio movimento do trabalho humano: o Um currículo de matemática baseado em paradigma
movimento em que o homem criou e cria a si próprio. descritivo , em vez de um paradigma prescritivo, ainda está
por ser desenvolvido.

2) O ENSINO E APRENDIZAGEM DA
MATEMÁTICA E SUAS IMPLICAÇÕES TEÓRICAS  A Matemática prepara para a cidadania !
O preparo do cidadão envolve o desenvolvimento de
habilidades profissionais. Muitas dessas dependem de
POR QUE ENSINAR MATEMÁTICA? matemática.
Essa, sem dúvida, é uma justificativa mais do que
As mentiras que dizemos acerca de nossos deveres e suficiente para ensinarmos matemática. Eu acrescentaria que
propósitos, os estudantes devem, também, adquirir habilidades
as palavras sem sentido da Ciência e Filosofia, relacionadas com o gerenciamento responsável de suas
são paredes que caem ante um pequenino "Por quê?". finanças pessoais. Em adição, para que possa participar
John Steinbeck das decisões políticas cada vez mais comuns na sociedade
The Log from the Sea of Cortez moderna, é necessário um certo nível de entendimento de
conceitos estatísticos e econômicos.
Essa matemática apropriada para o preparo da
A Matemática é útil ! cidadania não é ensinada no nosso sistema escolar. Sob a
denominação de Consumer Mathematics, tópicos
Esta é uma muito citada razão para ensinarmos modificados ( leia-se "diluídos" ) desse tipo começam a ser
Matemática. Ninguém se atreveria a dizer o contrário. oferecidos, nos USA e Canada, para alunos que não
As perguntas que precisam ser respondidas, pretendem ingressar na universidade.
contudo, são: Entre o que estuda-se nos secundário há pré-
 A matemática que ensinamos foi requisitos para tópicos essenciais encontrados na educação
selecionada de acordo com esse critério? universitária ou vocacional. Estudantes que esperam fazer
e, a resposta sendo sim , há mais esta: estudos pós-secundários, em escolas técnicas ou
 Alguém, recentemente, reexaminou o universidades, sabem que boas notas nas disciplinas de
presente currículo tendo em vista o citado critério? matemática do secundário são fundamentais para o ingresso
nessas instituições. A tendência é de nem ser mais suficiente
ter "boas notas", é cada vez mais importante ter as "melhores
Se examinarmos as aplicações que aparecem nas notas".
listas de exercícios de nossos livros textos, veremos que não Mas é também verdade que as pessoas
pode-se acreditar que nossos currículos tenham sido responsáveis pelos exames vestibulares sabem que a
selecionados em termos de plausíveis utilidades. Matemática é um eficiente filtro. E eles até defendem-se
Implícito na cultura ocidental está a noção de que a alegando que quem teve bom desempenho em Matemática
Natureza é regida por leis matemáticas. A crença no demonstrou capacidade de aprender e é, consequentemente,
Determinismo nos faz crer que se conhecermos as leis capaz de sair-se bem em outros assuntos. Isso
( matemáticas ) da Natureza, bastará alimentá-las com provavelmente é verdadeiro; mas será que não é demasiado
dados/medidas para podermos ficar conhecendo o futuro. desperdício e será que não existe outro critério com maior
Causa e previsível efeito. Mais do que isso, as formas correlação com o sucesso?
naturais imitariam a perfeição das figuras euclidianas, como Uma das coisas que torna a Matemática
círculos e triângulos. Nas palavras de Galileo Galilei: Deus especialmente atrativa com filtro é sua alta capacidade de
escreveu o Universo usando a linguagem matemática. discriminar entre respostas certas e erradas. Isso lhe dá uma
Consequentemente, o entendimento da Matemática é pré- aura de instrumento altamente preciso.
requisito para o entendimento, apreciação e controle da De qualquer modo, como os vestibulares de vários
Natureza. tipos envolvem prova de conhecimento de matemática do
Na verdade, Deus deve ter escrito o Universo em secundário, todo o currículo do secundário acabou gravitando
linguagem matemática, mas está ficando cada vez mais em torno disso. Resultado: formação cultural,
evidente que para isso ele não usou as equações e desenvolvimento da capacidade de pensar e resolver
fórmulas estudas no primário e secundário. Essas problemas, utilidade na vida do cotidiano, entendimento
suposições implicam que os fenômenos naturais são dos fenômenos naturais, e a cidadania consciente e
descritos por funções deriváveis, e isso não corresponde ao informada NADA TEM A VER com tal currículo.
que se mede e observa nos laboratórios e no campo. Apesar do pequeno percentual de estudantes que
Ademais, já é de algum tempo que os matemáticos aplicados completam estudos pós-secundários, muitas vezes em
sabem que a Matemática não rege a Natureza; ela apenas a campos envolvendo nenhuma matemática, o currículo do
descreve e isso de modo bastante grosseiro. Descobertas primário e secundário é determinado em função do que as
recentes, como a caoticidade, enterraram bem fundo o instituições pós-secundárias exigem em seus exames de
Determinismo Clássico. admissão. E isso é tudo.

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O que é deplorável é que muito pouco do artigo


A Nova Nova Matemática tenha tratado da incompetência das duas professoras que
revelaram-se enormemente ignorantes, e que, ao contrário,
.......O novo modismo da Nova Nova Matemática é fortemente tenham elogiado Sandra e Valérie por terem achado modos
baseado no multiculturalismo, ambientalismo e de fazer com que seus alunos trabalhassem alegremente nos
feminismo. Essas tendências recebem enorme atenção em problemas. Não é por nada que alguns chamam a Nova Nova
cada um dos 28 artigos do yearbook para 1 997 do NCTM Matemática de "fuzzy". Qualquer tentativa de trabalho é
(&National Council of Teachers of Mathematics ), entitulado: considerada significante, mesmo quando errada.
Multicultural and Gender Equity in the Mathematical
Classroom. The Gift of Diversity. O assim chamado Pythagoras
É até difícil refutar o material do livro, uma vez que a O que se segue é uma tradução não autorizada de
maioria dos professores que escreveram seus capítulos usam trechos do artigo The so called Pythagoras, de John Leo,
um linguajar estonteante. As palavras mais usadas no livro publicado no US News & World Report, em 26 de maio de 1
são "multiculturalismo" e "equidade". A palavra "equidade", 997 )
que simplesmente indica que deva-se tratar todos os grupos A Nova Nova Matemática, como as vezes é
étnicos igualmente e que não deva-se favorecer um sexo chamada, tem grandes objetivos: deixar de lado o ensino
sobre o outro, deve aparecer no mínimo mil vezes no livro. A voltado para os exercícios e ajudar os alunos a entender e
frase típica seguinte abre o capítulo onze: "A pedagogia gostar dos conceitos matemáticos. Contudo, na prática, tem
feminista pode ser importante parte da construção de um sido um amontoado de bobagens. A exercicitação é trocada
ambiente escolar multicultural e com equidade de gênero". pela teoria e pela ideia de que os alunos não devem ser
receptores passivos de regras, mas sim descobridores,
Amostras do que eles fazem na sala de aula gentilmente guiados pelos professores, os quais são co-
No Elementary School Journal, Vol. 93 ( 1 992 ), E. aprendizes e não autoridades com lições a ensinar.
T. Putnam e outros três autores entusiastas da Nova Nova Respostas corretas também não são importantes. Alguns
Matemática publicaram o artigo Teaching Mathematics for opositores chamam isso de Matemática Integral, pois os
Understanding No mesmo, eles resumem observações sobre alunos frequentemente acabam adivinhando as respostas, de
o trabalho de aula de quatro professores de 5a série. Dois um modo similar ao que ocorre no modismo do Inglês
dos professores, Sandra e Valérie, são entusiastas das novas Integral, onde os alunos tentam adivinhar palavras que não
técnicas matemáticas. Os outros dois usam métodos conseguem pronunciar.
tradicionais. Em verdade, esses vagos objetivos incluem
Sandra é muito hábil em fazer com que os alunos atividades de aula que pouco tem a ver com matemática,
trabalhem em grupos. Contudo, num exercício ela mostra aos ( por exemplo ), no livro Secondary Math: an integrated
alunos que para se obter o perímetro de um campo approach, focus on Algebra temos a poesia de Maya
retangular se multiplica o comprimento pela largura! Em outro Angelou, fotos do Presidente Clinton e de gravuras africanas
projeto ela calcula o volume de uma caixa de areia em madeira, sermões sobre nossos pecados ambientais, e
multiplicando seu comprimento e largura expressos em mais fotos de alunos chamados Tatuk e Estéban dando
jardas, e então multiplicando esse produto pela altura da conselhos sobre a vida. Também contém elogios à mulher de
caixa expressa em pés! Em uma entrevista, Sandra conta Pythagoras e faz profundas perguntas como "qual papel
que enquanto trabalhando no problema da caixa de areia, os devem desempenhar os zoológicos em nossa sociedade?".
alunos lhe perguntaram o que era um pé cúbico. Disse ela: Contudo, equações só aparecem na página 165, e a primeira
"V. sabe, o fato é que eu não sabia responder essa pergunta. vez que uma equação de primeiro grau é resolvida ocorre na
Mas eu pensei e pensei, e então me lembrei de como se página 218 e a resolução é feita por tentativas........
mede um cubo". Nem Sandra e nem seus alunos se deram Pior ainda, a Nova Nova Matemática adotou o
conta de seus dois erros imensos. Apesar desses erros, os clássico cozido de obsessões das faculdades de educação
autores do artigo declaram Sandra ser "uma professora sobre sentimentos, auto-estima e toda uma agenda de itens
exemplar". Sandra é louvada por conseguir que seus alunos politicamente corretos.
sintam prazer em seu esforço cooperativo para resolver ..........A Nova Nova Matemática tornou-se um
problemas "no contexto de situações problema do mundo veículo para o agressivo multiculturalismo que se alastra
real". Achar uma resposta correta era menos importante pelas escolas. O material produzido pelo NCTM ( National
do que sentir satisfação em trabalhar no problema. Council of teachers of Mathematics ), que está suportando a
Valérie fez um erro igualmente abismal. A tarefa era Matemática Integral, está cheio de sugestões para
achar o número médio de vezes que seus trinta estudantes implementar o multiculturalismo nas aulas de matemática. A
tinham tomado sorvete nos últimos oito dias. Isso foi Nova Nova Matemática, consequentemente, também
"resolvido" dividindo 30 por 8, obtendo-se 3,75 que foi vagamente endossa o alegado novo campo da
arredondado para 4! Etnomatemática. A maioria de nós pode pensar que a
Como ocorreu com Sandra, nem Valérie e nem seus Matemática é uma disciplina abstrata e universal, que pouco
alunos deram-se conta que sua resposta estava tem a ver com etnicidade. Mas os etnomatemáticos, que
completamente errada. Apesar disso, os autores do artigo lhe estão muito ocupados fazendo congressos e escrevendo
perdoam o erro sob a justificativa de que Valérie foi muito livros, afirmam que as pessoas tem uma matemática natural
hábil em fazer com que os alunos usassem suas a qual está vinculada à sua cultura. A matemática do Mundo
experiências. Mais ainda, ela teria conseguido impressionar Ocidental, por exemplo, não é universal mas apenas uma
os alunos com "a utilidade e a relevância das médias". O fato expressão da cultura dos brancos sobre os não-brancos.
que a professora e os alunos tenham falhado completamente Muito disso vem acompanhado por ataques ao
no cálculo da tal média é apenas um detalhe... eurocentrismo. Num livro de ensaios sobre Etnomatemática
Quanto a Jim e Karen, os dois professores que inicia-se lembrando que a Europa não existe, pois é apenas
usaram métodos de ensino clássicos, os autores do artigo uma península do continente Eurasiano.
não se impressionam pelo fato de que os respectivos alunos Boa parte do livro é gasta insistindo que povos sem
tenham saído-se bem em testes. Ambos são castigados por escrita tinham vários tipos de manifestações matemáticas, de
não apreciarem os métodos da Nova Nova Matemática. padrões de tecelagem a um osso africano com riscos que
deviam ter sido usados para contagem.
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Tudo não passa de tolices, mas é onde o Com efeito, sabemos que existem diferentes
multiculturalismo anda agora. A menos que V. vá estudar em propostas de trabalho que possuem materiais com
uma escola de engenharia que use ábacos Yoruba, ou a características muito próprias, e que os utilizam também de
menos que V. costume verificar seu talão de cheques ao forma distinta e em momentos diferentes no processo ensino-
estilo dos índios navajos, provavelmente o melhor a fazer aprendizagem.
seja ignorar esse tipo de coisas. Qual seria a razão para a existência desta
diversidade?
Na verdade, por trás de cada material, se esconde
Uma reflexão sobre o uso de materiais concretos uma visão de educação, de matemática, do homem e de
e jogos no Ensino da Matemática mundo; ou seja, existe, subjacente ao material, uma proposta
As dificuldades encontradas por alunos e pedagógica que o justifica.
professores no processo ensino-aprendizagem da O avanço das discussões sobre o papel e a natureza
matemática são muitas e conhecidas. Por um lado, o aluno da educação e o desenvolvimento da psicologia, ocorrida no
não consegue entender a matemática que a escola lhe seio das transformações sociais e políticas contribuíram
ensina, muitas vezes é reprovado nesta disciplina, ou então, historicamente para as teorias pedagógicas que justificam o
mesmo que aprovado, sente dificuldades em utilizar o uso na sala de aula de materiais "concretos" ou jogos
conhecimento "adquirido", em síntese, não consegue fossem, ao longo dos anos, sofrendo modificações e tomando
efetivamente ter acesso a esse saber de fundamental feições diversas.
importância. Até o séc. XVI, por exemplo, acreditava-se que a
O professor, por outro lado, consciente de que não capacidade de assimilação da criança era idêntica ã do
consegue alcançar resultados satisfatórios junto a seus adulto, apenas menos desenvolvida. A criança era
alunos e tendo dificuldades de, por si só, repensar considerada um adulto em miniatura. Por esta razão, o
satisfatoriamente seu fazer pedagógico procura novos ensino deveria acontecer de forma a corrigir as deficiências
elementos - muitas vezes, meras receitas de como ensinar ou defeitos da criança. Isto era feito através da transmissão
determinados conteúdos - que, acredita, possam melhorar do conhecimento. A aprendizagem do aluno era considerada
este quadro. Uma evidência disso é, positivamente, a passiva, consistindo basicamente em memorização de
participação cada vez mais crescente de professores nos regras, formulas, procedimentos ou verdades localmente
encontros, conferências ou cursos. organizadas. Para o professor desta escola - cujo o papel era
São nestes eventos que percebemos o grande o de transmissor e expositor de um conteúdo pronto e
interesse dos professores pelos materiais didáticos e pelos acabado - o uso de materiais ou objetos era considerado pura
jogos. As atividades programadas que discutem questões perda de tempo, uma atividade que perturbava o silêncio ou a
relativas a esse tema são as mais procuradas. As salas ficam disciplina da classe.
repletas e os professores ficam maravilhados diante de um Os poucos que os aceitavam e utilizavam o faziam
novo material ou de um jogo desconhecido. Parecem de maneira puramente demonstrativa, servindo apenas de
encontrar nos materiais a solução - a fórmula mágica- para os auxiliar a exposição, a visualização e memorização do aluno.
problemas que enfrentam no dia-a-dia da sala de aula. Exemplos disso são: o flanelógrafo, as réplicas grandes em
O professor nem sempre tem clareza das razões madeira de figuras geométricas, desenhos ou cartazes
fundamentais pelas quais os materiais ou jogos são fixados nas paredes... Em síntese, estas constituem as bases
importantes para o ensino-aprendizagem da matemática e, do chamado "Ensino Tradicional" que existe até hoje em
normalmente são necessários, e em que momento devem ser muitas de nossas escolas.
usados. Já no séc. XVII, este tipo de ensino era questionado.
Geralmente costuma-se justificar a importância Comenius (1592-1671) considerado o pai da Didática, dizia
desses elementos apenas pelo caráter "motivador" ou pelo em sua obra "Didática Magna" (1657) que "...ao invés de
fato de se ter "ouvido falar" que o ensino da matemática tem livros mortos, por que não podemos abrir o livro vivo da
de partir do concreto ou, ainda, porque através deles as aulas natureza? Devemos apresentar a juventude as próprias
ficam mais alegres e os alunos passam a gostar da coisas, ao invés das suas sombras" (Ponce, p.127).
matemática. No séc. XVIII, Rousseau (1727 - 1778), ao
Entretanto, será que podemos afirmar que o material considerar a Educação como um processo natural do
concreto ou jogos pedagógicos são realmente indispensáveis desenvolvimento da criança, ao valorizar o jogo, o trabalho
para que ocorra uma efetiva aprendizagem da matemática? manual, a experiência direta das coisas, seria o percursor de
Pode parecer, a primeira vista, que todos concordem uma nova concepção de escola. Uma escola que passa a
e respondam sim a pergunta. Mas isto não é verdade. Um valorizar os aspectos biológicos e psicológicos do aluno em
exemplo de uma posição divergente é colocada por Carraher desenvolvimento: o sentimento, o interesse, a
& Schilemann (1988), ao afirmarem, com base em suas espontaneidade, a criatividade e o processo de
pesquisas, que "não precisamos de objetos na sala de aula, aprendizagem, as vezes priorizando estes aspectos em
mas de objetivos na sala de aula, mas de situações em que a detrimento da aprendizagem dos conteúdos.
resolução de um problema implique a utilização dos Ë no bojo dessa nova concepção de educação e de
princípios lógico-matemáticos a serem ensinados" (p. 179). homem que surgem, primeiramente, as propostas de
Isto porque o material "apesar de ser formado por objetivos, Pestalozzi (1746 - 1827) e de seu seguidor Froebel (1782 -
pode ser considerado como um conjunto de objetos 1852). Estes foram os pioneiros na configuração da "escola
'abstratos' porque esses objetos existem apenas na escola, ativa". Pestalozzi acreditava que uma educação seria
para a finalidade de ensino, e não tem qualquer conexão com verdadeiramente educativa se proviesse da atividade dos
o mundo da criança" (p. 180). Ou seja, para estes jovens. Fundou um internato onde o currículo adotado dava
pesquisadores, o concreto para a criança não significa ênfase à atividades dos alunos como canto, desenho,
necessariamente os materiais manipulativos, mas as modelagem, jogos, excursões ao ar livre, manipulação de
situações que a criança tem que enfrentar socialmente. objetos onde as descrições deveriam preceder as definições;
As colocações de Carraher & Schilemann nos o conceito nascendo da experiência direta e das operações
servem de alerta: não podemos responder sim aquelas sobre as coisas.
questões sem antes fazer uma reflexão mais profunda sobre
o assunto.
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Posteriormente, Montessori (1870 - 1952) e Decroly Os Métodos de ensino enfatizam, além de técnicas
(1871 - 1932), inspirados em Pestalozzi iriam desenvolver de ensino como instrução programada (estudo através de
uma didática especial (ativa) para a matemática. fichas ou módulos instrucionais) o emprego de tecnologias
A médica e educadora italiana, Maria Montessori, modernas audiovisuais (retroprojetor, filmes, slides ...) ou
após experiências com crianças excepcionais, desenvolveria, mesmo computadores.
no início deste século, vários materiais manipulativos Os jogos pedagógicos, nesta tendência, seriam mais
destinados a aprendizagem da matemática. Estes materiais, valorizados que os materiais concretos. Eles podem vir no
com forte apelo a "percepção visual e tátil", foram início de um novo conteúdo com a finalidade de despertar o
posteriormente estendidos para o ensino de classes normais. interesse da criança ou no final com o intuito de fixar a
Acreditava não haver aprendizado sem ação: "Nada deve ser aprendizagem e reforçar o desenvolvimento de atitudes e
dado a criança, no campo da matemática, sem primeiro habilidades.
apresentar-se a ela uma situação concreta que a leve a agir, Para Irene Albuquerque (1954) o jogo didático
a pensar, a experimentar, a descobrir, e daí, a mergulhar na "..,serve para fixação ou treino da aprendizagem. é uma
abstração" (Azevedo, p. 27) variedade de exercício que apresenta motivação em si
Entre seus materiais mais conhecidos destacamos: mesma, pelo seu objetivo lúdico... Ao fim do jogo, a criança
"material dourado", os "triÂngulos construtores" e os "cubos deve ter treinado algumas noções, tendo melhorado sua
para composição e decomposição de binômios, trinômios". aprendizagem" (p. 33)
Decroly, no entanto, não põe nada na mão da Veja também a importância dada ao jogo na
criança materiais para que ela construa mas sugere como 'formação educativa' do aluno "... através do jogo ele deve
ponto de partida fenômenos naturais (como o crescimento de treinar honestidade, companheirismo, atitude de simpatia ao
uma planta ou a quantidade de chuva recolhida num vencedor ou ao vencido, respeito as regras estabelecidas,
determinado tempo, para por exemplo, introduzir medições e disciplina consciente, acato às decisões do juiz..." (Idem, p.
contagem). Ou seja, parte da observação global do fenômeno 34)
para, por análise, decompô-lo. Esta diversidade de concepções acerca dos
Castelnuovo (1970) denomina o método Decroly de materiais e jogos aponta para a necessidade de ampliar
"ativo - analítico" enquanto que o de Montessori de "ativo - nossa reflexão.
sintético" (sintético porque construtivo). Em ambos os Queremos dizer que, antes de optar por um material
métodos falta, segundo Castelnuovo, uma "certa coisa" que ou um jogo, devemos refletir sobre a nossa proposta político-
conduz a criança à indução própria do matemático. é com pedagógica; sobre o papel histórico da escola, sobre o tipo de
base na teoria piageteana que aponta para outra direção: A aluno que queremos formar, sobre qual matemática
ideia fundamental da ação é que ela seja reflexiva..."que o acreditamos ser importante para esse aluno.
interesse da criança não seja atraído pelo objeto material em O professor não pode subjugar sua metodologia de
si ou pelo ente matemático, senão pelas operações sobre o ensino a algum tipo de material porque ele é atraente ou
objeto e seus entes. Operações que, naturalmente, serão lúdico. Nenhum material é válido por si só. Os materiais e seu
primeiro de caráter manipulativo para depois interiorizar-se e emprego sempre devem, estar em segundo plano. A simples
posteriormente passar do concreto ao abstrato. Recorrer a introdução de jogos ou atividades no ensino da matemática
ação, diz Piaget, não conduz de todo a um simples não garante uma melhor aprendizagem desta disciplina.
empirismo, ao contrário, prepara a dedução formal ulterior, Ë frequente vermos em alguns professores uma
desde que tenha presente que a ação, bem conduzida, pode mistificação dos jogos ou materiais concretos. Até mesmo na
ser operatória, e que a formalização mais adiantada o é Revista "Nova Escola" esta mistificação, pode ser percebida
também" [4, pp. 23-28]. como mostra o seguinte fragmento: "Antes a matemática era
Assim interpreta Castelnuovo, o 'concreto' deve ter o terror dos alunos. Hoje ... as crianças adoram porque se
uma dupla finalidade : "exercitar as faculdades sintéticas e divertem brincando, ao mesmo tempo que aprendem sem
analíticas da criança" ; sintética no sentido de permitir ao decoreba e sem traumas..." Mariana Manzela (8 anos)
aluno construir o conceito a partir do concreto; analítica por confirma isto : "é a matéria que eu mais gosto porque tem
que, nesse processo, a criança deve discernir no objeto muitos jogos".
aqueles elementos que constituem a globalização. Para isso Ora, que outra função tem o ensino de matemática
o objeto tem de ser móvel, que possa sofrer uma senão o ensino da matemática? Ë para cumprir esta tarefa
transformação para que a criança possa identificar a fundamental que lançamos mão de todos os recursos que
operação - que é subjacente. dispomos.
Resumindo, Castelnuovo defende que "o material Ao aluno deve ser dado o direito de aprender. Não
deverá ser artificial e também ser transformável por um 'aprender' mecÂnico, repetitivo, de fazer sem saber o que
continuidade" (p. 92). Isto porque recorrermos aos fenômenos faz e por que faz. Muito menos um 'aprender' que se esvazia
naturais, como sugere Decroly, nele há sempre continuidade, em brincadeiras. Mas um aprender significativo do qual o
porém, são limitados pela própria natureza e não nos levam a aluno participe raciocinando, compreendendo, reelaborando o
extrapolar, isto é, a idealizar o fenômeno por outro lado, saber historicamente produzido e superando, assim, sua
podem conduzir ã ideia de infinito, porem lhes faltam o visão ingênua, fragmentada e parcial da realidade.
caráter de continuidade e do movimento (p. 92). O material ou o jogo pode ser fundamental para que
Para contrapor ao que acabamos de ver, isto ocorra. Neste sentido, o material mais adequado, nem
gostaríamos de dizer algumas palavras sobre outra corrente sempre, será o visualmente mais bonito e nem o já
psicológica: o behaviorismo, que também apresenta sua construído. Muitas vezes, durante a construção de um
concepção de material, e principalmente, de jogo pedagógico. material o aluno tem a oportunidade de aprender matemática
Segundo Skinner (1904), a aprendizagem é uma mudança de de forma mais efetiva.
comportamento (desenvolvimento de habilidades ou Em outro momentos, o mais importante não será o
mudanças de atitudes) que decorre como resposta a material, mas sim, a discussão e resolução de uma situação
estímulos esternos, controlados por meio de reforços. A problema ligada ao contexto do aluno, ou ainda, à discussão
matemática, nesta perspectiva, é vista, muitas vezes, como e utilização de um raciocínio mais abstrato.
um conjunto de técnicas, regras, fórmulas e algoritmos que
os alunos tem de dominar para resolver os problemas que o
mundo tecnológico apresenta.
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Ensino-Aprendizagem da Matemática: Velhos outrora vigente, que consistia em selecionar os estudantes a


problemas, Novos desafios partir de uma minoria favorecida, deu lugar, pelo menos em
teoria, a uma visão mais democrática de abrir as
 "Nunca nos tornaremos matemáticos, mesmo que a oportunidades educacionais a estudantes vindos dos mais
nossa memória domine todas as demonstrações feitas por diversos níveis da sociedade.
outros, se o nosso espírito não for capaz de resolver todas as Infelizmente, as mudanças curriculares por si só
espécies de problemas". nunca deram nem podem dar os resultados pretendidos.
(Descartes) Como alguém disse:
  A Matemática nova ensinada de modo antigo é
Os problemas que se levantam ao ensino da Matemática velha.
Matemática a todos os níveis não são novos. Tal como não é A Matemática não é uma ciência cristalizada e
novo o mal estar que eles provocam em professores e imóvel; ela está afetada por uma contínua expansão e
alunos. No entanto, este mal estar parece aumentar e revisão dos seus próprios conceitos. Não se deve apresentar
agudizar-se ultimamente. Os problemas são muitos, variados a Matemática como uma disciplina fechada, monolítica,
e difíceis. Seria sempre arriscado e pretencioso procurar abstrata ou desligada da realidade. Ao longo dos tempos,
abordá-los na sua totalidade, mas mais ainda num trabalho esteve ligada a diferentes áreas do conhecimento,
como este. Limitar-me-ei aqui a refletir sobre alguns dos respondendo a muitas questões e a necessidades do
aspectos que normalmente surgem na aprendizagem e no Homem, ajudando-o a intervir no mundo que o rodeava.
ensino da Matemática. Neste contexto, é oportuno realçar o pensamento de Bento
Assim, numa altura em que já foram ensaiadas de Jesus Caraça:
diversas mudanças no ensino da Matemática com vista a "A Matemática é geralmente considerada uma
melhorar a sua aprendizagem, nomeadamente mudanças ciência à parte, desligada da realidade, vivendo na penumbra
curriculares e programáticas, o problema do ensino da do gabinete, um gabinete fechado onde não entram os ruídos
Matemática e da sua aprendizagem talvez possa ser do mundo exterior, nem o sol nem os clamores dos homens.
abordado segundo outras perspectivas. Isto só em parte é verdadeiro. Sem dúvida, a Matemática
No ensino-aprendizagem da Matemática podemos possui os seus problemas próprios, que não têm ligação
falar de um triângulo (humano-programático) cujos vértices imediata com os problemas da vida social. Mas não há
são: a Matemática, os alunos e o professor. dúvida também de que os seus fundamentos mergulham, tal
O papel a desempenhar pelo professor numa sala como os de outro qualquer ramo da Ciência, na vida real; uns
de aula é - posto de uma forma simplista - o de tornar o e outros entroncam-se na mesma madre."
caminho entre a Matemática e os alunos o mais curto Pensa-se que existe um paralelismo entre o modo
possível. Cabe ao professor, que admitimos encontrar-se já como o aluno aprende determinado assunto e a forma como
suficientemente perto de ambos, Matemática e alunos, a o Homem interatuou com o mesmo, ao longo dos tempos.
missão de conduzir a Matemática até aos alunos ou de levar Assim, acredita-se que dominando a componente
os alunos até à Matemática. histórica do conhecimento do Homem sobre determinado
Além disso, a conduta do professor parece ser, pelo assunto e ao prever este processo no ato pedagógico a
menos numa primeira análise, aquela que está mais ao aprendizagem torna-se mais integradora e eficaz, dado que
alcance dos professores de Matemática e, portanto, é aí que vai ao encontro do próprio envolvimento natural do
podemos começar por exercer as nossas influências com conhecimento da humanidade, face à matéria específica.
vista à aproximação desejada entre a Matemática e os A perspectiva histórica do conhecimento matemático
alunos. também tem a ver com a própria cultura matemática.
Sendo assim, parece ser sobre o papel e a atitude As atividades interdisciplinares e transdisciplinares
do professor de Matemática que devemos meditar em de cultura matemática são imensas. A tarefa principal do
primeiro lugar questionando-nos sobre problemas que professor é saber sistematizar a informação recolhida,
existem à nossa volta e que estejam relacionados, de uma organizar os tempos e os espaços adequados, tendo sempre
forma ou de outra, com a Matemática e o seu ensino. Alguns presente os interesses, as motivações, as dificuldades, as
desses problemas poderão não ter respostas claras ou potencialidades intelectuais relacionadas com o grau etário
simples, mas uma análise consciente feita pelo professor que dos alunos.
pretende ensinar Matemática contribuirá, por certo, para um A Matemática, o mundo matemático e a natureza da
enriquecimento da sua atividade profissional. Uma vez Matemática
consciente do seu papel, será mais fácil pensar e atual sobre A Matemática é, essencialmente, uma atividade
os outros dois vértices do triângulo, isto é, sobre a criativa. A formulação e a resolução de problemas constituem
Matemática e sobre os alunos. os elementos fundamentais da atividade matemática - sem
Gostava muito de, no final deste trabalho, poder resolver e sem formular problemas não se faz Matemática - e
encetar a resposta à questão: é isso que lhe confere esse caráter criativo. Por outro lado,
Porque é que fazemos o que fazemos na sala de fruto do desenvolvimento interno e autônomo da Matemática
aula? ou suscitados por necessidades e exigências que lhe são
Mas serei provavelmente incapaz, pois ela obriga- exteriores, esses problemas, a sua formulação e resolução,
me a evocar essa mistura de vontades, de gostos, de constituem a contribuição mais importante da Matemática nas
sentidos atribuídos, de experiências, de acasos até, que suas relações com as diversas ciências e outras atividades
foram consolidando crenças, concepções, gestos, rotinas, humanas. Além disso, ao nível do ensino da Matemática,
comportamentos com os quais nos identificamos como considera-se que situações de caráter problemático
professores. favorecem a criação de ambientes de aprendizagem ricos e
Breve reflexão sobre o conhecimento matemático estimulantes.
A Matemática é uma grande aventura nas ideias; a Muito possivelmente, as regras e técnicas
sua história reflete alguns dos mais nobres pensamentos de matemáticas, bem como os aspectos simbólicos da
inúmeras gerações. Matemática, terão de ser sempre contemplados, de uma
Nos últimos séculos o ensino em geral - e o ensino forma ou de outra, no ensino dessa disciplina. Não são, no
da Matemática em particular - sofreu muitas mudanças entanto, os únicos nem, certamente, os mais importantes. O
significativas. Pode basicamente dizer-se que a política desenvolvimento da tecnologia, em particular a existência dos
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computadores e das calculadoras, dão hoje mais razão e 2) a manipulação das abstrações através de regras
proporcionam mais e melhores meios para que a ênfase no de lógica para encontrar novas relações entre elas;
ensino incida nos aspectos mais conceptuais da Matemática 3) verificar se as novas relações dizem alguma coisa
em detrimento dos seus aspectos mais mecânicos. Os de útil acerca dos objetos originais.
conceitos, as formas de raciocínio e os vários tipos de O raciocínio matemático tem início frequentemente
atividade matemática devem ser assumidos, todos eles, com o processo de abstração - isto é, com a verificação da
como conteúdos de ensino em Matemática, constituindo semelhança existente entre dois ou mais objetos ou eventos.
mesmo o seu núcleo essencial. Em particular, a resolução de Os aspectos que têm em comum, quer concretos, quer
problemas deve ser vista como fundamental, e não como hipotéticos, podem ser representados por símbolos, como
algo que se faz, eventualmente, no final de alguns capítulos números, letras, outros sinais, diagramas, construções
como aplicação dos assuntos matemáticos que até então geométricas, ou mesmo palavras.
foram aprendidos. Resolver problemas deve ser encarado Este processo de abstração permite que os
como um objetivo de ensino, como um conteúdo a trabalhar matemáticos se concentrem nalgumas características das
com os alunos, como uma via educativa tendo em vista a coisas e alivia-os da necessidade de terem sempre em mente
aquisição de conhecimentos em Matemática, o as outras características.
desenvolvimento de capacidades necessárias ao Feitas as abstrações e selecionadas as respectivas
desenvolvimento do aluno enquanto pessoa, ao estudo da representações simbólicas, esses símbolos tornam-se
Matemática e das outras ciências, a uma real participação objetos, que podem ser combinados e recombinados de
crítica e interventiva na sociedade. várias maneiras, segundo regras definidas com precisão.
A Matemática é, por assim dizer, essencialmente um Os conhecimentos matemáticos acerca das relações
processo de pensamento que implica a formação e aplicação abstratas têm vindo a aumentar desde há milhares de anos e
de redes de ideias abstratas e associadas logicamente. Estas continuam a expandir-se e, por vezes, a ser revistos. Apesar
ideias surgem muitas vezes da necessidade de resolver de terem tido início na experiência prática de contar e medir,
problemas em ciência, na tecnologia e na vida quotidiana - estes conhecimentos atravessaram muitos níveis de
problemas que vão da forma como modelar certos aspectos abstração e hoje dependem muito mais da lógica interna do
de um problema científico complexo à gestão de um livro de que da demonstração mecânica. De certa forma, então a
cheques. manipulação de abstrações é bastante semelhante a um
A Matemática assenta, como já referi, na lógica e na jogo: começar com algumas regras básicas e depois fazer
criatividade, e é estudada tanto pelas suas aplicações todo e qualquer movimento que se adapte a essas regras - o
práticas como pelo seu interesse teórico. Para algumas que inclui inventar regras adicionais e descobrir novas
pessoas, e não só para os matemáticos profissionais, a ligações entre as regras já conhecidas. O teste da validade
essência da Matemática reside na sua beleza e no seu de novas ideias é a sua própria coerência e o fato de se
desafio intelectual. Para outros, incluindo muitos cientistas e relacionarem logicamente com as próprias regras.
engenheiros, o valor essencial da Matemática é a sua Uma linha central de investigação na Matemática
aplicação à própria atividade. Dado que a Matemática pura consiste em identificar em cada área de estudo um
desempenha um papel de tal forma central na cultura pequeno conjunto de ideias e regras básicas a partir das
moderna, um conhecimento básico da natureza da quais todas as outras ideias e regras interessantes naquela
Matemática é um requisito da instrução científica. Para a área podem ser deduzidas logicamente. Os matemáticos,
alcançar, os estudantes precisam de entender a Matemática como os outros cientistas, ficam particularmente contentes
como uma parte do empreendimento científico, compreender quando descobrem que partes da Matemática anteriormente
a natureza do pensamento matemático e familiarizar-se com não relacionadas são deriváveis umas das outras ou de
ideias e técnicas matemáticas essenciais. alguma teoria mais geral. Parte do sentido de beleza que
Algumas características da Matemática muitos vêem na Matemática não reside na descoberta de
A Matemática é a ciência dos padrões e das fenômenos muito elaborados ou complexos, mas sim no
relações. Como disciplina teórica, a Matemática explora as contrário, na descoberta da maior economia e simplicidade
relações possíveis entre abstrações, sem ter em conta se de representação e prova científica. À medida que a
essas abstrações têm ou não correspondentes no mundo Matemática evoluiu, foram descobertas cada vez mais
real. Estas abstrações podem ser tudo aquilo que vai de relações entre partes que se tinham desenvolvido
cadeias de números e figuras geométricas a conjuntos de separadamente - por exemplo, entre as representações
equações. simbólicas da Álgebra e as representações espaciais da
A Matemática é também uma ciência aplicada. Geometria. Estas ligações cruzadas permitem obter
Muitos matemáticos concentram a sua atenção na resolução conhecimentos a desenvolver nas várias partes; em conjunto,
de problemas que têm origem no mundo da experiência. reforçam a crença na correção e unidade subjacente à
Também eles procuram padrões e relações e para isso usam estrutura na sua globalidade.
técnicas que são semelhantes àquelas utilizadas na prática Geralmente, uma só ronda de raciocínio matemático
da Matemática pura. A diferença reside essencialmente na não produz conclusões satisfatórias e, por isso, tenta-se
intenção. alterar a forma de representação ou as próprias operações.
Muitas vezes os resultados da Matemática pura e Na verdade, dão-se frequentemente saltos para a frente e
aplicada influenciam-se reciprocamente. As descobertas dos para trás e não há regras que determinem como proceder. O
matemáticos puros revelam frequentemente - por vezes processo decorre, normalmente, entre ajustamentos e
décadas mais tarde - um valor prático imprevisto. recomeços, com muitas curvas em falso e ruas sem saída.
A Matemática pura, ao contrário de outras ciências, Este processo continua até que os resultados sejam
não é limitada pelo mundo real, mas, a longo prazo, contribui suficientemente bons.
para uma melhor compreensão desse mundo.  
Processos matemáticos Ensino da Matemática
A utilização da Matemática para expressar ideias ou  
para resolver problemas envolve, pelo menos, três fases: Sócrates terá um dia dito algo que me parece
1) a representação de determinados aspectos das perfeitamente ajustável ao ensino da Matemática:
coisas de forma abstrata;  

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"As ideias deveriam nascer na mente do aluno e o Os conceitos matemáticos não se aprendem de um
professor deveria só atual como uma parteira." momento para o outro e só ao longo do tempo se vai
Ensinar Matemática sem mostrar a origem e a percebendo melhor a coerência interna de cada assunto ou a
finalidade dos conceitos é, segundo Sebastião e Silva, como razão de ser de cada conceito. Os programas com capítulos
falar de cores a um daltônico: é construir no vazio. estanques não facilitam a assimilação lenta; por outro lado, é
Especulações matemáticas que, pelo menos no início, não muito difícil ensinar de modo que cada aluno possa ir
estejam solidamente apoiadas em intuições, resultam interiorizando à sua própria velocidade.
inoperantes, não falam ao espírito, não o iluminam. É Para estudar Matemática é necessária uma
necessário fornecer experiências que encorajem e permitam participação ativa, um envolvimento direto por parte do aluno,
aos alunos dar valor à Matemática, ganhar confiança nas tanto em cada momento de estudo como ao longo do ano
suas capacidades matemáticas, tornar-se em solucionadores escolar: é necessário voltar várias vezes ao mesmo assunto,
de problemas matemáticos, comunicar matematicamente. de preferência segundo ângulos de abordagem
Mas, no fim, o problema é sempre o mesmo: diversificados, para poder aspirar a dominar um conceito.
interessar o aluno, provocá-lo para a investigação, dar-lhe Por último, mas igualmente importante: dificilmente
sem cessar o sentimento de que ele descobre por si próprio o alguém poderá estudar Matemática com proveito se não tirar
que lhe é ensinado. O professor não deve forçar a conclusão: algum prazer disso... E não é costume encontrar programas
deve deixá-la formar-se espontaneamente no espírito do de Matemática que fomentem esse gosto pela Matemática,
aluno. tanto no ensino básico e secundário como no ensino superior.
Os programas de todos os países indicam que se Mas não estou a dizer nenhuma novidade!
devem usar métodos ativos, se deve fazer apelo à intuição, Toda a gente sabe há muito tempo que a
se devem encadear os assuntos, se devem adaptar os Matemática é diferente das outras ciências. Então, porque é
métodos à idade e às características dos alunos. que o ensino da Matemática é tão pouco satisfatório nos dias
O professor de Matemática deve ser, primeiro que de hoje? Penso, sobretudo, apesar de alguns esforços terem
tudo, um professor de matematização, isto é, deve habituar o sido já desenvolvidos, que não tem sido encarado entre nós
aluno a reduzir situações concretas a modelos matemáticos com a profundidade, serenidade e bom senso necessários.
e, vice-versa, aplicar os esquemas lógicos da Matemática a Não se muda o ensino da Matemática de um dia para o outro.
problemas concretos. É sobretudo pela iniciativa pessoal que É necessário um planejamento a médio e longo prazo, uma
se pode fazer de uma forma normal o desenvolvimento do execução paciente ao longo de muitos anos, com a
espírito matemático: iniciativa do professor, iniciativa do participação ativa indispensável de todas as pessoas com
aluno. A iniciativa do primeiro é, porém, muitas vezes relação direta ou indireta com o ensino da Matemática.
impedida pela estreiteza e rigidez dos programas; o segundo, Crise no ensino da Matemática
pelo seu lado, não tem geralmente iniciativa porque não lhe Em Portugal, nos últimos tempos, tal como já aludi, o
transmitiram o gosto por ela. Foi exercitado a trabalhar e Ensino da Matemática tem vivido numa situação de crise
aprender, muito pouco a compreender, e nada a procurar. permanente. Em todos os graus de ensino, do primário ao
Um dos objetivos fundamentais da educação é, sem superior, o insucesso na disciplina de Matemática atinge
dúvida, criar no aluno hábitos e automatismos úteis, como, índices preocupantes. Não se trata de insucesso apenas no
por exemplo, os automatismos de leitura, de escrita e de sentido estrito da percentagem de reprovações. Um número
cálculo. Mas trata-se aí, manifestamente, de meios e não de crescente de alunos não gosta de Matemática, não entende
fins. para que serve estudar Matemática, não compreende
Os alunos aprendem demasiadas coisas e são verdadeiramente a sua relevância. Mesmo muitos daqueles
transformados em enciclopédias vivas. É, no entanto, que conseguem tirar notas positivas, procuram sobretudo
verdade que vale mais saber poucas coisas bem do que dominar técnicas úteis para resolverem exercícios tipo. Os
muitas mal. A grande quantidade de ideias só servirá para professores mostram-se igualmente descontentes, queixam-
confundir o entendimento dos alunos se não forem se dos programas que são grandes, pouco flexíveis,
ministradas com vagar e clareza. No ensino das ciências a demasiado abstratos. Não sabem como interessar os seus
escolha dos exemplos é bem mais importante do que o seu alunos. E, além disso, sentem-se isolados, com poucas
número: algumas verdades bem aprofundadas esclarecem oportunidades para discutirem com os colegas ou para
mais sobre o método que um grande número de teorias conhecerem as experiências mais interessantes que, apesar
discutidas de uma maneira incompleta. Os programas são de tudo, se vão realizando.
muitas vezes impostos aos professores com uma minúcia Penso que não exagerarei muito se disser que em
manifestamente exagerada e de tal modo que em muitos muitas escolas e na maior parte das disciplinas - sobretudo
deles se encontra posto em segundo plano este espírito de em Matemática - há, por parte dos alunos, um sentimento
iniciativa sem o qual o ensino perde toda a vitalidade. mais ou menos generalizado de desinteresse, de
O estado do ensino está necessariamente ligado ao desmotivação com tudo o que isto acarreta de práticas de
dos nossos conhecimentos e deve mudar quando eles se demissão e de aborrecimento, de mal estar e de desgosto
aperfeiçoam e estendem. Mas a modernização do ensino da perante as chamadas matérias escolares, quando não pela
Matemática terá de ser feita não só quanto a programas, mas aprendizagem em geral, pelo saber e, até, sabemos bem, por
também quanto a métodos de ensino. No entanto, no aquilo que cada um é. Em muitos alunos, quando essa
interesse do bom ensino o professor deve não só saber o que matéria escolar é a Matemática, sentimentos de incapacidade
ensinar e como o ensinar mas também o porquê do que ou de deficiência tornam-se também notórios, fazendo sentir
ensina. fortemente os efeitos da sua presença, que em muitos casos,
acompanharão para sempre o aluno em questão. Por outro
O que tem o ensino da Matemática? lado, a muitos professores cada vez agrada menos o que
A Matemática é uma disciplina com características fazem, os resultados do seu trabalho, o modo como os
muito específicas, únicas. Para estudar Matemática é alunos reagem àquilo que eles lhes ensinam.
necessário uma atitude particular assim como é necessário O ensino da Matemática atravessa, pois, uma
uma atitude muito particular para a ensinar. situação de grande desconforto para quem aprende, para
Estudar Matemática não é a mesma coisa que quem ensina, sendo também alvo de críticas da opinião
estudar outra disciplina (melhor: cada disciplina requer tipos pública.
de estudo diferentes).
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De uma forma um tanto simplista, poderíamos dizer real importância é, naquilo que existe de comum na vida das
que para muitos alunos fica da Matemática uma imagem de pessoas, cada vez mais aprendida fora da escola do mesmo
disciplina de insucesso, de inacessibilidade, de disciplina só modo que aprendemos outros conhecimentos que nos são
para alguns. Para outros alunos (com sucesso na disciplina) essenciais. Além disso, o desenvolvimento da tecnologia tem
fica uma ideia de que a Matemática é um puro mecanismo, vindo a proporcionar máquinas e instrumentos que nos
uma arquitetura perfeita à qual nada haverá a acrescentar. libertam da necessidade de dominar determinadas técnicas e
Para alguns professores fica uma sensação de algoritmos matemáticos antes considerados indispensáveis,
frustração e de insatisfação pelo trabalho desenvolvido. Para mesmo para a vida quotidiana. Por outro lado, ensinar a
outros, o grande insucesso dos alunos provará o virtuosismo Matemática necessária à prática profissional futura de cada
da disciplina e por consequência o seu inevitável papel um obrigaria, ao nível da escolaridade básica, ou a um
seletivo. currículo mínimo constituído pela Matemática comum às
Para uma parte significativa da opinião pública (com várias profissões (que dificilmente justificaria uma
alguns professores incluídos), os alunos não dominam as escolaridade longa em Matemática), ou a uma sobrecarga
técnicas de base necessárias que permitem aprendizagens excessiva e em muitos casos inútil, nos programas da
posteriores. Para outra parte, mais ligada ao mundo disciplina.
empresarial, a questão começa a colocar-se na falta de No que diz respeito à relação da Matemática com a
capacidades para responder e resolver problemas que se realidade e, em particular, com as outras ciências, do ponto
colocam face aos novos desafios da sociedade, provocados de vista do seu ensino, pressupõe-se, em geral, que é
nomeadamente pela crescente utilização das novas preciso aprender primeiro Matemática para depois a aplicar
tecnologias da informação. no estudo dessa realidade, na aprendizagem dessas
Esta situação um pouco confusa e contraditória, mas ciências. Esta perspectiva traduz uma concepção segundo a
de grande insatisfação para a generalidade da comunidade qual a Matemática é vista como uma ferramenta de que as
educativa, tem fundamentos que radicam na história recente outras ciências se servem no estudo a que se dedicam.
do ensino da Matemática já que, a última grande reforma que A Matemática é uma ciência antiga, como já antes
ocorreu na Matemática escolar teve o seu início, em Portugal, referi, e, desde sempre, em constante crescimento, quer no
em meados dos anos sessenta. Foi a introdução da chamada que diz respeito ao seu próprio patrimônio (em termos de
"Matemática Moderna", em particular contrariando a ênfase conceitos, métodos e organização), quer nos domínios a que
tradicionalmente dada ao cálculo. se aplica. Afirma-se mesmo que nos anos mais recentes se
Ensinar-Aprender Matemática: tradição ou tem descoberto mais Matemática que durante toda a sua
necessidade? história (Dieudonné, 1982; Davis e Hersh, 1981). Este
A Matemática, apesar das elevadas taxas de crescimento deve-se, por um lado, a forças internas da
reprovação ou, de uma forma mais lata, do insucesso que própria Matemática e, por outro às necessidades e
existe nesta disciplina, mesmo nos alunos com possibilidades colocadas pelo desenvolvimento científico e
aproveitamento, e da fonte de insatisfação, desprazer ou tecnológico. Há assim relações de mútua fecundidade entre a
frustração que constitui, em geral a sua aprendizagem (e Matemática e os outros domínios da atividade humana.
ensino), tem sempre ocupado um lugar de relevo no currículo Formas de aprender Matemática
das nossas escolas. "Das minhas observações dos homens e rapazes
Haverá, por certo, razões de vária ordem que inclino-me a pensar que a minha forma de estudar é a forma
justificam uma situação como esta. comum, a forma natural, e que os professores a destroem e
Sempre se ensinou Matemática, poderemos dizer. substituem por qualquer coisa que conduz ao ensino
Na verdade, esta disciplina é considerada como uma das mecânico. "
mais antigas ciências e, como matéria ensinada, faz parte (John Perry, 1901)
dos currículos escolares, se lhes podemos chamar assim,  
desde há mais de dois mil anos, tendo aí ocupado sempre A origem das crenças e concepções dos alunos
um lugar privilegiado (Stone, 1961). O peso da tradição, no sobre a Matemática pode ser baseada numa variedade de
entanto, se dá um motivo para a permanência da Matemática causas, mas uma das mais importantes situa-se ao nível das
nos currículos, esclarece pouco as razões do privilégio que experiências diretas, quer na escola quer junto dos adultos
se lhe atribui. que lhes estão próximos. As concepções que as crianças
A crença nos efeitos disciplinadores do estudo da mais novas desenvolvem influenciam não só o seu
Matemática parece constituir uma outra ordem de razões que pensamento e desempenho durante os primeiros anos, mas
justificam a sua aprendizagem: "ensina a pensar", também as suas atitudes e decisões sobre o estudo da
"desenvolve o raciocínio". Matemática em anos posteriores (NCTM, 1991).
Segundo Douglas Quadling (1983), no entanto, se é As convicções matemáticas não se desenvolvem da
verdade que a atividade matemática proporciona, entre noite para o dia. Elas desenvolvem-se lentamente, ao longo
outras coisas, o "hábito de analisar o significado do de um período de experiências matemáticas. A principal
enunciado", "de estabelecer demonstrações" ou de distinguir origem das experiências matemáticas para a maior parte dos
o essencial do acessório numa dada situação, o mesmo se alunos é provavelmente a aula de Matemática. Assim, aquilo
pode dizer no caso do estudo de outras disciplinas. Este que se faz na sala de aula influenciará extremamente as
autor acrescenta mesmo que, sendo a Matemática, convicções dos alunos. Estes aprendem muito mais que os
eventualmente, uma das formas mais puras do raciocínio, conteúdos matemáticos das experiências da sala de aula.
este fato, "do ponto de vista educativo, poderá ser Eles desenvolvem também concepções (formas de encarar a
considerado tanto uma fraqueza como uma força" (Quadling, Matemática) que podem ajudá-los - ou constrangê-los.
1983, p. 449). Quando as crianças aprendem Matemática na
Razões de uma outra natureza são as que se escola fazem-no na sala de aula, onde certas normas de
relacionam com a importância desde sempre atribuída à conduta estão estabelecidas implícita ou explicitamente.
Matemática, quer para o dia-a-dia das pessoas e para a sua Estas normas influenciam a forma como as crianças
vida profissional, quer para o desenvolvimento das outras interagem com o professor e com os colegas, o que, por sua
ciências, das técnicas e outros ramos da atividade humana. vez, influencia a Matemática que as crianças aprendem e
Continuando a citar Quadling (1983), a "Matemática da vida como a aprendem.
corrente", como ele lhe chama, independentemente da sua
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Quando são dadas às crianças oportunidades de uma atmosfera de resolução de problemas, um ambiente no
conversar acerca da sua compreensão da Matemática, qual as crianças se sentem livres para conversar das suas
surgem problemas genuínos de comunicação. Estes matemáticas.
problemas, assim como as próprias tarefas matemáticas, O papel do professor é indispensável também para
constituem oportunidades para aprender Matemática. que a regra da turma de que se deve ajudar sempre os
As crianças são aprendizes notáveis. Basta pensar colegas, não seja secundária, mas sim um aspecto central do
na enorme quantidade de coisas que aprendem antes do papel dos alunos (Slavin, 1985, p. 16). Desde que esta regra
ensino formal - comer, andar, falar... - para chegar a essa seja assumida, oportunidades para a aprendizagem, que não
conclusão. Aprender a falar, por exemplo, é um processo estão presentes no ensino tradicional, crescem na medida em
tremendamente complexo que exige muito da criança. No que as crianças colaboram entre si.
entanto, a criança não tem aulas para aprender a falar. Falar Notamos ainda que as crianças aprendem muito
faz parte da vida, acontece, aprende-se de forma natural. mais do que Matemática neste tipo - ou qualquer tipo - de
É espantosa a quantidade de coisas que as crianças situações de sala de aula. Desenvolvem convicções sobre a
aprendem desta forma! Mas, mal entram na escola o Matemática, sobre o seu papel e o do professor. Além disso,
panorama modifica-se. Há crianças que progridem, mas um sentido do que é valorizado desenvolve-se com atitudes e
muitas, se não a maioria, têm problemas de aprendizagem. formas de motivação.
Porquê? Em minha opinião isso deve-se ao fato da atividade Acima de tudo a abordagem que encoraja os alunos
escolar nada ter a ver com o quotidiano das crianças. a conversar acerca dos seus "métodos" de solução sem os
Jean Piaget defende que certos tipos de avaliar pela sua correção é caracterizada pelo
aprendizagem só acontecem depois dos dez ou onze anos. À desenvolvimento de uma confiança mútua entre o professor e
aprendizagem que começa nesta fase chamou os alunos. O professor confia nos alunos e incita-os a
"aprendizagem formal". O que se aprende no estádio formal tentarem resolver os seus problemas de Matemática e,
não tem raízes na vida real, isto é, na vida social e afetiva da consequentemente, sente-se livre para lhes pedir que
criança e no meio cultural que a cerca. Segundo Piaget, a descrevam o seu pensamento. Os alunos confiam que o
criança "tem" de aprender essas coisas por meio do ensino professor respeita os seus esforços e consequentemente
formal. entram nas discussões explicando como realmente
Seymour Papert pensa, porém, que Piaget se compreenderam e tentaram resolver os seus problemas de
enganou ao pensar que determinados conhecimentos e Matemática.
"skills" têm de ser aprendidos formalmente, enquanto outros A aprendizagem face à natureza da Matemática
são aprendidos naturalmente. Ele acredita, tal como Piaget, Tanto as respostas corretas como incorretas podem
que a criança constrói as suas próprias estruturas disfarçar a verdadeira aprendizagem dos alunos! Respostas
intelectuais. O seu ponto de discórdia é quanto ao papel incorretas podem representar bons raciocínios, mesmo que
atribuído ao meio cultural como fonte de "materiais de baseados em conceitos errados. Respostas corretas,
construção". É a abundância do meio cultural em especialmente repetições das palavras do manual ou do
determinados "materiais" que proporciona que determinadas professor, podem mascarar falhas de compreensão da
aprendizagens se processem de forma natural, enquanto a Matemática subjacente. Porque é que os alunos substituem
ausência de outro tipo de materiais pode levar a que outras as suas próprias estratégias pelas ensinadas pelo professor
aprendizagens só ocorram após ensino deliberado. A questão ou recorrem a regras, fórmulas e definições? Talvez parte da
fundamental está, pois, em criar uma cultura, um ambiente resposta esteja na natureza da Matemática. A abstração da
rico em "materiais" que estimule a aprendizagem natural. Matemática não é compartilhada por nenhuma outra
As crianças constroem a sua própria Matemática disciplina. Embora os seus modelos possam ser usados para
Quando são apresentadas às crianças tarefas que ajudar a explicar o mundo real, nenhuma correspondência
fazem sentido para elas, encorajando-as a resolvê-las, as biunívoca pode ser estabelecida entre os exemplos da vida
crianças, em vez de seguirem procedimentos que tenham real e os modelos matemáticos respectivos. A Matemática é
sido apresentados pelo professor, desenvolvem uma também fortemente hierarquizada. Se um aluno tem uma
variedade de estratégias para alcançar a solução. concepção errônea acerca de uma parte desta cadeia lógica,
Numa situação desafiante, as crianças utilizam os então os bloqueios subsequentes da aprendizagem parecem
conhecimentos que já têm para desenvolver raciocínios com aumentar de complexidade. Assim, na medida em que a
significado pessoal. Matemática difere de outras disciplinas, também a sua
Afirmamos que as crianças não só são capazes de aprendizagem tem uma natureza diferente. Um exemplo
desenvolver as suas estratégias para realizar as tarefas da óbvio vem-nos à ideia. Embora a Matemática tenha uma
Matemática escolar mas também que cada criança tem de linguagem especial, não é propriamente uma língua
construir o seu próprio conhecimento matemático. Isto é, do estrangeira. Em Matemática, é preciso mais do que traduzir
nosso ponto de vista, o conhecimento matemático não pode uma expressão para a linguagem corrente. Por vezes, os
ser dado às crianças. Pelo contrário, elas desenvolvem alunos não percebem esta diferença e contentam-se quando
conceitos matemáticos quando se entregam a atividades são capazes de debitar fórmulas e definições em resposta às
matemáticas, incluindo a apreensão de "métodos" e questões do professor. Inversamente, os alunos que
explicações que vêem ou ouvem de outros . Este ponto de inventam falsos algoritmos podem ter dificuldades com o
vista implica que na escola sejam proporcionadas às crianças caráter abstrato da Matemática. Quando as conexões
atividades adequadas ao desenvolvimento de problemas estabelecidas pelo professor são remotas ou irrelevantes do
matemáticos genuínos. Estes problemas dão-lhes ponto de vista dos alunos, aqueles que tentam aprender
oportunidade para refletir e reorganizar as suas formas de inventam as suas próprias conexões.
pensar. A aprendizagem face ao desenvolvimento cognitivo
A Matemática é uma atividade humana criativa e a dos alunos
interação social na sala de aula desempenha um papel É importante reconhecer que as conexões podem ter
crucial quando as crianças aprendem Matemática. significado para o professor e contudo serem remotas ou
Tanto a interação professor-aluno como a que se irrelevantes do ponto de vista dos alunos. Assim, embora a
processa entre os alunos influenciam o que é aprendido e origem das concepções errôneas dos alunos possa ter, em
como é aprendido. O professor toma um papel crucial ao parte, como causa a natureza da Matemática, estas podem
conduzir o desenvolvimento do que Silver (1985) chamou ser, por outro lado, causadas pelo nível do desenvolvimento
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intelectual dos alunos. O que pode parecer concreto para o irão provavelmente encontrar. Se se ignorar ou desprezar
professor pode ser visto como abstrato para os alunos. Há simplesmente a sua intuição e os conceitos errados, as
mais de cinquenta anos, Brawnel (1935) descobriu que os convicções originais dos estudantes vencerão provavelmente
alunos do primeiro ciclo tinham mais dificuldade em operar a longo prazo, mesmo que os alunos, nos testes e exames,
com números sem unidades (p. ex., 5+7) do que com dêem as respostas que os professores desejam. Não é
números concretos (p. ex., 5 maçãs + 7 maçãs). Quando suficiente a mera contradição das ideias previamente
faltavam as unidades, a soma indicada não era vista de uma presentes nas mentes dos alunos. Têm de ser encorajados a
forma simples mas antes como uma abstração para ser desenvolver visões novas, ao reconhecerem que essas
memorizada. Quando estavam presentes as unidades, os visões os ajudam a compreender melhor o mundo.
alunos pareciam visualizar a situação concreta e eram Sabe-se hoje que só existe aprendizagem se os
capazes de responder corretamente. alunos estiverem envolvidos nas atividades a realizar, pois
Os alunos que, aparentemente do nada, inventam eles constroem, modificam e integram ideias ao interaccionar
ideias erradas podem simplesmente estar a reagir à lacuna com o mundo físico, os materiais e os outros indivíduos.
existente entre os conceitos matemáticos e o seu significado. Os jovens podem aprender mais rapidamente acerca
A forma como os alunos aprendem depende, pois, tanto da das coisas que são tangíveis e acessíveis diretamente aos
natureza da Matemática como do seu desenvolvimento sentidos. Com a experiência, desenvolvem a capacidade de
intelectual. compreender conceitos abstratos, de manipular símbolos, de
No entanto, responder ao acaso tem um papel na raciocinar logicamente e de generalizar. Estas capacidades,
criação de ideias errôneas ou falsos algoritmos pelos alunos. contudo, desenvolvem-se lentamente e a dependência da
Estes alunos estão motivados para aprender e tentam dar maior parte das pessoas em relação a exemplos concretos
sentido à Matemática. persiste ao longo de toda a vida. As experiências concretas
Até aqui, consideramos somente uma estreita fatia são extremamente eficazes na aprendizagem quando
do complexo bolo que é a aprendizagem dos alunos. É ocorrem no contexto de alguma estrutura conceptual
contudo, uma fatia importante que os professores podem relevante. As dificuldades dos alunos em apreenderem as
estudar e analisar. Quando os alunos refletem na sua própria abstrações são muitas vezes disfarçadas pela capacidade de
aprendizagem e discutem as razões que levaram a uma recordarem e recitarem termos técnicos que não entendem.
conclusão aparentemente razoável mas inválida, eles Consequentemente, os professores - da pré-primária à
aprofundam a sua compreensão dos conceitos e universidade - muitas vezes substimam a capacidade dos
procedimentos matemáticos. Da mesma maneira, os alunos para lidarem com abstrações e interpretam a
professores, ao estudarem os dados das suas aulas, utilização dos termos corretos como prova de compreensão.
aprendem mais sobre as aprendizagens dos alunos e mais Se esperamos que os alunos apliquem ideias a
sobre o ensino. "A importância do conhecimento sobre o situações novas, então têm de praticar essa aplicação de
modo como os alunos aprendem matemática não pode ser conhecimentos a novas situações.
minimizada" (NCTM, 1991, p. 146). Os estudantes não podem aprender a pensar
Princípios de aprendizagem criticamente, a analisar a informação, a comunicar ideias
  científicas, a fazer argumentações lógicas, a trabalhar em
"O pensamento é a base em que assenta a equipa e a adquirir outras capacidades desejáveis, a não ser
aprendizagem" que sejam autorizados e encorajados a fazer repetidamente
  essas coisas em muitos contextos.
(Hans G. Furth, P. 231) A mera repetição de tarefas por parte dos
  estudantes não conduzirá, provavelmente, nem a
A investigação cognitiva tem vindo a revelar que, capacidades melhoradas nem a conhecimentos mais
mesmo possuindo aquilo que é geralmente considerado uma apurados. Muitas vezes, a aprendizagem resulta melhor
boa instrução, muitos estudantes, incluindo os mais quando os estudantes dispõem de oportunidades para
talentosos academicamente, compreendem menos do que exprimirem ideias e obterem reações (feedback) por parte
aquilo que pensamos que entendem. Esta descoberta sugere dos colegas. Porém, para que este feedback seja proveitoso
que a parcimônia é essencial no que diz respeito à fixação de para os alunos terá de ser analítico e sugestivo e chegar
objetivos para a educação: as escolas deveriam selecionar os numa altura em que os alunos revelem interesse por ele. E
conceitos e as capacidades mais importantes a salientar de tem de haver tempo para os alunos refletirem sobre o
modo a poderem concentrar-se na qualidade da feedback que recebem, se reajustarem e tentarem
compreensão e não na quantidade de informação novamente, uma necessidade que é desprezada, é bom
apresentada. salientar, pela maior parte dos testes, especialmente os
Os indivíduos têm de construir os próprios exames finais.
significados, independentemente da clareza com que os Os alunos reagem às próprias expectativas relativas
professores ou os livros lhes ensinam as coisas. àquilo que conseguem e não conseguem aprender. Se
Normalmente fazem-no através da associação dos novos estiverem convictos de que conseguem aprender alguma
conceitos e da nova informação àquilo em que já antes coisa, quer se trate da resolução de equações ou de andar de
acreditavam. bicicleta, normalmente fazem progressos. Se, porém, não
Todavia, a aprendizagem efetiva exige muitas vezes têm autoconfiança, a aprendizagem ilude-os.
mais do que fazer apenas associações múltiplas de ideias A autoconfiança dos alunos cresce à medida que
novas às antigas. Por vezes é necessário que as pessoas experimentam sucessos na aprendizagem, tal como diminui
reestruturem o modo de pensar radicalmente. Isto é, para em confronto com fracassos repetidos.
incorporar uma ideia nova, quem aprende tem de alterar as Assim, os professores precisam de fornecer aos
ligações entre as coisas que já conhece ou mesmo pôr de alunos tarefas de aprendizagem que apresentem algum
lado algumas convicções de há longa data acerca do mundo. desafio, mas estejam ao seu alcance, e de os ajudar a
As alternativas a uma reestruturação necessária são a realizá-las com sucesso.
distorção da nova informação, de modo a combinar-se com Mais ainda, os alunos detectam rapidamente as
as ideias antigas, ou a rejeição total da nova informação. Os expectativas de sucesso ou de fracasso que os outros têm
alunos chegam à escola com as próprias ideias, algumas em relação a eles. As expectativas positivas ou negativas
corretas e outras não, acerca de quase todos os temas que reveladas pelos pais, professores, colegas e - de um modo
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mais geral - pelos próprios meios de comunicação social para a realização das atividades de ensino e, mais
afetam as expectativas dos próprios alunos e, importante, a nível das relações de trabalho entre
consequentemente, o comportamento na aprendizagem. professores, constitui igualmente um contexto que marca a
Quando, por exemplo, um professor assinala falta de vivência de ensino dos professores.
confiança na capacidade dos alunos para aprenderem Parte das concepções e práticas pedagógicas dos
determinados assuntos, estes podem perder a confiança na professores resulta precisamente de um processo de
sua capacidade e obter resultados piores do que poderiam ter adaptação às oportunidades e constrangimentos da escola.
obtido noutras circunstâncias. Se este fracasso aparente Alguns investigadores (Ernest, 1989; Thompson,
reforça o julgamento inicial do professor, o resultado será 1992) mostram que as concepções dos professores acerca
uma espiral desanimadora de uma confiança cada vez menor da Matemática e do seu ensino desempenham um papel
e de um desempenho cada vez pior. significativo no desenho de padrões comportamentais
Professor de Matemática - Ensino da Matemática durante a sua prática. A relação entre as concepções dos
O professor de Matemática é um elemento decisivo professores acerca do ensino da Matemática e a sua prática
na complexa atividade que é ensinar Matemática. Na é de natureza complexa.
definição das suas práticas pedagógicas faz intervir, Ernest (1989) identificou, entre outros, três aspectos
consciente ou inconscientemente, as suas concepções e que influenciam a prática de ensino dos professores de
conhecimento profissional, que orientam as suas ações, Matemática: (1) concepções dos professores acerca da
desde grandes opções que faz relativamente ao currículo, por natureza da Matemática, assim como as suas teorias
exemplo, a aspectos mais particulares da preparação e pessoais acerca do ensino e aprendizagem; (2) o contexto
condução de aulas. social da situação de ensino; e (3) o nível de reflexão e de
As concepções e as práticas pedagógicas do processos de pensamento do professor. Segundo o mesmo
professor são marcadas por muitos fatores. Elas dependem autor, o ensino da Matemática depende essencialmente do
das suas características pessoais e também dos contextos sistema de convicções do professor de Matemática, em
em que estes ensinam, desde o contexto mais restrito da sala particular da sua concepção da natureza e significado e dos
de aula ao contexto mais alargado em que a escola se insere. seus modelos mentais de ensino e aprendizagem.
As características destes contextos e as interações que tem Se as concepções e as práticas de um professor
com os elementos que neles encontra (alunos, colegas, estão interligadas, parece pertinente descobrir os
outros professores, pais,...) trazem ao professor mecanismos dessa ligação. Investigadores detectaram vários
oportunidades e constrangimentos em termos da sua vivência graus de consistência entre as convicções e perspectivas
de ensino da Matemática. defendidas por professores acerca da natureza da
A sala de aula, local privilegiado de interação direta Matemática e da sua prática.
com os alunos, constitui um dos maiores condicionantes da Em relação às concepções sobre o ensino e a
atividade do professor. O grande número de alunos, prática, uns detectaram um alto grau de concordância (Shirk,
associado à heterogeneidade dos mesmos, que se manifesta citado em Thompson, 1992), enquanto outros detectaram um
em diversos modos de estar e em diferentes ritmos de fraco grau de concordância (Thompson, 1992; Cooney,
aprendizagem, pode tornar extremamente difícil o trabalho do 1983). Uma das justificações para estas inconsistências,
professor. segundo Thompson (1992), é o contexto social no qual o
Parte das concepções e práticas pedagógicas dos ensino da Matemática se desenrola e o efeito de socialização
professores resulta precisamente de um processo de do grupo de professores da mesma escola que, apesar de
adaptação às exigências da complexidade da sala de aula, terem concepções diferentes acerca da Matemática e do seu
registrada por Feiman-Nemser e Floden (1986) da seguinte ensino, muitas vezes adotam práticas idênticas.
forma: Thompson (1992) refere que não se compreende a
"As salas de aula são contextos complexos e relação existente entre as concepções e as práticas, pois
fervilhantes servindo uma variedade de propósitos e ainda não se possui uma ideia clara sobre como os
contendo uma grande variedade de processos e professores mudam e reorganizam as suas convicções, e
acontecimentos. Os professores devem gerir grupos, lidar como a sua prática é influenciada pelas suas concepções
com necessidades individuais específicas, promover a relativamente à Matemática.
aprendizagem, estabelecer rotinas. (...) Os professores não Para Kilpatrick e Wilson (1983), ensinar Matemática
só têm uma variedade de coisas para fazer, como têm requer um conhecimento tanto de Matemática como do seu
também frequentemente de fazer mais do que uma coisa ao ensino. Requer também do professor um conjunto de
mesmo tempo." competências ao nível do saber fazer, que remetem para a
De acordo com Hyde (1989) "o que os professores sua participação ativa no desenvolvimento curricular, na
fazem na sala de aula é função do que pensam sobre a investigação pedagógica, e na prática matemática. Enfim,
Matemática e o seu ensino. A componente conhecimento requer igualmente uma valorização da dimensão da relação
está claramente presente, mas existe dentro de uma humana da educação e um empenhamento no ensino da
estrutura mais lata de atitudes, crenças e sentimentos" (p. Matemática como profissão.
226). As concepções dos professores de Matemática têm
Thompson (1984) verificou que "existem razões sido como já referi, objeto de diversos estudos de
fortes para que as concepções dos professores (as suas investigação. Mas para além das suas concepções e práticas,
crenças, visões e preferências) acerca da Matemática e do é preciso entendê-lo como um profissional dotado (ou
seu ensino joguem um papel importante, afetando a sua carente) de saberes práticos muito específicos que lhe
eficácia como principais mediadores entre o conteúdo e os permitam o desempenho das suas funções - em que avulta,
alunos" (p. 105). Afirma ainda que "se os padrões de em primeiro lugar, a realização das suas tarefas letivas - e o
comportamento característicos dos professores são na seu contínuo aperfeiçoamento. Deste modo, é preciso ter em
verdade uma função das suas visões, crenças e preferências atenção o desenvolvimento da sua capacidade de análise e
acerca da disciplina e do seu ensino, então qualquer tentativa formulação de problemas educativos, de concepção,
para melhorar o ensino da Matemática deve passar pela execução, avaliação de projetos pedagógicos, de trabalho em
compreensão das concepções dos professores e como elas grupo e de reflexão sobre as práticas. É preciso, ainda,
estão relacionadas com as suas práticas" (p.106). O contexto considerar o professor como um profissional que atua num
da escola, nomeadamente a nível das condições logísticas dado contexto organizativo e institucional, e como tal define
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os seus próprios projetos de investimento (ou trabalho, o "negociador de intenções", o "companheiro de


desinvestimento) pessoal. descoberta".
A forma como cada um de nós, professores de Conscientes do grande desafio que é preparar os
Matemática, encara a disciplina que leciona, desde esse nossos alunos para um futuro, que se nos afigura já
saber com que lidamos à forma como entendemos o que é altamente tecnológico, e que exige de cada indivíduo um
ensinar e aprender Matemática, vai influenciar as nossas enorme potencial criativo que lhe permita lidar com situações
decisões na sala de aula, particularmente a nossa forma de do dia-a-dia profissional, cada vez mais diversificadas e
abordagem dos assuntos e a ênfase que atribuímos a complexas, não será difícil apoiar incondicionalmente esta
determinados temas em detrimento de outros. Neste sentido, última perspectiva de Matemática - a da "construção do
René Thom afirma, "toda a pedagogia da Matemática, próprio saber".
mesmo que pouco coerente, assenta numa filosofia dessa É aqui que reside todo o sentido da necessidade
ciência", o que nos pode levar a concluir que mudanças nas absoluta de uma urgente mudança na nossa atitude enquanto
concepções dos professores sobre a Matemática podem professores.
contribuir para mudanças significativas no ensino desta Mas não é fácil!
ciência. Os professores têm da Matemática uma ideia que foi
Com efeito, embora possa haver inconsistências sendo construída e sedimentada ao longo da sua vida por
entre o que os professores dizem e o que praticam, as vivências intelectuais e afetivas mais ou menos intensas, pelo
concepções de cada professor sobre a Matemática parecem contacto que com ela tiveram no seu percurso acadêmico e
influenciar, de fato, o seu ensino, se bem que não se nas ofertas de formação que lhes foram proporcionadas,
relacionem de uma maneira simples e direta com as decisões pelas representações que a sociedade tem da mesma e
e comportamentos de ensino. também pelo confronto com as práticas, onde estão
Importa refletirmos sobre as concepções que nós presentes variáveis tão importantes como as atitudes dos
professores temos, sobre a Matemática. Assim... alunos, as dinâmicas de grupo, etc.
Se a virmos na perspectiva de uma ciência Pode dizer-se que aquilo que acontece na sala de
-estática aula está marcado pela visão da Matemática que o professor
-imutável persegue, parte da qual pode ser explicada pela sua
-incólume ao erro aprendizagem enquanto estudante e varia entre a exposição
-pura "clara", seguida de explicação e o envolvimento dos
-desligada do real, abstrata, só acessível a "gênios" estudantes em situações que partem de problemas e
-que informa essencialmente privilegiam a descoberta, embora seja a primeira a que
-sinônimo de cálculo único... estaremos, corresponde ao comportamento mais generalizado.
necessariamente, a enveredar por um tipo de ensino que: As concepções que os professores têm sobre o
-privilegia o produto (resultado), o que pressupõe ensino da Matemática têm implicações nas decisões que
que o aluno parta para a prática equipado com uma teoria, e tomam, quer previamente quando escolhem e planeiam, quer
a pratique através de um conjunto de "rotinas" e modos de quando interagem na sala de aula. Parece ser no quadro
"fazer"; desta experiência de sala de aula que o professor interpreta o
-prima pela irrefutabilidade, onde os problemas têm conhecimento matemático dos seus alunos, que, por sua vez,
uma, e uma só solução, não valorizando a criatividade; vai ter uma forte relação com as suas concepções de ensino.
-o aluno é sujeito passivo e só se espera que  
absorva "calado" toda a sabedoria do professor; Papel do professor de Matemática:
-o professor é o técnico transmissor de uma verdade  
inabalável de que é detentor. 1) Favorecer o desenvolvimento da comunicação e
A esta perspectiva contrapõe-se outra, que lhe é da partilha de raciocínios
antagônica - a de uma ciência:  
-dinâmica É necessário deixar raciocinar o aluno, exprimir
-questionável (sempre sujeita a revisão) livremente os seus pensamentos, para se conseguir ensinar
-que admite diferentes formas de cálculo e de (sistematizar e provocar novas aprendizagens matemáticas).
pensamento Não é possível, no ato pedagógico, estar com o
-que utiliza a pedagogia do erro (aprende-se com as aluno, sem que ele esteja conosco. É vital que a criança
respostas erradas) saiba "pular" nos seus raciocínios, como deve saltar à corda,
-que é "para todos" (pois o conhecimento constroi-se como sabe brincar ao pião.
com a colaboração e o empenho de todos os intervenientes, Hoje em dia, é salientado que a resolução de um
onde cada um dá o que tem, o que pode, e o que sabe)... problema deve constituir um momento especial de interação
capaz de acionar um tipo de ensino totalmente diferente da e diálogo. O professor, como moderador, deve acolher as
anterior que privilegia e valoriza um processo de ensino - respostas, formular novas perguntas e ainda estimular a
aprendizagem: partilha das diversas estratégias apresentadas para a
-ativo, feito à base da confrontação de diferentes obtenção de um resultado. É urgente que, desde cedo, o
ideias, da comunicação matemática, de conexões e aluno partilhe os seus raciocínios com os colegas. O
conjecturas; professor deve estar atento para conhecer e compreender os
-onde a prática conduz à teorização, o que processos mentais dos alunos. A intervenção posterior
pressupõe muito estímulo, muito empenho, organização do daquele deve ser no sentido de sistematizar raciocínios e
saber; apresentar as abordagens mais significativas. O papel do
-que admite várias soluções para uma mesma professor está a mudar e é preciso que ele esteja consciente
situação; das novas atitudes e dos diferentes desempenhos.
-que fomenta a cooperação, a criatividade, o espírito Os alunos, ao colocarem em comum os seus
de empenho no trabalho e a autonomia; processos intelectuais, ao aprenderem com os seus próprios
-onde os papéis dos intervenientes se alteram raciocínios e com os dos outros, incorporam novas formas de
significativamente, tornando-se o aluno "o agente da sua pensar e de integrar a informação. Estas atitudes realçam o
própria aprendizagem" e o professor o "dinamizador" do papel social e humano da Matemática na escola.

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É importante que o processo de ensino- múltiplos fatores, entre os quais se podem apontar o nível
aprendizagem da Matemática privilegie não só o raciocínio etário e a proveniência intelectual e social dos alunos.
individual, mas que provoque também a partilha e o estimule Segundo Jean Piaget (1969), o único meio que a
com outros saberes matemáticos. criança pequena tem de organizar o seu pensamento é
De fato, é imperioso viver o processo de ensino- perceptivo. Assim, o mais importante são os fatos e a
aprendizagem da Matemática em diálogo com os alunos e realidade desnudada de quaisquer conotações, tal como os
não para os alunos. O professor é alguém que provoca sentidos a apreendem.
diálogos, que os reforça e que harmoniza as propostas de Se o professor não conhecer bem o
solução, tendo como pressuposto os saberes científicos. desenvolvimento intelectual dos seus alunos, pode levar a
Não pode, pois, entender-se o processo de ensino- cabo as aulas mais interessantes e estimulantes que possa
aprendizagem sem se compreender o processo de imaginar que, mesmo assim, a maioria dos alunos
comunicação. Deste modo, o professor deve tentar eliminar dificilmente conseguirá atingir os objetivos previamente
quaisquer interferências nas suas mensagens, devendo para estabelecidos. E se os alunos não tiverem capacidades para
isso minimizar os ruídos no sentido de obter uma boa a compreensão dos trabalhos propostos e/ou dos assuntos
sintonização por parte dos alunos. Para que tal aconteça novos a apresentar, então a aprendizagem será nula.
convém ao professor: Uma das mais importantes implicações da teoria do
- conhecer o nível intelectual e as informações que psicólogo J. Piaget é que a aprendizagem mais eficiente
os alunos já possuem; ocorre quando o professor combina a complexidade da
- conhecer a proveniência social dos alunos, matéria com o desenvolvimento cognitivo dos seus
evitando conflitos Escola-Meio; educandos, tendo em mente que nem todos os alunos de
- utilizar estratégias conducentes ao interesse dos uma turma estão no mesmo ponto do seu desenvolvimento
alunos (fazendo uso da motivação contínua); intelectual.
- fornecer um feedback aos alunos pela avaliação É curioso notar que o tipo e a qualidade de
formativa oral e escrita que deve estar onipresente no pensamento na aula podem ser fortemente influenciados pelo
processo de ensino-aprendizagem. comportamento do professor.
 
2) Ensinar o aluno a pensar 3) O professor de Matemática deve estabelecer um
  ambiente de aprendizagem em que os alunos sejam capazes
Ensinar não é somente transmitir, transferir de alargar e aprofundar a sua reação à beleza das ideias, dos
conhecimentos de uma cabeça para a outra(s). Ensinar é métodos, dos instrumentos, das estruturas, dos objetos, etc.
fazer pensar, é estimular o aluno para a identificação e Os professores deviam reconhecer que, para muitos
resolução de problemas, ajudando-o a criar novos hábitos de alunos, a aprendizagem da Matemática envolve sentimentos
pensamento e ação. Deste modo, o professor deve conduzir de grande ansiedade e medo de fracassar, o que, sem
o aluno à problematização e ao raciocínio, e nunca à dúvida, é uma consequência, em parte, daquilo que é
absorção passiva das ideias e informações transmitidas. ensinado e do modo como é ensinado e de atitudes
Além disso, para ser um bom comunicador, o professor deve transmitidas acidentalmente nos primeiros tempos de
gerar empatia, deve tentar colocar-se no lugar do aluno e, escolaridade por pais e professores que, eles próprios, não
com ele, problematizar o mundo. Dessa maneira, irá se sentem à vontade com a Matemática. Contudo, em vez de
simultaneamente transmitir-lhe novos conteúdos e ajudá-lo a desprezar a ansiedade relacionada com a ciência e com a
crescer no sentido do respeito mútuo, da cooperação e da Matemática como algo sem fundamento, os professores
criatividade. deviam garantir aos alunos que compreendem o problema e
Para ser eficiente, o professor deve determinar o que trabalharão com eles no sentido de o ultrapassarem.
nível de desenvolvimento dos seus alunos, utilizar estratégias O que tem que mudar no ensino da Matemática?
conducentes à melhor e mais fácil aprendizagem por parte Não existe um só método que tenha dado o mesmo
destes, e ajudá-los a aprender consoante as suas resultado com todos os alunos... O ensino torna-se mais
capacidades. eficaz quando o professor conhece a natureza das diferenças
Frequentemente, depois de se ter explicado entre os seus alunos.
determinado assunto e de ter atingido grande parte dos Mais importante do que uma alteração ao nível dos
objetivos planeados, verifica-se frustrantemente que o conteúdos a incluir na Matemática escolar, é uma mudança
resultado obtido junto dos alunos é bastante diferente nos métodos de ensino e na natureza das atividades dos
daquele que fora previamente planificado. alunos (APM, 1988).
Segundo Gagné (1971), o sucesso num tipo de Mudanças sociais e tecnológicas têm implicado um
aprendizagem depende dos pré-requisitos desse repensar da escola e dos seus objetivos. As perspectivas
conhecimento e que são tipos mais simples de com que se encara o processo de ensino-aprendizagem
aprendizagem. Deste modo, para resolver certos problemas mudam na medida em que se vão desenvolvendo novas
(linguísticos, matemáticos,...), o aluno deve aprender teorias sobre a forma como aprendemos e pensamos.
associações ou fatos específicos e diferenciá-los; Resultados de investigações em Psicologia apontam
seguidamente deve aprender conceitos que começam por ser no sentido de que, em muitas situações, é a análise de uma
gerais até se tornarem específicos. Só depois o aluno atinge tarefa para o desempenho da qual não se possuem
o conhecimento de certos princípios que lhe permitirão conhecimentos prévios que proporciona situações de
resolver os problemas iniciais. Trata-se assim, de um aprendizagem em que são assimilados novos conhecimentos
processo bastante lógico que começa no geral e acaba no e estabelecidas novas relações (Resnick, citada por NCTM
particular, iniciando-se no simples e terminando no complexo. 1989). Esta ideia, que se opõe à de uma aprendizagem
É necessário ter sempre em conta que determinados concebida como um processo de absorção reforçado por uma
conceitos, tornados evidentes para o professor, nem sempre prática repetitiva, implica que no trabalho escolar se
são claros para os alunos, e sem o seu conhecimento não se proporcionem aos alunos experiências diversificadas com
pode avançar para matérias mais complicadas que base nas quais eles possam construir os seus próprios
pressuponham conhecimentos anteriores assimilados. conhecimentos, relacionando-os com os anteriores.
Nem todos os alunos têm as mesmas capacidades Para Polya (1981), "aprender a pensar" é a grande
de entender um dado conceito. Este fato tem origem em finalidade do ensino. A aprendizagem deve ser ativa,
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motivadora e processar-se em fases consecutivas. Assim, discutir as suas ideias e escrever o que descobriram, o que
para este autor, devem ser proporcionadas situações de pode ajudá-los a serem mais reflexivos, tomando consciência
aprendizagem que despertem o interesse dos alunos e em de qual é o seu conhecimento matemático. No mesmo
que eles sejam desafiados a descobrir resultados e a sentido, Ball et al. (1987) reconhecem a grande diversidade
estabelecer relações. Considera ainda que a aprendizagem de papéis que o professor é chamado a desempenhar,
deve ter em conta o "princípio das fases consecutivas", em afirmando-se como peça essencial no ambiente de
que uma fase exploratória precede a formalização de aprendizagem criado, na medida em que seja capaz de
conceitos, culminando com a integração numa estrutura transferir parte da responsabilidade da aprendizagem para os
conceptual. alunos.
Romberg (1984), salienta que ao encarar o ensino Alguma coisa tem que mudar na formação dos
da Matemática como um processo em que o aluno absorve professores
conhecimentos que alguém já desenvolveu, e ao considerar a Várias investigações têm apontado que a nossa
aquisição de conceitos e técnicas um fim em si mesmo, se filosofia pessoal e coletiva acerca da Matemática e do seu
perdem características essenciais da atividade matemática ensino influenciam de forma decisiva a forma como
como explorar, levantar hipóteses e demonstrar, abstrair e ensinamos e refletem no modo como os alunos aprendem
generalizar, formular e resolver problemas, criar modelos. Matemática. Os professores são, assim, os principais
Ao deslocar o papel do aluno de um mero receptor responsáveis pela organização das experiências de
de informação para um participante ativo na construção do aprendizagem dos alunos. Estão, pois, num lugar chave para
seu conhecimento matemático, é fundamental interrogarmo- influenciar as suas concepções.
nos sobre o que fazem os alunos na aula de Matemática, que Assim, desde os anos 80, a Escola é encarada como
experiências de trabalho lhes são proporcionadas e com que um espaço de intervenção e de mudança, onde as
perspectivas são elas trabalhadas e exploradas. concepções e práticas dos professores se desenvolvem e se
Hoje em dia , o que é importante (principalmente no confrontam; onde a formação, a investigação e a mudança se
que refere ao Ensino Básico) não é o conteúdo, porque o equacionam e realizam. Não obstante tudo isto, verifica-se
conteúdo esquece, mas desenvolver as capacidades dos que é muito difícil mudar uma rotina em que estão
alunos. mergulhados os professores há longos anos; é muito difícil
Parece tudo demasiado simples e natural! De fato, mudar atitudes e estruturas desde há muito existentes.
poderá sê-lo se houver condições de trabalho e se o Convenço-me pois, de que, se nada de importante
professor acreditar nas teorias de aprendizagem propostas ocorrer no seu processo de formação, os professores terão
para o desenvolvimento intelectual do aluno nesta área. tendência para ensinar como foram ensinados - transformam-
Apesar das condições adversas de trabalho, a motivação se, geralmente, em espontâneos veículos de uma atitude
intrínseca, em geral, existe e alimenta-se. No entanto, a conservadora.
atitude do professor precisa de se renovar à luz das suas Assim, do meu ponto de vista, é urgente que na
próprias reflexões, das dúvidas que levanta, dos documentos formação de professores, para além da preocupação com o
que lê, das exigências que lhe fazem, das responsabilidades domínio de áreas do conhecimento mais ou menos
que sente. especializadas, se dê também prioridade ao desenvolvimento
Não basta dizer faça-se, e faça-se deste modo! de atitudes que permitam, ao professor não só "aceitar" a
É necessário compreender o caminho para mudança e a inovação mas ser ele próprio agente de
desenvolver o processo e conhecer, pelo menos, algumas mudança através de práticas de reflexão, partilha e
alternativas de percurso. É minha convicção que a atitude do cooperação.
professor, do ponto de vista humano, ético, pedagógico, Assim, neste contexto, é muito importante que o
científico, determinará o próprio sucesso educativo: o seu, o professor possa refletir em conjunto e realizar a troca e
do aluno, o da turma, o da escola, o da comunidade aprofundamento das suas ideias, experiências e trabalhos
educativa e, consequentemente, o da sociedade. Mas, para realizados, daí a necessidade de existir uma verdadeira
que tal aconteça, não é apenas compulsando e refletindo dinâmica de grupo quer na escola quer no grupo de formação
sobre o programa oficial de matemática - demasiado onde o professor eventualmente esteja integrado.
condensado - que se renovam atitudes, procedimentos e Por tudo o que referi, devemos ter em mente que
competências. É necessário conjugar esforços. A partilha das através das atividades de formação pretende-se "obter"
fontes de (in)formação e de documentos de reflexão deve ser professores que não se limitem a imitar os formadores, mas
o gérmen da comunicação entre os professores. que se comprometam (e reflitam) na educação dos indivíduos
Novos papéis se impõem ao professor de numa nova sociedade; professores que não sejam apenas
Matemática técnicos mas também criadores.
A formação de um Homem novo, flexível, crítico e E como é que os professores podem continuar o seu
adaptativo é um imperativo dos nossos dias. Aceitando que a desenvolvimento profissional fora dos momentos formais de
Escola tem grandes responsabilidades nesta formação, é formação? Uma possibilidade importante é a análise e a
necessário encontrar processos de a implementar. Sendo reflexão relativas às informações que podem obter nas suas
assim: aulas, como por exemplo, as respostas dos alunos no
...os professores, devem questionar o modo como processo de aprendizagem matemática.
estão a preparar pensadores, alunos capazes de se Para concluir, e refletindo na minha própria
interessarem e continuarem a aprender, durante e depois da formação, apetece-me "pensar alto" e dizer:
escolaridade. Pensar em mudar os outros é presunçoso; trabalhar
Relativamente ao papel do professor, o documento para a mudança em mim próprio serve como exemplo para
do ICMI (1986) identifica-o como gestor de uma multiplicidade os outros. Trabalhar para me mudar a mim próprio é
de recursos de aprendizagem e caracteriza-o como um guia essencial se eu pretender ajudar os outros a mudar também.
na aprendizagem dos seus alunos. Esta posição exige do .....
professor novas capacidades e o reconhecimento de um Para agir de maneira diferente tenho que ter
novo papel na aula, com um estilo pedagógico mais aberto, disponível uma forma de atuação distinta, talvez obtida a
ajudando na tarefa de construção do conhecimento partir da observação de outras pessoas, ou possivelmente a
matemático do aluno. Esta mudança deve passar por partir da leitura ou da discussão com outros colegas.
proporcionar atividades em que os alunos possam investigar, .....
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..... "aprendiz", também por culpa do excessivo formalismo que


"Só quando eu tiver consciência de mim próprio, é submerge tudo. A mensagem matemática é veiculada de tal
que eu efetivamente despertei e me tornei verdadeiramente forma e espartilhada pela simbologia que não permite a
livre." captação da sua essência. Assim, a forma/meio suplanta de
(Mason, 1985) longe o significado/fim, tornando-se num obstáculo à
  compreensão.
Em jeito de síntese - reflexão final... Os dois grandes "males" que citamos poderão surgir
  como consequência um do outro. Neste sentido, a falta de
"A educação pode ser definida como uma ligações com a realidade levou a disciplina de Matemática a
metodologia: a aprendizagem do aprender." voltar-se sobre si mesma, isolando-se numa concha pouco
(Pierre Furter) permeável. A formalização desmesurada surge então como
  uma necessidade de preencher um certo vazio. O formalismo
"A aprendizagem começa com ação e percepção, excessivo pode ser, por outro lado, o inibidor de uma
desenrola-se com palavras e conceitos e deveria terminar aproximação da Matemática à vida.
com hábitos mentais desejáveis." O papel excessivo que foi atribuído ao cálculo, às
(Polya) rotinas, aos exercícios automáticos, reveste-se de alguns
  aspectos motivadores como:
A escola é em si mesma geradora de um dos - ter subjacente a ideia que a aprendizagem se faz
grandes paradoxos do nosso tempo: por um lado, verifica-se por repetição e esforço;
que a Matemática "invadiu" a nossa sociedade tornando-se - ter na base a concepção que os conteúdos são um
num instrumento poderoso; por outro lado, nunca como agora fim em si mesmos;
a Matemática foi tão odiada. O professor de Matemática sem - haver a necessidade do mundo Matemática/Aula
ser um matemático é alvo desse sentimento. ter uma existência prática;
À primeira vista a situação descrita parece - ser do ponto de vista do professor um ensino mais
inexplicável, mas vem dar cada vez mais força à ideia de que "fácil".
a escola está a tornar-se num mundo à parte. A educação é A ultrapassagem desta inadequação do ensino da
repetidamente referenciada como alguma coisa que Matemática passa por modificações ao nível das finalidades,
providencia uma preparação do indivíduo para a vida, conteúdos e métodos. Os conteúdos devem ser, em cada
permitindo-lhe uma integração harmoniosa e participativa. É, momento, interiorizados pelos alunos como úteis e fazendo
também, reconhecido o atraso com que a escola acompanha sentido. Os métodos estão diretamente relacionados com as
as grandes transformações da sociedade, o que questiona finalidades que se pretendem que presidam ao ensino da
seriamente a ideia que apresentamos anteriormente. Perante Matemática. Destas, destacamos as que nos parecem mais
tais fatos, apetece perguntar: importantes:
Quem puxa quem? a) Desenvolver as capacidades de raciocínio,
O conhecimento escolar, e em particular o comunicação, sentido crítico e criativo;
matemático, existe de outra forma no nosso dia-a-dia. Na b) Desenvolver a capacidade de utilizar a
escola esse conhecimento é-nos apresentado, Matemática como instrumento de compreensão do real;
pretensamente, mais organizado. Essa pseudo-organização c) Promover a realização do indivíduo como pessoa,
é, sobretudo, sinônimo de acorrentamento de ideias e rigidez favorecendo as atitudes de autonomia e cooperação.
criativa, em vez de sistematização efetiva e proveitosa. Reflitamos sobre estas finalidades.
Não é novidade para ninguém que a Matemática Até que ponto elas estão a ser atingidas?
está quase onipresente nas nossas vidas, mas de uma forma Consideremos a primeira que nos parece basilar.
irrefletida. A maioria das pessoas não tem noção das suas Como já referimos, a nossa sociedade está em mudança
implicações, tanto no plano individual como coletivo. permanente. Aquilo que há meia dúzia de anos era o modelo
Compete à escola, ou deveria competir, o a seguir deixou rapidamente de o ser. No século passado os
desenvolvimento da capacidade crítica que tornará o conteúdos que os alunos aprendiam na escola iriam ser-lhes
indivíduo verdadeiramente livre. O que é que tem sido feito úteis durante grande parte da sua vida. E hoje? Mais do que
neste sentido em relação à Matemática enquanto disciplina fornecer um conjunto organizado de conhecimentos,
escolar? Se calhar, ao invés de formar indivíduos auto- passíveis de serem desatualizados, deveremos desenvolver
suficientes e críticos - aumentando, por exemplo, a um conjunto de capacidades que tornem o aluno num
percepção matemática da vida - a Matemática tem agravado indivíduo adaptativo. Será que a escola está a perseguir este
este quadro, concorrendo para a perda do significado da objetivo? Pensamos que não, porque mais do que
mesma. Num tempo de reforma, olhar para trás é desenvolver capacidades de raciocínio desenvolve-se a
extremamente útil, tentando identificar e exterminar os males memória em massa, o trabalho repetitivo e extremamente
e preservar as coisas boas. localizado.
O que é que deveríamos exterminar? Estará o ensino da Matemática a favorecer as
a) A reduzida articulação entre a Matemática escolar atitudes de autonomia e cooperação? A resposta é, mais uma
e a da vida; vez, negativa. Quantos de nós utilizamos sistematicamente -
b) O excessivo formalismo da Matemática escolar; que não é sinônimo de sempre - o trabalho em grupo nas
c) O papel excessivo concedido ao cálculo e aos aulas de Matemática? As atitudes de autonomia e
automatismos. cooperação constituem uma dualidade que só poderá ser
A reduzida, por vezes quase inexistente, ligação adquirida se os alunos forem confrontados com uma
entre a Matemática que se ensina nas escolas e a alternância planificada de formas de trabalho. A prática da
Matemática que se utiliza diariamente cria nos alunos um escola dos nossos dias desenvolve o individualismo
problema de significação. Muitos questionam-se: "Afinal para isolacionista e a competição desenfreada.
que serve esta Matemática?". Sendo a Matemática uma Tornar a Matemática num instrumento de análise e
criação da mente humana, logo abstrata, a sua partilha com intervenção do real é outra finalidade que só muito
outros implica a existência de um certo significado intrínseco, pontualmente poderá ser atingida. Estudos recentes mostram
uma certa interdependência com a realidade. Na maioria das que existe uma barreira que não possibilita a comunicação de
vezes ela não é visualizada - em termos de significado - pelo conhecimentos entre a Matemática escolar e a vida diária. Os
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alunos não levam as suas vivências extremamente ricas para Mais adiante, verificamos os noções básicas e os
dentro da sala de aula, também porque inicialmente não conceitos físico-matemáticos que ajudarão à criança a
fazem uma leitura da realidade socorrendo-se de apropriar-se, tanto dos campos matemáticos como dos
instrumentos matemáticos. demais conhecimentos que lhe ajudará no seu
Num tempo que se espera que seja de viragem, desenvolvimento integral. 
quais os grandes desafios que presentemente se colocam à E por fim, analisaremos os processos mentais
disciplina de Matemática? básicos para a aprendizagem da matemática; procedimentos
A sociedade atingiu um tal grau de complexidade, que não estão isolados, nem tampouco pertencem a um
estabelecendo um tão grande número de relações que não círculo que tem começo e fim; eles transcorrem todas as
se pode esperar que a escola adquira nesta um papel central. áreas do conhecimento que estão inseridas na educação da
Por outro lado, a escola, e neste caso particular a primeira infância.
Matemática, não pode renunciar ao seu papel. Não se trata
de uma questão de poder, não interessa determinar quem O Fazer Pedagógico e os Conceitos Matemáticos
tem mais domínio, interessa sim, que cada um, no seu local, na Educação da Primeira Infância
desempenhe a sua tarefa de uma forma bastante flexível. Durante o ano de 2005 realizamos a construção do
Assim, é imperioso que a disciplina de Matemática: trabalho de conclusão de curso de Ciências com Habilitação
- saiba dar aos alunos um papel mais ativo na em Matemática pela Universidade Estadual do Maranhão
construção do seu próprio conhecimento; (CESI/ UEMA), defendida em 2006, e durante a pesquisa nos
- saiba conjugar harmoniosamente objetivos do deparamos com valiosas informações edificadas pelas
domínio cognitivo, mas também do plano afetivo e social; crianças do então terceiro período da educação infantil que
- saiba estabelecer relações com a realidade participaram da mesma. Dos mais de 120 trabalhos
envolvente, favorecendo o movimento de "marés" entre a realizados pelos pequenos selecionamos 32 para análises de
Matemática e aquela. A resolução de problemas e as discussão. Abaixo, retomamos duas dessas atividades para
aplicações da Matemática são, neste contexto, veículos exemplificar a importância que os conceitos matemáticos
essenciais; possuem na educação dos estudantes da primeira infância e
- saiba estabelecer relações fortes com as outras que fazem parte do estudo da vida.        
disciplinas - fomentando a interdisciplinaridade - para que em A pesquisa nos revelou que, quando solicitado à
conjunto criem instrumentos globais de avaliar o real; criança que registrasse a quantidade de elementos de cada
- saiba ser a realidade e não uma recriação artificial conjunto e pintasse a tarjeta que indicava que essa
desta. É importante que em cada momento saiba utilizar, quantificação é par ou ímpar, ele mostrou à sua maneira
atempadamente e com naturalidade, as novas tecnologias. como diferencia quantidades pares de quantidades ímpares.
Observe-se a dificuldade com que os computadores e as Para conseguir tal feito, ele agrupou, em cada conjunto, os
calculadoras estão a penetrar na sala de aula. elementos de dois em dois e assim pôde afirmar que os
A Matemática está perante velhos problemas e conjuntos possuem quantidades pares quando todos os
novos desafios. As insuficiências que nós hoje apontamos elementos estiverem juntos, formando duplas; já nos
foram já identificadas há muito. Este fato deverá constituir um conjuntos que depois do agrupamento ainda restava algum
desafio estimulante para que não tornemos esses problemas elemento sozinho o estudante pôde dizer que aquele
cada vez mais velhos. conjunto possui quantidade ímpar, já que havia alguém sem
Se a Matemática souber "dar a volta", vencendo os seu par (MOURA, 2006).
desafios que lhe são propostos, ela deixará de ser a Observando com maior atenção podemos verificar
disciplina onde se faz o Ensino da Matemática - com toda a que não apenas o entendimento sobre quantidades pares ou
carga depreciativa aliada a uma transmissão unívoca de ímpares era o foco da atividade proposta, mas também havia
conhecimentos - para ser a disciplina onde se faz Educação o desafio lançado aos pequenos acerca da noção sobre
Matemática. conjunto e seus elementos e o registro das quantidades: o
aprendente quantificava os conjuntos e registrava tal
3) A COMPREENSÃO DOS CONCEITOS quantidade através de um símbolo matemático, assim pode-
MATEMÁTICOS PELAS CRIANÇAS se saber se o estudante sabe quantificar (noção de número)
e se sabe registrá-la (noção de algarismo/ numeral). Outro
CONCEITOS MATEMÁTICOS INSERIDOS NA elemento importante nesta atividade é o subconjunto que o
EDUCAÇÃO DA PRIMEIRA INFÂNCIA: DIAGONAIS QUE próprio aprendente constrói quando separa os elementos de
PERPASSAM O DESENVOLVIMENTO DOS PEQUENOS cada conjunto em pares, fazendo assim conjuntos menores
ESTUDANTES contidos em um conjunto maior, estendendo para a
compreensão de dentro e fora do subconjunto: os
INTRODUÇÃO subconjuntos que contém dois elementos são chamados de
Sendo a palavra matemática de origem grega, ela é subconjuntos pares, já os que não se encaixam nesta
a união entre máthema que significa "estudo", classificação são ímpares, podendo assim ampliar para o
"conhecimento", "ciência" e deriva de manthánõ, que significa conjunto maior, classificando-o em par ou ímpar.
"aprender", "estudar"; adicionada a thica que significa "vida". Ainda temos a compreensão sobre o termo par no
Então podemos concluir que em sua origem a matemática é o sentido humano: par de namorados, par de familiares, de
estudo ou o conhecimento da vida. Através desse prisma amigos; estar em união; no outro extremo seria ficar sozinho,
discorreremos acerca dos conceitos matemáticos que estão isolado, todos têm seus pares menos eu ou tal pessoa. E
inseridos na educação dos pequenos aprendentes. ainda discorrer sobre os conjuntos apresentados: conjunto de
Encontraremos neste ensaio os campos peixes, falando de sua importância como alimento, da
matemáticos que, internacionalmente, alicerçam a preservação do meio ambiente, da escassez de peixe que
aprendizagem da matemática. Estes campos são: numérico, existe em nossa região, dos peixes provindos de criatórios;
espacial e o campo das medidas. Ambos não devem ser conjunto de ovos, discorrendo das proteínas que eles
ensinados isoladamente, mas com um olhar plural possuem, da origem: de galinha? pata? avestruz?; conjunto
(PEREIRA, 2007), compreendendo que eles devem servir de doces, lançando indagações: quem produz os doces?
como caminha e não como fim em si mesmo. Onde compramos doces? Quais os tipos? Quanto custa?; e
por último o conjunto de abelhas, procurando alertar os
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estudantes acerca dos males que estamos proporcionando E para mudar este quadro, faz-se necessário já na
ao meio ambiente destruindo a flora e a fauna, a produção educação da infância uma tradução da linguagem dos adultos
das abelhas e a importância desse produto para nossa para a linguagem dos pequenos, nada melhor do que a
saúde, a organização social das abelhas. Temas que saltam brincadeira, o jogo e a literatura para a realização deste ato.
a nossos olhos e não podem ser desprezados pelos Sendo o jogo e a brincadeira atividades principais das
educadores, pois as discussões, as conjecturas devem ser crianças, elas agem sobre eles elaborando estratégias de
alimentadas para que os estudantes pensem cada vez mais. ação para obter o que almejam e ainda conseguem se
O Referencial Curricular Nacional para a Educação desinibir, expressar atitudes diversas e apreender relações
Infantil (v. 3, 2002) realiza alusões a esses pontos propondo sociais que lhe perseguirão por toda a vida, como por
o ensino da matemática na educação da primeira infância de exemplo, perder e ganhar (SILVA 2008). No caso da
maneira interdisciplinar, contudo com abordagem piagetiana. literatura, além do estímulo à leitura, o educador estará
É neste ponto que, nesse momento, não compartilhamos com exercitando na criança a percepção visual, a orientação
as orientações do documento, pois a nosso ver as espacial e a ordenação temporal e tantas outras habilidades
possibilidades de discussões são tamanhas que um olhar leitora; não só numa perspectiva de trabalho com o texto
histórico-crítico, e não puramente piagetiano, ajudaria verbal, mas especialmente com o texto não-verbal (BREVES,
imensuravelmente os educadores a compreenderem as 2003).
diversas possibilidades que o ensino da matemática pode Valendo-nos de D'Ambrosio (1996, p. 7) e a partir do
proporcionar às crianças.  revelado nas ocorrências demonstradas acima podemos nos
Noutra situação, outro estudante demonstrou filiar à afirmativa deste grande estudioso da educação, em
compreensão lógica na organização dos fatos a partir da especial da educação matemática, quando defende que ver a
observação das cenas. A atividade solicitava do aprendiz, a disciplina matemática "[...] como uma estratégia desenvolvida
organização das cenas, colocando em ordem da primeira pela espécie humana ao longo de sua história para explicar,
situação até a última ocorrida. Cada cena evidenciava um para entender, para manejar e conviver com a realidade
ocorrido, a criança deveria entender os fatos que acontecem sensível, perceptível, e com o seu imaginário, naturalmente
antes e depois de cada ato, para assim poder classificar as dentro de um contexto natural e cultural [...]". Por isso
cenas da primeira à quinta (MOURA, 2006). incorporamos às três estratégias já mencionadas ao ensino
Neste caso verificamos que a noção de ordenação e da matemática na educação da primeira infância outra que
seriação estava impregnada na atividade. Também deve perpassar nesse triângulo metodológico: a investigação
constatamos as noções de antes e depois, o registro de matemática. O estudante, pela mediação do professor, irá
numerais ordinais e a personificação do rato como o sujeito conhecer o que não se sabe. Segundo Ponte, Brocardo e
que rouba, que comete o delito de apropriar-se do que não Oliveira (2005, p. 23) "[...] O aluno aprende quando mobiliza
lhe pertence, realizando tal ato num momento de descuido do os seus recursos cognitivos e afetivos com vista a atingir um
gato. Esta construção de sujeito (rato) peçonhento, roedor objetivo [...]", assim temos a importância da investigação
que destrói tudo que ver à sua frente é dada às pessoas que matemática para que o estudante possa investir todos os
cometem a mesma obra, não porque se pareçam com o seus recursos para desvelar o que antes era desconhecido.
roedor (fisicamente), mas porque suas atitudes se Tendo em vista que a "matemática e a educação são
assemelham à do bichano.  Rego (1995) nos esclarece tal estratégias contextualizadas e totalmente interdependentes"
feito dizendo que a ação social é demonstrada historicamente (D'AMBROSIO, 1996, p. 8), podemos afirmar que sem um
como uma atitude construída pelas pessoas e não posta enredo estimulante e significativo o filme se torna obsoleto, a
naturalmente, como uma fruta madura que cai da árvore. A história fica sem sentido, o discurso se esvazia e ninguém se
compreensão histórica e cultural nos remete a esses rótulos preocupa em aprender estes acontecimentos. Entretanto,
que em muitos casos desqualificam os animais, que como visualizar os conhecimentos matemáticos como
naturalmente realizam esses atos por "sobrevivência" e não estratégias contextualizadas? Antes de tudo o educador
por extinto racional, ao contrário de nós. necessita conhecê-los e apropriar-se deles, uma vez que,
Outro fato que não podemos deixar de mencionar é "[...] é impossível significar algo, quando se  desconhece a
a noção de classificação dos dois animais: são mamíferos? sua origem e as transformações que sofreu no decorrer dos
roedores? vertebrados ou invertebrados...? E a brincadeira anos" (HENGEMUHLE, 2008, p. 40). Em face disso, veremos
de papeis sociais: quem é o rato ou o gato? Esta última é de quais são os conceitos matemáticos trabalhados na primeira
fundamental importância para as crianças e deveria ser para infância.
os estudos dos educadores, visto que os pequenos Não importa a filiação teórica que os estudiosos em
manifestam pensamentos, atitudes, valores; demonstram educação matemática se encontram, é tendência
suas vivências com seus pares e com os demais. As internacional e assim de todos os educadores matemáticos
demonstrações de autoritarismo, envergonhamento, timidez, que a exploração matemática na educação da primeira
aceitação de punições, de submissão aos outros são infância deve se manifestar em três campos: o espacial, que
visualizadas nas brincadeiras de papeis sociais, que também desenvolverá o estudo da geometria; o numérico, que estará
são chamadas de faz-de-conta (OLIVEIRA, 1997).   alicerçando o estudo da aritmética; e o campo das medidas,
Podemos verificar que em cada uma das situações que se transformará em ponte para integrar a geometria com
visualizadas acima, os conceitos matemáticos e os temas a aritmética (LORENZATO, 2006).
sociais foram explorados nas atividades propostas às Contudo, para que os três campos conceituais em
crianças. Contudo se o educador não tiver uma formação de matemática sejam desenvolvidos com qualidade na educação
qualidade e não souber discutir estas temáticas com seus da primeira infância é preciso que as crianças aprendam
estudantes a disciplina matemática sempre levará o estigma noções básicas acerca de:
de difícil, chata, complicada. Infelizmente é esta a situação
constatada em grande parte das escolas brasileiras.
Professores mal formados que desenvolvem suas práticas de
ensino de acordo com as metodologias que aprenderam de
seus professores formadores, fazendo com que as crianças
vejam a matemática como uma "matéria" muito difícil e
descontextualizada do mundo infantil (MOREIRA; DAVID,
2005).
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           as grandezas e os locais, é estimular o entendimento do meio


social no qual vivemos, desenvolvendo a oralidade e a
capacidade de argumentação, sem esquecer-se do respeito
ao demais e de si mesmo e assim entender os sentidos
impregnados no nosso discurso (MOYSÉS, 1997). 
O processo seguinte é a classificação. Este está
atrelado ao anterior, pois classificar é o ato de separar em
categorias de acordo com as semelhanças e diferenças
existentes. Assim o estudante terá um elemento a mais para
poder entender as classificações sociais manifestadas em
nossa sociedade e não se deixar levar pelos discursos que
querem legalizar essas classificações (GENTILI, 2005).
Nesse sentido o educador deve observar as diversas
Organizada pelo autor a partir de Lorenzato, 2006.
variáveis que, subjetivamente, estão incorporadas em nosso
Ainda há os conceitos físico-matemáticos que
discurso, não apenas no ato de ensinar, mas
possuem relação direta com essas noções básicas e com os
substancialmente nas nossas opiniões carregadas de
campos matemáticos. Os conceitos físico-matemáticos
preconceitos e de generalizações absurdas acerca de algum
abrangem toda e qualquer noção básica que os pequenos
fenômeno social.
precisam aprender durante sua estada na educação da
Mais adiante está o quarto processo que chamamos
primeira infância e ajudam a desenvolver os três campos
de sequenciação. Ele é o ato de fazer suceder a cada
matemáticos. Estes conceitos físico-matemáticos são:
elemento um outro sem considerar a ordem entre eles. Nesta
                                
ação a ordem dos fatos não interfere nos resultados, o que é
totalmente contrário à seriação. A quinta ação mental, busca
ordenar uma sequência seguindo um critério estabelecido, ou
seja, a ordem irá influenciar consideravelmente nos
resultados obtidos. Entretanto, os educadores de modo geral,
fazem muita confusão entre estes dois conceitos. Muitos
solicitam aos educandos uma sequência numérica na ordem
Organizada pelo autor a partir de Lorenzato, 2006. crescente ou decrescente, como se a ordem entre os
Segundo Lorenzato (2006), para o docente propiciar numerais fosse condição para a existência de qualquer
o desenvolvimento desses conceitos físico-matemáticos, das sequência, e quando a criança não realiza a atividade
noções básicas e dos três campos matemáticos na criança, observando a "ordem" o docente diz que estar tudo errado.
faz-se necessário que o educador conheça os sete processos Uma incompreensão conceitual por parte do ensinante.
mentais básicos para a aprendizagem da matemática. Estes O penúltimo processo é a inclusão, ou seja, o ato de
processos não estão ilhados, nem tampouco pertencem a um fazer abranger um conjunto por outro. Assim as crianças
círculo que tem começo e fim; eles perpassam todas as áreas conhecerão as partes menores e poderão agrupá-las em
do conhecimento que estão inseridas na educação da partes maiores; incluirão dentro de uma categoria maior os
primeira infância. Por isso, caso o educador não possua, seus membros. Conseguirão diferenciar subconjuntos dos
como diz Pereira (2007), um olhar plural ele nunca conjuntos, assim poderão estabelecer a relação elemento/
compreenderá as possibilidades de construção de uma aula conjunto (relação de pertinência) e a relação conjunto/
completa e rica, sempre desenvolverá uma aula fragmentada. conjunto (contém e não contém/ está contido e não está
Por esse motivo, compreendamos cada um dos processos contido). Ou seja, inclusão é o ato de generalizar. É
mentais básicos para a aprendizagem da matemática. importante que seja suscitada a inclusão social durante as
A correspondência é o primeiro deles. Nela se aulas na educação da primeira infância, visto que as crianças
estabelece a relação um a um; chamamos ainda de estão inseridas num mundo em que as pessoas menos
correspondência biunívoca. Muito utilizada nos primeiros favorecidas estão constantemente sendo excluídas das
anos da educação das crianças e que as ajudará a oportunidades de terem uma boa escola, uma boa moradia,
compreender situações matemáticas que permeiam a saneamento básico, acesso à cultura, ao lazer e tantos outros
vivência social e econômica desse aprendente. Na relação direitos que, não só a Constituição do nosso país nos
biunívoca é importante que o docente tenha em mente que favorece, mas fazem parte da dignidade humana. Nesse
ela só se concretiza porque há elementos suficientes em sentido, o ato de generalizar não está filiado ao de rotular,
cada conjunto para realizar a ligação entre eles, isso não nem tampouco criar estigmas, mas, sobretudo resistir à
quer dizer que não possa aparecer elementos em um dado alienação do sujeito social e assim lutar contra a submissão
conjunto que não tenha seu respectivo em outro conjunto. O do ser humano ao capital (LESSA; TONET, 2008).  
que não pode ocorrer é conjuntos vazios se relacionando Por último, vem a conservação que possibilita aos
com outros conjuntos não vazios.  aprendentes perceberem que a quantidade não depende da
O segundo procedimento mental é a comparação, a arrumação, forma ou posição dos elementos, em virtude de
qual faz o estudante estabelecer diferenças e semelhanças que a quantidade é imutável estando onde estiver. Não
entre grandezas, medidas, lugares e tantos outros conceitos importa o local que se coloca os elementos, sendo um
físico-matemáticos.  Comparamos tamanhos, formas, locais e recipiente largo ou longo, estreito ou comprido, se há um litro
pessoas constantemente, o que não se distancia das de qualquer que seja o líquido este sempre será um litro. De
comparações matemáticas, uma vez que comparar é um ponto de vista social este conceito não se aplica, em
visualizar o que, a nosso gosto, é bom ou ruim, estar de razão de que as lutas de classe buscam a eliminação da
acordo com o que pensamos ou não. Estes detalhes que conservação social, da reprodução do status quo (ibidem). É
muitas vezes não são percebidos pelos profissionais da importante que os estudantes percebam esta luta e
educação causam tumulto e desordem nas atividades que as compartilhem com esses embates. Entretanto, sozinhos não
crianças realizam, em especial nas brincadeiras e nos jogos. o farão, então é necessário que os educadores tenham
Então desenvolver este procedimento mental com as compreensão sobre tal fenômeno e busquem em suas
crianças não é apenas favorece a elas o contato com práticas pedagógicas, desde a escolha do livro didático até
materiais, objetos em que elas possam comparar as medidas, uma simples atitude dentro ou fora da sala de aula,
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confrontos que possibilitem a discussão e a posterior escola [...] Iniciam o aprendizado do uso social dos números
compreensão de que não devemos servir de massa de e das atividades sociais relacionadas aos atos de comprar e
manobra, nem tampouco utilizar os demais para tal estado, vender". Tais procedimentos estão inseridos num campo
haja vista que somos seres que vivemos em sociedade e maior que é o comércio. E neste campo as relações são
precisamos respeitar as opiniões de todos, sem ser preciso mediadas pela linguagem, a qual, segundo Oliveira (2006, p.
aceitá-las. 43), Vygotsky trabalha com duas funções básicas: a
Por intermédio de Lorenzato (2006, p. 27) linguagem como função de intercâmbio social e pensamento
  generalizante. Nesta "[...] A linguagem ordena o real,
Convém ainda salientar que os processos aqui descritos não agrupando todas as ocorrências de uma mesma classe de
estão restritos a um determinado campo de conhecimento, na objetos, eventos, situações, sob uma mesma categoria
medida em que podem interagir com qualquer situação do conceitual". Já a primeira função é para o ser humano se
cotidiano. Na verdade, eles são abrangentes e constituem-se comunicar com seus semelhantes. Em ambas as funções o
num alicerce que será utilizado para sempre pelo raciocínio uso da matemática se manifesta de maneira intrínseca ou
humano, independentemente do assunto ou tipo de problema extrínseca. Uma vez que em situações sociais, econômicas
a ser enfrentado. ou culturais a língua materna e a matemática são usadas
O caminho escolhido por cada educador para o para manifestar os fenômenos que proveem da essência da
desenvolvimento desses processos mentais básicos vai se linguagem: o ato de comunicar. Nesse sentido
constituindo a partir de sua visão gnosiológica, ou seja, a [...] tanto a Matemática quanto a Língua Materna
entendimento que possui ou possuirá sobre o conhecimento; constituem sistemas de representação, construídos a partir
ontológica, a compreensão de Homem; e axiológica que da realidade e a partir dos quais se constrói o significado dos
consiste na concepção de valores. O nosso trajeto é calcado objetos, das ações, das relações. Sem eles, não nos
pela abordagem histórico-dialética que entende o Homem construiríamos a nós mesmos enquanto seres humanos
como um ser histórico e dinâmico, o conhecimento como (MACHADO, 2001, p. 83).
produção histórica e de caráter não material e os valores  
como perpetuação de ideias para a superação das E como seres humanos que somos precisamos manifestar
desigualdades sociais. Assim, a abordagem que permeia nossos valores, nossos sentimentos, ideias, opiniões, e em
todo este trabalho ver a educação muitos casos utilizamos o discurso como meio para a
[...] como sendo uma prática inserida no contexto concretização desta exposição. Não estamos afirmando que
das formações sociais que resulta de condicionamentos o discurso é o único e melhor meio para expressar tais ações;
sociais, políticos e econômicos, reproduzindo, de um lado, as só estamos compartilhando com Machado 2001) a
transformações sociais, mas, de outro dinamizando e importância que este instrumento possui no ensino e no
viabilizando as transformações ao garantir aos futuros desenvolvimento da pesquisa em matemática, principalmente
cidadãos o efetivo acesso ao saber (FIORENTINI; na educação da primeira infância.
LORENZATO, 2007, p. 66). Para tanto, estimulando o discurso dos pequenos
Tendo em vista esses dizeres não poderíamos acerca dos processos mentais básicos em aprendizagem da
deixar de manifestar nossa comunhão ao programa matemática, poderemos partir para textualização das
desenvolvido por Ubiratan D'Ambrosio chamado de atividades propostas. Com a prática do discurso as crianças
Etnomatemática. Porque percebemos que os temas poderão opinar, argumentar, criar possibilidades, confrontar e
matemáticos não possuem um fim em si mesmo, sua se necessário abandonar sua opinião para aceitar a do outro,
existência está ligada a uma questão abrangente, de caráter pois esta, neste momento é a que melhor explica a situação,
multicultural, assim, mediante D'Ambrosio (2005, p. 44) a é a que está mais próxima da validade. Este processo não se
Etnomatemática dar ênfase ao pensamento qualitativo. Para constitui ao acaso, tampouco em um único ano. Como o
ele, uma abordagem etnomatemática "[...] raramente se próprio nome diz é um PROCESSO que perpassa todas as
apresenta desvinculada de outras manifestações culturais, áreas do conhecimento, assim como a Matemática, por isso
tais como arte e religião [...]" e sempre está atrelada a um faz-se necessário que todos os profissionais que ministram
tema maior, de caráter ambiental ou de produção. Em face aulas na educação da primeira infância possuam um
disso, a etnomatemática se enquadra impecavelmente num arcabouço teórico-metodológico, neste caso, sobre a
entendimento multicultural e holístico de educação. Matemática para criarem práticas educativas que realmente
Mas o que vem ser a Etnomatemática? Para desenvolvam as competências matemáticas dos pequenos
D'Ambrosio a Etnomatemática é um programa de pesquisa aprendizes.
em história e filosofia da matemática, com inconfundíveis Para ampliar o entendimento sobre a
implicações pedagógicas e se constitui de dimensões Etnomatemática e a importância do discurso, nos filiamos à
conceitual, histórica, cognitiva, epistemológica, política e perspectiva teórica sociocultural que está inserida no campo
educacional . O autor deixa claro que a etnomatemática, da investigação História na Educação Matemática. Tal ponto
fazendo uso dos instrumentos de natureza matemática, de vista vem sendo desenvolvido e defendido por Radford e
possibilita uma abordagem crítica da realidade. Ela é parte do Fulvia, ambos estudiosos do campo da história na educação
cotidiano das crianças, jovens e adultos, em virtude disso, matemática; ela desenvolvendo seus trabalhos na Europa,
segundo D?Ambrosio (2005, p. 17), o objetivo da em especial na Itália, já ele trabalhando fortemente no
Etnomatemática "[...] é procurar entender o saber/ fazer Canadá. Os dois, segundo Miguel e Miorim (2008), veem
matemático ao longo da história da humanidade, discutindo pelo mundo inteiro tal abordagem e ampliando o
contextualizando em diferentes grupos de interesse, entendimento acerca desta perspectiva de investigação da
comunidades, povos e nações [...]". Em razão disso é história na educação matemática.
essencial que o docente corporifique tais conceitos básicos Tendo, Miguel e Miorim (2008), tal compreensão de
da matemática desenvolvidos na educação da primeira investigação cunho linguístico-semântico e perspectiva
infância, os campos conceituais e os conceitos físico- sociocultural, as ideias matemáticas possuem gênese
matemáticos sabendo elaborar situações que desenvolvam histórica, desse modo a aprendizagem matemática é
os processos metais básicos para a aprendizagem da visualizada como a capacidade pessoal de se apropriar, por
matemática. meio da negociação interativa inserida num determinado
Com base em Ferreiro (2001, p. 98), "As crianças contexto cultural, dos sentidos semióticos sócio-
iniciam o seu aprendizado de noções matemáticas antes da
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historicamente produzidos aos conceitos matemáticos no Portanto, ensinar matemática para as crianças é
interior de uma atividade seja ela sistematizada ou não. estimulá-las ao mundo dos sabores, das cores, das
Furinghetti e Radford (2002, apud MIGUEL; aventuras, das descobertas. É acima de tudo, compreender
MIORIM, p. 131-132, 2008), apontam que que elas são seres sociohistóricos e precisam ser
Na abordagem sociocultural que defendemos, respeitadas, compreendidas como crianças e vistas como
investigamos textos matemáticos de outras culturas levando seres ativos do processo de ensino e aprendizagem. Para
em consideração o tipo de prática cultural na qual eles tanto, o educador não deve negar a elas o ensino, tampouco
estavam envolvidos a fim de examinar o modo como com qualidade. Os pequenos devem ser aproprias desses
conceitos, notações e significados matemáticos foram conhecimentos para poderem avançar em seu
produzidos. Através de um contraste oblíquo com as desenvolvimento. 
notações e conceitos que são ensinados no currículo da
atualidade, procuramos obter "insights" sobre os tipos de 4) A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
exigências intelectuais que a aprendizagem da matemática MATEMÁTICO
solicita de nossos estudantes e ampliar o domínio de nossas
interpretações das atividades de sala de aula. Ao nível da Ao pensar na escola, muitos fatores devem ser considerados:
construção de atividades para a sala de aula, temos fatores históricos, sociais, culturais, antropológicos,
finalmente como meta adaptar conceptualizações econômicos, políticos e pedagógicos. Pode-se também
sedimentadas na história a fim de facilitar a compreensão da considerá-la sob diversas perspectivas: a do professor, a do
matemática por parte dos estudantes (grifo nosso). aluno, a dos pais, a da comunidade, a da gestão escolar, a
Entendendo que é importante conhecer os tipos de da construção do conhecimento. Este trabalho tem a
práticas culturais em que foram construídos os conceitos proposta de fazer uma reflexão acerca da escola e de alguns
matemáticos, os significados dispensados a eles e como as fatores que estão provocando mudanças nos paradigmas
diversas culturas se apropriam destes conceitos estaremos educacionais e, também, do papel do professor na
avançando na perspectiva da Etnomatemática e assim perspectiva de construção do conhecimento matemático.
entendendo que não há uma cultura melhor que outra, elas
são independentes e constituídas a partir das relações
socioculturais que permeiam um povo.   A ESCOLA, UM ESTABELECIMENTO DE ENSINO?
Desse modo, não nos limitaremos a nosso
mundinho, uma vez que as crianças precisam conhecer A escola habita o cotidiano de tal forma que parece fazer
novas culturais, valores diferentes dos seus, ampliar seus parte do natural. Quando se propõe questioná-la, surge um
horizontes e assim entender que os conceitos matemáticos certo incômodo: ela é questionável?
não foram desenvolvidos por um "grupinho" de pessoas que
possui nível intelectual mais avançado e sim que foram Partindo da ideia de que um dos papéis da escola é de
através das contribuições das diversas culturais que hoje possibilitar às novas gerações a apropriação do
temos a Matemática tão avançada e ainda carente de conhecimento construído e acumulado pela humanidade e
profissionais que saibam utilizá-la como instrumento para o que esta instituição é constituída por pessoas, seres que
desenvolvimento social da humanidade. interagem e que buscam incessantemente novos
Sabemos das dificuldades que temos para conhecimentos, podemos refletir sobre a escola hoje, no
corporificar tal visão de estudo, ensino e aprendizagem da século XXI.
matemática, contudo sendo seus conceitos diagonais que
perpassam o desenvolvimento dos pequenos estudantes não Essa escola se mantém no mundo contemporâneo, sem
podemos nos esquivar a tal desafio e fazer de conta que sofrer grandes transformações. Isto quer dizer que ainda é
estamos ensinando e nossas crianças aprendendo. Se um estabelecimento de ensino que privilegia a reprodução de
decidirmos pela profissão de educador temos de nos ideias e comportamentos ensinados pelo professor na sala de
apropriar do conhecimento para podermos compreendê-lo, aula, palco de exibição. Administrativamente há toda uma
estender nosso campo de interpretações das atividades em hierarquia: diretor, vice-diretor, supervisor, professor, aluno,
sala de aula e finalmente provocar o entendimento da sendo que a maioria das escolas desconsidera a participação
matemática a nossos aprendentes. dos alunos e dos pais e não tem um projeto coletivo de ação
na busca de uma educação de qualidade. Se essas pessoas
Como ficou marcada nesse trabalho, a matemática seguram as rédeas administrativas na direção que lhes
não é concebida como conhecimento exato, difícil, abstrato, convém, pode ocorrer de puxarem para o lado oposto ao do
que para aprendê-la é preciso nascer com aptidão, que este outro. Como forças opostas aplicadas a um mesmo objeto
conhecimento justifica-se pelas suas aplicações práticas e não provoca o deslocamento desse, tal fato leva as escolas a
que ela desenvolve o raciocínio.  Ao contrário, nos dizeres de acreditarem que apenas um deve administrar, numa postura
D?Ambrosio (2005), a matemática é um conhecimento autoritária, defendendo que um manda e os outros
produzido pelos seres humanos ao longo da história para obedecem, esquecendo-se de que uma escola, enquanto
explicar, para entender, para manejar e conviver com a instituição formadora, faz-se pelo diálogo, portanto, pelo
realidade dentro de um contexto natural, cultural e conflito. Esse conflito entre um sujeito e os demais, pelo qual
socioeconômico. cada um se vê obrigado a levar em consideração o pensar
E para tanto, é mais que urgente que nossas dos colegas e a tentar coordenar outras ideias com as suas
escolas da primeira infância desenvolvam atividades com os próprias, denomina-se conflito sociocognitivo. Sua ocorrência
pequenos aprendentes que perpassem pelos campos propicia discussões que promovem a ampliação dos
matemáticos, pelas noções básicas, pelos conceitos físico- conhecimentos, a clarificação do papel da escola e de cada
matemáticos e pelos processos mentais básicos para a membro dessa instituição e a construção da autonomia da
aprendizagem da matemática. Tendo sempre em mente que mesma.
as práticas pedagógicas não devem ser isoladas em si
mesmas, nem tampouco desvinculadas das lutas de classes. Portanto, o conflito vai estar presente em situações em que
Deve haver realmente a instalação da práxis pedagógica no pessoas com formação histórica, social e cultural diferentes,
ato de ensinar. interagem ao cumprirem seu papel social e profissional. Para
Lerner (1994), o conflito sociocognitivo é produtivo para o
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progresso do conhecimento mesmo quando nenhum dos somente alguns tinham acesso ao conhecimento formal, os
participantes da situação possua resposta correta. (LERNER, escribas eram considerados homens especiais, dotados de
1994: 107) inteligência acima da média, por serem os únicos capazes de
decifrar e desfrutar dos conhecimentos geométricos e
Quanto às práticas pedagógicas, vemos que as escolas aritméticos da época, que muitas vezes eram complexos
brasileiras estão sustentadas pela ideia de que o professor, como o sistema de numeração grego e egípcio. A escola
agente do processo educativo, ensina, transmite aos alunos pitagórica muito contribuiu para esse pensamento, pois,
seu conhecimento, que, passivamente, memorizam. Tal formada por aristocratas, defendia o número como sendo a
pressuposto leva a escola a assumir um papel autoritário, essência de tudo o que existe. Segundo Miorim (s/d), a
acreditando que o professor ocupa o centro desse processo e escola pitagórica ... foi responsável pela introdução da
que, para se ter aprendizagem, basta que o aluno reproduza concepção, existente até hoje, de que os homens que
o que lhe foi transmitido. trabalham com os conceitos matemáticos são superiores aos
demais.(MIORIM, s/d: 15)
As bases dessa escola tradicional têm sofrido abalos
mediante o desenvolvimento de tecnologias, tais como a Hoje, percebe-se, ainda, a ideia de que poucos conseguirão
televisão, o computador, a internet, o celular, que apropriar-se do conhecimento matemático, que, ainda para
universalizaram as informações, retirando do professor o muitos, é considerado difícil e complexo. O aluno, ao chegar
lugar que ocupava como único detentor do saber. Hoje, à escola, já apresenta um certo temor a esse conhecimento,
vemos os alunos trazerem para a sala de aula informações, sentindo-se incapaz. Tal ideia é legitimada pela postura
talvez desconhecidas pelo professor, ou materiais fantásticos pedagógica do professor, que se vê como dono do saber, não
que enriquecem as aulas. Eles também transitam por tem uma escuta às necessidades de seus alunos e faz
diversas áreas como a arte, as engenharias, a informática, a questão de reforçar a heteronomia deles, não lhes
literatura. propiciando um fazer, pois acredita que aprender é “saber na
ponta da língua” o que foi ensinado.
Outro fato importante é os estudos científicos desenvolvidos
na área da Educação em todo o mundo. E que mostram que Sabendo que a Matemática surgiu da interação do homem
o conhecimento é concebido como produto de uma relação, é com seu mundo, ao tentar compreendê-lo e atuar nele, é
uma atividade. Tal concepção epistemológica retira do aluno difícil aceitar que, ainda assim, conhecedoras desse percurso
a postura passiva, pois o considera responsável pela e de estudos como os de Piaget, os quais afirmam que a
construção do conhecimento, mostrando que ele é ponto criança constrói o conhecimento através da interação com o
fundamental do processo de aprendizagem. outro e com o mundo, nossas escolas insistam em manter um
ambiente “desmatematizador”. Esse ambiente é permeado
Apesar dos abalos sofridos, a escola tradicional está muito pelas ideias da transmissão de conhecimentos e de que a
presente no ambiente educacional brasileiro. Instituições com criança, ao chegar na escola, não é dotada de saberes.
pouca participação da comunidade, fragmentadas no sentido
de que alguns pensam a educação enquanto outros Vejamos, se a Matemática foi elaborada a partir da atuação
executam, relacionam a disciplina do aluno ao estar quieto, do homem no mundo, por que então nossas escolas não
cumprindo as ordens estabelecidas pelo professor, sendo oferecem à criança a possibilidade de se apropriar do
que, para manter tal concepção, as salas de aula conhecimento elaborado por seus antepassados, na relação
permanecem com fileiras de carteiras, o professor colocado à com o seu mundo? Se a Matemática é uma ciência simples e
frente, apenas no uso de quadro, giz e livro didático, dando natural por que, então, considera-se que somente alguns dão
instruções para os alunos. Nessa postura, percebe-se que o conta desse saber? Ao responder essas perguntas percebe-
professor acredita na transmissão de conhecimentos como se que é emergente a necessidade de a escola
única forma de aprendizagem, desconsiderando a contemporânea propiciar um ambiente matematizador.
comunicação como uma interação entre sujeitos. Segundo Kamii (1994), o ambiente social e a situação que o
professor cria são cruciais no desenvolvimento lógico-
Por outro lado, percebe-se que mudanças começam a matemático. (KAMII. 1994:63)
ocorrer no cenário educacional, mesmo que ainda de forma
tímida. Busca-se uma nova escola, onde professor/aluno e Acredita-se que essa escola deveria ser alicerçada no
aluno/aluno, num processo de interação constante, diálogo, sendo todos aprendizes. O aprender estaria
privilegiam o diálogo, o questionamento, a crítica, a relacionado ao fazer, lembrando que o ser humano é movido
criatividade, o aprender a ser e o aprender a fazer, numa por desejos e é capaz de aprender Matemática. Um ambiente
intensa preocupação com a formação integral do homem, matematizador, então, seria aquele permeado por desafios,
promovendo uma relação igualitária entre o pensar e o sentir. por construções, por possibilidades. O professor, numa visão
vygostkiana, é aquele que possibilita esse ambiente, que leva
A partir dessas duas direções apresentadas, a da escola a criança a estabelecer relações, a pensar, indo além do que
reprodutora, em que o professor ensina e o aluno aprende, vê. Assim, ela viverá e (re)descobrirá o conhecimento,
reproduz e a da escola crítica, em que o professor possibilita construindo-o de forma ativa, posicionando-se como parte
ao aluno a construção do conhecimento, faremos uma fundamental desse mundo, capaz de promover mudanças em
reflexão sobre o ensino de Matemática nas escolas, no si mesma e em seu meio.
momento atual.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
PROPICIANDO A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
MATEMÁTICO     ... a escola, agência social explicitamente encarregada de
transmitir sistemas organizados de conhecimento e modos de
Ao analisar a construção histórica do conhecimento funcionamento intelectual às crianças e aos jovens, tem um
matemático, percebe-se que o mesmo tem sido elaborado a papel essencial na promoção do desenvolvimento psicológico
partir da tentativa do homem de compreender e atuar em seu dos indivíduos que vivem nas sociedades letradas. (KOHL,
mundo. Como, na Grécia Antiga, berço da Matemática, 2000:35)
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tabuada e que tem que se lembrar como é o algoritmo da


Então, o que precisa acontecer para que a escola realmente multiplicação. Essa pessoa gastará muito mais tempo a
assuma esse papel de emancipação? Talvez o professor efetuar a operação do que uma pessoa que tenha presentes
precise acreditar que é possível mudar, conscientizando-se esses conhecimentos, os quais só envolvem memória e
de que os avanços tecnológicos e que os estudos científicos repetição de gestos mentais. Por outro lado, quem já souber
sobre a educação fazem de hoje novos tempos, com novas conhecer a tabuada e tiver o algoritmo da multiplicação na
necessidades. Para dar conta desses novos tempos, o ponta da língua, não só faz o cálculo muito mais rapidamente
professor deve buscar os conhecimentos necessários para como também não cansa a mente, a qual estará então mais
uma melhor compreensão do processo ensino/aprendizagem, apta para pensar noutras coisas.
da educação e do papel da escola no mundo contemporâneo, Neste sentido, a mecanização deve ser encarada
percebendo-se como propiciador de situações de como um investimento: gasta-se tempo agora para se ter
aprendizado ao aluno para que ele produza seu mais tempo livre para a mente mais tarde. E, na minha
conhecimento. opinião, trata-se de um investimento particularmente
lucrativo.
Para que o professor acompanhe as mudanças sociais,
tecnológicas e educacionais, promovendo uma educação de Prática versus teoria
qualidade, os gestores da escola devem propiciar aos Uma impressão errada que se pode ter
professores um ambiente estimulador ao estudo e à relativamente aos algoritmos que se devem memorizar é que
pesquisa. Como? Garantindo aos professores a oportunidade estes só servem para resolver problemas, o que os torna de
da formação continuada[1] no seu próprio ambiente de algum modo inferiores ao estudo de uma teoria
trabalho. É necessário que grupos de estudo e pesquisa, eventualmente mais interessante. Exagerando um tanto, seria
coordenados pelos próprios professores, se debrucem sobre como se os espíritos superiores se ocupassem com a criação
temas pertinentes às necessidades da prática docente e ao de teorias novas totalmente desligadas do mundo real,
seu desejo de apropriar de novos conhecimentos. Dessa deixando a resolução de problemas concretos aos pobres
forma, estabelecem-se condições para que os professores infelizes incapazes de os acompanhar. Esta visão da
abracem a construção de um projeto coletivo na escola com a Matemática está errada: as grandes teorias matemáticas
participação de toda a comunidade. Talvez assim, a escola surgem imensas vezes da tentativa de resolver problemas
contribua para a formação de sujeitos capazes de provocar concretos. Assim, por exemplo:
uma transformação em si mesmos e no mundo.  a teoria de Galois, que é um dos aspectos
centrais da Álgebra atual, surgiu do problema de se tentar
encontrar um algoritmo para resolver equações polinomiais
5) PRINCÍPIOS DE APRENDIZAGEM – PRÁTICA de quinto grau;
PEDAGÓGICA  Gauss criou o método dos mínimos
quadrados, central na Análise Numérica, para determinar a
A Matemática pode ser aprendida a muitos níveis. órbita de corpos celestes e aplicou-o com espetacular
Por um lado, há a aprendizagem que se vai tendo desde a sucesso poucos anos mais tarde (aos vinte e quatro anos de
pré-primária até à Universidade e, eventualmente, depois; idade) para localizar um asteróide (Ceres) que só tinha sido
desta, só tenciono abordar a do Ensino Superior e a da pós- avistado um pequeno número de vezes;
graduação, não porque a restante seja desprovida de
 o conceito de esperança matemática,
interesse (antes pelo contrário!) mas porque, por um lado,
central no Cálculo de Probabilidades, foi criado por Pascal
este texto será sobretudo lido por estudantes universitários
para resolver um problema de dívidas num jogo de azar por
aos quais pretendo dar sugestões sobre a sua aprendizagem
parte de uma pessoa das suas relações.
e, por outro lado, porque considero que tenho pouca
Além disso, estes métodos revelaram-se importantes
experiência quanto aos problemas da aprendizagem da
porque os seus autores e outras pessoas se aperceberam
Matemática nos ensinos Básico e Secundário. Por outro lado,
que poderiam usá-los com sucesso para resolverem um
tanto se pode estar interessado na Matemática por si mesma
elevado número de problemas. Só que só se pode aperceber
(é o que se espera de um estudante da licenciatura em
disso quem não tenha reservas mentais quanto a usar
Matemática) como se pode encará-la unicamente como um
algoritmos para resolver problemas concretos.
instrumento útil para atingir outros fins. Irei abordar ambos os
Outro motivo para não se menosprezarem os
aspectos.
algoritmos consiste no seguinte princípio: o que é bom para a
prática também o é para a teoria! De fato, muitos algoritmos
Aqueles exercícios aborrecidos e repetitivos…
são usados nas demonstrações de teoremas. Por exemplo,
Aos estudantes de Matemática são propostos um
um algoritmo usado para determinar se um sistema
grande número de exercícios de rotina, cuja resolução é
homogêneo de n equações lineares e n incógnitas tem ou
muitas vezes longa, envolve um certo número de cálculos e,
não alguma solução não nula consiste em calcular o
acima de tudo, exige que se memorize um algoritmo, ou seja,
determinante da matriz dos coeficientes do sistema; o
um método de resolução. Porquê? Há diversos bom motivos
sistema tem então alguma solução não trivial se e só se
para isso (e também alguns maus…).
aquele determinante for nulo. Pois bem, este mesmo
algoritmo é usado para demonstrar teoremas na teoria de
A mecanização é importante
Galois!
Ao contrário do que muitas vezes se poderá pensar,
a repetição de exercícios de rotina é importante para
Persistência
melhorar a capacidade de resolução de problemas. É que,
Uma das ideias mais disparatadas que há sobre
quando a nossa mente deixa de estar ocupada a recordar (ou
gênios científicos é a de que eles resolvem problemas sem
a tentar reinventar) a maneira de efetuar todos aqueles
qualquer dificuldade e que, além disso, encontram a resposta
passos, pode dedicar-se a coisas mais importantes. Imagine-
correta à primeira tentativa. Começo por contrariar isto com
se uma pessoa a quem é dado o problema da calcular a área
duas citações, das quais a primeira é famosa e a segunda,
de um terreno retangular com 32 metros de comprimento e
não o sendo, merecia sê-lo.
18 de largura. Suponha-se também que essa pessoa sabe
Thomas Edison:
que basta fazer a operação 32×18 mas que não conhece a
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Gênio é 1% de inspiração e 99% de transpiração. acompanhar as aulas com muita mais facilidade do que ele.
Gian-Carlo Rota: Ao fim de algum tempo, apercebeu-se de um fato que ia
Há uma proporção que permite medir até que ponto contra esta ideia: é que ele era o melhor aluno! Só depois é
se é um bom matemático, que é o número de ideias que encontrou a explicação para o paradoxo: enquanto que
disparatadas que é preciso ter-se até se chegar a uma boa. os seus colegas que lhe transmitiam a impressão de serem
Se for de dez para uma, é-se um gênio. Para o matemático melhores do que ele deviam essa impressão a memorizarem
médio, é capaz de ser cem para uma. rapidamente os conteúdos das aulas, ele precisava de um
Em resumo, em Ciência ter ideias não é, só por si, esforço suplementar para, não só memorizar esses
particularmente meritório. Qualquer bom livro de Ficção conteúdos, como, ainda por cima, compreender como cada
Científica está cheio delas. O que é difícil e exige trabalho e fato novo se encaixava com aqueles que já tinha ao seu
disciplina é, para além de ter as ideias, explorá-las, ver até dispor. E, como se pode ver, esse esforço extra compensou!
que ponto são férteis, determinar os seus limites, testá-la,
compará-las com outras abordagens. Dúvidas
Outro mito falso (e prejudicial!) é o de que os gênios Uma ideia parcialmente errada que muitos alunos
científicos descobrem tudo por si próprios, sem precisarem têm é a de que é melhor não fazer perguntas aos
do conhecimento acumulado dos cientistas que os professores, pois podem ser disparatadas e criar má
precederam. É mesmo um lugar comum em filmes ou séries impressão. De fato, há perguntas que podem causar má
da televisão: o contraste entre o professor pedante, que sabe impressão, como aquelas cuja resposta deveria ser imediata
muito mas não cria nada, e o cientista brilhante que, sem para quem esteja razoavelmente a par da matéria dada ou,
precisar daqueles conhecimentos (e, muitas vezes, pior ainda, aquelas para as quais a resposta já foi dada
ridicularizando quem os possui), resolve problemas dificílimos antecipadamente (não há paciência para aguentar um aluno
sem esforço. Só que, como disse um colega meu «um a perguntar se as matrizes não quadradas também têm
matemático é tanto melhor quantos mais teoremas de cor determinante após se ter dito umas dezenas de vezes que o
sabe»! Não, saber muitos teoremas de cor não dá qualquer determinante só se define para matrizes quadradas). Mas as
garantia de que se é um bom matemático. Mas que ajuda a perguntas que revelam curiosidade e vontade de
sê-lo, ajuda. compreensão provocam quase sempre melhor impressão do
Quando dou aulas a alunos de Matemática do que má. Além disso, a experiência revela que, num elevado
1º ano, uma atitude com a qual já me deparei por diversas número de casos, quando um aluno faz uma pergunta numa
vezes é a de reagirem às primeiras demonstrações a que são aula, nenhum dos seus colegas sabe a resposta, o que só
expostos com uma reação do tipo «Isto jamais me ocorreria!» mostra como a pergunta é interessante.
Eu costumo dizer que aos primeiros matemáticos a tentarem Um critério pessoal que uso para formar a minha
demonstrar o mesmo resultado provavelmente também não opinião relativamente a alunos consiste em observar as suas
lhes ocorreu aquela demonstração. É que a Matemática que reações quando me colocam um problema de Matemática
se aprende naquela fase da aprendizagem já tem, cuja solução desconheço mas que tento resolver na sua
geralmente, muitas décadas, até mesmo séculos. As presença. A maior parte dos alunos pura e simplesmente
demonstrações que são apresentadas aos alunos não são as desliga! A atitude é do tipo «Bolas, ele não sabe!» e encaram
primeiras mas sim as melhores. Mas as primeiras o tempo que ficam à espera que eu tente descobrir a solução
abordagens são geralmente toscas, incompletas e com erros. como um desperdício. Mas os melhores alunos fazem
O matemático russo A. S. Besicovitch disse mesmo uma vez precisamente o contrário: tentam aproveitar a oportunidade
que a fama de um matemático é baseada no número de para verem como é que eu ajo na minha tentativa de chegar
demonstrações falsas que fez! Ele explicou que o que isto à solução. E há uma diferença abissal entre os alunos que se
quer dizer é que trabalhos pioneiros são imperfeitos. contentam com terem conhecimentos matemáticos e aqueles
O matemático norte-americano Paul Halmos conta que tentam não somente possuir esses conhecimentos como
na sua autobiografia (ou «automatografia», como ele lhe também perceber como os alcançarem por si próprios.
chama) que, numa carta de recomendação que escreveu, O lado social da Matemática
começou por dizer que a pessoa em questão resolvia Um colega meu comentou certa vez, a respeito de
bastantes problemas mas que as soluções que obtinha eram ser-se matemático, que «neste trabalho, 50% são relações
geralmente longas e deselegantes, sendo muitas vezes públicas». E é verdade (bom, talvez com um pequeno
possível pegar numa das suas soluções e, retirando o que exagero)! Um matemático tem todo o interesse em manter-se
era supérfluo, obter outra solução dez vezes mas curta. em contacto com outros matemáticos, quer para ter ideias
Sendo assim, porque é que o destinatário da carta de que possam ajudar a resolver os problemas que lhe
recomendação o deveria contratar? Porque, como Halmos interessam, quer para tomar conhecimento de novos
escreveu, «ele encontra soluções feias onde outros estão problemas. O mesmo se aplica à aprendizagem: é desejável
elegantemente encravados»! É um bom princípio a ter em que se contate com outras pessoas, quer colegas quer
mente: quando se está perante um problema, mais vale ter- professores, a fim de trocar ideias ou receber sugestões. O
se uma solução feia do que estar-se elegantemente trabalho individual é fundamental, obviamente, mas o
encravado. alargamento de horizontes que se obtém através do contacto
«Mas o que é que isto tem a ver com com outras pessoas também o é. A imagem do matemático
aprendizagem?», pode-se perguntar. Afinal, é sabido que os genial a trabalhar num isolamento magnífico numa torre de
professores não estão interessados em abordagens «toscas, marfim tem pouquíssima correspondência com a realidade.
incompletas e cheias de erros» nos exames! De fato, mas Mesmo naqueles poucos matemáticos que mais deram a
uma coisa é aprender Matemática, outra é fazer exames. E impressão de se adequarem a esse estereótipo, como
não se aprende o que é Matemática sem se tentar Newton ou Gauss, sabe-se que isso se deveu em grande
compreender as coisas por si próprio, o que por sua vez parte em terem dificuldade em encontrarem interlocutores
implica, naturalmente, ir além daquilo que o livro ou o adequados e não a falta de vontade de trocar ideias.
professor disserem. A propósito disto, o matemático francês
Laurent Schwartz contou uma vez, numa palestra a que Estudar Matemática
assisti, que, quando foi aluno da Escola Normal Superior, em Não vou descrever aqui como é que faço cada vez
Paris, achava que era um aluno abaixo da média, porque um que estudo Matemática, pois a maneira mais eficiente de o
bom número dos seus colegas lhe dava a impressão de fazer varia muito de pessoa para pessoa, pelo que cada um
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APOSTILA ELABORADA PELA EMPRESA DIGITAÇÕES & CONCURSOS

deve tentar descobrir quais são as condições em que estuda número algébrico é um número que é solução de alguma
melhor. Por exemplo, já há muito tempo que constatei que ter equação polinomial com coeficientes inteiros. Posto isto e
música de fundo não me distrai quando estou a tentar dado o que escrevi anteriormente, um professor que defina o
resolver um problema mas é bastante incomodativa quando conceito de número algébrico deveria dar um exemplo de um
estou a tentar compreender algo novo. No entanto, há número algébrico, explicando porque é que o é, bem como o
algumas ideias que convém ter em mente, quanto mais não exemplo de um número não algébrico (aquilo que se designa
seja para ver até que ponto resultam. por número transcendente), mais uma vez explicando porque
é que o é. No entanto, embora seja fácil dar exemplos de
Não separar a teoria da prática números não algébricos (os mais conhecidos são π e e) não
Não vou repetir o que escrevi acima quanto à é trivial mostrar que um dado número não é algébrico.
relação entre a teoria e a resolução de problemas, embora
esse assunto esteja relacionado com o tópico que vou
abordar agora. A crença na superioridade da teoria
relativamente à resolução de problemas concretos leva
muitas as vezes os alunos a estudarem a teoria sem se
preocuparem em resolver exercícios, o que é um erro crasso.
Ao lerem-se apontamentos das aulas teóricas fica-se muitas
vezes com a ilusão de que se compreende mais de que
realmente se compreende, sobretudo se os apontamentos
forem bem feitos. O contrário também ocorre: textos mal
redigidos podem muitas vezes fazer com que um assunto
pareça mais difícil do que o que realmente é. Em ambos os
casos, o melhor a fazer é resolver exercícios, quer para testar
se se compreendeu bem o assunto, quer para ver se se trata
de um tema tão difícil como parece à primeira vista. Caso não
se disponha de exercícios, então o melhor é tentar-se aplicar
o que se aprendeu a problemas concretos e ver-se se se
consegue ou não resolvê-los.

Não gastar demasiado tempo com exercícios de


rotina
Quando se está perante uma lista de exercícios
«todos iguais» e se tem uma grande dificuldade em resolver
um único que seja, então há certamente algo que está
errado. Nesta situação, o melhor a fazer é reler a teoria que
se está a estudar ou pedir ao professor para explicar
novamente o método, consoante o caso que se aplique.
Naturalmente, em certos casos não é claro se um
determinado exercício é ou não de rotina. Nesses caso, o que
há a fazer é perguntar ao professor.

Resolver problemas
Um conselho que sigo muitas vezes ao tentar
resolver problemas foi dado já há décadas por George Pólya:
se não se consegue fazê-lo, há um caso particular que
também não se consegue resolver; deve-se então começar
por aí. Não, isto não serve para todos os problemas, mas
aplica-se a bastantes mais casos do que o que pode parecer
à primeira vista. Não se consegue resolver um problema
relativo a polinômios? Começa-se por tentar com polinômios
de grau 1 ou 2. Está-se encravado num problema de
matrizes? Vê-se o que se consegue fazer com matrizes com
duas linhas e duas colunas. Não se avança num problema
sobre funções deriváveis? Que tal começar por ver o que se
consegue fazer se elas forem polinomiais?

Compreender os conceitos
Para cada conceito, deve-se conhecer pelo menos
uma situação à qual este se aplica e pelo menos uma à qual
este não se aplica. Assim, por exemplo, um primeiro (e
importante) passo para se compreender o que é uma função
derivável consiste em conhecer-se pelo menos um exemplo
de uma função derivável e pelo menos um exemplo de uma
função não derivável. Melhor ainda será conhecer-se um
exemplo de uma função da qual se saiba que é derivável e
porquê e um exemplo de uma função da qual se saiba que
não é derivável e porquê. Naturalmente, é tarefa do professor
fornecer tais exemplos, mas caso isso não aconteça convém
sempre pedi-los. Mas é bom ter em mente que nem sempre é
possível o professor satisfazer tais pedidos. Por exemplo, um
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