A FORMAÇÃO DO LEITOR E O ENSINO DA LITERATURA

Ricardo Magalhães Bulhões
Doutorando em Letras – UNESP – Assis-SP; Professor da FAI – Adamantina; UNIP-Assis

RESUMO Trata-se de relato e pesquisa em andamento. Teoricamente o seu objetivo básico é sugerir certas conexões entre literatura e ensino, verificando em que medida os meios tradicionais de expressão são afetados pelo poder transformador da linguagem, observando também alternativas metodológicas mecânicas que promovem o desinteresse pela leitura de textos literários. Palavras-chave: Formação do leitor, ensino de literatura, papel do professor; literatura e ensino, leitura e criatividade.

READER EDUCATION AND TEACHING OF LITERATURE
ABSTRACT This is a report of an ongoing research. Theoretically its basic objective is to suggest certain connections between literature and education, verifying to what extension the traditional ways of expression are affected by the transforming power of language, also observing mechanical methodological alternatives, wick promote the lack of interest for literature texts. Key words: Reader education, teaching of literature, teacher role, literature and teaching, reading and creativity.

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compreendendo literatura como disciplina escolar dos níveis fundamental e médio. É contestada com mais intensidade apenas porque é mais amplamente ensinada e muitas vezes imposta". portanto. sendo. relacionadas às diversas experiências vivenciadas na prática da sala de aula. políticas. "a música e a história da arte também seriam contestadas se fossem ensinadas de maneira maciça nas escolas". Todas essas inquietações foram devidamente levantadas e discutidas por três pesquisadoras que entrecruzaram diferentes abordagens e apontaram inadequações metodológicas relacionadas a não consideração da esteticidade da Literatura. Ligado a múltiplos fatores. no diálogo com seus alunos. Como já salientava Laura Mancinelli (1995). culturais. pressupõe antigas e novas inquietações. que geralmente segue um modelo preestabelecido pelo livro didático. como por exemplo: para que serve o ensino da literatura? Ou qual seria a sua finalidade e aplicação prática? E aparecem dúvidas quanto à importância e a utilidade do livro didático na sala de aula. crise da literatura. lançadas informalmente. A literatura e a O ensino da literatura. sempre emergentes condições econômicas. fala-se mais e mais de crise. freqüentemente. dentre outros .Uma problemática. aqui constituído. no meio desse território livre e movediço. Segundo a autora. e um sem número de indagações que acabam gerando uma certa sensação de crise. tem em vista a preocupação de sublinhar apenas um determinado assunto. À medida que nos aproximamos das polêmicas colocadas. surgem questões de diferentes vertentes. dúvidas quanto à representatividade das velhas antologias escolares. Para começar. é considerada uma produção sem aplicação prática. e Literatura: a formação do leitor. Nada mais 27 . foi preciso resgatar alguns conceitos básicos sobre o papel e função da literatura. Crise dos valores morais. Optamos por abordar alguns aspectos problemáticos referentes à aplicação de métodos de estudo no ensino de uma literatura escolar. percalços existenciais em que o professor sofre várias pressões e se vê entre Deus e o Diabo. das autoras Maria da Glória Bordini e Vera Teixeira de Aguiar.deve ser analisado como algo a ser continuamente construído. que se fale de uma possível crise do ensino de uma determinada literatura escolar. um permanente "estado" de tensão. de Maria Fraga Rocco. crise do cinema. ele mesmo. assim como a música e a arte figurativa. De um modo geral. "a literatura. trazendo à superfície o texto do professor Antonio Cândido. com conflitos e indagações fundamentais. Falamos dos trabalhos Literatura-Ensino . no artigo intitulado Literatura e pessoa histórica. Nosso texto.O ENSINO DA LITERATURA FORMAÇÃO DO LEITOR E A natural. Estado de tensão na medida que o professor de Língua e Literatura depara-se. sobretudo quando a tônica principal é o aprofundamento do seu próprio papel.

muitas vezes. dizia respeito ao próprio conceito de ensino de literatura e seus objetivos. onde são privilegiados os aspectos da biografia do autor. sociológica ou psicológica. tornando-se o que Antonio Cândido chamou de "apêndice". o ensino da literatura não pode partir de um ponto de vista estritamente pedagógico. Escrito com docilidade e clareza. exaltação da personalidade do escritor e a preocupação em fixar para a posteridade a sua imagem como patrimônio. Interessa a todos os professores que procedimento se deve adotar para tirar o maior "rendimento" possível de uma leitura. que além do conhecimento lingüístico propriamente dito. Vários autores literários consagrados são abordados nos livros didáticos como vultos nacionais. problemas de várias ordens.formação do homem. As afirmações critérios. sua análise apresentou-se . Na verdade. segundo a qual o ensino da literatura só adquire validade na medida que demonstra que tanto a produção literária como as teorias sobre literatura são parte integrante e indissolúvel de um processo histórico que contém em si todas as formas do saber. "A literatura pode formar. com altos e baixos. feitas revelavam "ausência de concepções distorcidas. não havendo uma preocupação com o objeto estético. consagrado como oficial.. "longe de ser um apêndice da instrução moral e cívica. luzes e sombras". aquisição de cultura. o belo.. no trabalho já aludido. muito utilizada até hoje. um tipo de história. No terceiro capítulo do livro LiteraturaEnsino: Uma Problemática . Laura Mancinelli. Para Antonio Cândido. em grande parte ignorado sucumbir". confusões e sempre correndo o risco de conceituais" onde prevalecia "a idéia de que literatura é uma coisa e texto outra. pertencente à revista "Remate de Males" (1999). que costuma vê-la ideologicamente como um veículo da tríade: o verdadeiro. Uma leitura. nas entrevistas realizadas com professores.como uma espécie de instância condutora. Assim sendo. mas não segundo a pedagogia oficial. Cumpre-nos destacar. que iria respaldar as demais. promova um repertório de informações exteriores ao texto. é a de entender o texto seguindo uma orientação histórica. consagrando como oficial o saber das classes dominantes. a literatura acaba se prestando a exprimir valores ideológicos ou moralizantes. ela age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela. novamente. o bom. Não sendo. o livro didático acaba 28 . desde o saber das classes dominantes.Maria Tereza Fraga Rocco (1992) levantou. definidos conforme os interesses dos grupos dominantes". seguindo os requisitos das normas vigentes. O primeiro problema com o qual se deparou. numa pesquisa piloto realizada com professores em escolas da capital e da grande São Paulo.inicialmente . no caso a obra literária. possuidora de valor estético. Personalidades importantes em momentos de afirmação dos chamados "valores nacionais"." Uma outra estratégia apontada pela autora. apresentada como obra de arte. até o saber das classes subalternas.

o autor Nicola chama a atenção para o perfil carismático de Antônio Conselheiro. mas por uma espécie de lógica pragmática a rejeitam". determinismo etc. temos um fragmento de Os Sertões. Dentre eles as de autoras apontam: a inexistência uma leitura 29 . Ainda dentro dessa linha de pensamento. de Euclides da Cunha. não acredito que seja suficiente dizer que o estudo crítico da literatura.. distanciando-se dos valores estéticos.o esvaziamento do ensino da literatura se acentua por diversos motivos. propõe uma transgressão das convenções sociais e dos limites morais. O professor Alfredo Bosi declara no livro A Formação do Leitor das autoras mencionadas acima: "não sei se é possível constituir uma metodologia muito precisa." Depois do fragmento. ela assinala com propriedade: ". barba inculta e longa. acostuma a mente à análise dos fatos da existência. perfeito contador de histórias na caracterização do personagem Antônio Conselheiro. recorrência de fórmulas prontas e o uso dominante do livro didático com textos fragmentados e com preocupações meramente gramaticais. Essas considerações só vieram enfatizar mais ainda um aspecto sedutor. Em nome de uma prática mais emancipatória. abordoado ao clássico bastão em que se apoia o passo tardo dos peregrinos. face escaveirada. no indispensável texto A formação do leitor . fazendo perguntas sobre o momento histórico. monstruoso. na necessidade existencial de conhecê-la". dizendo que esse seria um representante natural do meio em que nasceu. Instintivamente a amam. olhar fulgurante. do Redação descompromissada. conceito de positivismo. do referido livro. deixa de ser um conjunto de métodos de abordagem e produção textual. O parágrafo escolhido mostra um Euclides imaginoso. Ressaltam que o texto literário é pretexto para o estudo da gramática e não é vinculado à experiência de vida do aluno. Segundo Maria Glória Bordini e Vera Teixeira de Aguiar (1988). a falta de estímulo da criatividade e do senso crítico. como já se fez em matemática ou nas ciências biológicas em que o consagrado José de Nicola. portanto. 3. Ela substitui a onipotência do saber pragmático pela visão do enigmático. cabelos crescidos até aos ombros. sem as elaborações ou critérios pedagógicos que buscam um determinado fim. feito através da aplicação de um método científico. E acrescenta mais adiante "o nosso papel de professores se frustraria gravemente se não acreditássemos na sua real validade e. conferindo-lhe um habitus crítico útil em qualquer circunstância". No capítulo quatro. Laura Mancinelli demonstra-nos "que muitas vezes os alunos gostam da literatura.alternativa metodológica . ou mantém com ela uma relação de amor e ódio. dentro de um hábito azul de brim americano.adquirindo um caráter aleatório e superficial.. Podemos dar um bom exemplo desse tipo de leitura promovida Literatura pelo e livro didático volume Língua.. Antes de se tornar disciplina escolar a literatura insinua-se. prossegue com perguntas eminentemente ligadas à história e à sociologia.. Eis um pequeno trecho: "E surgia na Bahia o anacoreta sombrio. Na seqüência.

Conforme entrevistando avaliou alunos do Fraga ensino Rocco. na Não capacidade de convivências possíveis entre distanciados diacronicamente. a rasura do passado significa sempre o empobrecimento do objeto a ser estudado". ou mesmo a compreensão. mas de uma consciência de que as obras do presente estão sempre informadas pelo conhecimento das tensões que articulam tempos diversos e que. além da cultura escola. Assim. até chegar a Machado de Assis ou mesmo Graciliano Ramos. como Gregório de Matos. achamos que se torna difícil 30 . A partir a desses autora resultados um insatisfatórios. por isso. como sendo "horrível". dizendo: "em termo de ensino para adolescentes e pré-adolescentes. Enfim. obrigatoriedade da área de Língua Portuguesa. filológicos. ou folheando revistas numa banca de jornal. o gosto pela leitura surge livremente. como cinema. de exigências. sem a qual não é possível o estudo. mas das humanidades em geral. médio. muitas vezes descamba para a recusa da própria tradição. resultados positivos grande parte dos estudantes não gosta de ler na escola. um esvaziamento do ensino da literatura. uma didática da literatura teria que lidar com um número muito alto de variáveis". mais próximos da realidade do aluno. acreditamos numa apresentação textos diversificada das obras. gostam de ler fora do ambiente escolar. enfim. Maria Glória Bordini e Vera Teixeira de Aguiar enfatizam que o primeiro passo para a formação do leitor se dá através de uma real aproximação desse universo massificado.próprio objeto é mais preciso. estabelece parecer. Aqui. consideramos que esta retomada de obras passadas venha a provocar o desinteresse e o afastamento do aluno. por parte dos alunos. televisão e a própria Internet. Mostra disso é o crescente interesse. Ainda segundo Fraga Rocco. Não. é claro. Existe. Contrariando o modo estabelecido por Fraga Rocco. precisar um momento ideal como instrumento de motivação. o destinatário a quem se dirige este ensino convive permanentemente com fontes diversas de estimulação da fantasia. outros veículos e linguagens. que vem desde de Gil Vicente. À primeira vista. O professor João Alexandre Barbosa (1999) enxerga com muita clareza essa questão: "na verdade. Geralmente. há uma galeria interminável de obras. passando por Alencar. pela leitura Admitem promovida total na desinteresse inquestionáveis. às vezes em casa. não apenas da literatura. O livro didático. a luta contra métodos com tradicionais de ensino da literatura. por poetas de séculos passados. Só o fazem quando se trata de exigência. como nos apontou Bosi. de uma tradição que veja o passado como objeto apenas arqueológico ou arquivístico. o gosto pelo texto escapa freqüentemente de um modelo teórico preestabelecido. de gosto. por eles citadas. num papo informal com amigos etc. estamos diante de um ponto de convergência de conhecimentos históricos. Álvares de Azevedo e mesmo Jorge Amado. acreditam não ser a obra literária distante no tempo a mais aconselhável". Na verdade. Sugere que o professor deva iniciar seu trabalho por meio de textos contemporâneos.

não possibilita a intertextualidade anterior . assimilariam o domínio de uma escrita exemplar. motivo de "chacota". percorrendo a biografia trágica ou heróica dos autores. de julgamentos sábios. Na verdade. Faz-se necessário transcrever aqui uma longa apreciação de Regina Zilberman (1988) que consideramos fundamental: "Num primeiro momento. que já trazem pré-determinados os critérios das análises. e sim através da mediação do principal meio de leitura da escola brasileira: o livro didático. vira. nas antologias e florilégios. na universidade. Estes.acidentalmente. mostrava-se associada a um objetivo didático. confinou leitura à alfabetização. Não há menor dúvida de que a difusão do livro e da leitura no Brasil ficou a cargo da escola. na primeira metade do século XX. nos deparamos com o efeito cômico. um novo tratamento é dado à biografia heróica dos cânones. do tipo Comunicação & Expressão. Na avaliação de tal prática. o êxito do livro didático. No presente. já que tornou-se anacrônica a perspectiva trágica.a partir de um novo dialogismo. aprendizagem e emprego do código escrito segundo a norma urbana culta. isso ocorre tanto em livros didáticos de 1º quanto de 2º grau. facilmente. heróica. por seu turno. um dialogismo entre as figuras míticas dos autores. só foi possível porque vigora ainda a dificuldade de acesso a outro tipo de livro. associou leitura com o conhecimento da tradição literária.oficial. como dado preocupante. o aluno era convidado a se sensibilizar para o mundo das letras. O autor dialogava com seus leitores. inserido. atravessando os graus de ensino e. Samir Mesenari (2002) lembra que a literatura estava presente nestas compilações.trágica. No seu lugar. A seguir. inclusive com respostas prontas no tão famoso livro do professor. principalmente após a revolução de 1.. que produzia um efeito de catarse. a partir da ampliação da rede pública e da organização dos diferentes graus de ensino. havia sim um vasto 31 . vista sobre prisma idealista. Outro aspecto negativo sublinhado são os roteiros dados. A elevação dos autores. valorizando o passado da literatura nacional e os escritores que então pontificaram. com toda a propriedade. mesmo que de forma vaga. Fraga Rocco observa. isto é.930. transmitidos pelos clássicos numa espécie de celebração litúrgica.. o fato de que são adotados livros cujos títulos tragam palavras mágicas. valendo-se. não condiz com a expectativa dos alunos. cuja a produção aumenta à medida que cresce a população estudantil. gravuras da através mediação do professor. Porém. Hoje. acreditava-se que.)." No passado. (. descendente das apostilas e seletas de décadas passadas. o olho de "pirata" de Camões. lendo ou celebrando cânones. hoje. destacado nos relatos biográficos e exageradas. os alunos. raramente são consumidos por via direta. confortavelmente instalado. A didatização desta biografia. Segundo a autora. deveria contemplar a junção destas linguagens.

etimológicas. mas nunca se apurou se essas leituras realmente interferiam nas redações escolares. a escolha dos textos consagrados. no qual reunia num só volume fragmentos considerados representativos sem se quer justificar o critério prática desta de representatividade. exercícios lingüísticas. a que se tem acesso primeira pela de aquisição uma bem do saber acumulado em livros. prevalecia. passagens fora de seu contexto original." Dentre os organizadores de antologias e florilégios. Nesse sentido. de história da literatura. "o estudo da escola romântica e a leitura de românticos não garantiam um estilo romântico na redação escolar. uma ideologia da leitura." Em fundamental: "Os iluministas inauguram. o professor João Rodrigues da Fonseca Brandão foi um dos pioneiros com a compilação do florilégio brasileiro da infância." seguida. poemas bucólicos de Tomás Antônio Gonzaga. acrescenta Regina Zilberman: "Valorizando o livro enquanto instrumento de cultura e usando-o como arma contra a nobreza feudal que justificava a seus tradição privilégios que os evocando consagrara. de um lado o racionalismo contemporâneo que confere à ciência uma importância até aí desconhecida por ela. os pensadores iluministas procuraram solapar uma ordem de conceitos a até então dita como inquestionável no exercício e do para reivindicaram raciocínio assegurar e um na suas modo de pensar apoiado tão somente verificação e da religião. averiguações semânticas. ainda. Por exemplo. nossa questão fundamental era saber qual o critério estabelecido por estes organizadores de antologias. Encontramo-nos aqui diante de um dos maiores problemas que 32 . hinos de Gonçalves de Magalhães. baseada na crença de que a educação. o critério da notabilia. de outro. O valor dos trechos escolhidos dependia inteiramente do julgamento do compilador. Percorrendo algumas antologias predominantes no início do século XX. de Castro Alves sempre se repete aquele incansável pedaço hiperbólico do Navio Negreiro. Nossa especulação evidenciou algumas contradições. constata outro ponto certezas. Vale lembrar que a prática da leitura foi ostensivamente valorizada no século XVIII. existe uma fácil tendência à simplificação das obras. canções de Gonçalves Dias e vários outros autores. ou melhor. Além de desviarem os leitores da consulta direta dos autores. estes textos ficavam relegados a incansáveis. Para perduram até hoje nas apostilas dos cursos prévestibulares. abolindo o prestígio da magia complicar. objetivando a propagação dos ideais iluministas que a burguesia ascendente pretendia impor à sociedade da época.programa de literatura. obra que reunia sonetos líricos de Gregório de Matos. referências históricas e tantas outras apreciações. é a condição sucedida escalada social.

deve ser visto só a partir do final do século XVIII. a difusão da leitura ampliou muito o mercado disponível para livros. o acesso ao ensino superior não dependia de exames de seleção que exigiriam freqüência no ensino secundário." Rompido o isolamento. o crescimento Sob esse ponto de vista. sobretudo. Pode-se mesmo dizer que o interesse pelo ensino médio. só ficou mais evidente. a história da leitura mergulha no interior de vários territórios. com o nascimento do mundo burguês. faz. uma preocupação com a formação educacional dos filhos dessa oligarquia agrícola.com o declínio da lavoura. será portanto sensato considerarmos a leitura como uma espécie de propriedade que se manifesta. 33 . vale a pena ser destacado: "Criá-los tabaréus. no judiciário. encorajado pelas transformações políticas. Abriram-se escolas.de forma pragmática e utilitarista. Inicialmente. outras convenções de adquirem mais legitimidade. paralelamente. Desaparecia o artesão e em seu lugar aparecia o operário. em 1. tivemos uma compreensível mudança de cenário. na Inglaterra.711 uma comparação entre o civilizado e "tabaréu". os lavradores e donos de engenho passam a incentivar seus filhos a terem certas virtudes intelectuais. na primeira metade do século XIX. mesmo que lenta. uma prática mais democrática de leitura. Porém. o operário precisava saber ler. ascensão social. das autoras Regina Zilberman e Marisa Lajolo (1991). desse mundo. garimpado do indispensável estudo A Leitura Rarefeita. que nas conversações não saberão falar de outra cousa mais que do cão. fatores. Jovens alunos que ocupariam funções citadinas. a literatura romântica passa a conquistar de vez. forma ostensiva.O acesso ao livro era fundamentalmente voltado para a alfabetização. naturalmente. Para fazer a máquina funcionar. econômicas aqui e diante culturais.808. na França de 1789. na política.850 quando começa a aumentar o número de cursos superiores no Brasil. cada vez mais aperfeiçoadas. jesuíta e cronista. através dos folhetins. Alguns livros registram essa preocupação. O surgimento efetivo de um público leitor. sobretudo com a vida da corte portuguesa em 1.o que promoveria. É necessário reconhecê-los por intermédio de uma colocação de Marisa Lajolo (2001): "Com a vitória política da burguesia. Antonil. Do outro lado do Canal da Mancha. Com a expansão. A alfabetização espalhou-se. O historiador salienta a importância dada aos títulos honoríficos como por exemplo anel de grau e a carta de bacharel." Sérgio Buarque de Holanda atesta que. a partir de 1. do cavalo e do boi. tornando-o supérfluo e dispensável. começa um ciclo cultural novo. Percebe-se. estavam as máquinas. a industrialização criava um modo novo de produção. ou mesmo em algum cargo burocrático no império e posteriormente na república. No Brasil. João Antônio A. de vários Encontramo-nos novo gradativo dos centros urbanos. Tal fragmento. uma maior liberdade centrada no sentimentalismo e na fantasia. no âmbito da vida privada. Entre o operário e a mercadoria que ele produzia.

preocupação dos partidários da República com um analfabetismo que atingia mais de 70% da população. o ensino permaneceu restrito a um pequeno grupo oriundo das oligarquias rurais. neste caso. mesmo sem o saber. Assumindo um papel de monarca ilustrado. embora presumindo o contrário.com a criação da Biblioteca Nacional e Pública da Corte. sinalizaria a busca por uma vida mais refinada. forçosamente. que a praticou mais assiduamente do que serviu aos negócios do Estado. Por essa ocasião. Sendo uma figura representativa dessa tentativa de formação de uma intelectualidade nacional. dedicamos. Sérgio Buarque de Holanda (1986). a inauguração da Escola Normal da Corte. ocupação em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. que foi. com efeito. tivemos também. amor ao pensamento especulativo-a verdade é que. O público leitor limitava-se a 34 . que funcionaria no Paço Imperial. posteriormente. órgão responsável por uma escrita sobre a história do Brasil. Com muita precisão. A leitura regular de obras literárias permanece como "ornamento" de poucos e esbarra na falta de um público leitor expressivo. ao verbo espontâneo e abundante. Não significa. uma virtude a ser degustada pouco a pouco por homens nobres e livres. Dom Pedro apoiou oficialmente a criação do IHGB. com alguma injustiça. nosso monarca foi uma espécie de mecenas. em si. acessível a poucos. sob a presidência do diretor interino Benjamin Constant Botelho de Magalhães. que mandava seus filhos para a Europa ou algumas capitais do próprio país. visto como artefato luxurioso. o autor de Raízes do Brasil." No entanto. Outra dificuldade seria a própria escassez de publicações. localiza a grandeza deste nosso imperador ilustre: "Dom Pedro. pouca estima às especulações intelectuais. no dia oito de Abril de 1. Tempo houve em que o livro. A leitura teria um caráter ornamental. que não suja as mãos e não fatiga o corpo. pode também ser notado a partir da figura notável do nosso imperador Dom Pedro II. lhe conferimos. parece ter-se fundado numa concepção que transcende a racionalidade. ao seu tempo. que. O processo de formação de uma intelectualidade nacional. a motivação pelo saber. civilizada. inteligência há de ser ornamento e prenda. escrita por seus próprios compatriotas. iniciada em câmera-lenta por Dom João VI. organizada precariamente com livros trazidos pelo próprio imperador. na augusta presença da sua majestade imperial. levou a devoção aos livros a ponto de se dizer dele. É que para bem corresponder ao papel que.880. freqüentador assíduo de exposições de quadros e um profundo admirador da página impressa.mas amor à frase sonora. citadina. à expressão rara.ganhava agora um efeito maior." O apreço exagerado ao livro. escola responsável pela formação de professores do nível de instrução primária. livro como página impressa. à erudição ostentosa. de modo geral. revive este momento: "O trabalho mental. mesmo com a pressão de fatores externos.É interessante notar. um protótipo da nossa intelectualidade oficial. pode constituir. não instrumento de conhecimento e de ação.

Marisa e ZILBERMAN. apresentar mecanismos resultados satisfatórios e fujam dos moldes automatizados de aplicação. Assis: Unesp. então. Os manuais ou antologias escolares atuantes nos arredores de 1. assim.p. o mito do especialista.147 LAJOLO..27 CÂNDIDO. Cria-se. Samir (2002). 31 LAJOLO. Maria da Glória & AGUIAR. in: Papéis Avulsos.Moderna. p.930. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA. Literatura: a formação do leitor. jornalistas. principalmente após a revolução de 1. p. p. O Intertexto Escolar. Ática.anônimos leitores de folhetins. uma figura ilustre. Literatura e "pessoa histórica". Antonio (1999). p.Revista do Departamento de Teoria Literária. A Leitura e o Ensino da Literatura.Contexto. Vera Teixeira de (1988). São Paulo.930.35 ROCCO. p. Raízes do Brasil. Um representante institucionalmente reconhecido e autorizado conforme critérios da classe dominante. Não há menor dúvida de que a difusão do livro e da leitura no Brasil ficou a cargo da escola. Campinas: Unicamp . na enxerga-se um certo encantamento pela verdade apoiada BORDINI. Entre livros. Laura (1995). 18 35 . o que não significa dizer que não existam que caminhos possam possíveis. algumas moças.27 MESERANI. a partir da ampliação da rede pública e da organização dos diferentes graus de ensino. A Leitura Rarefeita.Brasiliense p. alternativas metodológicas. diferenciada por saber configurar um modelo cultural. p. Porto Alegre: Mercado Aberto. SP: Ateliê Editorial. Maria Thereza Fraga (1992). Literatura: Leitores e Leitura. na qual defende a especulação do conhecimento por meio das pressuposições teóricas de um especialista. transmiti-lo para seus concidadãos. João Alexandre (1999). Cortez 4° Edição. Sabemos que não existe um modelo mágico na prática pedagógica centrada na natureza do literário. e os homens das letras em geral. Regina (1991). p.Campanhia das Letras.109 ZIlBERMAN. p.05 HOLANDA. Remate de males. Sérgio Buarque (1986).93 MANCINELLI. Marisa (2001). 48 cientificidade positivista.São Paulo. podendo. uma De modo geral. Regina (1988). estudantes. oferecem alguns protocolos de uma sociedade em constante busca de formação. LiteraturaEnsino: Uma Problemática.

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