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1.

ANÁLISE DO TEXTO

Publicada em 1613 em Lisboa, o texto traduzido se trata da Lei que


fazia restrições aos ciganos que circulavam em certos locais daquela época. O
texto, numa visão de análise ortográfica, apresenta várias ocorrências de
mudanças na grafia de algumas palavras do português arcaico para o
português moderno.

Uma das ortografias que podemos observar é a representação da letra


s representado pelo grafema /f/, como na palavra “conquifta” (4ª linha). Pelo
fato de um falante nativo da língua portuguesa já possuir os códigos internos
de sua língua na mente, ele não terá grandes dificuldades em reconhecer
palavras com este tipo de grafema, pois a intuição pode tomar protagonismo na
leitura do texto escrito em português arcaico.

Veremos, como outros exemplos dessas modificações na ortografia,


palavras que antes se escreviam de uma maneira e que hoje já não são aceitas
pela Academia que rege as normas da língua portuguesa, como é o caso, por
exemplo, das palavras encontradas com a duplicação de ll. Exemplo: “nelle”,
“elle”, “vassalos” estas traduzidas por nele, ele, vasalos, pronomes
demonstrativos e pessoal, respectivamente. Outra palavra que merece nossa
atenção é “treflado” (12ª linha), esta palavra traduzida por traslado temos a
caída da vogal e para a vogal a no português moderno.

Na linha onde se encontra a última palavra destacada, encontramos o


verbo “he”, o qual foi traduzido por “é”, podemos perceber que o valor que
antes davam à consoante h naquela época era tão importante quanto ao uso
obrigatório do acento agudo no verbo de ligação no presente do indicativo.

No português contemporâneo, jamais se encontraria em textos dos


dias atuais, palavras como reyno, ley, rey escritas com esta consoante no meio
ou fim, isso feriria a última norma de ortografia atualizada em 2010 no que se
relaciona à escrita da língua portuguesa. Entretanto, achamos no texto em
análise estas palavras e diante disto podemos perceber como a língua escrita
pode se modificar em relação ao tempo. O que antes se tinha com a escrita
com a consoante y, que ainda é muito difícil ser encontrada em nomes comuns
do nosso cotidiano e sim em nome de pessoas, lugares ou para termos
específicos da ciência, temos, na língua portuguesa moderna as palavras reino,
lei e rei, etc., resultando na queda da consoante mencionada pela vogal i.

Ainda nesta linha de análise, encontramos no texto a palavra açoutada.


Esta com o sentido de penalidade por algum tipo de comportamento
inadequado sofreu alterações ortográficas ao longo do tempo. No português
arcaico, a presença da vogal u na logo nas primeiras sílabas da palavra deu o
que, no português atual (isso inclui o Brasil), conhecemos por açoite, mantendo
ainda o significado que já possuía, mas alterando-se por fatores que
correspondem à língua portuguesa. Tanto esta palavra que acabamos de
mencionar quanto a seguinte merecem uma atenção especial: ambas estão
relacionadas com verbos. A primeira, particípio do verbo açoutar (hoje açoitar)
e a segunda o verbo encorrer (hoje incorrer), estas mudanças no radical se
devem à fatores que a filologia ou fonética e fonologia se dispõem a pesquisar
o porquê. No texto, o verbo incorrer aparece conjugado como encorrerão (3ª
pessoa do plural, presente do indicativo).

Como se pode notar, fazer uma análise ortográfica de uma língua que
antes se escrevia de acordo com o contexto desta não é fácil. Como já
explicado, são vários os fatores que favorecem estas mudanças na ortografia
ou até mesmo na oralidade. Hoje, quando lemos algo, se nos deparamos em
um texto da nossa atualidade, como jornais, cartas, atas, etc., com um artigo
indefinido escrito hum seguramente estranharemos se a pessoa que o redigiu
estava atenta no momento da escrita ou não tinha o conhecimento adequado
para tal, porém, na Carta escrita em questão de 1603, há a presença desta
grafia logo no início do posicionamento de quem a escrevia.

São muitas as observações que podemos destacar para esta análise e


uma delas também são como vêm escritas as conjugações de tais verbos
naquela época, como cumprão, fação. Estes se referem ao presente do
subjuntivo cumpram, façam. É importante notar que as desinências verbais
destes é bem diferente da série de conjugações dos verbos neste tempo verbal
atualmente. A duplicação de consoantes também é um fator interessante na
Carta, pois ao longo da leitura percebemos palavras como: Supplicação
(naquele período, nas Ordenações Afonsinas o tribunal supremo de Portugal
ainda foi designado por Casa da Justiça da Corte. Mais tarde, sob a influência
do direito romano, passou a designar-se Casa da Suplicação), asellado, anno,
dentre outras.