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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ATENÇÃO À
SAÚDE COLETIVA

ANTÔNIO CARLOS GARCIA JÚNIOR

CONDIÇÕES DE TRABALHO E SAÚDE DOS


TRABALHADORES NA INDÚSTRIA
DO VESTUÁRIO EM COLATINA - ES.

VITÓRIA
2006
ANTONIO CARLOS GARCIA JUNIOR

CONDIÇÕES DE TRABALHO E SAÚDE DOS


TRABALHADORES NA INDÚSTRIA
DO VESTUÁRIO EM COLATINA - ES.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em Atenção à Saúde Coletiva da
Universidade Federal do Espírito Santo, como
requisito parcial para obtenção do grau de mestre
em Saúde Coletiva, na área de concentração
Políticas, Administração e Avaliação de Saúde.

Orientador: Prof. Dr. Luiz Henrique Borges

VITÓRIA
2006
Dados Internacionais de Catalogação na publicação (CIP)
(Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo, ES, Brasil)

Garcia Júnior, Antônio Carlos, 1956 –


G216c Condições de trabalho e saúde dos trabalhadores da
Indústria do vestuário de Colatina – ES / Antônio Carlos
Garcia Júnior – 2006.
123f.

Orientador: Luiz Henrique Borges


Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Espírito
Santo, Centro Biomédico.

1. Saúde Coletiva. 2. Saúde do Trabalhador. 3. Processo Saúde-


doença. I. Borges, Luiz Henrique. II. Universidade Federal do Espírito
Santo. Centro Biomédico. III. Título.
CDU 614.2
___________________________________________________________________
ANTÔNIO CARLOS GARCIA JÚNIOR

CONDIÇÕES DE TRABALHO E SAÚDE DOS


TRABALHADORES NA INDÚSTRIA
DO VESTUÁRIO EM COLATINA - ES

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Atenção à Saúde


Coletiva do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo,
como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em Saúde Coletiva.

Aprovada em 7 de julho de 2006.

COMISSÃO EXAMINADORA

______________________________________

Prof. Dr. Luiz Henrique Borges


Universidade Federal do Espírito Santo
Orientador

_______________________________________

Prof. Dr. Ildeberto Muniz de Almeida


Faculdade de Medicina de Botucatu - SP

________________________________________

Prof. Dr. Aloísio Falqueto


Universidade Federal do Espírito Santo
A Marisa e Maya portadoras dos archotes que
iluminam meu caminho.
Aos meus pais.
Antônio Carlos de Assis Garcia, que me mostrou as
estrelas, e Maria da Penha Cabalini, que me
incentivou a seguir a senda do conhecimento.
AGRADECIMENTOS

Nesta hora, mesmo correndo o risco de esquecer alguém, é necessário externar a


minha gratidão a algumas pessoas em especial.

Primeiro, agradeço ao meu orientador Prof. Dr. Luiz Henrique Borges, que sempre
acreditou em minha capacidade e, com enorme consideração e amizade contribuiu
imensamente para a realização deste trabalho.

Sou muito grato também à diretora Vilma Aparecida do Carmo do Sindicato dos
Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário – SINTVEST, cuja atenção e empenho
foram fundamentais para que o trabalho de campo fosse realizado no tempo
programado e a todos os demais componentes do sindicato.

À equipe de entrevistadores de campo Simone de Oliveira Sepulcro, Lucimar Flaves


Gonçalves, Solange Rodrigues da Silva, Rosinéia Maria Cardoso e Maria Aparecida
Freire de Almeida, que foram as grandes batalhadoras e amigas nos momentos mais
difíceis e que, com dedicação ao trabalho, demonstraram garra e compromisso com
esta pesquisa.

Aos trabalhadores do setor do vestuário de Colatina que concordaram em conceder


as entrevistas em seu tempo fora do trabalho, acreditando em nosso propósito de
trazer luz às suas condições de vida e saúde ocupacional.

A todos os professores do Programa de Pós-Graduação em Atenção a Saúde


Coletiva – PPGASC, pelas aulas maravilhosas e momentos de reflexão que
mudaram meu enfoque sobre a saúde e a compreensão sobre o processo de
adoecimento dos trabalhadores.

Sou imensamente grato a FUNDACENTRO que me incentivou através de seu


programa de pós-graduação a realizar este mestrado e pelo indispensável suporte
financeiro que tornou possível concretizar esta dissertação.

Aos colegas da FUNDACENTRO do Espírito Santo pelo carinho e a compreensão


em minhas ausências para participar das atividades acadêmicas, demonstrado pelo
incentivo e interesse pelo meu trabalho.
“A mãe natureza está bastante provida de recursos para
proteger nossos corpos das agressões do ar, como lã, linho,
cânhamo, algodão, assim como seda, se bem que possamos
abster-nos dela, porque foi criada mais para cobrir os corpos
dos homens e das mulheres do que para abrigá-los. Conforme
seja a matéria das várias indumentárias, dela geralmente
resultarão perturbações que serão experimentadas por aqueles
encarregados de sua preparação”.

Bernardo Ramazzini, As doenças dos Trabalhadores – 1700.


RESUMO

Objetivou-se estudar as condições de saúde e trabalho em trabalhadores com


vínculo empregatício com empresas do vestuário que produzem a mercadoria roupa
em sua totalidade, na indústria do vestuário de Colatina-ES. Utilizaram-se dois
métodos: primeiro, um estudo descritivo com levantamento qualitativo das cargas de
trabalho, presentes no processo de produção desta indústria; em segundo, um
estudo observacional com delineamento seccional, realizado através da aplicação
de um questionário em visitas domiciliares a uma amostra aleatória de 432
trabalhadores. O perfil foi obtido através de informações socioeconômicas, condição
de trabalho, queixas referidas à saúde nos últimos 15 dias, suspeita de apresentar
transtornos mentais menores - DMM (avaliada através do Self Reporting
Questionnaire – SRQ-20) e a suspeita de lesões por esforços repetitivos – LER
(através de um questionário de rastreamento). Os resultados apontaram que as
condições de trabalho prejudicam a saúde dos trabalhadores, com tarefas
fragmentadas, realizado em ritmos excessivo, controle rígido, movimentos repetitivos
e de pouca valorização do intelecto do trabalhador. Os trabalhadores são
preponderantemente do gênero feminino (66,35%) e jovens, com média de 31 anos
de idade. A prevalência de queixas referidas de saúde foi de 24,9%, sendo os
problemas músculos-esqueléticos (14,0%), em particular dor na coluna e lombares,
os que mais ocorreram seguidos dos problemas cardiovasculares (9,2%) e dos
problemas das vias aéreas superiores (6,4%). A prevalência de suspeita de DMM foi
de 24,9% e a de LER foi de 16,3%. A função de costureira destacou-se das demais
pela maior prevalência de queixas referidas (p=0,0142), de suspeita de DMM
(p<0,0001) e de LER (p=0,0075). Utilizou-se de regressão logística múltipla ajustada
para estimar o odds ratio entre a função costureira e as demais, em relação às
variáveis suspeita de DMM e suspeita de LER, encontrando-se OR=1,65 (IC95%
1,06-2,57) para LER e OR=2,43 (IC95% 1,67-3,53) para DMM. Os dados apontam
que há um padrão de desgaste da saúde dos trabalhadores da indústria do vestuário
associado às condições de trabalho.

Palavras chaves: Indústria do vestuário e saúde; Saúde do Trabalhador; Processo


Saúde-doença.
ABSTRACT

The objective was to study about the health and working conditions of the formal and
legally employed workers from the garment industries in Colatina, Espírito Santo
State, that do make and assemble the clothes completely in their productive process.
Two methods were used: first a descriptive study with the work loads qualitative
definition within the production process of such industries; and second, an
observational study with a cross section profiling, raised with home collected
questionnaires applied to a random sample composed of 432 workers.
The profile was obtained through social and economic information, working
conditions information, health complaints filled on the 15 days previous to questions
application, minor mental disorders suspicions – MMD (evaluated through the Self
Reporting Questionnaire – SRQ-20) and the repetitive efforts injuries suspicions –
RSI (through a tracking questionnaire).
The results pointed out that the working conditions do harm the workers health with
fragmented tasks done in excessive rhythms, under stiff controls, with repetitive
moves and scarce valorization of the workers intellectual conditions.
The workers are mostly of the feminine gender (66, 35%), young with a 31 years age
average. The prevailing health complaints were 24,9%, distributed in muscolosketal
problems (14, 0%), specially the back problems with major occurrences followed by
cardiac and vascular problems (9,2%) and also problems on the superior breathing
tract (6,4%). MMD prevailing suspicion was 24,9% and of RSI 16,3%. The
dressmaker function was highlighted due to the major prevalence of referred
complaints (p=0,0142), MMD suspicion (p<0,0001) and of RSI (p=0,0075).
Logistic regression was used for odds ratio estimation among dressmakers and the
other functions in relation to the variables with MMD and RSI suspicion, finding
OR=1,65 (IC95% 1,06-2,57) for RSI and OR=2,43 (IC95% 1,67-3,53) for MMD.

Keywords: Collective Health; worker health; health-disease process.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Fluxograma básico do processo de produção da indústria do


vestuário................................................................................................ 58
Figura 2: Fluxograma da célula de produção.................................................... 69
Figura 3: Distribuição percentual das faixas etárias por sexo na indústria do
vestuário de Colatina-ES, 2005............................................................ 84
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 : Função, atividades e cargas de trabalho do setor de criação e


modelagem........................................................................................ 60
Quadro 2 : Função, atividades e cargas de trabalho do setor de almoxarifado
de tecidos e aviamentos.................................................................... 62
Quadro 3 : Função, atividades e carga de trabalho do setor de corte............... 63
Quadro 4 : Função, atividades e carga de trabalho do setor de costura........... 66
Quadro 5 : Função, atividades e carga de trabalho do setor de acabamento... 72
Quadro 6 : Função, atividades e carga de trabalho do setor de lavanderia..... 73
Quadro 7 : Função, atividades e carga de trabalho do setor de passadeira..... 75
Quadro 8 : Função, atividades e carga de trabalho do setor de artesanato...... 77
Quadro 9 : Função, atividades e carga de trabalho do setor de embalagem e
expedição........................................................................................... 79
LISTA DE SIGLAS

CIPA Comissão Interna de Prevenção de Acidentes


CLT Consolidação das Leis Trabalhistas
CNAE Classificação Nacional de Atividades Econômicas
DMM Distúrbios Mentais Menores
DRT Delegacia Regional do Trabalho
EPI Equipamento de Proteção Individual
FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
FUNDACENTRO Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e
Medicina do Trabalho
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
INSS Instituto Nacional de Seguridade Social
LER Lesões por Esforços Repetitivos
LT Limite de Tolerância
MS Ministério da Saúde
MTE Ministério do Trabalho e Emprego
NR Norma Regulamentadora
OIT Organização Internacional do Trabalho
OMS Organização Mundial da Saúde
PCMSO Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional
PNAD Pesquisa Nacional por Domicilio
PPRA Programa de Prevenção de Riscos Ambientais
PSF Programa de Saúde da Família
RAIS Relação Anual de Informações Sociais
SAS Statistical Analysis Software
SEBRAE Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
SRQ-20 Self-Report Questionnaire
SESI Serviço Social da Indústria
SINTVEST Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário
SUS Sistema Único de Saúde
USB Unidade Básica de Saúde
LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Número de empresas do setor do vestuário, por faixas de pessoal


empregado, no Brasil e Espírito Santo - 2004.......................................... 45
Tabela 2: Número de empresas e empregados por CNAE-2004 45
Tabela 3: Distribuição de trabalhadores por função e setor na indústria do
vestuário de Colatina-ES - 2005............................................................... 79
Tabela 4: Distribuição da amostra dos trabalhadores da indústria do vestuário de
Colatina por faixa etária, 2005.................................................................. 82
Tabela 5: Distribuição por grau de escolaridade dos trabalhadores da indústria do
vestuário de Colatina-ES - 2005............................................................... 84
Tabela 6: Distribuição de trabalhadores por tempo de serviço na indústria do
vestuário de Colatina-ES - 2005............................................................... 85
Tabela 7: Morbidade referida, segundo órgãos e sistemas acometidos, nos
trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina-ES, 2005................ 87
Tabela 8: Freqüência de queixas de saúde por setor e função na indústria do
vestuário de Colatina-ES, 2005................................................................ 88
Tabela 9 Prevalência de queixas de saúde com trabalhadores da indústria do
vestuário de Colatina-es por tempo de serviço, 2005.............................. 89
Tabela 10: Número de dias de afastamento do trabalho por queixa de saúde na
indústria do vestuário de Colatina-ES, 2005............................................ 90
Tabela 11: Causas de afastamento do trabalho na indústria do vestuário de
Colatina-ES por órgãos e sistemas, 2005................................................ 90
Tabela 12: Auto-avaliação do estado de saúde dos trabalhadores da indústria do
vestuário de Colatina ES, 2005................................................................ 91
Tabela 13: Distribuição de atendimento médico dos trabalhadores da indústria do
vestuário de Colatina-ES por local, 2005................................................. 92
Tabela 14: Freqüência de consumo de bebidas alcoólicas entre trabalhadores da
indústria do vestuário de Colatina-ES, 2005............................................ 95
Tabela 15: Distribuição dos trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina -
ES que fazem uso de calmantes por tempo de uso, 2005....................... 95
Tabela 16: Medicamentos calmantes referidos como utilizados pelos trabalhadores
da indústria do vestuário de Colatina–ES, 2005....................................... 96
Tabela 17: Principais cargas de trabalho referidas pelos trabalhadores da indústria
do vestuário de Colatina – ES, 2005........................................................ 98
Tabela 18: Percepção dos trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina-ES
sobre problemas de saúde decorrentes de seu trabalho, 2005............... 99
Tabela 19: Principais fontes referidas de tensão e cansaço no trabalho em
trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina–ES, 2005................ 100
Tabela 20: Distribuição dos trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina-
ES, segundo a sensação que sentem ao sair do trabalho no final do
dia, 2005................................................................................................... 101
Tabela 21: Aspectos do trabalho que mais agradam os trabalhadores do setor do
vestuário de Colatina-ES, 2005................................................................ 102
Tabela 22: Aspectos do trabalho que mais desagradam os trabalhadores do setor
do vestuário de Colatina-ES, 2005........................................................... 103
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...................................................................................... 15
1.1 OBJETIVOS........................................................................................... 18
1.1.1 Objetivo Geral...................................................................................... 18
1.1.2 Objetivos Específicos......................................................................... 18
2 MARCO TEÓRICO................................................................................ 19
2.1 DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO-CONCEITUAL DO ESTUDO
DAS RELAÇÕES ENTRE SAÚDE E TRABALHO................................ 20
2.2 O CARÁTER CENTRAL DO TRABALHO NA MEDIAÇÃO ENTRE
CORPO-MENTE-PSIQUISMO, CULTURA E SOCIEDADE.................. 27
2.3 ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO E SAÚDE DO TRABALHADOR...... 29
2.4 AVALIAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO COM A SAÚDE:
RISCOS, CARGAS DE TRABAHO E DESGASTE............................... 32
3 METODOLOGIA.................................................................................... 42
3.1 A INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO EM COLATINA.................................. 43
3.2 ESTUDO DAS CARGAS DE TRABALHO NAS INDÚSTRIAS DO
VESTUÁRIO DE COLATINA................................................................. 46
3.3 LEVANTAMENTO DE CONDIÇÕES DE TRABALHO E SAÚDE DOS
TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO EM
COLATINA – ES....................................................................................
48
3.3.1 Sujeitos da Pesquisa e Amostra........................................................ 48
3.3.2 Instrumento de Pesquisa.................................................................... 51
3.3.3 Procedimentos de Campo.................................................................. 52
3.3.4 Análise dos Dados............................................................................... 53
4 O PROCESSO DE PRODUÇÃO E TRABALHO DA INDÚSTRIA DO
VESTUÁRIO DE COLATINA................................................................ 55
4.1 AS CARGAS DE TRABALHO NOS SETORES DA INDÚSTRIA DO
VESTUÁRIO DE COLATINA ................................................................ 58
4.1.1 Setor de Criação e Modelagem.......................................................... 59
4.1.2 Setor de Almoxarifado de Tecidos e Aviamentos............................ 60
4.1.3 Setor de Enfesto e Corte..................................................................... 62
4.1.4 Setor de Costura................................................................................. 63
4.1.4.1 Setor de costura e o trabalho em célula de produção........................... 67
4.1.5 Setor de Acabamento.......................................................................... 70
4.1.6 Setor de Lavanderia............................................................................ 72
4.1.7 Setor de Passadoria............................................................................ 73
4.1.8 Setor de Artesanato............................................................................. 75
4.1.9 Setor de Embalagem e Expedição..................................................... 77
4.2 DISTRIBUIÇAO DAS FUNÇÕES POR SETOR DE TRABALHO.......... 78
4.3 INTERAÇÕES ENTRE AS CARGAS DE TRABALHO E DESGASTE
DOS TRABALHADORES...................................................................... 80
5 ASPECTOS SOCIO-ECONÔMICOS DOS TRABALHADORES NA
INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA..................................... 82
6 PERFIL DE DESGASTE À SAÚDE DOS TRABALHADORES DA
INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA..................................... 86
6.1 PREVALÊNCIA DE QUEIXAS DE SAÚDE OU MORBIDADE
REFERIDA............................................................................................. 86
6.2 ABSENTEÍSMO E AVALIAÇÃO DE SAÚDE......................................... 89
6.3 ATENDIMENTO MÉDICO E DOENÇA DO TRABALHO....................... 91
6.4 INDICADORES DE SOFRIMENTO PSÍQUICO E LER......................... 92
6.5 USO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS, FUMO E MEDICAMENTOS
CALMANTES......................................................................................... 95
7 PERCEPÇAO DOS TRABALHADORES SOBRE A RELAÇÃO
SAÚDE TRABALHO............................................................................. 97
7.1 FONTES DE TENSÃO E CANSAÇO NO TRABALHO......................... 100
7.2 SENSAÇÃO AO SAIR DO TRABALHO NO FINAL DA JORNADA DE
TRABALHO........................................................................................... 101
7.3 ASPECTOS AGRADAVEIS E DESAGRADAVEIS NO TRABALHO..... 102
8 CONCLUSÕES..................................................................................... 105
9 REFERÊNCIAS..................................................................................... 110
10 ANEXOS................................................................................................ 115
ANEXO A - CARTA DE APRESENTAÇÃO......................................................... 116
ANEXO B - TERMO DE CONSENTIMENTO DO ENTREVISTADO................... 117
ANEXO C - QUESTIONÁRIO.............................................................................. 118
ANEXO D - FORMULÀRIO DE ESTUDO DE CARGAS DE TRABALHO........... 126
ANEXO E - CARTA DE APROVAÇÃO PELO COMITÊ DE ÉTICA..................... 129
1 INTRODUÇÃO

Na minha experiência profissional como pesquisador da Fundação Jorge Duprat


Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho - FUNDACENTRO1, desde 1988,
tenho me deparado com o relativo e pequeno número de estudos publicados sobre
as repercussões do ambiente de trabalho na saúde dos trabalhadores, inseridos em
diversificados processos produtivos.

A maior parte dos estudos sobre as condições sanitárias do ambiente de trabalho,


realizados no Brasil, é desconhecida dos pesquisadores da área da Saúde do
Trabalhador, devido ao seu aspecto confidencial. Estes estudos visam somente
atender às exigências das Normas Regulamentadoras de Segurança e Saúde no
Trabalho – NRs, específicas da legislação trabalhista, contidas na portaria 3.214/78
do Ministério do Trabalho e Emprego – MTE, que orientam a fiscalização por parte
da Delegacia Regional do Trabalho – DRT, sobre seu cumprimento pelas empresas.
As normas que mais demandam estudos do ambiente de trabalho e seu controle,
são a NR 7 - Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional – PCMSO e a NR
9 - Programa de Prevenção de Riscos Ambientais – PPRA, por tornarem obrigatória
a realização de estudos sobre o ambiente de trabalho pelas empresas.

Verificamos nos últimos anos a criação de área de concentração de estudos e


pesquisas em Saúde & Trabalho, nos programas de pós-graduação das áreas da
Saúde Pública e da Saúde Coletiva, para fazer frente a esta escassa produção
técnico-científica.

Este incremento de estudos da relação saúde-trabalho implica em estabelecer uma


reflexão teórica e o aperfeiçoamento de metodologias de abordagem e intervenção
na realidade sanitária dos trabalhadores, para que se identifiquem seus
determinantes e se proponha alternativas políticas e técnicas para sua superação, a
fim de preservar a saúde e promover a qualidade de vida no ambiente de trabalho.

Como o ambiente de trabalho e as condições de produção são muito particulares


para cada local, pode-se, através de pesquisa dos diferentes espaços, obter qual é o

1
Fundacentro – Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho, órgão
federal do Ministério do Trabalho e Emprego cuja missão é desenvolver pesquisas e estudos sobre
segurança e saúde no trabalho, divulgar os resultados e capacitar profissionais para atuar no campo
da saúde do trabalhador.
padrão de mal-estar e adoecimento entre os trabalhadores ou a estrutura
epidemiológica resultante da interação de fatores do meio ambiente físico e social do
trabalho com o homem.

O Centro Estadual da FUNDACENTRO no Espírito Santo tem procurado subsidiar a


sociedade capixaba nas questões relacionadas à saúde e segurança no trabalho,
tendo desenvolvido estudos e projetos em áreas como: trabalho portuário,
construção civil, trabalho no setor de mármore e granito, e outros. Há cerca de dois
anos tem se voltado a identificar novas áreas de interesse de estudo, entre os
processos produtivos existentes no Estado, em particular na área das pequenas e
médias empresas e que envolvem um grande contingente de trabalhadores.

Dentre os segmentos econômicos compostos por pequenas e médias empresas, o


setor da indústria do vestuário é um dos que mais empregam mão-de-obra no
Espírito Santo e no Brasil, sendo, segundo o Serviço Social da Indústria – SESI,
responsável por 60% dos empregos na cadeia produtiva de têxteis e confecções
(SESI, 2003). Segundo informações da Relação Anual de Informações Sociais –
RAIS, o setor tem cerca de 17.000 empresas no Brasil; no Espírito Santo são cerca
de 1.700 empresas que geram 17.000 empregos formais.

As indústrias de vestuário, devido à sua grande heterogeneidade, podem estar


localizadas em grandes galpões bem dimensionados ou, como é mais comum,
estarem instaladas em prédios comerciais improvisados e até em residências.

Apesar da grande sofisticação de equipamentos ocorrida nos últimos anos, que


permite a economia de tecidos, mais rapidez na produção das peças, criação de
novos modelos, há ainda o uso de grande número de máquinas mais simples,
muitas delas transferidas pelas fábricas para o interior das residências. Isto ocorre
pelo fenômeno da terceirização de partes do processo produtivo e das demandas do
mercado, comandado pela sazonalidade e pelas tendências da moda, prática que é
muito comum no ramo da indústria de confecções (SESI, 2003).

O setor de vestuário tem também sido o que mais participou do processo de


reestruturação industrial, com eliminação rápida de parte importante das médias
empresas e proliferação das unidades de menor porte, sobretudo das informais
(COMIN, 2000, p. 11). A proliferação de empresas menores se dá pela utilização de
unidades produtivas externas por empresas líderes e até mesmo do trabalho a
domicilio2 , como a nova “velha fórmula” de acumulação de capital.

Esta cadeia produtiva se organiza de forma a que a empresa líder faz a concepção,
testa os novos modelos e realiza o corte, repassando para as empresas de facção
ou oficinas, situadas no segundo nível, apenas o trabalho mecânico da montagem
das peças. Em um terceiro nível está o trabalho a domicílio, onde o pagamento é
realizado por peças e determina uma dependência enorme das costureiras para com
as empresas de facção, que pagam valores extremamente baixos por cada peça
montada.

Outro aspecto que caracteriza a indústria de vestuário é o elevado uso da mão-de-


obra feminina, provavelmente, por serem consideradas mais precisas e delicadas na
execução do trabalho, sem desconsiderar que no imaginário masculino a costura é
tradicionalmente “trabalho de mulher”. Entretanto nos últimos tempos tem-se
observado um aumento no uso de mão de obra masculina em alguns setores dessa
indústria, por ser exigido maior esforço físico, como nas lavanderias, pinturas
especiais e na operação de equipamentos mais sofisticados (LEITE, 2004, p. 66).

O trabalho, em si, é caracterizado pela alta produção por cotas a serem atingidas a
cada turno de trabalho, fragmentado e realizado com ritmo acelerado, exigindo
precisão na execução e qualidade no resultado final. O processo de trabalho desta
forma pode ser determinante para o aparecimento de um padrão de saúde que pode
ser compreendido e sobre ele se criar intervenções que promovam melhores
condições de vida para este grupo social.

Entre as doenças decorrentes do trabalho tem sido indicado por alguns autores
(BORGES, 2000) o aumento da prevalência dos distúrbios mentais e
psicossomáticos, bem como das lesões por esforços repetitivos (LER) em
populações de trabalhadores, em atividade de trabalho em processos repetitivos e
com grande demanda de produção.

2
Trabalho a domicilio: Em português, segundo a norma culta, é trabalho em domicílio, mas seguindo
a recomendação da Organização Internacional do Trabalho – OIT, a sociologia do trabalho no Brasil,
adotou o temo Trabalho a domicilio como uma categoria que designa o trabalho sub-contratado
exercido na residência do trabalhador (LEITE, 2004).
Assim, interessa estudar: Como o processo de trabalho na indústria de confecções
de Colatina, desenvolvido em pequenas e médias empresas, se relaciona com o
processo saúde-doença de seus trabalhadores?

1.1 OBJETIVOS

1.1.1 Geral:

Estudar as condições de saúde e trabalho em trabalhadores da indústria do


vestuário de Colatina – ES.

1.1.2 Específicos:

- Obter um inventário de fatores de riscos no processo de trabalho da indústria do


vestuário de Colatina – ES;
- Estimar a prevalência de queixas referidas à saúde em trabalhadores da Indústria
do Vestuário de Colatina-ES;
- Estimar a prevalência de distúrbios mentais menores e de lesões por esforços
repetitivos entre trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina – ES.
- Analisar as relações entre cargas de trabalho e o desgaste à saúde em
trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina - ES.
2 MARCO TEÓRICO

Foi utilizado o arcabouço teórico e metodológico do campo da Saúde do


Trabalhador, construído a partir de 1970. Esse campo tem interface com a Saúde
Pública, a Medicina Social e a Saúde Coletiva, particularmente pela construção e
utilização do modelo da determinação social da doença.
Foi a epidemiologia que demonstrou que as doenças são eventos que não ocorrem
por acaso, mas que têm relação com uma rede de outros eventos que podem ser
identificados e estudados (MEDRONHO, 2004, p. 7).

O modelo da determinação social da doença propõe que a relação saúde-doença é


um processo social, identificando a importância da transformação biopsíquica dos
seres humanos através das mudanças sociais. Não é uma objeção ao biológico, mas
sim ao natural, pois o biológico é em si mesmo histórico e social (LAURELL &
NORIEGA, 1989, p. 100).

Para a escola de ergonomia francesa, a atividade de trabalho designa a maneira do


ser humano mobilizar as suas capacidades para atingir os objetivos da produção.
Segundo Wisner (1994, p. 13), ”todas as atividades realizadas pelo homem, inclusive
o trabalho, têm pelo menos três aspectos: físico, cognitivo e psíquico“. Segundo este
autor, cada um destes aspectos, freqüentemente inter-relacionados, pode determinar
uma sobrecarga.

Tem-se como pressuposto que o trabalho convoca o corpo inteiro e a inteligência


para enfrentar o que não é dado pela estrutura técnico-organizacional, configurando-
se como um dos espaços de vida determinantes na construção e na desconstrução
da saúde (ASSUNÇÃO, 1998).

Por outro lado, “o sofrimento dos trabalhadores nem sempre é visível ou objetivo
como insistem algumas abordagens. O efeito do trabalho sobre a saúde é muitas
vezes silencioso e não apreendido pelo saber estritamente médico” (DEJOURS,
1986).

Assim, serão apresentadas, a seguir, as diferentes abordagens da relação entre


saúde e trabalho; como o trabalho constitui-se em fator central para a compreensão
do processo saúde-doença dos trabalhadores, conforme o aporte teórico da Saúde
do Trabalhador, e como as formas de organização do trabalho se relacionam com a
saúde.

2.1 DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO-CONCEITUAL DO ESTUDO


DAS RELAÇÕES ENTRE SAÚDE E TRABALHO.

Para Laurell (1983, p.136), o processo saúde-doença é o modo específico pelo qual
ocorre nos grupos humanos o processo biológico de desgaste e reprodução. Este
processo é o seguimento ou evolução de uma luta do organismo por manter a vida e
o bem estar, que pode ser esperado não apenas no caso clínico individual, mas que
se evidencia no conjunto das pessoas ou na população que compartilha as mesmas
condições de vida.

A população que habita uma determinada região, de forma geral, tem um perfil de
adoecimento3 que pode ser compreendido em função de fatores como: faixa etária,
hábitos de vida, condições sociais que envolvem o padrão alimentar, condições de
moradia, emprego, renda, violência urbana, condições de trabalho, etc.

Este perfil, como parte das condições de saúde de uma população, varia ao longo
da história da sociedade; como também, os estratos sociais de uma mesma
sociedade apresentarão diferentes condições de saúde, conseqüentemente,
diferentes perfis. Segundo Laurell e Noriega (1989, p.135), verifica-se a natureza
social e histórica do processo saúde-doença ao se analisarem os dados de morbi-
mortalidade de uma população, em uma determinada época, tanto pelo estrato
social como por sua ocupação profissional.

Para entender este conceito de causalidade ou determinismo social é necessário


antes de qualquer coisa, discutir o que é saúde e doença. A compreensão do que
vem a ser saúde é mais ampla do que a de doença. A doença é demarcada
essencialmente pelo aparecimento, no indivíduo ou nos grupos humanos, de
alterações anatomofisiopatológicas que acarretam incômodos ou perda funcional. A
resposta que se dá comumente a estes incômodos ou alterações pelos serviços de
saúde é o atendimento do indivíduo pelo médico. Esta forma de atenção à saúde

3
Perfil de adoecimento ou morbidade: constitui-se pelo conjunto das patologias mais prevalentes e
incidentes que determinado grupo humano apresenta em um dado momento da história (LAURELL,
1983).
caracteriza o paradigma médico-biológico, no qual a doença é o ponto focal e a
razão de ser do sistema de saúde, sendo limitado à realização do diagnóstico e ao
tratamento. Portanto, não interferindo, na maioria dos casos, no processo saúde-
doença, nas causas do processo, mas somente nos efeitos finais, os sintomas.

O atendimento individual não oferece solução satisfatória para os graves problemas


de saúde que acometem as populações, daí haver certo esgotamento da medicina
clínica como única resposta de atenção à saúde. A natureza social da doença não
se verifica no caso clínico, mas no modo característico de adoecer e morrer dos
grupos humanos (LAURELL, 1983, p.137).

Para dar uma resposta ao modelo do atendimento clínico, é necessário investigar


como ocorre o processo de saúde-doença no coletivo, isto é, no reflexo deste sobre
o corpo dos membros de um grupo humano que compartilham as mesmas
condições de vida. Ao associar a relação da doença do grupo humano à variação
biológica individual é que a história social torna-se importante, porque é ela que
possibilita as condições de vida e a forma de exposição aos fatores de riscos que
irão estabelecer as probabilidades das pessoas adoecerem de determinada forma.

Como os indicadores estatísticos não se manifestam no indivíduo, a não ser para


indicar se a pessoa é ou não portadora de determinadas características patológicas,
reforça-se a teoria de que o “caso clínico” tem limitações e especificidades próprias.

A epidemiologia é a disciplina científica que se fundou na investigação não do “por


que” e “como” o individuo desenvolveu uma patologia, mas sim em que
característica difere a ocorrência de uma determinada doença entre grupos
diferentes, definidos como uma população. A epidemiologia pode ser definida como
o estudo dos determinantes do processo saúde-doença em grupos populacionais
(MEDRONHO, 2004, p.7).

Para a epidemiologia, as doenças não ocorrem por acaso, são eventos entrelaçados
com outros eventos que as precedem, podendo ser identificados, estudados e sobre
eles se criarem intervenções que poderão controlar o processo saúde-doença
(MEDRONHO, 2004, p.8).

A epidemiologia utiliza-se de um vasto arcabouço de métodos de pesquisa e o uso


da estatística como ferramenta para análise das medidas de efeito e de associação
entre as diversas variáveis envolvidas, o que lhe possibilita poder estimar
probabilidades de ocorrência de eventos e de analisar melhor os determinantes das
doenças nas populações.

A saúde seria a capacidade de enfrentamento do organismo das pessoas a


situações adversas, sendo influenciada de alguma forma pela vida social. A
Organização Mundial de Saúde – OMS a define não apenas como a ausência de
doença, mas um estado de completo bem-estar físico, mental e social.

No Brasil, a Carta Constitucional de 1988 teve forte influência dos grupos da área da
saúde que participavam da discussão e construção de novos conceitos sobre a
saúde.

A saúde na Constituição é definida como resultante de políticas


sociais e econômicas, como direito de cidadania e dever do Estado,
como parte da seguridade social, como de relevância pública e cujas
ações e serviços devem ser providos por um Sistema Único de
Saúde, organizado segundo as seguintes diretrizes: descentralização
e mando único em cada esfera de governo, atendimento integral e
participação comunitária (MENDES, 2001, p.96).

Este conceito de saúde se liberta do vínculo da fisiopatologia e insere parâmetros de


bem-estar social em um modelo que só é possível ser construído com a ampliação
dos direitos dos seres humanos na sociedade.

Os padrões de saúde são conseqüências, entre outros aspectos, da dinâmica de


mudanças da composição da população ao longo do tempo; fato relatado pela
primeira vez em 1940 e que ficou conhecido como transição demográfica
(VERMELHO & MONTEIRO, 2004, p.91). Fatores como a queda da fecundidade,
aumento da perspectiva de vida das pessoas e a queda da taxa de mortalidade
determinam um envelhecimento da população. No Brasil, cuja transição demográfica
é contemporânea ou retardada, a expectativa de vida média subiu de 44,9 anos, em
1940 (SILVA JÚNIOR, 2003, p.290), para 71,59 anos, em 2004 (IBGE, 2006) e a
taxa de fecundidade passou de 2,9 filhos por mulher em idade fértil, registrada em
1991, para 2,20, em 2000 (YAZAQUI, 2003).

Simultaneamente à transição demográfica, evidenciou-se um outro fenômeno: a


transição epidemiológica. As conquistas da ciência médica e as melhorias nos
padrões sanitários, nutricionais e de qualidade de vida das populações, aliada aos
avanços da medicina preventiva, proporcionaram uma diminuição das doenças
infecciosas e um aumento das doenças crônico-degenerativas nas taxas de
morbimortalidade (VERMELHO & MONTEIRO, 2004, p.92).

As condições de trabalho são percebidas, desde a antiguidade, como um dos fatores


mais importantes na determinação do processo saúde-doença. No século XVIII, o
médico Bernardino Ramazzini (1633-1714) relacionou com precisão a origem de
determinadas doenças em mais de 50 ocupações, registradas em seu livro De
Morbis Artificum Diatriba, traduzido em nossa língua como As Doenças dos
Trabalhadores (MENDES & DIAS, 1991). Todavia, após 150 anos de sua morte, as
condições de trabalho mudaram radicalmente e os problemas de saúde relacionados
com o trabalho se tornaram mais evidentes.

O fato histórico que determinou uma radical mudança na forma de se organizar o


trabalho e de alocação da força de trabalho foi denominada de revolução industrial.
A revolução industrial, iniciada na Inglaterra no século XIX, necessitou do consumo
da força de trabalho de grande contingente de trabalhadores. Estes trabalhadores,
oriundos da área rural ou de pequenas oficinas, eram submetidos a um ritmo de
trabalho acelerado, com cargas horárias desumanas acarretando grande incidência
de acidentes e doenças (MENDES & DIAS, 1991). Para não inviabilizar seu negócio,
Robert Dernham, proprietário de uma fábrica têxtil inglesa, colocou um médico para
verificar o efeito do trabalho sobre a saúde de seus empregados e determinar meios
que pudessem prevenir as doenças e diminuir o absenteísmo. Nascia assim, em
1830, o primeiro serviço de saúde no interior das fábricas e a Medicina do Trabalho,
concomitantemente às primeiras legislações de proteção aos trabalhadores.

A Medicina do Trabalho é caracterizada por ser uma abordagem centrada no


médico. Quando surgiu, utilizou como paradigma a inferência unicausal, cujo
procedimento estabelecia que para cada doença houvesse uma única causa ou
agente etiológico (MINAYO-GOMES & THEDIM-COSTA, 1997). Esta concepção foi
conseqüência das descobertas da microbiologia que identificaram a origem das
doenças infecciosas (FACCHINI, 1993). Assim, ao centrar sua ação no indivíduo,
sua eficácia ficou comprometida, por não intervir no processo de produção material e
de desgaste dos trabalhadores.

Segundo Facchini (1993), após a segunda guerra mundial, surgiram novas


concepções e abordagens sobre o processo saúde-doença, afirmando que somente
um fator de risco não explicava a ocorrência de determinadas doenças, o que levou
muitos pesquisadores a concluírem que o processo saúde-doença é a síntese de
múltiplas determinações (modelo multicausal).

No modelo multicausal, aumenta a importância das equipes multiprofissionais para o


estudo da relação trabalho-saúde, já que uma única disciplina não dá conta de todos
os aspectos implicados neste processo. Este modelo tem forte influência da Higiene
Industrial, que relaciona o corpo do trabalhador com as condições físico-químicas
presentes no ambiente de trabalho, determinando os limites de tolerância à
exposição a estes agentes, considerando as relações entre concentrações
ambientais, sua absorção pelo organismo humano e seus efeitos.

Estes princípios foram os alicerces da concepção da Saúde Ocupacional, que


propôs intervir nos locais de trabalho, a fim de controlar os riscos ambientais.
Tiveram papel importante na discussão da Saúde Ocupacional as escolas de Saúde
Pública, principalmente nos Estados Unidos da América, onde a relação saúde-
trabalho já há algum tempo estava sendo estudada.

A Saúde Ocupacional introduziu formas modernas de intervenção em saúde no


trabalho ao indicar o controle dos riscos nos ambientes de trabalho através de ações
técnicas. Todavia, ela abriu espaço para que este controle fosse prioritariamente
feito pelo uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e pelo controle do
tempo de exposição do trabalhador aos agentes ou fatores de risco. Os
trabalhadores têm pouca ou nenhuma participação no processo de controle e são
sujeitos ao monitoramento biológico, através de exames médicos periódicos, que
acabam denunciando seu estado de saúde. Na maioria das vezes este
procedimento serve para resguardar os interesses das empresas, que podem afastar
os trabalhadores da função e demiti-los posteriormente ou não os contratarem, caso
seja verificado que eles portem alguma alteração de saúde, por ocasião do exame
admissional.

Atualmente, no Brasil, são utilizadas as práticas dos dois modelos de saúde do


trabalhador: o da Medicina do Trabalho e da Saúde Ocupacional. A Medicina do
Trabalho atua ainda no interior das fábricas, no seio dos Serviços de Engenharia e
Medicina do Trabalho – SESMT e de empresas prestadores de serviços de Medicina
do Trabalho, realizando exames médicos admissionais, periódicos e demissionais.
Já a Saúde Ocupacional é uma concepção utilizada por algumas grandes empresas
e entidades de pesquisa, incorporando a prática da Medicina do Trabalho (MENDES
& DIAS, 1991).

Na América Latina, o avanço da Medicina Preventiva, da Medicina Social e da


Saúde Pública, durante as décadas de 60 e 70 do século passado, desencadeou o
questionamento do modelo médico tradicional, ampliando o debate sobre o processo
saúde-trabalho.

No bojo de lutas sociais que levaram à democratização política, houve também


melhoria na qualidade de vida e do acesso aos serviços de saúde. Na área da
Saúde Pública, as tentativas de construção de um objeto de estudo, de
estabelecimento de uma prática e a consolidação de uma área que fosse abrangida
pela questão da saúde no trabalho deram origem ao campo da Saúde do
Trabalhador.

A Saúde do Trabalhador tem como objeto de estudo o processo saúde-doença dos


grupos humanos, em sua relação com o trabalho (MENDES & DIAS, 1991). Além de
objetivar a compreensão do “por que” e do “como” ocorrem as doenças e os
acidentes do trabalho, ainda pretende apresentar alternativas que possam romper o
processo de adoecimento, sempre na perspectiva da apropriação destes métodos
pela classe trabalhadora.

Nos estudos desenvolvidos pela Saúde do Trabalhador, há um esforço para romper


ou superar a lógica da exposição aos fatores de riscos presentes no ambiente de
trabalho como as causas únicas do processo de adoecimento, nas quais são
desconsideradas a subjetividade dos trabalhadores articulada com o processo
produtivo. Assim, atualmente, o desafio que se apresenta neste campo é introduzir
questões como: as crenças e idéias de mundo que unem o concreto ao imaterial, as
representações sociais, o salário enquanto forma de acesso ao mercado de
consumo de bens e serviços, a cultura no interior das organizações que estabelecem
a hierarquia e o poder de mando e o lugar de cada um nessa sociedade urbano-
industrial.

A Saúde do Trabalhador tem sido discutida intensamente nos últimos 30 anos, se


constituindo como um dos temas importantes da Saúde Pública no Brasil, sendo
consagrada no artigo 200 da constituição federal, que estabelece como uma das
competências do Sistema Único de Saúde – SUS, executar ações de vigilância
sanitária e epidemiológica, bem como as de Saúde do Trabalhador (MINISTÉRIO
DA SAÚDE, 2001).

Posteriormente, esta competência foi regulamentada pela Lei 8.080 de 1990 que
dispôs sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a
organização e o funcionamento dos serviços correspondentes. No artigo 5º,
parágrafo 3º, desta importante lei, a Saúde do Trabalhador ficou definida como:

“um conjunto de atividades que se destinam através de ações de


vigilância sanitária e epidemiológica garantir a promoção e a
proteção à saúde dos trabalhadores bem como a recuperação e
reabilitação dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos
advindos das condições de trabalho” (MINISTÉRIO DA SAÚDE,
1990).

A Saúde do Trabalhador é considerada uma atividade especial das Comissões


Intersetoriais, ligadas diretamente ao Conselho Nacional de Saúde, sendo
responsáveis pela articulação das políticas e programas de interesse para a saúde,
cuja execução poderá envolver áreas não ligadas diretamente ao âmbito do SUS.

Iniciativas de alguns órgãos governamentais indicam que as intervenções no


processo saúde-trabalho-doença serão cada vez mais uma prioridade do governo
que não pretende somente garantir os direitos universais de acesso à saúde e sim
diminuir os custos sociais advindos do tratamento de acidentes e doenças bem
como das aposentadorias e pensões precoces.

A Saúde do Trabalhador é hoje uma importante área da Saúde Pública que tem
como objetivo o estudo, a promoção e a proteção à saúde dos trabalhadores. A
saúde dos trabalhadores só é compreendida quando são considerados todos os
aspectos que condicionam as vidas destas pessoas, sejam sociais, tecnológicos,
organizacionais e os fatores de riscos ocupacionais presentes no processo de
produção.

Esta complexidade torna a área de estudo da Saúde do Trabalhador um campo


interdisciplinar, em que há a necessidade de, segundo Nunes (2002), conjugar
saberes para uma abordagem mais profunda desta questão.
Por outro lado, a Saúde do Trabalhador precisa, cada vez mais, de progredir em
suas bases científicas, para desvendar como ocorrem nos grupos de trabalhadores,
os processos biológicos, psicológicos e sociais de desgaste e o surgimento das
doenças.

2.2 O CARÁTER CENTRAL DO TRABALHO NA MEDIAÇÃO ENTRE


CORPO-MENTE-PSIQUISMO, CULTURA E SOCIEDADE.

Para que se possa vislumbrar o processo de adoecimento no trabalho, faz-se


necessário apreender a complexidade da natureza humana já que o homem não é
composto somente de músculos, tendões, órgãos ou de seu corpo físico; ele
também é constituído por seu componente cognitivo e psíquico.

A evolução da espécie humana já dura, segundo os antropólogos, cerca de 12


milhões de anos, quando surgiu a primeira criatura que poderíamos identificar como
um hominídeo, o Ramapithecus (LEAKEY & LEWIN, 1982, p. 14). Os estudos
antropológicos demarcam este período pelos vestígios do uso pelo homem de
ferramentas rudimentares criadas por ele, como pedras lascadas, machados de
pedra e pontas de lanças que são os primeiros instrumentos de trabalho
desenvolvidos pela inteligência humana.

O trabalho é um processo que ocorre entre o homem e a natureza, construído


cotidianamente ao longo de milênios da história de nossa espécie, podendo-se
mesmo afirmar que a humanidade evoluiu por si mesma através do trabalho (MARX,
2003, p. 211).

Esta relação do homem com o trabalho e seu grupo social foi o motor do
aperfeiçoamento e especialização que lentamente moldou o corpo e a arquitetura
cerebral de nossa espécie. A raça humana deu um significativo avanço em sua
evolução, quando “o Australopithecus: embora de forma rudimentar e vaga, parece
ter sido capaz de exercer alguma forma de previsão, resistindo à tentação de partir a
comida e comê-la onde estavam” (ROBERTS, 2001, p. 26). Neste momento, teve
início a pré-história: o homem conseguia refrear seus impulsos naturais imediatos a
fim de garantir o suprimento futuro. Esta foi a primeira forma rudimentar de
planejamento.
Nos 2 milhões de anos seguintes não parou mais de evoluir, até chegar ao início de
nossa civilização, demarcada, segundo os historiadores, pelo desenvolvimento da
linguagem. No entanto, a história só começa a ser contada, com a invenção da
escrita, há cerca de 5.500 anos, através de pedras ou blocos de argila encontrados
na Mesopotâmia.

O fato é que a forma como nossa mente vê o mundo não surgiu de repente, como
um flash de luz, quando em nossa primeira infância nos demos conta de que
estávamos no mundo. A espécie humana desenvolveu sua consciência do mundo
de forma vagarosa, laboriosamente, em um processo que durou um tempo
infindável, até alcançar o estágio civilizado (JUNG, 1980, p. 23).

O homem possui características psicossociais que foram moldadas ao longo de sua


história, enquanto espécie, junto ao grupo onde foi criado, na sua relação com os
outros e desenvolve seu sistema próprio de crenças e ideologias, formando o que os
sociólogos denominam de cultura. O homem, quando em grupo, desenvolve um
conjunto de características que torna este coletivo de pessoas diferente de qualquer
outro. Constrói formas de comunicação através da linguagem e códigos de
reconhecimento grupal, seja na forma de rituais próprios, arte, símbolos, crenças ou
idéias. Este conjunto de produtos culturais é recheado de significados que garantem
o equilíbrio entre a estrutura mental e comportamental do ser humano.

Hosfstede (1980, apud TAMAYO, 2004, p. 19), define cultura como a “programação
coletiva da mente que diferencia os membros de um grupo humano de outros”.

Esta programação individual ou coletiva se faz através de condicionamentos que se


auto-reforçam no interior do grupo, seja através de condutas previamente aprovadas
ou reforçadas no interior da família. Entre estes condicionamentos estão os
significados das coisas e onde entra o lugar de cada um no mundo social,
fundamentalmente o do trabalho. A criança é condicionada a ter como objetivo de
vida a ocupação de um posto de trabalho na estrutura produtiva da sociedade,
desde sua participação no interior da família. O estímulo constante ocorre seja na
forma lúdica de brincar com ferramentas de trabalho ou de uma profissão, ou com o
reforço constante de seus pais, através de questionamentos ou afirmações, como:
“O que você vai ser quando crescer?” “Se você não estudar não vai ser ninguém na
vida!” Assim, o trabalho e a ocupação tomam importância central na vida das
pessoas e delineiam seu futuro na sociedade (MENDES, 1989).
O trabalho ou a ocupação de cada um na sociedade tem importância relevante na
formação psíquica de cada indivíduo, seja pelo reconhecimento do grupo mais
próximo, pelo sucesso almejado com recebimento do salário, o poder sustentar-se a
si e a família e o de sentir-se útil para a coletividade. Na determinação da classe
social, a vida e a morte dos seres humanos guardam relação com a posição que
estes ocupam dentro dos arranjos sociais das classes fundamentais: capitalistas e
trabalhadores. Ou ainda segundo Karl Marx.

[...] o trabalho, como criador de valores-de-uso, como trabalho útil, é


indispensável à existência do homem – quaisquer que sejam as
formas de sociedade -, é necessidade natural e eterna de efetivar o
intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, de
manter a vida humana (Marx, 2003, p. 64).

Em função disso, dessa relação central na vida das pessoas, o trabalho influi sobre a
vida e morte dos seres humanos (BERLINGUER, 1983 apud FACCHINI, 1993, p.46).

2.3 A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO E SAÚDE DO


TRABALHADOR

O trabalho por si só não seria a fonte de mal-estar e adoecimento do homem, mas


sim a forma como ele é organizado e condiciona o homem na sua execução (COHN
& MARSIGLIA, 1994). Segundo a visão marxista, o trabalhador, quando vende sua
força de trabalho, tem que se submeter ao controle do capitalista, a quem pertence
seu trabalho (MARX, 2003, p. 219); assim, é durante a execução das atividades que
a força da gerência capitalista fará este potencial transmutar a matéria prima em
produto4, de acordo com a base técnica e das relações sociais que pode lançar mão.

Segundo Braverman (1987), o princípio norteador da produção capitalista é a divisão


do trabalho. Diferente da divisão das tarefas nas sociedades anteriores, onde
basicamente a divisão do trabalho estava vinculada aos papéis do sexo ou da
hierarquia do grupo, na sociedade capitalista é vinculada à fragmentação da tarefa

4
Trabalho vivo, segundo Marx, apodera-se das coisas da natureza para transformá-las de valores de uso
possíveis em valores de uso reais e efetivos (MARX, 2003, p. 217)
em componentes simples a fim de aumentar a produção e diminuir o custo dos
salários.

As bases teóricas desta forma de organizar o trabalho foram estudadas e teorizadas


pelo engenheiro americano Frederick Winslow Taylor (1856-1915), cujos princípios
ele divulgou com a publicação em 1911 de seu famoso livro Princípios de
Administração Científica. O modelo de gestão da produção criado por Taylor
estabelece a expropriação do saber operário (a concepção do como fazer é atributo
da gerência e a execução ao trabalhador), a fragmentação do trabalho em etapas
simples, cabendo ao trabalhador executá-la o mais rapidamente possível sem a
necessidade de pensar; esse relativo ganho de produtividade é recompensado com
um salário extra. Era o início do processo de organização do trabalho moderno, ou
de exploração da força de trabalho em larga escala, que proporcionou um grande
desenvolvimento da humanidade e da acumulação de riquezas. Todavia, o custo
humano deste desenvolvimento foi feito também com sofrimento da classe
trabalhadora e uma grande incidência de acidentes e de adoecimento, pois esta
forma de organização do trabalho, além de alterar as condições ambientais
encontradas na natureza, insere um ritmo imposto externamente e a repetitividade
da tarefa, retirando do trabalhador o planejamento da execução que passa a ser
realizado pela gerência.

A gerência significa, de fato, o controle das formas de trabalhar, ainda incluíndo todo
o processo produtivo, o que fazer e o como fazer, a da apropriação mais adequada
do trabalho alienado – isto é, a força de trabalho comprada e vendida
(BRAVERMAN, 1987, p. 86).

O controle retirado do trabalhador e a fragmentação do trabalho tornam o produto


coletivo, a mercadoria, como algo alheio e estranho ao produtor. Este estranhamento
causa a desrealização do ser social, atingindo sua subjetividade (ANTUNES, 1998,
p. 124).

Os modelos de organização do trabalho com o objetivo de fazer o trabalhador ser


mais produtivo vêm sendo desenvolvidos por vários teóricos e se transformado ao
longo do tempo. Entre estes foi desenvolvido por Henri Ford em 1913, o sistema de
produção em grande escala de produtos padronizados, baseado na esteira rolante,
destinados ao mercado de massa (MONTEIRO&GOMES, 1998). Esta forma de
produção, Fordismo, trouxe sérios impactos sobre a saúde dos trabalhadores,
resultando em cansaço, doenças fisiológicas ou psicossomáticas, acidentes e
absenteísmo.

Segundo Dejours, após a desapropriação do know-how e desmantelada a livre


organização do trabalho da classe operária, não resta mais nada, somente os
corpos adestrados, treinados e condicionados pela organização do trabalho
(DEJOURS, 1992, p. 42). Por esta forma de organizar a produção, o trabalhador
perdeu sua capacidade de controlar a economia do corpo e manter sua saúde. A
organização do trabalho faz desaparecer a atividade intelectual do operário no seu
trabalho o que, segundo Dejours, causa um desastre na estrutura físico, mental e
psíquica do trabalhador, ocasionando o desequilíbrio entre as partes e favorecendo
o aparecimento de doenças psicossomáticas.

Em 1940 surge na Inglaterra uma nova idéia de controle denominada de corrente


sócio-técnica, que se baseia na formação de equipes de trabalhadores que
executam cooperativamente as tarefas designadas, podendo haver alternância de
funções entre os membros. O grupo tem assim, certa autonomia, com o
compromisso de atingir as metas de produção (FLEURY, apud
MONTEIRO&GOMES, 1987, p. 54). São os denominados teamwork ou células de
produção.

Nas últimas décadas, o modelo de controle da produção desenvolvido pelos


japoneses tem sido copiado pelo ocidente, em especial as inovações
organizacionais desenvolvidas por Ohno Toyota, que busca uma gerência industrial
mais eficiente em uma organização mais flexível baseada no fim da divisão do
trabalho pela prescrição das tarefas e do relacionamento autoritário. Este modelo
denominado de Toyotismo pressupõe a polivalência, rotatividade de tarefas, maior
valorização do trabalho em grupo do que o individual e a inserção de novas formas
de gerência como o just-in-time, que objetiva o melhor aproveitamento possível do
tempo de produção; o sistema kanban, que através de placas e senhas de comando
controla a reposição de peças e estoque, sempre mínimos no toyotismo e os
Círculos de Controle de Qualidade (CCQs), constituídos por grupos de trabalhadores
que são instigados pelo capital a discutir seu trabalho e desempenho, com vistas a
melhorar a produtividade (ANTUNES, 2003, p. 54). Este modelo embute também a
terceirização e a flexibilização econômica das relações de trabalho e cria o
sindicalismo de empresas, enfraquecendo a representação política dos
trabalhadores. O trabalho é realizado agora para satisfazer as necessidades de
produção estabelecida pelo grupo ao qual o trabalhador está inserido.

A terceirização tem sido responsável pela precarização das relações de trabalho, já


que é uma estratégia para a redução de custos. Este modelo favorece o
desaparecimento das empresas com muitos trabalhadores empregados que são
pulverizados em centenas de milhares de empresas pequenas.

As pequenas empresas vivem para prestar serviços para as empresas líderes ou


montadoras, sendo obrigadas a reduzir o custo da produção através do aumento da
produção, com o conseqüente aumento da densidade do trabalho.

Nestes novos tempos de globalização do trabalho e da produção, os capitalistas têm


utilizado o que é denominado de reengenharia, como forma de reestruturar os
processos empresariais, para o realinhamento dos custos operacionais e o
enfrentamento da concorrência de produtos vindos do Japão e dos países
denominados de tigres asiáticos, com a China surgindo mais recentemente.

Apesar de pequenas diferenças o objetivo é sempre fazer a habituação do


trabalhador de forma a aumentar a produção. Seja sob qual denominação que se
encontre o modelo de gestão da produção, em sua essência, encontraremos lá os
fundamentos do taylorismo e do fordismo, que sobrevivem ainda no seio das
empresas, como forma de apropriação da capacidade dos trabalhadores produzirem
a riqueza.

2.4 AVALIAÇÃO DAS CONDIÇOES DE TRABALHO COM A SAÚDE:


RISCOS, CARGAS DE TRABALHO E DESGASTE.

O marco teórico para a compreensão da relação saúde-trabalho tem sido bastante


desenvolvido nos últimos 35 anos, tomando-se como base a análise das cargas
presentes no ambiente de trabalho como um todo complexo, cuja interação entre as
partes se dá de forma processual, imprimindo-lhe uma qualidade específica
(ASMUS&FERREIRA, 2004, p. 393). Estas cargas de trabalho se constituem em
fatores de riscos que podem provocar acidentes e adoecimento, pois são elas
responsáveis por desgastar o corpo, a mente e as capacidades vitais dos
trabalhadores (FACCHINI, 1993, LAURELL&NORIEGA, 1989).

Sem o objetivo de levantar historicamente em detalhes ou de revisar criticamente os


diferentes métodos empíricos de estudo dos fatores ou circunstâncias de riscos nos
ambiente de trabalho, abordamos a seguir alguns modelos conceituais utilizados por
vários autores e pela legislação brasileira.

Inicialmente, no inicio dos anos 70, as causas dos acidentes e doenças foram
definidas pela Engenharia de Segurança do Trabalho, através de conceitos que
sobrevivem até hoje na NR-1 – Disposições gerais. São elas: a) “condições
inseguras”, representadas por falhas em equipamentos, ferramentas defeituosas,
arranjo físico deficiente, treinamentos inadequados ou inexistentes e a presença de
agentes químicos, físicos ou biológicos no ambiente de trabalho5, com o potencial de
provocar lesões ou enfermidades; b) “atos inseguros”, cometidos pelos
trabalhadores ao burlarem as normas de segurança (TRIVELATO, 1998).

Posteriormente, a Medicina do Trabalho se apropriou da categoria “risco” a fim de


identificar os elementos nocivos presentes no ambiente de trabalho que podem, por
suas características, causar danos à saúde dos trabalhadores, mas de uma forma
isolada no esquema monocausal (LAURELL&NORIEGA, 1989, p. 109)

A Higiene do Trabalho, que também utiliza o conceito de risco, desenvolveu a


técnica de avaliação de risco e dos níveis seguros de exposição. O modelo de
avaliação tem como etapas: a) Identificação do perigo; b) Avaliação de dose-
resposta; c) Avaliação da Exposição e d) Caracterização do risco.

A higiene industrial estabeleceu os Limites de Tolerância (LT) de concentrações e do


tempo de exposição do trabalhador aos agentes ambientais e reconheceu o papel
sinérgico destes agentes entre si, levando em consideração as características
genéticas dos indivíduos e com a forma em que o trabalho é realizado. Apesar deste
avanço, sua abordagem ainda é a de causa e efeito num viés monocausal.

5
Ambiente de Trabalho é definido, de acordo com Oddone (1986), como o conjunto de todas as
condições de vida no local de Trabalho, abrangendo: características do local: dimensões,
iluminamento, aeração, rumoriosidade, presença de poeira, gases ou vapores, fumaça, etc, além de
elementos da atividade (tipo de trabalho, posição do operário, ritmo, ocupação do tempo, horário de
trabalho, turnos, alienação, valorização intelectual e profissional).
A área da saúde, através da epidemiologia, introduziu o conceito de risco, agora sob
a teoria do modelo multicausal, defendendo a necessidade da presença simultânea
de vários fatores de risco para que se possa explicar a produção do adoecimento de
uma determinada população. Segundo Trivellato (1988), o risco representa a
possibilidade de um efeito adverso ou dano ou a incerteza da ocorrência,
distribuição no tempo ou magnitude de resultado adverso.

A epidemiologia introduziu também o conceito de “fator de risco” como sendo todas


as variáveis presentes no ambiente de trabalho com o potencial de ao interagir com
o corpo do trabalhador, causar um dano à saúde.

Os fatores de risco, por suas características e especificidades, podem ser


classificados de várias formas, havendo algumas variações de um modelo para
outro. No Brasil, utiliza-se uma classificação que surgiu da NR-9 (Programa de
Prevenção de Riscos Ambientais - PPRA) e posteriormente foi inserida na NR-5
(Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – CIPA), que estabelece a
obrigatoriedade dos componentes desta comissão fazerem o mapeamento dos
riscos em todos os ambientes de trabalho da empresa, avaliando seu potencial de
causar danos, na seguinte graduação: pequeno, médio ou grande. Este mapa de
risco deve ser fixado de forma visível nos locais de trabalho e discutido com todos os
trabalhadores a fim de que eles participem da gestão da segurança e saúde no
trabalho.

Por esta norma, os fatores de risco são classificados em: Riscos Ambientais (físicos,
químicos e biológicos), Riscos de Acidentes e Riscos Ergonômicos. Sua definição
pode ser mais bem compreendida de acordo com a exposição abaixo:

Riscos físicos: São as diversas formas de energia a que possam estar expostos os
trabalhadores, tais como: ruído, vibrações, pressões anormais, temperaturas
extremas, radiações ionizantes, radiações não ionizantes, bem como o infra-som e o
ultra-som.

Riscos Químicos: São as substâncias, compostos ou produtos que possam penetrar


no organismo pela via respiratória, nas formas de poeiras, fumos, névoas, neblinas,
gases ou vapores, ou que, pela natureza da atividade de exposição, possam ter
contato ou ser absorvidos pelo organismo através da pele ou por ingestão.
Riscos Biológicos: São os microorganismos, como: as bactérias, fungos, bacilos,
parasitas, protozoários, vírus, entre outros, que podem levar o trabalhador à infecção
ou ao parasitismo.

Riscos de Acidentes: São todas as situações ou condições inadequadas no


ambiente de trabalho que podem ser causa de acidentes com lesões nos
trabalhadores como: piso de trabalho escorregadio, máquinas sem proteção,
manutenção inadequada de equipamentos, uso inadequado de ferramentas, a falta
de sinalização, trabalho com equipamentos energizados, presença de animais
peçonhentos, entre outros. Inicialmente, foi classificado como risco mecânico e,
posteriormente, foi mudado para risco de acidentes, porque o termo mecânico
parece estar mais relacionado a acidentes com lesões no corpo que provoquem
corte, fraturas, esmagamento, entre outros e se torna pouco representativo para
situações de risco com eletricidade, queimaduras, picadas de animais peçonhentos;
daí a mudança de denominação.

Riscos Ergonômicos: São os fatores de risco que podem trazer: desconforto


anatômico e fisiológico, uso excessivo dos músculos e tendões, pressões excessivas
da organização da produção, a desvalorização intelectual, ou que trazem
constrangimento (contrainte) ao psiquismo do trabalhador, enfim, os aspectos que os
ergonomistas denominam de relação homem-máquina.

O termo ergonômico é utilizado de forma inadequada, já que a ergonomia por sua


definição é um campo muito vasto e de caráter interdisciplinar, e abarca em sua
abordagem, inclusive os riscos ambientais e de acidentes. Segundo a Norma
Regulamentadora 17, item 17.17.1 (ATLAS, 2005), a ergonomia procura adaptar
todas as condições de trabalho que podem entrar em conflito com as características
psicobiológicas do homem causando-lhe desconforto, insegurança e baixo
desempenho. Por esta definição a ergonomia pretende estudar o trabalho como um
todo a fim de estabelecer uma intervenção que possa melhorar a situação de
trabalho. Desta forma, a utilização deste conceito pela NR-5 e por vários autores
(ASMUS&FERREIRA, 2004, p.391 e CÂMARA, 2003, p.475) o restringe somente à
natureza anatômica, fisiológica e psíquica do homem.

O mapa de riscos foi trazido para nossa legislação a partir da experiência dos
sindicatos italianos, chamado de Modelo Operário Italiano, que foi formulado por
trabalhadores e profissionais em Turim, nos anos 60. Este modelo foi o sustentáculo
da luta dos trabalhadores por melhores condições de saúde e tem 4 conceitos
principais: o grupo homogêneo, a valorização da experiência ou subjetividade
operária, a não-delegação e a validação consensual.

O Modelo Operário Italiano estabelece em suas bases que os trabalhadores não


podem delegar aos técnicos a definição dos padrões sanitários do ambiente de
trabalho, que o grupo de trabalhadores expostos de forma homogênea às mesmas
condições de trabalho e com laços de união entre si valide os conhecimentos
operários sobre os fatores de riscos consensualmente, tornando-se assim um
modelo de construção do conhecimento operário sobre as condições de trabalho.

Por este modelo os riscos são classificados em 4 grupos, segundo suas


características (ODDONE, 1986, p.21-24):

1º Grupo: São os fatores que existem na natureza e que são alterados no ambiente
de trabalho, como: luz, ruído, vibração, temperatura, ventilação, umidade e
radiações;

2º Grupo: São constituídos por fatores que surgem pelo consumo das matérias
primas no processo de produção, como: poeiras, gases, névoas, vapores e fumaças;

3º Grupo: Está relacionado ao trabalho físico do corpo do trabalhador, em que o


consumo de calorias e seus possíveis efeitos nocivos se relacionam com a fadiga;

4º Grupo: Os fatores classificados neste grupo estão relacionados à forma como é


organizada a produção, como: ritmos excessivos, repetitividade, monotonia,
responsabilidade, posições incômodas, trabalho em turnos e noturno.

A experiência brasileira com os mapas de riscos não foi positiva. Hoje, perdeu sua
importância devido ao desvirtuamento de sua confecção e utilização pelos
trabalhadores como forma de gestão do meio ambiente de trabalho. Todavia, seus
conceitos principais continuam sendo utilizados na confecção dos Programas de
Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e nos estudos dos ambientes de trabalho.

Outros autores que estudam os fatores de riscos, principalmente pelo recorte da


gestão de riscos, utilizam algumas variações em suas denominações e classificação
como o utilizado por Trivellato (1998), que os classifica como:
a) Ambientais:

- Físicos: radiação, ruído, vibração, etc;

- Químicos: substância química, poeiras, névoas, fumos metálicos, gases;

- Biológicos: microorganismos como fungos, bactérias, vírus, etc.

b) Situacional ou de acidentes: situações inadequadas relacionadas às instalações,


ferramentas, equipamentos, materiais e operações a serem realizadas.

c) Humano ou comportamental: decorrentes da ação ou omissão.

Baseados na concepção da determinação social do processo saúde-doença


desenvolvido por Laurell e Noriega (1989), em seu estudo clássico sobre as
condições de trabalho na principal siderúrgica mexicana, criticam estes modelos de
identificação de risco por considerar que todos reduzem o risco ao ser caráter
ambiental externo e analisam os fatores de forma isolada. Consideram o conceito de
risco limitado e insuficiente para a caracterização do desgaste do trabalhador,
propondo outra categoria de análise denominada “carga de trabalho”. Esta categoria
de análise busca compreender o processo de trabalho e os fatores que interatuam
dinamicamente entre si e no corpo do trabalhador, sendo responsáveis pela
adaptação do corpo do trabalhador a estas condições, gerando, assim, o processo
de desgaste, que pode ser verificado com a perda da capacidade potencial e efetiva
corporal e psíquica do trabalhador (LAURELL&NORIEGA, 1989, pág. 110).

Neste modelo, as cargas de trabalho de acordo com suas especificidades são


classificadas como: físicas, químicas, biológicas, mecânicas, fisiológicas e psíquicas.

Segundo Laurell e Noriega (1989), as cargas físicas, químicas, biológicas e


mecânicas têm materialidade externa ao corpo e podem ser avaliadas
quantitativamente, independentemente do trabalhador; por outro lado, as cargas
fisiológicas e psíquicas somente têm materialidade interna e são expressas pelo
trabalhador, que manifestará queixas ou patologias.

As cargas externas, ao interatuarem sobre o corpo do trabalhador, também,


adquirirão uma materialidade interna pelas transformações que causam nos
processos intracorporais mais complexos. Como exemplo, o calor presente no
ambiente de trabalho se expressa através dos mecanismos de termo-regulação,
como a sudorese e alterações hormonais, constituindo mudanças que podem ser
temporárias ou não, a dependendo do tempo de exposição dos trabalhadores a
estas condições.

As cargas de trabalho podem ser identificadas e classificadas como:

a) Cargas físicas: ruído, calor, umidade, pressão atmosférica, radiações e vibrações;

b) Cargas químicas: poeira, fumaças, fibras, vapores, líquidos, fumos metálicos, etc.

c) Cargas biológicas: presença de microorganismos: vírus, bactérias e fungos.

d) Cargas mecânicas: condições do ambiente de trabalho responsáveis pelos


acidentes que causam lesões instantâneas no corpo do trabalhador (contusões,
fraturas, feridas, etc.), como o trabalho em altura, os pisos escorregadios, as
escadas sem proteção, o trabalho com substâncias perigosas, etc.

e) Cargas fisiológicas: relacionadas ao dispêndio de energia e desgaste no interior


do corpo humano: esforço físico pesado, posição incomoda, alternância de turnos de
trabalho e os ritmos excessivos são exemplos.

f) Cargas Psíquicas: relacionadas com manifestações somáticas, sendo divididas em


dois subgrupos:

- Sobrecarga psíquica: atenção permanente, supervisão com pressão,


consciência da periculosidade dos trabalhos, alto ritmo de produção, etc.

- Subcarga psíquica: perda de controle do trabalho pela subordinação à


máquina, desqualificação do trabalho, separação entre a concepção e
execução, fragmentação do trabalho que resulta em monotonia e
repetitividade.

As cargas psíquicas, segundo Laurell e Noriega, só têm existência na relação dos


homens com os outros homens e com as coisas, adquirindo materialidade nos
processo psíquicos e corporais. Por exemplo, a monotonia e a repetitividade podem
causar a hipotrofia do pensamento e da criatividade humana, se expressando na
fisiologia com mudanças nos corticosteróides (LAURELL&NORIEGA, 1989, p.112).

Resumindo este conceito ou categoria de análise, Facchini (1993, p.39) define estas
cargas de trabalho como as demandas ou exigências psicobiológicas do processo
de trabalho, gerando ao longo do tempo as particularidades de desgaste do
trabalhador.
A associação do desgaste com a reprodução determina a constituição de formas
históricas biopsíquicas que são características e que determinarão o aparecimento
de uma série de enfermidades particulares, denominada por Laurell (1989) como o
perfil patológico de um grupo social.

No entanto, as cargas de trabalho só podem ser entendidas como articuladas no


processo de trabalho e que interagem com as demais cargas, potencializando seus
efeitos. Por exemplo, um trabalhador realizando um trabalho pesado, em um local
mal ventilado e em uma posição incômoda, irá ter um desgaste derivado de cada um
deles, que não corresponde à sua simples somatória, mas valores maiores,
decorrentes do que se denomina de sinergismo. Por outro lado, podem haver
situações de atenuação, como no exemplo onde o trabalhador mantém alto ritmo de
produção e situações de desconforto, que são compensadas pelo fato da atividade
permitir a tomada de decisões, tendo significado e valorização do trabalho, e por isso
não se tornam amortecedores das cargas psíquicas somatizantes.

Nesta análise, Facchini, aponta que não há uma hierarquia entre as diferentes
cargas, mas sim, entre os elementos do processo de trabalho, sendo que são a
organização e a divisão do trabalho no interior das empresas que ocupam a
hierarquia superior em termos de controle e consumo da força de trabalho (FACHINI,
in BUSCHINELLI, 1993, p. 182)

Como as cargas de trabalho interagem de forma bastante complexa para cada ramo
produtivo e para cada processo de trabalho, é possível identificar um perfil de cargas
de trabalho que conformam um determinado padrão de desgaste operário
(FACCHINI, in BUSCHINELLI, 1993, p. 180).

Almeida Filho (2004) critica o modelo de determinação social do processo saúde-


doença tendo o trabalho como causa central, proposto por Laurell e Noriega, em
primeiro lugar por questões epistemológicas e, em segundo lugar, pela incapacidade
deste modelo conseguir substituir o conceito de risco como ferramenta conceitual
para expressar o caráter coletivo do processo saúde-enfermidade. Em terceiro lugar,
acrescenta, o modelo teórico da determinação social da doença reduz a
complexidade social a uma única dimensão, isto é, ao processo de trabalho.

Outra questão que podemos levantar é o conceito de materialidade externa e interna


que não traz benefício ao entendimento sobre a exposição do trabalhador às cargas
de trabalho, causando até mesmo certa confusão. Primeiro, por que as cargas
externas só têm relevância no momento da interatuação com o corpo do trabalhador;
em segundo lugar, as cargas internas, em especial as fisiológicas, só são analisadas
pelo aspecto do esforço do trabalhador em realizar o trabalho, como o gasto
calórico, pelo atrito entre os tecidos musculares e os tendões, ou pela postura
incômoda necessária para a realização da atividade e não analisa, por exemplo, a
questão dos mobiliários inadequados que não dispõem de regulagens ergonômicas
que permitam uma postura mais adequada; a própria organização da produção, a
ausência de pausas, rotatividade de funções, concepção próxima da execução, que
em sua maioria também têm materialidade externa e podem ser analisados pelos
técnicos ou pelos trabalhadores, antes de se materializarem em desgaste no corpo.

Apesar destas críticas, o modelo da determinação social trouxe algo de novo que é
enxergar além das cargas de trabalho e não somente por elas, o trabalhador
exposto e sua vida em um mundo social que está sempre reforçando sua condição
de ser produtivo.

As mudanças na forma de organizar o trabalho, a partir da revolução industrial no


século XIX e das modernas técnicas de administração da produção (Taylorismo,
Fordismo, Toyotismo, entre outros), retiram do trabalhador o planejamento do
trabalho, robotizando seus movimentos e sua criatividade, problemas que têm
repercutido na saúde dos trabalhadores como causa da maioria das doenças
crônico-degenerativas.

Alguns estudos têm demonstrado que no momento atual, dada às transformações


no mundo do trabalho, há um retorno de atividades de planejamento para o domínio
dos trabalhadores ou, antes, a aproximação entre as funções de pensar e de
executar, em particular nas indústrias de alta tecnologia. O fato é que, nas indústrias
de produção em massa, os trabalhadores perdem o controle sobre o trabalho com o
desenvolvimento da maquinaria, que

[...]desta maneira vem a ser não uma fonte de liberdade, mas de


escravização, não do domínio, mas de desamparo, e não do
alargamento do horizonte do trabalho, mas do confinamento do
trabalhador dentro de um círculo espesso de deveres servis, no qual
a máquina aparece como a encarnação da ciência e o trabalhador
como pouco ou nada (BRAVERMAN, 1987, p. 169)
Atualmente, além de todos os fatores de riscos já citados, é importante considerar
que o capitalismo tem ganhado força e ampliado suas formas de apropriação das
riquezas produzidas pelo mundo do trabalho. Entre estas práticas está a
flexibilização da produção, da sua gestão e as relações de emprego que se
deterioram à medida que passam a serem entendidas como a possibilidade de se
contratar trabalhadores sem os ônus advindos da legislação do trabalho, a qual
consolidou, ao longo das últimas quatro décadas, direitos e garantias mínimas,
como: o 13o salário, férias, FGTS, entre outros (ASSUNÇÃO, 2003). Como parte das
cargas psíquicas do dia-a-dia dos trabalhadores está o fantasma do desemprego.
Daí se estabelece que as relações e o processo de trabalho são os fatores mais
importantes na determinação social das doenças, principalmente para algumas
categorias de trabalhadores.

Configura-se, assim, a hipótese deste estudo de que as relações de trabalho e as


formas de organização de trabalho encontradas nas indústrias do setor de vestuário
de Colatina determinam um conjunto de cargas de trabalho que repercutirão em
desgaste, expresso pelas freqüências elevadas de distúrbios à saúde dos
trabalhadores.
3 METODOLOGIA

Segundo Rigoto (1993, p.159), o objeto de estudo da saúde do trabalhador é


complexo e multifacetário, pois se pretende apreender a totalidade das interações do
homem com o ambiente de trabalho que participam do processo saúde-doença.
Segundo esta autora, a investigação da relação entre a saúde e o trabalho compõe-
se de três elementos:

- Levantamento e análise do perfil de saúde e dos riscos a que esteja exposto


o trabalhador ou o grupo de trabalhadores, ao nível da: produção, consumo,
meio ambiente, hábitos de vida, comportamento na vida diária;

- Detecção e avaliação das alterações de saúde precoces ou manifestas, que


estão ocorrendo no corpo do trabalhador ou do grupo de trabalhadores;

- O estudo e a pesquisa sobre as relações entre o perfil de saúde e de riscos e


as alterações de saúde verificadas.

Estas informações são colhidas através dos seguintes instrumentos: a entrevista


com o trabalhador, as entrevistas coletivas e o estudo dos locais de trabalho.

Os estudos transversais, denominados também na década de 1970 como inquéritos


de saúde, são utilizados largamente em todo o mundo e têm reconhecido poder de
revelar o estado de saúde e doença da população (CAMPOS, 1993). O resultado
quantitativo que se quer alcançar nestes estudos é uma estimativa da medida de
prevalência de alterações à saúde.

De acordo com Gomes e Tanaka (1982), existem várias formas de se obter a


morbidade de uma população.

(...) a morbidade sentida permite principalmente abordar a noção de


necessidade e, portanto, de demanda em face do sistema de saúde;
a morbidade diagnosticada é, antes de tudo, o reflexo do
funcionamento do sistema de cuidados médicos; a morbidade
objetiva pretende ser uma medida de prevalência real dos
fenômenos mórbidos em uma população, em função das normas
estabelecidas pelo estado dos conhecimentos médicos; por fim, a
morbidade comportamental reflete as implicações sócio-econômicas
dos problemas de saúde bem como as atitudes e reações em face
desses problemas. (GOMES&TANAKA, 1982, p. 81)
Para estes autores, a prevalência de morbidade referida tem sido confirmada como
um indicador altamente confiável das condições de saúde populacional e com alta
capacidade de revelar desigualdades entre grupos.

No caso deste estudo, as queixas de saúde, que o grupo de trabalhadores da


indústria do vestuário de Colatina – ES sentiram nos últimos 15 dias anteriores à
coleta de dados, serão indicadores da morbidade.

A detecção precoce dos sinais que possam caracterizar ou indicar a instalação das
patologias é importante para a avaliação da eficácia dos controles dos agentes
agressivos implantados pelas empresas e se os limites de tolerância adotados são
compatíveis com a variabilidade das suscetibilidades dos trabalhadores.

Nos ambientes de trabalho são encontrados inúmeros fatores que entram em


contato com o corpo, a mente e o psiquismo dos trabalhadores que podem,
individualmente ou de forma sinérgica, desencadear o processo de adoecimento.

Através da identificação das queixas de saúde, dos agentes de risco a que são
expostos, da associação entre eles e das demandas da atividade exercida pelo
conjunto de operários que atuam em um determinado setor produtivo, pode-se
determinar o perfil de saúde dessa população de trabalhadores, podendo-se
inclusive consultar os prontuários médicos das Unidades Básicas de Saúde.

3.1 A INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO EM COLATINA.

A indústria do vestuário surgiu no município de Colatina entre as décadas de 60 e 70


do século XX. Inicialmente como fábricas familiares que utilizavam poucos
trabalhadores, com produção de poucas peças que se destinavam ao mercado local,
possuíam acabamento quase artesanal e eram vendidas de porta-em-porta pelas
denominadas “sacoleiras”, que intermediavam a venda. Segundo o sócio proprietário
e fundador de uma das indústrias de confecções pioneiras no município, Colatina
consolidou seu pólo de indústria do vestuário a partir de 1990, ocasião em que
houve grande incremento do número de indústrias, investimento em tecnologia de
ponta com a aquisição de máquinas modernas, melhoria das áreas físicas das
empresas com a reforma e ampliação das instalações e a construção de novas e
modernas fábricas, aliado ao incremento na capacitação da mão-de-obra pelas
empresas, em boa parte financiada pelo Banco de Desenvolvimento do Espírito
Santo - BANDES e por instituições como o SEBRAE. As empresas também
desenvolveram técnicas próprias e criaram moda, o que explica, em parte, o avanço
da produção em milhares de peças por dia e a conquista do mercado nacional e
internacional.

A indústria do vestuário é identificada pela Classificação Nacional de Atividades


Econômicas – CNAE, da seguinte forma:

18 - Confecções de Artigos do Vestuário e Acessórios

18.1 - Confecção de artigos do vestuário e acessórios

18.11-1 - Confecção de peças interiores do vestuário

18.12-0 - Confecção de outras peças do vestuário

18.13-9 - Confecções de roupas profissionais

18.2 - Fabricação de acessórios do vestuário e de segurança profissional

18.21-0 - Fabricação de acessórios do vestuário

18.22-8 - Fabricação de acessórios para segurança industrial e pessoal.

Este estudo abarcou apenas as empresas classificadas no CNAE 18.1 (18.11-1,


18.12-0, e 18.13.9), ou seja, as empresas de confecção de artigos do vestuário e
acessórios, visando garantir uma maior homogeneidade dos processos de trabalho
estudados. No Brasil, em 2003, existiam 75.062 empresas do ramo de vestuário
ocupando 563.145 trabalhadores, sendo 1.662 empresas no Estado do Espírito
Santo ocupando 16.223 trabalhadores (IBGE.
htpp://www.sidra.ibge.gov.br/bda/tabela/protabl.asp, acessado em 02/12/2005).

O perfil destas empresas, por faixa de pessoal ocupado total, demonstra uma grande
concentração nas empresas com até 4 empregados, fato que ocorre no setor devido
a terceirização e para que estas empresas não percam os incentivos fiscais, veja
Tabela 1.
TABELA 1: NÚMERO DE EMPRESAS DO SETOR DO VESTUÁRIO, POR FAIXAS DE
PESSOAL EMPREGADO, NO BRASIL E NO ESPÍRITO SANTO, 2004.

Faixas de pessoal empregado


Região
0-4 5 – 9 10 – 19 20 – 29 30 – 49 50 – 99 100 - 249 250 – 499

Brasil 54.638 8.798 6.076 2.278 1.723 1.010 416 76

ES 1.110 201 154 81 54 39 19 4

Fonte: IBGE/2005.

Dados mais recentes sobre o universo de empresas deste setor existentes no


município de Colatina no ano de 2004 foram obtidos no cadastrado na Relação
Anual de Informações Sociais - RAIS, do Ministério do Trabalho e Emprego – MTE.
Constando neste cadastro em 31 de dezembro de 2004, no CNAE de nosso estudo
184 empresas que informaram a existência de 4.342 trabalhadores contratados pelo
regime da Consolidação das Leis Trabalhistas - CLT, conforme a tabela 2.

TABELA 2: Nº DE EMPRESAS E EMPREGADOS POR CNAE - 2004

CNAE Nº EMPRESAS Nº TRABALHADORES


1811-2 19 265
1812-0 160 4037
1813-9 4 38
1821-0 1 2
TOTAL 184 4342
Fonte: RAIS/MTE
3.2 ESTUDO DAS CARGAS DE TRABALHO NAS INDÚSTRIAS DO
VESTUÁRIO DE COLATINA.

Para realizar estudos sobre o processo de trabalho Rigotto (1993, p.162),


recomenda que as informações necessárias a serem obtidas devam abarcar os
seguintes aspectos: 1- Identificação das empresas do ramo de atividade, importância
econômica na região em que estão instaladas e o número de trabalhadores
contratados direta e indiretamente; 2- Aspectos históricos sobre como as empresas
surgiram e o contexto sócio-econômico e como se organizam as representações de
classe dos trabalhadores; 3- O processo de produção onde se verificará o volume da
produção, matérias-primas utilizadas, os meios de produção (máquinas,
equipamentos, ferramentas, o mobiliário, etc.) e o fluxograma da produção; 4-
Organização do Trabalho onde se verifica como ocorre a divisão das tarefas
(concepção e execução), os mecanismos de controle da produção (ritmos,
produtividade, autonomia), a jornada de trabalho (turnos, tempo para pausas, horas-
extras, rodízios de funções), aspectos de estabilidade no emprego, salário e a
relação com os sindicatos das categorias; 5- Instalações da empresa: onde o espaço
físico do local de trabalho é analisado no aspecto de divisão espacial (layout),
ventilação, iluminação, conforto e higiene (banheiros, bebedouros, vestiários, áreas
de lazer, refeitórios, etc.); 6- Descrição das condições ambientais de trabalho: onde
se estuda se no meio ambiente de trabalho existem elementos que possam ser
agentes nocivos para os trabalhadores como os aerodispersóides (poeiras, fumos
metálicos, gases e vapores), a presença de energias como o ruído, vibração,
radiações, a presença de microorganismos que possam ser fonte de contaminação e
as situações que podem provocar acidentes, incluída aí uma análise da gestão
destes fatores de risco; 7- Relação com o meio ambiente: como se dá a disposição
de todos os resíduos sólidos e líquidos do processo de produção e qual é sua
influência no ecossistema do entorno da fábrica.

Para os propósitos deste estudo foram utilizadas as recomendações de Rigotto,


considerando-se o fato do objeto de estudo ser o conjunto dos trabalhadores do
setor do vestuário e não uma empresa específica. Portanto, tornou-se necessário
conhecer os principais fatores de risco encontrados neste tipo de indústria que
poderiam constituir cargas de trabalho para estes trabalhadores.
Para realizar esta etapa do estudo foi necessário realizar visitas aos locais de
trabalho para observar in loco as formas de organização da produção e registrar em
documento de campo (Anexo D) quais os principais fatores de risco à saúde dos
trabalhadores que estão presentes no processo de trabalho da indústria do vestuário
em Colatina. As visitas de campo, com este objetivo, ocorreram no período de 15 de
janeiro a 15 de fevereiro de 2006. Durante este trabalho foram realizadas também
entrevistas informais com diretores e pessoas ligadas a este ramo industrial que
participaram do seu desenvolvimento no município de Colatina, com o propósito de
se obter informações sobre os seguintes fatos: como surgiram as primeiras
indústrias no município, suas características principais, época de consolidação do
pólo industrial, principais mercados consumidores e o desenvolvimento da mão-de-
obra. Foram entrevistados também encarregados de produção sobre: aonde
aprenderam a gerenciar a produção, como capacitaram a mão-de-obra, rotatividade
e quando aparecem os primeiros sinais de adoecimento e desgaste nos
trabalhadores.

O estudo das cargas de trabalho não é um levantamento exaustivo para cada função
existente no processo produtivo da indústria do vestuário, mas um levantamento
qualitativo preliminar, cujo objetivo foi identificar a presença de fatores de riscos que
podem representar fontes de desgaste dos operários e contribuir para a formação do
perfil de adoecimento.

Este recorte do complexo ambiente de trabalho do setor abrange somente a


estrutura técnica da produção da calça jeans, que possui maior número de
atividades e de situações de risco podendo ser, por similaridade, aplicados nas
situações que ocorrem na fabricação de camisas de malha ou de roupas íntimas,
entre outros tipos de peças de roupa. Não foram realizadas avaliações quantitativas
dos fatores de riscos e nem de sua capacidade de causar danos aos trabalhadores.

Neste levantamento, os fatores de risco foram agrupados de acordo com a


concepção do modelo da determinação social da doença de Laurell e Noriega, que
utiliza a categoria carga de trabalho.

Este trabalho foi realizado em quatro empresas do município de forma a observar


todas as etapas de fabricação de duas empresas que costuram jeans e que
dominam todo o processo de fabricação das calças e duas que fazem facção e
costura roupas de menor qualidade. Foram realizados por setor, as observações
das atividades dos trabalhadores sendo registradas as fontes de risco, com filmagem
e registro fotográfico para análise posterior.

Salienta-se que esta amostra de empresas não teve finalidade estatística, já que o
objetivo era trabalhar com segmentos da cadeia produtiva que expressassem os
diferentes tipos de atividades exercidas pelos trabalhadores, privilegiando os
aspectos qualitativos da realidade.

3.3 LEVANTAMENTO DE CONDIÇÕES DE TRABALHO E SAÚDE


DOS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO EM
COLATINA.

O levantamento das condições de trabalho e saúde dos trabalhadores da indústria


do vestuário de Colatina foi realizado através de um estudo com delineamento
seccional ou transversal, característica do estudo epidemiológico de observação
direta de determinada quantidade planejada de indivíduos em uma única
oportunidade (MEDRONHO, 2004, p.125). Isto significa que a coleta de dados dos
indivíduos da amostra se dá no prazo mais curto possível em uma única visita, já
que a lógica da análise é como se todos os dados tivessem sido colhidos em um
único instante, como se fosse uma fotografia daquele momento estudado.

O delineamento transversal é o método de escolha para estudos com a finalidade de


estimar prevalências6, tendo ainda como vantagem o baixo custo e a rapidez em sua
execução.

3.3.1 Sujeitos da Pesquisa e Amostra

Os sujeitos da pesquisa foram trabalhadores associados ao Sindicato dos


Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário – SINTVEST. A amostra entrevistada foi
retirada da listagem fornecida pelas empresas do setor do vestuário de Colatina ao

6
Prevalência é definida como a freqüência de casos existentes de uma determinada doença
(morbidade), em uma determinada população e em um dado momento (COSTA&KALE, 2004, p. 26)
SINTVEST, que estão em dia com suas contribuições, confirmadas pela contribuição
mensal em agosto de 2005.

Em agosto de 2005, segundo o SINTVEST, existiam cerca de 4.100 trabalhadores


contribuintes, havendo entre eles alguns informais, que contribuem diretamente ao
sindicato. Estes dados foram confirmados pelo Ministério do Trabalho e Emprego em
consulta a RAIS, onde foram cadastradas 184 empresas com confirmação de 4.342
empregados formais no município de Colatina, em dezembro de 2004.

Os dados acima indicam um alto índice de sindicalização entre os trabalhadores da


indústria do vestuário, totalizando cerca de 95% dos trabalhadores com registro.

Para a seleção da amostra utilizamos como condição de controle que os


trabalhadores estivessem empregados nas empresas classificados no CNAE
abrangido pelo nosso estudo conforme a tabela 2. Para garantir que a amostra fosse
a mais homogênea possível, foram controlados os aspectos que diferenciam os
trabalhadores das empresas que dominam todo o processo de produção das roupas
daquelas que prestam serviços parcelados, como os das lavanderias, o de
pequenas fábricas de facção que realizam pequenos serviços para as empresas
maiores, sendo eliminados da amostra os trabalhadores das destas últimas. Foram
retirados também todos os trabalhadores informais e os trabalhadores sem endereço
conhecido, pela dificuldade de sua localização.

Dessa forma, o universo de trabalhadores a serem pesquisados foi reduzido a 1727


trabalhadores com vínculo empregatício e empregados em empresas do vestuário
que produzem a mercadoria roupa em sua totalidade, contribuindo para o SINTVEST
no mês de agosto de 2005 e com endereço residencial conhecido.

Para determinar o tamanho mínimo da amostra necessário ao estudo, utilizou-se o


software estatístico Statistical Analysis Software - SAS e o procedimento proc power
(CHERNICK&LIU, 2002), considerando-se os seguintes parâmetros:

Nível de confiança da amostra de 95% (z=1,96);

Distribuição binominal (proporção), adotando-se a referência pº=0,50 ou 50%, que


irá fornecer o tamanho máximo da amostra, método conservador, contra uma
proporção aceitável de até 60% (p=0,60);

Fixando-se o poder da amostra em 90% (z=1,64);


A hipótese alternativa, diferença, cuja fórmula para se obter o tamanho da amostra
é:

Fixando-se uma taxa de recusa possível de 10%, a amostra final foi de 432 pessoas.
A amostra foi pelo processo de amostragem sistemática (CASTELLOE&O’BRIEN,
2001, p. 149-155), a partir da listagem por ordem alfabética da população total de
1727 pessoas, onde:

1- O intervalo casual foi k= 1727/432= 4;

2- Início casual, sorteou-se um número entre 1 e 4, sendo neste estudo sorteado o


segundo nome que foi o primeiro elemento da amostra;

3- E a partir deste foi retirado um indivíduo a cada intervalo de 4 nomes da lista em


ordem alfabética, para formar os componentes da amostra.
3.3. 2 Instrumento de Pesquisa

O instrumento de campo utilizado foi um questionário estruturado (Anexo C)


contendo 83 perguntas, em sua grande maioria fechada, e aplicado por
entrevistadores treinados.

O questionário é composto de três partes, assim distribuídas:

1- Dados sócio-demográficos (local de trabalho, sexo, idade, raça, naturalidade,


estado civil, escolaridade e renda);

2- Caracterização das demandas das cargas de trabalho (função, tempo de trabalho,


duração da jornada, ritmos, pausas, condições inadequadas de trabalho que causam
doenças, fonte de tensões e cansaço);

2- Perfil de condições de saúde (queixas de saúde, problemas de atendimento


médico, distúrbios à saúde mental e distúrbios muscoloesqueléticos).

A avaliação da suspeita de presença de Distúrbios Mentais Menores – DMM foi


realizada pelas perguntas 32 a 51, reprodução da versão em português do
instrumento SRQ – 20 (Self-Report Questionnaire), instrumento de rastreamento
(screening) que detecta quadros suspeitos de distúrbios psiquiátricos menores, não
psicóticos, em comunidades, tais como: estados ansiosos, depressivos e
somatizações (MARI & WILLIANS, 1986 apud BORGES, 2001, p. 62).

Este instrumento foi validado por Mari e Willians em um estudo com a população que
procurava serviços de atenção primária à saúde, na cidade de São Paulo. Foi
avaliado como um bom indicador de morbidade, com sensibilidade de 83% e
especificidade de 80%, estabelecendo como ponto de corte 7/8, de maneira que 8
ou mais respostas positivas caracterizam a suspeita de DMM.

A avaliação da presença de distúrbios muscoloesqueléticos é avaliada pelas


respostas às questões 52 a 60, integrante de um instrumento de rastreamento
destes distúrbios proposto por Ribeiro (RIBEIRO; apud BORGES, 2001, p. 64). Este
instrumento consta de sinais e sintomas de dor ou desconforto nos membros
superiores, ombros e pescoço, sendo que a resposta positiva simultaneamente às
perguntas 56 (Sente dor ao pressionar ou ao movimentar algumas destas partes?), e
a pergunta 60 (A duração de 2 de qualquer dos sintomas acima é superior a 30
dias?), é o critério de suspeita de L.E.R.
3.3.3 Procedimentos de Campo

As entrevistas foram realizadas no período de 19 de novembro a 20 de dezembro de


2005, fora do local do trabalho, preferencialmente no domicílio do trabalhador, a fim
de garantir a liberdade de manifestação do entrevistado, evitando qualquer
constrangimento ou pressões de chefias, podendo, assim, responder às perguntas
sem pressa.

A equipe de entrevistadores foi selecionada através de entrevistas com candidatos


que reuniam os seguintes critérios: escolaridade mínima de segundo grau completo,
boa comunicação, disponibilidade de trabalhar à noite e fins de semana,
conhecimento da comunidade a ser estudada e de disponibilidade para participar da
fase de treinamento; foram escolhidas cinco pessoas.

Os entrevistadores foram capacitados previamente através de três encontros,


quando tomaram conhecimento do projeto de pesquisa, receberam uma cópia do
questionário e aprenderam a conduzir a entrevista, seguindo sempre o seguinte
protocolo: a) informar aos entrevistados sobre os objetivos e a relevância do estudo;
b) Esclarecer que as informações prestadas seriam confidenciais e os trabalhadores
não seriam identificados por pessoas que não participassem da pesquisa; c)
Enfatizar a importância da colaboração do entrevistado e solicitar, caso
concordassem em ser entrevistado, assinar a autorização para utilização das
informações na presente pesquisa, vide Termo de Consentimento (Anexo B).

Como forma de controle da qualidade das entrevistas, o pesquisador-coordenador


entrevistou novamente, uma amostra aleatória de 5% do que cada entrevistador fez,
para confirmação de sua realização e aferição da qualidade. A coordenação
comprovou que os trabalhadores foram realmente visitados e entrevistados, não
ocorrendo discrepâncias relevantes nas respostas.

Como em toda pesquisa deste tipo, as dificuldades para sua realização foram
inúmeras, já que os endereços cadastrados pelo sindicato e pelas empresas são de
uma data cerca de um ano anterior ao período da pesquisa, ocorrendo vários casos
em que o trabalhador havia mudado de residência. Mas o mais comum era o
entrevistado não estar em sua residência na hora da visita, sendo necessário o
retorno ao local com hora marcada. As mudanças de endereço eram resolvidas
através de informações colhidas com antigos vizinhos ou através do SINTVEST, que
o conseguia nas empresas em que os trabalhadores estavam empregados. Quando
o trabalhador não era encontrado de forma alguma, ou havia abandonado o trabalho
há mais de 15 dias, o mesmo era substituído pelo trabalhador seguinte da listagem
por ordem alfabética.

De forma geral, os entrevistadores foram bem recebidos, já que foi usada uma
estratégia de divulgação do trabalho através do envio de uma carta (Anexo A)
quinze dias antes do início do trabalho de campo, para todos os trabalhadores
sorteados, contendo explicações sobre o objetivo da pesquisa e de sua importância
para o conhecimento das condições de saúde dos trabalhadores da indústria do
vestuário. Das 432 entrevistas previstas foram realizadas 422, com apenas 10
recusas (2,3%).

3.4 ANÁLISE DE DADOS

Os dados qualitativos foram ordenados conforme os setores existentes no


fluxograma do processo produtivo, destacando-se as funções e os fatores de riscos
presentes que podem participar do desgaste da saúde do trabalhador.

Os dados obtidos nas entrevistas com trabalhadores foram digitados em um banco


de dados do programa Excell para Windows XP e posteriormente migrados para o
SAS. A análise através dos programas estatísticos permitiu construir o perfil
epidemiológico e dar ao pesquisador, após o cruzamento de variáveis, informações
que pudessem confirmar ou não a hipótese proposta pela pesquisa.

Inicialmente foi verificada a freqüência simples das variáveis. A variável queixa


referida foi classificada de acordo com os diferentes órgãos e sistemas do organismo
humano.

As variáveis suspeitas de DMM e suspeita de LER foram tomadas como variáveis


dependentes e utilizadas em modelos de regressão logística para verificar a
contribuição de diferentes fatores de risco (variáveis independentes) na sua
explicação. Os testes estatísticos identificaram os principais fatores que
diferenciavam os grupos e identificaram os riscos relacionados com o efeito.

A análise das relações entre fatores de risco e morbidade referida foi realizada,
tendo por base os conceitos de carga de trabalho e desgaste.

No processo de trabalho é onde são encontrados os componentes técnicos e sociais


responsáveis pela produção do desgaste do trabalhador e que são sentidos no seu
corpo através de desconforto, cansaço, dores e tensão. Por esta perspectiva é que a
análise do processo de trabalho tem importância para a saúde coletiva, já que a
forma de organização da produção das mercadorias – a produção da mais-valia –
que se materializa no mundo real em determinada opção técnica especifica e nas
formas particulares de gerenciamento do uso da mão-de-obra, é que determinará e
se expressará em um nexo biopsíquico característico (LAURELL, 1989, p. 175).

A similaridade de relação de trabalho e exposição aos agentes nocivos (fatores de


risco ou cargas de trabalho) determinará no conjunto dos trabalhadores um perfil de
saúde típico de um determinado processo de trabalho, que também repercutirá no
perfil de saúde da população em geral, tendo em vista que estes trabalhadores, em
muitos casos, são uma parcela significativa deste coletivo (CÂMARA, 2003).

No processo de análise verificou-se a importância quantitativa e qualitativa do setor


de costura no processo de produção da indústria do vestuário, o que levou a opção
de realizar análise comparativa do desgaste dos trabalhadores deste setor com os
demais.
4 O PROCESSO DE PRODUÇÃO E TRABALHO DA INDÚSTRIA
DO VESTUÁRIO DE COLATINA – ES.

A indústria do vestuário de Colatina compreende um elevado número de empresas,


podendo ser dividida em dois tipos de segmentos: a) Vestuário padrão, que produz o
vestuário de uso cotidiano e que tem pouca oscilação da moda (como as calças
jeans, camisas de malha e social) sendo caracterizada pelo grande volume de
produção e consumo e b) Vestuário da moda, cuja produção segue a tendência do
mercado, são substituídos periodicamente, de acordo com a estação do ano, na
linha de fabricação, já que é necessário acompanhar as mudanças das estações e
do mercado, sendo também produzidos em lotes menores.

As fábricas podem ter domínio total de todo o ciclo de produção ou realizar somente
parte dele, vendendo serviços para uma outra indústria maior, ou realizar parte de
sua produção com a terceirização, inclusive com a utilização do trabalho informal de
trabalhadores que atuam em suas residências. Essas são denominadas “indústrias
de facção”, que constituem a maioria das empresas do ramo do vestuário. Há em
Colatina também grande número de empresas que só se dedicam a uma fase do
processo de fabricação das roupas, como as lavanderias.

As empresas líderes estão instaladas em prédios modernos e seu layout é mais bem
estruturado, enquanto que a maioria das empresas de facção ou oficinas de costura
está instalada em locais improvisados, algumas em cômodos nas casas de seus
proprietários que aproveitaram um quintal ou a laje da casa para instalar algumas
máquinas e iniciar um negócio de prestação de serviços; a mão-de-obra é
basicamente formada por familiares ou de alguns poucos empregados.

As empresas líderes, por terem mais capital, têm equipamentos modernos e sempre
investem em tecnologia, enquanto as demais, em muitos casos, de equipamentos já
descartados pelas empresas maiores.

Além das máquinas utilizadas na produção das roupas, os mobiliários


disponibilizados para uso dos trabalhadores são diferenciados. As empresas
maiores freqüentemente oferecem cadeiras e assentos ergonômicos e as, de menor
investimento oferecem cadeiras de madeira, que não permitem regulagem de altura,
mobilidade lateral, espaldares reguláveis, com conseqüente desconforto para o
trabalhador.
Nas empresas visitadas foi verificado que os trabalhadores só têm uma pausa de 15
minutos durante a jornada, no horário vespertino, para tomar um café com pão,
tendo limitações para abandonar o posto de trabalho a qualquer tempo, para beber
água ou ir ao banheiro, sofrendo sobrecargas musculoesqueléticas mesmo nas
cadeiras que dispõem de mecanismos de regulagem de altura do assento e do
espaldar.

A diferença tecnológica entre as empresas ressalta as diferenças do uso do corpo do


trabalhador na observação das atividades mais simples, como a de virar a calça ao
avesso. Nas empresas mais modernas esta atividade pode ser realizada com o uso
de dispositivos semi-automatizados que permitem a economia de movimentos do
trabalhador, enquanto que nas oficinas ou indústrias de facção a mesma atividade é
realizada de forma totalmente manual, o que exige mais esforço de movimentos do
trabalhador para sua execução.

Como a maior parte das fábricas está instalada em prédios improvisados, de um


modo geral, os ambientes de trabalho não são confortáveis quanto aos aspectos de
ventilação, iluminação, instalações de banheiros adequados, bebedouros limpos e
em número suficiente. O calor é um problema generalizado até nas empresas mais
modernas, que não foram construídas com um sistema de ventilação eficiente.

Quanto aos agentes ambientais, as empresas não fazem o controle dos agentes
(físicos e químicos), optando em fornecer aos trabalhadores o EPI, como por
exemplo, protetores auriculares de inserção e máscaras para poeiras, apesar de não
estimularem o seu uso pelos trabalhadores.

Foi verificado que o tipo de produto fabricado define também o perfil do processo de
produção através de sua qualidade, pois quanto menor a qualidade das roupas
produzidas maior é a quantidade produzida, por ser destinada aos grupos sociais
mais pobres, cujo mercado consumidor é menos exigente e necessita que o produto
seja mais barato.

Verificaram-se nas visitas realizadas que as empresas que produzem os produtos de


menor qualidade são em maior número e absorvem maior contingente de
trabalhadores.

O trabalho na indústria do vestuário é organizado conforme a cartilha do Taylorismo


e do Fordismo, sendo o trabalhador selecionado de acordo com sua habilidade de
manter a produção em alto ritmo e com a qualidade requerida, seguindo a lógica da
esteira. Para estimular o trabalhador a manter um alto ritmo de produção, a empresa
oferece um adicional de produtividade que pode representar um acréscimo de até
36% no salário do trabalhador.

O trabalho é fragmentado e organizado em uma linha de produção, em que o


fluxograma básico de uma indústria que domina todo o processo da fabricação do
vestuário pode ser constituído dos seguintes setores: criação, compras, modelagem,
almoxarifado (tecidos e aviamentos), bordado, estamparia, lavanderia, enfesto,
corte, costura, etiquetagem, revisão/acabamento, passadoria, embalagem e
expedição, manutenção mecânica e setor administrativo, conforme fluxograma
abaixo:

ADMINISTRAÇÃO COMPRAS

ENFESTO E CORTE
ALMOXARIFADO

CRIAÇÃO E
COSTURA MODELAGEM

ARTESANATO LAVANDERIA

ACABAMENTO E
ETIQUETAGEM
PASSADORIA

EMBALAGEM E
EXPEDIÇÃO

FIGURA 1: FLUXOGRAMA BÁSICO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DA INDÚSTRIA


DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES.
A linha de produção das roupas é feita de forma que uma equipe de trabalho em
postos fixos, denominada por “célula”, desenvolve um mesmo tipo de serviço cuja
meta de produção, geralmente, é definida pela gerência de produção e deve ser
atingida por hora ou dia de trabalho.

As atividades são realizadas quase que totalmente no horário diurno, entre as 7 h e


às 17h10min, de segunda a sexta-feira, havendo uma sobre jornada para
compensar as 4 horas de sábado e os 15 minutos em média de paralisação para o
lanche que é distribuído no período da tarde, às 15 h. O horário de almoço é de uma
hora e realizado no período de 12 às 13 h.

Em épocas de grandes encomendas, são realizadas horas extras noturnas e nos


sábados, e que, às vezes, são utilizadas como banco de horas para compensar os
dias úteis entre feriados e final de semana, quando os trabalhadores são
dispensados do trabalho. No estudo, foi apontado pelos trabalhadores que a média
de trabalho por semana é de 46,3 horas, portanto com 2,3 horas extras em média.

4.1 AS CARGAS DE TRABALHO NOS SETORES DA INDÚSTRIA DO


VESTUÁRIO DE COLATINA-ES.

Na identificação das cargas de trabalho utilizamos a mesma classificação do modelo


da determinação social da doença de Laurell e Noriega, por considerá-lo mais amplo
que os demais modelos. Este modelo classifica as cargas de trabalho como sendo:
físicas, químicas, biológicas, mecânicas, fisiológicas e psíquicas. Entretanto,
substituiremos o termo mecânico por acidentes, por ser um termo mais adequado,
conforme explicitado no marco teórico.

A seguir, são apontadas as características de cada setor, as funções dos


trabalhadores, as atividades realizadas e as cargas de trabalho mais importantes
encontradas nas quatro empresas visitadas, que podem estar associadas ao
desgaste da saúde dos trabalhadores.
4.1.1 Setor de Criação e de Modelagem

O setor de criação de moda é onde são elaborados os modelos das roupas que
entrarão no processo de produção; é o setor da concepção. A ferramenta de
trabalho é o computador, onde o profissional principal é o estilista que desenha os
modelos das roupas de acordo com a tendência do mercado consumidor. O estilista,
portanto, é quem cria os modelos que irão ser fabricados, precisa estar informado
das tendências da moda no mercado e ao mesmo tempo ser capaz de propor novas
idéias. O trabalho do estilista exige mais demanda mental do que a fisiológica, pois,
mesmo que o serviço possa ser feito por longo tempo em posição fixa, o trabalhador
tem liberdade para parar o serviço, ficar em pé, descansar, ir ao banheiro ou tomar
decisões. As cargas de trabalho encontradas para estes profissionais podem ser
observadas no quadro 1:

QUADRO 1: FUNÇÃO, ATIVIDADES E CARGAS DE TRABALHO NO SETOR DE


CRIAÇÃO E MODELAGEM NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-
ES.

FUNÇÃO ATIVIDADE CARGAS DE TRABALHO


Estilista Criar modelos novos e desenhá- FISIOLÓGICAS:
los conforme tendência da moda - Postura sentada a maior
e da numeração padronizada. parte do dia;
Posto de trabalho: Computador e - Fixação da vista na tela de
cadeira. computador.
PSÍQUICAS:
- Pressão para criar sempre
produtos novos e de aceitação
no mercado.
Modelista Responsável em costurar a peça ACIDENTES:
piloto da produção em série. - Perfuração de dedos por
Posto de trabalho: Máquina de agulhas.
costura. FISIOLÓGICAS:
- Postura sentada o dia
todo; fixação da vista.
PSÍQUICAS:
- Qualidade do serviço.
Moldador Faz a riscagem das peças em FISIOLÓGICAS:
ou papel e posteriormente faz a - Postura de trabalho, em
Riscador digitalização do molde pé encurvada sobre a mesa
padronizado pela numeração. de modelagem ou sentada no
Posto de trabalho: Mesa de computador;
riscagem, computador e scanner. - Fixação da vista;
- Má iluminação do local.
Neste setor é onde tem havido nos últimos anos a inovação tecnológica: design,
modelagem e encaixe onde se tem utilizado sistemas de desenho assistido por
computador ou Computer Aided Design - CAD (LEITE, 2004).

O setor de modelagem, que trabalha bem próximo ao setor de criação, é


responsável em produzir as peças-piloto para o futuro corte em série. Neste estágio,
os trabalhadores têm um pouco mais de demandas fisiológicas, mas ainda têm
dirigibilidade sobre seu tempo, pois o produto não é feito em série e o ritmo de
trabalho é mais tranqüilo. Os moldes-piloto são riscados conforme o número
padronizado da peça e, a seguir, digitalizados pelo moldador/riscador a fim de se
produzir os moldes que irão servir de guia para o corte do tecido, que será utilizado
pela modelista para criar as peças piloto.

4.1.2 Setor de Almoxarifado de Tecidos e Aviamentos

É o setor responsável em administrar os estoques das matérias-primas, sempre em


quantidade suficiente para manter a produção, abastecendo os locais necessários e
recebendo as novas matérias primas encomendadas.

Neste setor, as máquinas utilizadas são: o computador, a balança para pesagem de


matéria-prima e o carrinho manual para seu transporte. As instalações são
geralmente próximas aos setores de produção, em galpões fechados que,
geralmente, são mal ventilados e com instalações improvisadas.

O trabalho de controle de entrada e saída de matéria prima do almoxarifado além de


representar uma responsabilidade alta para o empregado, também pode causar
cargas fisiológicas devido ao esforço físico para a realização do carregamento
manual das mercadorias até as prateleiras, sendo que as situadas em altura exigem
a utilização de escadas, o que insere a possibilidade de acidentes de quedas de
altura.

Neste setor, as principais funções e as cargas a que estão submetidos os


trabalhadores são indicados no quadro 2:
QUADRO 2: FUNÇÃO, ATIVIDADE E CARGAS DE TRABALHO NO SETOR DE
ALMOXARIFADO DE TECIDOS E AVIAMENTOS NA INDÚSTRIA DO
VESTUÁRIO DE COLATINA-ES.

FUNÇÃO ATIVIDADE CARGAS DE TRABALHO


Almoxarife É o encarregado das entradas e FÍSICAS:
saídas das matérias-primas. - Calor;
FISIOLÓGICAS:
- Postura inadequada no
acesso às prateleiras de
estoque;
PSÍQUICAS:
- Responsabilidade pelo
controle do estoque;
Auxiliar de Auxilia o almoxarife nas atividades FÍSICAS:
almoxarife de estocagem de produtos. - Calor;
ACIDENTES:
- Trabalho com diferença
de nível.
FISIOLÓGICAS:
- Levantamento de peso;
- Posturas incômodas no
acesso às prateleiras de
estoque;
Conferente Controla o estoque das PSÍQUICAS:
mercadorias prontas e a saída das - Responsabilidade.
mesmas.
Revisor de Faz a revisão dos tecidos antes FÍSICAS:
tecido de ir para o setor de enfesto. - Calor;
FISIOLÓGICAS:
- Postura inadequada no
acesso às prateleiras de
estoque;
- Levantamento manual
de peso.
PSÍQUICAS:
- Responsabilidade pelo
controle da qualidade do
tecido que será utilizado e do
que é comprado;
4.1.3 Setor de Enfesto e Corte

É responsável pelo corte dos tecidos, conforme os moldes e a numeração


padronizada para a produção em série das roupas, se constituindo como a parte
inicial do processo de fabricação das mercadorias, propriamente dito.

Inicialmente os tecidos são distribuídos sobre uma grande mesa, dobrados em


camadas, atividade que é denominada de enfesto. Além de distribuir o tecido, o
enfestador, faz a fixação dos moldes sobre a camada superior do tecido, de forma a
aproveitar o material ao máximo, fixando os moldes através de grampeadores ou
fitas adesivas.

QUADRO 3: FUNÇÃO, ATIVIDADE E CARGAS DE TRABALHO NO SETOR DE ENFESTO


E CORTE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES.

FUNÇÃO ATIVIDADE CARGAS DE TRABALHO


Enfestador Espalhar e dobrar o pano sobre a FÍSICAS
mesa de corte, de forma manual ou - Calor.
através de equipamento elétrico. QUÍMICAS:
-Poeira de algodão.
FISIOLÓGICAS:
- Levantamento de peso;
- Postura desconfortável;
Cortador Faz o corte do tecido após o enfesto e FÍSICAS:
colocação do molde com o uso de - Calor;
equipamento elétrico. - Ruído e vibração.
QUÍMICAS:
- Poeira de algodão.
ACIDENTES:
- Corte de dedos e mãos.
FISIOLÓGICO:
- Postura desconfortável
para realização do serviço;
- Movimento repetitivo.
Auxiliar de Auxilia o cortador nas atividades de FÍSICAS:
corte corte. Fixa os moldes sobre o tecido - Calor;
com o uso de grampeadores ou fitas QUÍMICAS:
adesivas. Eventualmente pode - Poeira de algodão;
também fazer o corte do tecido. FISIOLÓGICOS:
- Postura desconfortável
para realização do serviço.
Posteriormente, o Cortador fará o serviço de corte do tecido com a utilização de uma
máquina elétrica de corte, tesouras e com etiquetagem das peças, devendo, para
isso, assumir diversas posições incômodas para alcançar as partes a serem
cortadas.

Além das demandas fisiológicas para a realização da tarefa, os trabalhadores se


expõem aos agentes ambientais relativos ao calor devido à má ventilação e à poeira
de algodão produzida pelo corte dos tecidos; e ao ruído e vibração da máquina de
corte de tecidos.

Em relação a acidentes existe o risco de cortes de mãos e dedos pela lâmina da


máquina de corte dos tecidos, que pode causar lesões graves.

4.1.4 Setor de costura

O setor de costura é o principal setor da indústria do vestuário, sendo o ponto


nevrálgico da produção. Neste local se concentra o maior número de trabalhadores,
podendo em algumas empresas estar no mesmo espaço que o setor de
acabamento.

A função com o maior número de trabalhadores é a de Costureira (o) que pode, em


muitos casos, representar 50% da força de trabalho da empresa e, em sua maioria
absoluta, é constituída de mulheres.

Os serviços deste setor são constituídos por centenas de atividades, fragmentadas


em várias etapas por trabalhadores organizados em grupos denominados por
“células”, cuja meta de produção de peças acabadas, estabelecida pela gerência de
produção, tem que ser atingida coletivamente.

A organização da produção é feita em duas linhas, nas quais as células são


dispostas em série, como em uma esteira invisível. Uma das linhas costura a frente
da calça e a outra a parte traseira; posteriormente, outro grupo de trabalhadores
será responsável em fazer a união das duas partes.

A meta de produção é estabelecida por um cálculo que é realizado pelos


encarregados de produção, sendo medido através da cronometragem da tarefa por
unidade produzida. Segundo os encarregados eles aprenderam esta técnica com a
experiência ou em cursos do SEBRAE, em que fica claro o objetivo de se produzir
em ritmo alto a fim de aumentar o lucro do capital, sem economia das forças
humanas. Para realizar o controle da produção, os encarregados utilizam um quadro
de aviso, fixado na frente de cada célula, onde é escrito o número de peças a serem
produzidas no período de uma hora, ao final da qual é assinalado qual foi à
produção da última hora e estabelecida a meta da próxima hora. Este artifício
mantém uma pressão constante sobre os trabalhadores da célula em manter a
produção alta.

Os ganhos de produção só ocorrem quando a célula atinge a meta; assim, quando


um trabalhador não dá conta do serviço todos os demais perdem.

São vários os tipos de máquinas utilizadas neste setor: máquina de costura reta,
máquina de costura overloque, máquina de costura galoneira, máquina de casear,
máquina para pregar presilha, entre outras.

Neste setor, há grande número de ajudantes e abastecedores que irão servir a cada
célula, abastecendo com o produto que vem do setor de corte ou de outras células
anteriores ao processo; servindo também água aos trabalhadores que, dificilmente,
podem se ausentar de seus postos para suprir suas necessidades fisiológicas,
inclusive de ir ao banheiro.

Os serviços auxiliares - como passar a dobra do bolso traseiro, desvirar as calças,


revisar a qualidade das peças e contar o número de peças produzidas - são
realizados simultaneamente, em espaços insuficientes e mal organizados. Os
encarregados de produção estão sempre circulando entre o pouco espaço existente,
verificando os problemas dos atrasos na produção de cada célula.

No aspecto do conforto ambiental, o grande problema encontrado no setor de


costura, de quase todas as plantas industriais visitadas, é a ventilação, podendo o
calor tornar-se insuportável em algumas épocas do ano. A utilização de ventiladores,
solução adotada pelas empresas, já que isso não faz a renovação do ar; podendo
inclusive agravar outro problema ambiental que é a presença da poeira fazendo sua
dispersão no ambiente. Outro agente causador de desconforto é o ruído das
máquinas, que não se restringe ao posto de trabalho do setor, podendo atingir
postos de trabalho dos setores próximos.
QUADRO 4: FUNÇÃO, ATIVIDADES E CARGAS DE TRABALHO DO SETOR DE
COSTURA NA INDÚSTRIA DO VESTUARIO DE COLATINA-ES.

FUNÇÃO ATIVIDADE CARGAS DE TRABALHO


Costureira (o)Efetuar o serviço de costurar FÍSICAS:
os tecidos e adereços para - Ruído e vibração;
formar as roupas: - Calor.
QUÍMICAS:
Máquinas utilizadas: costura - Poeira de tecido.
reta, overloque, galoneira, ACIDENTES:
caseadeira e prespontadeira. - Perfurações com agulhas.
FISIOLÓGICAS:
- Posição fixa sentada por
longo tempo;
- Movimentos repetitivos e com
precisão;
- Exigência de posturas
inadequadas;
- Cadeiras sem controle de
altura e de encosto ergonômico;
- Jornada de trabalho longa;
- Fixação de vista no campo de
trabalho por longo período;
- Iluminação inadequada.
- Trabalho que exige força no
manuseio (trespontadeira).
PSÍQUICAS:
- Controle rígido da produção;
- Falta de sentido do trabalho;
- Tensão pela necessidade de
atingir as metas;
- Remuneração baixa.
Auxiliar de Auxiliar no abastecimento de FÍSICAS:
costura, matéria prima e revisar o - Ruído;
revisor e serviço feito. Pode, às vezes - Calor.
abastecedor. substituir a costureira que vai QUÍMICAS:
ao banheiro ou tomar água. - Poeira de tecido.
FISIOLÓGICAS:
- Posição fixa em pé por longo
tempo;
- Movimentos repetitivos;
- Esforço físico pesado.
PSÍQUICAS:
- Controle rígido da produção;
- Falta de sentido do trabalho;
- Remuneração baixa.
Continuação QUADRO 4:

Passador Passa a borda do bolso de trás FÍSICAS:


da calça jeans. - Ruído;
- Calor.
Instrumento: Ferro de passar QUÍMICAS:
roupas, doméstico ou industrial. - Poeira de tecido.
ACIDENTES:
- Trabalho com material
aquecido (Queimadura).
FISIOLÓGICAS:
- Posição em pé por longo
tempo;
- Movimentos repetitivos;
- Esforço físico.
PSÍQUICAS:
- Controle da produção;
- Desvalorização ou de
sentido do trabalho;
- Remuneração baixa.

Segundo os auditores da Sub-Delegacia Regional do Trabalho – DRT existe um


problema grave na indústria do vestuário relacionada com o espaço físico destas
empresas que geralmente estão instaladas em local improvisado, sendo o setor de
costura, por ocupar o maior número de trabalhadores e de máquinas o mais
prejudicado.

Com as exceções já citadas os mobiliários, como as cadeiras, não têm forma ou


dispõem de controles que garantam um conforto ergonômico, seja de altura ou de
encosto; algumas máquinas estão baixas demais, enquanto outras estão altas,
devendo o trabalhador se virar para conseguir a posição que lhe seja menos
penosa. Para adaptar as cadeiras de madeira ao seu corpo e melhorar o conforto, os
trabalhadores utilizam estofados improvisados, colocados no assento e no encosto.
No entanto, quando a tarefa exige rotação de quadril, como o de transferir o material
trabalhado de um lado para o outro, este tipo de movimento constante pode
provocar desconforto e dores na coluna, que só podem ser amenizadas com
cadeiras que tenham o assento rotatório.

O nível de produção é alto e, para ser atingido, deve ser realizado com a repetição
de movimentos até a exaustão, exigindo, além disso, atenção no movimento, fixação
da visão e precisão a fim de garantir a qualidade. Para produzir além da meta
prevista e poder ganhar o adicional de produção para sua equipe, o trabalhador evita
sair da linha de produção até para beber água ou ir ao banheiro.

A posição de trabalho da costureira (o) é permanentemente sentada, mas exige do


trabalhador vários tipos de movimentos, como: esticar os braços, acionar o pedal do
motor da máquina, movimento lateral da perna para acionar o sistema que levanta
as agulhas, torção do tronco para transferir peças de um lado para o outro, entre
vários outros movimentos sutis que compõem toda a complexa operação que é
executada.

Outros profissionais que trabalham no setor, são: o passador que passa as dobras
do bolso de trás das calças, os ajudantes e abastecedores que ficam na linha de
produção transferindo as peças acabadas de uma célula para outra, os revisores
que inspecionam as peças prontas, assim como o trabalhador que é responsável em
desvirar as calças já terminadas para ser transferida para o setor de acabamento.
Trabalham permanentemente na posição ortostática (em pé), já que os postos de
trabalho geralmente não dispõem de bancos.

4.1.4.1 Setor de Costura e o Trabalho em Célula de Produção.

Entre as formas de organização da produção, segundo Silva (2003) tem ocorrido


uma grande disseminação dos denominados “grupos de trabalho” ou “células de
produção”, com influência bastante marcante do modelo japonês (o just-in-time, o
kaizen e o 5S) ou o modelo lean-production, em sua modalidade de “trabalho em
grupo”..

A forma de produção em células foi introduzida na indústria do vestuário de Colatina


em 1990, e paulatinamente vem sendo adotada por todas as empresas, em
substituição ao modelo anterior, onde a produção era controlada individualmente,
sendo marcante seu emprego no setor de costura.

O setor de costura é caracterizado pela fragmentação das atividades, com


intensidade e densidade alta de trabalho, agora sendo organizado em “grupos de
trabalho” ou “células de produção”, especializadas em determinadas operações da
linha de produção de roupas, especialmente no setor de costura..

As células são organizadas de forma a obedecer ao fluxograma da produção,


seguindo a disposição de 2 a 4 máquinas especializadas, ou ilhas, a realizar cada
operação como se fossem em um processo continuo ou de esteira, sem que esta
exista de fato.

Frente (Célula 1) Junção (Célula 3)

Ilhas

Traseiro (Célula 2)

Figura 2: FLUXOGRAMA DA CELULA DE PRODUÇÃO

Cada trabalhador que faz parte de uma célula recebe certa quantidade de matéria
prima, previamente cortada, e tem que dar conta de manter a produção, que é
controlada, de hora-em-hora, pelo encarregado. A produção de cada hora é anotada
em um quadro que fica visível para todos, a fim de informar se o serviço está
atrasado ou se está produzindo de acordo com a programação, o quadro funciona
como uma forma de catalisador ou um aviso de que é preciso aumentar o esforço
para atingir a meta ou a cota diária.

O trabalhador que não dá conta de produzir a meta planejada é denunciado pelo


acúmulo de matéria prima ao lado de seu posto de trabalho, e está constantemente
sendo avaliado pelos membros da célula, numa forma de autocontrole de produção
da célula.

Curiosamente, a concepção deste modelo de produção foi pensada como uma


alternativa ao trabalho fragmentado e especializado, que substituiria o modelo
clássico taylorista-fordista, pois, se pretendia com ele a polivalência e o aumento da
competência do trabalhador, com a concepção do trabalho mais próxima da
execução, sem supervisão, controle da produção e do como produzir (modelo
sociotécnico) (SILVA, 2003). No entanto, o que parece ocorrer nas empresas
pequenas e médias de alta produção de produtos de baixo valor, como na indústria
do vestuário de Colatina, é um hibridismo, com a permanência do modelo taylorista-
fordista e o uso da ferramenta do trabalho em grupo, com finalidade nítida de
aumentar o controle social da mão-de-obra, com os trabalhadores se penalizando
quando as metas quase impossíveis não são alcançadas.

As células são determinadas pelo tipo de serviço que é executado pelas máquinas
ali disponíveis, caracterizando, portanto, uma especialização do trabalhador, com
pouca possibilidade de mudança de tarefa. A mudança de célula só é possível se
houver domínio do trabalhador sobre as operações da outra máquina; daí, ser mais
fácil mudar de grupo de trabalho para operar a máquina que se está habituado.

Se, por um lado, o trabalho na célula aumenta a sociabilidade destes trabalhadores


envolvidos com um mesmo objetivo, por outro, estas relações ficam sempre na
balança inexorável da capacidade do trabalhador em manter a produção alta e do
prêmio de produção. Neste modelo é dado ao grupo a autonomia consensual de
manter ou retirar qualquer membro da célula que seja menos eficiente. Em muitos
casos, segundo Silva (2003), a própria costureira pede para sair, ou trocar de célula.
Assim, cada membro reforça no outro a necessidade de manter a produção alta,
podendo, quando o grupo nota um problema não caracterizado como corpo mole ou
ineficiência, aumentar o ritmo individual para auxiliar quem está na dificuldade.

Segundo o SINTVEST quando alguém falta ao trabalho, mas mesmo assim a célula
consegue a cota, o salário produção perdido pelo trabalhador faltoso não é
distribuído entre aqueles que trabalharam durante todo o período.

Como poderemos ver, esta forma da organização da produção é uma das principais
causas do processo saúde-doença destes trabalhadores.
4.1.5 Setor de acabamento

O setor de acabamento pode estar separado do setor de costura ou não,


dependendo da estrutura física da fábrica. No entanto, este setor é uma
continuidade do setor de costura e visa corrigir e acrescentar itens ainda não
colocados, como algum adereço ou a fixação de botões, presilhas, cases, ilhoses e
etiquetas.

Neste setor há o revisor de arremate, que verifica se há alguma peça defeituosa; o


costureiro, que reforça algumas peças defeituosas; e o operador de máquinas
especiais que faz o caseamento, prega botões ou etiquetas, prega ilhoses e botões
metálicos. Citamos também o trabalho realizado pelos ajudantes de revisão, que
fazem a retirada de linhas das calças com o uso de uma tesourinha de mão e que,
na posição sentada, realizam trabalho repetitivo durante toda a jornada de trabalho.

Como nos demais setores, encontramos também neste ambientes mal ventilados em
que o calor e o ruído dos equipamentos (em particular o das máquinas de pregar
botões) é uma constante fonte de desconforto e de tensão entre os trabalhadores.

O trabalho é realizado permanentemente na posição sentada, em cadeiras sem


controle de altura e encosto que se molde ao corpo do trabalhador; em alguns
casos, com a altura da máquina muito baixa em relação ao piso, o que obriga
assumir uma posição encurvada para visualização do campo de trabalho, que requer
precisão. No setor de acabamento segue a mesma lógica do setor de costura, com
ritmo de trabalho acelerado, pois acompanha a lógica de produção da indústria.

O processo de trabalho ocorre conforme o setor de costura, com a fragmentação de


atividades e pouca ou nenhuma exigência de capacitação, desvalorização do
serviço, mas que exige perícia, concentração, visualização constante do campo de
trabalho, posição fixa de trabalho, com pouca ou nenhuma possibilidade de decisão
sobre o que se está fazendo, conforme o quadro 6.
QUADRO 5: FUNÇÕES, ATIVIDADES E CARGAS DE TRABALHO NO SETOR DE
ACABAMENTO NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES.

FUNÇÃO ATIVIDADE CARGAS DE TRABALHO


Operador de Operam máquinas automáticas FÍSICAS:
máquina ou semi-automáticas de - Ruído;
especial. caseamento e travete, prega - Calor.
botões metálicos, fazem ACIDENTES:
etiquetagem. - Perfurar dedos com agulhas.
FISIOLÓGICAS:
- Posição fixa sentada por
longo tempo;
- Movimentos repetitivos;
- Exigência de postura;
- Cadeiras sem controle de
altura e de encosto ergonômico;
- Jornada de trabalho longa.
PSÍQUICAS:
- Controle rígido da produção;
- Falta de sentido do trabalho;
- Remuneração baixa.
Revisor de Faz o controle de qualidade do FÍSICAS:
arremate produto, realizando a inspeção - Calor.
de problemas a serem FISIOLÓGICAS:
corrigidos. - Levantamento de peso.
- Posição de trabalho fixa em
pé ou sentado por longo período.
- Cadeiras sem controle de
altura e de encosto ergonômico;
- Jornada de trabalho longa.
PSÍQUICAS:
- Falta de sentido do trabalho;
- Remuneração baixa;
Auxiliar de Retira as linhas que sobram nos FÍSICAS:
arremate tecidos das roupas. - Calor.
FISIOLÓGICAS:
- Movimentos repetitivos;
- Posição de trabalho fixa
sentada por longo período.
- Cadeiras sem controle de
altura e de encosto ergonômico;
- Jornada de trabalho longa;
PSÍQUICAS:
- Trabalho por produção;
- Falta de sentido do trabalho;
- Remuneração baixa.
4.1.6 Setor de Lavanderia

O setor de lavanderia não existe em todas as empresas que fabricam as roupas de


jeans, já que é um setor que necessita de grande investimento em equipamentos e
controle ambiental de seus efluentes. Quando necessário, as empresas que não
dispõem deste setor contratam este serviço de empresas especializadas, que
existem em grande número no município de Colatina.
A lavanderia é responsável pelo serviço de lavagem e de tintura, ou para introduzir
efeitos de fabricação como embranquecimento, manchas ou desgastes, que irão dar
ao produto uma diferenciação no mercado.
O trabalho da lavanderia é realizado pelo lavador ou auxiliar de lavanderia, que
devem fazer o serviço de dosar os produtos químicos utilizados no branqueamento
do tecido, enxágüe, centrifugação e fazer o carregamento das máquinas de lavar e
das centrífugas.

QUADRO 6: FUNÇÃO, ATIVIDADES E CARGA DE TRABALHO NO SETOR DE


LAVANDERIA NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES.

FUNÇÃO ATIVIDADE CARGAS DE TRABALHO


Lavador e seu Colocar e retirar as peças de FÍSICAS:
auxiliar. roupas das máquinas de lavar e - Ruído;
das centrifugas. Fazer as dosagens - Calor
de produtos químicos e fazer o QUÍMICAS:
controle dos desgastes do tecido - Contato com produtos
das calças de acordo com o químicos.
modelo padrão. ACIDENTES:
- Pisos escorregadios;
- Queimaduras químicas.
FISIOLÓGICAS:
- Posição fixa em pé por
longo tempo;
- Levantamento de peso.
- Jornada de trabalho
longa.
PSÍQUICAS:
- Ritmo de produção;
- Remuneração baixa.

O setor da lavanderia utiliza o vapor produzido por caldeiras, geralmente à lenha, o


que torna os locais bastante quentes, sendo o calor e o ruído os agentes físicos que
representam mais risco à saúde. O produto químico mais utilizado é a barrilha
(carbonato de sódio), também, conhecida como soda, que tem pH básico e pode
causar queimaduras graves em contato com os olhos.
No setor da lavanderia, o sinergismo entre as cargas de trabalho é bastante evidente
havendo exposição simultânea a cargas fisiológicas (trabalho físico de moderado
para forte, trabalho em posição ortostática), cargas químicas (manipulação de
produtos químicos), cargas físicas (temperatura elevada, ruído e umidade), cargas
psíquicas (jornada de trabalho longa, ritmo de produção, pouca valorização do
serviço).
Este setor, muitas vezes é construído próximo ao setor de caldeiras, que pode se
constituir em um risco de acidente de explosão, devido à precariedade das
instalações, falta de treinamento de operadores das caldeiras, falta de inspeção e
manutenção periódica.

4.1.7 Setor de Passadoria

O setor é responsável em passar as calças antes de ir para o setor de embalagem,


sendo realizada por equipamentos especializados que utilizam geralmente o vapor
d’água da caldeira. A tarefa é executada pelo acionamento simultâneo de um pedal
que abre a válvula do vapor d’água e pelo braço do trabalhador que abaixa a placa
superior do equipamento sobre a área a ser passada.

Esta atividade é realizada pelo passador, que trabalha na posição ortostática (em
pé), com movimentos repetitivos, serviço pesado em jornadas longas e de grande
produção.

Quanto à questão ambiental, o calor do vapor que sai do equipamento é soprado


sobre o peito do trabalhador, que também se expõem às partes metálicas do
equipamento, podendo sofrer queimadura. O auxiliar de passador abastece o setor
com as peças a serem passadas, dobra e leva as calças passadas para o setor de
embalagem, também trabalha em pé e faz o serviço de transporte manual das
roupas. No quadro 7, abaixo, são apresentados os principais componentes das
tarefas da passadoria com suas cargas de trabalho.

.
QUADRO 7: FUNÇÕES, ATIVIDADES E CARGAS DE TRABALHO NO SETOR DE
PASSADORIA NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES.

FUNÇÃO ATIVIDADE CARGAS DE TRABALHO


Passador Realiza a passagem da roupa e a FÍSICAS:
dobra as peças passadas. - Calor.
ACIDENTES:
- Contato com partes
quentes do equipamento de
passar.
FISIOLÓGICAS:
- Posição fixa em pé por
longo tempo;
- Movimentos repetitivos;
- Exigência de postura;
- Jornada de trabalho
longa;
- Esforço físico pesado.
PSÍQUICAS:
- Controle rígido da
produção;
- Falta de sentido do
trabalho;
- Remuneração baixa;
Auxiliar de Abastece o setor de passadoria de FISIOLÓGICAS:
passador peças e dobra as peças passadas - Posição fixa em pé por
e encaminha ao setor de longo tempo;
embalagem. - Movimentos repetitivos;
- Jornada de trabalho
longa.
PSÍQUICAS:
- Falta de sentido do
trabalho;
- Remuneração baixa.

No setor de passadoria, as cargas de trabalho mais importante são: as fisiológicas


determinadas pelo ritmo de trabalho, movimentos repetitivos, trabalho na posição
fixa em pé; as cargas físicas, relacionadas ao calor; as cargas psíquicas,
representadas pela pouca valorização da função dentro do processo de fabricação,
e ao fato de haver pouca possibilidade de variação do serviço. Devido ao esforço
físico necessário, a atividade é realizada por homens, o que cria o preconceito sobre
a função de passar roupas junto aos demais trabalhadores.
Outro aspecto a ser analisado são os acidentes, na maioria das vezes de pouca
gravidade e por isso não registrados, como as queimaduras de mãos e braços pelo
contato com as partes quentes do equipamento de passar roupas.

4.1.8 Setor de artesanato

Outro setor que não existe em todas as empresas que produzem calças jeans é o de
artesanato, ou de envelhecimento, denominado de used (usado ou envelhecido).
Neste setor, os artesãos trabalham peça por peça, através do lixamento manual ou
de equipamentos elétricos utilizados no desgaste do tecido da calça, havendo ainda
o serviço de envelhecimento (used), com a pulverização e permanganato de
potássio..

O trabalho de lixamento é um serviço que exige a repetição de movimentos, o


trabalho contínuo na posição ortostática com o encurvamento do tronco e pescoço, e
a exposição à poeira do tecido e a tintas.

Para ser dado o efeito do envelhecimento ou de um detalhe de tintura, é utilizada a


técnica de deposição de permanganato de potássio ou de tintas, com uso de pistolas
de ar comprimido, sobre o tecido da calça que posteriormente, será lavada com
produtos químicos para fazer o desgaste do tecido.

O local de trabalho do used é totalmente fechado, sendo dotado de um sistema de


exaustão que, além de não conseguir que o ar fique totalmente isento do material
químico em suspensão no ar, produz muito ruído e a atividade tem que ser realizada
em pé com uma equipe de trabalhadores que fragmenta o serviço em pequenas
etapas para acelerar a produção.

Como este é um setor que agrega valor à mercadoria produzida, pela diferenciação
que ela dá, há grande investimento no desenvolvimento de novas técnicas e na
inserção de equipamentos modernos, devendo o trabalhador estar sempre se
adaptando a novas exigências.
QUADRO 8: FUNÇÕES, ATIVIDADES E CARGAS DE TRABALHO DO SETOR DE
ARTESANATO NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES.

Função Atividade Cargas de Trabalho


Artesão Lixamento de peças de roupa com FÍSICAS:
determinadas características - Calor.
definidas em um modelo pré- QUÍMICAS:
estabelecido, por lixamento manual - Poeira de algodão e
ou uso de equipamento elétrico. tintas.
ACIDENTES:
- Choque elétrico.
FISIOLÓGICAS:
- Posição fixa em pé por
longo tempo;
- Movimentos repetitivos;
- Exigência de postura;
- Jornada de trabalho
longa;
PSÍQUICAS:
- Controle rígido da
produção;
- Falta de sentido do
trabalho;
- Remuneração baixa;
Artesão Used Realizam a deposição de produtos FÍSICAS:
químicos sobre o tecido com uso - Ruído.
de pistolas de ar comprimido. - Calor.
QUÍMICAS:
- Névoas de
Permanganato de potássio,
- Névoas de tintas.
FISIOLÓGICAS:
- Posição fixa em pé por
longo tempo;
- Movimentos repetitivos;
- Jornada de trabalho
longa;
PSÍQUICAS:
- Trabalho em produção
controlada;
- Falta de sentido do
trabalho;
- Remuneração baixa;

Neste setor, as cargas fisiológicas (movimento repetitivo, alta produção incentivada


por prêmios, a postura necessária para a realização da atividade) é o principal
problema de desgaste, podendo ser potencializada com cargas físicas devido ao
calor dos locais pouco ventilados, ao ruído, à poeira do tecido e à iluminação
insuficiente do campo de trabalho. Soma-se a estas as cargas psíquicas, oriundas
do controle rígido da produção, exigência de um grande número de calças
produzidas por hora, com a qualidade semelhante à do modelo padrão, que é
supervisionada constantemente pelo encarregado de produção.

4.1.9 Setor de embalagem e expedição

Chegando ao fim da linha de produção, as peças acabadas vão para o setor de


embalagem, onde os embaladores e seus ajudantes colocam as roupas em sacolas
plásticas, e as acondicionam em caixas de maior volume, de acordo com a
encomenda que foi solicitada.

Neste setor também como nos demais o problema ambiental mais encontrado é o
desconforto térmico, mas as cargas de trabalho mais importantes são: as fisiológicas
encontradas no esforço físico para a realização do trabalho de embalagem e do
enfardamento, assim como o de carregamento deste material para a estocagem e
carregamento de veículos. No setor de estocagem também pode haver a
necessidade de uso de escadas para acesso a prateleiras altas, havendo risco de
acidentes; e as cargas psíquicas relacionadas às responsabilidades relativas a
manter a contabilidade dos produtos sempre certa e pela execução de um serviço
monótono que pode não ter para o trabalhador um significado de realização
profissional, ou ser menos importante na cadeia produtiva.

Na seqüência, o material embalado vai para o setor de expedição onde o conferente


faz o controle de estoque do produto e o faturista emite as notas fiscais e responde
por ações administrativas necessárias para que o produto possa ser transportado
para os clientes. Em algumas empresas estes setores podem ser os mesmos, não
havendo separação física entre eles.
QUADRO 9: FUNÇÕES, ATIVIDADES E CARGAS DE TRABALHO NO SETOR DE
EMBALAGEM E EXPEDIÇÃO NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE
COLATINA-ES.

FUNÇÃO ATIVIDADE CARGAS DE TRABALHO


Embalador e Embala manualmente as peças FÍSICAS:
seu auxiliar de roupas em sacolas plásticas - Calor.
e após em caixas de papelão. ACIDENTES:
- Trabalho em altura
(quedas).
FISIOLÓGICAS:
- Levantamento e
carregamento de peso;
- Trabalho repetitivo e
monótono;
- Exigência de postura;
- Jornada de trabalho longa.
PSÍQUICAS:
- Responsabilidade;
- Falta de sentido do
trabalho;
- Remuneração baixa;
Conferente Controla o estoque das FÍSICAS:
mercadorias prontas e a saída - Calor.
das mesmas. FISIOLÓGICAS:
- Exigência de postura;
PSÍQUICAS:
- Responsabilidade;
- Trabalho monótono.
Faturista Emite notas fiscais e realiza PSÍQUICAS:
atividades administrativas. - Falta de sentido do
trabalho;
- Remuneração baixa.

Os setores administrativos, de vendas, manutenção, limpeza, ou que não estão


envolvidos diretamente na produção das roupas, não foram estudados.

4.2 DISTRIBUIÇÃO DAS PRINCIPAIS FUNÇÕES POR SETOR DE


TRABALHO

A tabela 3 mostra a distribuição dos trabalhadores pesquisados por funções, sendo


que a grande maioria se concentra no setor de costura, onde a função predominante
é a de costureira (o).
TABELA 3: DISTRIBUIÇÃO DOS TRABALHADORES POR FUNÇÃO E SETOR NA
INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES, 2005.

SETOR FUNÇÃO FREQ(*) FREQ. (**) %


Criação e Modelista 6
modelagem Moldador/Riscador/Pilotista 5
14 3,3
Estilista 2
Auxiliar de modelagem 1
Almoxarifado Almoxarife 1
Classificador e revisor de tecido 1
5 1,1
Encarregado de estoque 1
Auxiliar de almoxarifado 2
Estamparia Estampador 5
6 1,4
Desenhista 1
Enfesto e corte Cortador 12
Auxiliar de corte 8
23 5,3
Enfestador 1
Encarregado de corte 2
Costura Costureira 209
Auxiliar de costura 24
264 62,5
Abastecedor 14
Encarregada de produção 17
Acabamento Revisão de arremate 7
Operador de máquina 6 16 3,7
Encarregado de revisão 3
Passadoria Passador 25
Auxiliar de passadoria 1 27 6,3
Encarregado de passadoria 1
Lavanderia Lavador 7
Auxiliar de lavador 1 9 2,0
Encarregado de lavanderia 1
Expedição Expedidor 7
Auxiliar de Expedição 6
Embalador 1
17 4,0
Conferente 1
Auxiliar de faturamento 1
Encarregado de expedição 1
Artesanato Artesão used 4
6 1,4
Auxiliar de artesão 2
Serviços Mecânico de manutenção de máquinas 4
auxiliares Operadores de caldeiras 5 12 2,8
Limpeza e copa 3
Administrativos Auxiliar de escritório e secretaria 9
Gerente, contador, vendedores 8 20 4,7
Motoristas, cobradores 3
Outros Desempregados no período 2 2 0,4
Total 422 422 100
(*) Freqüência por função
(**) Freqüência por setor
A função de costureira representa 49,5% do total de trabalhadores estudados, sendo
que os que trabalham neste setor representam 62,5%. Em segundo lugar vem o
setor de passadoria com 27 pessoas (6,3% do total), mas bem distante dos números
do setor de costura.

4.3 INTERAÇÕES ENTRE AS CARGAS DE TRABALHO E O


DESGASTE DOS TRABALHADORES.

O levantamento de campo verificou que a exposição aos fatores de risco ou às


demandas do trabalho real que caracterizam as cargas de trabalho não ocorre
isoladamente, e sim, simultaneamente. Esta interação de várias cargas de trabalho
atuando sobre o corpo, a mente e o psiquismo dos trabalhadores não só acelera o
desgaste biopsicológico, como diminui a capacidade do corpo do trabalhador em
reagir a estas cargas, determinando o surgimento das doenças.
A carga de trabalho física imposta pelo calor é amplificada nas cargas fisiológicas
demandadas pela atividade repetitiva, com esforço físico e, por conseqüência,
repercutirão significativamente sobre o psiquismo do trabalhador que se sente em
estado de sofrimento devido ao desconforto térmico e por não ter perspectiva de
melhorar a condição ambiental do posto de trabalho.
Para atingir a meta prevista e o ganho da equipe, o trabalhador evita sair da linha de
produção até para beber água ou ir ao banheiro. A repetição dos mesmos
movimentos por longo período de tempo provoca o desgaste dos ligamentos e ossos
pelo atrito, podendo ocasionar inflamações.
A posição fixa por longos períodos em cadeiras inadequadas, provoca a compressão
dos vasos sanguíneos, comprometendo o sistema circulatório dos membros
inferiores, causando inchaço e o possível aumento do risco de trombose, podendo
ainda as posições estáticas prolongadas acarretar desgaste de ossos e articulações.
O trabalho fixo na posição ortostática pode acarretar problemas de aumento de
pressão arterial, com aparecimento de varizes, cansaço muscular e problemas
cervicais e dorsais.
Conforme abordado anteriormente, não existe uma hierarquia entre as diferentes
cargas, havendo, no entanto, uma preponderância das formas de organização e da
divisão do trabalho no interior das empresas no controle e consumo da força de
trabalho (FACHINI, in BUSCHINELLI, 1993, p.182). Para o setor de vestuário de
Colatina, o sistema de organização da produção em células, pode ser considerado
como determinante das formas de desgaste nos trabalhadores.
Neste estudo não abordamos aspectos das cargas psíquicas relacionadas ao
assédio moral e sexual, riscos que necessitam de outro tipo de abordagem para
serem trazidos à luz.
A seguir serão analisados os resultados do levantamento realizado com
trabalhadores, no que diz respeito às expressões do desgaste relacionado a certas
cargas de trabalho.
5 ASPECTOS SÓCIO-ECONÔMICOS DOS TRABALHADORES DA
INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA.

Os trabalhadores da indústria do vestuário são predominantemente do sexo


feminino: 280 pessoas, ou 66,4% da amostra que foi entrevistada. No setor de
costura, a presença feminina é ainda maior, 89% dos trabalhadores. De acordo com
o SINTVEST, esta freqüência já foi maior no passado e vem diminuindo nos últimos
anos com o incremento da mão-de-obra masculina em todas as áreas, inclusive no
setor de costura.

Quanto ao componente grupo racial desta população de trabalhadores, 218 pessoas


(51,7%) se identificaram como brancos, 181 (42,9%) como pardo-morenos e
somente 23 (5,3%) como negros. Esta distribuição é bastante semelhante ao perfil
étnico encontrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE na
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD de 1995 (IBGE, 2000).

O espectro etário dos trabalhadores abrange idades de 17 a 65 anos, mas com


predomínio acentuado de trabalhadores com idades inferiores a 40 anos (77,3%).
Com média de 31 ±9,2 anos, a população empregada é caracterizada por adultos
bastante jovens e em franca capacidade produtiva.

TABELA 4: DISTRIBUIÇÃO DA AMOSTRA DOS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO


VESTUÁRIO DE COLATINA POR FAIXA ETÁRIA, 2005.

Faixa Etária Freqüência % % Acumulada


< 20 anos 11 4,5 4,5
20 a 29 anos 172 38,9 43,4
30 a 39 anos 143 33,9 77,3
40 a 50 anos 78 18,4 95,7
> 50 anos 18 4,3 100
Total 422 100 100

Ao se analisar a variável idade segundo o sexo, é visível uma concentração da


população mais jovem no gênero masculino com média de 28,4 ±7,8 anos, que pode
ser explicada pelo acesso recente do homem neste setor produtivo e certa
homogeneidade de distribuição etária no gênero feminino, média de 34,6 ±9,1 anos,
devido ao gênero estar inserido a mais tempo neste tipo de trabalho, ver figura 3.

FIGURA 3: DISTRIBUIÇÃO PERCENTUAL DAS FAIXAS ETARIAS POR SEXO NA


INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES, 2005.

Em relação ao estado civil, a maioria 236 pessoas (55,9%) é casada ou vive


maritalmente com alguém, 148 (35,1%) são solteiros, 33 (7,8%) divorciados ou
separados e somente 5 (1,2%) são viúvos.

Sobre o aspecto de números de pessoas que dependem do trabalho assalariado do


entrevistado, encontrou-se o seguinte resultado: 81 (19,3%) responderam que
trabalhavam para o próprio sustento, 289 (68,8%) que tinham de 1 a 3 dependentes
e 50 (15,9%) de 4 a 7 dependentes.

A escolaridade dos trabalhadores da indústria do vestuário é em média de 7,9 anos.


Os dados coletados foram de anos estudados e concluídos, ou seja, com aprovação
para a série seguinte, conforme a tabela 5.
TABELA 5: DISTRIBUIÇÃO POR GRAU DE ESCOLARIDADE DOS TRABALHADORES DA
INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES, 2005.

Grau de Instrução Freqüência % % Acumulada


Analfabetos 2 0,5 0,5
1º Grau incompleto 164 38,9 39,4
1º Grau completo 56 13,3 52,7
2º Grau Incompleto 45 10,7 63,4
2º Grau completo 139 32,9 96,3
Curso Superior incompleto 8 1,9 98,2
Curso Superior completo 4 0,9 99,1
Não Informaram 4 0,9 100
Total 422 100 100

A média de escolaridade dos trabalhadores do setor é um pouco superior à média


nacional das pessoas com 15 anos ou mais idade, revelada pelo senso demográfico
2000 do IBGE, que é de 6,2 anos (IBGE, 2001, p. 45). As mulheres têm média de
escolaridade de 7,7 ±2,64 anos; e é um pouco inferior a dos homens que têm em
média 8,5 ±3,26 anos, o que diferencia do estudo do IBGE que indica que as
mulheres têm escolaridade maior do que a dos homens.

Sobre o local de procedência, 233 pessoas (55,2%) nasceram em Colatina, 88


(20,8%) são de municípios do norte do Estado do Espírito Santo, 51 (12,1%) são
migrantes de outros estados do país e 50 (11,9%) são oriundos de outros municípios
do estado. Informaram ter nascido na zona rural 153 pessoas (36,2%), sendo que se
estabeleceram na zona urbana nos últimos 15 anos, período que coincide com a
desvalorização da cultura cafeeira local, pela queda da cotação do produto no
mercado internacional, fato que contribuiu para a migração do homem do campo
para as cidades à procura de novas oportunidades de emprego e também com o
crescimento da indústria do vestuário no município de Colatina.

Os salários líquidos, mencionados pelos trabalhadores, variaram de 1 a 5,6 salários


mínimos, com a média de 1,35 salários mínimos. Nota-se que os homens têm um
rendimento pouco superior: 1,47 salários mínimos contra 1,3 salários mínimos das
mulheres.
O tempo de trabalho na indústria do vestuário desta população de trabalhadores
varia de 6 meses a 33 anos de trabalho, com uma média de 9,5 anos. A tabela 6
mostra as faixas de tempo de trabalho e respectivas freqüências.

TABELA 6: DISTRIBUIÇÃO DE TRABALHADORES DA AMOSTRA POR TEMPO DE


SERVIÇO NA INDÚSTRIA NO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES, 2005.

Tempo de serviço Freq %


< 1 ano 15 3,5
1 a 5 anos 137 32,5
6 a 10 116 27,5
11 a 15 78 18,5
15 a 19 33 7,8
> 20 anos 43 10,2
Total 422 100

Quanto ao tempo de trabalho na empresa atual, verifica-se que o tempo médio de


permanência é de 5,03 anos, o que é pouco inferior ao tempo que exerce a atual
função, com a média de 6,5 anos de trabalho na mesma função, computadas a atual
empresa e as anteriores.
6 PERFIL DE DESGASTE À SAÚDE DOS TRABALHADORES DA
INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA.

O perfil de desgaste à saúde dos trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina


foi estudado com base no perfil de queixas de saúde referidas nos últimos 15 dias
anteriores à pesquisa, à ocorrência de restrições de saúde que determinou a
necessidade de afastamento do trabalho, qual foi o tipo de acesso e utilização de
serviços de saúde, a ocorrência de suspeita de DMM e LER, uso de bebidas
alcoólicas, tabagismo e uso de calmantes.

6.1 PREVALÊNCIA DE QUEIXAS DE SAÚDE OU MORBIDADE


REFERIDA

Um dos objetivos deste estudo foi verificar qual era o perfil de adoecimento dos
trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina, caracterizado pela prevalência
de queixas de saúde (morbidade referida) existente na população nos últimos 15
dias anteriores à entrevista. O perfil de adoecimento que se configura é uma
expressão do desgaste decorrente do processo de trabalho.

Os trabalhadores apresentaram um índice de queixas à saúde bastante alta,


considerando-se se tratarem de trabalhadores jovens, com média de idade de 31
anos. Dos 422 trabalhadores entrevistados, 105 trabalhadores (24,9%) informaram
ter tido algum problema de saúde. Alguns trabalhadores apresentaram mais de uma
queixa de saúde, sendo 59 apenas uma queixa, 30 duas queixas, 10 três queixas e
6 casos com 4 sintomas ou desconforto o que totalizou 173 queixas.

Não houve diferença significativa de prevalência de queixas por sexo (p=0,1264), já


que os casos relativos ao número de trabalhadores deram resultados muito próximos
24,6% para mulher e um pouco superior para os homens 25,4%, situação que
conflita com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio – PNAD sobre
acesso e utilização de serviços de saúde de 1998 (IBGE, 2000, p.21). Por esta
pesquisa, a proporção de mulheres acima de 14 anos com queixas ou restrição de
saúde é sempre maior do que a dos homens.
De acordo com a tabela 7, dos problemas de saúde informados pelos trabalhadores,
os muscoloesqueléticos foram os mais citados, correspondendo a 56,2% das
queixas, com alta freqüência de dores nas costas e na coluna, a seguir vem os

TABELA 7: MORBIDADE REFERIDA, SEGUNDO ÓRGÃOS E SISTEMAS ACOMETIDOS


NOS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES,
2005.

PROBLEMAS REFERIDOS DE SAÚDE Freq. % (*) % (**)


1- Problemas muscoloesqueléticos: 59
a- Dor na Coluna, lombar, costas e pescoço. 39
b- Dores nos braços, ombro, mãos e punhos. 10 56,2 14,0
c- LER, bursite, artrose e reumatismos. 7
d- Dores e dormência joelho, pé e calcanhar. 3
2- Problemas cardiovasculares: 39
a- Inchaço e dor nas pernas e pés. 19
b- Pressão alta. 15 37,1 9,2
c- Dor no peito, taquicardia e desmaio. 4
d- Hemorróidas. 1
3- Problemas das vias aéreas superiores: 27
a- Inflamação de garganta, faringite,gripe, rinite, otite, sinusite. 20
25,7 6,4
b- Alergias. 4
c- Febre. 3
4- Dor de cabeça e enxaqueca. 11 10,5 2,6
5- Problemas renais: 10
a- Infecção renal e cólica. 8 9,5 2,4
b- Cistite. 2
6- Problemas gastrintestinais: 6
5,7 1,4
a- Dor e queimação no estomago. 6
7- Outros: 21
a- Problemas visuais. 5
b- Estresse e tensão nervosas. 3
c- Estafa e cansaço. 3
d- Acidentes (trajeto e trabalho). 3
19,9 4,5
e- Cirurgias. 2
f- Dor de dente. 2
g- Mancha de pele. 1
h- Auditivos. 1
i- Diabetes. 1
Total 173 100 24,9
(*) Referindo-se a 105 pessoas que responderam ter tido queixa de saúde
(**) Referindo-se a 422 pessoas que participaram da pesquisa.

problemas cardiovasculares com 37,1% das queixas, já que há alta proporção de


hipertensão, dores e inchaço nas pernas e pés, ambos podendo estar ligados ao
fato do trabalho ser realizado em ritmo acelerado, em posição fixa, sentado ou em
pé durante toda a jornada. Os problemas respiratórios, com 25,7% das queixas,
representam a terceira principal causa de queixas, constituídas de gripes,
inflamações e problemas alérgicos, para os quais a poeira do algodão, dispersa no
ambiente de trabalho, pode estar relacionada. Dores de cabeça e enxaquecas, com
10,5%, podem estar indicando sintomas inespecíficos de desgaste.
Verificou-se também um alto índice de problemas renais, 9,5% das queixas,
podendo estar associados à contenção da urina, pela dificuldade que os
trabalhadores têm de parar o serviço para irem ao banheiro.
O pequeno número de transtornos mentais, 2,9% das queixas, encontrado nesta
amostra, contrasta com os indicativos observados no levantamento de cargas de
trabalho onde foi verificada a existência de grande número de cargas psíquicas
demandadas pela organização do trabalho.
De acordo com a tabela 8, a função de costureira é a que mais apresenta queixas de
saúde, 63 pessoas ou 60% dos casos, proporção que é superior à de costureiras em
relação ao total de trabalhadores (49%). As demais funções ficam com percentagens
bem inferiores, o que vem a dar ao setor de costura uma prioridade no controle das
condições de trabalho: onde há o maior número de trabalhadores e maior risco de
adoecimento.

TABELA 8: FREQÜÊNCIA DE QUEIXAS DE SAÚDE POR SETOR E FUNÇÃO NA


INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES, 2005.

Queixas
SETORES FUNÇÕES
Freq Função. Freq. Setor %
Costura Costureira 63
Auxiliar de costura 2
Auxiliar de serviços gerais 4 74 70,5
Abastecedor 3
Encarregado de produção 2
Acabamento Revisor de arremate 2
Operador de máquina 1 4 3,8
Encarregado de produção 1
Passadoria Passador 5 5 4,7
Artesanato Artesão 4
5 4,7
Auxiliar de artesanato 1
Expedição Auxiliar de expedição 3
Encarregado de expedição 1 6 5,7
Embalador 1
Auxiliar de faturamento 1
Enfesto e Corte Cortador 1
3 2,8
Auxiliar de corte 2
Criação/ e Modelagem Desenhista 1
Estilista 1 3 2,8
Modelista 1
Lavanderia Lavador 2 2 1,9
Almoxarifado Almoxarife 1 1 1,0
Manutenção Mecânico 1 1 1,0
Caldeiras Operador de caldeira 1 1 1,0
TOTAL 105 105 100
A tabela 9 mostra o número de trabalhadores com queixas de saúde por tempo de
serviço, revelando que a prevalência destas queixas cresce com o tempo de
atividade no setor.

TABELA 9: PREVALÊNCIA DE QUEIXAS DE SAÚDE COM TRABALHADORES DA


INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES POR TEMPO DE SERVIÇO,
2005.

Tempo de trabalho na atividade Freqüência % Expostos P (%)


<1 8 7,6 15 53,3
1a5 23 21,9 137 16,8
5 a 10 23 21,9 116 19,8
10 a 20 35 33,4 111 31,5
> 20 16 15,2 43 37,2
Total 105 100 422 24,9

A prevalência maior se deu com trabalhadores com menos de 1 ano no serviço. Dos
8 casos com trabalhadores com menos de 1 ano de serviço, cinco foram devido a
problemas alérgicos e respiratórios. Uma hipótese que pode ser feita a este respeito
é de que as desgastantes condições como o trabalho é realizado acabam por
selecionar aqueles que continuarão neste setor produtivo. Segundo uma
encarregada de produção, após ter sido interrogada sobre o tempo de serviço médio
de cada trabalhador na empresa, informou que 5 anos é o tempo médio em que se
agüenta trabalhar.

Segundo a tabela, a partir desta faixa de tempo de trabalho ocorre aumento


progressivo da prevalência podendo-se inferir que as doenças têm associação com
a contínua exposição às condições de trabalho.

6.2 ABSENTEÍSMO E AVALIAÇÃO DE SAÚDE

A tabela 10 mostra que, das 105 pessoas com queixas de saúde, 36 relataram que
tiveram que se afastar do trabalho por um período que variou de pelo menos 0,5 dia
ou até mais de 360 dias, com média de 23,4 dias perdidos de trabalho por
trabalhador, sendo que, um caso, considerado como perda, motivou pedido de
demissão, alegando o trabalhador não suportar mais as condições de trabalho. A
tabela mostra a distribuição dos trabalhadores afastados, segundo o número de dias
de afastamento, sendo que 63% afastaram-se por um período que variou de 1 a 7
dias.

TABELA 10: NÚMERO DE DIAS DE AFASTAMENTO DO TRABALHO POR QUEIXA DE


SAÚDE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES, 2005.

Dias de afastamento Freq. (*) %


<1 2 5,7
1a7 22 62,9
8 a 15 6 17,1
> 15 5 14,3
Total 35 100
(*) uma perda de informação por pedido de demissão.

Como 35 trabalhadores representam 8,3% da população estudada, o índice de


absenteísmo é alto e indica um elevado custo humano para a realização da
produção. Este dado é superior ao observado na pesquisa PNAD 1998 (IBGE, 2000,
p.68), sobre restrição ao trabalho nos últimos 15 dias para a população brasileira
com idade de 14 a 64 anos, que foi de 5,9%.
As principais causas de afastamento do trabalho são os problemas
muscoloesqueléticos, com 40% dos afastamentos, em particular as dores na coluna,
seguidas por problemas cardiovasculares, com 14,3%, e os problemas renais com
11,4%, em que se destacam as infecções dos rins, conforme a tabela 11.

TABELA 11: CAUSAS DE AFASTAMENTO DO TRABALHO NA INDÚSTRIA DO


VESTUÁRIO DE COLATINA-ES POR ÓRGÃOS OU SISTEMAS, 2005.

Problemas de saúde Freq. %


1- PROBLEMAS MUSCOLOESQUELÉTICOS: - Dor de coluna (10) e dor
nas costas (1), artrose (1), LER (1) e reumatismo (1) 14 40,0

2- PROBLEMAS CARDIOVASCULARES: - Pressão alta (2), Dor no peito


5 14,3
(1), dormência pernas (1) e hemorróidas (1)
3- PROBLEMAS DAS VIAS AÉREAS SUPERIORES:- Bronquite (1),
4 11,4
gripe (1), sinusite (1) e alergia (1)
4- PROBLEMAS RENAIS - Infecção nos rins (4) 4 11,4
6- OUTROS: - Acidente do trabalho (2), cirurgia (2), dor de gravidez (1),
dor de cabeça e enxaqueca (1) problemas no estômago (1), tensão 8 22,9
nervosa (1)
TOTAL 35 100

A tabela 12 mostra o resultado da auto-avaliação do estado de saúde por parte dos


trabalhadores, sendo que 64,7% consideraram que este era bom ou muito bom
(índice de satisfação) e somente 2,8% disseram estar seu estado de saúde ruim ou
muito ruim. O índice de satisfação para os homens foi de 71,8%, enquanto para as
mulheres, foi de 60,9%.

TABELA 12: AUTO-AVALIAÇÃO DO ESTADO DE SAÚDE DOS TRABALHADORES DA


INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES, 2005

Estado de Saúde F % M % Freq. Total %


Muito bom 38 13,6 6 4,2 44 10,5
Bom 132 47,3 96 67,6 228 54,2
Regular 99 35,5 38 26,8 137 32,5
Ruim 7 2,5 2 1,4 9 2,1
Muito Ruim 3 1,1 0 0 3 0,7
Total 279 100 142 100 421 100
(*) Uma perda feminina.

A pesquisa PNAD 1998 (IBGE, 2000, p. 20) encontrou um índice de satisfação para
a população geral brasileira de 79,1%, sendo de 81,8% para os homens e de 76,4%
para as mulheres.

6.3 ATENDIMENTO MÉDICO E DOENÇA DO TRABALHO

Dos trabalhadores com queixa de saúde, 39 pessoas (37,1%) não procuraram


atendimento médico, resolvendo seu problema de saúde em farmácias ou fazendo
automedicação. Os demais, 66 pessoas (62,9%), obtiveram um ou mais
atendimentos, tendo um caso em que o trabalhador recebeu 3 atendimentos nos
últimos 15 dias, o que totalizou 82 atendimentos.

A tabela 13 mostra a distribuição dos atendimentos médicos segundo o local de


atendimento.
TABELA 13: DISTRIBUIÇÃO DE ATENDIMENTO MÉDICO DOS TRABALHADORES DA
INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES POR LOCAL, 2005.

Tipo de Atendimento Freqüência %


Médico da empresa 19 23,2
Programa Saúde da Família - PSF 8 9,7
Unidade Básica de Saúde - UBS 35 42,7
Plano de Saúde 20 24,4
Total 82 100

Nota-se que o SUS foi responsável por cerca de 52,4% dos atendimentos através
das Unidades Básicas de Saúde e do Programa Saúde da Família.

Perguntados se o médico que os atendeu relacionou o sintoma de sua doença com


o trabalho, 29 trabalhadores (43,9%) disseram que sim.

Mesmo desconsiderando que pode haver muitos trabalhadores ainda com um


diagnóstico errado, ou cujo estágio precoce de adoecimento não teve o nexo causal
bem estabelecido pelo médico, os casos já diagnosticados alcançam 6,8% da
população trabalhadora da indústria do vestuário, o que é bastante expressivo.

Este indicador ressalta a importância de se investir em programas de prevenção e


proteção da saúde do trabalhador nas empresas, a fim de melhorar a qualidade de
vida destas pessoas e diminuir o impacto da demanda de atendimento médico,
tratamento e reabilitação que estes trabalhadores irão representar para o SUS e o
Instituto Nacional de Seguridade Social - INSS.

6.4 INDICADORES DE SOFRIMENTO PSÍQUICO E L.E.R.

A pontuação de respostas positivas à aplicação das perguntas do SRQ-20 mostrou

uma média de 4,8 respostas positivas, entre todos os entrevistados. As freqüências

simples dos itens do SRQ mais referidos foram os seguintes, em ordem

decrescente:
1- Sente-se nervoso, tenso ou preocupado? 65,88%
2- Tem dificuldade de tomar decisões? 39,57%
3- Tem se sentido triste ultimamente? 37,44
4- Assusta-se com facilidade? 34,12%
5- Tem dificuldade de pensar com clareza? 32,94
6- Tem dores de cabeça freqüentes? 30,9%
7- Sente-se cansado o tempo todo? 28,20%
8- Tem sensações desagradáveis no estômago? 26,30%
9- Dorme mal? 25,83%

Observa-se um alto índice para o sentimento de nervosismo, tensão e preocupação,


com aproximadamente 66% da amostra, vindo a seguir a dificuldade de tomar
decisões (com quase 40% dos indivíduos) e ter se sentido triste ultimamente com
cerca de 38%. Além disso, vemos que pelo menos 25% das pessoas têm:
dificuldade para dormir, sensações desagradáveis no estômago, sente-se cansado o
tempo todo, dificuldade de pensar com clareza, dores de cabeça freqüentes e se
assustam com facilidade.

Encontrou-se o índice de 24,9%, 105 trabalhadores, de suspeitas de DMM, sendo


estatisticamente associado com o sexo (p=0,0006) (prevalência no sexo feminino de
30% contra 14,8% no sexo masculino).

Houve associação significativa entre ter suspeita de DMM e a ocorrência de queixas


à saúde (p<0,0001), sendo que 51,4% dos que tiveram queixas à saúde foram
considerados suspeitos de DMM, enquanto foram apenas 16,1% dos que não
tiveram queixas. Este dado contrasta com o dado anterior de que apenas 2,9% das
queixas referiam-se a transtornos psicoemocionais, mostrando que o indicador de
morbidade referida não foi sensível à identificação dos casos suspeitos destes
problemas.

O uso de calmantes também foi estatisticamente relacionado com a suspeita de


DMM (p<0,0001), sendo maior entre os suspeitos de DMM (31,43%) do que entre os
não suspeitos (10,41%).
Houve associação significativa entre as variáveis sentir-se valorizado pelo trabalho
que realiza e suspeita de DMM (p=0,0002), sendo que 20,2% dos que responderam
sentirem-se valorizados foram considerados suspeitos de DMM, enquanto que para
os que responderam não se sentirem valorizados, o índice de suspeitos de DMM foi
de 40,0%. Sentir-se valorizado parece funcionar como uma proteção ao DMM.

Em relação à função, realizou-se a regressão logística múltipla ajustada, cuja


variável dependente srq8 1= positivo e 0= negativo ajustada pela variável
independente função costureira (0) e outros e controlada pelo sexo, se obteve o
“Odds ratio” (Razão de chance) 2,4328 (IC95%: 1,67-3,53). Assim, a função de
costureira tem 2,43 vezes mais chance de ter suspeita de DMM do que as outras
ocupações.

Houve associação significativa da suspeita de DMM com o tempo de trabalho na


função, quando considerados os dados distribuídos em quatro quartis. Para o
primeiro quartil (< 2 anos) a suspeita de DMM foi de 16,6%; para o segundo quartil
(2 a 4,5 anos) a suspeita foi de 21,6%; para o terceiro quartil (4,6 a 10 anos) a
suspeita foi de 24,7% e para o último quartil (> 10 anos) a suspeita foi de 35,6%.

A aplicação de screening para levantamento de suspeita de L.E.R encontrou a


prevalência de 16,4%, ou 69 pessoas. Este dado vem ao encontro de dado
anteriormente relatado que apontou 14% de pessoas que tiveram queixas de saúde
relacionadas ao sistema musculoesquelético, dos quais cerca de um terço são
suspeitas de LER. Houve associação entre suspeita de LER e de queixas à saúde
(p=0,0075), sendo a suspeita encontrada em 24,76% entre os que apresentaram
queixas e de 13,6% entre os que não apresentaram.

Não houve associação entre a suspeita de L.E.R. e sexo (p=0,9516), o uso de


calmantes (p=0,0586) e valorização pelo trabalho que realiza (p=0,2599). Houve
associação entre suspeita de L.E.R. e a função exercida (p=0,0097), quando
comparada à função de costureira (o) (21,0%) com as outras funções (11,7%). Em
relação à função, realizou-se a regressão logística múltipla ajustada, com a variável
dependente apresenta suspeita de L.E.R. 1= positivo e 0= negativo sendo ajustada
pela variável independente função: para costureira (0) e outros, e controlado pelo
sexo. Obtendo-se o “Odds ratio” 1,6524 (IC95%: 1,06-2,57), assim, a função de
costureira tem 1,6 vezes mais chances de ter suspeita de L.E.R. que as outras
ocupações.
Quando analisamos suspeitas de LER com DMM, constatamos que há associação
(p=0,0028) entre as variáveis, em que 39,1% dos suspeitos de LER, também são
suspeitos de DMM enquanto que os não suspeitos apresentam somente 22,1% de
DMM.

6.5 USO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS, FUMO E MEDICAMENTOS


CALMANTES.

O uso do fumo foi relativamente baixo com 45 fumantes, 10,7%, mas a ingestão de
bebida alcoólica foi referida por 140 trabalhadores, ou 33,2%. Dos que disseram
consumir bebidas alcoólicas, somente 7 pessoas afirmaram que faziam o uso por
mais de dois dias por semana, conforme a tabela 14.

TABELA 14: FREQÜÊNCIA DE CONSUMO DE BEBIDA ALCOÓLICA ENTRE


TRABALHADORE DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO E COLATINA-ES, 2005.

Consumo de bebidas alcoólicas Freqüência %


Não usam 282 66,8
< de uma vez por semana 56 13,3
1 a 2 vezes por semana 77 18,2
3 a 4 vezes por semana 6 1,4
5 ou seis vezes por semana 1 0,2
Total 422 100

Quanto ao uso de remédios calmantes, 66 pessoas, 15,6%, referiram ter feito ou


estarem usando este tipo de medicamento nos últimos 6 meses.

TABELA 15: DISTRIBUIÇAO DOS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO


DE COLATINA-ES QUE FAZEM USO DE CALMANTES POR TEMPO DE
USO, 2005.

Tempo de Uso Freqüência %


< 1 ano (*) 36 59,0
1 até 5 anos 10 16,4
5 até 10 anos 10 16,4
> 10 anos 5 8,2
Total 61 100
(*) Incluídos os raramente ou às vezes.
Em relação ao tempo de uso, cerca de 40% afirmam utilizar estes medicamentos há
mais de 1 ano, veja tabela 14. Os medicamentos referidos pelos trabalhadores foram
basicamente ansiolíticos e antidepressivos, conforme mostra a tabela 16.

TABELA 16: FREQUÊNCIA DOS PRINCIPAIS MEDICAMENTOS CALMANTES


UTILIZADOS PELOS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO
DE COLATINA-ES, 2005.

Tipos Medicamentos Freq.


Ansiolíticos Rivotril (16), Diazepan (8) Olcadil (6), Lexotan (4), 46
Somalium (4), Brumazepan (2), Aplaz (2), Altrox (1),
Ansilive (1), Navotrax (1), Valium (1)
Antidepressivos Fluoxetina (3), Amitriplina (3). Amytril (1), Assert (1), 10
Pondera (1), Sertralina (1),
Outras Afroditi (1), Alool (1), Calman (1), Calmantes referentes 9
Referências (1), Captropil (1), Cefahim (1), Gadernal (1), Liptril (1),
Tenadren (1)
(*) Uma perda.

Os ansiolíticos são os tranqüilizantes mais utilizados, geralmente do grupo dos


benzodiazepínicos, cuja principal finalidade é o tratamento dos transtornos de
ansiedade, sendo necessário, portanto, um diagnóstico e uma indicação feita por um
médico. Podem ser utilizados também, de forma limitada, para controlar tensão
nervosa devido a algum acontecimento estressante, mesmo que não exista um
distúrbio de ansiedade propriamente dito. (www.psicosite.com.br acesso realizado
em 25/04/2006).
Houve uma diferenciação entre os hábitos de fumar, beber e usar calmantes entre
os sexos. Foram maiores para os homens (p<0,0001) os hábitos de fumar com
19,0% contra 6,5% das mulheres; e o uso de bebidas alcoólicas (p<0,0001) com
59,9% contra 19,6% entre as mulheres, enquanto para as mulheres foi maior o uso
de calmantes (p<0,0001) com 21,4% contra 4,2% entre os homens.
7 PERCEPÇAO DOS TRABALHADORES SOBRE A RELAÇÃO
SAÚDE TRABALHO

Quanto à percepção de que as condições de trabalho a que estavam submetidos


poderiam prejudicar sua saúde, 212 (50,2%) responderam que sim.

Em relação aos fatores de risco mais citados, estão as cargas fisiológicas com
55,3%, como: a posição fixa em que se realiza o trabalho, ritmos excessivos,
movimentos repetitivos, o mobiliário utilizado - em especial a cadeira de madeira
utilizada pelas costureiras - fixação da vista e ficar na mesma posição (sentado ou
em pé) por um tempo muito longo; seguem-se os agentes ambientais que
constituem as cargas químicas com 22,5% (poeira, substâncias químicas e tintas) e
as físicas com 16,8% (calor, umidade e ruído). Os demais grupos de cargas foram
bem pouco referidos, mas houve a percepção de 3,7% de cargas psíquicas como
conseqüência de fatores como a pressão pela produção, hierarquia rígida, controle
para ir ao banheiro e baixos salários. Foram citados também alguns riscos de
acidentes, como na máquina de corte, perfurações por agulhas, caldeira e
lavanderia.

Perguntados também se sentem valorizados pelo trabalho que fazem 247 (58,7%)
informaram que sim: 69 (16,4%) que às vezes e somente 105 (24,9%) que não. Esta
informação é importante, pois se sentir valorizado pelo trabalho que faz pode
significar um importante amortecedor que contribui para manter a saúde do
trabalhador ou sua capacidade de resistir ao processo de adoecimento como
veremos.

Como se pode observar pela tabela 16, a percepção dos trabalhadores sobre as
cargas de trabalho que podem ser fontes de doenças em sua atividade estão
associadas ao esforço do corpo em fazer as operações biomecânicas e o estresse
psíquico introduzidos pela organização no controle da produção e pela péssima
qualidade ambiental que aumentam o desconforto e as doenças.
TABELA 17: PRINCIPAIS CARGAS DE TRABALHO REFERIDAS PELOS
TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES,
2005.

Cargas de trabalho Fator de risco F.R. F.A. %


Calor. 36
Físicas Ruído. 22 59 16,8
Umidade. 1
Poeira. 49
Químicas Produtos químicos, cheiro de 30 79 22,5
tinta.
Máquina perigosa e caldeira. 1
Caldeira sem manutenção. 1
Acidentes 4 1,1
Lavanderia. 1
Solda elétrica. 1
Ficar muito tempo sentado. 50
Posição inadequada. 44
Carregar peso. 22
Esforço repetitivo. 22
Cadeira sem regulagem. 13
Muito tempo na mesma posição. 11
Esforço visual. 10
Fisiológicas Ficar muito tempo em pé. 9 194 55,3
Esforço na coluna. 3
Ritmo acelerado. 3
Pausa curta ou inexistente. 3
Período curto para o almoço. 1
Máquina baixa. 1
Água não é gelada. 1
Subir escadas. 1
Pressão por produção. 4
Atritos com chefias e colegas. 3
Controle para ir ao banheiro. 2
Psíquicas Salário baixo. 1 13 3,7
Responsabilidade. 1
Variação de funções. 1
Esforço mental. 1
Total 351 100
F.R= Freqüência relativa e F.A= Freqüência absoluta.

Perguntados sobre quais os problemas de saúde poderiam decorrer das cargas de


trabalho referidas como causas de doenças no seu trabalho, cerca de metade das
referências disseram respeito aos distúrbios musculoesqueléticos, com predomínio
dos problemas de coluna, seguidos dos problemas respiratórios com 24,5%, em que
as alergias foram predominantes.. Deve-se destacar que o grupo dos transtornos
psicoemocionais, pouco referidos enquanto queixa de saúde, foram referidos aqui
como 7% dos possíveis problemas de saúde relacionados com o trabalho.

TABELA 18: PERCEPÇÃO DOS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE


COLATINA – ES SOBRE PROBLEMAS DE SAÚDE DECORRENTES DE SEU
TRABALHO, 2005.

Órgãos e Sistemas Problemas de saúde Freq %(*)


Músculoesquelético Dor na Coluna (121), nas costas (2), nos
ombros (1), dor nos braços (3), pulso (2), LER
(11), fraqueza nos braços (1), bursite (1), 156 47,7
artrose (1), dor muscular (2), dor nas juntas (1),
dor nas pernas (9), câimbras (1)
Respiratórios Alergias (41), Problema respiratório (20), rinite
(5), Gripe-resfriado-garganta (4), asma (2), 80 24,5
bronquite (2), falta de ar (3), sinusite (3)
Psicoemocionais Estresse (14), ansiedade (1), nervosismo (2)
Depressão (3), perturbação mental (2), cansaço 23 7,0
mental (1)
Cardiovasculares Problema de circulação (13), varizes (3),
20 6,1
inchaço (3), tonturas (1)
Visuais Problema de visão (17), irritação nos olhos (1) 18 5,5
Desgaste Dor de cabeça (9), cansaço (1)
10 3,0
inespecíficos
Auditivos Surdez (8), dor no ouvido (1) 9 2,7
Renais Problema renal (4), 4 1,2
Outros Doença de pele (3), câncer (4), constipação (2) 7 2,1
Total 327 100
(*) Em relação ao número de pessoas que responderam a pergunta.

Verifica-se que de uma forma geral os problemas de saúde referidos têm uma
relação de causa e efeito bastante lógica com as cargas de trabalho referidas, o que
demonstra que a percepção dos trabalhadores sobre a relação trabalho-saúde é
alta. O que demonstra que o trabalhador do setor do vestuário de Colatina – ES,
apesar de poucas oportunidades de discutir suas condições de saúde e trabalho tem
conseguido perceber de forma geral que há situações desgastantes em seu local de
trabalho.
7.1 FONTES DE TENSÃO E CANSAÇO NO TRABALHO

Questionados sobre quais as situações são fontes de tensão e cansaço no trabalho,


as principais situações estão indicadas na tabela 19.

TABELA 19: PRINCIPAIS FONTES REFERIDAS DE TENSÃO NO TRABALHO EM


TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES,
2005.

Fontes de Tensão e Cansaço SIM ÀS VEZES NÃO


N (%) N (%) N (%)
1- Má remuneração 249 (59,0) 23 (5,5) 150 (35,5)
2- Calor excessivo 212 (50,2) 15 (3,6) 195 (46,2)
3- Jornada prolongada e horas extras 195 (46,3) 66 (15,7) 160 (38,0)
4- Pouco tempo para pausas 182 (43,1) 30 (7,1) 210 (49,8)
5- Barulho excessivo 176 (41,7) 22 (5,2) 224 (53,1)
6- Trabalhar por produção fixa 164 (39,0) 20 (4,8) 236 (56,2)
7- Ameaça de demissão 160 (37,9) 7 (1,7) 255 (60,4)
8- Falta de promoções ou oportunidades 158 (37,4) 10 (2,4) 254 (60,2)
9- Ritmo de trabalho acelerado 146 (34,7) 46 (10,9) 229 (54,4)
10- Desconforto e inadequações mobiliárias 145 (34,4) 9 (2,1) 268 (63,5)
11- Falta de cooperação com colegas 144 (34,1) 37 (8,8) 241 (57,1)
12- Improvisações no trabalho 102 (24,3) 25 (6,0) 292 (69,7)
13- Problemas com chefias 88 (20,9) 19 (4,5) 315 (74,6)
14- Falta de treinamento 82 (19,5) 11 (2,6) 327 (77,9)
15- Trabalho monótono ou desinteressante 75 (17,8) 21 (5,0) 326 (77,2)
15- Trabalho noturno ou turnos 38 (11,2) 3 (0,9) 299 (87,9)

Considerando-se as respostas sim e às vezes, nota-se que o que causa tensão ou


cansaço é, para mais da metade dos trabalhadores pesquisados: má remuneração,
calor excessivo, jornada de trabalho é longa, fazer horas extras e pouco tempo para
pausas.
As cargas referidas pelos trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina
comparado com estudo semelhante realizado por Borges (2000), com caixas
bancários de um banco estatal, indicam que para cada ramo de serviço aparecerão
formas de desgastes diferentes. Enquanto que para os caixas bancários a principal
fonte de cansaço e desgaste foi o desconforto e a inadequação do postos de
trabalhos, os trabalhadores da indústria do vestuário indicaram esta carga como a
10ª em grau de importância, e a má remuneração, que aparece em primeiro lugar
em importância para estes trabalhadores, foi indicada pelos bancários como sendo a
terceira.

7.2 SENSAÇÃO AO SAIR DO TRABALHO NO FINAL DA


JORNADA DE TRABALHO.

Acompanhando o trabalho nas fábricas foi registrado que no apito do final do


expediente os trabalhadores abandonam imediatamente seus afazeres e saem com
bastante pressa do local, quase em correria. O motivo alegado por alguns é o de
conseguir bater o ponto primeiro e arrumar um bom lugar no ônibus que a empresa
oferece para transportá-los aos bairros mais distantes. Outra justificativa para este
fato é a ansiedade para sair do local de trabalho – como uma liberdade alcançada e
ou o fim do sofrimento, cujas falas aparecem em vários depoimentos dos
trabalhadores, como “um sentimento de estar fugindo de uma gaiola, de alívio de
estar saindo de uma situação de gasto de energia física e mental acima do
suportável”. Na tabela 15 são apresentadas as respostas à pergunta sobre a
sensação que sentem ao sair do local de trabalho no fim do dia.

TABELA 20: DISTRIBUIÇÃO DOS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO


DE COLATINA – ES SEGUNDO A SENSAÇÃO QUE SENTEM AO SAIR DO
TRABALHO NO FINAL DO DIA, 2005.

Freq. %
Bem (80); normal (28); tranqüilo (12); feliz/alegre/satisfeito (15);
animado/realizado/melhor (8). 143 33,9
Aliviado (53); livre como um pássaro (5); dever cumprido (2); às vezes
bem às vezes estressado (2); regular (1); uma benção (1). 65 15,4
Cansado (202); estressado (7); com dores (2), com dor nos olhos (2);
Nervosa (1); graças a Deus terminou (1). 214 50,7
Total 422 100
Verifica-se que cerca de metade dos trabalhadores referiu sentir-se cansaço ao final
da jornada de trabalho e somente 33,9% a de ter sensações que expressam bem
estar. São importantes também as expressões de alívio e de liberdade, concordando
com o que foi registrado anteriormente na hora do apito que sinaliza o final do dia de
trabalho.

7.3 ASPECTOS AGRADÁVEIS E DESAGRADÁVEIS NO TRABALHO.

As respostas dadas às perguntas abertas sobre as duas coisas que mais lhe
agradam e as que mais lhe desagradam no trabalho, foram muito variáveis, mas
notam-se as relações pessoais entre os colegas, patrões e encarregados como o
ponto que pode repercutir positivo ou negativamente na avaliação dos
trabalhadores.

A relação com os colegas foi o aspecto mais mencionado com 267, 40,1%, das
respostas encontradas, vindo a seguir o ambiente de trabalho, gostar de trabalhar e
do que faz, da profissão e de sentir-se útil com 211, 31,7%,

Em terceiro lugar e indicado o bom relacionamento com os patrões e em especial


com os encarregados com 75, 11,2%, e ao fato de atingir as metas, obter boa
qualidade nos serviços com 38 ou 5,7%, veja tabela 21 abaixo.

TABELA 21: ASPECTOS DO TRABALHO QUE MAIS AGRADAM AOS


TRABALHADORES DO SETOR DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES, 2005.

COISAS QUE LHE AGRADAM NO TRABALHO Freq.


1- Amizades, colegas, companheirismo, união, etc... 267
2- O ambiente de trabalho, gostar de trabalhar, sentir-se útil, a profissão. 211
3- Patrões, forma de tratamento, consideração superiores. 75
4- Atingir as metas, qualidade do serviço, valorização. 38
5- Ter emprego, fim do expediente, fim do mês, poder trabalhar. 30
6- Remuneração, pagamento em dia, ganhar o justo. 24
6- Outros 20
Total de aspectos mencionados 665

São indicados, também, alguns aspectos contraditórios do trabalho como uma coisa
que lhe agradam, como por exemplo, o fim do expediente, a hora do almoço e da
pausa para o café, o final do mês e o voltar para a casa com 30 indicações ou 4,5%
do total.

Entre as coisas que mais desagradam os trabalhadores assinalaram um número


menor de itens, ou seja, 409 contra 665 que agradam, veja tabela 22.

TABELA 22: ASPECTOS DO TRABALHO QUE MAIS DESAGRADAM OS


TRABALHADORES DO SETOR DO VESTUÁRIO DE COLATINA-ES,
2005.

COISAS QUE MAIS DESAGRADAM NO TRABALHO F.R F.A %


Pressão exagerada encarregada. 74
Muito trabalho, produção alta, trabalhar em célula
13
e competitividade.
Organização
Tipo de trabalho que realiza 8 107 26,1
do trabalho
Horas extras, trabalho noturno e horário rígido. 6
Trabalho repetitivo, rotina, retrabalho,
6
improvisações.
Fofocas, intrigas, inveja, mentiras e falsidades. 77
Relações
Falta de coleguismo, cooperação e entrosamento. 12 101 24,7
interpessoais
Brigas, desunião, mau humor, ignorância. 12
Má remuneração 45
Falta de valorização, igualdade tratamento,
Valorização e 27
consideração. 86 21,0
remuneração
Desigualdade salarial, atraso pagamento, não
15
participação nos lucros, descontos.
Agentes Ventilação/calor e barulho. 29
38 9,3
ambientais Poeira, mau cheiro, produtos químicos. 9
Relação ruim com patrões/chefes 15
Hierarquia Desconfianças/desrespeito/perseguições/normas, 26 6,4
11
incompreensões.
Tempo de pausa, dificuldade para beber água,
almoçar na marmita, falta de café da manhã, falta 14
Desconforto de higiene. 21 5,1
Falta de médico 3
Distância da casa ao trabalho, pegar ônibus. 4
Demissões, departamento de pessoal, má
Administração 9 9 2,3
administração.
Outros Nada, cansaço, fracasso, segunda-feira, etc. 21 21 5,1
Total 409 100
F.R= Freqüência relativa e F.A= Freqüência absoluta.

A análise destes quadros demonstra que a organização do trabalho em células


reforça a solidariedade do grupo de pessoas na obtenção das metas de produção,
cujos resultados garantem uma maior remuneração, que é um dos itens importantes
que desagradam os trabalhadores. Por outro lado um bom entrosamento no trabalho
reforça positivamente o enfrentamento do ritmo de trabalho e as cobranças
constantes para manter a produção alta. Este laço de solidariedade cria uma relação
de identificação e de companheirismo, havendo inclusive certo estranhamento com
trabalhadores de outros setores.

Como a relação interpessoal e grupal é um fator muito importante para este grupo de
trabalhadores, a grande maioria das respostas está ligada a sentimentos e crenças
relacionadas ao mundo social, tendo a fofoca, intrigas e outros aspectos do
relacionamento entre os que mais desagradam com 77 indicações (20,5%), seguido
pela pressão pela produção com 69 (18,4%) e a má remuneração com 40 citações
(10,6%), veja tabela 22.

Assim, a organização do trabalho em produção alta, a repetitividade, a posição fixa


de trabalho, a competitividade e o excesso de trabalho com 102 indicações (27,2%)
são os itens que mais desagradam seguidos pelas relações pessoais, que quando
não são harmônicas, quebram a solidariedade intergrupal.

Os trabalhadores enfrentam também, um ambiente de trabalho desconfortável, com


vários agentes atuando simultaneamente, onde o calor decorrente da má ventilação
se sobressai com 23 indicações (6,1%) do total delas.
8 CONCLUSÕES

As relações sociais no interior das fábricas de vestuário têm marcas profundas


sendo denunciada pela forma de organização da produção e pela divisão do
trabalho, sendo mais visível nos setores onde o trabalho vivo é mais atuante, como
nos setores de costura, acabamento, lavanderia, passadoria e de artesanato. Nestes
locais é onde a organização capitalista se apropria de maneira mais severa do
tempo e da capacidade do trabalhador de produzir os bens de consumo que se
transformarão nas mercadorias que proporcionarão o lucro da atividade econômica.

A indústria do vestuário de Colatina tem sido desde 1990, a opção de trabalho da


grande maioria dos trabalhadores jovens da região, seja pelo grande
desenvolvimento destas empresas como pela retração do setor agropecuário
baseado na monocultura do café e da pecuária de corte.

Os trabalhadores da indústria do vestuário de Colatina são constituídos por uma


população empobrecida e de baixa escolaridade, que se concentra nos bairros
periféricos e nos morros da cidade, em casas simples de alvenaria ou de madeira,
com salário base fixado em convenção coletiva em torno de R$357,00 (trezentos e
cinqüenta e sete reais) e com ganho de produtividade que pode variar de 2 a 36%,
dependendo das metas atingidas durante o mês de trabalho.

Esta população jovem, com média de 31 anos, é substituída, periodicamente, por


novos trabalhadores treinados e com capacidades orgânicas em condições de
manter a alta produção que alguns trabalhadores já não suportam mais. Os
trabalhadores excluídos acabam sendo desviados para o mercado informal, seja nas
pequenas oficinas de facção ou no trabalho a domicílio. Os novos trabalhadores são
capacitados pelo Serviço Social do Comércio - SESC ou pelo Serviço de Ensino
Nacional da Indústria – SENAI, que ministram os cursos de formação, cabendo
ainda às empresas o processo de seleção e formação complementar, que são
realizados em dias escolhidos pela empresa.

A falta de opção de trabalho na região favorece a aceitação, por parte dos


trabalhadores e de seu sindicato, do baixo padrão salarial do setor, por sinal
praticado em todo o país. É o mercado global que deprecia o salário para baixo, faz
as empresas trabalharem cada dia com menor margem de lucro, tendo que buscar a
rentabilidade no aumento da densidade do trabalho.

Na linha de produção, a densidade do trabalho é alta e o trabalhador não tem tempo


para fazer pausas; mesmo a ida ao banheiro é adiada constantemente a fim de
garantir a meta da célula de produção; a água que é ingerida pelo trabalhador, em
muitos casos, é servida por ajudantes.

No setor do vestuário de Colatina, o processo da flexibilização econômica e a


reengenharia da produção tiveram início em 1992 quando uma nova forma de
gestão começou a ser utilizada no meio fabril. A produção deixou de ser por cotas
individuais e passou a ser contabilizada por grupos de trabalho ou, como é
conhecida, por células de produção. A célula de produção impôs novo ritmo de
trabalho, que buscava o aumento da produtividade e da qualidade do produto. Os
trabalhadores inseridos neste formato de gestão de produção estão submetidos a
uma tensão laboral mais intensa o que tem gerado novas doenças relacionadas aos
transtornos musculoesqueléticos e aos distúrbios mentais.

Este estudo mostrou que a prevalência de queixas de saúde nos trabalhadores da


indústria do vestuário de Colatina é estimada em 24,9%. Estas queixas de saúde
provocaram, no período da pesquisa, 8,5% de afastamento do trabalho, dado
superior ao encontrado em pesquisa semelhante do PNAD (IBGE, 2000).
Considerando os últimos 15 dias anteriores à pesquisa, estes casos necessitaram
em média de 5 dias de afastamento, mas quando incluídos o tempo total de
afastamento, o número médio de dias de afastamento sobe para 23,4 dias. Isso
demonstra que uma população mais antiga de trabalhadores já está no estágio final
do processo da doença crônica incapacitante relacionada ao trabalho, fato que
talvez já esteja aparecendo podendo ser medido no aumento do número de auxílios
doenças concedidas pelo INSS, mas que não foi objeto de investigação deste
estudo.

As queixas de saúde mais referidas são as musculoesqueléticas, como as dores nas


costas e na coluna, com 14% de prevalência, e os problemas cardiovasculares que
representam 9,2%
A prevalência de suspeitas de distúrbios mentais menores – DMM, também foi de
24,9%, sendo associada ao gênero, ao uso de medicamentos calmantes, à função
de costureira e ao tempo que exerce a função.

As suspeitas de lesões por esforços repetitivos – LER teve prevalência de 16,4% e


não houve diferenças em relação ao sexo e a idade sendo associadas fortemente
com a função e o tempo em que a pessoa a exerce.

Ao se analisar a queixa de saúde por tempo de atividade na indústria do vestuário,


verificou-se que é no primeiro ano de trabalho que são selecionados os
trabalhadores que se adaptam à forma de organização da produção, como em um
processo de seleção natural dos mais aptos. Demonstra também que, para cada
período de anos trabalhados, os que permanecem na atividade aumentam sua
chance de suspeita de transtornos muscoloesqueléticos e de DMM. Esta situação
reforça a caracterização deste fator de risco como fator causal no processo de
adoecimento destes trabalhadores.

Nos últimos 15 dias anteriores à pesquisa, 66 pessoas (15,6%) da amostra que


tiveram queixas de saúde, demandaram 82 atendimentos médicos, sendo que 43
atendimentos foram realizados pelo SUS. Considerando os trinta dias de um mês,
pode-se estimar que a população de trabalhadores com vínculo empregatício, no
setor de vestuário de Colatina (cerca de 4300 trabalhadores), pode estar
demandando cerca de 800 atendimentos médicos por mês para o SUS.

Dos que apresentaram queixas de saúde e foram atendidos por médicos 6,9%
disseram que suas queixas de saúde foram relacionadas com as condições de
trabalho.

Os resultados do estudo indicam que são necessárias ações para intervir nas
causas do processo saúde-trabalho-doença, que existe no setor do vestuário de
Colatina, e em todos os locais onde a indústria esteja organizada desta forma. A
intervenção deve ser feita em vários níveis e pelos atores sociais que atuam neste
campo de trabalho, como os empresários do setor, os sindicatos de trabalhadores e
os órgãos públicos da área do trabalho e da saúde, em especial da saúde do
trabalhador.

Os sindicalistas precisam colocar em sua agenda uma permanente discussão com


os empregadores a fim de melhorar as condições de trabalho, seja pela diminuição
da jornada de trabalho, melhoria do mobiliário utilizado, controle dos agentes
ambientais, discussão da produção e da remuneração, redução do ritmo de trabalho,
introduzindo pausas periódicas, exercícios laborais e rotatividade de funções, como
forma de controle do desgaste operário.

A DRT deve aumentar a fiscalização por um lado para fazer cumprir as normas de
segurança existentes, mas procurando sempre proteger o trabalhador onde há
omissão nos textos legais. Por outro lado, a área da saúde, através do SUS, de sua
rede de atenção primária à saúde, no atendimento do Programa de Saúde da
Família – PSF e da Unidade Básica de Saúde – UBS, tem papel fundamental na
notificação de queixas de saúde que possam estar relacionados com o trabalho,
estas informações servirão de alerta aos órgãos de fiscalização e facilitarão sua
ação de investigação. Neste aspecto, a área da saúde, com a ação da Vigilância
Epidemiológica e Sanitária, pode dar uma grande contribuição.

O SUS tem que atuar prioritariamente na saúde do trabalhador no controle das


causas das doenças, isto é, na gestão das cargas de trabalho existentes no
ambiente de trabalho e não mais com o “objetivo vinculado à necessidade de
reprodução da força de trabalho frente ao processo de produção econômica“
(DONNANGELO, 1976, apud FRANCO&MERHY, 2003. p.68).

A ação conjunta entre os órgãos públicos da área da saúde e do trabalho tem sido
tema de várias discussões e até de estudos acadêmicos (PINHEIRO, 1996), porém
a solução para o assunto ainda esta longe de ocorrer, mesmo após a realização do
3ª Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador em 2005.

Na área legal do MTE, devem-se aprimorar as normas regulamentadoras que tratam


das organizações internas das empresas voltadas para a questão da gestão de risco
e controle da saúde (NR-4 e NR-5), com a mudança na classificação de risco do
setor de vestuário. As empresas do setor do vestuário estão classificadas pela NR-4
– Serviços Especializados de Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho
como sendo de grau de risco 2. Esta classificação obriga somente as empresas com
mais de 500 empregados a ter um técnico de segurança e somente as com mais de
1000 empregados a constituírem SESMT com engenheiro de segurança, médico do
trabalho, técnico de segurança do trabalho e auxiliar de enfermagem.
Os inúmeros setores de trabalho e as situações de risco à saúde dos trabalhadores,
encontradas neste setor, e os resultados apresentados por este estudo indicam que
é necessária a revisão da classificação de risco desta atividade econômica para o
grau de risco 3, o que obrigaria as empresas com mais de 100 empregados a
constituírem um SESMT com pelo menos um técnico de segurança do trabalho.

Este mesmo raciocínio se aplica para a constituição das Comissões Internas de


Prevenção de Acidentes CIPA, prevista pela NR-5, na qual o setor de confecções
está situado no grupo C-4, com a exigência de constituir CIPA a partir de 30
empregados, com apenas 2 membros e somente a partir de 141 empregados
aumenta sua constituição para 4 membros. Os inúmeros setores de trabalho e a
grande quantidade de trabalhadores em situação de trabalho desgastante,
encontrados pelo estudo, indicam que a classificação mais adequada para o setor
de confecções é o grupo C-6, no qual a CIPA passa a ter 4 membros a partir de 80
empregados.

Estas mudanças são necessárias para que as situações inadequadas de trabalho do


setor do vestuário possam ser controladas pelos empregadores, a fim de se ver
cumprir os direitos dos trabalhadores por um ambiente de trabalho mais saudável
ou, como no dizer da Agenda Nacional de Trabalho Decente, deste ano de 2006, do
MTE, que o define como sendo um trabalho adequadamente remunerado, exercido
em condições de liberdade, eqüidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna
(MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2006, p.5).
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PSICOSITE, Ansiolíticos, O psicosite tem como principal objetivo proporcionar


informações de base científica sobre psiquiatria e psicologia para leigos e
profissionais. Como todo nosso conteúdo é de livre acesso, esperamos cooperar
com a democratização da informática no Brasil. Responsável Dr. Rodrigo Marot.
Disponível em: www.psicosite.com.br. Acessado em 25 abr. 2006.

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TAMAYO, Álvaro et al. Cultura e saúde nas organizações. Porto Alegre: Artmed,
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YAZAQUI, Lucia M. Fecundidade da mulher paulista abaixo do nível de reposição.


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10 ANEXOS

A – CARTA DE APRESENTAÇÃO

B – TÊRMO DE CONSENTIMENTO DO ENTREVISTADO

C – QUESTIONÁRIO

D – INSTRUMENTO DE ESTUDO DAS CARGAS DE TRABALHO

E – TÊRMO DE APROVAÇAO DO COMITÊ DE ÉTICA


ANEXO A

CARTA DE APRESENTAÇÃO

Colatina, novembro de 2005.

Prezado trabalhador:

A Fundacentro é um órgão do Ministério do Trabalho e Emprego que realiza estudos


e pesquisas na área de saúde e segurança dos trabalhadores, visando
instrumentalizar a discussão e proposição de normas para a melhoria das condições
de trabalho nos diferentes processos produtivos.
O objetivo desta pesquisa é conhecer as condições de trabalho e saúde dos
trabalhadores da Industria dos Vestuários no município de Colatina – ES, e sua
repercussão sobre a vida dos trabalhadores, conforme sua percepção de sintomas
que podem estar relacionados com sua saúde. Os dados levantados junto aos
trabalhadores e com as empresas serão submetidos a uma analise acadêmica que
produzirá uma dissertação de mestrado junto ao Programa de Pós-graduação em
Atenção em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo.
Posteriormente, a Fundacentro irá realizar atividades educativas que possam
contribuir com a melhoria das condições de trabalho.
A resposta às questões do questionário e voluntária. As informações são
confidenciais e serão analisadas somente pela equipe de pesquisadores, levando-se
em consideração a participação de cada um no resultado final do conjunto dos
trabalhadores da indústria do vestuário. Portanto, pela importância deste estudo, por
favor, responda honestamente! Caso queira acrescentar algum comentário, fale com
o entrevistador que o escreverá no final do questionário.

Agradecemos sua atenção e colaboração.

Atenciosamente.

Antônio Carlos Garcia Júnior


Pesquisador da Fundacentro
Coordenador da Pesquisa
ANEXO B
FORMULÁRIO DE CONSENTIMENTO DO ENTREVISTADO

Nº__________

EU, ______________________________________________________, AUTORIZO


DE LIVRE E ESPONTANEA VONTADE, APÓS SER INFORMADO DOS
OBJETIVOS E A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA SOBRE AS CONDIÇÕES DE
TRABALHO E SAÚDE DOS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO
EM COLATINA – ES, QUE MINHA ENTREVISTA SEJA UTILIZADA PARA A
EXECUÇÃO DESTE ESTUDO.

COLATINA, _____DE_____________2005.

ASSINATURA DO ENTREVISTADO______________________________________

ASSINATURA DO ENTREVISTADOR: ____________________________________


ANEXO C

QUESTIONÁRIO

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPIRITO SANTO – UFES


CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
PROGRAMA DE MESTRADO EM ATENÇÃO À SAÚDE COLETIVA – PPGASC

Nº. _____________

1- EMPRESA EM QUE TRABALHA ________________________________________________

2- FUNÇÃO/OCUPAÇÃO: ____________________________________________________________

3- IDADE: _____________ANOS.

4- SEXO: ( ) MASCULINO ( ) FEMININO

5- GRUPO RACIAL
( ) BRANCA
( ) PARDA
( ) PRETA
( ) AMARELA
( ) OUTRO. QUAL?_______________________________________________________

6- ESTADO CIVIL
( ) SOLTEIRO
( ) CASADO OU VIVE MARITALMENTE COM ALGUEM
( ) VIUVO
( ) DIVORCIADO, DESQUITADO OU SEPARADO.

7- ATÉ QUE ANO ESTUDOU? _________________ANOS

8- EM QUE REGIAO VOCE NASCEU?


( ) COLATINA
( ) MUNICIPIO DO NORTE DO ESTADO.
( ) OUTROS MUNICIPIOS DO ESTADO
( ) OUTROS ESTADOS
( ) OUTRO PAÍS
9- SE NASCIDO NA REGIÃO RURAL, HÁ QUANTO TEMPO MUDOU-SE PARA A CIDADE?
N° DE ANOS: _____________

10- QUANTAS PESSOAS EM SUA FAMILIA DEPENDEM FINANCEIRAMENTE DE VOCE?


(INCLUIDO O PROPRIO ENTREVISTADO)

Nº DE PESSOAS: _______________

11- CONSIDERANDO O SALÁRIO MÍNIMO ATUAL DE R$ 300,00 SUA RENDA MENSAL LÍQUIDA
PROVENIENTE DO TRABALHO CORRESPONDE A QUANTOS SALÁRIOS MÍNIMOS?

_________________________SALÁRIOS MINIMOS

12- HÁ QUANTO TEMPO TRABALHA NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO?


_______ANOS_______MESES.

13- HÁ QUANTOTEMPO TRABALHA NESTA EMPRESA?


_______ANOS_______MESES.

14- HÁ QUANTO TEMPO TRABALHA NA ATUAL FUNÇÃO?


_________ANOS________MESES.

15- EM MÉDIA, QUANTAS HORAS DE TRABALHO SEMANAL VOCÊ FEZ NO ÚLTIMO MÊS
TRABALHADO?
Nº DE HORAS: ___________________SEMANAIS.

16- SEU HORÁRIO DE TRABALHO É:

( ) FIXO NO PERÍODO DIURNO (ENTRE 7 E 18 HORAS)


( ) FIXO NO PERIODO NOTURNO (ENTRE 18 HORAS E 6 HORAS)
( ) EM TURNOS ALTERNADOS (DIURNO E NOTURNO)

17- DURANTE A JORNADA DE TRABALHO, VOCÊ FAZ INTERVALOS PARA LANCHES OU


REFEIÇÕES?
( ) SIM
( ) NÃO
QUANTO TEMPO?__________MINUTOS

18- DURANTE A JORNADA DE TRABALHO, VOCÊ REALIZA OUTRAS PAUSAS QUE NÃO SEJAM
PARA ALIMENTAÇÃO?
( ) SIM
( ) ÀS VEZES
( ) NÃO

19- VOCÊ ACHA QUE A QUANTIDADE E DURAÇÃO DAS PAUSAS SÃO SUFICIENTES PARA
RECUPERAR O SEU CANSAÇO DURANTE A JORNADA DE TRABALHO?
( ) SIM
( ) NÃO

20- DURANTE O SEU DIA DE TRABALHO, AS TAREFAS QUE VOCÊ REALIZA:

( ) SÃO SEMPRE AS MESMAS


( ) VARIAM UM POUCO
( ) VARIAM MUITO
( ) VARIAM DEPENDENDO DO DIA DA SEMANA

21- VOCÊ ACHA QUE SUA CHEFIA O PRESSIONA MUITO?


( ) SIM
( ) NÃO
( ) ÀS VEZES

22- COMO VOCE SE SENTE AO SAIR DO TRABALHO NO FINAL DO EXPEDIENTE?

23- COMO VOCÊ AVALIA SEU ESTADO DE SAÚDE.


( ) MUITO BOM;
( ) BOM;
( ) REGULAR;
( ) RUIM;
( ) MUITO RUIM

24- VOCÊ APRESENTOU ALGUM PROBLEMA DE SAÚDE, NOS ÚLTIMOS 15 DIAS?


( ) SIM
( ) NÃO (PASSE DIRETO PARA A QUESTÃO 30).

25- SE SIM:
QUAIS FORAM ESTES PROBLEMAS DE SAÚDE?
1)_______________________________________________________________________________
2)_______________________________________________________________________________
3)_______________________________________________________________________________
4)_______________________________________________________________________________
5)_______________________________________________________________________________

26- ALGUM DESTES PROBLEMAS DE SAÚDE FEZ QUE VOCÊ NECESSITASSE AFASTAR-SE
DO TRABALHO?
( ) SIM
( ) NÃO

SE SIM, QUAL DELES?_____________________________________________________________


POR QUANTO TEMPO?_____________DIAS.

27- AONDE FOI SEU ATENDIMENTO MÉDICO?


( ) MEDICO DA EMPRESA
( ) PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA (PSF), PRÓXIMA À RESIDÊNCIA.
( ) UNIDADE BASICA DE SAÚDE AMBULATÓRIO OU PRONTO-SOCORRO DO SISTEMA
ÚNICO DE SAÚDE (SUS)
( ) PLANO OU CONVÊNIO DE SAÚDE.
( ) OUTROS ESPECIFICAR: _________________________________________________

28- O MÉDICO QUE TE ATENDEU RELACIONOU SEU SINTOMA COM SUAS CONDIÇOES DE
TRABALHO?
( ) SIM
( ) NÃO

29- VOCÊ ACHA QUE SEU TRABALHO PODE PREJUDICAR SUA SAÚDE?
( ) SIM
( ) NÃO (PASSE DIRETO PARA A PERGUNTA 33)

30- SE SIM:
O QUE NO SEU TRABALHO VOCÊ CONSIDERA QUE PODE PREJUDICAR A SAÚDE? (ESCREVA
AS TRÊS PRINCIPAIS CAUSAS)
1)_______________________________________________________________________________
2)_______________________________________________________________________________
3)_______________________________________________________________________________

31- QUAIS PROBLEMAS DE SAÚDE VOCÊ CONSIDERA QUE PODEM DECORRER DO SEU
TRABALHO? (ESCREVA OS 3 PRINCIPAIS PROBLEMAS DE SAÚDE).
1)_______________________________________________________________________________
2)_______________________________________________________________________________
3)_______________________________________________________________________________

VOU LER PARA O SENHOR (A) AS INSTRUÇÕES PARA AS PRÓXIMAS QUESTÕES (33 A 52).
ESTAS QUESTÕES SÃO RELACIONADAS COM CERTAS DORES E PROBLEMAS QUE PODEM
TÊ-LO (A) INCOMODADO (A) NOS ÚLTIMOS 30 DIAS. SE VOCÊ ACHA QUE A QUESTÃO SE
APLICA A VOCÊ E VOCÊ TEVE O PROBLEMA DESCRITO NOS ÚLTIMOS 30 DIAS, RESPONDA
SIM. POR OUTRO LADO, SE A QUESTÃO NÃO SE APLICAR A VOCÊ PORQUE VOCÊ NÃO TEVE
O PROBLEMA NOS ÚLTIMOS 30 DIAS, RESPONDA NÃO.
SE VOCÊ NÃO TIVER CERTEZA SOBRE COMO RESPONDER A ALGUMA QUESTÃO, DÊ A
MELHOR RESPOSTA QUE PUDER.

QUESTÕES SIM NÃO


32- TEM DORES DE CABEÇA FREQUENTES?
33- TEM FALTA DE APETITE?
34- DORME MAL?
35- ASSUSTA-SE COM FACILIDADE?
36- TEM TREMORES NAS MÃOS?
37- SENTE-SE NERVOSO (A), TENSO (A) OU PREOCUPADO (A)?
38- TEM MÁ DIGESTÃO?
39- TEM DIFICULDADE DE PENSAR COM CLAREZA?
40- TEM SE SENTIDO TRISTE ULTIMAMENTE?
41- TEM CHORADO MAIS DO QUE DE COSTUME?
42- ENCONTRA DIFICULDADES PARA REALIZAR COM SATISFAÇÃO
SUAS ATIVIDADES DIÁRIAS?
43- TEM DIFICULDADES PARA TOMAR DECIÇÕES?
44- TEM DIFICULDADES NO SERVIÇO (SEU TRABALHO É PENOSO,
CAUSA-LHE SOFRIMENTO)?
45- É INCAPAZ DE DESEMPENHAR UM PAPEL ÚTIL EM SUA VIDA?
46- TEM PERDIDO O INTERESSE PELAS COISAS?
47- VOCE SE SENTE UMA PESSOA INUTIL, SEM PRÉSTIMO?
48- TEM TIDO A IDÉIA DE ACABAR COM SUA VIDA?
49- SENTE-SE CANSADO (A) O TEMPO TODO?
50- TEM SENSAÇÕES DESAGRADÁVEIS NO ESTOMAGO?
51- SE CANSA COM FACILIDADE?
AS QUESTÕES SEGUINTES DEVEM SER CONSIDERADAS EM RELAÇÃO AOS MÚSCULOS E
ARTICULAÇÕES (AS JUNTAS) DAS SEGUINTES PARTES DO CORPO: PESCOÇO, OMBROS,
BRAÇOS, MÃOS E DEDOS.

QUESTÕES SIM NÃO


52- TEM SENSSAÇÃO FREQUENTE DE DESCONFORTO, CANSAÇO OU
PESO EM ALGUMA DESTAS PARTES?
53- SUA CALIGRAFIA VEM SE ALTERANDO?
54- TEM SENSSAÇÃO FREQUENTE DE FORMIGAMENTO OU FISGADAS
EM ALGUMAS DESTAS PARTES?
55- OBSERVA PERDA DE SENSIBILIDADE TÁTIL OU DOLOROSA
PERMANENTE EM ALGUMA DESTAS PARTES?
56- SENTE DOR AO PRESSIONAR OU AO MOVIMENTAR ALGUMA
DESTAS PARTES?
57- TEM APRESENTADO INCHAÇÕ EM ALGUMA DESTAS PARTES?
58- TEM AUMENTADO A DIFICULDADE EM FAZER MOVIMENTOS DE
EXTENSÃO, FLEXÃO OU ROTAÇÃO DO BRAÇO, MÃOS OU DEDOS?
59- OS SINTOMAS ACIMA DESAPARECEM OU MELHORAM NOS FINS DE
SEMANA, FERIADOS OU QUANDO NÃO TRABALHA?
60- A DURAÇÃO DE 2 DE QUALQUER DOS SINTOMAS ACIMA É
SUPERIOR A 30 DIAS?

61- VOCÊ FAZ USO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS?


( ) SIM
( ) NÃO

SE SIM:
62- COM QUE FREQUENCIA BEBE SEMANALMENTE?
( ) MENOS DE 1 VEZ POR SEMANA (QUINZENALMENTE OU MENSALMENTE)
( ) UMA OU DUAS VEZES POR SEMANA
( ) TRÊS OU QUATRO VEZES POR SEMANA
( ) CINCO OU SEIS VEZES POR SEMANA
( ) TODOS OS DIAS.

63- VOCÊ FAZ USO HABITUAL (OU USOU NOS ÚLTIMOS 6 MESES) DE MEDICAMENTOS
CALMANTES?
( ) SIM
( ) NÃO

QUAIS?___________________________________________________________________
HÁ QUANTO TEMPO?______________________________________________________

64- QUAIS AS 2 COISAS QUE MAIS LHE AGRADAM NO SEU TRABALHO?


1)_______________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________________
2)_______________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________________

65- QUAIS AS 2 COISAS QUE MAIS LHE DESAGRADAM NO SEU TRABALHO?


1)_______________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________________
2)_______________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________________

66- VOCÊ SE SENTE VALORIZADO PELO TRABALHO QUE REALIZA?


( ) SIM
( ) ÀS VEZES
( ) NÂO

NAS QUESTÕES DE NUMERO 68 A 83, RESPONDA SE ESTAS SITUAÇÕES SÃO FONTES DE


TENSÃO E CANSAÇO NO SEU TRABALHO.

SIM ÀS VEZES NÃO


67- TER QUE PROLONGAR A JORNADA DE TRABALHO E OU
REALIZAR HORAS EXTRAS.
68- TER POUCO TEMPO PARA PAUSAS NO TRABALHO.
69- TRABALHAR SOMENTE NO TURNO NOTURNO OU EM
TURNOS ALTERNADOS (DIURNO/NOTURNO)
70- NÃTO TER OPORTUNIDADE PARA PROMOÇOES NA
EMPRESA
71- TER PROBLEMAS COM CHEFIA (DISCRIMINAÇÃO,
PERSEGUIÇÃO, DISCUSSÕES, CONTROLE EXCESSIVO,
AUTORITARISMO).
72- FALTA DE COOPERAÇÃO ENTRE OS COLEGAS DE
TRABALHO.
73- AMEAÇÃ DE CORTE DE PESSOAL E DESEMPREGO.
74- MÁ REMUNERAÇÃO PELO TRABALHO QUE REALIZA.
75- CALOR EXCESSIVO DURANTE O TRABALHO
76- BARULHO EXCESSIVO DURANTE O TRABALHO
77- O TRABALHO É MONOTONO E DESINTERESSANTE.
78- RITMO DE TRABALHO MUITO ACELARADO.
79- TRABALHAR POR PRODUÇAO PRE-DEFINIDA.
80- FALTA DE TREINAMENTOS INADEQUADOS PARA O
EXERCICIO DA FUNÇÃO.
81- IMPROVISAÇÕES NO DESENVOLVIMENTO DAS
ATIVIDADES.
82- INADEQUAÇÃO E DESCONFORTO NO POSTO DE
TRABALHO (CADEIRA E BANCADA).

SINTA-SE A VONTADE CASO QUEIRA FALAR ALGO SOBRE SEU TRABALHO


OU SUA SAUDE:

___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
________________________________________________________________

O QUESTIONÁRIO ENCERRA-SE AQUI. MUITO OBRIGADO POR SUA


COLABORAÇÃO.
ANEXO D

ESTUDOS DE CARGAS DE TRABALHO

EMPRESA: ________________________________________________________

ENDEREÇO: ________________________________________________________

DATA: ___________________________ HORÁRIO: ______________________

SETOR: ____________________________________________________________

FUNÇÃO: __________________________________________________________

DESCRIÇÃO DA TAREFA:
Classificação Fonte Tempo de Exposição
1- Físicas
a) Ruído
b) Calor
c) Vibrações
d) Radiações
e) Umidade
Observações:

2- Químicos
a) Poeiras
b) Substâncias
c) Gases
d) Vapores

Observações:

3- Biológicos
a) Bactérias
c) vírus
d) Outros
Observações:
4- Fisiológicos
a) Mobiliário
b) Posições
c) Ritmos
d) Monotonia
e) L. Peso
f) Produção
g) Turnos
h) T. Noturno
Observações:

5- Psíquico
a) Hierarquia
b) Valorização
c) Cultura

Observações:

SINERGISMOS ENTRE CARGAS – ANÁLISE


ANEXO E