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MÁRIO CARRILHO NEGAS

LUÍSA CAGICA CARVALHO


IVO DIAS DE SOUSA
Editores

EDIÇÕES SÍLABO
INOVAÇÃO E
TECNOLOGIA
Uma Visão Multidisciplinar

Editores

MÁRIO CARRILHO NEGAS


Luísa CAGICA CARVALHO
Ivo DIAS DE SOUSA

EDIÇÕES SÍLABO
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forma ou meio gráfico, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópia, este livro.

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CAPÍTULO'
Inovaçã
Luísa Cagica Cs

1.1. Cones
1.2. Tipol
1.3. Inova
FICHA TÉCNICA
1.4. Fator
Título: Inovação e Tecnologia — Uma Visão Multidisciplinar
1.4.1.
Autores: Mário Carrilho Negas, Luísa Cagica Carvalho, Ivo Dias de Sousa e Outros
& Edições Sílabo, Lda. 1.4.2.
Capa: Pedro Mota 1.4.3.
12 Edição — Lisboa, fevereiro de 2020
1.4.4
Impressão e acabamentos: Europress, Lda.
Depósito Legal: 466802/20 1.5. Capa:
ISBN: 978-972-618-900-8

E EDIÇÕES SÍLABO, Lda. CAPÍTULO


Publicamos conhecimento
Criativi:
Editor: Manuel Robalo
Carlos M. Fernz

R. Cidade de Manchester, 2
1170-100 Lisboa 2.1. Intro
Telf.: 218130345 2.2. Espa:
e-mail: silabo(osilabo.pt
www-.silabo.pt 2.3. Tipos

— dá
Índice

Introdução 1

CAPÍTULO 1
| Inovação — Enquadramento geral 13
| Luisa Cagica Carvalho

1.1. Concetualização do termo inovação 15


| 1.2. Tipologias de inovação 18
1.3. Inovação tecnológica e não tecnológica 20
1.4. Fatores que influenciam a inovação 22
1.4.1. Investigação e Desenvolvimento (I&D) 22
1.4.2. Parcerias para a inovação 22
1.4.3. Multinacionalidade 29
1.4.4. Dimensão da empresa 24

1.5. Capacidades dinâmicas e teoria dos recursos 25

CAPÍTULO 2
Criatividade e inovação 29
Carlos M. Fernandes

2.1. Introdução 31
2.2. Espaços concetuais 33
2.3. Tipos de criatividade 36
2.4. Criatividade e inovação 37
2.5. Inovação, evolução e acaso 40
2.5.1. Evolução 40
2.5.2. Acaso 42

2.6. Estimular a inovação 43

CAPÍTULO 3

Tecnologia — A alavanca da humanidade 47


Ivo Dias de Sousa — Mário Carrilho Negas

3.1. O que é a tecnologia? 49


3.2. Evolução da tecnologia 49
3.3. Vantagens e desvantagens da tecnologia 52
3.3.1. Vantagens da tecnologia 53
3.2.2, Desvantagens da tecnologia 58

3.4. O futuro: desemprego generalizado? 62

CAPÍTULO 4
Inovação nos serviços 65
Luísa Cagica Carvalho

4.1. Serviços 67
4.2. Inovação nos serviços 68
4.2.1. Inovação impulsionada pelos clientes 70

4.3. Justifica-se um olhar particular sobre os Serviços de Apoio


às Empresas? 72
4.3.1. Inovação nos Serviços de Apoio às Empresas 74
4.3.2. Apropriação da inovação: o caso dos KIBS 77
4.3.3. Os KIBS em Portugal 78

A
re map
CAPÍTULO 5

ee
Gestão da inovação e transferência de tecnologia 81
Mário Carrilho Negas

e
CAPÍTULO 6

Inovação e sociedade 93
Ivo Dias de Sousa — Bráulio Alturas

6.1. A importância da inovação para as sociedades 95


6.2. Fatores que favorecem a inovação nas sociedades 103
6.3. Inovação social e a prosperidade das sociedades 106

CAPÍTULO7 | o
Estratégias e métodos de inovação 113
Ivo Dias de Sousa— Luisa Cagica Carvalho

7-1. À estratégia de oceano azul: a inovação pelo posicionamento 115


7-2. Out of the Box: para além do espaço ocupado
pelas soluções atuais 121
7.3. Kaizen: a «pequena» inovação 125
7.4. PDCA: inovação em círculo 127

CAPÍTULO 8 .
Inovação na administração pública
— Uma análise aplicada ao caso
da contratação pública responsável 133
Luísa Cagica Carvalho - Maria Teresa Nevado Gil - María Pache Durán

8.1. Inovação na administração pública. Breve enquadramento 135


8.2. Conceito de contratação pública 137
8.3.A inovação em contratação pública 137
8.4. Inclusão da inovação nas diversas fases de preparação
do contrato público 139

8.5. Principais critérios de inovação 141


8.6. Alguns exemplos de boas práticas de inovação 143

CAPÍTULO 9

Inovação e capital intelectual 147


Mário Carrilho Negas — M. Carolina Martins Rodrigues

9.1. Capital intelectual — o maior ativo das organizações 149


9.2. Dimensões do capital intelectual E
9.2.1. Capital humano 152
9.2.2. Capital relacional (ou social) 153
9.2.3. Capital estrutural (ou organizacional) 154
9.3. A inovação e o capital intelectual 155

CAPÍTULO 10

Caso de estudo — Inovação no turismo


— O Airbnb como novo paradigma
na distribuição turística e hoteleira 161
Jorge Abrantes

10.1. Introdução 163

10.2. Desenvolvimento 1693

10.3. Impactos no turismo 167

10.4. Airbnb em Portugal 171

10.5. Enquadramento final 173


CAPÍTULO 11
Caso de estudo — Inovação social — Relato de
um caso do acesso à saúde visual a baixo custo 177
Adriana Backx Noronha Viana — Luísa Cagica Carvalho

11.1. Nota introdutória 179


11.2. Inovação social 180
11.3. À inovação social como um processo 183
11.4. O caso Renovatio 185
11.41. A história... 185
11.4.2. O problema 185
11.4.3. A solução 186
11.4.4. O contexto brasileiro 186
11.4.5. À solução e os impactos 186
11.5. Notas finais de reflexão sobre o caso 187

Considerações finais 191


Autores
193
Introdução

À inovação é uma das caraterísticas mais marcantes dos dias em que


vivemos. Nunca, na evolução humana, o ritmo da mudança e da inova-
ção, foram tão rápidos como atualmente, havendo perspetivas e sinais de
que estes fenómenos terão tendência a acelerar e não a abrandar. Para
perceber a magnitude das mudanças e inovações, basta lembrar que há
um século, os aviões eram, essencialmente, uma curiosidade, sendo pouco
seguros e transportavam pouco mais que os seus pilotos. Agora, são aos
milhares, funcionam com alta tecnologia e transportam milhões de pes-
soas diariamente cruzando continentes e oceanos. As naves espaciais já
nos levaram à Lua e agora fala-se em viagens tripuladas a Marte.
O modo como vivemos e trabalhamos atualmente é bastante diferente
do modo como viviam e trabalhavam os nossos avós e, porventura, o
modo como trabalhamos e vivemos atualmente será também bastante
diferente do modo como os nossos bisnetos irão trabalhar e viver. E tudo
isto devido à inovação!
Neste contexto de mudança, as pessoas e as organizações terão que se
adaptar respondendo aos desafios com que irão ser confrontados.
Este livro procura dar uma visão abrangente da inovação, respon-
dendo a diversas questões tais como:
* O que é a inovação?
* Quais as condições que favorecem a inovação?
* Quais são os potenciais benefícios e malefícios da inovação?
Como quando se aborda a inovação, dois outros temas não podem ser
ignorados, pois a ela surgem intrinsecamente associados, este livro
debruça-se também sobre a criatividade e a tecnologia. Para ocorrer a
inovação terá de haver criatividade materializada numa invenção. A cria-
12 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

tividade traduzida em invenção é condição necessária, mas não suficiente


para que exista inovação, uma vez que a inovação é um processo que
implica a utilização ou adoção dessa inovação por parte dos agentes eco-
nómicos e sociais.
Essa adoção e utilização são feitas com recurso à tecnologia, terceira
base do tripé do desenvolvimento humano. A tecnologia traduz no dia-a-
-dia, através de ferramentas, produtos, serviços, processos e métodos, o
conhecimento adquirido pelas ciências mas também pelo resultado de
ideias brilhantes geradas por mentes criativas e que quando aplicadas
geram novos modos de fazer o que já se fazia, desta feita, com custos mais
reduzidos ou melhor qualidade e desempenho, ou então geram novos
produtos ou serviços que irão tornar obsoletos os que já existiam.
Este livro foi redigido com a colaboração de autores originários de
três países, Portugal, Espanha e Brasil, que escreveram os capítulos pelos
quais são responsáveis de forma complementar e para serem lidos jun-
tamente com os outros capítulos que compõem esta obra.
Perante a amplitude da temática que o título sugere, os coordenado-
res e autores optaram por abordar neste livro os assuntos que avaliam
como adequados a quem se inicia na matéria e com um nível de profun-
didade de análise que, afastando leitores com conhecimentos avançados
na matéria, poderá cativar os que nele se iniciam.
Para finalizar, formulamos o desejo de que a leitura deste livro seja
útil, agradável e enriquecedora para os seus leitores.

Os editores
Capítulo 1

Inovação
Enquadramento geral

mam
Luísa Cagica Carvalho

A
eSE
e RV
Objetivos de aprendizagem

« Compreender a inovação.

PR
* Conhecer as tipologias de inovação.
« Distinguir inovação tecnológica de não tecnológica.
e Identificar os fatores que influenciam positivamente a inovação.
* Compreender a teoria dinâmica e dos recursos.
INOVAÇÃO — ENQUADASMENTO GERAL

en
1a, Concetualização do termo inovação

Inovação não é uma palavra nova ou um novo tema, desde sempre o


homem tentou encontrar novas soluções para responder às suas necessi-
dades ou para a resolução dos seus problemas.
Atualmente a literatura sobre inovação é diversa e abundante, con-
tudo a frequência com que a palavra é empregue e a diversidade de sinó-
nimos que lhe são associados dificultam a compreensão do fenómeno e
exigem uma clarificação do seu conteúdo.
A revisão de literatura regista com destaque a definição de Schum-
peter! pela sua ligação clara ao empreendedorismo. Para Schumpeter, a
inovação tem subjacente uma rutura ou descontinuidade face ao passado,
associando-a à expressão «creative destruction», podendo-se afirmar
que para este autor inovação é algo totalmente novo que implica um
corte radical com o passado.
Porém, dada a diversidade de estudos e a frequência com que a pala-
vra é utilizada em diversos contextos a maioria dos autores iniciam a sua
abordagem pela distinção entre inovação e invenção (vide caixa 1.1.),
para que não se confundam os dois termos. Invenção será a primeira uti-
lização de uma ideia para um novo produto ou processo, enquanto que, a
inovação tem associado o aspeto prático da colocação da ideia em ação,
ou seja, a inovação será a primeira aplicação prática? Claro que muitas
vezes invenção e inovação estão diretamente associadas e pode ser difícil
separá-las de forma clara. Uma outra diferença apontada entre inovação
e invenção refere-se à entidade que desenvolve o processo, associando-se
invenção a universidades e institutos de investigação e inovação às empre-
sas. Esta divisão parece associar a invenção a um saber mais teórico e a
inovação à aplicação desse saber, dirigindo-o para o mercado (comercia-
lização) com o objetivo de obter não apenas resultados, mas sobretudo
resultados duradouros (vantagens competitivas) o que está associado ao
conceito de difusão da inovação.

1) Schumpeter (1934).
(2) Fagerberg (2005).
E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
INOVAÇÃO
16

Caixa 1.1. Invenção versus inovação


E So

uma ideia para um novo


| A invenção será a primeira utilização de
produto ou processo, enquanto que...
da colocação da ideia em
a inovação tem associado o aspeto prático
aplicação prática.
| ação, ou seja, a inovação será a primeira
facto de só se converter
A invenção distingue-se da inovação pelo
aceite pelo mercado e lar-
| nesta quando se concretiza num produto
| gamente difundido.

ção a empresa
No âmbito do processo que decorre da invenção à inova
eis e intangíveis para
terá de combinar um conjunto de recursos tangív
combinação de recur-
transformar a invenção em inovação. Esta gestão e
! denominou de «entre-
sos são efetuadas por uma figura que Schumpeter
preneur» e que se distingue claramente do inventor.
estão evidentemente relacionadas, havendo
Invenção e inovação
de várias invenções
situações em que uma inovação surge da combinação
as circunstâncias. Em
ou da adaptação de algo que já foi inventado noutr
identificar claramente
muitos casos não há a possibilidade de datar ou de
assumindo-se a inovação
onde começa a inovação e acaba a invenção,
sistémica.
como um processo de natureza multidimensional e
tram-se diversas defi-
No âmbito da literatura sobre inovação, encon
entação de uma discussão
nições, não sendo o objetivo deste livro a apres
de definições que tradu-
exaustiva do termo, apresentam-se um conjunto
zem a evolução do conceito (Tabela 1.1.).

(6) sehumpeter (1934).


INOVAÇÃO — ENGUADRAMENTO GERAL

Tabela 1.1. Definições de Inovação

Conceito de inovação Autor


A inovação tem subjacente uma rutura ou descontinuidade Schumpeter
face ao passado, associando-a à expressão «creative destruction»
(1934)
o que tem subjacente um corte radical com o passado.
Um instrumento dos empreendedores, através do qual
Drucker
estes exploram a mudança como uma nova oportunidade (1985)
para um novo produto ou serviço.

Inovação é um processo cumulativo, havendo a impossibilidade Lundvall


de dissociar invenção, inovação e difusão. (1992)
Conversão de uma ideia a um primeiro uso ou venda.
Utterback (1996)
A primeira aplicação comercial ou produção de um novo produto Freeman e Soete,
ou processo, assumindo-se o contributo crucial do empreendedor (1997).
no processo de ligação das novas ideias com o mercado,

Criação de novo conhecimento, uma nova recombinação Deakins e Freel,


do conhecimento existente, inovação está essencialmente
(2003)
relacionada com conhecimento.
Fonte: Carvalho, 2008, adaptado.

As várias definições apresentadas possuem pontos convergentes,


nomeadamente, a associação de inovação a comercialização/mercado e
difusão da inovação, e ainda, o papel do empreendedor nesse processo.
Parece-nos relevante discutir a evolução, em termos, de abordagens.
Entre a primeira definição apresentada, a de Schumpeter, insinuando a
palavra rutura que associa inovação a algo totalmente novo e a última
abordagem de Deakins e Freel, que prevê para além do novo conheci-
mento a recombinação de conhecimento já existente.
A inovação é atualmente considerada como um fator critico de
sucesso. Na verdade, «ser diferente» não significa necessariamente ser
capaz de criar valor. Para que tal aconteça, é necessário que a inovação se
constitua como vantagem competitiva. Por isso, é importante discutir as
condições em que a inovação se transforma numa vantagem competitiva
que permita às empresas consubstanciar, de facto, a sua capacidade dife-
renciadora em valor.
18 NOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR INOVAÇÃO — ENQUE

O sucesso de uma inovação passa pela difusão e adoção das organiza- 3. nova
ções: A difusão é um processo pelo qual uma inovação é comunicada melh:
através de certos canais, ao longo do tempo, entre os membros de um nifica
sistema social! Enquanto que a adoção se refere ao resultado de um pro- dutos
cesso mental e pessoal (por vezes de grupo) de decisão, que se traduz na 4. Inova
aceitação (ou rejeição) da novidade. méto!
lho oi

Um outr
de novidade
1.2. Tipologias de inovação nova ideia €
existente.
Na secção anterior discutiu-se o conceito de inovação. O conjunto de Para Lui
definições identificadas permitem referir que os diferentes autores reve- tecnológica
lam diferentes perceções sobre o conceito de inovação. Este conceito apa- tais do pont:
rece, muitas vezes, associado a outras palavras para cumprir objetivos crucial (por
específicos, nomeadamente, para facilitar o entendimento do tipo de ino- vista tecnolk
vação que cada organização está mais propensa a desenvolver. Neste gerou um ai
encadeamento, podemos encontrar várias tipologias de inovação. outro lado, à
Schumpeter? distinguiu cinco tipologias de inovação: «(1) introdução nómicos rel:
de um novo produto (ou uma melhoria na qualidade de um produto já pelo mercad
existente); (2) A introdução de um novo método de produção (inovação Do pont
no processo); (3) A abertura de um novo mercado (em particular um esclarecer st
novo mercado para exportação); (4) Uma nova fonte de fornecimento de mundo, poi
matérias-primas ou de bens semifaturados; (5) Uma nova forma de orga- caso.
nização industrial».
Será rel:
O Manual de Oslo indica quatro tipologias de inovação: que conside
1. Inovação de produto: refere-se à introdução de um novo produto derando toc
ou serviços novo ou melhorado. tadores? Ne
2. Inovação de processo: diz respeito à implementação de novos ou comercializ:
significativamente melhorados métodos de produção ou distribui- contexto. O

ção. ativamente
logy transfi

0) Rogers (1983). (1) Lundyall (19


(2) schumpeter (1934, p. 66). (2) rageberg (2€
INOVAÇÃO - ENQUADRAMENTO GERA&I 19

3. Inovação de marketing: atende à implementação de novos ou


melhorados métodos de marketing que envolvam mudanças sig-
nificativas no design ou pacote do produto, no placement de pro-
dutos, na promoção ou na política de preços.
4. Inovação organizacional: refere-se à implementação de novos
métodos organizacionais nas práticas de negócios, local de traba-
lho ou relações externas.

Um outro tipo de abordagem dualiza o conceito de acordo com o nível


de novidade, considerando como inovação radical a descoberta de uma
nova ideia e inovação incremental como a exploração de uma ideia já
existente.
Para Lundvall! importa ainda considerar as dimensões económica e
tecnológica da inovação, isto é, algumas inovações podem ser incremen-
tais do ponto de vista tecnológico, mas podem ter um impacto económico
crucial (por exemplo, a máquina de lavrar na agricultura, do ponto de
vista tecnológico foi incremental, porém, do ponto de vista económico,
gerou um aumento significativo na produtividade das explorações). Por
outro lado, inovações tecnologicamente radicais podem ter impactos eco-
nómicos relativamente pequenos, até porque podem não ser bem aceites
pelo mercado.
Do ponto de vista da novidade do processo inovador, há ainda que
esclarecer se a inovação é nova para a empresa, para o mercado ou para o
mundo, pois o nível de novidade terá impactos diferentes consoante o
caso.
Será relevante a este propósito comentar a posição de Schumpeter
que considera inovador, apenas aquele que introduziu a inovação consi-
derando todos os que as adotam, mesmo que noutro contexto como imi-
tadores? Neste sentido, aponta-se uma diferença significativa entre (1)
comercializar algo pela primeira vez, ou (2) copiar e introduzir noutro
contexto. O segundo tipo que podemos designar por «imitador» participa
ativamente no processo de difusão podendo-se denominar por «techno-
logy transfer», assumindo-se que neste caso podem haver adaptações

(0) Lundvall (1992).


(2) rageberg (2005).
INOVAÇÃO — ENQUADE
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
20

ção do Manua
entamos que
(inovação incremental) e mudanças organizacionais. Acresc Na mesma ed:
que introduz o
o primeiro caso se reporta ao inovador do tipo pioneiro, cado, design €
o, ao tipo
produto ou serviço no mercado pela primeira vez, e o segund ainda que part
para
imitador, introduz no mercado um produto ou serviço novo apenas menor nível d
a empresa. estruturas eco
produto ou ser-
Assume-se que inovação é mais do que criar um novo pouca importé
(inovação
viço, a inovação pode reportar-se a algo globalmente novo industrial.
radical ou disruptiva!), mas pode também ter um caráter de novidade
A terceira
poderá
apenas para a empresa, ou para O mercado onde a empresa opera, definições e ai
entais num
ainda estar relacionado com melhorias contínuas ou increm de inovação, 1
A caixa 1.2. mos-
produto ou serviço já existente (inovação incremental). atribui també)
o.
tra outro exemplo de inovação, associada ao modelo de negóci sivas em Inve
reconhece a i
Caixa 1.2. Inovação no modelo de negócio entre emprese

A inovaçã
produto e no
a

Permite o desenvolvimento de vantagens competitivas através de inovação tem


as quais
novas formas de distribuir e fornecer produtos e serviços de captar a 1
permitem gerar experiências significativas aos seus clientes. reportar apeir
também à rec
mercado, atra
integração de
mentação de
Pelas razões e

1.3. Inovação tecnológica e não tecnológica não tecnológi


No contex
aliás,
Numa primeira fase, apenas se falava em inovação tecnológica, inovação de 1
ndo-a à
a primeira edição do Manual de Oslo define inovação limita produto e inc
no setor da
dimensão tecnológica e considerando a sua incidência apenas inovação tecr
tecnológico, «inova- tecnológica n
indústria transformadora. Inclusive incluía o termo
ução
ção tecnológica de produtos e processos», definindo-a como a introd tamente a in!
de melho-
de novos produtos ou processos tecnológicos ou a introdução produzi-los.
a edi-
rias tecnológicas em produtos ou processos existentes. J á a segund

0) Termo introduzido por Clayton Christensen.


LS]
INOVAÇÃO — ENQUADRAMENTO GERAL

ção do Manual de Oslo aborda de forma ténue a inovação organizacional.


Na mesma edição as atividades de marketing, como a pesquisa de mer-
cado, design e a embalagem, são identificadas como fontes de inovação,
ainda que pareçam ser descritas como incrementais, sendo-lhes dado um
menor nível de atenção. Este fator talvez reflita inclusive a evolução das
estruturas económicas dos países desenvolvidos, à época, este manual dá
pouca importância ao setor serviços focando-se essencialmente no setor
industrial.
A terceira edição do Manual de Oslo retira o termo tecnológico das
definições e amplia o conceito de inovação de modo a incluir outros tipos
de inovação, nomeadamente de marketing e organizacional. Esta edição
atribui também maior importância a setores com atividades menos inten-
sivas em Investigação e Desenvolvimento (I&D), tais como os serviços e
reconhece a importância das interações no processo de inovação, quer
entre empresas, quer entre empresas e outras organizações.

A inovação tecnológica é frequentemente associada à inovação no


produto e no processo baseados na tecnologia. Esta visão tecnológica da
inovação tem sido alvo de algumas críticas, nomeadamente não ser capaz
de captar a inovação em serviços, e a inovação nas empresas não se
reportar apenas ao desenvolvimento de aplicações tecnológicas, mas
também à reestruturação organizacional e na adoção de relações com o
mercado, através do marketing. Por último, destaca-se a importância da
integração de produto, processo e sistema organizacional, para a imple-
mentação de novas ideias e novas oportunidades de negócio no mercado.
Pelas razões enunciadas, o conceito de inovação deve abarcar a dimensão
não tecnológica.
No contexto da inovação não tecnológica, a inovação organizacional e
inovação de marketing, que complementam os conceitos de inovação de
produto e inovação de processo (que foram em geral mais associadas à
inovação tecnológica). Em geral, pode-se assumir que a inovação não
tecnológica não gera um novo produto ou serviço, mas influencia indire-
tamente a introdução de novos produtos e serviços ou o processo para
produzi-los.
22 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

das preferências q
1.4. Fatores que influenciam a inovação
o aumento da sim
tecnológico entre
1.4.1. Investigação e Desenvolvimento (I&D) inovação.

A teoria sobre inovação relaciona as empresas com a sua função de


produção de conhecimento! Neste contexto, a I&D é considerada como a
1.4.3. Multin:
principal fonte de criação de novo conhecimento económico. Estudos
mostram que os países mais inovadores revelam mais elevados investi- A multinacioi
mentos em I&D, e os setores económicos mais inovadores tendem tam- para além das fro
bém a apresentar maiores investimentos em I&D e em novo conheci- cação geográfica,
mento económico. E apontam para a existência de uma correlação posi- obtidas. Conside
tiva entre inovação, medida pela despesa em I&D e resultados, bem como realiza investime
entre a I&D e a performance empresarial). estabelecimentos
em mais do que
vários países. Os
1.4.2. Parcerias para a inovação cionalização das
associadas que
Como sabemos atualmente as empresas não inovam isoladamente,
desenvolve atiívic
neste âmbito a cooperação apresenta-se como um elemento fundamental receitas, lucros '
para a inovação empresarial. Ou seja, a cooperação para a inovação apa- estrangeiro, O gr
rece como um dos fatores mais relevantes para o processo inovador das proprietários, a
empresas. Alguns estudos mais recentes revelam que este é atualmente mais elevado va
um fator chave na estratégia empresarial. estrutura das va
A cooperação pode tornar diversos formatos e no caso da cooperação uma rede de atix
para a inovação através da I&D pode aumentar a propensão a inovar. As O nível de |
bases de dados sobre inovação mostram que este tipo de parcerias é sobre as suas s
essencialmente realizado a nível nacional, refletindo a importância da literatura suger
proximidade geográfica na seleção dos parceiros de cooperação. É, ainda extremamente «
possível constatar existirem diferenças entre países, sendo que as indús- lhedores, pelas
trias de média tecnologia e os países mais pequenos tendem a encetar particularmente
mais alianças internacionais do que os setores de baixa tecnologia e os ciadas pela naci
países maiores? O aumento da cooperação para a inovação está direta-
mente relacionado com o processo de globalização, com a convergência

() Acs e Audretsch (2009). () Dunning 1993.


(2) Hagedoorn (2001); Narula (2003). (2) Anderson e Gatig
INOVAÇÃO - ENQUADRAMENTO GERAL 23

das preferências dos consumidores, com as alterações tecnológicas, com


o aumento da similaridade tecnológica entre países, com o cruzamento
tecnológico entre setores com os custos e riscos associados ao processo e
inovação.

1.4.3. Multinacionalidade

A multinacionalidade refere-se, em geral, a empresas que operam


para além das fronteiras nacionais e aos benefícios retirados da diversifi-
cação geográfica, nomeadamente, às economias de escala e de gama
obtidas. Considera-se empresa multinacional (EMN) uma empresa, que
realiza investimento direto no estrangeiro (IDE) e que controla e gere
estabelecimentos produtivos ou outras atividades de valor acrescentado
em mais do que um país, i.e. uma empresa com estabelecimentos em
vários países. Os critérios utilizados para a avaliação do grau de interna-
cionalização das empresas! são: o número e dimensão das subsidiárias ou
associadas que controla no estrangeiro, o número de países em que
desenvolve atividades de valor acrescentado, a proporção dos seus ativos,
receitas, lucros ou assalariados da responsabilidade das suas filiais no
estrangeiro, o grau de internacionalização do seu corpo de gestores ou de
proprietários, a extensão da internacionalização das suas atividades de
mais elevado valor acrescentado, por exemplo, de I&D e a extensão e
estrutura das vantagens sistémicas que decorrem do seu controlo sobre
uma rede de atividades económicas localizadas em vários países.
O nível de controle exercido pela empresa EMN «mãe» do grupo
sobre as suas subsidiárias foi discutido por diversos autores? Parte da
literatura sugere que as decisões de possuir empresas subsidiarias são
extremamente complexas, pelas caraterísticas e fatores dos países aco-
lhedores, pelas caraterísticas da indústria, do produto e das empresas, e,
particularmente pela ideia de que as EMN são particularmente influen-
ciadas pela nacionalidade.

) Dunning 1993.
'2) anderson e Gatignon (1988); Agarwal (1999).
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA
- UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
24

com a multinacionalidade
Os estudos que relacionam à inovação
ser usadas estra-
revelam oo seguinte: (1) as atividades de inovação podem
às vantagens competitivas da empresa; (2)
tegicamente para melhorarem
a
A multinacionalidade é um elemento importante para estratégia de ino-
um papel importante no desenvolvi-
vação, uma vez que desempenha
subsidiárias aprendem através
mento e difusão da inovação. As empresas
onde se localizam e podem
do contacto com a diversidade dos ambientes
mãe em termos
mesmo gerar efeitos colaterais positivos sobre empresa
a

de novas práticas de inovação; (3) Para além


disso a existência de redes
internas facilita a difusão do conhecimento nas empresas
e a estrutura
o de autonomia das subsidiárias é
organizacional, nomeadamente grau
relevante para o processo de difusão e aprendizagem.

1.4.4. Dimensão da empresa


a dimensão tem um impacto posi-
A maioria dos estudos revela que
tivo na propensão a inovar, estando associada a empresas de grande
dimensão com poder de monopólio! Foram identificados cinco fatores?
que favorecem aa inovação nas grandes empresas:
*
Primeiro, considera-se que o processo inovador exige elevados custos
fixos.
*
Segundo, apenas as grandes empresas com poder de mercado con-
seguem apropriar os retornos económicos da I&D.
*
Terceiro, o investimento em I&D é arriscado, o que vulnerabiliza as
pequenas e médias empresas (PME) a investirem uma proporção
elevada dos seus recursos num único projeto. Assim as grandes
empresas terão maior facilidade em encontrarem aplicação para os
resultados incertos da atividade inovadora.
*
Quarto, as economias de escala na produção podem gerar econo-
mias de gama para a I&D, sendo que, as economias de escala na pro-
moção e distribuição facilitam a penetração de novos produtos, e habi-
litam as grandes empresas a obterem maiores lucros da inovação.

(1)
schumpeter (1942).
(2) Acs e Audretsch
(2003).
INOVAÇÃO - ENQUADRAMENTO GERAL 25

« Quinto, a inovação representa em termos relativos um maior custo


para uma pequena empresa do que para uma grande empresa.

1.5. Capacidades dinâmicas e teoria


dos recursos
O conceito das capacidades dinâmicas! defende que as empresas
e
podem ter capacidade de integrar, construir, reconfigurar competências
internas e externas para responder a ambientes que mudam rapida-
mente. Neste âmbito, as capacidades dinâmicas incluem as capacidades
empresariais difíceis de replicar necessárias para se adaptar as mudanças
dos clientes e às oportunidades tecnológicas. E envolvem ainda a capaci-
dade da empresa definir ou compreender oo ecossistema em que se insere
e desenvolve novos produtos e processos, bem como, planeia e imple-
menta modelos de negócio viáveis. Esta teoria baseou-se em parte na
Teoria dos Recursos que defende que a empresa é formada por recursos
dos recursos e a
tangíveis e intangíveis. Neste contexto, as caraterísticas
forma de os utilizar determinará o desempenho da empresa. Com base na
as capacidades dinã-
primeira abordagem, outros autores? classificaram
micas em:
« Reconfiguração, engloba a transformação e recombinação
dos recur-

sos.
em outros domí-
« Alavancagem, corresponde à aplicação dos processos
nios ou unidades da empresa.
*
Aprendizagem.
. Integração criativa, corresponde à capacidade de integrar os recur-
sos em novas configurações.

() Teece et al. (1997).


Ambronisi e Bowman (2009).
(2)
Teece, Pisano e Schuen (2007),
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA
- UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
26

Uma outra abordagem! identifica tipos de dinâmicas


três capacidades
hierarquicamente definidas pelo dinamismo
quando opera num ambiente estável,
mas
do mercado: (i)
a
procurando me
eme
oria
conti-
oe tal,
nua para adequar os recursos da empresa; (ii) de renovação, essarias
onde os recursos dedevem
para operar num ambiente de rápida mudança
ser renovados não de forma incremental para manter a com-
vantagem
em
petitiva; (iii) regenerativa, quando o mercado que
atua é
turbulento
e
a empresa necessita de um conjunto de capacidades dinâmicas, ou
novo
seja, novas formas de mudança organizacional.

Síntese do capítulo

*
Apresenta-se e discute-se o conceito de inovação.
*
Apresentam-se tipologias de inovação e a sua evolução ao longo do
tempo.
*
Distingue-se inovação tecnológica de não tecnológica considerando a
evolução destes conceitos ao longo do tempo.
* Identificam-se os fatores que podem influenciar
positivamente o pro-
cesso de inovação.
*
Apresenta-se a teoria dos recursos no âmbito da teoria dinâmica.

() Ambrosini et al.
(2009).
INOVAÇÃO - ENQUADRAMENTO
GERAL 27

À
dicas
q api

1. Explique o conceito de inovação atendendo às tipologias que a podem


classificar.
2. Discuta em que medida a multinacionalidade pode influenciar positi-
vamente a inovação.
3. Comente aa frase «As grandes empresas inovam mais, porém as peque-
nas empresas revelam menor resistência à mudança».

4, A Kodak era uma empresa muito bem gerida e considerada inovadora,


no entanto faliu. Explore este caso e responda atendendo aos seguin-
tes itens, relacionando-os com a inovação:
— Dimensão.
— Rotina.
— Estrutura interna.

E Bibliografia
Ambrosini V., Bowman C. (2009). What are dynamic capabilities and are they a useful
construct in strategic management? International Journal of Management Reviews,
Vol. 11, No. 1, 29-49.
Acs, Z.; Audretsch, D.(2003) «Innovation and Technological Change» in Handbook of
Entrepreneurship Research, eds Zoltan J. Acs and David B. Audretsch, Kluwer Aca-
demic Publishers, 54-79.

Agarwal, S.; Sridhar, N. R., (1992). Choice of Foreign Market Entry Mode: Impact of
Ownership, Location and Internalization Factors. Journal of International Business
Studies 23 (1), 1-28.
Anderson, E. and Gatignon, H. (1988). Modes of Foreign Entry: A Transaction Cost Analy-
sis and Propositions. Journal of International Business Studies 17, 1-26
Bowman C., Ambrosini V. (2003). How the Resource-based and the Dynamic Capability
Views of the Firm Inform Corporate-level Strategy. British Journal of Management,
Vol. 14, No. 4, 289-303.
Carvalho, L. (2008) «Empreendedorismo e Inovação: Um Modelo para o Sector Serviços»
Tese de Doutoramento em Gestão, Universidade de Évora, junho.

Dunning, J. (1993) «Trade, Location of Economic Activity, and the Multinational Enter-
prise: a Search for an Eclectic Approach» in B. Ohlin, P. O. Hasselborn & P. M. Wijk-
man (ed.s) The International Allocation of Economic Activity, London.
Capítulo 2

Criatividade e inovação
Carlos M. Fernandes

Objetivos de aprendizagem
* Compreender a ideia de espaço concetual.
* Classificar os tipos de criatividade de acord
o com a sua relação
com o espaço conceitual.
* Relacionar criatividade e inovação,
* Classificar a inovação de acordo com o impacto
de produtos e
serviços no mercado e na sociedade.
* Compreender o papel da evolução e do acaso
na inovação.
* Refletir sobre as condições sociais, históricas e económicas
favoráveis a inovação.
CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO 31

2.1. Introdução

A criatividade é um enigma. Manancial de ideias inéditas, subordi-


nado à imaginação e à intuição, expressa-se no sono e na vigília, na eufo-
ria e na melancolia, nos estados de ansiedade e de confiança, desafiando
qualquer prospeto científico de mapear os fenómenos mentais que O
estruturam. Talvez por isso, as definições de criatividade concentram-se
habitualmente a jusante desses mesmos fenómenos: de acordo com o
entomólogo Edward O. Wilson, a criatividade é «a capacidade de conce-
ber novos cenários e focar-se nos mais efetivos»! e para Margaret Boden,
é «a aptidão de gerar ideias ou objetos novos, surpreendentes e úteis»?
Outros, como Arthur Koestler3 e Henri Poincaré! — e, novamente,
Margaret Boden5 -, tentaram averiguar a origem desses processos
psicológicos e elaborar uma teoria geral da criatividade. Porém, a com-
plexidade da mente humana e da rede de interação da mesma com o
ambiente são dificuldades quase insuperáveis. Considere-se, por exem-
plo, o conceito de incubação, proposto por Poincaré, intuitivo e apoiado
em registos históricos, mas contestado, com argumentos sérios, por outros
autores? ou o de bissociação, de Perkins7 bem estruturado, convincente e
pertinente, e, ainda assim, incumpridor do critério da refutabilidade? É
problemático estabelecer teorias sobre um processo natural cujos meca-
nismos básicos são impossíveis de reproduzir ou medir. Essas mesmas
dificuldades estendem-se até ao terreno da inovação, corolário lógico da
criatividade e tema principal deste capítulo.
«Novo» parece ser a palavra-chave para definir criatividade. Ora,
novo vem do latim novum, enquanto inovar vem de innovare, que signi-
fica renovar, palavra que, por sua vez, pode significar melhorar, substt-

() wilson (1998, p. 126).


(2) Boden (2002, p. 1).
(3) Koestler (1975).
(4) Poincaré (1982).
(5) Boden (2002).
(6) perkins (1981); Boden (2002, p. 260).
(7) Perkins (1981).
(8) À refutabilidade (ou falseabilidade) foi um critério proposto pelo filósofo Karl Popper para
determinar se uma explicação da natureza é, ou pode ser, uma teoria científica.
32 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR CRIATIVIDADE E INE

tuir por melhor ou tornar novo. Há, na etimologia do termo, uma ideia em que este,
de progresso: se a criatividade é a invenção do novo, a inovação pode ser dos. Para es:
entendida como um processo incremental de criação. Ainda que distin- vidade, de a
tos, criatividade e inovação são conceitos intimamente dialogantes que, quências pa
em certa medida, se sobrepõem na sua definição. ponto, e ape
Assim, para um estudo da inovação e uma identificação das circuns- dificuldade «
tâncias que lhe são favoráveis, é necessário um entendimento minima- seguida, disc
mente consistente da criatividade e dos estados mentais que a antece- inovação. F
dem. Por outras palavras: quanto melhor conhecermos a criatividade identificar o
como processo psicológico, mais compreensível se tornará a inovação e, promover à i
consequentemente, com mais acerto podemos sugerir cenários sociais,
económicos e históricos que a possam favorecer.
É sabido que a criatividade é fundamental na arte e na ciência - é O
«um por cento de inspiração» de que falava Thomas Edison. Não se sabe 2.2. Esp
como, nem em que condições, emerge na mente humana: a criatividade
não pode ser prevista ou programada. É, no entanto, possível, com o
Certas cc
auxílio de registos históricos e testemunhos de artistas e cientistas, intuir
damentalme
(ou deduzir) os contextos favoráveis à expressão plena da criatividade e,
argumento |
consequentemente, da inovação artística ou técnica (tecnológica, se pre-
dizem, não 1[
ferirem o anglicismo)!
logo perman
A tarefa é difícil, mas não é irrealizável: sendo um enigma, a criativi-
Não obs
dade não é, todavia, um mistério. Os mistérios estão para lá do alcance
criativos, ca
da ciência; os enigmas sujeitam-se ao estudo científico. Na verdade,
por um cor
pode-se mesmo afirmar que a ciência, na fase de formulação de um pro-
maior prátic
blema, converte um mistério num enigma: antes de ser científico, todo o
motivação p
pensamento é filosófico. Provavelmente, é nesse estado (filosofia) que se
sendo esta,
encontram as investigações sobre a criatividade e a inovação.
mite pelo m
Todavia, não se quer deste capítulo um contributo para uma teoria da descrições ri
criatividade nem uma explicação dos processos mentais na origem da duzimos nes
criatividade e da inovação (nesse sentido, não é inovador). Pretende-se
Espaços
apenas contextualizar a inovação dentro dos quadros já existentes na
comuns a ur
investigação científica sobre o ato criativo e perceber as circunstâncias
mais amplos

(1) Interessa-nos, nesta obra, a inovação técnica. No entanto, a generalização, neste contexto,
não afeta a argumentação, e usaremos, de aqui em diante, o termo inovação, sem qualquer
adjetivação, exceto quando for fundamental distinguir o seu caráter. () Boden (2002
CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO
33

em que este, e o seu produto natural


(a inovação), podem ser promovi-
dos. Para esse efeito, é fundamental
distinguir diferentes tipos de criati-
vidade, de acordo com os Processo
s psicológicos envolvidos, as cons
quências para o conhecimento hum e-
ano e o impacto histórico. Nesse
ponto, e apesar das suas limitaçõ
es (que decorrem, como já vimos,
dificuldade do tema), seguiremos da
o raciocínio de Margaret Boden!
seguida, discutiremos o papel da De
evolução e do acaso na criatividade
inovação. Finalmente, recorreremos e na
a exemplos documentados para
identificar os ambientes sociais, eco
nómicos e históricos que parecem
promover à inovação.

22. Espaços concetuais o o


Certas correntes filosóficas atribuem
à criatividade propriedades fun-
damentalm ente misteriosas, quase sagradas
. Outras, passando ao lado do
argumento divino, outorgam-lhe ainda assim
uma singularidade que,
dizem, não pode ser escrutinada pela
ciência. A criatividade está em diá-
logo permanente com a espiritualidade.
Não obstante, a existência de sere
s humanos extraordinariamente
criativos, capazes de mudar o mun
do com uma ideia, pode explicar-se
por um conhecimento mais completo
dos domínios envolvidos, uma
maior prática nesses mesmos domínios
, e, principalmente, uma grande
motivação para procurar as soluções
para os problemas em aberto. Não
sendo esta, obviamente, uma explicaç
ão científica da criatividade, per-
mite pelo menos fugir às perspetivas
românticas e espirituais e ensaiar
descrições racionais do problema. A
ideia de espaço concetual, que intro-
duzimos nesta secção, pode ajudar
a refinar essas explicações.
Espaços concetuais são sistemas estruturados de
pensamento,
comuns a um determinado grupo soci
al e contidos nos sistemas culturais
mais amplos a partir dos quais eme
rgem: os espaços concetuais são cole
-

() Boden (2002).
34 INCYVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR CRIATIVIDADE E INOVAL

tivos, ao contrário da criatividade, que é uma forma de expressão indivi- título de curios
dual. «2001: Uma O

Um espaço concetual pode ser um estilo artístico, uma teoria cientí-


rística e algori
fica, um idioma, e até uma estratégia militar, um jogo ou uma doutrina Chegados a
ideológica. São como mapas de territórios psicológicos, que, no ato de cesso heurístic
criação, percorremos mentalmente em busca das áreas menos exploradas novas soluções
ou desconhecidas: uma metáfora (na prosa ou na poesia), uma estratégia sociais ou técn'
vencedora num final de rei e peão contra rei e torre (no xadrez), um ata- posição inicial,
que de florete indefensável (na esgrima), uma prova da hipótese de Rie- de jogadas que
mann (na teoria analítica dos números). rística ou um gi
curar (e encon
Cada espaço concetual, como acontece num território físico, tem as
caminhos meio-jogo ou fi)
suas caraterísticas próprias: uns são mais complexos, com
menos óbvios entre os lugares de interesse, outros são simples, pois Neste caso ]
mapeiam territórios de circulação mais fluida, com menos obstáculos e numa árvore, «
áreas escondidas; alguns são vastos, guardando infinitas possibilidades e mais ou menc
territórios por explorar, enquanto outros, menores, esgotam-se rapida- posição atual. L
mente. Se um espaço concetual tem pouco potencial exploratório, a cria- profundidade (
tividade terá uma expressão limitada. Nos mais amplos ou complexos, há afirma que, en
quase sempre lugares desconhecidos para descobrir. maiores probak
uma situação d
Os espaços concetuais têm restrições (ou fronteiras). No xadrez, são
as regras do jogo. Num idioma, é a gramática. Na música tonal é uma
cetual promove
putativo criado)
particular hierarquização das notas e acordes. Na teoria dos números são
temente na arte
os axiomas e as regras de inferência. Há casos, no entanto, em que a cria-
definidos (nem
tividade se manifesta na rotura ou adaptação dessas regras. Como acon-
uma hipótese.
tece com os territórios físicos, os espaços concetuais podem ser alterados
(ver Secção 2.9). Definido o c

A ideia de espaço concetual está ligada à de espaço de procura. Em


erever a defini
carateriza-se pc
ciências da computação, define-se espaço de procura como o conjunto de
sobre o qual lab
estados que podem ser avaliados por uma estratégia durante o processo
maior determin
de otimização. A uma estratégia que, mais ou menos orientada, explora o
espaço de procura em busca de regiões ótimas, chama-se heurística ou ou alterar esses
como é explora
algoritmo. Estes dois termos descrevem processos distintos, ainda que
um esteja contido no outro: um algoritmo é uma sequência de passos
para resolver um problema e uma heurística é um algoritmo que não
garante a solução correta (ou globalmente ótima) para o problema. A
CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO
35

título de curiosidade, HAL, o nom


e do computador inteligente do
«2001: Uma filme
Odisseia no Espaço», de Stanley Kubr
ick, derivou de heu-
rística e algoritmo.
Chegados a este ponto, podemos dize
r que a criatividade é um pro-
cesso heurístico mental que explora
um espaço concetual à procura de
novas soluções para os respetivos problemas — artísticos
, científicos,
sociais ou técnicos. Considere-se, com
o exemplo, o xadrez. Partindo da
posição inicial, o espaço de procura
é composto por todas as sequências
de jogadas que conduzem a um desfecho
. Dentro desse espaço, uma heu-
rística ou um grande mestre (que usa
uma heurística mental) podem pro-
curar (e encontrar) estratégias inov
adoras para situações de abertura,
meio-jogo ou final.
Neste caso particular do xadrez, o
espaço de procura está organizado
numa árvore, e uma heurística, em
cada momento do jogo, investiga
(mais ou men os profundamente) os ramos das árvores que
partem da
Posição atual. Um jogador com capa
cidade para inspecionar a árvore em
profundidade (Magnus Carlsen, o
atual campeão mundial de xadrez,
afirma que, em certas situações,
consegue avaliar vinte Jogadas) tem
maiores probabilidades de descobri
r estratégias que o permitam superar
uma situação de impasse ou perdedor
a. O conhecimento do espaço con-
cetual promove a criatividade. Qua
ndo esse conhecimento é limitado
putativo criador corre o risco de rein , o
ventar a roda. Isso acontece frequen-
temente na arte, onde, ao contrári
o da ciência, não existem critério
definido s bem
s (nem é essa a função da arte) para
avaliar a originalidade de
uma hipótese.
Definido o conceito de espaço concetua
l, cabe agora recuperar e rees-
crever a definição tentada no iníci
o desta secção: uma pessoa criativa
carateriza-se por ter uma boa represen
tação mental do espaço concetual
sobre o qual labora, um conhecimento
mais alargado desse espaço, e uma
maior determinação para explorá-lo até
aos seus limites (e até de violar
ou alte
rar esses limites). A forma como
é abordado o espaço de ideias,
como é explorado ou mesmo alterado
, define o tipo de criatividade.
CRIATIVIDADE E INCVAÇÃ
36 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

operar na mesm:
2.3. Tipos de criatividade E. com a abolição c
espaço. Schônbe
Margaret Boden! propôs um modelo multidimensional de criativi- transgrediu-as e
dade que tem em consideração a originalidade e imprevisibilidade das da criatividade t
ideias, o seu impacto histórico, e o grau de rutura com os esquemas ante- concetual e que
riores. Dentro deste modelo, e atendendo à relação do criador com o
seriam impossíve
espaço concetual, Boden divide a criatividade em três categorias. tivo mais radical,
A criatividade combinatória diz respeito ao arranjo de conceitos Além destas
comuns em ideias invulgares, como nas analogias, colagens ou monta- criatividade de a
gens fotográficas. Um telefone móvel com câmara fotográfica é também gica (P) acontece
um exemplo de criatividade combinatória: tanto os telefones como as ainda que essas
câmaras eram, à época do aparecimento do referido aparelho, objetos Eistórica (H) apl
vulgares. A criatividade combinatorial requer um conhecimento consis- História. A conje
tente do espaço concetual, mas não exige uma exploração exaustiva desse mático russo Grig
espaço. No entanto, se «
A criatividade exploratória envolve uma exploração informada do gemonstrado a c
espaço de conceitos e a descoberta de áreas desconhecidas (pelo menos revista como cri
para o explorador). Este tipo de criatividade não altera a estrutura de definitiva, pois a
pensamento (i.e., o espaço concetual), mas pode propor ideias muito
criativas, estatisticamente improváveis. As mais originais são aquelas que
questionam as fronteiras do território, ainda que sem as abolir. Quando
Wagner compôs a abertura de O Ouro do Reno — cento e trinta seis com-
passos de tríadas em mi bemol maior —, não modificou o espaço conce- ZA. Criativ
tual da música tonal, mas testou os seus limites. Depois disso, só havia
margem de manobra para imitar o estilo ou para recuar (como fez, — Chegados agr
numas e noutras ocasiões, Richard Strauss). Como derradeira opção, | madade, descrita .
havia ainda a violação das restrições do espaço (que, no caso da música Dessa-nos estabel
tonal, está codificada na hierarquização das notas e acordes). Foi isso que mire as classific
Arnold Schônberg fez no início do século XX, contribuindo para a criação
de uma forma musical sem tonalidade preponderante, que se convencio-
nou chamar música atonal.
A exploração do espaço de ideias pode questionar os seus limites, + enquantc

testá-los, expandi-los, mas enquanto respeitar as restrições continua a pode ser estetixo
inovação pode s
não conhecemc
() Boden (2002).
CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO
37

operar na mesma topologia. A forma mais


radical de criatividade começa
com a abolição ou a negação das restrições
e a consequente alteração do
espaço. Schônberg questionou as front
eiras da composição musical,
transgrediu-as e inventou um novo espa
ço concetual. Estamos no registo
da criatividade transformadora, aquela
que altera a topologia do espaço
concetual e que dá origem a ideias que, dentro do
esquema anterior,
seriam impossíveis. A transformação de um espaço concetua
l é o ato cria-
tivo mais radical, surpreendente e improvável.
Além destas três categorias, Boden também propôs uma divisão
da
criatividade de acordo com o contexto histórico. A criatividade
psicoló-
gica (P) acontece quando o autor tem ideias novas, a um
nível pessoal,
ainda que essas ideias já tenham surgido anteriormente.
A criatividade
histórica (H) aplica-se quando uma ideia aparece pela primeira
vez na
História. A conjetura de Poincaré foi recentemente provada
pelo mate-
mático russo Grigori Peralman. Trata-se de um exemplo de criativ
idade-H.
No entanto, se algum dia se descobrir que outro matemático
já havia
demonstrado a conjetura antes de Peralman, então, a deste
último, será
revista como criatividade-P. A criatividade-H não é uma classif
icação
definitiva, pois a historiografia está sempre sujeita a emendas.

2.4. Criatividade e inovação


Chegados aqui, tentaremos agora transferir à categorização da criati-
vidade, descrita na secção anterior, para o domínio da inovaçã
o. Inte-
ressa-nos estabelecer os laços possíveis entre criatividade e inovaçã
o e
entre as classificações de uma e outra de acordo com o impact
o das
ideias.
À inovação precisa da criatividade, mas há uma diferença
funda-
mental entre os dois fenómenos: o primeiro é psicológico, estrita
mente
pessoal, enquanto a inovação, sendo um processo incremental e
material,
pode ser coletivo. Há ainda outras diferenças, mais subtis e discutíveis.
A
inovação pode ser acidental. A criatividade pode parecer acident
al, mas
não conhecemos suficientemente bem os fenómenos mentais que
lhe
aB INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR CRIATIVIDADE E INOVA

estão associados para afirmá-lo com uma convicção científica. Final- Para disti
mente, e entrando em aparente contradição com a primeira frase deste impacto consic
parágrafo, pode haver inovação sem criatividade. A natureza, por exem- exteriores (istt
plo, não é criativa (só metaforicamente), pois não tem intenção, não é ciso ir mais lo:
consciente. Ainda assim, é uma fonte inesgotável de inovação. Este pro- mar inovação
blema, obviamente, não cabe no âmbito deste capítulo, que trata exclusi- A inovação
vamente da criatividade e inovação humanas — referimo-lo somente por- tema. É uma i
que ilumina as subtilezas e dificuldades do tema. através da inté
Apesar destas salvaguardas, não é destemperado fazer a ponte entre a de um objeto
criatividade e a inovação e considerar a inovação (pelo menos a técnica) tria musical, :
como um produto da criatividade. Ademais, intuitivamente, e dada a público. Note-
proximidade entre os dois conceitos, somos tentados a dividir a inovação transformado!
em três categorias, cada uma relacionada com um dos critérios de classi- altera as regr:
ficação do ato criativo: combinatorial, exploratório e transformador. É sistema, uma
precisamente nesse sentido que caminha a categorização proposta por cesso increme
Clayton Christensen! Há uma di
Christensen identificou dois tipos de inovação. A primeira e mais a inovação tra
comum diz respeito a melhorias incrementais em produtos, estruturas e uma sequênci
ideias bem implementadas no mercado. Esta inovação sustentável, como invenção não
lhe chama o autor, permite que empresas e outras organizações conti- física, da quín
nuem a prosperar numa determinada linha de serviços ou produtos, sem dora. No enta
grandes alterações de identidade ou funcionamento. A analogia com a classificá-la cc
criatividade combinatorial de Boden é imediata. a produtos, in
O segundo tipo de inovação descrito por Christensen é a inovação ção. O tipo de
disruptiva, e acontece quando um novo produto ou serviço torna obso- dora — é defir
letos os seus concorrentes diretos no mercado. A inovação disruptiva inovação, seja
agita o sistema com uma proposta inesperada. No entanto, é a expressão rior, no mund
de uma necessidade desse mesmo sistema, não é uma inovação exterior Repare-se
ao sistema. A venda de vinho ou livros através da internet perturba o associada coil
sistema, obriga a uma reorganização dos agentes envolvidos no mercado, da radiografia
mas continua a abastecê-lo do mesmo produto. O CD tornou obsoletos os como veremo:
discos em vinil e as cassetes, mas continuou a ser um veículo de música. grafia. Antes
Encontramos, nesta categoria, semelhanças com a criatividade explora- espelho da re
dora. radiografia ve

(1) Christensen (1997). (O) Leicester (2016


CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO 3

Para distinguir as inovações que, apesar de poderem causar um


impacto considerável, acontecem dentro do sistema, daquelas que lhe são
exteriores (isto é, que alteram radicalmente a espaço do sistema), é pre-
ciso ir mais longe e recorrer a uma terceira categoria, que podemos cha-
mar inovação transformadora!
À inovação transformadora não é uma inovação no interior do sis-
tema. É uma inovação do próprio sistema. A comercialização de música
através da internet, por exemplo, ao suprimir a necessidade de produção
de um objeto e de agentes intermediários, mudou radicalmente a indús-
tria musical, a relação das editoras com os músicos e a destes com o
público. Note-se a semelhança com a definição de Boden: a criatividade
transformadora altera o espaço concetual, a inovação transformadora
altera as regras do jogo (da indústria, do mercado), definindo um novo
sistema, uma nova visão, que dificilmente seria alcançada por um pro-
cesso incremental.
Há uma diferença fundamental entre a criatividade transformadora e
a inovação transformadora. A fotografia, por exemplo, foi o resultado de
uma sequência de atos criativos combinatórios e exploradores. A sua
invenção não derivou de qualquer modificação do espaço concetual da
física, da química ou mesmo da arte. Não foi, nesse sentido, transforma-
dora. No entanto, o impacto que teve na sociedade foi tal que se justifica
classificá-la como uma inovação transformadora: a fotografia deu origem
a produtos, indústrias e profissões que não existiam antes da sua inven-
ção. O tipo de criatividade — combinatorial, exploradora ou transforma-
dora — é definido pela relação do ato criativo com o espaço concetual. A
inovação, seja sustentável, disruptiva ou transformadora, opera no exte-
rior, no mundo físico: nos mercados, na indústria, na sociedade.
Repare-se que, por vezes, a criatividade e a inovação que lhe está
associada coincidem no grau de rutura com o estado da arte. A invenção
da radiografia foi um ato criativo transformador (ainda que involuntário,
como veremos adiante) na sua interação com o espaço concetual da foto-
grafia. Antes da descoberta dos raios X, pensava-se a fotografia era um
espelho da realidade, e que não podia ver para lá dos objetos visíveis. A
radiografia veio eliminar essas restrições: a fotografia, afinal, podia ver o

0) Leicester (2016).
CRIATIVIDADE E INO*
40 NOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

por determinada Note-se q


interior dos objetos opacos, desde que «iluminados»
radiação eletromagnética. Como inovação técnica, a radiografia foi tam- gio parado qt
acaso tem u
bém transformadora, pois mudou radicalmente a medicina, contribuindo
para uma mudança paradigmática dos diagnósticos e tratamentos. mesmo proce
as tentativas
Como nota final, merece a pena referir que a categorização da inovação
pre condicior
é feita a posteriori: uma inovação só é transformadora se se verificarem
certos requisitos e efeitos na sociedade, na indústria e nos mercados. É No unive
um processo
certo que, muitas vezes, o verdadeiro impacto de uma ideia transforma-
-se) ideias, n
dora demora tempo a ser aceite ou reconhecido. No entanto, tem essa
propriedade, independentemente da duração desse período de latência. estagnação €)
a tentativa s
com as mesm
se encontra,
aquele que c
2.5. Inovação, evolução e acas mente as reg
tem maior p)
um processo
2.5.1. Evolução avaliação e r<

Como foi dito na secção anterior, pode haver inovação sem criativi- Os erros
dade. Considere-se a evolução das espécies. Não sendo um processo viços inovad:
intencional, não existe criatividade (esta depende sempre de uma relação então expetá
intencional, consciente, com o espaço concetual). Ainda assim, a seleção, ambiente de
combinada com a mutação aleatória, produz inovação ao nível do orga- tativas e de €
nismo e da sua relação com o meio ambiente. Além do mais, presta-se a ticas de fin:
excelentes analogias com os processos de criação e inovação técnica. pormenoriza
métodos e cr
A evolução é estruturada pelos fenómenos atrás referidos: a seleção
-se a quantif
natural e a variação aleatória. O primeiro é determinado pelo ambiente:
está proscrit
os indivíduos mais bem adaptados têm vantagem na competição pelos
ção; conseq!
recursos e, consequentemente, maior probabilidade de sobrevivência e
burocrática,
de transmissão do seu material genético às gerações futuras. Contudo,
sem um mecanismo de variação ao nível genético, a espécie estagnaria O mesm
numa adaptação perfeita ao meio ambiente que a condicionou, sem ins- fechados à «
trumentos para se readaptar a mudanças no ambiente e na rede de inte- sucesso da
rações do ecossistema. O acaso, expresso na mutação (variação aleatória espantosas €
dos alelos), é fundamental para a evolução.
() Calado (2014
CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO
41

Note-se que não se trata aqui de contingências semel


hantes ao reló-
gio parado que, obrigatoriamente, acerta nas horas duas
vezes por dia. O
acaso tem um papel importante no processo evolut
ivo porque esse
mesmo processo é guiado pelas restrições do ambiente.
As mutações são
as tentativas e erros da natureza, mas a possibilidade
de sucesso é sem-
pre condicionada pelas circunstâncias em vigor.
No universo das ideias, da criatividade e da
inovação, desenrola-se
um processo análogo. Propõem-se, testam-se e rejei
tam-se (ou aceitam-
-se) ideias, num equilíbrio precário que, quando altera
do, pode levar à
estagnação criativa ou à deriva sem sentido através
do espaço concetual:
a tentativa sem regras assemelha-se à loucura, enquanto a resignação
com as mesmas conduz a aridez criativa. É nessa região
de transição que
se encontra, provavelmente, o segredo da criatividade e da inovação:
aquele que consegue explorar o espaço concetual,
sem violar constante-
mente as regras desse espaço, mas também sem receio
de as transgredir,
tem maior probabilidade de sucesso. Em suma: as
ideias estão sujeitas a
um processo evolutivo, guiado pela seleção e pela
variação aleatória, pela
avaliação e rejeição.
Os erros e os atos falhados não criam, diretament
e, produtos ou ser-
viços inovadores, mas podem ser fundamentais para
novidades futuras. É
então expetável que a criatividade e a inovação
sejam promovidas por um
ambiente de ensaios intensos e dispersos, de testes
de hipóteses, de ten-
tativas e de erros. Isso leva-nos a questionar, por exemp
lo, as atuais polí-
ticas de financiamento científico europeias, basea
das num escrutínio
pormenorizado de projetos, aos quais é pedido que
estabeleçam metas,
métodos e critérios muito bem definidos. Como diz
Jorge Calado! «exige-
-Se a quantificação do inquantificável em pesquisa
científica.» À partida,
está proscrito qualquer desvio, seja ele induzido
pelo erro ou pela intui-
ção; consequentemente, a criatividade e a inovação,
presas na malha
burocrática, ficam diminuídas ou até anulad
as.
O mesmo pode acontecer em ambientes industriais
especializados e
fechados à experimentação livre. É provável que
o grande segredo do
sucesso da Google tenha sido a abertura da
empresa às ideias mais
espantosas e à exploração constante de novas oport
unidades de negócio.

() Calado (2014).
42 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA = UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
CRIATIVIDADE E INVES

Na sua história, a Google propôs uma vasta gama de produtos, alguns quando «reco
discutidos pela primeira vez, de um modo informal, nos espaços de lazer orquestral de
da sede, entre cafés e jogos. Uns foram um sucesso. Outros menos: veja- trazia latente e
-se o Google Video Player e o Google Answers, entre outros produtos. Em
Há ainda |
qualquer dos casos, nunca houve medo de falhar.
mesmo transf
(ou post-it) é
proposta em 1
2.5.2. Acaso
muito fraca, s
«O acaso», disse o químico francês Louis Pasteur, «favorece as men- não teve qualq
tes preparadas». A preparação consiste na aprendizagem da topologia do Fry, outro fun
mapa concetual e na descoberta e exploração das suas fronteiras. Trata- experimentar
-se do período de reflexão sobre um problema, de estudo e ponderação. mente, caíam
Seguindo o processo evolutivo, rejeitam-se teorias, ideias, intuições. começaram a
Depois, inesperadamente, surge a resposta para o problema. Nalguns populares.
casos, aparece um novo problema, ou mesmo uma resposta a outro De tudo is!
nunca formulado. controlada ou
Wilhelm Conrad Rôntgen descobriu os raios X por acidente, quando res ao sistema
fazia experiências com um tubo de raios catódicos. Desse achado nasceu são mais do ql
a radiografia, inovação transformadora da medicina. Alexander Fleming
e a sua equipa tropeçaram na penicilina por acaso, quando, antes de par-
tirem para férias, deixaram fortuitamente no laboratório uma placa de
Petri com uma cultura de bactérias staphylococeus, destapada e ao lado
de uma janela aberta. A síntese da ureia, por Friedrich Wohler, foi tam-
2.6. Estir
bém um acidente, como foi a descoberta da radioatividade, por Henri
Como fica
Becquerel. O caso mais célebre talvez seja o de Cristóvão Colombo, que
inovação são
chegou à América quando procurava um caminho marítimo para a Índia.
aleatórios. O 1
O acaso é recorrente na história das ideias e das inovações técnicas.
massa crítica,
Noutros casos, a descoberta formidável dá-se na área em estudo, mas dentes erros -
num momento totalmente inesperado. François Jacob estava numa sala Tenta outra ve
de cinema quando lhe surgiu a ideia de repressor (molécula associada ao
É por esta
ADN que regula a expressão dos genes). Kekulé descansava, provavel-
gem nos ceníi
mente em estado de hipnagogia (transição entre a vigília e o sono),
crentes no cc
quando teve uma visão da estrutura molecular do benzeno (visão que
tentam estím
viria a transformar o espaço concetual da química). Wagner recuperava
lizados. Não e
de uma enfermidade, também em estado de letargia, junto a um rio,
incentivos ext
CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO 43

quando «reconheceu», no barulho da água, a supracitada abertura


orquestral de O Ouro do Reno, que, de acordo com as suas palavras, já
trazia latente em si.
Há ainda outro caso que importa referir: a inovação disruptiva, ou
mesmo transformadora, que nasce da inovação falhada. A nota aderente
(ou post-it) é um excelente exemplo. A invenção que lhe deu origem,
proposta em 1968 por um cientista da 3M, Spencer Silver, era uma cola
muito fraca, sensível à pressão, e que podia ser reutilizada. O produto
não teve qualquer sucesso comercial. Porém, seis anos mais tarde, Arthur
Fry, outro funcionário da empresa e cantor num coro de igreja, resolveu
experimentar a cola para fixar os papéis com cânticos que, teimosa-
mente, caíam do seu livro de hinos. A ideia resultou, as notas aderentes
começaram a ser comercializadas pela 3M em 1980, e ainda hoje são
populares.
De tudo isto resulta que a inovação é demasiado imprevisível para ser
controlada ou prevista. Poderá ser estimulada por organizações exterio-
res ao sistema? Ou todas as políticas que dizem promover a inovação não
são mais do que palavras vãs na boca de decisores políticos?

2.6. Estimular a inovação

Como fica demonstrado pela história das ideias, a criatividade e a


inovação são conduzidas, em larga medida, por processos evolutivos e
aleatórios. O melhor estímulo para as novas ideias são as ideias velhas, a
massa crítica, a interação multidisciplinar, as tentativas e os correspon-
dentes erros — já dizia Samuel Beckett: «Tenta. Fracassa. Não importa.
Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor»
É por estas razões que a criatividade e os produtos inovadores emer-
gem nos cenários mais improváveis, ausentando-se, para espanto dos
crentes no controlo centralizado de processos complexos, quando se
tentam estímulos baseados no investimento público e nos planos centra-
lizados. Não existe qualquer relação de causalidade entre a inovação e os
incentivos externos. Aliás, os produtos e serviços inovadores podem até
- UMA VISÃO MULTIDISSIPLIMAR CRIATIVIDADE E INOVAR
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA
44

revelador dos ação, do risco |


surgir quando são desincentivados. Veja-se o exemplo
operar transfor
AT&T Bell Laboratories.
combinação de
Entre 1956 e 1984, a investigação nos laboratórios Bell esteve restrita,
ção artística, cie
por imposição de um acordo com o governo norte-americano, às teleco-
municações. Caso alguma das suas equipas inovasse noutra área, a
de
empresa não registava patentes e tão-pouco fomentava a publicação
resultados. No entanto, aos engenheiros e cientistas da empresa era-lhes Sintese
dada liberdade para dispor, no tempo livre, dos laboratórios e dos com-
putadores — uma novidade, na altura — e para convidar colaboradores «e Acriati
num
externos. Foi assim que, nos anos 1960 e 1970, Os Bell se tornaram averigl
viveiro de criatividade e inovação, tanto científica e técnica, como artística.
- Acriati
A
O UNIX e as bases do MP3 foram criados nos laboratórios Bell. « Osesp;
computação gráfica deu ali os primeiros passos e a arte digital nasceu da teoria «
colaboração entre os cientistas da empresa e os artistas convidados. Não
- Acriati
havia subsídios, nem projetos, nem áreas prioritárias promovidas por
entidades externas. A inovação emergia naturalmente da liberdade e da
« À criati
sua rel;
interação entre diversos interesses, motivações e sensibilidades. O extra-
dade e:
ordinário ambiente de criatividade e inovação dos laboratórios Bell pros-
- Acriati
perou apesar das restrições impostas a essa mesma inovação.
seu cor
A emergência é o processo pelo qual padrões complexos ou regulari-
dades globais surgem a partir de interações entre unidades simples.
- Ainove
cipalm
Trata-se de uma propriedade dos sistemas complexos. A criatividade é
um fenómeno emergente do cérebro humano. A inovação pode ser uma
e À inovi

consequência direta da criatividade ou um fenômeno socialmente emer-


etrans

gente. Logo, uma e outra não se podem prever ou programar. Os esti- * À inov:

mulos à inovação são sempre de resultado incerto. cetual.

Em suma, a inovação é o resultado de processos complexos, que


e merc,

envolvem a criatividade e a sua interação com o ambiente e o contexto


e Acriati

histórico. Sendo fenómenos emergentes, a criatividade e a inovação não


tivo,m

- avaliaç
podem ser centralmente promovidas, ou sequer previstas. Esta constata
ção, no entanto, não empurra o problema da inovação para um beco sem
e Oacas
o
saída. Pelo contrário: deve ser encarada como uma restrição que indica * Uma in

caminho possível, ainda que incerto. E esse caminho deve ser o da multi- vaçãos

disciplinaridade e de uma educação basilar (atributos fundamentais para e Só um


o conhecimento profundo dos espaços concetuais), e da liberdade de recera
CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO
45

ação, do risco e do questionamento da autor


idade (fundamentais para
operar transformações no espaço concetual
ou na indústria). É nessa
combinação de bases teóricas sólidas e experime
ntação livre que a inova-
ção artística, científica e técnica encontra terre
nos férteis para prosperar.

-
Síntese do capítulo

|

a
* À criatividade é um fenómeno psicológic
o cujas causas são difíceis de
averiguar.
* Acriatividade é a capacidade de criar ideias
novas.
* Os espaços concetuais são sistemas estru
turados de pensamento: uma
teoria científica, um estilo artístico, um jogo
ou uma ideologia.
* Acriatividade resulta de uma procura
informada no espaço concetual.
* À criatividade pode ser dividida em
três categorias, de acordo com a
sua relação com o espaço concetual: criat
ividade combinatória, criativi-
dade exploradora e criatividade transforma
dora.
* A criatividade pode ser dividida em duas
categorias, de acordo com o
seu contexto histórico: criatividade psicológic
a e criatividade histórica.
* A inovação é um produto da criatividade
. Porém, o termo é usado prin-
cipalmente no contexto de produtos ou
serviços (inovação técnica).
* Ainovação pode ser dividida em três categorias
: sustentável, disruptiva
e transformadora.
* A inovação transformadora não implica uma
mudança do espaço con-
cetual. No entanto, provoca uma alteração
radical do sistema (indústria
| e mercado) sobre o qual opera.
* Acriatividade a inovação podem ser
o resultado de um processo evolu-
tivo, mais ou menos direcionado, conduzid
o pela tentativa e erro e pela
avaliação e exclusão de hipóteses.
* O acaso pode ter um papel fundamen
tal na inovação.
* Uma inovação transformadora pode nasce
r da reutilização de uma ino-
! vação sustentável ou mesmo falhada.
| * Só um ambiente multidisciplinar,
de liberdade e interação, pode favo-
recer a criatividade e a inovação.
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
46

FATE RD a)

1. A ideia de um telemóvel com câmara fotográfica é um ato de criatividade


combinatória. Em termos de inovação, os telemóveis com câmara terão
sido uma inovação combinatória, disruptiva ou transformadora?
2. Os modelos de negócio, historicamente, tendem a aglomerar-se geo-
graficamente em conjuntos do mesmo tipo (veja-se Silicon Valley ou
Diamond District de Nova lorque). Essa agregação será um estímulo ou
um entrave à inovação?
3. Considere as seguintes invenções: papel, imprensa, pólvora, máquina
a vapor e bússola. Classifique-as ao nível da criatividade e da inovação.
A. As patentes são um incentivo ou um obstáculo à inovação?

E Bibliografia
Routledge, and
Boden, M. (2002). The Creative Mind: Myths and Mechanism. New York:
edition.
Santos.
Calado, J. (2014). Limites da Ciência. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos
great
Christensen, C. M. (1997). The innovator's dilemma: when new technologies cause
firms to fail. Boston, MA: Harvard Business School Press.
Leicester, G. (2016). Transformative Innovation: A Guide to Practice and Policy. Char-
mouth, UK: Triarchy Press Ltd.

Perkins, D. N. (1981). The Mind's Best Work. Cambridge. Boston, MA: Harvard University
Press.
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Poincaré, H. (1982). The Foundations of Science: Science and Hypothesis, The
Science, Science and Method. Ithaca, NY: Cornell University Library.
Books.
Wilson, E. O. (1999). Consilience: The Unity of Knowledge. New York: Vintage
Capítulo 3

Tecnologia
A alavanca da humanidade

Ivo Dias de Sousa

Mário Carrilho Negas

Objetivos de aprendizagem
* Entender o que é a tecnologia.
- Perceber a evolução da tecnologia.
* Identificar as consequências positivas e negativas associadas à
tecnologia.

* Compreender os desafios que a tecnologia coloca no futuro


próximo.
uz
TECNOLOGIA

3.1. O queéa tecnologia?


de definir tecnologia, sendo umas mais
Existem muitas formas
deste livro é escolhida
abrangentes de que outras: Para Os propósitos
o tecnologia o conjunto
uma definição abrangente, ou seja, é considerad
adas para um propósito,
de aplicações práticas de conhecimento utiliz
para aplicar esse conheci-
incluindo as capacidades e as competências
mento.
istórico a bater com
Tendo em conta esta definição, um homem pré-h
está a utilizar uma tec-
duas pedras, uma contra a outra para fazer fogo,
é uma tecnologia muito rudi-
nologia. É certo que, pelos padrões atuais,
zamos neste livro, está a utili-
mentar. Porém, do ponto de vista que utili
utilizamos um telemóvel.
zar tecnologia tal como, no presente, quando
capacidade em produzir
Um aspeto a destacar sobre a tecnologia é a sua
ços. Quando alguém utiliza
e aumentar a utilidade de produtos e/ou servi
de algum modo, a uti-
fogo para cozinhar está, em princípio, a aumentar,
ição, não faria sentido cozi-
lidade da comida em causa. Senão, por defin
nhá-la.
já, é que a tecnologia não
Outra questão que convém destacar, desde
imaterial como é o caso
tem necessariamente de ser material. Pode ser
e dos efeitos que pro-
dos programas de computador, independentement
duzem serem bem reais.

ão
tecnol
3.2. Evoldauç ogia.
ao longo da evolu-
A tecnologia ocupou e ocupa um papel importante
como uma alavanca da
ção da humanidade. Podemos ver à tecnologia
s fazer coisas que
nossa inteligência enquanto espécie. Ela permite-no
idades do nosso
seriam impossíveis de fazer recorrendo apenas às capac
tem-nos desloca-
físico. Por exemplo, as aeronaves e os foguetões permi
TECNOLOGIA
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
50

asas. Indo mais babitação e «


ções aéreas sobre oceanos e continentes sem termos
prédios, estra
longe, já nos permitiram sair da órbita do nosso planeta!
Um marcc
Não é possível ignorar o papel importante da tecnologia no passado,
aparecimento
presente e, certamente, no futuro da humanidade. Façamos uma breve
como é o casc
descrição da evolução tecnológica que tem percorrido um longo caminho
posterior apar
desde há milhões de anos.
Também,
Podemos dividir a evolução da tecnologia nas seguintes fases:
necessário esti
1. Pré-história (há mais de 10.000 anos).
(que surgiram
>. História (de há 10.000 anos até ao final do século XVII.
3. História moderna (desde o século XIX). Outra nov
fm a generali;
Vamos agora apresentar estas três fases com mais detalhe. A imprensa pt
surgimento d
1. Pré-história (há mais de 10.000 anos) necessário os
caro.
Esta fase da evolução tecnológica durou alguns milhões de anos. A
Podemos
sua evolução foi muito lenta sobretudo comparando com o que se passa
plexas do que
atualmente. As novidades tecnológicas surgiam muito espaçadamente
mento das pr
com intervalos de muitas gerações de seres humanos entre elas.
avento.
Podemos dizer que a tecnologia surge na nossa espécie com a utiliza-
ção de ferramentas básicas. Um exemplo importante é o uso de ferra-
mentas para fazer fogo. Outro exemplo, é o uso de pedras para fabricar 3. Histórian
machados e arcos rudimentares, o que permitiu caçar mais facilmente e Neste peri
com menos Tisco. ção tem vind:
Nas últimas dezenas de milhares de anos da pré-história o uso de fer- diversos fato)
ramentas tendeu a generalizar-se. Em conjunto, surgiram comportamen- potentes e/ou
tos mais complexos que os produzidos pelos seres humanos anteriores. espaciais que
Este facto lançou as bases para a fase seguinte da evolução tecnológica. potentes do q
computadore:
mais pequenc
2. História (de há 10.000 anos até ao final do século XVIII)
No períod
Este período começa com a criação da agricultura e a sedentarização
eólica e a ent
humana. A agricultura permitiu o aumento da população. Naturalmente,
crescentemen
o ritmo de evolução da tecnologia acelerou-se muito, ainda que muito
longe do ritmo atual. Por exemplo, a sedentarização e aumento da popu-
Outro fatc

lação levou ao desenvolvimento de tecnologias relacionadas com a


imstantaneam
cid
TECNOLOGIA 51

habitação e o transporte, permitindo nomeadamente, a construção de


prédios, estradas e pontes.
Um marco importante foi a descoberta da roda que contribuiu para o
aparecimento de carroças puxadas por animais entretanto domesticados,
como é o caso do cavalo. Naturalmente, essa invenção contribuiu para o
posterior aparecimento de meios de transporte como a bicicleta e o carro.
Também, neste período, surgiram formas de comunicar sem ser
necessário estar face a face, como é o caso de sinais de fumo e a escrita
(que surgiram há já muitos milénios).
Outra novidade importante em termos de tecnologia de comunicação
foi a generalização da imprensa no final da idade média e renascimento.
A imprensa permitiu a fácil reprodução de mensagens, o que conduziu ao
surgimento de jornais e à generalização da difusão de livros. Até aí, era
necessário os livros serem copiados à mão, o que era um processo lento e
caro.
Podemos dizer que neste período, surgiram ferramentas mais com-
plexas do que na anterior. Um salto tecnológico relevante é o apareci-
mento das primeiras máquinas, como por exemplo os moinhos movidos
a vento.

3. História moderna (desde do século XIX)

Neste período (que inclui a época em que vivemos), o ritmo da inova-


ção tem vindo progressivamente a acelerar. Este período é marcado por
diversos fatores. Um deles é a existência de máquinas cada vez mais
potentes e/ou pequenas. Um exemplo de máquinas potentes são as naves
espaciais que nos levaram já à lua — são incomparavelmente mais
potentes do que o comboio a vapor do século XIX. Outro exemplo são os
computadores que se têm tornado não só mais potentes como também
mais pequenos com o decorrer do tempo.
No período anterior, começamos a dominar energias como a energia
eólica e a energia hidráulica. Neste período, a tecnologia permitiu-nos,
crescentemente, dominar outras energias como a nuclear e a solar.
Outro fator marcante, é a tecnologia que nos permite transferir quase
instantaneamente grandes quantidades de informação. Esta revolução
52 INCVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR FECNOLOGIA

começou com a invenção do telégrafo no século XIX que permitia a Refira-se, «


comunicação de pequenas mensagens ponto a ponto numa questão de formas influen
segundos ou minutos. sas idas ao di
No século XX, surgiram a rádio e a televisão que permitem transmitir Porém, a influ:
unidirecionalmente mensagens em áudio e/ou imagens em movimento a do que provave
grandes distâncias. Iremos prc
A invenção do telefone é também importante, porque permitiu “tecnologia sob
comunicarmos bidirecionalmente uns com os outros muito rapidamente quências posit
e individualmente. No final do século XX, surgiram os telemóveis que nos mos identifica
permitem estar contactáveis quase em qualquer lugar, 24 horas por dia. apesar de, por
cação não será
Associado aos telemóveis surgiram as redes de computadores (entre
são encheria a:
as quais se destaca a Internet), que nos permitem aceder, muito rapida-
mente, a informação espalhada pelo globo.
Porém, o marco mais relevante é o aparecimento de instrumentos 3.3.1. Vant
imateriais como os programas de computador. Vejamos o caso dos smart-
phones que, usualmente, transportamos. Na realidade, são computadores Por um lac
que, muitas vezes, realizam funções diferentes em função das necessida- produção de E
des dos seus utilizadores, permitindo utilizações personalizadas cada vez dutos e serviçe
mais acentuadas. Podemos c
Resumindo, a evolução da tecnologia e o ritmo de inovação é maior derada ficção «
de período para período. A Pré-História é caraterizada pelo aparecimento alguém que vi
de instrumentos básicos. Depois, na 22 fase da História, os instrumentos sente. Talvez
tornam-se um pouco mais complexos, surgindo as primeiras máquinas. prédios e as 1
Já no período mais recente, as máquinas continuam a tornar-se mais pouco difereni
complexas, permitindo o surgimento de instrumentos imateriais. muma sociedac
Só passadc
ber-se de algu
ser O telemóv
fixos.
3.3. Vantagens e desvantagens da tecnologia
Outro det:

Vamos agora abordar a questão das consequências que a utilização smartphone. 1


das tecnologias pode ter nos seres humanos. Para o bem e para o mal, cidade de proc
de há meio sé
sentimos (mesmo que não tenhamos consciência disso) as consequências
da tecnologia.
O) Harari (2015).
TECNOLOGIA 53

Refira-se, em primeiro lugar, que, mesmo o nosso corpo é de várias


formas influenciado pela tecnologia! Um exemplo corriqueiro são as nos-
sas idas ao dentista, onde, por vezes, nos colocam dentes artificiais.
Porém, a influência da tecnologia sobre o nosso corpo é mais importante
do que provavelmente a maioria dos leitores poderá pensar.
Iremos prosseguir identificando mais e diferentes consequências da
tecnologia sobre os humanos. Como quase tudo, a tecnologia tem conse-
quências positivas e negativas sobre nós. Para facilitar a exposição, ire-
mos identificar consequências separadas em vantagens e desvantagens,
apesar de, por vezes, ser difícil distinguir umas das outras. Esta identifi-
cação não será exaustiva, uma vez que é um assunto vasto e cuja discus-
são encheria as páginas de muitos livros.

3.3.1. Vantagens da tecnologia


Por um lado, a tecnologia melhora ou, pelo menos, reduz o custo de
produção de produtos e serviços já existentes. Por outro lado, cria pro-
dutos e serviços radicalmente diferentes dos que existiam anteriormente.
Podemos dizer que atualmente vivemos numa época que seria consi-
derada ficção científica há meio século ou mesmo menos. Imagine-se que
alguém que viveu há meio século viajava no tempo até ao momento pre-
sente. Talvez inicialmente não visse grandes diferenças. Os carros, os
prédios e as roupas que as pessoas vestem talvez lhe parecessem um
pouco diferentes. No entanto, não seria por isso que se sentiria a viver
numa sociedade radicalmente diferente.
Só passado algum tempo, esse viajante do tempo começaria a aperce-
ber-se de alguns detalhes muito diferentes. Um desses detalhes poderia
ser o telemóvel. Meio século atrás, os telefones eram exclusivamente
fixos.
Outro detalhe seria notado quando olhasse com atenção para um
smartphone. Primeiro, esse smartphone provavelmente teria mais capa-
cidade de processamento e funcionalidades do que qualquer computador
de há meio século (lembremo-nos que os computadores iniciais ocupa-

() Harari (2015).
TECNOLOGIA
54 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

vam enormes salas). Mais, notaria que esses mesmos telefones permitem Penso qu
consultar, de um modo quase instantâneo, informação proveniente de dos países oc
todo o mundo. No passado, no máximo teria acesso a alguns canais de acaba mesm:
televisão, sendo que muitas pessoas, há meio século, nem acesso a televi- pode levar a
são teriam. blemas de sa
advêm).
As vantagens inter-relacionadas da tecnologia que abordamos são as
seguintes:
1. Aumento da produção de alimentos. 2. Aumento

2. Aumento da produção de bens e serviços. A tecnolo:


3. Melhorias no conforto. ços como já
4. Melhor utilização de recursos naturais. aumentado e
5. Facilidade em viajar. aumentou. Ui
6. Melhoria nas comunicações. cente da sua
7. Melhoria nos cuidados de saúde. bens e serviçe
Vejamos com maior atenção cada uma dessas vantagens. ção de preços.
Um exem
década de 80
1. Aumento da produção de alimentos
luxo de ter un
Esta é, provavelmente, a maior vantagem da tecnologia e é, prova- da maioria da
velmente, menosprezada pela maioria dos leitores. Porquê? Creio que sumiam muit:
quase todos (ou mesmo todos) os leitores deste livro terão fácil acesso a transportar, nr
comida. O que não é o caso de muitos milhões de pessoas, apesar de Porém, a
alguns considerarem que existe excesso de produção de alimentos (mui- ram mais peqgn
tos deles, sendo mesmo desperdiçados). fazer e recebe
Se o leitor recuar duas ou três gerações, será provável que encontre podemos faze
na sua própria família pessoas que ainda dão uma grande importância à Internet. É um
questão do não desperdício de comida, uma vez que, se não passavam o computador
fome, pelo menos, tinham uma alimentação pobre e pouco variada. primeiras viag
A tecnologia não só permitiu o grande aumento da produção de ali-
mentos como reduziu o seu custo de produção. Isto foi possível, nomea- 3. Conforto
damente, com a introdução de máquinas (por exemplo, máquinas-ceifeiras Conforto n
e tratores) na agricultura e a melhoria dos sistemas de irrigação, bem
A tecnologia ti
como com a utilização de frigoríficos e da congelação, o processamento vidas. A fácil p
de alimentos industrialmente, etc.
temente, uma *
vida da maiori.

— e.
TECNOLOGIA 55

Penso que para a maioria dos leitores, e para a maioria dos habitantes
dos países ocidentais, o problema já não é a falta de comida. O problema
acaba mesmo por ser o contrário: acesso demasiado fácil a alimentos,
pode levar a um excesso de alimentação, o que acaba por provocar pro-
blemas de saúde (excesso de peso com todas as consequências que daí
advêm).

2. Aumento da produção de bens e serviços

A tecnologia tem permitido o aumento da produção de bens e servi-


ços como já foi referido anteriormente. Para além da produção ter
aumentado e o custo unitário ter diminuído, a sua qualidade também
aumentou. Uma das razões para isso ter acontecido foi a automação cres-
cente da sua produção. A intervenção humana direta na produção de
bens e serviços tem diminuído, o que contribuiu, em muito, para a redu-
ção de preços.
Um exemplo desse fenómeno são os smartphones. No início da
década de 80 do século XX apenas uma pequena minoria se podia dar ao
luxo de ter um telemóvel. Por um lado, eram bastante caros para a bolsa
da maioria das pessoas, por outro lado, eram demasiado grandes e con-
sumiam muita energia, o que implicava ter um automóvel. Não só para o
transportar, mas também para lhe fornecer energia.
Porém, a transformação dos telemóveis não passou só por se torna-
ram mais pequenos e baratos. No início, os telemóveis apenas permitiam
fazer e receber chamadas e mensagens. Agora, com um smartphone
podemos fazer outras coisas como substituir uma lanterna e aceder à
Internet. É um aparelho que tem muito mais capacidade de cálculo do que
o computador que foi utilizado para auxiliar nos cálculos necessários nas
primeiras viagens à Lua.

3. Conforto

Conforto não é garantia de felicidade, mas é importante e agradável.


A tecnologia tem aumentado o grau de conforto que temos nas nossas
vidas. A fácil produção de bens e serviços leva a que tenhamos, crescen-
temente, uma vida mais confortável. Se compararmos a nossa vida com a
vida da maioria dos seres humanos que viviam há séculos e milénios, as
ISCIPLINAR
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTID TECNOLOGIA
56

s antepassados tinha de tra- algumas horas,


diferenças são enormes. A maioria dos nosso
ades básicas satisfeitas, o que Por outro lado,
balhar de sol a sol para ter as suas necessid
lo frequente
nem sempre acontecia, sendo a fome um flage
que estava apen

s da utilização das tecnolo- muitos milhões


Se o leitor tem dúvidas sobre as vantagen
utiliza no seu dia-a-dia e verificar Esta facilida
gias, basta pensar em quase tudo o que
logia. Desde a roupa que usa aos pessoas possam
que pouco restaria se não existisse tecno
enormes. balho.
transportes onde viaja, as vantagens são

&. Melhoria da
4. Melhor utilização de recursos naturais
s, de alguns tipos) pro- A tecnologia
Sabe-se que o uso da tecnologia (pelo meno
ia (sobretudo, à medida que vai “tempo de divers,
voca poluição. Porém, a mesma tecnolog
zação dos recursos naturais e
evoluindo) também leva a uma melhor utili da imprensa esc.
sua utilização. Este é um facto de z mesma mensa
a uma redução dos efeitos perversos da
atualmente somos muitos e da imprensa, erz
grande importância porque nós, humanos, ou
os no presente são escassos,
porque vários dos recursos que utilizam A melhoria c
mesmo finitos. — porte, por sua vc
nós é o petróleo. Graças | de informação, r
Por exemplo, um recurso finito utilizado por
muito mais eficientes con- rápida a lugares
à tecnologia, os automóveis têm-se tornado
inclusive o seu desempenho.
sumindo menos combustível e aumentando Porém, a ma
que o leitor poderá dizer mmunicações, con
Um outro recurso escasso é a água. Claro
além das nossas necessidades. Apesar de apena
que os oceanos têm água muito para
não se encontra nas condições
Todavia, será conveniente recordar que
> envio de pequi

é potável nem existe nos locais assaram a pode


mais desejáveis para nós, humanos. Não
r às nossas necessidades. O
onde seria mais conveniente para responde Nas últimas «
itido a utilização dessa água.
recurso à tecnologia, no entanto, tem perm zenda. Atualme:
ada e a melhoria dos sistemas
at

Um exemplo é a dessalinização da água salg ormações de c


de irrigação gota-a-gota que
de irrigação (existem atualmente sistemas estar contactá
ramente necessidade de água,
detetam quando as plantas têm verdadei gresso à Internet
ligando e desligando a sua utilização).
7. Melhoria do:
5. Facilidades em viajar A evolução d
ampliado as facilidades de
Outra das vantagens da tecnologia é ter ande e longevid
de viagem. Alguns séculos atrás
viajar. Por um lado, reduziu os tempos mis reduzidos, p
enquanto agora, no espaço de
viajar era sinónimo de tempos longos, melhoria dos c
TECNOLOGIA sf

algumas horas, é possível, de avião, viajar para o outro lado do mundo.


Por outro lado, tornou as viagens muito mais baratas. Atualmente aquilo
que estava apenas ao alcance de uma minoria abastada, é hoje possível a
muitos milhões de pessoas.
Esta facilidade de viajar também permite que, no seu dia-a-dia, as
pessoas possam morar a várias dezenas de quilómetros do local de tra-
balho.

6. Melhoria das comunicações


A tecnologia tem levado à melhoria das comunicações ao longo do
tempo de diversas formas. Uma das formas marcantes foi a generalização
da imprensa escrita há alguns séculos. A impressão fácil permitiu replicar
a mesma mensagem rapidamente e com custos baixos. Sem a invenção
da imprensa, era necessário copiar cada exemplar da mensagem à mão.
A melhoria dos veículos de transporte bem como das redes de trans-
porte, por sua vez, facilitou a melhoria das comunicações e a distribuição
de informação, permitindo que está chegasse de forma mais económica e
rápida a lugares distantes e antes inacessíveis.
Porém, a maior revolução neste aspeto, foi a descoberta das teleco-
municações, com o telégrafo a começar a ser utilizado no século XIX.
Apesar de apenas ligar alguns pontos muito específicos e permitir apenas
o envio de pequenas mensagens, o facto é que lugares distantes entre si
passaram a poder comunicar de forma muito rápida.
Nas últimas décadas, e em termos de comunicação, a evolução foi tre-
menda. Atualmente, e recorrendo à Internet, podemos ter acesso rápido a
informações de quase todo o mundo e o telemóvel permite-nos contactar
e estar contactável com todas as pessoas que possuam um e tenham
acesso à Internet.

7. Melhoria dos cuidados de saúde

A evolução da tecnologia tem contribuído para a melhoria da nossa


saúde e longevidade. O aumento da produção de alimentos e a custos
mais reduzidos, permitiu, em geral, dietas mais ricas, o que conjugado com
a melhoria dos cuidados de saúde levou a vidas mais longas. Recorde-se
- UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR FECNOLOGIA
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA

ído de forma nucleares que se


que a generalização das vacinas, para além de ter diminu
ir, em geral, a mamente perigos
drástica a mortalidade infantil, também permitiu diminu
e pandemias caso ocorram acic
mortalidade no ser humano pela eliminação de epidemias
lugares vadas.
deixando para trás situações em que as populações de alguns
eram reduzidas a menos de metade. A poluição im
buiu para serviços em si, m:
Um outro aspeto em que a tecnologia também muito contri
desenvolvi-
a melhoria dos cuidados de saúde, foi a introdução e o rápido
são eliminados o
das máquinas
mento dos meios de diagnóstico. Por exemplo, a utilização
zamos um saco d

de raio-X e dos medidores de pressão arterial permitem que


os profissio- poluição, mas qu.
(de maneira fide- — para o lixo sem q
nais de saúde produzam diagnósticos mais corretos
terá efeitos nefast
digna) e prescrevam tratamentos mais eficazes.
mota de forma m
— exemplo é a utiliz;
3.3.2. Desvantagens da tecnologia - são utilizados não
* Bustíveis fósseis, |
vanta-
Nem tudo o que está associado à utilização das tecnologias são — mento das bateria
te:
gens. Existem desvantagens que convém não ignorar, nomeadamen Apesar da tec:
1. Poluição; parte da solução d
2. Esgotamento dos recursos naturais; “Se tecnologias me
3. Perturbações na utilização do tempo; Feto é não deixarn
4. Risco de extinção da espécie humana; “ndos nós, contril
5. Grande dependência da tecnologia. “poluição, diminuir
Analisemos estas desvantagens.
Esgotamento
1. Poluição Ee
— Esta desvantas
tecnolo-
A poluição é, provavelmente, a desvantagem mais notória da á JS TeCUrsos que «
ao aumento
gia. O uso excessivo de determinadas tecnologias tem levado seu esgotamento. '
idade
da poluição em larga escala, o que afeta não só o futuro da human do problema. Se,
como o do próprio planeta. mento de máquin:
acon-
A poluição do planeta provocada pela utilização da tecnologia mento de recurso
ade rea-
tece de forma direta e indireta. A poluição direta resulta da ativid esgotamento de re
e referindo
lizada com recurso a determinada tecnologia. Por exemplo, emováveis.
combustíveis
apenas duas situações, a utilização de veículos movidos a Por exemplo, u
s nuclea-
fósseis provoca a poluição da atmosfera e a utilização de centrai » petróleo. Nas últ
ão de resíduos
res para a produção de energia resulta também na produç milhões de anos a
TECNOLOGIA 59

nucleares que se mantêm ativos por muitos séculos e poderão ser extre-
mamente perigosos para a vida animal e vegetal de determinado local
caso ocorram acidentes onde estas substâncias são armazenadas e conser-
vadas.
A poluição indireta é provocada não pela utilização dos materiais ou
serviços em si, mas sim, quando estes são produzidos ou, em fim de vida,
são eliminados ou deixam de ser utilizados. Por exemplo, quando utili-
zamos um saco de plástico quando vamos às compras este não provoca
poluição, mas quando deixa de ser útil por estar estragado e é deitado
para o lixo sem que se proceda à sua reciclagem, aumenta a poluição que
terá efeitos nefastos na vida do planeta, nomeadamente, e como agora se
nota de forma mais evidente, na vida e na saúde dos oceanos. Outro
exemplo é a utilização de automóveis movidos a energia elétrica. Quando
são utilizados não provocam a poluição dos automóveis movidos a com-
bustíveis fósseis, transferindo-se o problema para a produção e o trata-
mento das baterias quando já não forem utilizáveis.
Apesar da tecnologia também poder apresentar alternativas e fazer
parte da solução destes problemas, nomeadamente pelo desenvolvimento
de tecnologias menos poluentes ou pelo aumento da reciclagem, o cor-
reto é não deixarmos apenas à tecnologia a resolução destas situações e,
todos nós, contribuir-mos no nosso dia-a-dia para que exista menos
poluição, diminuindo individualmente a nossa pegada ecológica.

2. Esgotamento dos recursos naturais

Esta desvantagem está ligada à utilização exaustiva e descontrolada


dos recursos que a natureza coloca à nossa disposição podendo levar ao
seu esgotamento. Também nesta situação a tecnologia é parte e solução
do problema. Se, por um lado, a tecnologia tem levado ao desenvolvi-
mento de máquinas e processos que permitem a fácil extração e trata-
mento de recursos naturais, por outro lado, esta situação conduz ao
esgotamento de recursos não renováveis, e por vezes, até de recursos
renováveis.
Por exemplo, um recurso não renovável que poderá deixar de existir é
o petróleo. Nas últimas dezenas de anos estamos a consumir o que levou
milhões de anos a formar-se. Se não alterarmos os atuais níveis de con-
60 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISC'PLINAR TECNOLOGIA

sumo, num futuro relativamente não muito distante (décadas ou centenas 4. Risco de exi
de anos), o petróleo deixará de existir.
Esta é uma
Em termos do ser humano, e numa perspetiva económica, um recurso entanto frequen
renovável são as reservas de peixe no mar. Porém, diversas espécies desa- o ser humano F
pareceram ou estão em risco de desaparecer. E isto está a suceder por As duas princi
duas razões possibilitadas pela tecnologia: a pesca excessiva e descontro- milhões de mo
lada e a poluição destruidora das condições de vida e dos habitats dessas existentes. No E
espécies. dos Unidos da A
a maior parte dz
3. Perturbações na utilização do tempo nucleares. Os pc
teses teriam de
A tecnologia (sobretudo a mais recente) tem outra desvantagem impor-
engenhos nuclez
tante: contribuir para que muitas pessoas despendam tempo e energia
rer, pois os cus
em atividades pouco saudáveis ou enriquecedores do ponto de vista pes-
havendo venced
soal. Dois exemplos de tecnologias que podem levar a esta situação são a
pouco provável,
televisão e os computadores (e respetivas redes).
Relativamente à televisão, muitos milhões de pessoas passam bas-
5. Grande dep:
tantes horas por dia em frente ao seu ecrã em vez de utilizar este tempo
noutras atividades mais saudáveis e úteis para o seu enriquecimento pes- Não é possívi
soal e familiar, bem como da própria coletividade onde se inserem. As tecnologia não sí
redes de computadores, em geral, e a Internet, em particular, também bui para uma mi
são um meio que conduzem aos efeitos negativos referidos para a televi- tecnologia como
são. Para além dos aspetos ligados à utilização do tempo, a Internet de algo proporci
levanta outros problemas, como por exemplo, e para só referir um, o jogo faltasse uma par
a dinheiro, nomeadamente, nas formas de apostas e casinos virtuais. nível pessoal e de
Algumas décadas atrás, para apostar dinheiro num casino era necessária que ter acesso a
uma deslocação física. Ou seja, para perder dinheiro era necessária uma absolutamente ni
deslocação física (muitas vezes dissuasora), sendo que, agora, com o energia elétrica é
acesso fácil às redes de computadores, não é necessário sair de casa. Sem acesso à elet
dos equipamento
Esta é uma desvantagem importante da evolução das tecnologias e
a que, muito prox
que tenderá a aumentar no futuro com o aperfeiçoamento da realidade
organização do tr:
virtual a três dimensões, pois tornará as interações mais atrativos e logo
com maior capacidade de aumentar a dependência de comportamentos A tecnologia é
viciantes. volvimento huma
a
TECNOLOGIA 61

4. Risco de extinção da espécie humana

Esta é uma das mais sérias desvantagens da tecnologia, sendo no


entanto frequentemente esquecida. Desde a segunda metade do século XX
o ser humano possui a capacidade para extinguir a sua própria espécie.
As duas principais guerras do século XX causaram várias dezenas de
milhões de mortos com meios letais muito inferiores aos atualmente
existentes. No presente, a capacidade bélica de potências como os Esta-
dos Unidos da América e a Rússia é de tal dimensão que podem eliminar
a maior parte da humanidade em poucas horas recorrendo às suas armas
nucleares. Os poucos que escapassem à catástrofe inicial pequenas hipó-
teses teriam de sobreviver ao inferno que se seguiria à utilização destes
engenhos nucleares. Poder-se-á pensar que tal cenário nunca virá a ocor-
rer, pois os custos e as consequências seriam fatais para todos, não
havendo vencedores. No entanto, este cenário de destruição mútua é
pouco provável, mas não impossível de acontecer.

5. Grande dependência da tecnologia

Não é possível negar a importância da tecnologia nas nossas vidas. A


tecnologia não só torna mais confortável a nossa existência como contri-
bui para uma maior longevidade. De certa forma, começamos a sentir a
tecnologia como uma extensão do nosso corpo e quando somos privados
de algo proporcionado pela tecnologia, sentimo-nos quase como se nos
faltasse uma parte de nós próprios, gerando situações de ansiedade a
nível pessoal e desorganização a nível social. Porém, não pode afirmar-se
que ter acesso a telemóveis e à Internet sejam aspetos fundamentais e
absolutamente necessários para a vida humana. O acesso generalizado à
energia elétrica é também muito importante para a vida humana atual.
Sem acesso à eletricidade, não poderíamos conservar alimentos e muitos
dos equipamentos cujo funcionamento dela dependem parariam levando
a que, muito provavelmente, se tivessem que reinventar novas formas de
organização do trabalho e de organização social.
A tecnologia é pois e atualmente, indispensável ao progresso e desen-
volvimento humano.
FECNOLOGIA
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
62

Debrucem
3.4. O futuro: desemprego generalizado? máquinas estê
boradas, ou se
a que a podemos
No presente, a evolução da tecnologia é tão rápid rem muito tre
época de grandes
classificar como uma revolução: Vivemos numa cos médicos,
de abrandar. É pre-
mudanças devido à tecnologia que não mostra sinais bumana. Este
secundário possam
visível que muitos estudantes que estão agora no . areas e domín:
e exercer atividades que
dentro de poucas décadas desempenhar funções Enquanto
atualmente não existem. Bos físicos na
com base em tec-
No princípio do século XIX, a revolução industrial, * aprendizagem
rcionou grandes bene-
nologia assente em energia obtida do vapor, propo Situação, na a
base nessa tecnologia
fícios à humanidade. O surgimento de fábricas com — dos em funçõe
se tornassem mais baratos
levou a que muitos produtos (como os têxteis) * máquinas poc
ns mais baratas €
e permitiu que comboios e navios permitissem viage — mais barata. 1
rápidas. — =conteceu na
s milhões de pes-
Porém, também provocou o desemprego de muito empregos aco)
utilização de máquinas
soas por períodos longos de tempo uma vez que à “acontecer na £
intervenção da energia
impulsionadas pelo vapor tornou desnecessárias a ser resolvido.
Muitas pessoas, nessa
e habilidades humanas em muitas atividades.
ão, situação bas-
altura, foram lançadas no desemprego de longa duraç
ou existia de modo inci-
tante dramática, pois nessa altura não existia,
Síntes
piente, a segurança social.
está, em grande
Na atual revolução tecnológica, digital, a tecnologia - O car
ados trabalhos que
parte, a substituir ou, pelo menos, à alterar os cham as dif
físico, como acon-
exigem e assentam em inteligência e não em trabalho anos)
teceu na revolução industrial. tória
s funções admi-
A revolução em curso tem gerado a extinção de muita Depo
m atividades mais
nistrativas realizadas por humanos que desempenhava

*
noloç
s pessoas percam
elaboradas. Este facto levou, e está a levar a que muita Aume
realidade. Esta situa-
os seus empregos, e tenham que se adaptar à nova zação
os que não se conse-
ção está a provocar problemas de vária ordem entre comL
permanente € também
guem adaptar ao desemprego de longa duração ou (1) Pc
ia daqueles que
está a levar a uma baixa dos salários da grande maior utiliz:
que uma minoria, a que domina as
conseguem emprego. É evidente depe
ganhos salariais.
habilidades profissionais requeridas atualmente, terão - À fini
cado
() Harari (2017).
TECNOLOGIA 53

Debrucemo-nos mais em pormenor sobre esta nova realidade onde as


máquinas estão a ser utilizadas para realizar funções cada vez mais ela-
boradas, ou seja, funções que quando são realizadas por humanos reque-
rem muito treino e inteligência. Por exemplo, na realização de diagnósti-
cos médicos, cada vez mais as máquinas substituem a intervenção
humana. Este tipo de situação tem tendência a ocorrer em muitas mais
áreas e domínios do trabalho inteligente humano.
Enquanto na anterior revolução as pessoas foram expulsas de traba-
lhos físicos na indústria e na agricultura e muitas delas, após formação e
aprendizagem, conseguiram novos empregos, tendo-se estabilizado a
situação, na atual revolução muitos trabalhadores estão a ser substituí-
dos em funções que requerem inteligência e treino, uma vez que as novas
máquinas podem executar as tarefas melhor ou, pelo menos, de forma
mais barata. No cenário mais inquietante, nada nos garante que, como
aconteceu na anterior revolução, o fenómeno da destruição de muitos
empregos acompanhado da criação de também muitos empregos, volte a
acontecer na atual revolução. Este é um desafio que se colocará e terá de
ser resolvido.

| Síntese do capítulo

* O capítulo começa por apresentar a definição de tecnologia e mostrar


as diferentes fases da sua evolução: (1) Pré-História (há mais de 10.000
anos); (2) História (de há 10.000 anos até ao final do século XVIII); 3) His-
tória Moderna (desde o século XIX).
Depois são apresentadas as diversas vantagens e desvantagens da tec-
nologia. As vantagens: (1) Aumento da produção de alimentos; (2)
Aumento da produção de bens e serviços; (3) Conforto; (4) Melhor utili-
zação de recursos naturais; (5) Facilidade em viajar; (6) Melhoria das
comunicações; (7) Melhoria dos cuidados de saúde. As desvantagens:
(1) Poluição; (2) Esgotamento dos recursos naturais; (3) Perturbações na
utilização do tempo; (4) Risco de extinção da espécie humana; (5) Grande
dependência da tecnologia.
A finalizar, aborda-se o modo como a tecnologia está a alterar o mer-
cado de trabalho.
dm
o
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

Do ro a a Ri
1. Tendo em conta a definição de tecnologia utiliz
ada neste livro, indique
atividades que faz, diariamente, que podem
ser incluídas no âmbito
deste conceito.
2. Como tem variado o ritmo de evolução da
tecnologia da humanidade
ao longo dos tempos?
3. Escolha uma vantagem da tecnologia e
explique como esta influência
a sua vida.
4. Escolha uma desvantagem
Ino
da tecnologia e explique como esta
influência a sua vida.
5. Considera que o seu emprego atual irá
ser muito influenciado pela
evolução tecnológica nas próximas décadas?
Se perder o seu emprego
atual irá ser fácil encontrar outro onde ganhe
, pelo menos, o mesmo?

Objeti
E Bibliografia
«Comp
Harari, Y. N. (2015). Sapiens: A Brief History
of Humankind. USA: Harper. * Conhe
Harari, Y. N. (2017). Homo Deus: A Brief History
of Tomorrow. USA: Vintage. * Discut
Liddell, H. G.; Scott & R.; 1980. A Greek-English e
Lexicon. Great-Brtain: Oxford University. es.
Morris, D. (1994). The Naked Ape: A Zoologist's
Study ofthe Human Anim. USA Vintage.
º Ene
viços c
Capítulo 4

Inovação nos serviços


Luísa Cagica Carvalho

Objetivos de aprendizagem
* Compreendero conceito de serviço.
* Conhecer a abordagem de inovação nos serviç
os.
* Discutir casos de inovação nos serviços impulsiona
da pelos clien-
tes.

* Entender no contexto atual a importância da inovaç


ão nos Ser-
viços de Apoio às Empresas (KIBS).
INOVAÇÃO NOS SERVIÇOS 67

4.1. Serviços

A evolução do setor serviços, em particular, nas economias ociden-


tais, tem vindo a acentuar a sua importância na criação de riqueza e de
empregos. Todavia, o setor dos serviços é, ainda, um setor relativamente
pouco investigado, sobretudo, no que respeita à inovação. O que se pode
justificar, por um lado, pela dificuldade em definir serviço, e, por outro
lado, pelas suas caraterísticas e pela rápida evolução da sociedade no
sentido da desindustrialização.
A sociedade atual tende a tornar-se numa sociedade de serviços!
prevalecendo o papel da informação e do conhecimento. O crescimento
económico das últimas décadas está em parte associado ao desenvolvi-
mento deste setor, que incluí um conjunto de empresas que recorrem à
inovação para melhorarem a eficiência e a qualidade no processo de pro-
dução dos serviços e para desenvolverem novos conceitos de serviço.
Desde os trabalhos pioneiros de Fischer? e Clark3 quando é identifi-
cado um grupo de atividades com expressiva participação no PIB, e que
ficou denominado por setor terciário, vários autores e estudos têm reali-
zado esforços no sentido de caraterizar o setor e definir o que se entende
por serviço.
Serviço pode ser definido como a combinação entre resultados e
experiências prestadas e recebidas por um cliente, e podem ser classifica-
dos como atividades que não produzem ou modificam os bens materiais.
Tradicionalmente associam-se ao setor dos serviços taxas de crescimento
de produtividade baixas, o que poderá estar relacionado com as dificul-
dades em medir inovação nos serviços e à utilização de indicadores ina-
propriados ao setor. Neste setor, o número de patentes tende a ser baixo,
pela dificuldade em proteger o conhecimento, ainda que nos últimos

Do que tem subjacente dois aspetos fundamentais, nomeadamente, as alterações na natureza e


na estrutura competitiva de alguns mercados de serviços e o processo de interação baseado nas
oportunidades criadas através do incremento na utilização das novas tecnologias de informa-
ção e de comunicação.
(2) pischer (1939), Citado por Carvalho, 2008.
(8) Clark (1940), Citado por Carvalho, 2008.
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR INOVAÇÃO NOS SERVIÇ
sa

casos, como Os
anos esta situação se tenha vindo a alterar em alguns
s e imobiliários.
serviços ligados às TIC, serviços financeiros, seguradora
empresas de
O setor serviços aglutina um conjunto de atividades,
«A inovação nos «
rizando-se pela
diversas dimensões, de natureza pública e privada, carate é, as empresas ad
e estrutura de
sua heterogeneidade, em termos de produto, processo de informação e
das atividades
mercado. Os serviços caraterizam-se pela heterogeneidade (inovação no prc
ibilidade, que se
(dimensão e mercado), pela imaterialidade e pela intang gera uma melhori
às transações: Os
traduzem em duas caraterísticas económicas inerentes
fornecidos, e, fine
ipa no processo base para um nov
serviços são efémeros e, por vezes, O consumidor partic
interação entre O
de produção (coprodução), o que envolve uma forte
«Inovação nos sei
nos procediment
com um forte ele-
produtor /consumidor, e, consequente, customização necessário para €
s, caso
mento de adaptação às caraterísticas e às necessidades dos cliente curto (..). O proces
serviços de consultadoria, advocacia, engenharia, entre
evidente nos «Inovação nos se
outros. rado com a indi
por uma maior
serviço, novas ir
comparativamer

«Comparativame
4.2. Inovação nos serviços são não tecnoló
processo e nos p
jus-
As caraterísticas peculiares do setor e o seu recente crescimento «Um processo «
larment e,
tificam a existência de poucos estudos sobre serviços e, particu componentes. U
am
sobre inovação no setor dos serviços, cujos primeiros estudos surgir
dos recursos hur

a inova- adicionar valor a


apenas na década de noventa. Sendo numa fase inicial definida ing, canais de di
da a
ção nos serviços, em contraponto com o setor industrial, é assumi mente indissoc
ísticas
importância do setor para a inovação, ainda que este reúna carater organizacionais,
serviços.
específicas! A Tabela 4.1 aponta três definições de inovação nos tecnologia, sobr
com o
Interessante será notar que duas das definições são comparativas
cas indispensáve

setor industrial. Fonte: Carvalho, 2008, a

A inovaçã
novas formas
cionamentos
ções e desenv
dos materiais
estratégias de
(1) Carvalho (2008).
INOVAÇÃO NOS SERVIÇOS sa

Tabela 4.1. Inovação nos Serviços

Inovação nos serviços... Autores

«A inovação nos serviços, em muitos casos, funciona em Ciclo Reverso (isto Barras,
é, as empresas adotam uma nova tecnologia, por exemplo, uma tecnologia (1986: 165)
de informação e comunicação para melhorarem um processo existente
(inovação no processo), numa segunda fase essa melhoria do processo
gera uma melhoria significativa na qualidade e na distribuição dos serviços
fornecidos, e, finalmente numa terceira fase, a tecnologia funciona como
base para um novo serviço (inovação no produto)».
«Inovação nos serviços refere-se essencialmente a pequenos ajustamentos Sundbo
nos procedimentos de caráter incremental e raramente radical. O tempo e Gallouj,
necessário para o desenvolvimento da inovação nos serviços é geralmente (1999:9)
curto (...). O processo de inovação nos serviços é normalmente muito prático.»

«Inovação nos serviços é por definição multidimensional. Quando compa- Van Ark
rado com a indústria, por exemplo, a inovação nos serviços carateriza-se etal.,
por uma maior ênfase na dimensão organizacional (novos conceitos de (2003:5)
serviço, novas interfaces com os clientes novos sistemas de distribuição)
comparativamente às opções tecnológicas.»
«Comparativamente com a indústria a maioria das inovações nos serviços OECD
são não tecnológicas e resultam de pequenas melhorias incrementais no (2000: 16)
processoe nos procedimentos que não requerem I&D formal.»

«Um processo de caráter eminentemente incremental, que inclui duas Carvalho,


componentes. Uma componente não tecnológica, intangível dependente (2008: 170)
dos recursos humanos, da estrutura organizacional e de fatores que podem
adicionar valor ao serviço do cliente numa perspetiva de mercado (market-
ing, canais de distribuição, etc.). E, de uma componente tecnológica, atual-
mente indissociável da primeira componente, pois muitos processos
organizacionais, de marketing e distribuição estão hoje dependentes da
tecnologia, sobretudo das TIC, mas também de outras tecnologias específi-
cas indispensáveis à prestação de um conjunto de serviços».

Fonte: Carvalho, 2008, adaptado.

A inovação neste setor é muitas vezes não tecnológica, baseia-se em


novas formas de organizar os recursos humanos, na promoção dos rela-
cionamentos de caráter informal para potenciar a partilha de informa-
ções e desenvolver o espírito de grupo, na redução do uso de determina-
dos materiais e poupanças de energia ou consumíveis, em alterações nas
estratégias de marketing, na criação de novos interfaces com os clientes,
INOVAÇÃO NOS SERVIL
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
TO

Caso da DHL:
de novos canais de distribuição, de novas técnicas de gestão ou de aumento
de flexibilidade das empresas. A DHLé a
As caraterísticas do setor serviços, particularmente a sua heteroge- nível mundial
neidade geram questões no agrupamento de serviços. Várias classifica- boração com :
ções foram encontradas para o agrupamento de serviços" pareceu-nos cadeia de disi
que cada autor acaba por os agrupar atendendo à intensidade tecnológica com clientes, :
utilizada e também às caraterísticas da amostra a que se aplica o estudo. a DHL partici
Sabendo-se que estas amostras estão muito dependentes da estrutura para cocriarei
produtiva da economia onde foram recolhidas. Uma das
consiste num
numa muda
4.2.1. Inovação impulsionada pelos clientes oito minutos
minutos a se
Conforme mencionámos anteriormente, a inovação nos serviços
Por outr:
implica muitas vezes a coprodução pelos clientes. Os processos de cocria-
ção com os clientes são atualmente adotados por muitas marcas que tra- na empresa.
balham em cooperação com os clientes para o desenvolvimento e teste melhorando
dos serviços, antes até destes serem lançados no mercado. fidelização d

Existem vários exemplos de marcas que colocam o cliente no centro


das suas operações para o desenvolvimento de marcas, num processo Caso do Mi
também denominado por inovação centrada no cliente. Vejamos alguns para lançal
exemplos de seguida.
Para un
qualquer at
colaboraçãc
java introdt
(1) Citados por Carvalho, 2008:
dispositivos
Hauknes (1998: 25) «Trade; Transport and logistic; Financial services; Consultancy services;
Telecom services; Broadcasting services; Health services; Other services». a marca ati
Hollenstein, (2000: 17) «Whole sale trade; Retail trade; Hotels and restaurants; Transport/ rios e desig
/communication; Banking /insurance; Real estate; IT and R&D services; Business services; a imagem €
Personal services».
riências, et
Licht et al. (1999) «Wholesale trade; Retail trade; Transport; Banking, Insurance; Finan-
cial consultants; Software; Technical consultants; Other business services».
Sundbo e Gallouj (1999: 7) «Wholesale and! retail; Transport; Telecommunication services; Caso do
Communication, publishing and entertainment services; Postal service; Hotel and restau-
rant; Tourism; Finance; Estate agent; Business services; Engineering consultancy; Machine A emp:
toll trade and service supply; Architecture; Cleaning and other operational-physical servi- Made.com
ces; Health care services; Ambulance, fire, car breakdown, guard service; Community and
mãos dos «
social services; Public administration».
INOVAÇÃO NOS SERVIÇOS 71

Caso da DHL: Cocriação de serviços de distribuição para o futuro

A DHL é atualmente a maior companhia de distribuição de logística a


nível mundial. Esta empresa reconhece a importância de inovar em cola-
boração com os seus clientes. Para ultrapassar os desafios e melhorar a
cadeia de distribuição e logística, esta empresa desenvolveu workshops
com clientes, na Alemanha e em Singapura. Estes clientes fidelizados com
a DHL participaram em mais do que 6000 eventos incluindo workshops
para cocriarem soluções que melhorassem a sua experiência como clientes.
Uma das inovações que resultou destas ações foi o Parcelcopter, que
consiste num teste usando drones para a distribuição que pode resultar
numa mudança radical no setor. Este drone precisa apenas de cerca de
oito minutos para distribuir o correio que em regra levaria cerca de 30
minutos a ser feito usando uma viatura.
Por outro lado, estas ações de cocriação têm tido impactos positivos
na empresa, melhorando a satisfação dos clientes em cerca de 80%,
melhorando o tempo de distribuição em cerca de 97% e melhorando a
fidelização dos clientes.

Caso do Manchester City FC: Recolha do feedback dos fãs


para lançar novas marcas

Para um clube de futebol tão amado como o Manchester City FC,


qualquer atualização na marca ou no website tem de ser desenvolvido em
colaboração com os fãs, antes de ser lançado no mercado. O clube dese-
java introduzir melhorias no website e melhorar a experiência no uso dos
dispositivos móveis. Para esse efeito, o clube lançou ações para melhorar
a marca através da realização de grupos focais, inquéritos, testes a usuá-
rios e designs de protótipos. Em conjunto o clube e os adeptos cocriaram
a imagem e utilização dos dispositivos móveis, criaram vídeos com expe-
riências, etc., tudo num contexto de adaptação a um design mais moderno.

Caso do Made.com: Emergência de novos talentos

A empresa de e-commerce de venda de mobiliário denominada por


Made.com, colocou o poder de decisão sobre o design das suas peças nas
mãos dos seus clientes, que acompanham e alvitram sobre as peças desde
INOVAÇÃO NOS SERVIÇE
72 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

bilidade ou serv
o desenho até à produção. Esta empresa é na verdade uma comunidade
limpezas indust
online, onde os clientes carregam as suas fotos na plataforma da
Made.com com os móveis que têm em suas casas e partilham ideias sobre
Tabela
design de interiores.
Esta empresa lança um concurso anual online (Made talent lab) onde
Classificação das
descobre novos designers que submetem à votação os seus trabalhos a atividades (CAE)
outros designers e clientes. O design mais votado, vê a sua peça produ-
72.1-6
zida e colocada à venda em 12 meses. Esta é um bom exemplo de cocria-
ção pois permite a expressão criativa dos clientes que participam na cria-
ção das peças, partilhando as suas preferências, conhecimentos e estilo
contribuição para dar vida à marca.
7411,74.12, 74.14

4.3. Justifica-se um olhar particular sobre


7413, 74.4
os Serviços de Apoio às Empresas?
74,2,74.3
A sociedade de informação e do conhecimento, impulsionaram o
papel e a importância dos serviços, particularmente nas economias da
OCDE. Acompanhando esta tendência, começa-se a dar maior relevo aos
serviços de apoio às empresas. Os serviços de apoio às empresas (SAE) 71.1,71.21-23,

são compostos por diferentes atividades, incluindo serviços de consulto- 71.31-33

ria altamente avançados, tais como, consultoria de gestão ou serviços


informáticos, serviços profissionais, como por exemplo a engenharia e os
serviços jurídicos, serviços de marketing, como a publicidade ou a orga- 74.5
nização de feiras ou de exposições, serviços com grande intensidade de 746,74.7
mão-de-obra, tais como, serviços na área dos recursos humanos e servi-
cos operacionais, como a limpeza e os serviços de segurança
7481-84
Assume-se a importância do estudo destes serviços pelos efeitos
positivos que produzem sobre a competitividade de outras empresas e
pelo valor acrescentado gerado. Estes serviços agrupam-se em atividades
secundárias profissionais (como o desenvolvimento de software, conta- Fonte: Comissão Europeia, 1

() Comissão Europeia (1998).


INOVAÇÃO NOS SERVIÇOS va

bilidade ou serviços legais) ou atividades secundárias operacionais (como


limpezas industriais ou serviços de segurança) (vide Tabela 4.2)

Tabela 4.2. Classificação dos serviços prestados às empresas

Classificação das Servicos Atividad .. am


sindados (CAE) erviç Ividades mais importantes

721-6 Informáticos * Consultoria em equipamento informático


* Consultoria de programação informática
* Processamento de dados
- Atividades de bancos de dados

74.11,7412,7414 Profissionais * Atividades jurídicas

* Atividades de contabilidade e de consultoria


fiscal
* Consultoria de gestão

74.13, 744 Marketing * Estudos de mercado


* Publicidade

74.2,743 Técnicos * Atividades de arquitetura

* Atividades de engenharia
* Ensaios e análises técnicas

711,71,21-23, Aluguer * Aluguer de equipamentos de transporte


71.31-33 para construção
* Alugueres de máquinas para escritório
incluindo computadores

74.5 Seleção de pessoal + Seleção e colocação de pessoal

746,74.7 Operacionais * Atividades de segurança

- Atividades de limpeza industrial

7481-84 Outros * Atividades de secretariado e de tradução


* Atividades de embalagem
* Feiras e exposições

Fonte: Comissão Europeia, 1998: 8, citado por Carvalho, 2008.


4 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
MES SÇÃO NOS SERVIÇOS

O valor acrescentado para a economia dos serviços prestados às empre- Emaduzem-se em ati
sas representa cerca de 72% do gerado pela indústria transformadora “so mais adequado
sendo seis vezes superior ao da agricultura. O valor absoluto do emprego dos serviços presta
na UE equivale ao emprego no conjunto dos setores bancário, segurador, “de comercialização,
dos transportes e das comunicações, aproximando-se do emprego total no “dos pela proximidac
setor do comércio grossista e retalhista, sendo, no entanto, na sua maioria, mente na maioria «
contrariamente a esses setores, este é em regra de elevado valor acrescen- Pequenas empresa:
tado e bem remunerado. No que concerne à produtividade, revela valores “segmentos de merc
mais elevados, comparativamente aos outros serviços. Emovaçãoe a forte cc
Os serviços de apoio às empresas caraterizam-se por terem outputs Pelas razões em
intangíveis, pela interação entre o produtor e o cliente e por fornecerem == inovação devem
ativos intangíveis. O incremento dos serviços de apoio às empresas nos “pera a inovação no
últimos anos, deve-se ao facto de muitas empresas optarem por subcon- montribui significati
tratar um conjunto de serviços, ao invés de os integrarem na sua estru-
processos, quer dir
tura empresarial, o que permite às empresas que os contratam uma miras empresas, qu
maior concentração no seu core business. Este subsetor permanece gerada pelas emprr
pouco estudado, em particular, na economia portuguesa, não se terem
Forma, os serviços ]
encontrado poucos estudos exclusivamente dirigidos à economia portu- Do
nidades inovador
guesa sobre este setor, são ainda mais raros os que tratam o tema da ino-
vação nestes serviços em particular! Dentro dos ser
mowledge Intens
Emovação das outra
4.3.1. Inovação nos Serviços de Apoio às Empresas empresas, ajudandc
== numa fonte de c
A sociedade da informação e do conhecimento, impulsionaram o Emas high tech inte
papel e a importância dos serviços nas economias da OCDE. Acompa- TXC e dependem do
nhando esta tendência, começa-se a dar maior relevo aos serviços de áreas, tais com:
apoio às empresas. Estes serviços contribuem para o aumento da compe- ecendo ter um F
titividade do setor industrial, nomeadamente aqueles que se caraterizam imovação? Um es
pela utilização intensiva de conhecimentos, ao permitirem a transferên- processo de ino*
cia de informações estratégicas que possibilitam a adaptação da indústria Das de informaçãc
ao desenvolvimento tecnológico e à internacionalização. Consequente- mmnhecimento dos s
mente, estes constituem um fator fundamental de inovação tecnológica, são de inovações tec
pois as empresas utilizadoras destes serviços têm de muitas vezes, intro-
duzir novas tecnologias para utilizarem estes serviços, por conseguinte
de= Hertog e Bilderbee
— Sstonelli (1999); Miles
6) carvalho (2008).
* Astonelli (1998), citade
INOVAÇÃO NOS SERVIÇOS
Ta

traduzem-se em atualizações da base tecnológica industrial,


permitem o
uso mais adequado da tecnologia existente e a expansão
dos mercados
dos serviços prestados às empresas aumentando as suas possib
ilidades
de comercialização, principalmente no que se refere aos
serviços limita-
dos pela proximidade geográfica. Estes serviços têm crescido
substancial-
mente na maioria dos países da OCDE, são geralmente domin
ados por
pequenas empresas, ainda que existam grandes empres
as em alguns
segmentos de mercado. A procura deste tipo de serviço
é pró-ciclíca. A
inovação e a forte concorrência geram uma forte dinâmica de
mercado.
Pelas razões enunciadas, a União Europeia defende que
as políticas
de inovação devem centrar-se na criação de uma boa base
tecnológica
para a inovação no setor dos serviços prestados às empres
as, pois este
contribui significativamente para a inovação não técnica dos
produtos e
processos, quer diretamente, devido à natureza dos serviços
prestados a
outras empresas, quer indiretamente, através dos efeitos
da concorrência
gerada pelas empresas que beneficiaram dos serviços presta
dos. Desta
forma, os serviços prestados às empresas promovem toda
uma série de
atividades inovadoras.
Dentro dos serviços de apoio às empresas, destacam-s
e os KIBS
(Knowledge Intensive Business Services) pelo seu papel
na difusão da
inovação das outras empresas. Os KIBS facilitam
a inovação noutras
empresas, ajudando a difundir os conceitos e ideias inovad
oras tornam-
-se numa fonte de capital intangível! Os KIBS são compa
ráveis às indús-
trias high tech intensivas em tecnologia, são especializad
os, utilizam as
TIC e dependem do conhecimento ou da experiência profis
sional atuando
em áreas, tais como, a consultoria, a formação,
a informática e a I&D,
parecendo ter um papel importante na inovação e sobret
udo na difusão
da inovação? Um estudo? sugere que os KIBS têm um
papel fundamental
no processo de inovação, ao permitirem a penetração
de novas tecnolo-
gias de informação e serviços relacionados, facili
tarem a difusão do
conhecimento dos serviços de conhecimento intensivo
e na criação e ado-
ção de inovações tecnológicas e organizacionais.

(9) den Hertog e Bilderbeek (1998), citado por Carvalho, 2008.


(2) antonelli (1999); Miles et al. (1995), citado por Carvalh
o, 2008.
(3) Antonelli (1998), citado por Carvalho, 2008.
76 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA— UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR INGVAÇÃO NOS SERA

Por conseguinte, o papel desempenhado pelos KIBS no apoio e difu- Estudos e


são ao processo de inovação dos seus clientes, foi dividido em três tipos: ção (CIS) con
(1) Facilitadores, apoiam o processo de inovação das suas clientes mas dos mais ativ
esse processo não foi originado pela empresa KIBS; (2) Transportadores, ções seja criac
os KIBS têm o papel de transferir a inovação de uma empresa ou indús- quente relativ:
tria para a empresa do seu cliente, mas não são os criadores da inovação; tes, assim tor
(3) Recurso, a empresa dos KIBS origina o processo inovador e na intera- maioria dos re
ção com o seu cliente difunde a inovação. mente em api

A literatura! identifica dois tipos de KIBS. O primeiro grupo são servi- Unido revelan
ços profissionais tradicionais, onde se incluem os serviços de contabili- aprenderem n
dade, apoio legal e baseiam-se em sistemas administrativos de conheci- computadores
mento especializado e negócio. Este grupo é essencialmente utilizador de contexto, Mile
novas tecnologias. O segundo grupo é formado pelos denominados novos mercado de tr
serviços relacionados com a tecnologia e com a produção e transferência dendo à impo;
de conhecimento baseado em novas tecnologias, por vezes é denominado em geral estes:
por t-KIBS, e inclui serviços de informática, consultoria de software e
hardware, engenharia técnica e I&D. As empresas deste grupo produ-
zem, predominantemente, conhecimento para ser incorporado nos pro- 4.3.2. Apro
cessos de produção dos seus clientes, sendo intrinsecamente inovadores
Tal como f
e facilitando a inovação nos outros setores. A Tabela 4.3 apresenta uma
idêntica à utili;
gama de serviços e o papel dos KIBS na inovação.
a inovação nos
diferentes para
Tabela 4.3. Papel dos KIBS na Inovação que reduz a ino
ou de diferenci
Serviços Diretamente relacionados com a inovação, por exemplo a I&D reza e organiza:
Renewal e serviços de Consultadoria Estratégica tindo de uma |
Serviço Contribuem diretamente para a manutenção e gestão de vários trabalho comur
Routine subsistemas e organizações, por exemplo: serviços de contabilidade numa nova defi
Serviços Ajudam as organizações a lidarem com os aspetos de natureza legal
No caso dos
Compliance e regimes de regulação, por exemplo, serviços jurídicos e de auditoria
aos mecanisme
Serviços Facilitam a comunicação, a partilha de conhecimento e flexibilizam
Relativamente à
Network a afetação de recursos
e/ou através do
Fonte: OCDE, 2006, citado por Carvalho, 2008,

() Miles (2003), cita


O) Miles (2008), citac
() Miles et al. (1995), citado por Carvalho, 2008. (3) Gallouj e Savona C
INOVAÇÃO NOS SERVIÇOS ar

Estudos empíricos usando dados do Inquérito Comunitário à Inova-


ção (CIS) confirmam que este setor é tecnologicamente orientado, e um
dos mais ativos em termos de inovação! ainda que a maioria das inova-
ções seja criada especificamente para um cliente e tenham um uso subse-
quente relativo. Estes serviços funcionam como interfaces com os clien-
tes, assim tornam-se agentes intermediários no sistema de inovação. A
maioria dos recursos humanos é altamente qualificada, e estão continua-
mente em aprendizagem ao longo da vida. Dados referentes ao Reino
Unido revelam que os trabalhadores deste setor estão mais propensos a
aprenderem novas matérias, a receberem formação, a trabalharem com
computadores e a transitarem entre diferentes tipos de trabalho. Neste
contexto, Miles? sugere que os KIBS podem promover a mobilidade no
mercado de trabalho e a difusão do conhecimento na economia. Aten-
dendo à importância destes serviços para os outros setores e empresas
em geral estes tornam-se estratégicos para as economias.

4.3.2. Apropriação da inovação: o caso dos KIBS


Tal como foi mencionado anteriormente, o uso de uma perspetiva
idêntica à utilizada para a indústria, também foi seguida para identificar
a inovação nos serviços. Gallouj e Savona? mencionam três orientações
diferentes para fazer essa identificação — tecnológica ou de assimilação,
que reduz a inovação nos serviços à tecnologia; orientada para Os serviços
ou de diferenciação e que procura identificar particularidades na natu-
reza e organização da inovação; integrativa ou de sintetização e que par-
tindo de uma base de convergência, procura encontrar um modelo de
trabalho comum para a inovação nos serviços e na indústria e é baseada
numa nova definição de produto.
No caso dos KIBS, a diferenciação é extremamente importante devido
aos mecanismos próprios baseados no tratamento do conhecimento.
Relativamente às questões da propriedade através do registo de patentes
e/ou através do registo de marcas, partilham-se algumas considerações:

0) Miles (2003), citado por Carvalho, 2008.


(2) Miles (2008), citado por Carvalho, 2008.
(3) Gallouj e Savona (2009).
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR INOVAÇÃO NOS SE
78

« A questão da apropriação não é uma questão entendida como parti- * Desde


servi- ligados
cularmente importante por parte da maioria das empresas de
cos (exceção feita para as empresas de I&D e serviços de engenharia). Ao longc
. Dentro das várias ferramentas de proteção da propriedade, o registo setor també
de patentes é a menos importante para as empresas de serviços
cado em ma
(com exclusão das empresas de I&D). Uma das razões desta situa- Os ponti
em
ção tem a ver com o facto de que, aquilo que os serviços produz
são os segui)
não é tangível, logo não é passível de codificação.
« São ess
« As empresas dos serviços fazem um maior uso do registo de marcas,
Registi
do que do registo de patentes.
o de indúst
« O uso de marcas registadas, vai muito além da simples proteçã
e é usada tam- « Registe
propriedade. É uma forma de divulgação comercial
a. urbanc
bém em termos de marketing para divulgar e projetar a empres
não
Existem, portanto outras formas de proteção de propriedade
como
formais e formas de construir e explorar vantagens competitivas,
fortes
por exemplo a retenção de pessoal qualificado, a manutenção de
de elevados,
taços com os cientes e a manutenção de padrões de qualida ( Ssinte
bem como o facto de as empresas conseguirem chegar aos mercados com
determinado produto/serviço antes de outras. - Apre
servi

* Discl
4.3.3. Os KIBS em Portugal ticul:

No Norte da Europa assistimos ao longo dos últimos anos ao estudo * Intro

mais aprofundado sobre as diversas facetas dos KIBS. Em países como a e Apre
Finlândia, Suécia, Noruega, Reino Unido ou Alemanha, o estudo destas VOS |
empresas começou e desenvolveu-se com o despertar desse próprio inte-
resse! Não é portanto, de estranhar, que o conhecimento que se tem dos
KIBS desses países, seja neste momento consistente e difundido. A aná-
lise a estes serviços permitiu concluir existirem vários estádios de evolu-
ção:
« No início dos anos noventa eram essencialmente serviços de apoio,
nomeadamente serviços legais, contabilidade, gestão e marketing.

€) Carvalho e Pinto (2013).


INOVAÇÃO NOS SERVIÇOS
79

* Desde os anos 2000 aparecem com maior incidência os serviços


ligados ao I&D e de gestão das tecnolog
ias da informação.
Ao longo do tempo o perfil dos recu
rsos humanos que atuam neste
setor também muda, passando a inte
grar cada vez mais pessoal qualifi-
cado em maior número.
Os pontos similares dos KIBS port
ugueses com os de outros países
são os seguintes:
* São essencialmente PME.
* Registam uma taxa de crescimento
superior aos outros setores da
indústria e dos serviços em geral.
* Registam uma incidência geográfi
ca maior nos grandes centros
urbanos.

pu
E
Síntese do capítulo

* Apresenta-se o conceito de serviço e os elementos


que permitem definir
serviço.
* Discute-se o conceito de inovação nos serviços
atendendo às suas par-
ticularidades.
* Introduzem-se três casos de cocriação de inovação
nos serviços.
* Apresentam-se os serviços de apoio às empresas
e invocam-se os moti-
vos para o estudo da inovação neste subgrupo
dos serviços.
80 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIELINAR

1. Defina serviço.
2. Explique no que consiste a inovação nos serviços, atendendo à evolu-
ção histórica deste conceito.
3. Pesquise e apresente outros casos de inovação nos serviços.
4. Discuta a relevância da inovação nos Serviços de Apoio às Empresas
no contexto empresarial atual.

E Bibliografia

Carvalho, L. (2008) Empreendedorismo e Inovação: Um Modelo para o Sector dos Servi-


ços. Tese de Doutoramento em Gestão. Universidade de Évora, Portugal.
Carvalho, L.; Pinto, S. (2013) Portuguese knowledge intensive business services: What do
we know about them? Tourism & Management Studies, Volume 9, 1, p. 101-108,
Gallouj F., Savona M. (2009), Innovation in services: a review of the debate and perspecti-
ves for a research agenda, The Journal of Evolutionary Economies, Volume 19, 2, p.
149172.
Capítulo 5

Gestão da inovação
e transferência
de tecnologia
Mário Carrilho Negas

Objetivos de aprendizagem
* Identificar os fatores que influenciam o processo de inovação.
* Identificar os modelos de processos de inovação.
* Conhecer os fatores motivadores das organizações à prática da
inovação aberta.
GESTÃO DA INOVAÇÃO E TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA
83

A pertinência da inovação está amplamen


te documentada, tanto na
academia como no mundo empresarial, várias são
de as referências
sucesso, onde o ingrediente inovação
foi preponderante. Longe está o
tempo em qua a abordagem à inovação
é referenciada como assunto de
momento.
Como referido anteriormente, o Manu
al de Oslo! refere como condi-
ção para uma empresa ser definida como
inovadora o facto de ter imple-
mentado com sucesso produtos ou processo
s tecnologicamente novos ou
aperfeiçoados, sendo também considerada
a combinação de produtos e
processos, durante um determinado
período de análise. As empresas
onde a competitividade está fortemente
dependente da aplicação siste-
mática do desenvolvimento de novos prod
utos ou processo inovadores, e
onde a intensidade do conhecimento cient
ífico e tecnológico suporta o
diferencial sobre a concorrência, com
o aumento de valor acrescentado
para o cliente, e desejavelmente maiores
margens de lucro para a empresa,
são empresas inovadoras. É de referir
que as empresas inovadoras
enfr entam obstáculos relevantes, tais como
, elevados custos de inovação,
riscos económicos excessivos, Pouca ofert
a de pessoal qualificado, escas-
sez de fontes de financiamento, condiçõe
s de mercado. Dependendo da
dimensão da empresa, do setor de ativi
dade e da competitividade do
mercado os fatores que influenciam o dese
mpenho do processo de inova-
ção têm diferente relevância. A gestão da
inovação tem necessariamente
que atender a todas estas condicionant
es, e ainda aos fatores que influ
en-
ciam o processo de inovação. Os fator
es que influenciam a inovação
podem agrupar-se em fatores internos
, externos, operacionais e pós-
“desenvolvimento.

() Manual de Oslo (1997).


Ba INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR GESTÃO DA INOVAÇÃO E

Tabela 5.1. Fatores que influenciam a inovação


Os autores T
em desenvolver
Fatores internos Autores
estabilidade, m:
Liderança orientada à Kline e Rosenberg (1986), Rothwell (1994), Teece (1996), elevada incerte:
inovação e cultura inovadora Tang (1998), Galanakis (2006)
Porque inovar n
Procedimentos Kline e Rosenberg (1986), Porter (1990), Rothwell (1994) tos gestores atri
e prospeção de mercados
feitos com a ges
Seleção de projetos Kline e Rosenberg (1986), Galanakis (2006) titividade da ei
promissores
gestão da inova
Utilização de feedback Kline e Rosenberg (1986), Rothwell (1994), Galanakis (2006) gestão da inova
do mercado
gos períodos de
Fatores externos Autores
lançar novos pr
Apoio do governo Porter (1990), Teece (1996), Tang (1998), Etzkowitz e preciso fazê-lo :
Leydesdorff (2000), Godin (2005), Galanakis (2006) inovar melhor,
Apoio da universidade Tang (1998), Etzkowitz e Leydesdorff (2000), Godin (2005) ção encontra sl
Apoio de fornecedores Porter (1990), Rothwell (1994) relevantes e fat
Apoio de clientes Rothwell (1994), Kline e Rosenberg (1986), Teece (1996)
campo fértil d
(desenvolver o
Fatores operacionais Autores
das. No que ré
Infraestrutura de P&D Porter (1990), Rothwell (1994), Teece (1996), Etzkowitz
direção a segui
e Leydesdorff (2000), Godin (2005), Galanakis (2006)
junto de critéri
Estrutura financeira Kline e Rosenberg (1986), Porter (1990), Teece (1996),
zacionais, enql
Etzkowitz e Leydesdorff (2000)
tuais, infraestm
Capital intelectual humano Kline e Rosenberg (1986), Porter (1990), Tang (1998),
Segundo o
Rothwell (1994), Etzkowitz e Leydesdorff (2000),
Galanakis (2006) quando impler
cesso, novo mé
Procedimentos de gestão Rothwell (1994), Kline e Rosenberg (1986), Galanakis (2006)
de projetos lho ou relações
mente melhor:
Tempo dedicado Rothwell (1994), Kline e Rosenberg (1986), Galanakis
ao desenvolvimento (2006), Tang (1998)

Fatores pós-desenvolvimento Autores

Registo de patentes Siliprandi, Ribeiro e Danilevicz (2012)

Apoio na instalação Siliprandi, Ribeiro e Danilevicz (2012)

Apoio na utilização Siliprandi, Ribeiro e Danilevicz (2012) (D Tidd, Bessant e!


Avaliação pós-venda (2) Tidd, Bessant e:
Siliprandi, Ribeiro e Danilevicz (2012)
(3) Little (2004).
() Oslo Manual (2€

>>>
GESTÃO DA INOVAÇÃO E TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA 85

Os autores Tidd, Bessant e Pavitt! referem a importância das empresas


em desenvolverem formas de gestão de inovação, quer em contextos de
estabilidade, mas principalmente fazê-lo com sucesso em condições de
elevada incerteza (em contexto de alterações constantes e profundas).
Porque inovar não é fácil? um estudo de Little? refere que apesar de mui-
tos gestores atribuírem importância à inovação, contudo não estão satis-
feitos com a gestão da inovação. Se a inovação pode aumentar a compe-
titividade da empresa, também requer sólida competência ao nível da
gestão da inovação. Dificilmente empresas com deficitários processos de
gestão da inovação conseguem ser, ou manter a competitividade por lon-
gos períodos de tempo, isto porque, não é por si só suficiente conseguir
lançar novos produtos, realizar o desenvolvimento de novos processos, é
preciso fazê-lo com sustentabilidade empresarial, o que também implica
inovar melhor, mais rápido e durante mais tempo. O processo de inova-
ção encontra sustentabilidade nas pessoas, estratégia, processo, recursos
relevantes e fatores chave de sucesso. A gestão da inovação tem aqui um
campo fértil de atuação, as pessoas necessitam de serem motivadas
(desenvolver o interesse e o desejo por inovar) e devidamente capacita-
das. No que respeita à estratégia, importa melhor identificar o rumo,
direção a seguir, processo de planeamento, criatividade e visão. O con-
junto de critérios, métodos e técnicas remetem para os processos organi-
zacionais, enquanto nos recursos se enquadram os financeiros, intelec-
tuais, infraestrutura interna e externa.
Segundo o Manual de Oslo4 uma empresa é considerada inovadora
quando implementa uma inovação de produto (bem ou serviço), pro-
cesso, novo método organizacional (aplicado ao negócio, local de traba-
lho ou relações externas) ou método de marketing novo ou significativa-
mente melhorado.

() Tidd, Bessant e Pavitt (2008).


(2) Tida, Bessant e Pavitt (2008).
(3) Litile (2004).
(4) Oslo Manual (2005).
B6 INDYAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR GESTÃO DA INOVAÇÃO E TH

Sabendo que inovação não é invenção, importa reforçar que a carate-


rística comum a toda a inovação é que esta tem que ser implementada. A
inovação de produto/serviço pode basear-se na atribuição de novos usos
ou combinações de tecnologias ou conhecimento existentes. Necessidades
de mercado
Na procura da melhor prática como gerimos a inovação e experimen-
Fonte; Rothwell (1994),
tamos inovar tem-se utilizado modelos de inovação. Em seguida é apre-
sentada a evolução do processo de inovação segundo Rothwell! que cor-
responde às primeiras cinco gerações de inovação, e como 62 geração é Quac
descrito o Modelo de Inovação Aberta.

Descrição/atribut:
12 Geração - Modelo Technology Push
Incerteza tecnológicz
O processo de inovação neste modelo é sequencial, linear e simples. O
Despesas com I&D
mercado é entendido apenas como recetor dos resultados da investiga-
Duração I&D
ção, ou seja, a ênfase é dada à I&D e não às necessidades do mercado. De
acordo com a figura seguinte, a inovação ocorre através da descoberta Integração cliente e |,
científica, após a qual é desenvolvida internamente e depois é empurrada Tipo de investigação
para o mercado. de mercado
Tipo de processo
inovativo
Figura 5.1. Modelo sequencial do processo
de inovação Technology Push Fonte: Adaptado de Gerpott (2

Ciência Desenho de
base engenharia
- H» Industrialização Marketing Vendas 32 Geração - Mo

Fonte: Rothwell (1994). Tal como as :


abordagem inter:
natureza sequenc.
2? Geração - Modelo Market Pull (Demand Pull) de retroações (fe:
Trata-se de um modelo sequencial, linear com feedback da empresa, diferentes fases (t
verifica-se neste modelo que o mercado é o grande gerador de ideias, ou interações permai
e extraorganizaci
seja, as empresas procuram interpretar as necessidades do mercado (Need
Pult), que depois são encaminhadas para I&D. Os novos produtos intro- damente à tecno!
duzidos no mercado, segundo este modelo, são sustentados na existência estão no mercado.
de tecnologia.

6) Rothwell (1992).
GESTÃO DA INOVAÇÃO E TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA 87

Figura 5.2. Modelo sequencial do processo


de inovação Market Pull (Demand Pull)

| Necessidades | Desenvolvimento |
) V9 |
Produção | | Vendas |
de mercado | |
| EM
Fonte: Rothwell (1994).

Quadro 5.1. Diferenças entre os Modelos e inovação


Technology Push e Market Pull

Descrição/atributo Technology Push Market Pulf

Incerteza tecnológica Alta Baixa

Despesas com I&D Alta Baixa

Duração I&D Longa Curta

Integração cliente e I&D Difícil Fácil


Tipo de investigação is E se
Qualitativa-exploratória Quantitativo-levantamento
de mercado
Tipo de processo . :
Tentativa e erro/aprendizagem Fato estruturado
inovativo

Fonte: Adaptado de Gerpott (2005) apud Brem e Voigt (2007).

3º Geração - Modelo de inovação interativo ou Coupling

Tal como as abordagens technology push e market pull também a


abordagem interativa ou coupling considera o processo inovador de
natureza sequencial lógico, continuo, no entanto, considera mecanismos
de retroações (feedback), ou seja, o processo inovador inclui entre as
diferentes fases (etapas distintas) relações de resposta que representam
interações permanentes. É nesta rede complexa de comunicação interna
e extraorganizacional, uma vez que liga a empresa ao exterior, nomea-
damente à tecnologia e comunidade científica e outras empresas que
estão no mercado, assim, a ênfase é na integração I&D e marketing.
88 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR EO DA INOVAÇÃO E TRA

Figura 5.3. Modelo Coupling do processo de inovação


(Systems Integrc
taca-se a carater
Necessidade | ção e Comunicaç
Necessidade da sociedade e do mercado
flexíveis às neces
À Á “Á À
mais adequadas í
Yw Y eae o uso de modelo
; .
Investigação, ca
Produção | Marseoa desenvolvimente
projetoe [t+ Dio
desenv.
e vendas rios, forte integi
- A E
V
A
externas fortes 1
Y
+ +
gicas, desenvolv
qualidade total,
es id Estado da arte em tecnologia e produção
dade e responsal
Fonte: Rothwell (1994). lizado na qualid
abordagem asse!
do sistema com
42 Geração - Modelo de inovação integrado retroação.
(Integrated Innovation Process)

Esta abordagem apresenta como caraterísticas principais a integra- 62 Geração -M


ção, o desenvolvimento paralelo, maior ligação a clientes e ênfase na
A Inovação :
integração I&D e marketing. Este modelo rompe com a anterior aborda-
o conhecimento
gem sequencial adotando processos de inovação que obriga ao desenvol-
organizações e c
vimento de parcerias empresariais entre as empresas e empresas e clien-
I&D de uma or;
tes, surgem novas alianças tanto a nível horizontal como vertical, o que
Antes de se abx
na prática conduz ao surgimento de novas estratégias empresariais que
importa diferen:
visavam, por exemplo, obter maior flexibilidade e eficiência na aborda-
isto porque, a e
gem aos mercados.
simo comprome
vação e inovaçã
52 Geração - Modelo sistémico de inovação ou Networking Model namentos estrai
zacionais distini
Este modelo de Sistema de Inovação Integrados e em Rede tende a
de inovação a ii
resultar do esforço das empresas no seu processo de inovação de 42 gera-
zações, empres:
ção, ou seja, as alianças desenvolvidas na abordagem de inovação inte-
aprendizagem c
grada, onde a maior flexibilização e integração organizacional e o desen-
possibilitar a un
volvimento de redes externas de parcerias (o que tende a implicar a des-
centralização da tomada de decisão) contribuí decisivamente para o
desenvolvimento da abordagem de Integração de Sistemas e Redes
(1) Chesbrough (200
gicas, desenvolvimento e risc
o partilhado, uma política
qualidade total, processament de controlo da
o eletrónico de dados, ênfase
na flexibili-

importa diferenciar os termos


«rede de inovação» e «inovação
isto porque, a evolução para em rede»,
o modelo de 64 geração imp
simo comprometimento com lica um fortís-
práticas de trabalho em rede.
vação e inovação em rede req Redes de ino-
uerem da parte das organizaç
namentos estratégicos face ao ões posicio-
Processo de inovação e estrat
zacionais distintos uma vez égi as organi-
que alcançam objetivos difere
de inovação a inovação ocorre ntes. Nas redes
em Primeira instância dentro
zações, empresas e instituiç das organi-
ões e ocorre como resultado
aprendizagem da organização, do processo de
o contributo da rede de ino
Possibilitar a união, de maneir vaç ão é o de
a complementar, do conhec
imento gerados

6) Chesbrough (2003).
ao INGVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR GESTÃO DA INDVAÇÃ

pelos vários agentes para criarem algo de novo. As redes de inovação « Maior €
promovem entre os agentes a partilha do conhecimento através de inte- necessit;
rações de modo colaborativo, o que significa que a aprendizagem ocorre * O segrec
por interação entre os agentes, como uma estrutura sistémica com capa-
cidade para criar, utilizar e disseminar novos conhecimentos. Por sua vez Um exem
a inovação em rede apela à prática da gestão de processos e capacidade este surgiu di
em rede para gerar novos conhecimentos. A inovação em rede está for- competências
temente interligada com os processos de partilha do conhecimento e pleta para a
capital social, uma vez que o esforço de inovação deixa de ser endógeno à acrescentado
organização e linear ao investimento em I&D para passar a ser um pro- infraestrutur:
cesso conduzido de forma exógena à organização. Na inovação em rede a
organização estabelece conexões estreitas com outras organizações (clien- Qui
tes, fornecedores, órgãos governamentais, instituições de investigação)
para o desenvolvimento de novos produtos e processos, onde partilham o

as competências próprias. Estas conexões entre organizações podem ser + Període


o (décade
motivadas por fatores inerentes à inovação, por exemplo: elevados custos Úú

e riscos, tempo de desenvolvimento de novo produto, elevado volume de 1º 1950atéfi


informação a tratar. de 1960

A inovação aberta apresenta como caraterística principal considerar 2 Finalde is


que as partes que constituem o processo de inovação não ocorrem todas até começ
da metade
dentro da organização, ou seja, não são geradas por fontes internas da
de 1970
organização, mas que fontes externas são possuidoras de competências e
3 Segunda
geradoras de conhecimento difíceis de reunir dentro de uma só organiza-
metade de
ção. Segundo Herzog! identifica vários fatores que motivam as organiza-
1970 até o
ções à prática da inovação aberta (ou pelo menos equacionar tal aborda- final de 19
gem), tais como:
4 Final de 1€
* Competição global mais aguda; até começ
de 1990
* Aumento da complexidade tecnológica;
5 1990
* Maior disponibilidade e mobilidade de capital humano altamente qua-
lificado;
* A Inovação Fechada ser praticamente insustentável em muitas indús- 6 2000
trias (elevados investimentos, risco e tempo de desenvolvimento);
* Diminuição da capacidade de controlar a I&D que é produzida;
Fonte: Adaptado de Nº

0) Herzog (2011).
GESTÃO DA INOVAÇÃO
E TRANSFERÊNCIA DE TEC
NOLOGIA
91

* Maior consciencializa
ção que as ideias val
necessitam de ser ori iosas e tecnologias não
ginadas dentro da própri
a empresa;
* O segredo tende a não
ser a alma do negócio.
Um exemplo de uma
rede aberta é o open
este surgiu da cooper standard, MPEG4-Part
ação entre a Alcatel-l io,
competências de cad uce nt e Thomson, usando as
a uma das partes para
construir uma solução
com-
acrescentado
baseados em vídeo
e codificadores. A Alcatel fornece
infraestrutura e à Th a
omson os terminais.

Quadro 5.2. Evolução


dos diferentes Modelo
s de inovação

o Párisdo Autores
s . das ideais
o (década) Modelo de inovação
U
fundamentais.
Essência do modelo
CE
1 1950 até final O ams
Usher Modelo Technology
de 1960 (1954, 1955)
Processo Linear
Push
2 Finalde 1960 Myers Modelo Market Pull
até começo Investigação e
e Marquis (Demand Pull)
da metade Desenvolvimento
(1969)
de 1970 voltados para os desejo
s
dos consumidores.
3 Segunda Rothwell Modelo de Inovação
metade de Interação entre as
e Zegveld Interativo ou Coupling
1970 até o diferentes funções no
(1985)
final de 1980 Processo de inovação.
ee gemçees oo
4 Finalde 1980 Klinee e
Modelo de Inovação E
até começo Rosenberg Processo simultâneo
Integrado lntegrated
de 199 com loops de feedbacks
o (1986)
— SS Innovation Process)
E (Modelo Encadeado)
ope A
5 1990 Rothwell NE
Modelo Sistémico
Sistema de integração
(1992) de Inovação
e networking
(Networking Model)
6 2000 Chesbrough Inovação Aberta
Inovação Colaborativa
(2003)
e múltiplos caminhos
Fonte: Adaptado de
de exploração.
Nobelius (2004), Ortte
Van Der Duin (2008) &
Kotsemir e Meissner
(2013),
92 INDVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

Síntese do capítulo

* Apresenta uma evolução da abordagem de inovação.


* Sistematiza os fatores que influenciam a inovação.
* Apresentam-se e discutem-se os modelos de inovação.
* São inumerados os fatores que motivam as organizações à prática da
inovação aberta.

1. Identifique as várias estratégias de fatores que influenciam a inovação.


2. Discuta a evolução dos modelos de inovação.
3. Identifique as diferenças entre os modelos de inovação Technology
Push e Market Pull.
4. Estabeleça a diferença entre «rede de inovação» e «inovação em rede»
no contexto do Modelo de Inovação Aberta.

E Bibliografia

Siliprandi, e. M.; Ribeiro, J. L. D.; Danilevicz, A. M. F. (2012). Instrumento para diagnós-


tico do potencial de inovação em empresas. Espacios. Vol. 33 (1).
Tidd, J. (2000). From Knowledge management to Strategic Competence: Measuring
technological, market and organization innovation. London: Imperial College Press.
Oslo Manual, grd Edition. (2005). Guidelines for collecting and interpreting innovation
data.
Rothwell, Roy (1994). Towards the Fifth-Generation Innovation Process. International
Marketing Review. Sussex, MCB University Press. v. 11, n.1, p. 7-91.
Gerpott, T. J. (2005). Strategisches Technologie und Innovationsmanage-ment. Schaffer-
-Poeschel, Stuttgar
Brem, A.; Voight, Kai, L. (2007). Pull vs. Push — strategic technology and innovation mana-
gement for a sucessful integration of market-pull and technology push activities. In:
internacional association for management of technology, 2007, Califórnia, Relação
de trabalhos. California: Elsevier. 1 CD-ROM.
Herzog, Philipp (2011). Open and Closed Innovation: Different Cultures for Different
Strategies, 2nd Edition, Gabler.
Capítulo 6

Inovação e sociedade
Ivo Dias de Sousa

Bráulio Alturas

Objetivos de aprendizagem

paia mero
* Entender a importância da inovação para as socie
dades.
* Compreender quais são os aspetos fulcrais para
a inovação nas
sociedades.
* Perceber o papel da inovação social na prosperida
de das socie-
dades.
INOVAÇÃO E SOCIEDADE 55

6.1. A importância da inovação


para as sociedades

A inovação em geral, e a empresarial, em particular, é fundamental


para a sociedade! São muitos os s benefícios (mas também os riscos) associa-
dosà inovação do ponto de vista das sociedades. Vamos aqui, apresentar
três razões interrelacionadas | que justificam a relevância da inovação para
as sociedades humanas:
Ed , . 2... ,
1. Crescimento, maior produtividade e riqueza.

2. Melhoria dos produtos e serviços, produzidos e adquiridos a preços


“mais baratos, permitindo elevar os padrões de vida.
Sa Redução do desperdício e dos danos ambientais.
| e dr re mi

Seguidamente, são apresentadas estas razões com maior detalhe.

1. Crescimento, maior prodtitisidadio e riqueza

mico e sustentado ao longo do tempo. Ai inovação permite que: aÀ produti-


vidade per capita cresça ao longo do tempo. Por exemplo, a produtivi-
dade das fábricas atuais por trabalhador tende a ser superior à do pas-
sado: «Os economistas estimam que 50 a 80% do crescimento económico
provém da inovação e novo conhecimento»?
A produtividade também pode aumentar de duas outras formas. Uma
delas é ê através da redução dos salários dos trabalhadores. A outra é pelo
aumento do tempo de trabalho mantendo as remunerações.
A via de empobrecimento dos trabalhadores (redução de salários) só
pode ir, em teoria, até ao limiar da sobrevivência. Num sentido prático,
não é sustentável atingir este nível, uma vez que os trabalhadores neces-
sitam, por exemplo, de investir na sua educação e dos seus filhos.

6) Ahlstrom (2010).
(2) Urama e Acheampong (2013).
96
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

a preços mais
n baratos, permitindo elevar os padrões de vida
A inovação contribui diretamente para a melhoria da
qualidade de
vida. Por um lado, a inovação permite criar e/ou melho
rar produtos e
serviços. Um exemplo, de muitos possíveis, do quotidiano
são Os carros
que com o passar do tempo têm vindo a tornar-se
mais confortáveis e
menores consumidores de combustíveis fósseis, existi
ndo até atualmente
outras opções como os elétricos, que já não consomem
combustíveis fós-
seis. Por outro lado, os preços tendem a baixar, permitindo
que um
número cada: vez maior de pessoas tenha acesso a mais produt
os e servi-
ços. No caso dos carros, nos primeiros anos do século XX, apenas os
muito ricos podiam dar-se ao luxo de comprar um carro. Passad
o um
século, estes bens tornaram-se um produto acessível
a muita gente, prin-
cipalmente nos países ocidentais.

3. Redução do desperdício e dos danos ambientais

Ainovação tende a ser benéfica “para o meio-ambiente e, por conse-


guinte, para nós, | humanos. Ou seja, a inovação leva a “que a ativida
de
humana tenha. menos impacto no planeta. Isto pode verificar-se
de duas
formas. Uma delas é reduzir os desperdícios tanto na produção
de pro-
dutos e serviços como na sua utilização. Voltando ao exemplo dos
auto-
móveis. Graçasà inovação, os automóveis atuais tendem, nomeadamente,
a utilizar menos metal, o que os leva a serem mais leves. O menor
peso e
o aumento da eficiência dos seus motores leva a que consumam
menos
combustíveis. A segunda forma, é diminuir os danos ambientais.
Nor-
malmente a adoção de inovações conduz à redução dos impactos ambien
-
tais negativos e a tecnologias mais limpas.
A inovação tende a beneficiar a humanidade no seu todo. Por
outras
palavras, a inovação tende a ser um Jogo de soma positiva, ou seja,
os
benefícios tendem a ser superiores aos seus custos. À inovaçã
i o, em geral,
e a tecnológica, em particular, são fundamentais para o progresso da huma-
nidade!

(1) Kadar et al. (2014).


MIRAÇÃO E SOCIEDADE 97

Contudo, a inovação apresenta riscos, destacando-se os seguintes:


— 4 Aumento da concorrência e eventual aumento do desemprego.
2. Retorno incerto.
3- Uso pouco ético das inovações.

Analisemos estes riscos com mais pormenor.

| É. Aumento da concorrência e eventual aumento do desemprego

Emo. Porém, “quando s se decompõe a análise, iss


issoo deixa de: serT verdade em
|muitos casos.

Existem pessoas, organizações e regiões que são prejudicadas (por


Vezes) pela inovação. Ou seja, veem, conforme os casos, os seus empre-
=»s, mercados e economia ameaçados pela inovação. Vejamos com maior
Betalhe cada uma das situações referidas neste parágrafo.
à inovação tende a eliminar empregos por tornar desnecessárias fun-
| JBEs e competências.
Isso leva ao desemprego de muitas pessoas que nem.
sempre conseguem reconverter-se para desempenharem outro trabalho.
* Wejamos o caso do metropolitano — muitos outros exemplos poderiam
“ser dados. É provável que todos (ou quase todos) os leitores deste livro
—*esham já viajado de metropolitano. Muito provavelmente, a compra de
Blhetes e a respetiva verificação dos mesmos foi realizada por máquinas.
| Décadas atrás essas funções eram realizadas por pessoas que viram os seus
empregos desaparecer.
Efácil de dizer que a inovação é boa para as organizações, em geral, e
pera as empresas, em particular. Porém, nem sempre tal sucede, sobre-
Edo ququando : a inovação leva ao aumento da concorrência e à diminuição
dos lucros.
Um exemplo do que atrás foi dito,é a portabilidade dos números de
“=lefone quando se muda de operadora. A portabilidade torna mais fácil e
menos oneroso para os consumidores a mudança de fornecedor. Se os
consumidores não pudessem transferir o número de telefone que utili-
zam quando mudam de operador, a opção de mudança para o utilizador
seria mais difícil de realizar (basta pensar nas pessoas que teriam de ser
avisadas da mudança do nosso número de telefone). Esta situação con-
98 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR INOVAÇÃO =

duz a um aumento da concorrência entre operadoras e por conseguinte à ção de em


diminuição dos seus lucros. tenas
e
Er vezes, existem regiões em que a Efsnoma é muito prejuaiCdda No =
ções, so!
econômica de Fegiões muito dependentes da extração e carvão denminas. 1. Usd
O surgimento de tecnologias de produção de energias mais económicas e 2. Iza
menos poluentes levou a que o carvão deixasse de ser tão FEqUSTANIO, 3. € 1
levando a baixas no seu preço.
Claro 8
não é vm!
2. Retorno incerto
humana =
O retorno da inovação é incerto, sobretudo quando se fala de grandes
investimentos. O investimento em inovação pode ter grandes retornos, 1. Usom
porém nem tal sempre acontece. Em alguns casos, o retorno pode ser
negativo por diversas razões. Uma das situações, é quando não se conse- Num
guem obter ou implementar as inovações. Por vezes, simplesmente, os Todavia.
recursos investidos não resultam em qualquer i inovação ou, pelo menos, constante

em algo que justifique o que foi despendido. Outra razão é a incapacidade Isto faz pal
de transformar a inovação em produtos e serviços rentáveis. Não basta Atual
ser inovador. É necessário “quea inovação chegue ao mercado de forma maciça à =
rentável e em | tempo oportuno. Se a concorrência puder replicar facil- cutível, d=
mente a inovação é mais difícil obter proveitos da inovação. Verdadeira- não povozm
mente, a inovação só é uma vantagem competitiva quando não é facil- Infe;
mente replicável. úteis parz aih
Outra razão é a inovação poder prejudicar os outros negócios da pró- As inovações
pria organização. Um caso exemplar é a invenção da máquina fotográfica gia elétrical
digital pela Kodak. O principal negócio da Kodak foi, durante várias déca- de pessozs 4
das, vender rolos de fotografia que se tornaram obsoletos com a melhoria Esta =
das máquinas fotográficas digitais, levando a própria Kodak à falência. história. CM
utilizado em
3. = poucote. cfico didas neuações,

Cas e RE rca ne ra
bém tr
trás associados
sismo
diversos riscos.
os. Um deles é é e a possibili-
raça,
dade de acidentes. É o caso de acidentes em centrais nucleares de produ-
ALE Le Cas gua

() https: //pr lia


INOVAÇÃO E SOCIEDADE 99

ção de energia como aconteceu em Chernobyl! que afetou pessoas a cen-


tenas e mesmo milhares de quilómetros de distância.
No entanto, neste ponto iremos falar do uso pouco ético das inova-
ções, sobretudo a nível tecnológico. Vejamos as seguintes questões:
1. Uso militar;
2. Invasão de privacidade;
ips
3. Crime.
ia pm a is,

Claro que a existência das inovações (sobretudo, a nível tecnológico)


não é um problema por si só. Apenas quando se junta a componente
humana na sua utilização, as inovações se podem tornar numa ameaça.

1. Uso militar

Num mundo ideal não existiriam nem seriam necessárias armas.


Todavia, estamos longe de viver num mundo ideal. A inovação é uma
constante na área militar com o surgimento de novas armas e estratégias.
Isto faz parte da evolução da humanidade há muitos milénios.
Atualmente, nós, humanidade, dispomos de armas de destruição
maciça à escala global que nos permitem ter a possibilidade, muito dis-
cutível, de nos extinguirmos enquanto espécie. Isto, pelo menos, enquanto
não povoarmos outros planetas.

Infelizmente e normalmente, as inovações que têm usos pacíficos e


úteis para a humanidade t também podem ter utilizações para fins bé cos.
As inovações a nível da energia nuclear tanto servem para produzir ener-
gia elétrica como para a construção de armas capazes de matar milhões
de pessoas quando lançadas sobre grandes cidades. o
Esta situação da má utilização da tecnologia já existe desde a pré-
“história. O mesmo objeto que servia para cortar carne podia ser também
utilizado em combates entre tribos rivais.

(1) https: //pt.wikipedia.org/wiki/Acidente


nuclear de Chernobil (consultado em 15/11/2017).
100 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
INDVAÇÃO =
|
|
| 2. Invasão de privacidade ú
Outra área onde a inovação permite utilizações pouco éticas é a priva-
cidade. As mesmas inovações que, por exemplo, criaram as redes de
computadores e de telefone, tornaram possível a invasão de privacidade le
de formas até então não possíveis. Mais, permitiram que a invasão de pri- rã
ticuizl
vacidade aconteça em escalas maciças, como o caso Wikileaks demonstrou.

; muito diferente enviar uma carta em papel, ou uma mensagem de correio | cial =
eletrónico. Apesar de a mensagem eletrónica ter a grande vantagem de | contm
chegar rapidamente ao seu destinatário, tem a desvantagem de, apesar | tancom
de quer o destinatário quer o emissor a terem apagado, poder continuar Tena
E gravada algures num qualquer computador. | proc
As =
3. Crime 1. Um
A inovação é uma faca de dois gumes em relação ao crime. Por um
lado, a inovação pode ser empregue para o combater. Por exemplo, um e
caso clássico é o da deteção de i impressões digitais em objetos que per-
mite a identificação de criminosos em roubos e assassinatos. Por outro 4
lado, abre novas fronteiras de possibilidades para o crime. Basta recor- "
darmo-nos da utilização . de microcâmaras de vídeo para espiar hábitos Pré
com a intenção de preparar um assalto a uma residência. Por sistema, algum
uma dada inovação tanto pode ser utilizada para fins benignos como para inteim
o crime. serão
Quem não ouviu já falar de vendas fraudulentas realizadas através de E
meios disponibilizados pela Internet? Por um lado a Internet veio faci- e
litar muito o encontro entre compradores e vendedores, por outro lado, ant
veio aumentar as fronteiras de possibilidades para os criminosos. E
Os riscos associados à-inovação deverão aumentar com o decorrer do es
tempo. Grandes desafios se levantam a este nível em áreas como a. inteli- | parza
gência artificial e genética.
hum

Q) https: =
O E SOCIEDADE

Caixa 6.1. As três leis da robótica de Asimov - três leis


para
o uso da engenharia genética na espécie humana?

O surgimento da inteligência artificial, em geral, e dos robots,


em par-
Scular levanta perigos importantes. No atual estado de desenvo
lvi-
mento tecnológico, os riscos de ameaça de um ataque conscie
nte de
uma ou mais inteligências artificiais autoconscientes é muito pequen
a
ou mesmo nula. Porém, o caminho percorrido pela inteligê
ncia artifi-
cial e a robótica é gigantesco nas últimas décadas. Se ambas
as áreas
continuarem a progredir rapidamente, o risco poderá aumentar
subs-
tancialmente no espaço de séculos ou mesmo algumas décadas.
Tendo em conta este risco, o escritor de ficção científica Isaac Asimov,
propôs, em 1942, as três leis da robótica, chamadas leis de Isac Asimov!
As leis são as seguintes:
?. Um robot não pode ferir um ser humano ou, através de inativi
dade,
permitir que um ser humano seja ferido.
2. Um robot deve obedecer às ordens dadas por seres humano
s exceto
quando a ordem está contra a primeira lei.

O
3. Um robot deve proteger a sua existência até ao ponto
em que essa
proteção não entre em conflito com a primeira e segunda leis.

Práticas ou não, as três leis da robótica de Isaac Asimov mostra


m
algum receio das consequências para a humanidade da evoluçã
o da
inteligência artificial e da robótica. Outra área em que,
provavelmente,
serão necessárias algumas leis é a engenharia genética, sobretu
do,
quando aplicada à humanidade, Progressivamente, estamos
nr a capacidade de alterar a nosso ADN e, possivelmente,
a adqui- | q
modificar
artificialmente o ADN dos nossos descendentes. Muitos dos
nossos -

antepassados diriam que esse é um poder dos deuses.


Talvez seja um poder dos deuses, mas agora está, cresce
ntemente, à
nossa disposição e será conveniente existirem alguma
d

s salvaguardas
para O seu uso. No caso da aplicação da engenharia genética
aos seres
humanos, as três leis poderiam ser as seguintes:

ips: //en wikipedia.org/wiki/Three Laws of Robotics


(consultado em 12/11/2017).
102 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR INOVAÇÃ

1. Não fazer alterações que a sociedade humana, em geral, perceba 6.2.


como prejudiciais para quem é alvo delas;
2. Não fazer alterações noutra pessoa, que não faríamos em nós pró-
prios; No a
3. Não fazer alterações que possam originar novas espécies. humánid

Fundamentalmente, estas três leis aqui propostas procuram criar sal- regiões
vaguardas em relação ao possível abuso na utilização da engenharia Aqu 4
genética em humanos. Claro que isto não significa que devam ser fei- favorec=
| tas todas alterações genéticas que venham a ser possíveis e que Est
| satisfaçam as três leis cumulativamente. .
A primeira lei defende que não sejam feitas alterações que a socie- L
dade perceba que são desvantajosas para quem as recebe. Pode fazer 2.1
sentido para alguns um cenário como o do filme Blade Runner de 2. Ex
Riddle Scott, onde é criada uma classe de escravos obedientes. Porém, mes
a sociedade como um todo não pode aceitar o conceito que é bom
| ser um escravo obediente. Estes
1 es au bi : existência
ha esgunda Jay; é tima aplicação dio antigo provérbio popular «não | ,
faças aos outros o que não queres que te façam a ti». Ou seja, os ende- E o
nheiros genéticos não devem fazer alterações nos outros que ndo ess
fariam em si próprios. * estah
dd
| Finalmente, a terceira lei defende que não devem ser realizadas alte-
4
rações que conduzam a novas espécies. Uma coisa é melhorar a espé-
| cie humana. Outra é implementarmos alterações genéticas que pos- Analisa
condições 7
| sam conduzir a novas espécies, com os riscos desconhecidos que tal
/ situação poderia acarretar, como por exemplo, a extinção dos huma-
Nos COMO agora Os conhecemos. 7. Ext.ist é,

! Ivo Dias de Sousa

/ Às pessa
soas não em
são favor
| | Uma des
de um grand
proveniênc.s
a troca de cs

(O Johansson <s
INOVAÇÃO E SOCIEDADE

6.2. Fatores que favorece


m a inovação
nas sociedades

No ponto anterior foi defend


ido que a inovação tende
manidade como um todo. Por a beneficiar a
ém, foi também argumentado
regiões e as sociedades mais que são as
inovadoras que tendem a ter
mais proveitos.
Aqui é abordada a seguinte
questão: quais são os fatore
favorecem a inovação nas soc s que mais
iedades?
Os fatores mais críticos Para
uma sociedade ser inovadora
são!:
1. Existência de um grande
movimento de pessoas;
2. Convergência de diferente
s áreas do conhecimento;
3. Existência de uma infrae
strutura que permita a fácil
Pessoas e a troca e consulta circulação de
de informação e conhecimento
.
Estes três fatores levam à exist
ência de interseções que fav
existência da inovação. Contri orecem a
buem » Nomeadamente, para:
*a partilha de conhecimento, |
levando à transferência de com
cias e know-how; petên-
- estímulo à criatividade;
* existência de um número
maior de contactos.
4
Analisemos os três factores crí ticos
para que uma sociedade tenha
condições para ser inovadora
.

1. Existência de um grande
movimento de pessoas
As pessoas são um ingrediente fundamental na inovação.
Sem pes- (

s
Io

E
soas não existe inovação.
Porém, n em todas as pessoas e
são favoráveis à inovação. circunstâncias +
“=,

( Fohansson (20 06).


104 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA = UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR INOVAÇÃO =

Claro que a qualidade do movimento das pessoas também é impor- Por ex


tante quando se fala de inovação. Por um lado, por terem valores cultu- vadoras =
rais diferentes, possuem também perspectivas diferentes sobre o modo que facilitz
como olham para as coisas, o que favorece a inovação. Por exemplo, uma vez facilir
área onde isso acontece frequentemente é na culinária. Os portugueses
levaram para Macau os pastéis de nata que são, agora, um doce usual.

2. Convergência de diferentes áreas do conhecimento

Outro fator muito ligado ao anterior é a convergência de diferentes


áreas do conhecimento. Num plano mais científico é importante que
cientistas de diferentes disciplinas da ciência se encontrem entre si (por
exemplo, físicos com matemáticos). Isto é importante, nomeadamente,
porque o que é uma ideia vulgar numa área pode ser uma novidade noutra,
podendo levar a inovações em cascata.
É evidente que a convergência de saberes não acontece apenas num
plano científico. Acontece também ao nível de experiências profissionais
diferentes. Para a concretização com sucesso de projetos de exploração
de ideias novas é conveniente, por norma, a contribuição de pessoas com
diferentes experiências profissionais que se complementam. É o que
acontece com o caso clássico de gestores e engenheiros. Estes últimos são
muitas vezes essenciais na criação de inovações tecnológicas e na produ-
ção de produtos derivados. Porém, a sua comercialização é habitualmente
mais bem conseguida por pessoas provenientes das áreas de gestão. os horil
quiser!
3. Existência de uma infraestrutura que permita a fácil circulação énuz if
de pessoas e a troca e consulta de informação e conhecimento pass: -

Um fator bastante importante para o desenvolvimento dos dois fato- Claro lh


de ina
res anteriores, é a existência de uma infraestrutura que os suporte, ou
uma Jd
seja, uma infraestrutura que facilite a movimentação de pessoas e a con-
que :=m
vergência de áreas de conhecimento diferentes.
Nas sociedades, para que exista, verdadeiramente, uma convergência
de diferentes saberes, não é apenas necessário que existam pessoas. É
também necessário que existam condições para que essas pessoas se
encontrem, pois que, se tal não acontecer, é mais difícil existir a conver-
gência de áreas que leve à inovação.
E SOCIEDADE 105
INOVAÇÃO

Por exemplo, em Sili il Valley, tida como uma das regiões


g mai ino-
“leon
mais
:
vadoras à nível mundial, ex; xiste um vasto conjunto de locais de convívio,
o
que facilitam encontro d € pessoas com diferentes saberes, o que por
di

a:

vez facilita a troca de ideias e a inovaçã o.

Caixa 6.2.
2 Distinção entre
informação e conhecimento

Neste capítulo são utilizados, frequentemente, os termos «informa-


ção» e «conhecimento». Importa distinguir claramente um conceito
do outro apesar de terem muito em comum.
Fundamentalmente, informação refere-se a dados a que foram atri-
buídos alguns significados através de um processo. O processo pode
ser muito simples. Por exemplo, suponhamos as medidas 1,96, 1,77 e
1,55 metros. Se soubermos que são as alturas das pessoas de uma
determinada família, passam imediatamente a ser informação. Neste
caso, poderíamos ir mais longe com os dados iniciais e tratá-los esta-
tisticamente o que também lhes forneceria um caráter de informação
- por exemplo, poderíamos obter a média de altura
da família em
causa.
forma
Em termos simples, conhecimento é informação que de alguma
é
é útil. Muitas vezes, a distinção entre informação e conhecimento
de cabeça,
uma questão de contexto. Vamos supor que O leitor sabe,
o Porto. Se o leitor nunca
os horários dos comboios de Lisboa para
a outra, é apenas informação a sua utilidade

quiser ir de uma cidade


ao Porto a partir de Lisboa,
é nula. Porém, se oo leitor pen sa deslocar-se
à conh ecimento porque já lhe
serve para algo.
passa imediatamente
não é fácil distinguir dados
Claro que no dia-a -dia, frequentemente,
de informaçã o. Nesta última situação,
de informação e conhecimento
em disting uir é saber exatamente O
uma das razões para à dificuldade
não.
que terá utilidade ou
- UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
| NOVAÇÃO E TECNOLOGIA
106

de uma boa infraestrutura é condi-


uando dissemos que a existência
pensar em estra
para a inovação, não devemos
ção importante se papenas encontrar . A
onde as
transportes, aeroportos ou locais

eficazmente tem tanta importância como


pessoas
existência de uma boa rede de telecomunicações que
referidas unicar
as condições
a a
anterior-
mente. Aliás, a sua importância tem crescido
contintamente,
e conhecimento pómitindo
entre pessoas
a rápida consulta e troca de informação
muito distantes geograficamente entre Si.

6.3. Inovação social e a prosperidade


das sociedades

«As inovações sociais são o processo de desenvolver e aplicar soluções efetivas


a desafios [...] sociais e ambientais para apoiar o progresso social.»

Clavier Malhotral

Vivemos numa época de grandes transformações sociais, económicas


e culturais, onde, por vezes, os modos habituais das sociedades funciona-
rem deixaram de ser boas? Por outras palavras, já não funcionam de
forma adequada às necessidades do presente e do futuro
próximo. Isto é
válido, por todo o mundo, quer nas sociedades ricas, quer nas pobres.
Estando crescentemente interligados, o
que abre tanto oportunidades
como ameaças, no mundo atual, os
problemas do outro lado do planeta
afetam-nos crescentemente. Por
exemplo, em termos do crescimento
económico, agora mais difícil que no passado manter o isolamento e
é
não sofrermos os impactos de uma crise
económica que comece no outro
lado do globo.

()
https://www.geb.stanford.edu/faculty-research/centers-initi atives/csi/defining-social-inno-
vation (consultado em 15/112017).
(2) Urama e
Acheampong (2013).
E BOCIEDADE
INOVAÇÃO 107

Também quando s e la de .
crescimento económico e de sociedades
é muito impor
prósperas ante qdo os benefícios obtidos nessas socieda-
des não sejam apenas ru .
por uma minoria, mas sim usufruídos
os
pela grande maioria da População dessas sociedades.
Neste

todo, aumenta
aspeto,

ndo
per nno
as inovações sociai
e
star
lem

à prosperidade. Onde exista verdadeira vontade


de
In o
antes coa sociais,
elas ajudam aa resolver questões em áreas
o meio-ambiente, habitação o ensino, para
além de
rmiticem ama mMnais rápida e equitativa distribuição dos benefícios
p
obtidos pela inovação aplicada à criação de riqueza de bens e serviços.

Caixa 6.3. Ciência cidadã

O conceito de ciência cidadã (do Inglês citizen science) refere-se ao


desenvolvimento e implementação de projetos científicos em quem,
pelo menos, parte do processo de investigação seja feita por pessoas
leigas ou não-profissionais da ciência. Este tipo de estratégia emerge
da necessidade de:
1. Aumentar a divulgação junto da sociedade da ciência produzida;
2. Transferir o conhecimento científico para um
vasto conjunto da
a educação científica;
população, promovendo e democratizando
à importância de investir, apoiar
e
3. Sensibilizar a população para
realizar projetos científicos;
e do conhecimento da natureza.
4. Promover o valor da biodiversidade
de
Não sendo a única estratégia
de divulgação da ciência, os projetos
e ativa por
contacto € à participação válida
ciência cidadã promovem oo
da ciência, e desta forma orgânica poten-
parte de não-profissionais
para às dificuldades que se encon-
ciam a sensibilização das pessoas
um pensa-
de científicos, a necessidade de
tram na realização projetos
caraterístico do conhe-
mas também criativo,
mento cético e cauteloso, € realizar
deste modo a ideia de que pensar
cimento. Evidencia-se fácil,
apesar de ser trabalhoso e nem sempre
conhecimento científico,
está ao alcance de todos.
- UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
E TECNOLOGIA
INOVAÇÃO
108

O nível e âmbito de participação


ciência cidadã variam. Projetos
como
6.
vem a
inálise de dados recebi-
m
a projetos de

através da observação
participação cidadã icipação cidadã é
so, o nível de participaç
Neste
dos por radiotelescópio.
SãO chama da s
a analisar dados digitalizados
à pro-

passivo: as pessoas do padrão típico de ruído.


diferentes
des m
tecnicamente por
"ao depois tratadas
Estas potenciais desco per
ertas

uma equipa e meios p rofissionais.


i

O desenvolvimento
de ciência cidadã é o
utr contexto típico para
Outro a
ambiente escolar. Neste caso, projetos desenvolvidos com
gerar resultados cientificamente
super
váli-
são científica adequada, podem
ão

à comunidade científica
Por
dos e interessantes para profissional.
escola no Reino Unido, entre os oito os
exemplo, numa crianças e dezdis-
sobre à capacidade de os abelhões
anos elaboraram um estudo
cores para decidir o tipo de flores onde
tinguirem e usarem as procu-
rar alimento. Neste caso, e apesar de se tratar de crianças, a participa-

ção cidadã é maior, já que


todo o estudo e resultados foram realiza-
dos e escritos pelas crianças, com supervisão científica.
Num contexto mais relacionado com empreendedorismo social,
encontramos o caso dos laboratórios comunitários, como o GenSpace
em Nova Yorque, BioCurious em Silicon Valley ou La Paillasse em
Paris. Todos estes laboratórios têm em comum serem fundados por
investigadores para promover a participação cidadã nos projetos
científicos realizados, desde a sua planificação à elaboração e análise
de resultados. Para além da ciência, estes laboratórios realizam tam-
bém ações de formação e educação entre os seus membros e
para a
comunidade, promovendo a interdisciplinaridade, a
intervenção artis-
tica e a participação dentro do seu tecido
social. Nestes casos, a parti-
cipação cidadã é a mais completa e
abrangente,
I
Fonte: João Alpredinha (Doutor em
Zoologia pela Universidade de Oxford).
INOVAÇÃO SOCIEDADE
E
109

Os casos e tipos de inova


São apresentados na caixa anterior, não esgo-
tam o tema
Vamos prosseguir
apresentando m ais alguns tipos de inovação social":
« Judicial (inovação em
Processos legais e leis) — exemplo: inclusão
de cidadãos em julga me : -
ntos como júri em sistem as onde isso não
acontece atualmente,
a
« Sociocultural (ij OVação
em instituições não-formais) exemplo:
mudança na ra é
205
caloiros nas universidades, passando de cas-
açõ
tigos para ções mais inclusivas e menos agressivas.
.s ociopolítica
tica (inovação na forma de governar e política)
- exemplo:
mais p decisões através de referendos
.
(alteração em estruturas normativas éticas) — exem-
Socioapar
plo: a
lógicento
tdeoecim do protestantismo no final da idade média.
. (inov ação nos modelos de negócio e económicos)

ômica
socioeconcade ias de valor inclusivas como é o caso das iniciativas
exem plo:
fair-trade onde se procura dar uma maior percentagem dos lucros
aos produtores agrícolas.
-
«
Sócio-organizativa (inovação nas estruturas organizativas) exem
plo: estruturas em rede em alternativa à forma piramidal.

« Sociotécnica (inovação na interação entre humanos e tecnologia)
book e Twitter.
exemplo: uso de redes sociais como Face
o

entre os humanos e ambiente,


«
Socioecológica (alteração na interação
de bicicletas e menor de carros.
etc.) — exemplo: maior utilização
e


plo: labo-
« Socioanalítica (inovação nas estruturas analíticas) exem
e colaborar em
ratórios onde o comum dos cidadãos possa propor
projetos científicos.

em 16/11/2017).
() (consultado
http://edepot.wur.nl/407981
- UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
110 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA

Caixa 6.4. Um futuro com menos carros?

Muitas vezes, uma inovação social não é e xclusivamente de um só


to temos com os
tipo. Um destes casos é o novo relacion amen que
automóveis com serviços apoiados p or ap licações nos telemóveis
como acontece com a Uber e a Drive Now. Ambos os serviços são pos-
síveis graças à georreferen O caso (Uber) é um serviço
ciação. primeiro
semelhante aos táxis. No segun do caso (DriveNow), são Os próprios
utilizadores que conduzem os automóveis. A aplicação que está ins-
talada no telemóvel permite saber on de estão estacionados os carros
disponíveis mais pró ximos e reservá- lo para utilização. O preço é
cobrado por minutos de condução, podendo terminar a sua utiliza-
ção, estacionando o automóvel em qua Iquer local de uma determi-
nada área.
Podemos referir-nos a e sta inovação, como sendo uma inovação
sociotécnica porque muda a nossa relação com os carros. Porém,
também podemos dizer que é socioeconómica e socioambiental. Por
um lado, ambos os serviços são novos modelos de negócio. Por outro
lado, podem levar a que existam menos carros devido ao facto de as
pessoas sentirem menor necessidade de adquirir carros.
O progressivo aparecimento e melhoria de serviços que mudam o
nosso relacionamento com os carros podem levar a que no futuro
adquirir um carro seja uma coisa rara. Para quê comprar um carro se
podemos satisfazer a necessidade que ele preenche alugando um,
talvez com encargos mais baratos, feitas as contas, do
que os encar-
gos de aquisição e manutenção de um que fosse de nossa proprie-
dade (isto para não contar com as vanta
gens de não ter de estacionar,
visitas ao mecânico, cumprir obrig
ações legais, etc.).

Outros exemplos e tipos de inova


ção que já existem poderiam ser
apresentados. Tenh amo s cons ciência que este é um
processo que não
e novas inovações irão surgir, Tenhamo
para s também consciência que
muitas ficarão pelo caminho, pois os benefícios
que proporcionam pode-
rão ser inferiores aos custos aquando da sua
utilização. Deve-se pois ter
INOVAÇÃO
E SOCIEDADE
1 1 1

cuidad o na implementacã : =
ção das inovações.
Quando uma inovação social é
experimentada várias vezes e nã o
resulta, será provavelmente melhor
não à implementar ou termin á-la.
Neste domínio, uma boa ideia, é
e beneficiar com
aprender as experiências realizadas
locais. por outros e em
diversos

Síntese do capítulo

ÃO) 6
capítulo começa por apresentar a importância da Inovação para as
Nesse sentido, são apresentadas três razões
sociedades. interligadas: 1)
Crescimento: maior produtividade e
riqueza económica; 2) Leva à
preço mais barato - melhora os
melhoria dos produtos serviços a um
e
padrões de vida; 3) Redução dos desperdícios e dos danos ambientais.
Segue, mostrando diversos riscos da inovação para as sociedades: 1)
Aumento da concorrência e desemprego; 2) Retorno incerto; 3) Uso
pouco ético das inovações.
« Continua abordando os fatores que mais favorecem a inovação nas
sociedades. Esses fatores são: 1) Existe um grande movimento de pes-
soas; 2) Convergência de diferentes campos do conhecimento; 3) Exis-
tência de uma infraestrutura que permita a fácil circulação de pessoas e
a troca e consulta de informação e conhecimento.

« Termina com a questão da inovação social. Alguns tipos de inovação


social: Judicial; Sociocultural; Sociopolítica; Socioideológica; Socioeco-
nómica; Sócio-organizativa; Sociotécnica; Socioecológica; Socioanalítica.
INOVA ÇÃO E TE
CNOL OGIA - UMA VISÃO MUL TIDISCIPS MAR
,

112

ará discuss reflexão


uestões
me
iso. p
obesa
|

na sociedade
tem tido um impacto positivo
1. Considera que a inovação
onde vive? Justifique a sua posição.
destaca para à SOCI edade onde vive? Fun-
2. Que riscos da inovação mais
damente a sua resposta.
favorável à inovação? Jus-
3. A sociedade onde vive é, P articularmente,
tifique a sua posição.
a sociedade onde vive? Fun-
4. A inovação social tem S ido benéfica para
damente a sua resposta.

8 Bibliografia
Ahistrom, D. (2010). Innovation and Growth: How Business Contributes to Society. Aca-
demy of Management Journal, 24(3), pp. 11-24.
Johansson, F. (2006). The Medici Effect: What You Can Learn from Elephants and Epi-
demics. USA: Harvard Business Review Press.

Kadar, M. & Moise, I. A.; Colomba, A. (2014). Innovation


Management in the Globalized
Digital Society. Procedia Social and Behavioral

Sciences, 143, Pp. 1083-1089, grd
Cyprus International Conference on Educational
Research.
Urama, K. C.; Acheampong, E. N. (2013). Social Innovation
Creates Prosperous Societies.
Social Innovation Review
Stanford (SSIR). https:/
creates /ssir.org/articles/entry/social |

innovation prosperous societies (visto a


14/11/2017).
Capítulo 7

Estratégias e métodos
de inovação
Ivo Dias de Sousa
Luísa Cagica Carvalho

Objetivos de aprend izagem


* Entender a estratégia Blue Ocean
pelo posicionamento.
* Perceber o método Outofthe Box.
* Compreender o método Kaizen da
«pequena» inovação.
* Identificar o método da inovação
em circulo.
ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE INDVAÇÃO
tis

71. Aestratégiaaz
duleocea no
a inovação pelo posicionamen
to
A estratégia de oceano azul
(Blue Ocean), apresentada
assenta na inovação pelo Posici em 2005,
onamento! Foi baseada num estu
150 opções estr do de
atégicas realizadas em 30 indú
strias dife
rentes durante um
período superior a um século.
Fundamentalmente, os dois auto
estratégia sustentam que o suce res da
sso duradouro não resulta da com
direta com a concorrência uma petição
vez que a guerra direta com os
tesresulta em oceanos vermelhos concorren-
(do sangue das disputas), ou
mercados disputados por dife seja: em
rentes competidores, os lucr
diminuir (oceanos vermelhos). os tendem a

Os oceanos vermelhos são mercad


os que tendem a estar saturados
onde o foco das empresas é supe e
rar a concorrência, não se preocu
em procurar mercados com menos pan do
concorrência. O seu objetivo é cons
guirem uma maior quota de mer e-
cado, ou seja, venderem mais
concorrentes. Estes mercados nor que os
malmente apresentam fracas taxa
crescimento e os produtos e serviços s de
que caraterizam os oceanos vermel
tendem a tornar-se commodities hos
que são fornecidos por várias emp
resas.
Por oposição, a estratégia oceano
azul procura criar (ou encontrar
novos mercados inexplorados com )
grande potencial de crescimento,
renciando-se deste modo da con dife-
corrência.
Os oceanos azuis representam os
mercados por explorar de produt
e serviços que ainda não existem. os
Por definição, a concorrência é
tente quando as inexis-
empresas avançam para esse
s mercados (as regras e
fronteiras do mercado ainda
não estão estabelecidas). Dest
cura e modo, a pro-
é criada, e não disputada com
outras empresas. Claro que com
passar do tempo poderão transf o
ormar-se em oceanos vermelhos
enquanto tal ocorrer, são mercad . Porém,
os propícios a grandes taxas de
mento de receitas e lucros. cresci-

O conceito central desta estratég


ia é o de inovação de valor, ou
diferenciação seja, a
(valor alto), conseguindo ao mesmo
tempo baixar custos de
produção. A diferenciação pode
(e deve) ser obtida com a reduçã
o de
O) Kim e Mauborgne (2015); Kim e Maub
orgne (2017).
116 NOvAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
ESTRATÉGIAS E METO

custos. Quando se consegue acrescentar inovação de valor é possível


Os seis ca:
aumentar o valor quer para os clientes quer para as empresas, levando
1. Olhar]
também a que a concorrência perca importância ou, mesmo, se torne
2. Olhar]
irrelevante.
3. Olhar|
Um dos instrumentos fundamentais desta estratégia é a estrutura das 4. Olharf
quatro ações (four actions framework). Este instrumento tem como uma 5. Olhar F
das suas principais finalidades combater a tradicional associação entre 6. Olhar r
diferenciação e custos elevados, ou seja, afastar a ideia de que a diferen-
Estes seis
ciação implica, necessariamente, aumento de custos.
vas sobre q se
Para conseguir obter estes resultados, esta ferramenta vai identificar, os autores da
por um lado, quais os fatores que devem ser criados para elevar o valor gico seja mais
de um determinado produto ou serviço e, por outro lado, como reduzir habitual das o
ou eliminar fatores menos valorizados quer atualmente quer no futuro. realidades ese
Mais especificamente, este instrumento consiste em quatro ações:
* Aumentar — Que fatores devem ser aumentados na indústria em ter- 1. Olhar para
mos dos padrões do produto, preço ou serviço atualmente existen-
Os concori
tes?
mente nessa |
* Eliminar — Que áreas da empresa ou indústria podem ser comple- outras indústr;
tamente eliminadas para reduzir custos e criar um mercado intei- bém são conec
ramente novo? por isso que se
* Reduzir —- Que áreas do produto ou serviço da empresa não são operam na pr
inteiramente necessárias, mas têm um papel significativo na indús- posto que os :
tria. Por exemplo, o custo de fabricar um determinado material para com fronteiras
um produto pode ser reduzido? Ou seja, não se pode elimina-lo, realidade.
mas pode-se reduzi-lo. Assim, no
* Criar — As empresas devem procurar a inovação com os seus pro- passo será encc
dutos ou serviços. Ao criar um produto ou serviço inteiramente novo, trias alternativ
a empresa cria o seu próprio mercado diferenciando-se da competi- cumprem a me
ção. Um exemp.
entretenimentc
A execução destas quatro ações conduz ao modo como uma empresa
mento. Por sus
pode criar oceanos azuis orientando-se através das seis fronteiras con-
relaxamento e
vencionais da concorrência (Estrutura dos Seis Caminhos — Six Paths
exemplo, os CD
Framework).
Porém, outras ;
centros comerc
ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE INOVAÇÃO
TT:

Os seis caminhos são:


1. Olhar para indústrias alternativas.
2. Olhar para grupos estratégicos.
3. Olhar para grupos de compradores.
4. Olhar para ofertas de produtos e serviços complementares.
5. Olhar para a orientação funcional-emocional de uma indústria.
6. Olhar numa perspetiva temporal.
Estes seis caminhos ajudam as organizações a terem novas
perspeti-
vas sobre o seu negócio e a indústria onde se posicionam. De
acordo com
os autores da estratégia Blue Ocean, levam a que o pensa
mento estraté-
gico seja mais criativo e se descubram realidades escondidas
na atividade
habitual das organizações. Consequentemente ao identificar
e mostrar as
realidades escondidas demonstra que é possível agir sobre
elas.

1. Olhar para indústrias alternativas

Os concorrentes mais diretos numa indústria encontram-


se normal-
mente nessa indústria, porém, é frequente, existirem organizações de
outras indústrias que fornecem serviços e produtos altern
ativos que tam-
bém são concorrentes. Os autores da estratégia Blue Ocean
consideram
por isso que será nefasto limitar e focar à atenção apenas
nos rivais que
operam na própria indústria. Subjacente a esta atitude
, está o pressu-
posto que os produtos e serviços concorrem num merca
do conhecido
com fronteiras muito precisas, o que, frequentemente,
não acontece na
realidade.
Assim, no caminho a percorrer para os oceanos azuis,
o primeiro
passo será encontrar indústrias alternativas à da organização.
Essas indús-
trias alternativas oferecem produtos e serviços, que embor
a diferentes,
cumprem a mesma finalidade.
Um exemplo dado pelos autores são as alternativas à
indústria do
entretenimento. Esta indústria tem como função
fornecer entreteni-
mento. Por sua vez, a finalidade do entretenimento
é o divertimento, o
relaxamento e a diminuição do stress. Produtos altern
ativos serão, por
exemplo, os CD de música, o teatro, programas de televis
ão, entre outros.
Porém, outras alternativas a esta indústria serão,
por exemplo, visitas a
centros comerciais, a lojas de jogos ou bibliotecas, ou
ainda excursões
E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
INOVAÇÃO
118

diferentes embora o propósito seja


turísticas. De notar que as funções são ligados ao
a atenção focada no que leva os
o mesmo. Consequentemente, sendo são os age
stria para outra serão elimina-
consumidores a mudarem-se de uma indú o terceiro
não são necessários para 0 propó-
dos, ou reduzidos, todos os fatores que de um gr
nos azuis (onde a concorrência é
sito, o que irá facilitar a criação de ocea novo valo
inexistente). Um c
produtor
2. Olhar para os grupos estratégicos foco de u
são conjuntos de organiza- cos e enf
Em termos simples, grupos estratégicos
atégias semelhantes. De acordo com mente a :
ções numa mesma indústria com estr
uem uma ordem hierárquica assente o seu foc
os autores, os grupos estratégicos incl
nce. A questão que se coloca aqui insulina,
em duas dimensões: preços e performa
ue é que os compradores optaram
então é dupla. Por um lado, saber porq
que os levaram a pagar um preço 4. Olhai
pelo grupo alto — quais são os fatores
ram pelo grupo baixo — quais são
mais alto? Por outro lado, porque opta Em 1
a?
os fatores que perderam nessa troc de prod
esforços
dores
3. Olhar para os grupos de compra cimo de
ão numa indústria tende a con-
Os autores sustentam que à competiç
Poré
outras palavras, tende a existir
vergir para um tipo de comprador. Por
os seus
vo. Desta forma, os esforços com- aos seu
uma definição comum de comprador-al
r-se nos clientes abrangidos pela identifi
petitivos das organizações tendem a foca
as servir melhor esse tipo de
definição comum. Ou seja, O foco é apen
dutos c
oceano vermelho. tos ou
cliente, o que, usualmente, resulta num
rsos agentes que estão, direta ou minar+
É habitual num mercado existirem dive
de compra. Tipicamente, os agen- Por
indiretamente, envolvidos nas decisões
didos nas seguintes categorias: têm de
tes ligados aos compradores estão divi
ou serviço.
* Compradores que pagam pelo produto
-se en
adequ:
« Utilizadores que usam os produtos.
transp
decisões de compra recorrendo
« Influenciadores que condicionam as
mas do domínio da psicologia.
a diversas técnicas, entre as quais, algu
vendendo-os a outros.
« Compradores que são intermediários,
de certas normas à respeitar,
« Reguladores que, pela imposição
podem ter efeitos nas decisões de compra.
ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE INOVAÇÃO
119

Assim, O primeiro passo a dar pelas empresas é descobrir os agentes


ligados aos compradores na indústria em causa. O segundo, é saber quais
são os agentes focados, ou seja, mais importantes, na indústria. Por fim,
o terceiro passo é responder à seguinte questão: «se se mudar o nosso foco
de um grupo de compradores para outro como poderemos acrescentar
novo valor?»
Um caso abordado pelos autores é o da Novo Nordisk, um grande
produtor de insulina. Esta empresa criou um oceano azul ao mudar o seu
foco de um grupo de agentes para outro. A empresa focava-se nos médi-
cos e enfermeiros, o grupo de agentes sobre o qual incidia tradicional-
mente a atenção da indústria. Porém, a partir de determinado momento,
o seu foco passou a centrar-se nos próprios pacientes que necessitam de
insulina, criando um kit de viagem atraente e fácil de usar.

4. Olhar para a oferta de produtos e serviços complementares

Em muitas indústrias, a concorrência tende a focar-se apenas na oferta


de produtos e serviços dessa mesma indústria. Como consequência, os
esforços desenvolvidos pelas empresas tendem a incidir apenas no acrés-
cimo de valor das ofertas dos produtos ou serviços existentes na indústria.
Porém, as organizações devem preocupar-se com o que acontece com
os seus produtos (ou serviços) antes, durante e depois de terem chegado
aos seus consumidores. Agindo deste modo, as organizações poderão
identificar constrangimentos relacionados com a utilização dos seus pro-
dutos ou serviços por parte dos seus clientes e, oferecendo novos produ-
tos ou serviços complementares aos que já comercializam, poderão eli-
minar esses constrangimentos.
Por exemplo, vejamos o caso do setor do ensino presencial: os alunos
têm de se descolar a um determinando local e, provavelmente, alimentar-
-Se enquanto permanecem no local. Analisando a situação, poderá ser
adequado complementar-se o serviço da organização com serviços de
transporte e serviços de cafetaria ou restaurante.
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
ESTRATÉGIAS E MÉTO
120

ria
5. Olhar para a orientação funcional-emocional de uma indúst das tendem a
er
Esta estratégia centra-se em duas dimensões. Uma delas é perceb
serem reativas
custos, não
que extras são oferecidos no produto que, aumentando os Os autores,
a sua funcionalidade. Com a eliminação (ou, pelo menos, mação das ten
aumentam
o ou
redução) desses fatores, será possível conseguir oferecer um produt tempo, ou seja
ido a cus-
serviço mais simples e a um preço mais baixo (também produz negócio tendo «
valor para O
tos mais baixos). Esta situação pode aumentar, em muito, o cias que se dese
quais são os
comprador. A segunda dimensão, ou caminho, é perceber que os consumi
indiferen-
fatores que se podem adicionar a um determinado produto Quando se :
ção e emo-
ciado, de modo a poder proporcionar um acréscimo de satisfa mendam a utiliz
ção ao seu comprador. 1. Devem se
nal
O apelo emocional ao comprador tem a ver com a utilidade emocio 2. Devem se
determinado
que um comprador experimenta ao consumir ou utilizar um 3. Devem te
a ver com a
produto ou serviço. O apelo funcional do comprador tem Nem todas a
o ou ser-
utilidade funcional que o comprador pode obter de um produt uma determinac
funcional
viço quando o utiliza (calculando a relação entre a utilidade não for clara, de
obtida com o preço pago).
longo prazo. Nes
trada no
Se se perceber que a atenção de uma indústria está concen uma estratégia a:
versus emo-
aspeto funcional é possível repensar a orientação funcional Caso uma te)
formas é
cional da indústria. Isto pode ser feito de duas formas. Uma das ria bem definid:
adicionando ele-
eliminar funções. A outra é acrescentar funcionalidades, diferente. Nestas
a atenção
mentos emocionais. Esta aproximação, em vez de concentrar valor aos cliente,
tam-
na melhoria do resultado final recorrendo apenas ao preço, foca-se
bém nos aspetos emocionais.
a que
Os autores da estratégia referem o caso da Subway, empres
almente
opera na indústria do fast food. Nesta indústria, o foco é habitu
centrado em funcionalidades como o preço e o tempo de espera.
A Sub- 7.2. Outof
l, recorre ao
way, por sua vez, num setor onde isso não é nada habitua ocupa:
apelo emocional com sucesso.
Parafraseandc
6. Olhar numa perspetiva temporal mudam-se as von
cias
Uma estratégia recorrente em muitas indústrias é reagir às tendên
ao ambiente *etoss. O anágo
que a afetam com o objetivo de as organizações se adaptarem
ção às
que as rodeia. Ou seja, a atenção está concentrada na adapta
implem enta-
mudanças à medida que estas ocorrem. Assim, as medidas
ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE INOVAÇÃO
121

das tendem a ser incrementais e, de certa forma, passivas, visto apenas


serem reativas ao que vai sucedendo.
Os autores, por contraposição, sugerem outra via: participar na for-
mação das tendências que se criam no meio envolvente ao longo do
tempo, ou seja, as organizações podem modificar os seus modelos de
negócio tendo em conta os conhecimentos que possuem sobre as tendên-
cias que se desenham e que irão, se se concretizarem, alterar o valor
atual
que os consumidores vão atribuir aos produtos e serviços no futuro.
Quando se avalia uma tendência ao longo do tempo, os autores reco-
mendam a utilização de três critérios:
1. Devem ser decisivos para o negócio;
2. Devem ser irreversíveis;
3. Devem ter uma trajetória clara.

Nem todas as tendências cumprem estes três critérios. Por exemplo,


uma determinada tendência poderá ser importante, mas se a trajetór
ia
não for clara, de pouco ou nada serve a uma organização fazer planos
a
longo prazo. Nesta situação o melhor será, provavelmente, munir-se
de
uma estratégia adaptativa aos acontecimentos.
Caso uma tendência seja importante, irreversível e com uma trajetó-
ria bem definida para uma indústria, a resposta a ser dada deverá ser
diferente. Nestas circunstâncias, é possível e aconselhável oferecer grande
valor aos clientes e diferenciar-se da concorrência.

7.2. Out ofthe Box: para além do espaço


ocupado pelas soluções atuais

Parafraseando o nosso grande poeta Camões, mudam-se os tempos,


mudam-se as vontades. Ora isto significa, muitas vezes, abandonar solu-
ções antigas para adotar novas na satisfação das necessidades que todos
temos. O antigo dá lugar ao novo.
122 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR ESTRATÉGIAS E MÉTODOS |

Não há nada de errado em mudar à medida que o mundo à nossa volta O método tem
muda. Aliás, permanecer imutável quando o mundo à nossa volta de altera,
o 1. Enunciar c
tarde ou cedo, acaba em desastre. Claro que nem todas as mudanças são
e ção ou solu
boas. Por vezes, é melhor não fazer nada. No entanto, a mudança é inevi-
tável e independente da nossa vontade. Necessitamos por isso de encon- > Olhar pera:
trar novas soluções e depois escolher quais implementar. Estas soluções ções que va:
são normalmente baseadas nas soluções já existentes expandindo o 3- Repetir os |
campo das possibilidades. conveniente
Deste modo, uma fonte de inspiração para novas soluções são as pró- Existe um pass
prias soluções que se pretendem substituir. No entanto, se se soubermos sário dar, isto, cas:
qual é a caixa das nossas soluções atuais, poder-se-á também tentar sair cionar quais imple:
dela. Termos noção do conjunto das soluções atuais, pode levar a um existindo outras fer
esforço consciente e determinado para sair dele. j
Analisemos con
O método Out of the Box (fora da caixa) procura conduzir à desco- Suponha o leitor qt
berta de soluções possíveis que ultrapassem e sejam completamente dife- que considera a soh
rentes das atuais. Ou seja, conduz a encontrar soluções que estejam fora rafamentos) e cara
das fronteiras das soluções atuais. Soluções novas que ocupem um espaço situação, pretende
diferente das soluções atuais. atual solução. Dep
Como se define o espaço ocupado pelas soluções atuais? Primeiro adota alguma delas.
terão que se definir quais são as caraterísticas ou as regras explícitas e
implícitas das soluções atuais. Isto leva a que se enuncie o maior número 1. Enunciar caraterí:
possível de caraterísticas ou regras atuais, servindo pois de referência ou soluções que e
para encontrar novas soluções que se afastem e sejam reconhecidas como Enunciemos as «
indo para além do espaço ocupado pelas atualmente existentes. Caraterísticas de
Um dos objetivos deste método é eliminar possíveis limitações às * Carro.
questões que se deverão colocar no campo das possibilidades. Outro pro- * Quatro lugares
pósito é verificar se os fundamentos em que assentam as questões são * Gasolina.
reais e se as soluções diferentes consideradas são verdadeiramente possí- * Condução pelo
veis. De algum modo, as piores prisões mentais de um gestor são os pres- « Trajeto X, ida e
supostos enraizados no seu modo tradicional de olhar para as coisas e * Horas Y, tempc
que não testa para verificar se são reais ou apenas construções mentais * Horas Z, tempo
da sua pessoa baseadas no modo como sempre viu as coisas. Agindo * Local de traball
deste modo, podem estar a colocar-se limitações e a impedir soluções que
são verdadeiramente inovadoras.
ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE INCYAÇÃO 123

O método tem, fundamentalmente, três passos:


1. Enunciar caraterísticas (ou regras explícitas e implícitas) da solu-
ção ou soluções que estamos a utilizar como base.
2. Olhar para as caraterísticas (ou regras) enunciadas e procurar solu-
ções que vão para além delas.
3. Repetir os passos 1 e 2 tantas vezes quantas forem consideradas
convenientes.

Existe um passo posterior que, mais tarde ou mais cedo, será neces-
sário dar, isto, caso sejam identificadas novas soluções: trata-se de sele-
cionar quais implementar ou não. Este método não abrange essa decisão,
existindo outras ferramentas e métodos dedicados a essa tarefa.
Analisemos com recurso a um exemplo as três fases atrás enunciadas.
Suponha o leitor que vai para o trabalho todos os dias em carro próprio e
que considera a solução bastante demorada (devido aos constantes engar-
rafamentos) e cara (estacionamento e combustível caros). Perante esta
situação, pretende encontrar soluções que vão para além do espaço da
atual solução. Depois das alternativas identificadas, pretende decidir se
adota alguma delas.

1. Enunciar caraterísticas (ou regras explícitas e implícitas) da solução


ou soluções que estamos a utilizar como base
Enunciemos as caraterísticas da solução atual.
Caraterísticas detetadas:
* Carro.
* Quatro lugares.
* Gasolina.
* Condução pelo próprio.
* Trajeto X, ida e volta para o local de trabalho.
* Horas Y, tempo gasto na ida para o local de trabalho.
* Horas Z, tempo gasto no regresso do local de trabalho.
* Local de trabalho
124 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR ESTRATÉGIAS E MÊ

2. Olhar para as caraterísticas (ou regras) enunciadas e procurar « Propri:


soluções que vão para além delas tem al
Enumeremos as possíveis soluções que vão para além do espaço da carro e
solução de base. Não é importante nesta fase se as soluções novas encon-
tradas merecem ou não ser implementadas. Essa é uma decisão que não As soluçi

entra no âmbito deste método. Isto é espec


das, analisa
« Utilização de carro — pode ir a pé, de transportes públicos (metro
mais fácil or
ou autocarro), bicicleta ou mota.
De certa
* Quatro lugares — poderá comprar um carro de apenas dois lugares.
consistência
« Gasolina — poderá comprar um carro elétrico ou que utilize gasóleo. procura de ,
* Condução pelo próprio — ir de táxi ou partilhar um carro com pes- pois, de for)
soas que necessitem percorrer trajetos semelhantes. existem solu
* Trajeto X, ida e volta para o local de trabalho — considerar trajetos
alternativos.
* Horas Y, tempo gasto na ida para o local de trabalho — considerar
deslocar-se fora das horas de ponta pois poupar-se-á bastante tempo 7.3. Kai
no trajeto.
* Horas Z, tempo gasto no regresso do local de trabalho — considerar O Kaize
deslocar-se fora das horas de ponta pois poupar-se-á bastante tempo melhorado,
no trajeto. inovações ei
« Local de trabalho — Trabalhar noutro local, tempo total ou parcial — objetivo é e
teletrabalho. domínio da
como cuida:
3. Eventualmente, repetir os passos 1 e 2 as vezes que forem consideradas Conheci
convenientes çaram a uti
Após terminadas as duas fases anteriores, foi decidido repeti-las tendo ensinamen
sido adicionadas mais duas caraterísticas à solução base: grande suc
* Quatro litros aos 100 quilómetros. adotado er
« Proprietário. Idealm
TAÇÃO € CL
O que permitiu adicionar mais soluções possíveis:
rias suger
* Quatro litros aos 100 quilómetros — comprar carro com menores
consumos.

() Maurer (
ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE INOVAÇÃO
125

* Proprietário — recorrer a serviços como o «DriveNow» que permi-


tem alugar carros e motas por alguns minutos podendo deixar o
carro estacionado no local de destino.

As soluções atuais são possíveis fontes de inspiração de novas soluções.


Isto é especialmente verdade se as soluções existentes forem investiga-
das, analisadas e questionadas. Se conhecermos as fronteiras de
algo é
mais fácil orientar esforços para ir para além delas.
De certa forma, o recurso a este método é uma forma de potenciar
a
consistência cognitiva na medida em que nos poderá ajudar a orientar na
procura de soluções para além das que já temos. Este método leva-nos
pois, de forma consciente, e não ao acaso, a explorar e a acreditar que
existem soluções para além das fronteiras que já conhecemos.

7.3. Kaizen: a «pequena» inovação

O Kaizen, assentando numa filosofia que afirma que tudo pode ser
melhorado, é um método de melhoria contínua assente em
«pequenas»
inovações envolvendo todos os colaboradores de uma organização!
O seu
objetivo é eliminar desperdícios, sendo utilizado, entre outras
áreas, no
domínio da qualidade. Atualmente é utilizado em setores tão diferen
tes
como cuidados de saúde, bancos e indústria.
Conhecido pela palavra japonesa Kaizen, as empresas japonesas come-
çaram a utilizar este método após a Segunda Grande Guerra com
base em
ensinamentos originários dos EUA. Após a difusão e a obtenç
ão de
grande sucesso deste método no Japão, este foi divulgado pelo mundo
e
adotado em muitos locais.
Idealmente, o Kaizen envolve todos os colaboradores de uma organi-
zação e consiste essencialmente na implementação de pequenas
melho-
rias sugeridas pelos empregados. Aconteceu e acontece que as ideias
con-

() Maurer (2004); Liker (2004).


126 INCYAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR ESTRATÉGIAS E MÉ

sideradas úteis começam a ser implementadas no próprio dia em que são 7.4. PDi
propostas.

O Kaizen, quando bem aplicado, vai para além da melhoria contínua O PDCA
da produtividade. Deverá contribuir também para humanizar os locais de é um proces,
trabalho, como por exemplo, diminuindo, ou mesmo eliminando, trabalho nas organize
demasiado duro. Um outro dos seus objetivos, é ensinar os trabalhadores problemas, :
a fazerem experiências no seu local de trabalho com base no método cien- minado prol
tífico. Outro ainda, é como encontrar ineficiências e desperdícios nos cutar. O pro
processos, propondo ideias para a sua eliminação. nidamente. !
Obviamente, a boa implementação do Kaizen necessita da colabora- e produtos.
ção dos empregados das organizações. Sem essa colaboração, não é pos- Este pro
sível obter os benefícios potenciais da utilização do Kaizen. O Kaizen resumir o n
deve ser utilizado a qualquer nível da organização com a participação hipóteses, se
quer da gestão de topo, quer como de todos os outros níveis hierárquicos. provar ou ng
A implementação deste método tenderá a deparar-se com grandes experiências
obstáculos em organizações cuja cultura organizacional acentue demasia- Na desci
damente a hierarquia e o respetivo controlo. O Kaizen requer que sejam verificar o pi
feitas mudanças. Estas mudanças devem ser avaliadas e, tendo em conta grafo anteric
a avaliação, devem ser efetuados os necessários ajustes. Ora isto deve ser
realizado por quem está a realizar a operação com alguma liberdade,
situação que colide com culturas hierárquicas e controladoras. 1. Plan (pla

O Kaizen é implementado recorrendo a sugestões individuais dos tra- Neste pa:


balhadores e incidem sobre o trabalho que executam, podendo depois ser interligadas.
implementadas no próprio posto de trabalho de quem as sugeriu. Isto é conta o obje
feito com o envolvimento de um pequeno número de pessoas e caso a tado esperac
melhoria proposta seja um sucesso, poderá (e, em muitos casos, deve) ser escala. Isto p
implementada noutros setores da organização onde seja adequada. Uma téci
técnica facili
blema. O ní
deverá ter é
especulações

() Rother (2010)
2) https: //en.wil
3) http: //news.e
department (
ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE INOVAÇÃO 127

74. PDCA: inovação em círculo

O PDCA (plan (planear) — do (fazer) — check (verificar) — act (agir))


é um processo de mudança circular que facilita a introdução de inovações
nas organizações que o adotam! O PDCA é uma abordagem para resolver
problemas, permitindo experimentar soluções possíveis para um deter-
minado problema com a finalidade de identificar a melhor antes de a exe-
cutar. O processo, sendo circular, não tem fim e deve ser repetido indefi-
nidamente. O objetivo desta repetição é a melhoria continua de processos
e produtos.
Este processo tem semelhanças com o método científico? Podemos
resumir o método científico como um processo onde são (1) colocadas
hipóteses, sendo, depois, (2) realizadas experiências com o fim de as com-
provar ou não e por fim, (3) procede-se à avaliação dos resultados dessas
experiências confirmando ou não as hipóteses inicialmente colocadas.
Na descrição que se segue dos quatro passos do PDCA poder-se-á
verificar o paralelismo com o resumo do método científico feito no pará-
grafo anterior.

1. Plan (planear)

Neste passo, a organização deve concentrar-se em duas preocupações


interligadas. Por um lado, definir o objetivo. Por outro lado (tendo em
conta o objetivo), saber quais os processos que contribuem para o resul-
tado esperado. Idealmente, o planeado deve ser testado em pequena
escala. Isto para se verificarem todos os eventuais efeitos possíveis.
Uma técnica, por vezes utilizada neste passo é a dos 5 porquês? Esta
técnica facilita o conhecimento da causa real de um determinado pro-
blema. O número de perguntas poderá variar. Uma precaução que se
deverá ter é fundamentar as respostas com dados objetivos e não com
especulações.

() Rother (2010); Tapping (2008).


(2) https: //en.wikipedia.org/wiki/PDCA (consultado em 14/12/2017).
(3) http: //news.ewmfg.com /blog/how-to-implement-the-pdca-cycle-plan-do-check-act-in-any-
department (consultado em 14/12/2017).
128 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR ESTARTEGIRS TMETOO

Vejamos um exemplo hipotético do uso desta técnica: 4. Act (agir)


Problema: os estudantes de uma universidade de ensino a distância Se na fast
receberam as notas um mês depois do previsto. proposta na et
- Porquê? O professor recebeu os testes um mês depois do pre- que a existenti
visto. ção apresenta
* Porquê? Porque os serviços da universidade receberam os tes- eventuais des
tes mais tarde que o previsto. visto na fase p

- Porquê? Alguns testes ficaram retidos num centro de exames O sucesso


várias semanas. depende de vá:
« Porquê? O funcionário que normalmente trata do assunto esteve * À primei:
ausente por motivo de doença e não foi indicada outra pessoa difícil ale
para o substituir na tarefa. * À segund
poderá sé
Possível medida: em casos futuros, designar expressamente um subs-
das situa
tituto para executar a tarefa do funcionário que, por qualquer motivo,
ótima.
se ausenta comprometendo os prazos estabelecidos.
* A terceira
não apen:
2. Do (fazer)
partes da
Nesta fase, a organização deve executar o plano preparado na fase partes poc
anterior, realizando os processos previstos. Complementarmente, deve,
também, recolher dados mensuráveis que serão úteis nas duas fases sub- A implemen
sequentes.
tado, pode pror
possíveis benef
padronizado; re
3. Check (verificar)
de soluções infe
Os objetivos desta fase são dois. Estudar os resultados obtidos na fase redução dos cus
anterior e comparar esses resultados relativamente ao previsto na fase Vejamos os
planear para que os desvios sejam evidenciados.
º Melhorias |
Esta fase permite verificar se o que foi planeado é adequado face aos
O PDCA é
objetivos da organização. Caso o ciclo seja repetido várias vezes relativa-
vantagens.
mente à mesma questão, provavelmente será possível identificar tendên-
ção a ques
cias. Ou seja, devem transformar-se os dados recolhidos em informação
método pac
com o fim de melhorar a execução da etapa seguinte. Dito de outro modo,
base em da
deve verificar-se sempre se existe espaço para melhorias e, caso exista,
realizarem-se as alterações convenientes.
ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE INOVAÇÃO
129

4. Act (agir)

Se na fase anterior (Check — Verifica


r) se se verificar que a solução
proposta na etapa plano (Plan) e expe
rimentada na fase fazer (Do) é melhor
que a existente, deverá ser adotada. Poré
m, se se verificar que a
nova solu-
ção apresenta resultados piores, a exis
tente continuará à ser utilizada. Os
eventuais desvios, tanto positivos
como negativos, relativamente ao
visto pre-
na fase plano podem fornecer indicaçõ
es para futuros ciclos PDCA.
O sucesso da implementação do Proc
esso PDCA nas organizações
depende de várias circunstâncias e cond
ições. Salientamos três:
* A primeira é ter o apoio da gestão
de topo. Sem este requisito será
difícil alcançar todos os potenciais bene
fícios do PDCA.
* A segunda condição é Tepetir os ciclo
s. Em algumas circunstâncias
poderá só se justificar fazer o ciclo PDC
A uma vez. Mas na maioria
das situações, o ciclo deverá ser repe
tido para encontrar a solução
ótima.
* A terceira condição, é implementar
o PDCA em toda à organização e
não apenas numa parte. Existem ques
tões que envolvem diferentes
Partes da organização, sendo que
as alterações feitas numa das
partes poderão exigir e ter consequência
s numa outra parte.
A implementação do sistema PDCA,
sobretudo quando é bem execu-
tado, pode proporcionar grandes bene
fícios às organizações. Alguns dos
possíveis benefícios são: melhorias
contínuas através de um método
padronizado; redução e barreira à
gastos de recursos na implementaçã
de soluções inferiores ou ineficazes; o
promoção do trabalho em grupo
redução dos custos. e

Vejamos os benefícios mais em porm


enor:
* Melhorias contínuas através de um
méto do padronizado.
O PDCA é um método padronizado,
o que proporciona diversas
vantagens. Uma delas é poder ser repe
tido inúmeras vezes em rela-
ção a questões recorrentes ou novas.
Outra vantagem de ser
um
método padronizado é permitir que
as decisões sejam tomadas com
base em dados e informações objetiva
s.
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA — UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR ESTRATÉGIAS E MEÉTO

* Redução e barreira a gastos de recursos na implementação de solu-


ções inferiores ou ineficazes.
O PDCA é um método experimentalista. Ou seja, testa soluções pos- 1. Acha
síveis em pequena escala, evitando assim grandes gastos com solu- emp!
ções ineficazes ou inferiores com base em dados e informações obje- 2, Pode
tivas. orgal
3. Pens
* Promoção do trabalho em grupo
estuc
O método PDCA promove o trabalho em grupo recorrendo à solução
4. Expli
de resolver problemas mobilizando todos os agentes envolvidos nes-
vida
ses problemas. Por exemplo, na fase planear é, normalmente, pedida
a colaboração de muitas pessoas.

« Redução dos custos


Os custos de implementação deste método, quando comparados com
os proveitos que proporcionam às organizações ao remover obstá-
culos e ineficiências resultam num investimento altamente vanta- E Bibliografia
joso. Liker, J. (2004).
Manufacture
Kim, W. C. & Ma
Create Uncor
vard Business:
Síntese do capítulo Kim, W. €. & Ma
Books.

* Este capítulo começa por apresentar a estratégia Oceano Maurer, R. (2004


Azul que
man Publishi
assenta na inovação pelo posicionamento.
Rother, M. (201
* Aborda depois o método Out of the Box (fora da caixa) que inventaria e superior rest
discute as caraterísticas das soluções atuais para, ultrapassando as fron-
Tapping, D. (200
teiras das suas possibilidades, descobrir outras que vão além das atuais. Through PLA
* Apresenta o método Kaizen de inovação que assenta na ideia de melho- Wiseman, R. (20%
ria contínua através da adoção gradual de «pequenas» inovações.
* Termina a explicar o processo PDCA (plan (planear) — do (fazer) - check
(verificar) — act (agir)), que é um processo de mudança circular que
envolve quatro fases e tem como finalidade identificar a melhor solu-
ção para um problema antes de a executar.
ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE INDVAÇÃO

1. Acha que faz sentido aplicar a estratégia Ocean


o Azul em alguma das
empresas que conhece? Justifique a sua respos
ta.
2. Poderia aplicaro método Out of the Boxa algum
problema pessoal ou da
organização onde trabalha? Se sim, aplique o métod
o a esse problema.
3. Pensa que o método Kaizen pode ser aplica
do à organização onde
estuda ou trabalha? Fundamente a sua respos
ta.
4. Explique sucintamente o que é o PDCA. Poderi
a ser aplicado na sua
vida pessoal e/ou nas organizações que conhece
melhor?

E Bibliografia

Liker, J. (2004). The Toyota Way: 14 Management


Principles from the World's Greatest
Manufacturer. USA: McGraw-Hill.
Kim, W. €. & Mauborgne, R. A. (2015). Blue
Ocean Strategy, Expanded Edition: How to
Create Uncontested Market Space and Make the
Competition Irrelevant. USA: Har-
vard Business Review Press,
Kim, W. C. & Mauborgne, R. A. (2017). Blue
Ocean Shift: Beyond Competing. USA: Hache
Books.
Maurer, R. (2004). One Small Step Can Change
Your Life: The Kaizen Way. USA: Work-
man Publishing Company.
Rother, M. (2010). Toyota kata: managing pe
ople for improvement, adaptiveness, and
superior results. USA:MeGraw-Hill.
Tapping, D. (2008). The Simply Lean Pocket Guide
— Making Great Organizations Better
Through PLAN-DO-CHECK-ACT (PDCA) Kaizen
Activities. USA: MCS Media.
Wiseman, R. (2004). The Luck Facor. USA
Avon Books.
Capítulo 8

Inovação na
administração pública
Uma análise aplicada ao caso da
contratação pública responsável

Luísa Cagica Carvalho

Maria Teresa Nevado Gil

María Pache Durán

Objetivos de aprendizagem
« Compreender o conceito de inovação no âmbito da administra-
ção pública e sua pertinência e dinâmicas.
e Analisar o caso concreto da contratação pública como exemplo
de inovação na administração pública.
« Discutir as etapas, os efeitos e impactos sociais da inovação em
contratação pública responsável.
« Refletir sobre exemplos internacionais de inovação em contra-
tação pública.
INOVAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 139

8.1. Inovação na administração pública.


Breve enquadramento

dq deve a administração pública! inovar? Nos últimos anos, temos


verticado que os Governos? estão, em termos globais, sob grande pressão
e têm de responder a novos problemas de complexidade crescente e às
mudanças e turbulências dos ambientes globais. Por um lado, os gover-
nos precisam de lidar com problemas sociais complexos como a pobreza,
e
as epidemias à escala global, o desemprego, a degradação do ambiente
as alterações climáticas. E, por outro lado, têm de se reajustar para man-
terem os seus países competitivos na economia global. Neste contexto
gerir o setor público, tornou-se um desafio constante e exigente para os
decisores políticos, gestores de serviços públicos e funcionários públicos.
Este desafio aumenta quando estamos perante países em desenvolvi-
mento onde as carências de serviços públicos básicos são abismais.
Neste âmbito, os governos precisam de fornecer serviços com maior
alcance e qualidade com recursos reduzidos e capacidades operacionais
por vezes limitadas. Este contexto impõe que se encontrem soluções cria-
tivas e em rede, envolvendo o setor privado, o setor social e a sociedade
civil na prestação de alguns serviços. Para além disso, têm de tornar as
instituições públicas mais responsáveis e eficazes promovendo uma
administração pública mais orientada para os cidadãos. E, por último,
devem responder de forma mais adequada aos cidadãos que tendem a ser

DA Administração Pública, refere-se à organização administrativa, que inclui uma série de ins-
tituições, serviços, organismos ou entidades. A Administração Pública inclui várias realida-
des, nomeadamente: A Administração Central (diretamente dependente do Governo: Minis-
térios, compostos pelas Secretarias de Estado, Direções-Gerais e respetivos serviços, etc.); A
Administração Regional Autónoma (Região Autónoma dos Açores e Madeira, em Portugal);
A Administração Local (os Municípios e as Freguesias, subdivisões administrativas do poder
local normalmente designados por «autarquias»); A Administração Judicial Autónoma (os
Tribunais são uma entidade autónoma das restantes formas de Administração Pública); A
Administração Indireta (que inclui a gestão de institutos públicos com autonomia, corpora-
ções, entre outras entidades).
(2) O termo Governo pode indicar todas aquelas instituições que permitem a execução da função
política do Estado, mas pode também indicar o órgão de soberania que possui a competência
para conduzir a estratégia definida ao nível económico, social, financeiro ou cultural.
ameno enero crer rem ramens

R
UMA VISÃO MULTIDISCIPLINA
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA
136

ic a. Ca da vez mais se
esfera pú bl
mais participativos e interventiv os na serviços
um i dore s passivos dos -
assume que os cidadãos não são cons so s, e na s decisões polí
es
participar Nos process” ta a
públicos, e que estes devem respos
; , m e à demo cra ci a. Para dar
ticas, esta será uma forma
de legit imar a taxa de
esenvo Ividos
é
esta questão quando, principalmente nos past” e maior participação
- gu

abstenção eleitoral tende a aumentar,mas exige uma os proble-


escolhas e No encont ro de a
õ E: ara
oportunidade
ativa nas pessoa s nas
i r dos cidadãos
democracias € ar
mas, torna-se premente aprofundar as ã a ,
hor representação po tic
a que hajam não apenas uma mel
.
mas também uma representação mais ativa
ser
A inovação em governan ça e na administ
ração pública não pode
rnos lidam, Re
considerada como uma moda, mas sim como 08 gove
horaram a qualidade de vida
forma eficaz com desafios complexos e mel
ração pública deve ser nova,
dos cidadãos. Assim a inovação na administ
problema no
no sentido de ser uma solução nova e criativa para um
deve alcançar resultados
domínio público, efetiva e significativa, ou seja,
lema, e ainda ser transferível,
tangíveis adequados à resolução do prob
replicável e escalável.
como: inova ção ins-
Pode-se classificar as inovações no setor público
existentes e /ou na
titucional (concentram-se na renovação de instituições
ere-se à intro-
criação de novas instituições); inovação organizacional (ref
nistração
dução de novos métodos de trabalho e de gestão na admi
idade
pública); inovação de processo (concentra-se na melhoria da qual
dos serviços públicos e de entrega dos mesmos); inovação de conceito
(refere-se à introdução de novas formas de governança, por exemplo,
orçamento participativo, governança partilhada, etc.)
Ainda que os desafios enfrentados pela administração pública sejam
grandes, as oportunidades de inovação também o são. Os mercados se
funcionarem livremente provocam o que chamamos de falhas de mer-
cado, ou seja, situações que exigem a intervenção do estado na economia,
como por exemplo a promoção do Produto Interno Bruto (PIB), o controle
do desemprego ou o combate à poluição. Porém, a administração pública
tem de evoluir e acompanhar os tempos, modernizar-se, digitalizar-se sem
perder o foco nas pessoas, e neste contexto encontrar soluções inovado-
ras e criativas que se adaptem aos desafios do século XXI.
INOVAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 137

8.2. Conceito de contratação pública


a realiza-
. A contratação pública é um gasto de dinheiro público para
ção de obras e compra de bens ou serviços. Estima-se que o valor total de
contratações públicas na União Europeia (UE) alcance os 2 biliões de
euros ao ano, aproximadamente 19% do PIB europeu. O modo como S€
gasta o dinheiro tem implicações evidentes para a economia, para as
entidades que efetuam estes gastos e naturalmente para Os cidadãos, que
em última instância recebem os serviços.

8.3. A inovação em contratação pública


Teco-
A UE no âmbito da estratégia Europeia 2020 iniciada em 2010
mentos
nhece a importância da contratação pública como um dos instru
ente, susten-
que deve ser utilizado para promover O crescimento intelig
o uso eficiente
tável e integrador e ao mesmo tempo para garantir na UÉ,
a lei 9/2017 de
dos recursos públicos. Em Espanha, por exemplo, vigora
transpõe para o orde-
8 de novembro de Contratos do Setor Público, que
ento Europeu e do
namento jurídico espanhol as diretivas do Parlam
te de 26 de fevereiro
Conselho 2014/23/UE e 2014/24/UE, respetivamen
estabelece-se a obrigação de
de 2014. Pela primeira vez, com esta lei,
qualitativos, ambientais, sociais
incorporar de forma transversal aspetos
OS contratos públicos. Neste
e inovadores na hora de preparar e executar
obrigadas a cumprir requisitos
domínio as empresas licitadoras ficam
condições laborais justas, consumo
concretos sobre igualdade de género,
tica.
e comércio justo e eficiência energé
ligada com a
A inovação em contratação pública está intimamente
dade. A Sustentabilidade é um
Responsabilidade Social e Sustentabili
na atualidade se
princípio que permite proteger O meio ambiente, e que
sociais. Atualmente na
converteu numa ideia que reforça as politicas
entos sociais,
contratação da administração pública entram em jogo elem
ambientais e de justiça social, tanto na hora de aprovar os termos do
to dos mesmos.
contrato, como na adjudicação e acompanhamen
A - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
I
E TECNOLOG
INOVAÇÃO
138

1d ja 4 e v e realizar políticas pú
blicas que
Uma Administração responsável d “ações adotem comportamen-
incorporem incentivos para que às organizas tos ablicos
úblico às empresas
tos socialmente responsáveis, vinculando Os do de bens e serviços
socialmente responsáveis! O volume de a aquelas empresas que pro-
de políticas públicas de
permite às administrações públicas estimu ar a:
duzem bens e serviços mais sustentáveis atranS leção do produto como
contratação e compras responsáveis, tento na ; ensável)?
z , e e a

na do fornecedor do mesmo (compra pública resp am


“om O de
+ 2008, , definiu a contratação pública
A
ual os poderes públicos tra-
.
O e nei
responsável como um processo mediante 0 q
i ambiental redu-
um dim prato aneisiare Érica
tam de adquirir bens, serviços e obras com
zido durante todo o seu ciclo de vida e com considerações ,
em comparaçãox com os bens, serviços
: e obras c om a mesma função pri-
mordial que de outra maneira se adquiriam?
Mais tarde, em 2011, refere-se à mesma como operações de contrata-
ção que têm em conta um ou mais dos seguintes aspetos sociais: aporti-
nidades de emprego, trabalho digno, cumprimento dos direitos sociais e
laborais, inclusão social (onde se inclui as pessoas com necessidades
especiais), igualdade de oportunidades, acessibilidade para todos, consi-
deração de critérios de sustentabilidade, onde se salvaguardam questões
de comércio ético, e um cumprimento voluntário mais alargado da res-
ponsabilidade social das empresas? Neste âmbito, através da contratação
pública, os poderes públicos podem realizar uma política de intervenção
na vida económica, social e política do país, que permita conseguir
obje-
tivos sociais, ambientais ou de investigação:

() Oruezabala e Rico (2012),


(2) Shadrina e Romodina (2017).
(8) COM (2008).
(4) COM (2011).
(5) Brammer é Walker (2011).
INOVAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃ
ÇÃO i
p UÚBLICA 1 39

8.4. es
dInclusão da inovação nas diversas fas
e preparação do contrato público
pa-
o estabe
A lei TO trêsA fases nas contratações públicas: a fase de pre
por último, a fase de execução.
Ve o, à fase de adjudicação e,
1. Fase d ã
o nl e preparação do contrato. Nesta fase os órgãos de contrata-
ção têm a oportunidade de incluir:
1.1. Critéri jai e ambientais
érios sociais rrtai na licitação
eita çã de contratos públi-
úbhi
cos.
1.2. a proibição para contratar, fazendo-se referência à obrigação
e contratar empresas que tenham mais de 50 trabalhadores
e 2% de pessoas com necessidades espaciais e a obrigação de
. ... . mo
o

terem um plano para a igualdade.


1.3. A solvência técnica social mediante a apresentação de certifi-
cados de gestão meio-ambiental e experiência na prestação de
serviços sociais.
e de
1.4. Os contratos reservados onde se estabelece a possibilidad
reservar 0 direito a participar nos procedimentos de adjudica-
go
ção de determinados contratos a Centros Especiais de Empre
de iniciativa social e a empresas de inserção.

dois tipos de crité-


o. Fase de adjudicação. Nesta fase consideramos
rios:
rios de adjudicação valo-
21. Os critérios de adjudicação. Nos crité
empresas, uma Vez que
ram-se as ofertas apresentadas pelas
participaram na licitação. A
já se admitiram as empresas que
nto de critérios econó-
adjudicação realiza-se sob o cumprime
podem-se incluir aspetos
micos e qualitativos e, nos últimos com o
que estejam vinculados
sociais e ambientais, sempre
o critério da melhor relação
objeto do contrato, prevalecendo são:
qualidade/preço. Os pri ncipais critérios de adjudicação
.
ão de pessoas com incapacidade
2.1.1. Pontuação por contrataç
ou grupos em
2.1.2. Pontuação por contratação de pessoas
ão social.
situação de risco de exclus
140 vISÃO MULTIDISCIPLINAR
INOVAÇÃO E TECN OLOGIA - UMA

provenientes de
2.1.3. Pontuação por utilização de produtos
Comércio Justo.
2.1.4. Pontuação por contrataçã o de mulheres.
por estabelecer plan os de igualdade e/o
2.1.5. Pontuação
medidas de conciliação.
s laborais.
2.1.6. Pontuação por melhorar as condiçõe
2.1.7. Pontuação por gerar emprego.
ão
2.1.8. Pontuação por subcontratação de Empresas de Inserç
e Centros Especiais de Emprego.
2.2. Os critérios de preferência. Uma vez aplicados os critérios de
adjudicação, se houver um empate entre duas ou mais ofertas
de empresas, a Lei estabelece critérios específicos que se pode-
rão utilizar para o desempate, sempre que estejam vinculados
com o objeto do contrato. Estes denominam-se por critérios
de preferências. No caso de não inclusão destes critérios, o
empate resolve-se atendendo aos critérios sociais referidos no
momento de finalizar o prazo de apresentação de ofertas:
2.2.1. Maior percentagem de trabalhadores com incapacidade.
2.2.2.Menor percentagem de contratos temporários.
2.2.3.Maior percentagem de mulheres empregadas.

3. Fase de execução. A Lei impõe a obrigação ao órgão de contrata-


ção de estabelecer no contrato de condiciones pelo menos uma das
condições especiais de execução de tipo ambiental, social ou relati-
vas ao emprego que se estabeleçam no artigo 202, sendo impres-
cindível tê-lo estabelecido previamente nos critérios de adjudicação
e sempre que estejam vinculadas ao objeto do contrato. Nesta
última fase de execução, as condições que se estabelecem são as
seguintes:
3.1, Obrigação de contratar pessoas com incapacidade.
3.2. Obrigação de empregar pessoas em situação ou risco de exclu-
são social.
3.3. Obrigação de utilizar produtos de Comércio Justo.
3.4. Obrigação em matéria de igualdade de género,
Da

141

INOVAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

ão
a longo prazo de toda a execuç
3-5. Obrigar ao cumprimento tar es e
ições legais, regulamen
contratual de todas as dispos al,
éria laboral, de segurança soci
convencionais em vigor em mat s aos
trabalho que sejam aplicávei
e de segurança e saúde no to.
trabalhadores vinculados e à execução do contra
do quadro sobre
3.6. Obrigar a empregar uma percentagem mínima
o total do pessoal.
3.7. Obrigação de manter o emprego.
3.8. Obrigação de respeitar os direitos humanos € critérios éticos.
3.9. Obrigação de não tributar em paraísos fiscais.
3.10. Obrigação de contratar com Empresas de Inserção € Centros
Especiais de Emprego.

8.5. Principais critérios de inovação


ênfase os critérios inova-
Nesta secção desenvolveremos com maior
de grupos desfavorecidos,
dores. Estes critérios são: inserção laboral
ldade de oportunidades entre
incapacidade, qualidade do emprego, igua
ciais para o emprego, e eco-
géneros, empresas de inserção e centros espe
nomia solidária.

os
3.11. Inserção laboral de grupos desfavorecid
edade, pois para além de
A empresa é um agente importante na soci
Logo é importante que
distribuir rendimento produz coesão social.
é importante destacar
conheça as necessidades das pessoas. Também
via da deslocalização de
a consciência social que se está a criar por
os migratórios do campo
empresas, OU seja, se se querem evitar flux
mais vulneráveis; a
para a cidade e evitar o despovoamento de regiões
por deslocalizar as empresas para que todos
solução pode passar
IPP LINAR
vISÃàO MULTI DISC
A — UMA
oat
ÇÃO E TECNOL
INOVA A

zoo apapenas os habi-


o; € nã
ortunidades de empreg
tenham as mesmas op
tantes das cidades! i
da economia çãsocial,
ntexto , são por vezes criadas as empresas ra a resolu o de
Neste co zado p a
or soc ial está sensi bili lneráveis, O
setor
onde o empreended s m ai s v u
rticular de zonas rurai vimento rur
ale a
problemas. No caso pa de de se nv o l
canismos mais riscos
ial atu a po te nciando os me s que cpntenA
soc ho as pe ss oa
inclusão. No merc
ado de trabal pacitados e os
eres, os jovens, OS inca
ex cl us ão social, como as mulh ex te rn al idades positivas
gera-
de ru ir das
também usuf estes grupos mais
imigrantes, podem ial. Po ré m, pa ra
da economia soc -
das pelas empresas do s po ss am ter acesso ao emprego sem
dis
e to
vulneráveis, e para qu çã o da UE e dos governos
dos
in te rv en
criminações tem de h aver uma mercado.
ar eventuais falhas de
países de modo a colmat

8.12. Incapacidade as pes-


el fun dam ent al na hora de integrar
pap
As empresas têm um s inc apacitadas à possibi-
no cas o das pes soa
soas na sociedade. Assim, integração
rar um tra bal ho é crucial para à plena
lidade de enc ont ima €
a aut ono mia eco nóm ica , melhora a auto est
social, pois permite
sociedade.
aumenta a plena inclusão na

ades entre géneros


3.13. Igualdade de oportunid
s exis-
géner o coloca-se ainda atualmente poi
A questão da igualdade de envol-
ndo | aboral, inclusive nos países des
tem ainda diferenças no mu he-
nas Te munerações entre homens e mul
vidos registam-se diferenças
res pelo mesmo tipo de trabalho.
de discriminação positiva que
Na Europa têm vindo a ser criadas leis
ios domínios exista uma igual-
visam promover e garantir que em vár
familiar e erradicar even-
dade real, a conciliação entre a vida laboral e
ociadas à baixa por
tuais discriminações diretas ou indiretas ass
cação, no acesso ao emprego,
maternidade e a igualdade no acesso à edu
etc.

(1) De Castro (2005).


INOVAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO PúnL ICA
143

3.14. Empresas de inserç


ção ão e centross de de empre O
As empresas de inser
çãoção têm tê um objetivo
lotí : : claro, o de promover a
muito
integração de gr Tupos " x 5
inelnsnase nestes S que estão sujeitos a marginalização social e laboral.
sem formação, mã aros, por exemplo ex-toxicodependentes, jovens
» Mães solteiras, minorias étnicas, incapacitados, etc:

exemplosde boas práticas


8.6. Alguns aç ão
de inov

Por último,
últi à veremos
nesta secção alguns exemplos de contratação
com inovação nos países da UE:
* Município de Detmold, Alemanha: Uma solução concreta para
reduzir a contaminação atmosférica.
Este município ao planificar a reabilitação da sua concorrida estação
de autocarros viu a oportunidade de reduzir a contaminação atmos-
férica. Os objetivos do projeto eram melhorar o tráfego e acessibili-
dades, porém quando o Município começou a trabalhar com os
investigadores identificou o potencial de aplicar betão fotocataliza-
permite
dor para reduzir ativamente a contaminação. Esta solução
da zona.
reduzir até 40% os níveis de óxido de nitrogénio
l e ambiental nas casas
« Município de Gante, Bélgica: Inovação socia
de banho públicas.
banho
cí pi o ocu pa- se da lim pez a de cerca de 340 casas de
Este mu ni
soas. Assim,
públicas, empregando nesta tarefa cerca de 450 pes
pro-
int ere ssa dos em int rod uzi r produtos de limpeza que
estavam a,
o ambiente e na saúde públic
vocassem menor impacto no mei os de produ-
um conjunto de testes controlad
tendo assim efetuado
me no re s imp act os em termos de ciclo de vida.
tos que ofereciam idiram
nos result ado s obt ido s a partir dos testes dec
Com base luído esse
produtos a probióticos, tendo inc
de limpez
apostar em

() pa Ros (2007).
144 Ã
VISÃO MULTID ISCIPLINAR
INOVAÇÃO E TE CNOLOGIA - UMA

“speto no seu caderno de encarg ontrataçãao de serrvi


viçços desta
os para contrat
natureza, bem como o :
m incapac idades.
emprego de pessoas co
* Centro Médico da Universidade Erasmus, Países O Uma
solução sustentável para a limpeza de camas de Hosp
'
O Centro Médico Erasmus
assume objetivos
em relação à redução da rasa disenstaia
sua pegada de carbono €
maquinaria para a limpeza das camas era muito baróo dispen
disso em
4
termos de mão-de-obra
e ineficiente
energia e água. O hospital decidiu identiemficartermos de consumo l .
e contratar uma solu-
ção mais eficiente e sustentável.
Através de uma consulta ao mercado,
lançou um contrato com o compromisso de compr
a e procedimento
de diálogo competitivo, e assim o hospit
al foi capaz de anindicar kr
contrato para a aquisição de uma inovadora
maquinaria automática
para a limpeza de camas que consome
muito menos recursos.
* Hospital provincial de Rawicz, Polónia: Novo
s métodos e materiais
Para a compra de uniformes.
Durante a última década o Hospital Provincial
de Rawicz desenvol-
veu trabalhos de reparação e reforma
em diversas partes das suas
instalações para melhorar a sua
eficiência energética, com resulta-
dos desiguais. Assim, assumiu-se
que havia que dar um novo enfo-
que e identificaram um projeto-
piloto de contratação inov
cionado com a compra dos ador rela-
uniformes do hospital. A
realização de

anteriores.
ME ADMINISTRAÇÃO pyBI sr
nGVEÇÃO VBLICA
145

Síntese do capítulo
|
A
« Apresenta- ,

bica comi dl a o conceito de inovação na administração


e ser novo, ho sentido de ser uma solução
nova e criativa para um
res lema no delle público, efetiva e signifi-
cativa, Ou seja, deve
ção do problema, e aind nçar Festa tangíveis adequados à resolu-
, a ser transferível, replicável e escalável.
' pa 9 conceito de contratação pública como um gasto de
PRNCIO pri para a realização de obras e compra de bens ou servi-
ços. E e âmbito discute-se e apresenta-se o caso da contratação
responsável como um exemplo de inovação neste domínio.
lham-se alguns exemplos de iinovação5 no setor pública em vários
« Partilham-
países.

Questões para discussão e reflexão,

1. Discuta o conceito de inovação no setor público identificando no con-


texto da administração pública pelo menos dois exemplos, e indicando
para os mesmos:
— Breve descrição do problema público.
— Em que medida são novos (grau de novidade).
O público alvo.
— Resultados/impactos tangíveis para
replicável.
— Em que medida é transferível e
tos públicos e identifique contrata-
2. Proceda a uma pesquisa de contra e
ue as escolhas à luz do exposto nest
dos públicos responsáveis. Justifiq
capítulo.
Capítulo 9

Inovação e capital
intelectual
Mário Carrilho Negas
M. Carolina Martins Rodrigues

Objetivos de aprendizagem

« Identificar as várias dimensões do capital intelectual e os fatores


com influência no processo de inovação.
« Conhecer a importância do capital intelectual nas organizações.
« Conhecer as várias dimensões do capital intelectual.
capital intelectual e a
« Identificar os fatores de ligação ente O
inovação nas organizações.
INOVAÇÃO E CAPITAL INTELECTUAL 149

9.1. Capital intelectual - o maior ativo


das organizações

O conceito de capital intelectual surgiu na década de noventa,


quando, coincidindo com a ascensão da economia do conhecimento, 08
consultores de gestão empresarial começaram a prestar atenção aos
intangíveis e ao capital intelectual!
Nesta ótica os autores Prahalad e Hamel? e Barney? referem que O
capital intelectual agrega os recursos e habilidades, valiosos, raros, ini-
mitáveis e insubstituíveis, os quais representam uma vantagem competi-
à
tiva duradoura e um impacto potencial na performance superior para
empresa.
De acordo com Stewartá o capital intelectual é algo que não pode ser
tocado, mas pode gerar valor para a empresa. Edvinsson e Sullivan” e
Sullivané observam que o capital intelectual é o conhecimento que pode
ser transformado em lucro no futuro e que é composto de recursos tais,
como, ideias, tecnologias, software, design e processos.
refere que muitas vezes na literatura utiliza-se o termo
Cabrita]
«invisível ou
«capital intelectual» como sinónimo de ativo intangível,
ativo intan-
oculto». Acontece que, na ótica contabilística a definição de
tais como, as
gível não inclui alguns ativos gerados no seio da empresa
a lealdade dos
competências dos colaboradores, a reputação da empresa,
No entanto, a nível
clientes ou outros elementos de natureza semelhante.
um âmbito muito
da gestão estratégica, os ativos intangíveis possuem
valor e vantagem
mais alargado, uma vez que incluem fatores para gerar
gerar vantagem competi-
competitiva sustentável. Deste modo, pode-se

).
); Serenko et al. (2010); Costa e Ramos (2015
() Castilla-Polo (2007); Simó e Sallán (2008
(2) Prahalad e Hamel (1990).
(3) Barney (1991).
(4) stewart (1991).
).
(5) Edvinsson e Sullivan (1996
(6) gullivan (1999, 2001).
(7) Cabrita (2009).
OGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLinAs
ne E TECNOL
INOVAÇÃO
150

ágicos € CO nstituir uma espécie de


o
tiva, por serem considerados estratégico | Jo
capital. P pela ço
Organizaçã
is
ívels €é a definida id a
mais exequíve descreve o capital
a das definições nómico; : que
para aà CoCooper a ã e Desenvo
ção D e lvimento
, de Eco . : «
operação e duas categorias de ativos intangí-
intelectual como o valor económico tribuição,
estrutural, que se refere ao $ oftware, redes de dis
veis: capital
que abrang e 08 recur sos humanos pertencentes à
etc., e capital human o
res. Sus-
maçã
organização e os recursos externos, os, ou seja, cli entes e fornecedo E é
.
;
éA
diferente o
e umm ativo nao
iIntan-
tenta que o conceito de capital intelectual
podem
gível. Como tal, considera que existem ativos intangíveis q
por € emplo a reputa-
fazer parte do capital intelectual por si SO, como
) . . / X

ção, embora seja resultado da gestão do capital intelectual da empresa.

ngíveis
Figura 9.1. Os ativos tangíveis e os ativos inta

Monetários:
e Caixa
e Investimentos Capital
à Fsicos financeiro
Ativos
tangíveis * Equipamento
e Hardware
* Unidades de produção

Capital humano
/ Ativos Capital
Capital estrutural .
intelectual
Capital relacional

(1) OCDE (1999).


Ç
INOVAÇÃO E CAPI
CAF TAL INTELECT
E UAL
o|

9.2. Dimensões do capital intelectual |

| Cabrita e Vaz! referem que o capital intelectual é uma questão de


criar apoiar a conetividade entre todos os conjuntos de conhecimentos,
experiência e competências dentro e fora da organização. O modelo de
de
«plataforma de valor» criado pelos autores, figura seguinte, explica
forma ilustrativa a importância de um cruzamento equilibrado entre as
três dimensões. A contribuição deste modelo possibilita demonstrar que:
1) o valor organizacional é criado na interação das três dimensões e 2) a
área de interseção aumenta, conforme a interação das três dimensões.

Figura 9.2. As várias dimensões do capital intelectual

| CH/CE/CR

Principais efeitos
seennmo Efeitos de interação

CH - Capital Humano
CE - Capital Estrutural
CR - Capital Relacional
PO - Performance Organizacional

Fonte: Adaptado de Cabrita e Vaz (2006).

assume relevância nas seguintes dimensões:


O Capital Intelectual
al estrutural. Cada uma destas
capital humano, capital relacional e capit
a com maior pormenor.
dimensões será seguidamente analisad

.
() Cabrita e Vaz (2006)
MAUS SHPI
TIDISCIP LIMAS
LINA
q GIA
a UMA f hO
VIDÃ
AÇÃ
INOVAÇÃO G E T £ Ç F 1 Gt

52

9.2.1. Capital humano


qualificações, capacidades e aptidões
cimento ,

Inplul todo o gonhe s pelas pessoas de uma organi-


para desenvolver e inovar e que são detido

tação: A iderado a dimensão mais


Segundo Bontis2? o capital humano é cons a rápidos avancos
importante do Capital Intelectual. O autor indica que o rm n É
tecnológicos no domínio das telecomunicações é 1h idades q de m
vindo a transformar a natureza do conhecimento, habilidades e ta ento
dos indivíduos. Se o capital humano for considerado como o conheci-
mento, habilidades e experiência que Os colaboradores levam com eles
para dentro das organizações, então, quando os colaboradores ficam des-
vinculados da organização, quando saem da organização, levam consigo
conhecimento, habilidades e experiência. Assim, importa nas organiza-
ções criar condições para reter o conhecimento, as habilidades e a expe-
riência no interior da organização. Vários são também os autores que
consideram o capital humano como a dimensão mais importante do
Capital Intelectual.
O capital humano resulta em fonte de inovação e de renovação estra-
tégica, reforçando a afirmação, refere-se que uma organização que tem
atenção à importância do papel que é atribuído ao capital humano estará
melhor posicionada para os processos de inovação e de renovação, onde
as ideias podem ser infinitas? Importa referir que é adicionado ao con-
ceito de Capital Intelectual o termo Know-How e as especializações dos
recursos humanos de uma empresa4

(1) Baron e Armstrong ( 2007),

(2) Bontis (2002).


(3) Bontis ( 1998).
(4) Edvinsson e Malone (1998); Lynn (2000),
153
JNOVAÇÃO E GAPITAL INTELEGTUAI

Figura 9.3. Componentes do capital humano

|
“Competências
º — Agilidade intelectual
Ê Atitudes

Conhecimentos | Motivações | Inovação |

Experiência | Comportamento | * Criatividade |

Know-how | Conduta/valores | ” adaptabilidade |


Desejo de aprender | Versatilidade |

.
Fonte: Adaptado de Cabrita (2009)

9.2.2. Capital relacional (ou social)


que permitem a
É um conjunto de estruturas, redes e procedimentos
a aquisição e O desenvolvimento do capital intelectual
essas pessoas
ento derivados das rela-
representado pelos stocks e fluxos de conhecim
Sánchez-Medina et al! referem
ções internas e externas da organização.
sto de que as empresas não
que o capital relacional é traçado no pressupo
ativamente com o exterior, agre-
são sistemas isolados, relacionam-se
que este tipo de capital inclui o
gando valor à empresa. Acrescentam e
não só com clientes, fornecedores
valor criado por relações de negócios,
, mas com todos os seus stakeholders, tanto internos como
acionistas
externos?

() sânchez-Medina et al. (2007).


(2) Ordófiez de Pablos (2003).
UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
GIA
INOVAÇÃO E TECNOLO
154

relacional
do capitital
Figura 9.4. Componentes

a Pit RE

ca al To , Entidades
Alianças reguladoras
Clientes ' Fornecedores - estratégicas

Satisfaçãão Come rciais


çãoo |
Satisfaçã
Longevidade

Fidelização Confiança

Confiança

Fonte: Adaptado de Cabrita (2009).

9.2.3. Capital estrutural (ou organizacional)


Para Youndt et al.i trata-se do conhecimento institucionalizado e a
experiência codificada, armazenado em bases de dados, patentes,
manuais, etc. Edvinsson e Malone (1999) designam-no recorrentemente
por capital estrutural.
O capital estrutural é o conhecimento institucionalizado
e codificado
que pertence à empresa? incluído nas bases de dados,
nas estratégias e
rotinas organizativas, nos manuais de procedimen
tos. Também se pode
considerar que é o esqueleto da empresa,
porque inclui as ferramentas e
a arquitetura necessárias para reter, armaz
enar, reforçar e transferir o
conhecimento em todas as atividades da organ
ização? Inclui todas as
bases de conhecimento «não humano»4 bases
de dados, software, roti-
nas, direitos, processos, estratégias5
os valores, cultura, rotinas, protoco-

(1) youndt et al. (2004).


(2) Hall (1992).
(3) Cabrita e Bontis (2008); Guthrie et al. (2019),
(4) Bontis et al. (2000).
(5) Zadeh et al. (2014).
INOVAÇÃO E CAPITA INTELEC TUA]
155

los, procedimentos, siste mas, desenvolvimentos tecnológicos e proprie-


dade intelectual ad
Pe pode-se hetero epi o capital estrutural é
criado pelas das
interações do capital ut al humano), mas é também o resultado
) à empresa
social, pertence e é possível ser desenvol-
vido através de process
ea Processos de gestão de conhecimento que visem obter e
reg ist ar con hec ime nto explícito e tácito

Figura 9.5. Componentes do capital estrutural

TRADE

Processos
Lo |
| Cultura organizacional | Inovação

- Software Rotinas Tecnologia |

m Base de dados Valores o

Estrutura Estrutura de I&D

Ú
organizacional
—————————————

Procedimentos
de trabalho

Fonte: Adaptado de Cabrita (2009).


Ss

| Marcas/patentes

9.3. A inovação e o capital intelectual


rega o conhecimento
Se o capital humano, relacional e estrutural cong
é possível traçar linhas de con-
na organização, sob várias formas, então
organizações, ou seja, a capaci-
tacto com a capacidade de inovação das
para criar novas ideias, identificar
dade inovadora é um potencial interno -
ver uma inovação comercia
novas oportunidades no mercado e desenvol

() Bueno et al. (2002).


INAR
IPLINA
MULTIDISCIPL
- UMA VISÃO
Â
OGIA
E TE cNO L
ÃO
INOVAÇ
156

1
j tes na empresa:
«temente cent ralizada na
A e Ss existen ]

lizável utilizando os recursos € iq


Como a gestão da capacidade inovadora está 10a al, , implica forte
: O como t
a detêm, ou podem
gestão de conhecimento existente na
relação com o capital intelectual que às orgê e de organ izações). Isto
Roi
ter acesso por de parcerias estratégicas (red a do capital intelectual
paravia o processo de gestão estratégic
remete-nos q as O g a-
]

nizações definem as suas competências “acão do seu capital intelectual


trumentos internos que possibilitem a avaliação tour 65 difesente
que detêm, sob condição de não conseguireoras
m n que podem alavan-
. a
conhecimento e habilidade s de q que
x detent
são
. ;
car o processo inovador na organização,
tê : mo para uma efetiva
assim como, do de trabalho
captação de novos talentos, através da consulta ao TRES de Tia
poderem identificar que competências essenciais nec
essitam
externamente.
Se a inovação pode ser representada como um ciclo de aprendizagem;
então é necessário gerir o capital intelectual para criar melhores condi-
ções de aprendizagem na organização, e como tal procurar aumentar o
conhecimento. Neste sentido, o processo de aprendizagem requer que
nas organizações existem práticas consolidadas de reflexão e desafio
sobre a inovação, por exemplo, num projeto em inovação devem existir
ciclos de reflexão e desafio que promovam o desenvolvimento continuo
de competências, tanto tecnológicas como de gestão de inovação. Os
ciclos de reflexão e desafios são ciclos de aprendizagem que reforçam as
práticas de aprendizagem que incidir sobre: o processo, a conceituação,
a
experimentação e apropriação honesta de experiência? Para os
autores a
Gestão da Inovação implica que cada organização aprenda, com o propó-
sito de encontrar as suas próprias soluções para os seus problemas.
Quando a organização se apropria da capacidade de aprender, através
de
mecanismos internos, desenvolve capacidades dinâmicas
que em si pos-
sibilitam desenvolver e apoderar-se de habilidades-chave através da qua-
lidade do capital intelectual que detém. O termo competências essenciais

() Nelly e Hii (1999).


(2) Tidd et al. (1997).
(3) Tidd et al. (2008).
INOVAÇÃO E CAPITAL a INT ELECT TUAL ue

res
r tex to Co mp et in g for the Future dos auto
ui a Ps na gani-
O
como «a aprend izagem aoletiva na or
e TIO
zação, especialment nar as diversas habilida-
inte Aciomada a como coorde -
des de produção e tecnologias», que apre
je tivo t o múltiplos streams de
senta co mo ob tecnologias deti-
: imo colocar as habilidades e as
or ao cliente.
das pela organização na criação de val

Síntese do capítulo CO

está estritamente
« Para alguns autores a capacidade de agir e de inovar
o detém.
relacionada com a capacidade intelectual que a organizaçã
conhecimento é composto de vários
« O capital intelectual enquanto
n e processos.
recursos, como, as ideias, tecnologias, software, desig
esenta à importância de um
« O modelo de «plataforma de valor» repr
dimensões: Capital Humano,
cruzamento equilibrado entre as três
Capital Estrutural e Capital Relacional.
eita à gestão do conhecimento
« Um melhor desempenho no que resp de ino-
a favorecer no geral o processo
que a organização detém tende
vação.
facilita a
nto existente na organização
« A efetiva gestão de conhecime as probabili-
essenciais o que aumenta
identificação das competências
de novos talentos.
dades de sucesso na captação

l (1994).
() Prahalad e Hame
158 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

CNERLEEES Pr IR
1. Quais as componentes que o capital intelectual inclui?
2. Apresente um exemplo de ativo intangível que não faz parte do capi-
tal intelectual.
3. Refira os fatores distintivos entre os ativos tangíveis e ativos intangí-
veis.

4. De forma sumária diferencie as três dimensões: capital humano; capi-


tal estrutural e capital relacional.
j : E A ' SA?
5. O capital intelectual impulsiona o processo de inovação?

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Capítulo 10

Caso de estudo -
Inovação no turismo
O Airbnb como novo paradigma
na distribuição turística e hoteleira

Jorge Abrantes

Objetivos de aprendizagem
serviços através
+ Compreender como se processa inovação nos
do caso particular do turismo.
ução estratégica e de
« Identificar os principais passos na evol
negócio do Airbnb.
novos modelos de negócio do
« Refletir sobre a integração de
ação».
alojamento e sua «hibridiz
CASO DE ESTUDO - INOVAÇÃO NO TURISMO 163

DE

10.1. Introdução o

Conley'!
“a dom um quo Ao tecnologia 5 Foi assim que
detio a Aibo
dnar
suíços e holandeses tinham criado uma home e-sh o gto all
ciin ce fes
cosianpro a esOS
parsor
seus membros, para que estes pudessem encontrar um meio mais barato
para viajar através da partilha de alojamento.
o tico pretende-se elucidar
Com este Eralbaliao de pesquisa e exempl prá
ecial, sobre as
sobre a evolução da Airbnb, desde a sua criação e, em esp
icas) e seus impactos
diferentes valências (tecnológicas, turísticas e económ
adramento contextual e
ao nível da inovação, não esquecendo o seu enqu
científico nas diferentes temáticas de inovação.
A Airbnb contribuiu, de forma decisiva, para alterações nos modelos
de relacionamento empresarial ao nível do alojamento e do setor do
Airbnb é
turismo. Se a sua base tecnológica é reconhecida como tal, a
entre anfi-
igualmente um negócio de hospitalidade (na estreita relação
e utilizadores,
triões e hóspedes) ou, na visão dos seus impulsionadores
como uma fonte de rendimento adicional.
forte cultura inovadora, dis-
Os resultados permitem evidenciar uma
princípios da economia de partilha
ruptiva, com elevada sustentação nos labo-
ou do consumo ou economia colaborativa (col
(sharing economy) s
economy, como também muitas veze
rative consuption ou collaborative
or.
designada) e da cogeração de val

10.2. Desenvolvimento
nificati-
per mitido, ao longo dos anos, alterações sig
A tecnologia tem smo (e em par-
de negôc io, aos quais, à indústria do turi
vas nos modelos
lar a ho te la ri a) nã o tem sido exceção.
ticu

0) Conley (2014).
A - UMA VISÃO
ÃO MULTIDISCIPLINAR
164 INOVAÇÃO E T ECNOLOGI

"2 or um lado, à desin-


Com o aparecimento da internet, assistiu se, entre a nn ea
termediação do negócio (com contactos diretos layers no processo de
oferta), mas também, ao aparecimento de novos P
iação).
a (reii ntermediaç |
intermediação dessa mesma relação
gregadores da oferta, tais
Nos anos 90, o aparecimento de sites à a
i a Booking e, maisi recentem en
como o Expedia, , o Tripadvisor (que já
. é Momon do vieram (re)inter-
permite reservas de alojamento), o Trivago € O fseides ENIO PEDAIS:
mediar muitos dos contactos e das reservas estabelec
Agi i
e a oferta hoteleira. A componente tecnológica veio car co nveniên
S ocia
poder ao «novo turista», tecnologicamente mais prep
digitalmente, com maior poder de decisão, de conhecimento, que define
as suas opções, e preferências e que tem acesso a um vV asto leque de infor-
mação.
Os desenvolvimentos ao nível das redes, a velocidade e capacidade
crescente da tecnologia e dos seus equipamentos e os motores de busca
(search engines) vieram ter um papel importantíssimo para a planifica-
ção e uso da tecnologia pelos turistas!
Tal como antecipado por muitos autores e investigadores, o futuro
iria passar por uma maior interação e colaboração entre consumidores,
com participação ativa destes na cocriação de produtos e serviços.
Cocriação que iria ser a base a modelos assentes na colaboração e parti-
lha, na redefinição de relações, negócios e modos de consumo, onde se
privilegia o acesso em detrimento da propriedade ou posse dos bens.
Estes foram alguns dos condimentos que estiveram na génese da Airbnb2
A Airbnb surgiu em São Francisco, Califórnia, em 2008, quando dois
jovens colegas de curso de design — Brian Chesty e Joe Gebbia — decidi-
ram alugar a sala do seu apartamento, no outuno de 2017,
em datas em
que a hotelaria da cidade se encontrava esgotada. O objeti
vo era gerar
algum rendimento adicional para fazer face às despesas.
A proposta assen-
tava na oferta de um colchão de ar (Air Bed)
para dormir e a possibili-
dade de preparação do pequeno-almoço (Break
fast). O que parecia algo
improvável veio a tornar-se, mais tarde, na
base do negócio para a cria-
ção do site www.airbedandbreakfast.com
(mais tarde, em março de

0) Buhalis e Law (2008).


(2) Lavaquial (2015).
CASO DE ESTUDO - INOVAÇÃ
ÇÃO NO TUR I
SMO 165

do à .
2009, reduzi
charez sua exp res são atual de www.airbnb.com), já co
m
Nathan Ble a.
convê Y, Tesponsável pela vertente tecnológica da plataform
: O,
onvem notar qu
o con cei to, em si, já exi stia (indo ao encontro da
afirmação inicial dae Con e ley), pois as pessoas já alugavam as suas segun-
.
das casas atravé s (hoje parte integrante da Home
A-
Jo ud Ed S do t, Vacation Rental
way) ou da Craigslis ambas fundadas em 1995.
, detetar
op iândos o a pela habilidade de estabelecer relações
natureza INncre-
igumd proveito delas»! podendo assumir
mental (q ' o apenas melhora o que já existe) ou radical (quando pro-
Airbnb insere-se
voca alterações profundas nos produtos ou serviços).difAerenciação susten-
a (diferente da
num modelo de inovação disruptiv
stentes e na rutura com anti-
tada), assente na quebra de paradigmas exi
gos modelos de negócio, representando a criação de um novo serviço,
permitindo captar novos clientes e
mais eficiente que o já existente,
entrar em novos Esta alteração profunda de inovação de
mercados.
o dominante dos modelos de
modelo de negócio coloca em causa a posiçã
alte-
negócio tradicionais, como é o caso da hotelaria, redefinindo ou
rando as regras do jogo.
representa, igualmente, umas das mais
A economia colaborativa
se como «um modelo
representativas inovações disruptivas assumindo-
partilhados entre empresas,
económico onde a propriedade e acesso são
ção resulta em maior eficiência
negócios emergentes e pessoas. Esta situa
e crescimento do
no mercado traduzida em novos produtos, serviços
emente, à ligação da
negócio»? Este novo modelo permite, consequent
de intermediários, com Os consumi-
oferta à procura sem a necessidade e Os
ndo oportunidades de negócio entr
dores a comprarem entre si e cria
participantes.
uma
dandbreakfast.com veio criar
O lançamento do site www.airbe prestação do
orm a de re serv as, com o site à cobrar uma taxa pela
plataf paço que tradicio-
que ofereciam alojamento (es
serviço, entre as P essoas e o turista
e que não era utilizado/rentabilizado)
nalmente estava oci oso dos modelos de
pro curava ess e mesmo espaço para alugar. Apesar
que , o apare-
s no mercado e ao longo de muitos anos
alojamento já existente

( Tidd e Bessant (2015).


e silva (2013, Pp: 4):
(2) Owyang, Tran
166
OVAÇÃOÇÃO E E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
INOVA

base na relação diret a entre a oferta (anfi-


cimento deste novo site, com
idades tecnológicas
triões) e a procura (hóspedes), fruto das potencial
a, veio «revolucionar» e potencia
r novos modelos de
permitidas, na altur
novos mercados.
negócio e novas oportunidades em novos clientes e em
David Brooks, do New York Times; advoga que à Airbnb é apenas
«as pessoas estão
uma «peça» da crescente economia participativa onde
a alugar os seus carros a pessoas que não conhecem, a deixarem Os seus
a alugar dispositi-
animais de estimação com pessoas que não conhecem,
tudo, de
vos elétricos a pessoas que não conhecem.» Trata-se, acima de
está a tor-
uma tendência de mercado, com cada vez mais adeptos e que
ios
nar muitos dos consumidores em microentrepreneurs ou proprietár
privados (anfitriões), permitindo-lhes ganhar dinheiro através do aluguer
do espaço que, caso contrário, estaria inutilizado ou ocioso.
O contributo da tecnologia e a maior apetência da sociedade para a
troca e para a partilha (o valor do produto pelo seu uso e não pela sua
propriedade ou posse), foi evidente e essencial para permitir esta evolu-
ção dos negócios, tendo em atenção o papel desempenhado:
a) pelas redes sociais, que vieram facilitar as transações p2p (peer-
-to-peer, ou seja, de cliente para cliente) ao fazer o encontro entre
a oferta e a procura;
b) pelas plataformas e equipamentos móveis, em especial ao nível da
utilização e adoção dos smartphones, permitindo aos consumido-
res pesquisar e oferecer bens e serviços onde quiserem e quando o
entenderem; e,
c) pelos sistemas de pagamentos, com especial atenção para o e-com-
merce e as plataformas eletrónicas de pagamentos?

Se olharmos para a génese da Airbnb, além de permitir impactar sig-


nificativamente o ambiente competitivo da hotelaria, o reflexo das pla-
taformas e redes sociais, assim como, as plataformas de pagamentos
foram essenciais no estabelecimento de pontes, através da sua plata-
forma digital, entre as necessidades dos hóspedes (que procuram um
alojamento) e os anfitriões (que possuem espaço ocioso que pretendem

(O) ejtado em Conley (2014).


(2) Owyang et al. (2013).
=

167
CASO DE ESTUDO “ INOVAÇÃO NO TUR ISMO

rentabilizar). Em « ico quarto


de 2017, sem deter a posse de um ún
de hotel, apel opriedades quantas
às 5
que geria tantas pr nental
arriott, Hilton, Interconti
ei
maiores cadeias h mundiais (M
Wyndham e Hyatt) nu de propriedades, em
ri : otal de mais de 4 milhões
191 países. Dados tam para mais de 6 mi
lh ões
Rena s de 20 19 , apon
de propriedades e s e 191 países e regiões:
m mais de 100 mil cidade
pela
mais concetual, passa igualmente
a cara ao voe po nível
visa a criação de
vação de Valor que
pela em presa e fazer com que o consumidor queira pagar por esse
valor lor P
ra-se igualmente numa estra-
valor criado. Deste modo, a Airbnb enquad
mentos
em aumentar o valor em novos seg
tégia Hiuo Ocean, que consiste cad
do negócio, atuem os inexplorados ou pouco explorados,
em mer
e
o a max imi zar as oportunidades criadas
cia, de mod
sem concorrên ição com outros players.
minimizar riscos acrescidos de compet

10.3. Impactos no turismo


ao
da Hotel Ne ws Now , nu ma edição especial relativa
O editorial
ec on om y nos hot éis , dei xa evidente que «a sharing
impacto da sharing s de
prospe rar nà ind úst ria turística, com OS proprietário
economy está a
idade de canais de dis-
os € de cas as a usarem uma multiplic
apartament procu-
ociosa aos viajantes que
à sua capacidade
tribuição para alugarem
tradicionais hotéis.»
ram alternativas aos mo
os im pa ct os da ec onomia partilhada co
lienta
Também Vilaça? sa çã o de férias, atendendo a
que,
ga ni za
ável para à or permuta
uma alternativa vi is ba ix os, na partilha e na
ntes em cu st os ma
novos modelos, asse da ve z ma io r acuidade no mercado.
à surgir com ca ulares), O
de serviços estão bio de divisas entre partic
à WeSwap (c âm
Exemplos como ares), o Cam-
change (alojame nto em casas particul h
Airbnb ou a HomeEx
te nd a no qu intal ou jardim) e à Eatwit
ção da
pinmygarden (instala

(0) Airbnb (2019).


(2) HNN (2014, P- 2):
(3) vilaça (2015).
OVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
IN o
168

como e jiividades ist


(comer em casa de particulares) Pp ; ganhos
ula res traonsforma Em ê Pp
OS açã
idas
vida em partic
s entre dis pon ibiliz do serviço/ infraestrutura e sem que
din sapo gas tos de estrutura, assim como, taxas e impostos,
.
oo acontece nas empresas tradicionais
a tilhada, anterior-
Deste modo, o modelo de turismo da secmrerni par
s
mente muito assente na hotelaria tradicional, na distribuição atravé dos
operadores turísticos e agentes de Wigan e no transporte público ou em
táxis, vê-se agora ampliado pelo surgimento de novos modelos baseados
na partilha (alojamento, transportes, etc.) ou na prestação de serviços
individualizados (excursões, guias, comidas e bebidas, etc.). A economia
partilhada sofre, assim, os efeitos de como as pessoas produzem, conso-
mem e experienciam os produtos turísticos!
Para Conley? cada vez mais os hóspedes, em especial os millennials,
procuram mais espaço por menos dinheiro, querem viver como
um local
e vivenciar e relacionar-se com pessoas de quem se podem tornar amigos.
Guttentag, Smith, Potwarka e Havitz? com base em 800 questionários
de
utilizadores da Airbnb, evidenciam que os motivos de utilizaç
ão da Airbnb
vão mais além que a procura de autenticidade local e 0 preço mais
baixo,
salientando igualmente a localização, a novidade, a responsabilida
de social
(contributo para a economia local) e ambiental, os benefícios de
espaço
(da propriedade) e, igualmente, a possibilidade de interação e convivê
n-
cia com o anfitrião e residentes locais.
Se é certo que durante muito tempo, hotelaria tradicional e Airbnb
têm andado de costas voltadas, caminha-se, hoje em dia para uma
hibridi-
zação dos modelos de negócio do alojamento, tal como já aconteceu no
trans-
porte aéreo com a aproximação dos modelos de negócio das companhias
aéreas ditas tradicionais e as companhias aéreas de baixo custo.
Em fevereiro de 2018, a Airbnb anunciou, a integração no
seu negó-
cio de novas categorias de alojamento, tais como, hotéis
(em particular,
Boutique Hotels), Bed & Breakfast, propriedades e apart
amentos de luxo
e uniques (alojamentos únicos, tais como casas na árvore,
igloos, yurts,

0) André (2018).
(2) Conley (2014).
(3) Guttentag, Smith, Potwarka e Havitz (2017).
DE ESTUDO - INOVAÇÃO NO Ruas
CASO RISMO
169

barcos, entre outros), assi .


para os seus msedãs em como, a criação de um sistema de fidelização
a-
uzirá em descontos, transfers, upgr
des em voos comerciais que se trad
€ acesso a lounges nos aeroportos) e anfitriões”
A estratégia de i ã
novembro de STA, evo sa POVOS serviços, tal como op Eddie SB
permitindo ii Juntasse experiências ao seu
ortfólio,
p ae a venda de excursões, workshops, entre outras
de ostnens Estra-
ei, assim como, a possibilidade de reservas
tégia que tem passado por aquisições, como foram os casos da Luxury
Retreats (uma empresa turística canadiana com um portfólio de 4.000
propriedades de luxo em 100 destinos) ou a Hotel Tonight (last-minute
hotel booking application), já em 2019, sendo cerca de 20 as aquisições
levadas a cabo pela Airbnb nos últimos anos?
Também a hotelaria tem sabido atualizar o seu produto indo ao
encontro das novas tendências do mercado, em especial, dos millennials?
O Grupo Accor criou o conceito de «casa aberta» com a sua marca Jo&Joe,
com base em «uma casa aberta aos habitantes nas proximidades e viajan-
tes. Uma casa com estilo, atenção e preços acessíveis, repleta de design,
animação e talento surpreendentes. Uma casa onde pode conviver, brin-
dar, desfrutar de uma refeição acompanhado, cozinhar, conversar, dar
tocar
uma gargalhada, descontrair, sonhar, trabalhar, amar, fazer ioga,
desfrutar da
guitarra, explorar a cidade... e dormir! Uma casa onde pode
comprou, em 2016,
vida ao máximo...»4 Dentro da mesma linha, o Grupo
aluguer de casas privadas,
a Onefinestay, cujo negócio assenta no
alto e presente em mais de
embora mais direcionado para um segmento
elevado num ambicioso plano de
180 destinos, além de um investimento
transformação digital do Grupo.
em
mod o, a Cho ice Hote ls decidiu lançar uma nova marca,
Do mesmo
Choice Hotels numa parceria com empresas
2015, a Vacation Rentals by
gue r tur íst ico , para ofe rec er uma alternativa aos quartos
de gestão de alu
de hotel.

0) Solon (2018).
(2) Crunchbase (2019).
(3) Gallagher (2016).
(4) Accor (2018).
-a UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA
170

a Marriott, , numa parceria com 1 O IKEA , decidiu investir


ambbém
Tam é do
ançado a sua nova mare a
À . do, em 2014,
num segmento millennial, tendo, .
ish», outra a e
M 0xy. & Consi iderada com «fun, ? vibrant and stylizaçã
inetdi
o
bre a utilização do programa de fidelização no âmbi
to do Gru
. po
p
AEERRIRA, O : Ócio. O lançamento, em abril de
Marriott e dos seus parceiros Gs DR numa parceriaentcom a
2018, do site www-tributeportfoliohomes.com,
Hostmaker na cidade de Londres, visa dar alternativas aos clientes do
Grupo na partilha de casas (exceptional hosp Edy E ms E do
programas de fide-
mesmo tempo que poderão, mais uma vez, utilizar os
lização associados quer à Marriott ou Starwood! o =.
Se a componente de alojamento tem tido relevância Ea relação direta
entre a hotelaria e a Airbnb, também a distribuição turística tem sido
alvo de alterações profundas nos modelos de neles empresa-
rial. Em março de 2018, o CEO da Airbnb anunciava que «a nossa con-
corrência são duas empresas — Expedia e Booking.com (...)»2 Esta posi-
ção surgia em resposta ao CEO da Booking Holdings (que, além da Boo-
king.com também engloba a Priceline, Kayak, Agoda e Opentable, esta
última para reserva de restaurantes) que afirmava, no mês anterior, que
queria ser o «líder dos líderes» no alojamento alternativo, salientando que,
mesmo podendo não ser ainda o líder, a sua oferta era superior tendo em
atenção os hotéis, os arrendamentos para férias e os apartamentos dis-
poníveis para alugar? Certo é que a Booking.com tem sido, nestes últimos
tempos, bastante ativa na angariação de novas propriedades, sendo que o
nível de preços, as comissões a pagar aos proprietários e a qualidade do
serviço prestado irá pesar na utilização futura de cada uma destas plata-
formas.
Mas nem sempre tem sido fácil a afirmação da Airbnb em muito
s dos
mercados, com muita da sua «concorrência», tal como para outras
pla-
taformas, a fazer-se do ponto de vista legal e regula
tório. Alguns países
obrigam a registo da propriedade e obtenção de uma licença/au
torização
especial para se poder operar (como é o caso de
Portugal, no âmbito da
sua legislação do Alojamento Local, ou no Japão, o
que levou ao cance-

() Coffey (2018).
(2) Kerr (2018).
(3) Schaal (2018).
74

CASO DE ESTUDO - INOVAÇÃO NO TURISMO :

de inú mer as res erv as) . Outros proíbem arrendamentos inferio-


lamento odos
ter hóspedes em P erí
res a 30 dias ou limitam a possibilidade de se
o (ou, ao contr ário, auto riza ndo à exploração apenas num
curtos de temp
e simplesmente, como é o caso de
curto espaço de dias anuais). Ou, pura
das plataformas que promovam
Berlim, Alemanha, proibindo a utilização
r quartos.
apartamentos, permitindo apenas aluga

ae se — e e
10.4. Airbnb em Portugal
ado
ortância da Airb nb no merc
Para uma melhor perceção da imp rtante fazer um
nacional e deste novo modelo de alojamento, será impo
ento
ram ent o hist óric o do apa recimento da figura do alojam
breve enquad ) foi inicial-
ica do alojamento local (AL
local em Portugal. A problemát veio apro-
te pre vis ta no Dec ret o-L ei nº 39/2008 de 7 de março, que
men dos
ime jur ídi co da ins tal açã o, exploração e funcionamento
var o reg art. 3º, OS
(RJET), consignando no seu
empreendimentos turísticos as, apar-
tabele cim ent os de alo jam ent o local» como sendo, as « moradi
«es rdo com
hospedagem». O objetivo, de aco
tamentos e estabelecimentos de a integrar
jamento local foi criada (...) par
Torres! era que «a figura do alo nte
rea lid ade s: o alo jam ent o par ale lo ou clandestino há muito existe
duas gens),
extintas (pensões, motéis e estala
no terreno e enquadrar tipologias
reu nis sem con dições par a ser em consideradas empreendimentos
que não 2009,
em Portugal ter-se-á iniciado em
turísticos.» A operação da Airbnb suas
em ate nçã o que «Os anf itriõe s da Airbnb recebem hóspedes nas
tendo
casas desde 2009»?
ova ção do nov o reg ime jur ídi co da instalação, exploração e
Com a apr
o-Lei
cio nam ent o dos emp ree ndi men tos turísticos, através do Decret
fun 39/2008
e veio alterar o Decreto-Lei nº
nº 15/2014 de 23 de janeiro (qu
ço) , ass umi u-s e a nec essidade legal de autonomizar a figura
de 7 de mar ptar à
alo jament o loca l em dip lom a próprio, de forma a melhor o ada
do o que levou
rta de serviços de alojamento,
realidade do mercado e da ofe

(1) Torres (2014).


(2) Airbnb (2016).
INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
172

; to,
ao aparecimento do Decreto-Lei nº 128/2014 ce s y oia, colo .
j e sa
Regime Jurídico do Alojamento Local (RJAL). Para ecdiretas via internet
e reservas
ção dos voos low-cost e a possibil idade d ntals, assent
i term
que permitiram o desenvolvimento doem short
alojamentos privat ivos nos e
TE ivativ: cen -
urbanas e freque ntes
estadias curtas,
tros históricos. .
de “us er e alo-
Esta situação veio permitir 0 desenvolvimento
Vo. é e ne
da
jamento, muito enquadráveis naquilo que é o modeloa um fortesoelo
cresci-
outras plataformas tecno
lógicas, levando
Airbnb e de com maior
de unidades registadas em Portugal,
mento do número do litoral.
nas cidade s do Por to e de Lisboa e nos distritos
expres são
com base no Registo Nacional
Dados referentes a 30 de junho de 2018, is-
jam ent o Loc al, evi den ciam à existência de 17.261 unidades reg
do Alo que a maioria
sendo
tadas na cidade de Lisboa e 7.733 unidades no Porto,
Baixa destas cidades?
destas unidades se concentram na
2017, a plataforma
De acordo com dados publicados pela Airbnb em
de 28% nas reservas, mais de 2,6
tinha 66 mil anúncios, um crescimento
hões de receitas geradas?
milhões de hóspedes recebidos e quase 250 mil
ons of inbound guests.
com Portugal a situar-se no Top 10 destinati
al recebeu cerca de 3,4
Dados apurados para 2018 mostram que Portug
o económico direto
milhões de turistas através da Airbnb, com um impact
mil milhões de
de 2.286 milhões de dólares americanos (na ordem dos 2
Euros)4
A elevada concentração do alojamento local em zonas mais sensíveis
das cidades, a crescente pressão junto da população residente e a deser-
tificação dos centros históricos da autenticidade dos bairros e lugares
levou à necessidade de nova alteração da Lei do Alojamento Local, como
veio a acontecer através da Lei nº 62/2018 de 22 de agosto, obrigando,
entre outras medidas, a uma maior regulação na instalação de unidades
de alojamento local e a possibilidade de criação de áreas de contenção e a
imposição de limites ao número de novas unidades nesses territórios.

(1) Souza (2013).


(2) RNAL (2018).
(3) Gomes (2018).
(4) Antunes (2019).
173
CASO DE ESTUDO - INOVAÇÃO NO TURISMO

ão na
i ã que jáiá levou ao estabeleci: mento de sete zonas de contenção
Situaç ão
j inês s de licen
a e à suspensão de atribuiçõe
: ças em duas z0) nas
l
cidad e de Lisbo
ência nos centros histórico
. f s

da cidade do Porto, com particular incid


. . A é
.

destas cidades.

dr Dc

10.5. Enquadramento final


diram alugar colchões
Quando dois jovens estudantes, em 2007, deci
casa que habitavam,
no seu apartamento, ajudando-os a pagar a renda da
O Seu portfó-
estariam, por certo, longe de pensar que, passados 12 anos,
apassasse os 6 milhões
lio de apartamentos e camas, a nível mundial, ultr
das tecnologias de
de unidades. O aumento do uso e da importância
setor do aloja-
informação permitiu gerar oportunidades de negócio no
mento turístico.
icas que
A inovação está bem presente nestas plataformas tecnológ
aterializar
vieram, associadas à economia colaborativa, simplificar e desm
-
muitos dos circuitos tradicionais do negócio hoteleiro. Muitos dos servi
tes
cos turísticos oferecidos pelos hotéis, os operadores turísticos e agen
ares
de viagens e os taxis são agora igualmente oferecidos por particul
que, em nome próprio, se propõem a realizar e/ou partilhar alguns des-
ses serviços. E onde a Airbnb teve a capacidade de antecipar falhas de
mercado e, com a ajuda da tecnologia, transformar a oportunidade em
negócio, conetando turistas com anfitriões dispostos a alugar o seu alo-
jamento. Como afirmado por Conley «a tecnologia permite que a inova-
ção aconteça mais rápido».
O aumento das reservas online e dos novos modelos de alojamento
tem levado a uma guerra de mercado onde a Airbnb e Booking.com têm
tentado conquistar e liderar no mercado do alojamento.
Esta alteração de modelos de negócio, como mencionado por Abran-
tes! poderá levar a uma hibridização do mercado, uma vez que se assiste,
por um lado, a que modelos até aqui concorrentes da hotelaria comecem

(1) Abrantes (2018).


k TIDISCCIR
IPLINAR
UMA vis ÃO MUL
E TEC , VOLOGIê A
INOVAÇÃO
174

mo é o caso da
a promover a integração dos hoté is na sua plataforma (co 1 À no

: sas sen!
te assentes na | promoção deNDA um
icionalmen
À sla aso da Booking.com, apareçam
alojamento namaismean
Risos nal, como é O oc delos de alojame
tradicional, : nto. o
À . outros Mm
to
agora a investir fortemente em
e alteração do Regime
No entanto, em termos nacionais, a recisent
restritivas e possibilidade
.
Juríde o do Alojamento Local
cal, com regras ma
, as
tos em áreas de forte pressão x eds
turística,
de inibição de novos alojamen
dadas as
podem vir a condicionar o desenvolvimento destas plataformas,
é a) c » c Ss é A

maiores dificuldades de negócio para os anfitrio


a E Aus á 10€S.

| Sintese do capítulo

| « O setor do turismo tem sido pródigo em criar novas oportunidades de


| negócio, fruto do seu desenvolvimento à escala internacional, mas tam-
| bém devido à tecnologia que tem proporcionado novos desenvolvi-
| mentos na cadeia de distribuição turística.
| * A Airbnb é disso prova evidente, com a economia de partilha e colabo-
| rativa a proporcionar novas fontes de rendimento a microentrepeneurs
| através da rentabilização de espaço de alojamento tradicionalmente
ocioso.
| * O aproveitamento de uma oportunidade disruptiva, abrindo novos mer-
| cados e novos segmentos enquadra-se dentro de modelos de
inovação
radical, numa estratégia «Blue Ocean», atuando em negócios
e merca-
dos inexplorados e de limitada concorrência.
* À entrada da Airbnb em novos negócios,
fruto de uma política de aqui-
sições ao longo do tempo, levou a que
outros players (nomeadamente
a Booking.com e alguns dos principa
is grupos hoteleiros mundiais)
entrassem igualmente em modelos
de alojamento menos tradicionais
convergindo para| uma «hibridização» ,
dos modelos de negócio no
alojamento turístico.
CASO DE ESTUDO - IN OVAÇÃO NO TURISMO 1iR8

1. Como
a vê a a iinovaçãoão disruptiva
di i perante este tipo de negócios? Que
utro exemplo pode considerar?
2. Acha que as atuais alterações
a na legislação nacional podem vir a con-
dicio Nar o desenvolvimento
i do turismo e, em i
particular, da Airbnb e m
Por tugal?

5 futura entre os meios


3. Como o vêvê a relação dus
a mais; tradicionais de alojamento
á E Vs . da cab
distribuição turística versus esta nova realidade da economia digi-
tal!

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Capítulo 11

Caso de estudo —
Inovação social
esso
Relato de um caso do ac
custo
à saúde visual a baixo

Backx Noronha Viana


adriana
Luísa Cagica Carvalho

Objetivos de aprendizagem
de inovação social e os seus
« Compreender e discutir O conceito
impactos sobre a sociedade.
nto da inovação social.
« Identificar as fases de desenvolvime
ser planeada, desenvolvida
« Discutir como a inovação social pode
dade numa perspe-
e disseminada atendendo à sua sustentabili
tiva de longo prazo.
va
CASO DE ESTUDO - INOVAÇÃO SOCIAL

11.1. Nota introdutória


r ver.»
«Só é cego quem não que
Provérbio popular

Nos dias de hoje, sabemos que o Estado não tem capacidade para
ção e partici-
resolver todos os problemas sociais, exigindo-se a interven
Neste âmbito é
pação ativa da sociedade civil e de outras organizações.
proble-
consensual o papel da inovação social para a resolução de vários
social nos
mas, sobretudo em áreas associadas à pobreza e exclusão
única e
vários domínios. Porém não se pode avançar com uma definição
es encon-
consensual de inovação social, ainda que a maioria das definiçõ
cia solu-
tradas na literatura refiram que este tipo de inovação providen
diversas partes
ções para problemas sociais e envolve a participação de
empresas sociais,
interessadas, muitas vezes ligadas em rede, tais como,
gover-
instituições sem fins lucrativos, cidadãos, universidades, agencias
ter um grande
namentais, voluntários, etc. Estes tipos de soluções podem
ajustes em
impacto sobre a sociedade e podem ser replicadas com alguns
diversas geografias.
melho-
Este caso pretende discutir a influência da inovação social na
to One-
ria da qualidade de vida das pessoas que entraram neste proje
s muito
-dollar glasses no Brasil que consegue produzir óculos a preço
o acesso
baixos e mobilizar oftalmologistas para regiões longínquas onde
à saúde é limitado.
Para atingir estes objetivos este capítulo está dividido em duas gran-
des partes. A primeira parte apresenta um enquadramento teórico sobre
o tema da inovação social, e a segunda parte apresenta o caso de estudo.
ÃO E TE CNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
INOVAÇÃ
180

11.2. Inovação social


inovação,
ispor muita literatura sobre
Atualmente temos ao nosso orar tá ainda pouco explorado.
porém o conceito de inovação social estã
À ão social é um conceito mencionado por
Segundo Pol e Ville” a inovas últimas décadas a inovação
muitos, mas entendido por poucos. tos de várias áreas científi-
social tem vindo a rece diverte Ea Ts o irsceaita ds
studos do desenv: , . a
ia ea a literatura sobre inovação social nos o política
social e estudos de bem-estar continua ainda pouco
exp , . ;
Um estudo desenvolvido por BEPA? sugere que Na Wei ei o pri-
meiro autor a introduzir este conceito quando definiu a relação
o re
ordem social e inovação através do impacto do comp nie no social.
No entanto, Bernatchez refere-se a Taylor* e Gabor? como ptoneiros Ho
uso da inovação social, estudando como novos arranjos sociais se refle-
tem na lei e na tecnologia com impactos sociais. Estudos preliminares
associam inovação social à mudança social, esta associação é mais pre-
dominante nos estudos sociológicos.
Durante as últimas décadas as teorias evoluíram e é possível encon-
trar três blocos:
1. Teorias de mudança social que se foca nas teorias de insti
tuciona-
lização e desenvolvimento.
2. Diferentes abordagens teóricas em dife
rentes campos da investiga-
ção em inovação social (empreendedoris
mo social, economia social,
desenvolvimento local e regional,
design thinking, estudos de
desenvolvimento).

0) pole Ville (2009).


(2) Moulaert et al. (2013).
(3) Jenson (2014).
(4) BEPA (2010).
(5) Bernatchez (2006),
(6) Taylor (1970).
(7) Gabor (1970 ).
CASO DE ESTUDO - INOVAÇÃO SOCIA
k L 181

3. Os estudos de i tm
a Tecnologia (C&T),
inovação
ção na gestão
ERA S incluem a Ciência e
e nos negócios

Na verd : ”
políti-
cod incl Hrovas práticas fponeiloa,
cas, o
dos, processos e regulação são fm oi pane de arganiZação). Bd
adão,
, político s, para res sen o vidos e e adotadas por cid
consumidores erminados requisitos Epis
p nder a det
e para resolver desafios sent
= is de um modo melhor do que se faria
anteriormente! Bi
ignetti? definiu inovação social como as ideias ou ações
novas ou melhoradas do conhecimento para responder a necessidades
socials em diversas áreas da sociedade. Os desafios societais que uma
sociedade enfrenta atualmente mobiliza as sociedades para a resolução
avés da criatividade
de um conjunto de problemas e de necessidades atr o
da sociedade civil, das instituições públicas e privadas reforçand a
dora e baseada
importância de termos uma sociedade mais solidária, inova
no conhecimento.
BEPA3 argumentou que os desafios societais enquadram-se em opor-
tunidades sociais e/ou económicas que são criadas e justificadas por neces-
sidades para a promoção de politicas públicas que encorajem a inovação
social para alcançar:
ãos, usáveis e
1. Disponibilização de serviços para a sociedade e cidad
uteis para a vida quotidiana;
rno tornando a inovação
o. Disponibilização de serviços pelo gove
social sustentável no longo prazo;
empreendedorismo.
3. Criação de novos negócios e do
um
e Lurtz! complementam estas abordagens apresentando
Ruede
ino vação social ate nde ndo a categorias que ajudam a
agrupamento da
conceito:
compreender melhor O
a à sociedade.
« Produz algo de bom par
as estruturas sociais.
« Altera as práticas € /ou

sion (201 3).


0) European Commis
(2) Bignetti (2011).
(3) BEPA (2010).
.
(4) Ruede e Lurtz (2012)
182 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

* Contribui para o desenvolvimento urbano e/ou da comunidade.


* Reorganiza o processo de trabalho.
* Providencia relevância cultural à tecnologia.
* Implementa mudanças no campo do trabalho social.
* Inova através da conetividade social.

Zapf' propõe sete abordagens para a inovação social mais baseadas


ho seu conteúdo. Inovação social pode ser entendida, como:
1. ... restruturação das organizações;
Ba « -. Oferta de novos serviços;
3.. -. uso de tecnologias para resolver problemas;
4. -. inclusão de pessoas envolvidas no processo inovador;
5. ... inovações políticas (comparação de políticas regulares e de refor-
mas);
6. ... alteração de padrões de bens e serviços numa economia;
7. --. novos estilos de vida que expressem valores e aspirações de sta-
tus observáveis através de alterações no uso de recursos.

Adicionalmente, Moulaert et al? distinguem quatro grupos de inova-


ção social. O primeiro grupo pertence ao campo das ciências da gestão e
está relacionado com a melhoria do capital social que permite tornar as
organizações mais eficazes e eficientes. O segundo grupo é multidiscipli-
nar e está associado ao progresso social e ambiental. O terceiro grupo
apoia-se nas artes e criatividade e está relacionado com a criatividade
social e intelectual e por essa via estuda como as pessoas podem interagir
entre si. Por fim, o quarto grupo associa-se ao desenvolvimento local e
territorial e enquadra-se nos estudos regionais.
Pol and Villeê também propõem um conjunto de quatro concetualiza-
ções sobre inovação social que exemplificam padrões identificados em
diferentes disciplinas. Inovação social como sinónimo da mudança ins-
titucional. A mudança institucional neste sentido expressa a mudança da
estrutura da sociedade em termos regulativos, normativos e culturais:

() Zapf (1987 (1991)).


(2) Moulaert et al. (2005).
(3) Pol and Ville (2009).
eua
DE ESTUDO INOVAÇÃO SOGIAI
CASO

1. Inovação social como propósito social para melhorar a qualidade


de vida.
o. Inovação social como um bem público.
3. A inovação social como forma de responder a necessidades do mer-
cado.

A inovação pode assim ser analisada atendendo a diversas perspetivas.

11.3. A inovação social como um processo


A inovação social é um fenómeno holístico! que pode ser entendido
como um processo que identifica soluções para problemas sociais e pode
ser enquadrado em três dimensões”:
1. Inovação social centrada no individuo. Neste caso as mudanças
introduzidas influenciam diretamente a perspetiva mundial do indi-
víduo e ajudam-nos a resolver problemas e a melhorar a autonomia.
2. Inovação social orientada para o ambiente. Neste caso a inovação
social traz mudanças para o território e ajuda a resolver e prevenir
problemas sociais e económicos e a melhorar a qualidade de vida.
Em regra, desenvolve-se através da cooperação entre várias partes
interessadas.
3. Inovação social associada às empresas. Este tipo de inovação pro-
cura responder às necessidades dos funcionários de modo a melho-
rar a produtividade e propor novas estruturas de trabalho mais
focadas na inovação, criatividade e partilha de conhecimento.

0) Kanter (1999).
2) Cloutier (2003).
184 INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR

Assim, no âmbito do processo de inovação social podem-se identificar


vários desafios societais. Hubert et al! resumem o processo nas seguintes
fases:
1. Desenvolvimento de uma ideia baseada no diagnóstico de um pro-
blema e estruturação de uma questão e compreensão da sua origem:
2. Geração de ideias e resolução de problemas;
3. Teste de ideias através de projetos-piloto com a receção de feed-
back por parte dos utilizadores e de especialistas;
4. Transformação de um projeto-piloto numa inovação social através
da identificação de aspetos legais, fiscais e de rendimento que asse-
gure a sustentabilidade no longo prazo da entidade que mobiliza a
inovação social (ex.: ONG, comunidade, empresas...);
5. Disseminação da inovação social via comunidades nacionais ou
internacionais;
6. Estabelecimento de novas formas de pensar e de fazer envolvendo
diferentes elementos (movimentos sociais, modelos de negócio, lei
e regulamentos, investigação, infraestruturas etc.) e vários atores
públicos, privados e de organizações sem fins lucrativos.

Para exemplificar estas fases este caso apresentará o caso da Renova-


tio, deixando-se alguns registos que podem ser consultados sobre este
projeto?

(1) Hubert et al. (2010).


(2) https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=cCZqoKPdvIs.
https://www youtube.com /watch?v=)DgFbOmmMoY.
https://www.youtube.com/watch?v=5B. PFknwígU,
https://www.napratica.org.br/historia-renovatio.
https: //www.youtube.com/watch?v=270)z4ZyDOg.
https://www.youtube.com/watch?v=Yid5aBoZ Tag.
CASO DE ESTUDO - INOVAÇÃO SOCIAL 185

aA ip
Re

atio
11.4. O caso Renov
11.4.1. A história...
o
Em 2013, no Brasil dois amigos tomaram conhecimento do projet
internacional One Dollar Glasses através de um evento que envolvia
várias organizações e projetos sociais (Enactus) pois um deles fazia já
parte dessa rede. Nesse evento eles ficaram impressionados com esta
o
ONG (Renovatio) pois eles referiram que já tinham ajudado em todo
mundo 150 milhões de pessoas com problemas de visão que não tinham
rendimento para ir a um oftalmologista e para comprarem um par de
óculos.
Ficaram então muito interessados neste projeto e decidiram investi-
gar qual seria a situação em termos de visão dos brasileiros, sobretudo
dos mais pobres. Verificaram então que 27,5 milhões de pessoas em idade
ativa precisavam de usar óculos e não sabiam. E que a limitação em ter-
mos da falta de visão e de óculos tem um enorme impacto socioeconó-
mico, com aumentos no desemprego, baixa de produtividade, aumento
dos acidentes de trabalho para além dos efeitos negativos sobre a quali-
dade de vida.

11.4.2. O problema
O elevado preço dos óculos e a falta de empresas que os produzam de
forma massificada limitam o acesso a este bem. As limitações de acesso
aos óculos levam a que muitas crianças não consigam ler, nem ter um
desenvolvimento educacional normal, havendo dados que mostram que
22,9% das taxas de abandono escolar podem ser provocadas por proble-
mas de visão. Se este problema começa na infância e impacta negativa-
mente na educação, o que se pode esperar do futuro?
INAR
E TECNOLOGIA UMA VISÃO MULTIDISCIPL
186 INOVAÇÃO
7 Vi

11.4.3. A solução
ão chamado Martin Aufmuth
Perante este problema um inventor alem
criou o One Dollar Glasses. A tecnologia de produção dos óculos permite
Hs fio Susa,
produzir óculos resistentes e baratos. Esta ONG propôs
óculos.
plástico francês e lentes chinesas € muita criatividade para criar os
Os óculos eram desenvolvidos a partir de um fio de aço em cerca de 23
muito baixo de 1 dólar
minutos. Esta tecnologia artesanal tinha um custo
(valor em 2014).

11.4.4. O contexto brasileiro


este
Em 2014, a Renovatio, uma organização sem fins lucrativos levou
projeto para o Brasil e permitiu que milhares de pessoas passassem a ver.
Estes dois amigos que trouxeram a Renovatio para o Brasil consegui-
ram através de uma plataforma crowdfunding com o Banco da América
com primeiro patrocinador permitiu começar a produzir óculos no Brasil.
Para produzir os óculos o projeto deu formação a desempregados e
sem abrigo, permitiu criar um ambiente de interajuda.
Durante o desenvolvimento deste projeto, é identificado outro pro-
blema. De acordo com a informação disponibilizada pela Renovatio 79%
dos municípios não tinham oftalmologistas no sistema de saúde pública.
E 45 milhões de brasileiros (cerca de 20% da população) precisa de ócu-
los e não sabe, refletindo lacunas no acesso a cuidados de saúde primários.

11.4.5. A solução e os impactos


O projeto no Brasil trouxe uma nova solução para o problema especi-
fico da falta de oftalmologistas. Os promotores do projeto desenvolveram
um equipamento completo mas portável arrumado numa carrinha que
permitia a oftalmologistas itinerantes associados ao projeto atender mais
de 200 pessoas por dia. O impacto do Renovatio fez-se sentir de ime-
diato, pois este, serviços colocados ao dispor da comunidade, permitia
triagem e consultas com oftalmologias e a oferta dos óculos caso fosse
diagnosticada essa necessidade.
SOCIAL 187
CASO DE ESTUDO - INOVAÇÃO

Para agilizar o processo de entrega, as lentes com diferentes graus de


miopia são transportadas na carrinha e podem ser encaixadas a tempo
nos óculos. No caso do astigmatismo, são enviadas após O diagnóstico.
Então os dois amigos perceberam que estar sempre a recolher fundos
para produzir os óculos não seria uma solução de longo prazo € decidi-
ram criar uma empresa social chamada VerBem, que permite a produção
dos óculos a custos muito baixos. Este projeto permitiu assim melhorar a
visão de 15 000 pessoas, oferecer 2400 consultas itinerantes e gerar 30
óculos
mil dólares de rendimento para os trabalhadores que produzem os
(todos em situação de vulnerabilidade económica e social).
óticas criadas
Em suma, este projeto propôs a criação de uma rede de
zir óculos a
por vendedores locais dessas comunidades que permite produ
u assim
preços baixos e acessíveis a pessoas de baixo rendimento e torno
o projeto sustentável no longo prazo,
à
De acordo, com a Renovatio «Nós trabalhamos para promover
ho
inserção social de pessoas marginalizadas e damos-lhe acesso a trabal
a formação e a uma ocupação remunerada». Atualmente, eles dispõem de
duas fábricas para produção dos óculos em São Paulo em comunidades/
/bairros mais vulneráveis desta cidade.
Os promotores deste projeto congratulam-se pela possibilidade das
crianças não precisarem de abandonar a escola por este motivo, e as pes-
soas não precisam de deixar de trabalhar por não conseguir ver. À Reno-
vatio tem por objetivo distribuir até 2021 1 milhão de óculos a quem não
os pode comprar e no Brasil este projeto recebeu o prémio Empreende-
dor Social de Futuro em 2017.

11.5. Notas finais de reflexão sobre o caso

pode estar
Este caso permite discutir um caso de inovação social que
nte
associado à dimensão de inovação social orientada para o ambie
externo. Verifica-se que este caso traz um conjunto de mudanças e
impactos positivos no território por ajudar a prevenir e a resolver um
conjunto de problemas que impactam na qualidade de vida e bem-estar
VIE LIRA
” IGEPE IHA
Oia UMA VI ÃO MOLHO
INOVAÇÃO E TECHNO!
1a

ns eg ui a ter um tr
trab
abalho regul aprender hana
lar ou ou apre
guar
o
da populaçãà qu e nãào co | n
para
escolha por ter problemas de visão e não ter capacidade financeira
adquirir um par de óculos. O baixo custo desta solução inteligente per-
mitiu que a população mais pobre tivesse acesso à visão.
Este caso permitiu assim identificar as fases do processo de desenvol-
vimento de inovação social conforme descrevem Hubert et al! Inicial-
mente desenvolveram uma ideia baseada no diagnóstico de um problema
e estruturação da questão de partida, depois são validadas as razões deste
problema e o que o origina. O problema identificado neste caso refere-se
à saúde visual, à falta de diagnóstico de visão e acesso aos óculos, o que
influencia negativamente a qualidade de vida de parte da população de
baixos rendimentos. A segunda fase consiste na geração de ideias para solu-
cionar este problema. Neste caso a tomada de conhecimento de trabalho
desenvolvido por outra ONG permitiu a criação da Renovatio no Brasil e
permitiu a produção de óculos a preços muito reduzidos e passíveis de
serem adquiridos pelas pessoas. A terceira fase permitiu através de testes
piloto testar a ideia e recolher sugestões de melhoria da população e de
peritos. Nesta fase a Renovatio recebe um patrocínio que permite produzir
os óculos gratuitamente. No entanto, para que o projeto continue e seja
sustentável no longo prazo a ONG verifica que não pode apenas depender
de terceiros, e assim se passa à quarta fase, onde transformam o projeto-
-piloto em inovação social. A Renovatio cria uma rede de produtores de
óculos, oftalmologistas e entidades associadas regionalmente que per-
mite distribuir óculos e consultas oftalmológicas a quem precisa e a um
baixo custo.
A quinta e sexta fases correspondem à disseminação da inovação
social e ao estabelecimento de novas formas de pensar e fazer. A ONG
publicita o seu trabalho através de vídeos, página web e parcerias. E
estabelece novas formas de chegar ao seu público-alvo, adaptando a sua
estrutura à sua missão, Eles também recolhem e disseminam histórias
impactantes como a da jovem menina que queria ser médica e era a
melhor aluna da turma ainda que tivesse 8 graus de miopia, ou da
senhora que perdeu o medo de sair de casa pois já consegue ver os bura-
cos na rua.

(0) Hubert et al. (2010).


189
CASO DE ESTUDO - INOVAÇÃO SOCIAL

o o
pm
Sintesedo capítulo me metem
irem

do no Brasil.
» Este capítulo propõe um caso de inovação social desenvolvi
inovação O social atendendo a
* Começa por enquadrar o conceito de
diversas perspetivas e evolução em termos de autores.
de
« Depois apresenta o caso, identificando o problema e à proposta
finais.
solução, encerrando com algumas reflexões

da Renovatio no Brasil?
1. Quais foram as principais dificuldades
processo s e enquadra nas fases
2. Como é que o desenvolvimento deste
da inovação social descritas na literatura?
vatio e identifique soluções para
3. Faça uma análise SWOT ao caso Reno
nto.
as dificuldades e oportunidades de crescime
ação social e apresente justifi-
4. Investigue sobre outros casos de inov
de inovação.
cando um caso que se enquadre neste tipo

E Biblografia
e: Social Innovation in the European
BEPA (2010). Empoweóring people, driving chang
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Union. BEPA - Bureau of Policy Advisers, European
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INOVAÇÃO E TECNOLOGIA - UMA VISÃO MULTIDISC
190

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Zapf, Wolfgang (1991). The role of innovations in modernization theory. International,
Review of Sociology, 1 (3), 83-94.
Considerações finais

Cara leitora, caro leitor,

Desejamos que tenha gostado do livro. O livro procurou apresentar


(como
uma visão geral da inovação e de assuntos muito ligados à mesma
alguns
a criatividade e a tecnologia). Complementarmente, apresentou
de, um
casos para mostrar questões práticas que se colocam na realida
aplicado ao turismo e outro à inovação social.
apa-
O assunto do livro (inovação) é sem dúvida, importante. Nunca
m sinais que o
receram tantas inovações como agora. Para mais, existe
s. Isso
ritmo da inovação ainda vai aumentar mais nas próximas década
serão muito alte-
significa que as nossas vidas, para O bem e para o mal,
radas fruto deste fenómeno.
em simul-
A inovação é, quase sempre, uma oportunidade e ameaça
unidade para
tâneo: Frequentemente, é mesmo uma ameaça e uma oport
n-
a mesma pessoa e organização. Muito depende da forma como respo
demos ao aparecimento das mesmas.
e,
Uma área onde as transformações estão a acontecer rapidament
tolo-
graças à inovação, é a medicina. De acordo com uma médica derma
e está
gista (doenças da pele) amiga de um dos editores, esta especialidad
a
a ser rapidamente transformada pela inovação. Dito de outra forma,
inovação está a levar a que máquinas e software façam, crescentemente,
funções com uma grande autonomia que eram até há pouco tempo
extremamente dependentes do trabalho dos médicos. Um exemplo, é O
dete-
reconhecimento de doenças na pele. Progressivamente, máquinas
venção cada vez mais
tam doenças da pele nos pacientes com uma inter
na área da medicina são
pequena dos médicos. Claro que essas inovações
vivemos mais e melhor.
benéficas para toda a humanidade. Graças a elas,
gos ameaçados (ou, pelo menos,
Por sua vez, os médicos que vêm os empre
z Mm TIDISCCIPi INAD
192 ÃO E TECNOLOGIA
a ' - UMA
U) VISÃO MUL TILISCIPLINAR
INOVAÇÃO E

ã verem ess as inovações


Os seus salários diminuídos) são capazes de não Ç da
mesma forma.
; ar ,
Também a difusão das inovações é cada vez mai s rápida e fácil, Há
séculos uma inovação demoraria anos (ou mesmo décadas) a
ser difun-
dida pelo planeta. Isso permitia às populações afetadas terem
um tempo
bastante alargado para se adaptarem às novas inovações. Agra, Nad
a
inovação pode ser conhecida e aplicada num espaço de tempo muito mais
curto. Consequentemente, o tempo de adaptação às suas conseq
uências é
também muito mais reduzido.
Nós, os editores deste livro, desejamos que este livro lhe seja útil de
duas formas. Por um lado, que a sua leitura contribua para aproveita as
r
oportunidades e diminuir as consequências das ameaças da ino
vação.
Por outro lado, que a sua leitura contribua para o leitor
seja uma inova-
dora quer na sua vida profissional, como na sua vida pessoal. Como
alguém escreveu um dia, a melhor forma de prever
o futuro é fazê-lo. Por
exemplo, talvez possa aplicar na vida as estrat
égias e métodos abordados
neste livro.
Uma boa jornada na sua vida.

Os editores
Autores

Professora Titular da Faculdade de


ADRIANA BACKX NORONHA.
Universidade de São Paulo
Economia, Administração e Contabilidade da
enciatura pela Universidade
— FEA/USP. Graduada em Matemática — Lic a
putação e Matemátic
de São Paulo (1991), Mestre em Ciências da Com
de São Paulo (1995) e Doutora em
Computacional pela Universidade
al de Campinas (1999).
Engenharia Elétrica pela Universidade Estadu
s icados ao Processo
Principal área de atuação: Métodos Quantitativo Apl
e Learning), Meto-
Decisório (Métodos Estatísticos, Simulação e Machin
ão de Docentes e Tec-
dologias Ativas de Ensino-Aprendizagem, Formaç
stas e livros nacio-
nologias Educacionais. Autora de diversos artigos em revi
Pesquisa na FAPESP
nais e internacionais. Coordenadora de Projetos de
São Paulo). Página:
(Fundação de Amparo a Pesquisa no Estado de
423 /adriana-backx-noronha-viana fa
https: //bv.fapesp.br/pt/pesquisador/178

BRÁULIO ALTURAS nasceu em Lisboa em 1964, mas sempre viveu


com especiali-
em Queluz, é doutor em Organização Gestão de Empresas
iais com espe-
zação em Marketing (2005), Mestre em Ciências Empresar
e Licenciado em
cialização em Sistemas de Informação de Gestão (1995)
E-IUL. Atualmente
Organização e Gestão de Empresas (1989), pelo ISCT
Ciências e Tec-
é Professor Auxiliar do ISCTE-IUL do Departamento de
ro de Inves-
nologias da Informação, e investigador do ISTAR-IUL (Cent
a). É ainda
tigação em Ciências da Informação, Tecnologias e Arquitetur
rmação.
Diretor do curso de Mestrado em Gestão de Sistemas de Info
Aplicada à
Coordenador de várias unidades curriculares de Informática
uações, bem
Gestão e Ciências Sociais e docente em Mestrados e Pós-grad
cionais.
como formador na área dos Sistemas de Informação Organiza
INAR
VISÃO MULTIDISCIPL
IA — UMA
vAÇÃÃO E TECN OLOG
194

tí Insti-
ficoemno dr
in ve st ig
ia naad or cien
Ar Co ., a
(1. 1973) é
CARLOS M. FERNANDES og
Robótica. Estudou fot
tuto de Sistemas e de hi st
ist ór
óriia da fotografia no Núcleo
de
de fotograf ia e
-se,
utorouus
(1994-96), e dá aulas ri :
or ácn iie dese e1 Doe
. Ea e
Instituto Supe
Arte Fotográfica do cia artificia
e em inteligên
em 2009, com uma tes
mática e desde então tem vindo àseguir sidade pel da
as relações entre arte e ciência, à a no a as humanidades. Par-
nos diálogos entre às ciências naturais e o Retoma adesaro
fotografia x ; g a
individuais € coletivas
ticipou em várias exposições
generativa. É autor do livro Paisagens Ocultas: Datas ars aa Vo.
da coletânea de textos O Lápis
e Criatividade Distribuída e coorganizador ia.
nstrução da Fotograf
Mágico: Uma História da Co
DE SO US A é dou tor em Ges tão de Empresas (especialidade
IVO DI AS
ade Aberta, mestre em Estatís-
de Gestão de Informação) pela Universid Lisboa) e
sidade Nova de
tica e Gestão de Informação (IMS — Univer
o ISCTE-IUL. Atual-
licenciado em Organização e Gestão de Empresas pel
rta na área de Gestão de Informa-
mente é professor na Universidade Abe
et ér-
ção. Tem vários livros publicados com destaque para à Intern e Com
cio Eletrônico.

JOÃO ALPEDRINHA é investigador pós-doutorado no centro para


ecologia, evolução e alterações climáticas, na Universidade de Lisboa
(CE3C). Fez a sua licenciatura em biologia na Universidade de Lisboa e o
doutoramento em zoologia na Universidade de Oxford onde estudou.

JORGE ABRANTES. Professor de Tecnologia e Inovação na Universi-


Superior
dade Aberta, a par de ensino universitário tradicional na Escola
em licenciaturas quer
de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE) quer
no mestrado. A formação de base é de Organização e Gestão de Empresas
pela
no ISEG, tendo igualmente um MBA em Finanças (parte curricular)
sua ligação
UCP e um curso de especialização em Gestão Financeira. A
profissional ao turismo levou a que, muita da formação académica e de
com um Mestrado em Turismo
investigador se centrasse nessas áreas,
(ESHTE), Título de Especialista em Turismo e Lazer (ESHTE) e Douto-
Mais de 30 anos de
ramento em Turismo pela Universidade de Lisboa.
experiência profissional em empresas e grupos económicos privados
AUTORES
195

ligados ao turismo e aviação comercial e no setor público (Turismo de


Portugal), com desempenho de funções maioritariamente ao nível de
direção e administração.

LUÍSA CAGICA CARVALHO. Doutora em Gestão pela Universidade


de Évora (2008). Investigadora do Centro de Estudos de Formação
Avançada em Gestão e Economia (CEFAGE) da Universidade de Evora.
Professora coordenadora do Departamento de Economia e Gestão na
Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de
Setúbal (desde 2018) onde coordena o Mestrado em Ciências Empresa-
riais. Professora auxiliar na Universidade Aberta, Lisboa (2013-2018)
onde coordenou o Mestrado em Gestão e o curso em Empreendedorismo
e Novos Negócios. Professora adjunta na Escola Superior de Ciências
Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal (1999-2013) onde
desempenhou várias funções de coordenação, nomeadamente Coordena-
dora da Mobilidade Internacional e Coordenadora da Unidade de Apoio à
Inovação, I&D e Empreendedorismo. Professora convidada da Universi-
dade de São Paulo — Brasil onde leciona e é corresponsável pela disci-
plina de Empreendedorismo e Inovação e Empreendedorismo Digital e
Territórios Criativos e Inteligentes no Programa de Doutoramento em
Administração das Organizações. Exerce a sua atividade docente e de
investigação no domínio do empreendedorismo, inovação, internaciona-
lização e setor dos serviços. É autora de cinco livros nacionais, coordena-
dora editorial de treze livros internacionais e de um nacional, autora de
vários capítulos de livros e de diversos artigos em revistas nacionais e
internacionais e membro de diversos projetos de investigação nacionais e
internacionais. Integra diversas comissões cientificas de conferências,
Jornais e revistas internacionais.

MARIA CAROLINA MARTINS RODRIGUES, PhD Internacional


em Administração, Universidad de Extremadura, Espanha.
Pós-graduada
em Gestão do Conhecimento, Universidad de Belgrano, Buenos
Aires,
Argentina, e pesquisador do CIEO (Universidade do Algarve).
Atual-
mente, os seus interesses de investigação são Turismo;
Sustentabilidade,
Economia circular, Conhecimento verde, Capital intelectual
verde, Ino-
vação, Gestão do conhecimento, Empreendedorismo,
Responsabilidade
social, Modelos de negócios, Inteligência de negóci
os, Incubadoras de
ÃO M ULTIDISCIPLIMAR
E ECNOL
e OGIA U MA VISÃO
INOVAAÇÃO
Ç )
196

; is de 40 artigos e capí-
idades inte
empresas, ; Cidades inteligentes. É coautor as de mais de 4
a científi e E
: avi
várias ist
revis
cas. Organi zou a Confe-
tulos de livros e publica em lo. . ;
ismo € Conferências internacionais de
cência Ibérica cobre
A . aê [”,
oração
m
Membro fundador e vice-presidente da
reendedorism
4 Ri

ustentabi
cm
pi — Associa ção Portuguesa de Empreendedorismo.
p dinda da ARPIAC — Associação de Aposentados, Pensio-
embro da
nistas e Idosos de Agualva-Cacém. Foi professa na Universidade
UAb) e na Universidade Moderna. Na administração tributária,
foi oculta técnica de administração tributária aiintimea como fagrile-
nadora na Direção de Serviços de Relações Internacionais (DSRI) e foi
Chefe do Serviço de Finanças.

MARÍA PACHE DURÁN. Doutora em Economia Financeira e Conta-


bilidade pela Universidade da Extremadura (Espanha). Atualmente é
professora associada e investigadora do Departamento de Economia
Financeira e Contabilidade da Universidade da Extremadura. Autora de
numerosos artigos de investigação indexados em revistas internacionais
e nacionais e capítulos de livros. A sua investigação centra-se na Respon-
sabilidade Social Empresarial em diferentes contextos e no empreende-
dorismo. E-mail: mpache(dunex.es. Últimas publicações: Carvalho,
L. C.,
Pérez, E., & Pache, M. (2019). Implicación de los gobiernos locales
en la
promoción del emprendimiento: evidencia para Espafia.
Revista espa-
niola de Documentación Científica, 42(1), 226; Gutiérrez,
H., Nevado, M.
T., & Pache, M. (2019). La contratación pública responsabl
e. Disefio de
indicadores de medición. CIRIEC-Espafia, revista de economia
pública,
social y cooperativa, (96), 253-280.

MARIA TERESA NEVADO GIL. Foi consultora e inter


ventora (téc-
nica de contas) das prefeituras de janeiro de 1999 a setem
bro de 2012.
Em 2008, iniciou sua carreira universitária, combinando-a
com sua posi-
ção na administração local, Contratado Doutor credenciado
como profes-
sor da Universidade Privada pela Agência Nacional de Avali
ação da Qua-
lidade e Acreditação (ANECA) a partir de 2018/01/08,
Diploma em
Estudos de Negócios, BA em Economia e Negócios
Internacionais da
Ciência e PhD em Ciências Sociais e Jurídico pela Universida
de de Extre-
madura (UEX). Sua principal atividade de ensino é realiz
ada na Faculdade
de Negócios, Finanças e Turismo da UEX, no
Departamento de Econo-
AUTORES

mia Financeira e Contabilidade, como Professor Doutor Contratado.


Atualmente, ele também leciona no Mestrado em Contabilidade e Minis-
tério Público da Universidade Lusófona de Lisboa. Sua atividade de
pesquisa se concentra no campo da administração pública. Autora de
vários artigos científicos publicados nos principais periódicos de sua área
(Journal Citation Reports e SCOPUS indexado) e palestrante em diver-
sas conferências nacionais e internacionais.

MÁRIO CARRILHO NEGAS. Doutor em Gestão pela Universidade


Aberta e Mestre em Economia e Gestão de Ciência e Tecnologia pelo
ISEG/UTL. Investigador do Centro de Administração e Políticas Públicas
a
(CAPP) — ISCSP/Universidade de Lisboa e do Laboratório de Educação
Distância e eLearning (LEGD), Universidade Aberta. Diretor do Departa-
mento de Ciências Sociais e de Gestão e membro do Conselho de Gestão
da Universidade Aberta, desempenhou funções de Coordenador do Curso
cio Ele-
de Gestão e funções de Vice-coordenador do Mestrado em Comér
centram-se
trónico e Internet (MCEIJ). Os seus interesses de investigação
, com
na área das tecnologias e sistemas de informação aplicados à gestão
sistemas e
particular ênfase nos aspetos relacionada com a adoção de
com o planeamento estratégico de
tecnologia da informação em PME;
icação (TIC)
sistemas de informação, as Tecnologias da Informação e Comun
colabora
no setor público (e-governance/ e-administration). Atualmente
ning, inova-
em vários grupos de trabalho interdisciplinares sobre e-lear
social organiza-
ção, qualidade, empreendedorismo e responsabilidade
ação Portuguesa
cional, globalização. É Presidente da Empreend — Associ
diversas comissões
para o Empreendedorismo, é autor de livros e integra
e júris de atribui-
científicas de conferências nacionais e internacionais,
da REDE RSO
ção de prémio por mérito científico. Foi Co-coordenador
das Organizações de
PT - Rede Portuguesa de Responsabilidade Social
Curso de Empreende-
Portugal. Coordenador científico e pedagógico do
curso da responsabili-
dorismo e Organização Empresarial Responsáveis,
enador regional dos
dade da Universidade Aberta e da REDE RSO. Coord
de de Missão para os
Centros Locais de Aprendizagem (CLA), da Unida
Aberta.
Centros Locais de Aprendizagem da Universidade

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