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I Prêmio Donald Stewart Jr.

– 2004 Diogo Godinho Ramos Costa

As Seis Lições de Mises para o Brasil

A transcrição das conferências proferidas por Ludwig von Mises em 1958, na


Argentina, prova-nos que o autor poderia utilizar as mesmas palavras que empregou
para criticar as políticas econômicas então correntes, se as palestras ocorressem
centenas de quilômetros a nordeste e dezenas de anos depois. Claro que o momento
histórico em que o Brasil encontra-se difere muito da Argentina pós-Perón, mas as
idéias que nos dirigem insistem em permanecer nos mesmos erros. Principalmente no
que diz respeito ao mais potente dínamo de crescimento econômico conhecido.

O Capitalismo

Von Mises inicia sua série de discursos contra-atacando as imposturas


anticapitalistas propagadas com a respeitabilidade dos ensinamentos mais sagrados.
Mises explica que a antipatia ao capitalismo não nasceu dentre o povo e nem foi por
ele teorizado. Pelo contrário, o capitalismo é um prodígio das massas. Foram os
interesses feridos da aristocracia européia que germinaram uma hostilidade ao sistema
que iniciara uma das mais significantes transformações sociais que a história já
testemunhou. Coincidência ou não, ainda hoje no Brasil, o ódio ao capitalismo recebe
seu impulso diretamente dos históricos substitutos das funções antes delegadas à
aristocracia: os burocratas. E se a aristocracia enxergou o fim de seus dias, os
burocratas prosperam como os maiores beneficiados da hipertrofia estatal sobre o
mercado. A cada revolução que passa, a cada costela do capitalismo quebrada, é a
burocracia a classe que mais tira proveito, aumenta e absorve o poder a um grau
jamais alcançado pela aristocracia. Só nesse ano de 2004, o PT pretende contratar
41.380 funcionários públicos através de concurso público, um número 250% maior do
que os contratados no último ano da gestão de Fernando Henrique. 1 Esse progressivo
aumento na demanda por burocratas, consentiu formar-se no Brasil, ao longo do
tempo, um enorme conjunto de pessoas capacitadas e ansiosas para participar da
máquina estatal. A expectativa desse grupo a engrossar o caldo anticapitalista, forma
o conceito defendido pelo professor Olavo de Carvalho de Burocracia Virtual. A classe
que originou os líderes de todas as revoluções e que mais aproveitou suas vantagens.
A verdadeira classe revolucionária.
O paralelo entre a aristocracia da revolução industrial e a burocracia do Brasil
contemporâneo ainda apresenta mais pontos em comum. Os privilégios da pequena

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nobreza da Inglaterra conflitavam, nos séculos XVIII e XIX, com um sistema de trocas
livres que germinara no meio de párias. Vítima de políticas mercantis dedicadas a
beneficiar um seleto grupo, a situação encontrada pelo proletariado inglês era de uma
aflitiva exclusão. O desespero da situação foi satirizado pelo irlandês Jonathan Swift
em Uma Modesta Proposta, que recomendou o canibalismo de infantes como solução
para a superpopulação. Essa massa miserável, encurralada no beco da sobrevivência,
foi salva pela própria originalidade. Similar à água que descobre novos caminhos
quando obstruída, parece que a genialidade humana encontra meios surpreendentes
para desviar-se das adversidades. Uma tragédia não se acometeu sobre a Inglaterra
porque a economia escoou para a marginalidade, e propulsou a formação de uma
indústria voltada para atender as necessidades da massa. Hoje é a burocracia que,
para defender um Estado todo-poderoso, persegue a marginalidade econômica dos
trabalhadores que apenas conseguem encontrar sustento longe das exigências legais.
No século XVIII, as barreiras criadas sobre a livre circulação do trabalho, criticadas por
Adam Smith, dificultavam o trabalhador de “exercer sua indústria em qualquer
paróquia, que não seja àquela a qual pertence”. A desordem gerada por tais leis foi
notada por Adam Smith como “a maior talvez, de todas [as desordens], da política da
Europa”.2 Nos dias de hoje o Estado possui suas modernas barreiras legais e todo o
legislativo empenha-se em criar novas “Leis do Pobre” diariamente. Os encargos
trabalhistas que uma empresa deve arcar por empregado contratado, por exemplo,
equivalem a 102% do total de seu salário. Uma onerosidade excessiva que empurra
quase metade de todos os trabalhadores a buscarem sua sobrevivência na
informalidade trabalhista. Apenas 43,6% dos trabalhadores brasileiros exercem seu
ofício com carteira assinada.3 A evasão informal é o caminho imposto pelo Estado
brasileiro à correnteza do trabalho, mas também é o que tem escorado esse país. Se
fosse repentinamente eliminada do mercado brasileiro toda a massa de trabalhadores
informais, haveria motivo para temores parecidos com os de Swift. A primeira lição a
ser retirada de As Seis Lições não é outra senão a própria retirada das barreiras e
obstáculos jurídicos que empanturram a burocracia enquanto representam verdadeiros
entraves aos empregadores e empregados brasileiros. Ambos jogados na arena, com
centenas de equipamentos legais, por uma política com os antolhos voltados para a
luta de classes. É justamente dessa atração pela luta de classes que passamos ao
segundo tema dos pronunciamentos de Mises.

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O Socialismo

Magnetizados por uma contínua fixação ao mito da luta de classes, os


governantes brasileiros jamais vislumbraram a realidade da harmonia de interesses
defendida por Mises. Nosso ordenamento jurídico, bem como o establishment cultural
do país, parece compreender como principal função do Estado, a resolução do “conflito
inconciliável de interesses”. O desdobramento universal da luta de classes marxista.
A óptica do Estado brasileiro sobre as relações entre pessoas permanece num
daltonismo arrasador. Os verdadeiros conflitos litigiosos, onde a intervenção estatal é
necessária, enfrentam a vergonhosa morosidade de uma burocracia processual
emperrada pelo sistema jurídico brasileiro. Enquanto que todas as demais áreas,
pacificamente acordáveis entre os indivíduos, recebem a tonelagem da interferência
estatal.
Uma Constituição que prioriza a redução da desigualdade social entre os
cidadãos, indica somente que uma outra desigualdade deva ser ampliada: a
desigualdade entre cidadão e Estado. Digamos que dois indivíduos estão em uma
situação desproporcional, e um é mais forte que o outro. Um terceiro, então,
aproxima-se para resolver essa desigualdade. Este terceiro deve ser, necessariamente,
mais forte que os outros dois se quiser solucionar a questão. E o “terceiro” que se faz
presente sobre todas as relações econômicas entre pessoas no Brasil é o próprio
Estado. Sua mão pesa como a mão de um pai sobre todos os seus filhos. Aliás, a
noção do governo paternalista mostra-se extremamente adequada para caracterizar a
tendência socialista que impera no Estado brasileiro. Assim como um pai que tenta
instruir seu filho e planejar seu futuro, o Estado nacional sempre tentou educar os
cidadãos, prevendo o que é bom ou ruim para eles, e organizar um planejamento que
conduza a nação para a comunhão de interesses.
É sabido desde os gregos que só é capaz de educar, aquele que sabe algo mais
que o aprendiz. Assim como o pai deve saber mais que o filho. Então quando um
Estado, como discorre Mises, deseja educar a sociedade, faz-se mister que esse Estado
deva saber mais do que seus aprendizes, ou seja, toda a sociedade. Perguntar se
algum estadista, por mais instruído que seja, pode compreender melhor a vida de
todos os indivíduos do que eles próprios, parecerá ridículo. Se exemplificarmos com o
atual governo, então, a pergunta será interpretada pelo ouvinte como zombaria pura.
Obviamente, a insistência do Estado em tutelar e traçar um plano central para a
sociedade só serve para intimidar os interesses individuais que deverão curvar-se ante
um suposto “interesse coletivo”. Essa noção de busca planejada por um bem comum a

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todos é criticada por Mises, que explica que organizar forçadamente a sociedade
apontando para uma meta única, apenas tende a desorganizar a harmonia que lhe
seria natural.
Friedrich A. Hayek discorre ainda sobre as conseqüências desastrosas do
planejamento central na própria estrutura do Estado de Direito. Há prejuízos de ordens
econômica e moral, pois o plano central substitui a imprevisibilidade dos efeitos das
ações individuais pela imprevisibilidade das ações Estatais, variantes ao humor do
governo. De acordo com o Professor Hayek “Pode parecer paradoxal que consideremos
uma virtude o fato de, em dado sistema, conhecermos menos acerca do efeito
particular das medidas tomadas pelo Estado do que seria o caso na maioria dos outros
sistemas, e que um método de controle social seja considerado superior justamente
por desconhecermos seus resultados precisos. Entretanto, essa consideração é o
fundamento lógico do grande princípio liberal do Estado de Direito. (...) As normas
gerais, as verdadeiras leis, em contraposição às determinações específicas, devem
portanto ser configuradas de modo a atuar em circunstâncias que não podem ser
previstas em detalhe (...) Só neste sentido o legislador será imparcial.” 4 Esse grande
princípio liberal da imparcialidade vem sendo vilipendiado pelos preconceitos socialistas
que, no Brasil, não compõem a ideologia de uma parcela da sociedade, mas formam
uma tradição permanentemente impregnada no próprio significado da política. Mercado
livre para o brasileiro continua cheirando à selvageria. Podemos nunca ter embarcado
num socialismo explícito, mas não há expectativa tangível de que algum dia sairemos
de sua influência teórica sobre nosso eterno gerúndio.

O Intervencionismo

Logo no início do capítulo, Mises defende-se da acusação de que repulsa o


Estado. O autor argumenta que o aparato estatal deve limitar-se a cumprir suas
devidas funções. E faz uma analogia com a gasolina, que deve ser utilizada como
combustível, não como alimento.
Ao empregarmos da mesma símile para explicar as funções do Estado brasileiro
teremos que forçar nossa imaginação para visualizarmos pessoas que respingam
gasolina para temperar uma refeição; passam-na nos ombros tal qual loção
hidratante; pingam-na nos olhos como se fosse colírio. Dispõem da gasolina em tudo,
menos no tanque de combustível. Assim, o Estado brasileiro é o instrumento preferido

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para educar as massas, implantar a reforma agrária, subsidiar a cultura, promover o


esporte. Só esquecem que o Estado também pode servir para segurança e justiça.
Se existe uma coisa que nosso país consegue fazer com grande eficácia é
exatamente o controle do mercado. É preciso uma complexa estrutura para impedir o
lucro das 500 maiores empresas no país de ultrapassar, nos últimos dez anos, a média
de 2,3% sobre a receita.5 De acordo com o Index of Economic Freedom 2004, o índice
preparado anualmente por The Heritage Foundation, a intervenção do governo na
economia brasileira atinge nota 4 de 5. Sendo 5 a maior intervenção. No índice geral, o
Brasil caiu neste ano para a 80ª posição, colocando-se abaixo da Maldavia, Albânia e
de Senegal. No topo da lista, onde o mercado é mais livre, apresentam-se os mais
prósperos países do mundo: Hong Kong, Cingapura, Suíça, Estados Unidos... Já os
países de maior escassez aparecem lá no final, como Zimbabwe, Líbia e Coréia do
Norte. Os efeitos indesejáveis do intervencionismo podem ser entendidos pelo seu
caráter autoritário em “obrigar os indivíduos a agirem de forma diferente da que
agiriam se fossem deixados livres”, conforme elucidação de Donald Stewart Jr.6 Apesar
da base teórica e empírica confirmarem, a conexão entre liberdade econômica e
aumento do bem-estar ainda não foi efetuada na mente de nossos governantes.
Todo bom controle exige uma boa manutenção do órgão controlador, portanto,
o Brasil pode ostentar com muita vergonha a segunda maior carga tributária sobre
salários de todo o mundo. Em 10 anos, toda a carga tributária nacional aumentou
56,74%, descontada a inflação. Isso significa que cada brasileiro teve, em média,
retirado de seus bolsos só no ano de 2003, R$3.092,47. Uma soma total de mais de
500 bilhões de reais.7 Mas nem todos perdem com isso. O dinheiro arrecadado serve
para financiar diversos projetos sociais, como o glorioso “Fome Zero”; inúmeros
projetos pessoais dos políticos, como aquisição de novos bens; a dívida de companhias
aéreas; e, claro, grupos revolucionários, como o MST.
Seria uma falha imperdoável imaginar que o excesso de intervenção estatal
sobre a economia não permite uma boa dose de interferência sobre o nível de
segurança pública. Abaixando-o, é claro. No mês de abril do corrente ano, o governo
destinou uma verba de 1,7 bilhão de reais para o MST, movimento armado maoísta
que detinha, no momento da doação, mais de 80 fazendas invadidas. Além do pacote
financeiro, o PT ainda prometeu tornar mais eficientes as desapropriações rurais das
terras consideradas improdutivas. O governo só não se importa em verificar se as
terras desapropriadas mostram-se produtivas, pois a única função social que cumprem
é a satisfação revolucionária. Somando-se a violência no campo com a urbana dos
últimos vinte anos, chega-se à assombrosa média de cerca de 30 mil assassinatos por

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ano no país.8 Nada que pareça incomodar o Estado a ponto de suspender sua atenção
das intervenções econômicas. Não basta deixar morrer, têm que morrer pobres.
E ainda há quem acredite na ilusão de que o intervencionismo tem diminuído no
país. Tomam, como exemplo, a desistência do Estado em controlar os preços e a
resolução do grande mal dos anos oitenta.

A Inflação

Eis o mais famoso triunfo das políticas econômicas das últimas décadas. O fim
da inflação. Pelo menos a transposição da inflação monstruosa que alcançava 32,96%
em agosto de 1993, para a domesticada porcentagem de 1,86 no mesmo período do
ano seguinte.9 O resultado formidável garantiu ao então Ministro da Fazenda, Fernando
Henrique Cardoso, a presidência; mas isso não significa que os trilhões inflacionários
acumulados por mais de uma década tenham feito cessar a sua conseqüente
desigualdade econômica; camuflada, como critica Mises, pela noção de nivelamento.
Méritos devem ser dados a FHC por não ter imitado o controle de preços
atacado à exaustão por Mises. Esse método, aliás, foi o principal vício dos planos
Cruzado, Bresser e Verão, cujas maiores façanhas consistiram na escassez de produtos
no mercado, a prática do ágio e a desconfiança do investidor externo. Relação de
causa-conseqüência claramente explicada no capítulo anterior de “As Seis Lições”.
Fernando Henrique conseguiu amansar a inflação porque aprendera algo que
Mises havia esclarecido meio século antes. A causa da inflação não está na elevação
dos preços, mas no aumento da quantidade de dinheiro. O governo do PSDB só resistiu
abster-se da necessidade de emissão da moeda fiduciária ao diminuir seus gastos,
como através das famigeradas privatizações que tiraram dos ombros do Estado o peso
do prejuízo de suas estatais.
Mas quem acha que o fato de termos mantido uma inflação ligeiramente
regulada nos últimos dez anos é o suficiente para dispensar o ensino desse capítulo, e
que a teoria do economista britânico John Maynard Keynes já foi abandonada pela
ideologia dos últimos governantes, ainda não desvendou o fundamento do problema.
O Estado brasileiro continua averiguando a economia somente através da
seguinte questão keynesiana explicitada por Mises: “o que é preferível, um dinheiro
lastreado com desemprego ou a inflação com pleno emprego?” Esse interruptor que,
quando liga a inflação desliga o desemprego, e vice-versa, precisa ser substituído pelo
outro questionamento: “como podemos melhorar a situação dos trabalhadores e de

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todos os demais grupos da população?” “Mantendo o mercado de trabalho livre de


empecilhos e assim alcançando o pleno emprego” é a resposta do autor.
Entretanto, o dilema de Keynes nos servirá de parâmetro enquanto a política
não permitir que a economia desenvolva-se livremente. Keynes vislumbra a liberdade
dos indivíduos de guiarem a economia, como um mal a ser combatido pelo Estado, e
afirma em Inflação e Deflação que “um padrão de valor governado por causas
fortuitas, e deliberadamente afastado de um controle central, produz expectativas que
paralisam ou intoxicam o governo da produção”. E mais à frente argúi que “devemos
nos livrar da profunda desconfiança existente quanto a permitir que a regulação do
padrão de valor seja sujeita a decisão deliberada. Não podemos, por mais tempo,
permitir-nos deixá-lo naquela categoria cujas características distintivas são possuídas,
em diferentes graus, pelo tempo, pela taxa de natalidade e pela Constituição – fatos
que são regulados por causas naturais, ou que resultam da ação separada de muitos
indivíduos que atuam separadamente, ou que requerem uma revolução para mudá-
los.”10
O tal interruptor continuará válido se não for promovida uma reforma na fiação
estatal. Se, por um lado, temos uma inflação que se mantêm na casa de um dígito, o
desemprego atinge 12% das pessoas economicamente ativas da região metropolitana
do Brasil.11 Para fugir dessa dialética perversa, é necessária a abolição da idéia
keynesiana de Estado como motor da economia, e passarmos a aproveitar a potência
impulsora da “ação [nunca totalmente] separada de muitos indivíduos”, além dos
benefícios dos capitais provenientes do exterior.

O Investimento Estrangeiro

A capacidade de distribuição de riquezas entre as nações sofre com uma


insistência protecionista generalizada. Estados Unidos e Europa, para acalmarem os
produtores, aplicam tarifas antidumping e provêm subsídios para diversos ramos da
produção.
A mesma tolice estrangeira é repetida no Brasil e encorajada por
diferentes grupos da sociedade. O homem comum convence-se da sensatez do
protecionismo por saber que ele é aplicado nos mais ricos países. A maioria dos
produtores aplaude a política tarifária, já que são eles os principais beneficiários. Há
ainda a elite intelectual brasileira, cuja mente deveria estar acima do senso comum e
separada dos interesses particulares de cada grupo. Só que, contaminados pela

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epidemia do vírus anticapitalista, nossos formadores de opinião conseguem apoiar o


protecionismo nacional, ao mesmo tempo em que manifestam seu ódio à mesma
política quando empregada pelos países desenvolvidos. Sua luta não é contra as
restrições à liberdade do comércio exterior, mas contra os símbolos de dominação de
uma mundialmente extensa luta de classes.
A defesa do protecionismo é a defesa da teoria da miséria, conclui o economista
francês Frédéric Bastiat. Quanto mais determinado homem vende, mais ele enriquece.
Quanto maior a concorrência, menos este homem vende. Quanto menos ele vende,
menos ele enriquece. Então a escassez é benéfica para os homens, concluem mesmo
que inconscientemente, os defensores da teoria da miséria. Entretanto este raciocínio
está incompleto, pois todo produtor é também um consumidor. “O consumidor torna-
se mais rico quanto mais ele compra todas as coisas a melhor preço. Ele compra coisas
a melhor preço, na proporção em que elas se apresentam em abundância. Logo, a
abundância o enriquece” discorre Bastiat em Abundância e Miséria.12 Para que o desejo
de abundância não seja contradito pelos Estados, seria necessária a livre circulação de
bens e pessoas entre as nações. O fato é que o interesse de parcelas da sociedade
induzem os países a reprimirem a entrada de capital em seu território. Há alguns,
ainda, que, por razões econômicas, dificultam a entrada de pessoas em seu território,
mas isso não significa que tenhamos que rejeitar o capital proveniente deles. Pelo
contrário, se a mão-de-obra não vai ao capital, que permitam o capital ir até a mão-
de-obra.
Hoje se fala em incentivo ao investimento externo por parte do governo. Muitos
elogiam a postura do atual governo, por respeitar os acordos internacionais e cumprir
o pagamento das dívidas. Diversos intelectuais do partido, entretanto, julgam a adoção
dessas medidas uma traição ao tradicional discurso do PT. Na verdade, tanto os novos
entusiastas quanto os esquerdistas revoltados se enganam quanto às pretensões do
partido. O Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, ícone do bom-senso petista, responde
às críticas sobre o atual modelo econômico da seguinte forma: "o Brasil está
desajustado há quase meio século, e cabe ao governo Lula a tarefa de reconstruir a
nação sobre bases sólidas. Imagine você comprando uma casa velha, repleta de
problemas, como infiltração, telhado quebrado, vazamento, fios estragados e outros
defeitos estruturais. Para recuperar o imóvel, você quebra paredes, arranca o telhado,
tira o piso. Aí um sujeito vai visitar a obra nessa fase e sai dizendo que você está
destruindo tudo."13 Notem que o ministro enxerga a atual política econômica como
uma obra meramente temporária. Os planos adotados atualmente não devem ser
definitivos e nem mesmo constituem a obra em si, são apenas uma de suas "fases".

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Se a atual abertura para o capital estrangeiro é quebrar paredes, honrar o


pagamento das dívidas é arrancar o telhado, priorizar o equilíbrio fiscal é tirar o piso.
Se toda a suposta austeridade governamental é uma forma de destruição, não fica
muito difícil inferir que a construção deverá seguir um molde bem diferente das
medidas adotadas. A pose diplomática parece um sacrifício que a “obra” do PT precisa
agüentar até que, firmada, possa ser modelada de acordo com os ideais do partido.
Nada que difira muito das intenções da carta de Jawaharlawl Nehru, citada por Mises.
Se o governo Lula resiste em revelar suas verdadeiras intenções, é por aplicar a lição
de Maquiavel para os governantes que estão “na dependência exclusiva da vontade e
boa fortuna de quem lhes concedeu o Estado, isto é, de duas coisas extremamente
volúveis e instáveis”. Cabe à sociedade observar a obra do autor florentino, e perceber
que “engana-se quem acreditar que nas grandes personagens os novos benefícios
fazem esquecer as antigas injúrias”.14 Muitos foram enganados pela estratégia leninista
que, em 1921, atraiu o capital estrangeiro para a Rússia, para depois estatizar os
meios de produção. A Europa sabe, por experiência própria, os danos que estratégias
desse tipo podem trazer aos investidores externos. Não acredito que o PT imitará os
passos de Lênin, mas ambos parecem motivados pelas mesmas crenças e paixões.

Políticas e Idéias

O livro de Ludwig von Mises produz no leitor um efeito semelhante à divagação


por mundos fictícios, tamanha é a largura do precipício que se abriu entre a verdadeira
política liberal e a retórica rasa da contemporaneidade. Todo o progresso científico
abraçado pelas obras dos teóricos liberais do século XIX, todo o entusiasmo gerado
pela perspectiva de quem desvendava um novo caminho, mal conseguiram sobreviver
a uma absurda ruptura intelectual, cuja causa só poderá ser completamente analisada
pelas gerações futuras.
O número de brasileiros capazes de raciocinar com a terminologia empregada
pelos economistas liberais é muito limitado, pois somos reinados por uma hegemonia
cultural, com seus produtos somente perceptíveis aos que dela escapam. Termos
fundamentais para a compreensão do pensamento liberal perderam seus significados
originais e são entendidos de maneira completamente diversa do sentido pretendido
pelos autores. Socialismo converteu-se em solidariedade política; liberalismo não
passa de um conjunto de teorias de dominação a serviço do interesse estrangeiro
(principalmente norte-americano), que pouco se importa com as mazelas do mundo; e

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Estado nada tem a ver com força e coerção. A manipulação da linguagem transformou
os defensores da liberdade em alvos de desprezo ou desconfiança.
Encontramo-nos num vácuo intelectual onde parece que a imbecilidade venceu
a genialidade, como disse Nélson Rodrigues, pela superioridade numérica. A
desinformação esquerdista consegue impedir física e intelectualmente que
pensamentos, como o da Escola Austríaca, tenham acesso ao senso comum brasileiro.
Todo conhecimento que difira das teorias esburacadas, expostas do primário à
universidade como “verdades absolutas”, fica retido numa espécie de filtro cultural.
Essa é a conseqüência de sistemas educacionais suportados pelo Estado. Quem tem o
poder de escolher o que a sociedade deve ou não aprender, jamais permitirá que seja
ensinada qualquer doutrina que coloque em risco esse poder. Se o Estado é quem
promove a educação, as teorias que duvidam da legitimidade do intervencionismo
estatal não poderão ser lecionadas. Por ser excluído das salas de aula, o liberalismo
acabou sendo eliminado dos debates públicos, e só não veio a desaparecer graças ao
refúgio oferecido por escritores comprometidos com a seriedade científica. Foram
esses homens que, mesmo marginalizados, mantiveram viva a tradição do
pensamento liberal.
Se, no campo da ciência política, efetivar uma comunicação tem-se tornado
difícil, o seu exercício foi transformado num palco de atuações canastronas e discursos
fingidos a fim de atender às exigências de determinado grupo de pressão. Esse
conceito, utilizado por Mises na comparação de partidos políticos a “grupos de pessoas
desejoso de obter um privilégio à custa do restante da nação”, eleva-se no cenário
nacional à categoria de definição.
Frédéric Bastiat apresenta o Estado como “a grande fiação através da qual todo
mundo se esforça para viver às custas de todo mundo”.15 Encaixe perfeito às funções
dos grupos de pressão. Se um partido sai em defesa de uma classe, como o PAN
(Partido dos Aposentados da Nação) ou o PCO (Partido da Causa Operária), fica
evidente que uma eventual vitória nas eleições não beneficiará ao conjunto da
sociedade, mas apenas a um determinado grupo. Um candidato a um cargo legislativo,
então, que baseia sua campanha em atender as reivindicações de sua cidade ou
estado, age de forma irreprochável para qualquer eleitor. Se os Estados Unidos do
século passado eram “mais práticos no parlamento”, o Brasil do século XXI é o cúmulo
do funcionalismo.
Mas a decadência não se reserva, com exclusivismo, à pragmática política. O
professor Hans-Hermann Hoppe, um dos mais eminentes defensores da Economia
Austríaca da atualidade, afirma que a economia predominante está num estado de

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confusão, tentando provar ou contestar empiricamente aquilo que pode ser


estabelecido logicamente. Olavo de Carvalho, renomado pensador e dissidente do
establishment cultural brasileiro, estende essa decadência científica também à
filosofia: “eis em que consiste o ensino atual de filosofia, uma atividade desesperadora
cujos praticantes, para se consolar de sua absoluta insubstancialidade, têm de
alimentar a ilusão de representar papéis politicamente relevantes para os destinos do
país”.

O Estado brasileiro aponta três finalidades essenciais do ensino de jovens em


nosso país: “I - domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a
produção moderna; II - conhecimento das formas contemporâneas de linguagem; III -
domínio dos conhecimentos de Filosofia e de Sociologia necessários ao exercício da
cidadania.”16 Parece-me uma piada de mal gosto imputar a responsabilidade de atingir
esses fins a orientadores que: I- apenas fracassam na teorização e aplicação dos
princípios que presidem a produção; II- deturpam a linguagem de tal modo a ponto de
definirem socialismo como “conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam
reformar a sociedade capitalista para diminuir um pouco de suas desigualdades” III-
relevam o domínio da filosofia por permitir ao aluno “entender seu mundo, a realidade
que o cerca, as classes e as lutas de classe, o papel do Estado e modos de produção”.

Como resultado, o Brasil hoje produz mentes consideradas pelo PISA (Programa
Internacional de Avaliação Estudantil) entre mais inaptas do mundo. Jovens
contraditórios o bastante para reclamar do Estado enquanto o alimentam com a
virgindade de sua alma.
Apesar de todos os fiascos humanos do século XX, compartilho com Mises da
esperança de que nossa civilização, e em especial o Brasil, “sobreviverá respaldada em
idéias melhores que aquelas que hoje governam a maior parte do mundo”. Não é
através da violência das armas que resistiremos à ruína, mas através do poder das
palavras. Quando este momento passar, serão lembrados aqueles que, no meio da
loucura generalizada, perseveraram na busca pela verdade. Esta será a recompensa de
tão honroso trabalho prestado pelo Instituto Liberal e diversos pensadores que,
através da mídia impressa ou virtual, conseguem divulgar as idéias que derrotam
idéias; idéias que, como disse um dos maiores gênios do século passado, podem
iluminar a escuridão.

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Referências

1- Dados Folha on-line 01/02/04, disponível em:

<http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u57763.shtml>

2- SMITH, Adam. Riqueza das Nações. Momento Atual, 2003. p. 99.

3- Pesquisa de Hélio Zylberstajn (Universidade de São Paulo).

4- HAYEK, Friedrich A. O Caminho da Servidão. 5. ed. Rio de Janeiro: Instituto Liberal,

1990. p. 88-89.

5- Pesquisa da revista Exame, edição Melhores e Maiores, de agosto de 2003.

6- STEWART JR., Donald. O Que é o Liberalismo. 6. ed. Rio de Janeiro: Instituto

Liberal, 1999. p. 27.

7- Números do IBPT.

8- Dados da revista Veja de 21 de abril de 2004.

9- IPCA, IBGE.

10- KEYNES, John Maynard. Inflacão e Deflação. 2. ed. São Paulo: Nova Cultura, 1985.

p. 300-301.

11- Pesquisa Mensal de Emprego, IBGE.

12- BASTIAT, Frédéric. Frédéric Bastiat. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1989. p. 105.

13- Entrevista publicada pela revista Veja, 18/02/04.

14- MACHIAVELLI, Niccoló. O Príncipe. Edições de Ouro. p. 41, 49.

15- BASTIAT, Frédéric. Frédéric Bastiat. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1989. p. 92.

16- Lei 9.394/96, art.36, §1º.

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