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A Globalização e os

Impactos Tecnológicos
na Sociedade Contemporânea
Núcleo de Educação a Distância
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25 de Agosto – Duque de Caxias - RJ

Reitor
Arody Cordeiro Herdy

Pró-Reitoria de Programas de Pós-Graduação Pró-Reitoria Administrativa e Comunitária


Nara Pires Carlos de Oliveira Varella

Pró-Reitoria de Programas de Graduação Núcleo de Educação a Distância (NEAD)


Lívia Maria Figueiredo Lacerda Márcia Loch

1ª Edição
Produção: Gerência de Desenho Educacional - NEAD Desenvolvimento do material: Marcio Simão de
Vasconcellos e Antonio Lucio Avellar Santos

Copyright © 2019, Unigranrio


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Sumário
A Globalização e os Impactos Tecnológicos na Sociedade Contemporânea
Para início de conversa… ................................................................... 04
Objetivos ........................................................................................... 05
1. Sociedade da Informação ...................................................... 06
2. Ciberespaço e Cibercultura .................................................... 14
Referências ........................................................................................ 19
Para início de conversa…
O século XX foi marcado por uma série de acontecimentos que
caracterizaram e ilustraram a crise enfrentada pela Modernidade. Problemas
econômicos, sociais e políticos afetaram toda a Europa e, com ela, o restante
do mundo. As guerras mundiais revelaram uma faceta terrível da raça
humana: o ódio ao diferente revelou-se capaz de destruir a vida no mundo.

Com isso, o otimismo racionalista oriundo do Positivismo deu lugar


a diversos questionamentos. Nesse cenário, houve um aumento gigantesco
da tecnologia aplicada à comunicação. A partir dos anos 1970, a internet
se desenvolveu e, com ela, novas possibilidades surgiram para a reflexão e a
prática científica.

Neste capítulo, abordaremos esse momento histórico,


contextualizando essas descobertas e apresentando algumas de suas
consequências sobre a vida humana. Trataremos da sociedade da informação,
bem como do ciberespaço e da cibercultura, que tornam-se fundamentais
em nosso tempo. A partir dessa análise, conheceremos as implicações
dessas temáticas no âmbito da educação.

4 Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas


Objetivos
▪▪ Valorizar o papel da informação para o desenvolvimento das
Ciências Humanas na modernidade.
▪▪ Avaliar a importância cultural e o uso do ciberespaço como lugar
de construção e disseminação do conhecimento.

Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas 5


1. Sociedade da Informação
Para melhor compreendermos o papel da informação para o
desenvolvimento das Ciências Humanas e avaliar a importância e utilização
de novas tecnologias na construção do conhecimento, é necessário descrever
a sociedade na qual esses processos foram se desenvolvendo. Contudo, não é
tarefa fácil ou simples apresentar uma descrição da sociedade contemporânea
que dê conta de todas as suas especificidades, possibilidades e desafios. De
fato, uma vez que estamos imersos nessa sociedade, torna-se muito difícil
elaborar análises meramente factuais sobre a realidade que nos cerca. Nossa
proximidade nos impede de ver com clareza e, em certo sentido, somos como
o peixe do poema de Anthony Mello:

Por favor, por favor!


Disse um peixe do mar a um outro peixe:
“Você que deve ter mais experiência,
talvez possa ajudar-me... Então me diga:
Onde posso encontrar a coisa imensa
que chamam de Oceano? Em toda a parte
eu o venho buscando sem sucesso.”

“Mas é precisamente no Oceano


que você está nadando”, disse o outro.
“Oh... isto? Mas é pura e simplesmente água!”
Disse o peixe mais jovem, “eu procuro
é o grande Oceano!” E lá se foi nadando,
muito desapontado, a buscar noutra parte. (MELLO, 2003, p.22)

Em que pese essa dificuldade, é preciso refletir sobre o mundo em


que vivemos. O fato é que a cada dia mais somos cercados por um mundo em
constante mutação. Talvez, uma das melhores áreas onde se possa perceber
o ritmo acelerado de tais mudanças seja a tecnologia. A corrida espacial, por
exemplo, iniciada em plena Guerra Fria, acabou produzindo novas tecnologias
que prometem a exploração de planetas distantes. As mudanças na prática da
Medicina também foram intensas. Se, durante a Idade Média os médicos eram
impedidos pela religião de realizar autópsias em corpos humanos (uma vez que
estes eram considerados sagrados), hoje temos à disposição novas ferramentas
para a prática médica, como Raios X, Ultrassom, Ressonância Magnética etc.

6 Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas


Vivemos em um mundo agitado, acelerado; uma realidade que
apresenta grandes desafios e também possibilidades. O mundo revela-se, às
vezes, um lugar muito contraditório, injusto e violador da vida humana; mas,
também, pode mostrar-se como um espaço de vida, de conquistas e alegrias.
É essa complexidade que precisamos avaliar.

Importa perceber que um mesmo elemento característico da pós-


modernidade pode ser avaliado negativa ou positivamente. Por exemplo, pense
sobre o processo de comunicação humana. A rapidez com que os meios de
comunicação têm se desenvolvido é surpreendente. Aquilo que, há décadas
atrás, parecia ficção científica, hoje é realidade acessível a boa parte da população.
Graças a esse avanço, podemos ter conversas em tempo real com várias pessoas
em diferentes partes do mundo. Em certo sentido, a internet tornou o mundo
menor, possibilitando novas formas de encontro e relacionamento. Tudo isso é
muito positivo, contudo, esses mesmos avanços nos processos de comunicação
humana podem esconder a superficialidade dos relacionamentos construídos
em redes sociais ou até mesmo negar o contato afetivo, a conversa “olho no
olho”, sem intermediários tecnológicos. Eis aí o lado negativo de todo esse
avanço. Isso pode ser reforçado por propostas que reforçam o individualismo,
considerado como necessário à própria sobrevivência.

Em um dos maiores sucessos entre os popularíssimos livros de


autoajuda (vendeu mais de cinco milhões de cópias desde sua
publicação em 1987), Melody Beattie adverte/aconselha seus leitores:
“A maneira mais garantida de enlouquecer é envolver-se com os
assuntos de outras pessoas, e a maneira mais rápida de tornar-se são
e feliz é cuidar dos próprios.” O livro deve seu sucesso instantâneo
ao título sugestivo (Codependent no More [Codependente nunca
mais]) que resume seu conteúdo: tentar resolver os problemas de
outras pessoas nos torna dependentes [...] (BAUMAN, 2001, p.77)

Embora essa mensagem apareça agradável, subsiste nela uma ameaça à


própria vida em sociedade e àquilo que nos torna humanos: a compaixão pelo
próximo. Com os olhos voltados apenas aos nossos próprios interesses, nos
desumanizamos progressivamente.

Enfim, temos as múltiplas transformações que atingiram a sociedade


europeia desde o fim da Idade Média; a Revolução Inglesa e a Francesa,

Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas 7


ocorridas no século XVIII; e o surgimento e desenvolvimento do Capitalismo
como forma de se pensar a sociedade em termos socioeconômicos. Tudo isso
contribuiu para a formação de nosso tempo.

Em todo esse processo de mudança social, econômica, política,


cultural etc., a tecnologia se desenvolve numa velocidade cada vez mais
impressionante. Aliás, é correto afirmar que vivemos na era da ciência e da
informação. Obviamente, isso produz algumas consequências sobre nossa
percepção de mundo, como veremos adiante. A rapidez dessas inovações é
tanta que a própria análise do tempo constitui tarefa complexa.

Grandes transformações vêm ocorrendo neste final de século,


colocando significativos desafios para a humanidade. Tempo e
espaço vêm, cada vez mais claramente, deixando de ser apenas
realidades reais, a priori, para se constituírem em realidades virtuais
que por sua vez, podem se concretizar transformando-se em real-
(iz)-ações. A física quântica, a informática, a microeletrônica, a
biotecnologia, a micromecânica e os chamados novos materiais
são articulados para constituir sistemas telemáticos e digitais
que fazem a aldeia global de McLuhan deixar de ser um sonho.
(FRÓES, 2000, p.283)

O conceito de “aldeia global”, elaborado pelo sociólogo Herbert


M. McLuhan, se refere à ideia de que os diversos avanços tecnológicos
auxiliam no processo de diminuir as distâncias, recriando, numa perspectiva
mundial, o mesmo tipo de relações sociais que ocorrem numa aldeia. Dito
de outra maneira: as novas tecnologias possibilitam o desenvolvimento
de um tipo de percepção de mundo que aproxima realidades distantes
daquela experimentada pelo indivíduo. É como se, por causa dos meios
de comunicação, pudéssemos participar de experiências distantes
geograficamente como se ocorressem na nossa frente.

O tempo em que vivemos pode receber diversas nomenclaturas:


pós-modernidade, hipermodernidade, capitalismo tardio etc. Os nomes
são variados, mas expressam uma mesma coletânea de características que
marcam nosso tempo. A dificuldade em definir o termo revela outra
característica da pós-modernidade: a fluidez dos conceitos.

8 Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas


Não há nada mais ambíguo do que o termo Pós-Modernidade.
[...] Essa ambiguidade constitui, entretanto a sua marca. Ela é o
pós-moderno da Modernidade: indefinível, fluido e inconsistente.
Ninguém ousa definir a Pós-Modernidade. A tentativa de definição
é, por si só, uma atitude que contraria seus cânones (se é que
existem). (BENEDETTI apud TRASFERETTI; GONÇALVES,
2003, p.53)

Além disso, podemos considerar a pós-modernidade como um


período de crise da Modernidade, conforme afirma Rocha (2010, p.71):

O que a pós-modernidade traz a lume é que a modernidade, que se


sustenta sobre as bases da razão autônoma – racionalização – e da
ideia do progresso, está agonizando. Sua epistemologia construída
sobre o hierarquizado princípio do sujeito-objeto encontra-se num
esgotamento que vai paulatinamente abrindo espaço para outras
epistemologias, mais complexas e inter-subjetivas.

A pós-modernidade se refere a um tempo de ausência de solidez


nas estruturas sociais, pois “engloba um mundo fragmentado e uma
multiplicidade de valores que se colocam uns ao lado dos outros. [...] Essa
fragmentação explica ao mesmo tempo a desordem e a perplexidade dos
intelectuais diante da situação, não somente para pensar, mas para agir
sobre ela” (MAFFESOLI apud SILVA, 1993, p.133-134). O sociólogo
polonês Zygmunt Bauman também aborda essa questão, ressaltando o
caráter fluido da contemporaneidade; esta fluidez ou liquidez são “como
metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase,
nova de muitas maneiras, na história da modernidade” (BAUMAN, 2001,
p.9). Ou ainda:

Chegou a vez da liquefação dos padrões de dependência e interação.


Eles são agora maleáveis a um ponto que as gerações passadas não
experimentaram e nem poderiam imaginar; mas, como todos os
fluidos, eles não mantêm a forma por muito tempo. Dar-lhes forma
é mais fácil que mantê-los nela. Os sólidos são moldados para
sempre. Manter os fluidos em uma forma requer muita atenção,
vigilância constante e esforço perpétuo – e mesmo assim o sucesso
do esforço é tudo menos inevitável. (BAUMAN, 2001, p.14-15)

Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas 9


Tudo isso produz um tempo de paradoxos profundos que se revela de
várias formas. Por exemplo, a liberdade de escolha é limitada pela recusa a escolher,
pois sempre se deseja manter “portas abertas” para saídas de compromissos
supostamente assumidos. Aliás, como afirmamos acima, vivemos um período
de relacionamentos superficiais, que podem ser desligados rapidamente, sem o
ônus da proximidade. O desejo crescente pela “novidade” torna as tecnologias
ainda válidas e importantes obsoletas. Celulares com mais de um ano de uso são
considerados “velhos” e precisam, sob o impacto da mídia e da lógica do mercado,
serem substituídos por modelos mais recentes. Novos aplicativos criados hoje
“aposentam” (ao menos na percepção de muitos) aplicativos desenvolvidos ontem.
Carros em perfeito funcionamento são desprezados por não serem novos. Essa
realidade, em maior ou menor grau, afeta o ser humano e suas relações. A lógica do
mercado – que também tem afetado profundamente a pesquisa científica – conduz
à acumulação da riqueza acima de qualquer outro valor.

Quando a acumulação da riqueza passa a ser o objetivo maior de um


grupo social, a lógica econômica passa a ser o centro da vida e o principal
critério de discernimento para as questões morais. [...] O que não
podemos esquecer é que ‘consumidor’ não é sinônimo de cidadão ou
de ser humano. Consumidor é o ser humano que tem dinheiro para
entrar no mercado. Aqueles que não tem não são consumidores e estão
fora do mercado. As mercadorias não são destinadas à satisfação das
necessidades e desejos da população, mas sim dos consumidores. (MO
SUNG; SILVA, 1995, p.56-59)

Justamente por isso, esse período é extremamente rico para a reflexão


científica, lida, contudo, em outra perspectiva que não a lógica sujeito-objeto
de Descartes. A experiência subjetiva assume cada vez mais enfaticamente um
protagonismo na construção do saber. Como afirmamos na unidade anterior, isso
não destrói a “verdade”, mas a reinterpreta a partir de outros parâmetros, mais
abertos ao diálogo e à autocrítica construtiva.

Nesse sentido, a pós-modernidade inaugura um período de grandes desafios,


mas também de ricas oportunidades. Aliás, para a Sociologia, esse tempo oferece
uma imensa variedade de abordagens analíticas. De fato, a Pós-Modernidade
afeta diretamente a sociologia, pois traz à luz uma sociedade em novas formações,
desvinculadas de uma autoridade universal ou um discurso unívoco; uma sociedade
em certo sentido fragmentada, mas que produz novas formas de convívio social.

O provisório, o efêmero, o fútil e o temporário são mais expressivos que


o eterno, o imutável, o integrado, o harmônico e o sublime. A mistura é

10 Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas


melhor que a pureza. É preciso levar a sério a sociedade que se reconhece
nessa mudança de valores, “entendê-la por ‘dentro’ para poder fazer-lhe a
crítica” [...] Descobrir uma nova forma de sociabilidade – a socialidade –
naquilo que foi desdenhado pela Modernidade: o diverso, o fragmentado,
o efêmero, propõe Maffesoli. Para a sociologia, não bastam mais as teorias
sacro-seculares que organizam e explicam de cima as relações sociais.
(BENEDETTI apud TRASFERETTI; GONÇALVES, 2003, p.69-70)

Essa percepção extraída da Sociologia afeta todas as demais Ciências


Humanas. A História, por exemplo, não mais busca construir metanarrativas,
supostamente capazes de dar conta do todo, mas antes, investiga os detalhes da
história, as micronarrativas, os detalhes do cotidiano.

Sublinhar a singularidade de cada análise é questionar a possibilidade


de uma sistematização totalizante, e considerar como essencial ao
problema a necessidade de uma discussão proporcionada a uma
pluralidade de procedimentos científicos, de funções sociais e de
convicções fundamentais. (CERTEAU, 1982, p.31).

A tecnologia desenvolvida, especialmente, a partir das últimas décadas do


século XX e início do século XXI, tem produzido profundas alterações na forma
como a sociedade se organiza. Essa percepção, obviamente, também vale para a
área educacional e para a pesquisa científica. A metodologia da EAD, por exemplo,
constitui uma modalidade de ensino diretamente ligada às inovações tecnológicas
como a internet e os novos meios de comunicação, possibilitando que a formação
acadêmica aconteça em qualquer lugar e horário, de acordo com as possibilidades
do estudante. Essas tecnologias são também trazidas para a sala de aula, em cursos
presenciais. Nesse sentido, o uso de tecnologias em sala de aula representa ao
mesmo tempo um espaço de desafios e oportunidades. O desafio consiste em
aprender a utilizar tal metodologia como forma de enriquecimento dos conteúdos
apresentados e não como mera ornamentação metodológica. Dito de outra forma:
as novas tecnologias precisam estar a serviço do processo educacional, e não o
contrário; é preciso saber utilizar as tecnologias a fim de desenvolver no estudante
não apenas conhecimento técnico, mas também valores éticos e humanos.

O educador, pesquisador e desenvolvedor de jogos eletrônicos Marc


Prensky (2001), cunhou as expressões “Nativos Digitais” - para os que
nasceram depois de 1983 e “Imigrantes Digitais” - pais e professores
que nasceram antes do ingresso das tecnologias digitais na vida em
sociedade. Segundo o autor, em um mundo marcado por essas
tecnologias, é fundamental preparar a geração dos “nativos digitais”,

Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas 11


não só para o uso das mídias e bom desempenho escolar, como
também para os valores éticos e humanos. (PEREIRA, 2017, p.2)

Do ponto de vista positivo, o uso dessas tecnologias pode ser um meio para
criar aulas dinâmicas e atraentes, além de caracterizar as chamadas metodologias
ativas, utilizadas também no ensino a distância. Nesse caso, o uso de tecnologias
coopera para a educação e formação do educando, isto é, a tecnologia é aliada
da produção do conhecimento por meio do diálogo entre docentes e discentes.

Glossário
Metodologias ativas são propostas educacionais surgidas no novo contexto cultural, social
e tecnológico, que buscam promover a autonomia do(a) aluno(a). Nessa metodologia, “o
estudante é corresponsável por seu próprio processo de formação, o autor da sua própria
aprendizagem. Participa de atividades, como leitura, escrita, discussão ou resolução de
problemas, promovendo síntese, análise e avaliação do conteúdo” (PEREIRA, 2017, p.3). Ao
enfatizar o protagonismo do discente, as metodologias ativas rejeitam uma aprendizagem
passiva. Assim, estão intimamente ligadas ao tipo de proposta pedagógica desenvolvida por
Paulo Freire, para quem “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades
para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE, 2003, p.47).

Nossa sociedade constitui um mundo globalizado. Na verdade,


a globalização é resultado direto do capitalismo que se desenvolveu na
Modernidade. O conceito de globalização está intimamente ligado ao processo de
integração de processos econômicos, políticos, sociais e culturais, que ocorrem,
especialmente, em virtude dos meios de comunicação. A globalização “não é
um fenômeno contemporâneo, mas o reflexo das contínuas transformações nas
relações produtivas entre pessoas e entre países, marcadas pela desigualdade
socioeconômica, característica inerente ao próprio capitalismo” (ALMEIDA;
MAGNONI, 2016, p.175). De fato, a globalização acaba revelando o tamanho
dessa desigualdade, patrocinada e mantida pela lógica capitalista. Aliás, é preciso
ressaltar que capitalismo e democracia não são sinônimos.

A ação do Estado, enquanto promotor da redução das diferenças


sociais, é desestimulada pelos capitalistas, na sua nova roupagem, o
neoliberalismo, que emergiu após a II Guerra Mundial, quando os
diversos países procuraram intervir na economia, de modo a mitigar
os impactos da guerra para as populações menos favorecidas, no
modelo conhecido como Estado de Bem-Estar Social. Os neoliberais
se insurgiram contra esse modelo e pregaram a retirada do Estado da
economia, recomendando, por intermédio de organismos mundiais,

12 Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas


como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial,
a privatização de empresas estatais, a redução dos gastos públicos
com saúde, educação e a desregulamentação da economia, dentre
outras medidas. Assim, o capitalismo (modo de produção fundado
na economia de mercado, na propriedade privada dos meios de
produção e no trabalho assalariado) e o neoliberalismo - ideário
político e econômico que defende a mínima intervenção do Estado
no mercado de trabalho - foram responsáveis por acelerar ainda
mais as profundas transformações econômicas e as desigualdades
que caracterizam os processos da Globalização. (ALMEIDA;
MAGNONI, 2016, p.175)

Como fruto desse processo de globalização, desenvolveu-se um novo


tipo de sociedade: a sociedade da informação. Esse fenômeno se intensificou
graças a utilização das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs),
uma vez que “estas, no contexto atual, são um de seus principais agentes,
por possibilitarem o rápido contato entre locais distantes” (ALMEIDA;
MAGNONI, 2016, p.176).

O conceito de sociedade da informação se desenvolve a partir da


percepção de que o ser humano é único em sua criatividade. Ou seja, ele não
pode ser substituído por máquinas ou computadores, por conta: da capacidade
de ter novas ideias e de interligar pensamentos e descobertas; da realização
de análises criativas; e da possibilidade de compreender o mundo por meio
do pensamento racional. Em outras palavras, tudo isso é exclusividade do ser
humano. As diversas formas de lidar com a informação construída pelo ser
humano – criação, difusão, distribuição, utilização etc. – tornam-se atividade
sociocultural, mas também econômica e política.

No chamado mundo global, a rapidez com que a informação e o


conhecimento se disseminam traz significativas mudanças para
as relações econômicas, políticas e sócio-culturais. Tal rapidez,
porém, depende das condições que as tecnologias de informação
e comunicação proporcionam não só ao tráfego mas também
à produção, ao armazenamento, ao acesso e à recuperação dessa
informação e desse conhecimento. Vista sob uma perspectiva
mais pragmática, essas tecnologias dão suporte à produção de um
incomensurável volume de informações, possibilitam uma enorme

Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas 13


diversidade de alternativas para seu armazenamento e recuperação e
fornecem ao fluxo da informação uma amplitude, uma intensidade
e uma velocidade que não poderiam ser antecipadas sem conexão
das redes informacionais em superinfovias. (FRÓES, 2000, p.3)

Dito de outra maneira: no mundo contemporâneo, o que move


as relações humanas, tanto em nível individual como comunitário e
institucional, é a informação.

Observa-se, nessa perspectiva, a relevância da informação nessa


nova configuração da sociedade. Essa informação, ao ser tratada,
gera demandas que movimentam, de forma veloz, capitais entre as
empresas de diferentes países e regiões. A rapidez com a qual os
capitais se deslocam em todo o mundo é facilitada sobremaneira
pela velocidade tecnológica com a qual a informação é processada.
Todos esses processos relativos à sociedade informacional, os
quais impulsionaram ainda mais a Globalização, trazem algumas
consequências econômicas, políticas e sociais. (ALMEIDA;
MAGNONI, 2016, p.176)

2. Ciberespaço e Cibercultura
Ciberespaço e Cibercultura são termos que se inter-relacionam.
Ambos resultam das inovações tecnológicas aplicadas à comunicação entre
seres humanos, especialmente a internet. Para melhor compreender esse
fenômeno e suas implicações para a vida humana, é importante resgatar um
pouco da história do surgimento dos computadores e da própria internet.

Por volta de 1945, os computadores eram máquinas grandes


– verdadeiras calculadoras gigantes – cuja utilização era reservada aos
militares. “A informática servia aos cálculos científicos, às estatísticas dos
Estados e das grandes empresas ou a tarefas pesadas de gerenciamento
(folhas de pagamento etc.)” (LEVY, 1999, p.33). Na década de 1970, os
computadores pessoais começaram a ser vendidos em larga escala e também
aplicados à indústria.

14 Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas


[...] abriram uma nova fase na automação da produção industrial:
robótica, linhas de produção flexíveis, máquinas industriais
com controles digitais etc. Presenciaram também o princípio da
automação de alguns setores do terciário (bancos, seguradoras).
Desde então, a busca sistemática de ganhos de produtividade por
meio de várias formas de uso de aparelhos eletrônicos, computadores
e redes de comunicação de dados aos poucos foi tomando conta do
conjunto das atividades econômicas. Esta tendência continua em
nossos dias. (LEVY, 1999, p.33)

As décadas de 1980 e 1990 experimentaram um aumento em progressão


geométrica da utilização dos computadores para outros fins, incluindo trabalho,
mídias, televisão, cinema e lazer. A indústria de videogames se desenvolveu
em um ritmo acelerado. Nesse meio tempo, ainda no final da década de 1960,
a World Wide Web (Internet) foi criada. Sua origem remonta ao auge da
Guerra Fria e ao desejo dos militares norte-americanos de desenvolver um
sistema de comunicação seguro e confiável, que se mantivesse ativo mesmo
no caso de ataques nucleares soviéticos. A Arpanet – como era chamada –
tinha a função de interligar os diferentes laboratórios de pesquisa dos Estados
Unidos. A partir da década de 1980, seu uso foi expandido para o ambiente
acadêmico, primeiramente nos Estados Unidos e, posteriormente, em outros
países como Suécia e Holanda, e seu nome foi oficialmente alterado para
internet. No final dessa década, ela passou a ser comercializada.

Por fim, o início dos anos 1990 marcou o surgimento de várias


empresas provedoras de acesso à internet. Segundo Levy (1999, p.34):

Sem que nenhuma instância dirigisse esse processo, as diferentes


redes de computadores que se formaram desde o final dos anos
1970 se juntaram umas às outras enquanto o número de pessoas
e de computadores conectados à inter-rede começou a crescer de
forma exponencial.

Isso, obviamente, trouxe modificações intensas nos modos de processar


a relação tecnologia-economia. Sobre isso, continua o autor:

As tecnologias digitais surgiram, então, como a infraestrutura


do ciberespaço, novo espaço de comunicação, de sociabilidade,

Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas 15


de organização e de transação, mas também novo mercado da
informação e do conhecimento. (LEVY, 1999, p.34).

O ciberespaço, então, pode ser definido como “o espaço de


comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das
memórias dos computadores” (LEVY, 1999, p.92). Em outras palavras, é o
espaço de intercomunicações e de realizações proporcionadas pela internet.

Assim, a comunicação continua, com o digital, um movimento de


virtualização iniciado há muito tempo pelas técnicas mais antigas,
como a escrita, a gravação de som e imagem, o rádio, a televisão
e o telefone. O ciberespaço encoraja um estilo de relacionamento
quase independente dos lugares geográficos (telecomunicação,
telepresença) e da coincidência dos tempos (comunicação
assíncrona). Não chega a ser uma novidade absoluta, uma vez que
o telefone já nos habituou a uma comunicação interativa. Com o
correio (ou a escrita em geral), chegamos a ter uma tradição bastante
antiga de comunicação recíproca, assíncrona e a distância. Contudo,
apenas as particularidades técnicas do ciberespaço permitem que
os membros de um grupo humano (que podem ser tantos quantos
se quiser) se coordenem, cooperem, alimentem e consultem uma
memória comum, e isto quase em tempo real, apesar da distribuição
geográfica e da diferença de horários. O que nos conduz diretamente
à virtualização das organizações que, com a ajuda das ferramentas
da cibercultura, tornam-se cada vez menos dependentes de lugares
determinados, de horários de trabalho fixos e de planejamentos a
longo prazo. (LEVY, 1999, p.49)

O uso da internet e as suas consequências fizeram nascer uma


cibercultura. “A universalização da cibercultura propaga a copresença e a
interação de quaisquer pontos do espaço físico, social ou informacional.
Neste sentido, ela é complementar a uma segunda tendência fundamental,
a virtualização” (LEVY, 1999, p.47). Um mundo virtual que, por estranho
que possa parecer, é tão real quanto o concreto. É preciso, aqui, lembrar
como o conceito “virtual” é compreendido pela Filosofia. Para esta ciência,
virtual não é o oposto do real, mas sim, a potencialidade do real. Uma
semente, por exemplo, possui dentro de si uma árvore em potencial. Nesse
sentido, essa árvore é virtual. Mas basta que a semente seja plantada e

16 Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas


cuidada, que uma árvore real irá surgir. A árvore potencial presente na
semente concretizou-se em realidade.

Em filosofia o virtual não se opõe ao real mas sim ao atual:


virtualidade e atualidade são apenas dois modos diferentes da
realidade. Se a produção da árvore está na essência do grão, então
a virtualidade da árvore é bastante real (sem que seja, ainda,
atual). É virtual toda entidade “desterritorializada”, capaz de gerar
diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais
determinados, sem contudo estar ela mesma presa a um lugar ou
tempo em particular. (LEVY, 1999, p.25)

Esta noção de uma cibercultura gera uma integração de pensamentos,


inteligências e competências que fazem nascer novos conhecimentos
compartilhados. Assim, “os suportes de inteligência coletiva do ciberespaço
multiplicam e colocam em sinergia as competências. Do design à estratégia,
os cenários são alimentados pelas simulações e pelos dados colocados à
disposição pelo universo digital” (LEVY, 1999, p.50). Os diversos vínculos
entre as comunidades virtuais na cibercultura alimentam a utilização da
própria internet, ampliando suas possibilidades e gerando processos de
aproximação entre pessoas ao redor do mundo.

As consequências da cibercultura são muitas. Interessa-nos,


especialmente, as relacionadas ao âmbito da educação. Como afirmamos
no início deste capítulo, o uso das TICs (Tecnologias de Informação e
Comunicação) tem gerado novos desafios e possibilidades em escolas e
universidades. A procura pelos cursos EAD tem aumentado sensivelmente
nas últimas décadas. Segundo reportagem do site Educa Mais Brasil, os
estudantes inscritos nessa modalidade de ensino já correspondem a 21% do
total do Ensino Superior do país (VAZ, 2019). Como qualquer processo,
esse dado precisa ser analisado cuidadosamente. Por um lado, há muitos
discentes que são beneficiados, uma vez que essas tecnologias aplicadas ao
ensino possibilitam o acesso a um universo até então desconhecido por
muitos. Por outro lado, é também preciso evitar leituras mercadológicas
da Educação que, em nome do lucro, aceitem reduções da qualidade
da educação oferecida. Obviamente, um caminho ou outro dependerá
das mentes e mãos responsáveis pela utilização das TICs no processo
educacional, e não das TICs em si.

Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas 17


Ainda no âmbito da tecnologia, vale registrar que a utilização das
tecnologias de informação e comunicação pode auxiliar nas práticas
educacionais, na comunicação humana, na construção, na gestão
e emprego da informação e do conhecimento. Desta forma, um
ensino que possibilite uma perspectiva interdisciplinar com o
auxílio das tecnologias permite preparar o sujeito para conviver e
cooperar em uma sociedade cada vez mais globalizada, em que os
conhecimentos segmentados tornam-se cada vez menos capazes de
dar conta da realidade. (VILAÇA; ARAÚJO, 2016, p.219)

A cibercultura fornece ainda o ambiente ideal para a prática educacional


sob a lente da interdisciplinaridade. Ora, se o mundo virtual e o mundo
real estão tão intimamente conectados, e se as fronteiras entre indivíduos
parecem desaparecer, ao menos virtualmente, por que as disciplinas ainda se
manteriam presas dentro de seus próprios limites conteudistas? Nesse sentido,
“é interessante lembrar das exigências do mundo atual e da importância
da formação de sujeitos aptos a viverem neste contexto globalizado, sem
fragmentações ou alienação” (VILAÇA; ARAÚJO, 2016, p.223).

Essa rejeição a um saber fragmentado, incapaz de fazer sentido ao


cotidiano das pessoas, deve se refletir no uso correto das TICs. Assim, é
preciso ressaltar que apenas:

A presença de dispositivos tecnológicos não assegura práticas


pedagógicas interdisciplinares. Infelizmente, por muitas vezes, os
laboratórios de informática são criados nas escolas, mas apenas
funcionam em horários estabelecidos e ficam a maior parte do
tempo fechados. Em muitos casos, cria-se uma disciplina de
informática, isolada, com um professor e atividades específicas.
(VILAÇA; ARAÚJO, 2016, p.230-231).

É preciso discernimento para saber utilizar-se desse rico universo da


cibercultura na educação.

Neste capítulo, analisamos conceitos muito importantes à educação,


como: a sociedade da informação, o ciberespaço e a cibercultura. Para
compreender tais conceitos, foi preciso apresentar algumas características
do nosso tempo, conhecido como pós-modernidade. Sua principal marca

18 Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas


é o anúncio da crise da Modernidade e do que sustentava os alicerces do
conhecimento até então. Na pós-modernidade, a subjetividade e a experiência
são valorizadas como espaço de produção de conhecimento, sem, contudo,
abandonar o rigor metodológico em cada ciência. Busca-se uma percepção
mais integradora, capaz de abarcar todas as dimensões da vida.

Nesse momento histórico, a informação tornou-se algo vital.


Compartilhada por diversos meios de comunicação, e, mais especificamente,
por meio da internet, ela auxiliou a gerar um espaço virtual de
compartilhamento de conteúdos diversos: o ciberespaço que, por sua vez,
gerou uma cibercultura. Tudo isso trouxe várias consequências à sociedade
e, mais especificamente, à educação.

Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas 19


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