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VI PUBLICAÇÃO

JULHO
2013
S E M E S T R A L

CASOS
&
CASOS VI
CASOS
&
CASOS
VI PUBLICAÇÃO

JULHO
2013
S E M E S T R A L

É com todo o gosto que lhe apresentamos a escrever-lhe estes casos de pura
a 5ª Edição da Revista Casos&Casos humanidade.
da Oficina de Psicologia. Mantivemos
o formato trimestral e procurámos, As características sócio-demográficas
novamente, atender às expetativas dos de cada caso foram cuidadosamente
nossos leitores com a maior edição de alterados para que não fosse possível
sempre. identificar pessoas.

Nela encontrará diversos e variados É expressamente proibida a cópia ou


casos clínicos por alguns dos nossos publicação não autorizada da totalidade
terapeutas, incluindo as suas formas ou partes desta publicação, integralmente
de olhar para cada problemática, redigida por elementos da Oficina de
ferramentas para as trabalhar e reflexões Psicologia, e apenas existente em
que procuram transmitir-lhe um pouco formato digital, de distribuição exclusiva
do que sentimos dentro de uma sala de pela Mindkiddo – Oficina de Psicologia,
psicoterapia. Procuramos assim levar- Lda. A sua reprodução não autorizada
lhe a integração de abordagens teóricas seria, acima de tudo, uma profunda falta
e que é adaptada às necessidades de de respeito para com o enorme esforço
cada cliente como mais valia no sucesso de toda uma equipa cujo único objetivo
da intervenção clínica. é fazer chegar até si o que de melhor a
Psicologia Clínica tem para lhe oferecer.

Enquanto Oficina de Psicologia, é


nossa intenção continuar a informar e
esclarecer leigos e profissionais sobre
a saúde mental e assim contribuir
para prevenção e tratamento das mais
variadas dificuldades psicológicas. Para
o conseguirmos, procuramos usar uma
linguagem que satisfaça todos os nossos
leitores com o rigor e a paixão da Oficina
de Psicologia.

O trabalho clínico é sempre uma viagem


única, onde terapeuta e cliente enfrentam
mares, muitas vezes, agitados com o intuito
de se atingir o bem-estar e a satisfação
diária e plena. E é essa riqueza de termos
chegado a bom porto que nos motiva
CASOS
VI 04.
&
CASOS
14.

“Não desapareçam “A Vânia do


outra vez de repente” Malmequer”

André Viegas Joana Fojo Ferreira

06. 16.

“Tiago e o despertar “A procura inglória


de um sono profundo” da certeza: um caso
de POC”

António Norton Luís Gonçalves

08. 18.

“Nuno - o homem “Hipnoparto”


que se tornou no
que quis ser”

Fabiana Andrade Susanne França

10. 20.

“Antigas Modernices” “Quando uma depressão


separa/aproxima uma
família”

Gustavo Pedrosa Vanessa Damásio

12. 22.

“Vencer os esquisitos - “Caso bullying: um


Um caso de perturbação icebergue do qual
obsessiva-compulsiva apenas se vê o
na infância” cume”
Inês Afonso Marques Vera Lisa Barroso

12. 22.

“Um presente “Sarar as feridas, um


chamado passado” trabalho em artesanato
de emoções”

Joana Florindo Vera Martins


04. Síntese Textos introdutórios dos casos individuais

04. “Não desapareçam outra vez de repente“


As páginas deste artigo pretendem apresentar uma intervenção psicoterapêutica num caso de procura de
prazer sexual. Apesar desta queixa poder estar, aparentemente, circunscrita do ponto de vista de diagnóstico,
o terapeuta demonstra habilmente uma teia complexa de perturbação de humor, dificuldades relacionais e
de expressão emocional. Assim, dá-se a conhecer um caso de disfunção sexual que apresenta
uma formulação mais ampla baseada na internalização de esquemas relacionais inconstantes e
de insegurança.

André Viegas

06. “Tiago e o despertar de um sono profundo “


Neste artigo, apresenta-se a história clínica de Tiago. Um homem de 50 anos, casado e pai de dois filhos
que se queixa de forte ansiedade, insónias graves e problemas conjugais. Aos poucos, o terapeuta vai tra-
balhando com Tiago no sentido de lhe providenciar maior estabilidade e regulação do sono. À medida que
vai aprendendo novas formas de relaxar, Tiago começa a compreender o sentido de toda a sua angústia
e a história que o conduziu ao conflito com a sua mulher. A organização de toda a informação ao longo do
processo permite a Tiago aceder a novas formas de estar consigo próprio, com a sua mulher e, para seu
descanso, com o seu próprio sono...

António Norton

08. “Nuno - o homem que se tornou no que quis ser”


Esta é a história do Nuno. O homem que não sabia quem era, nem quem queria ser. É uma história que
revela a(s) capacidade(s) de auto-realização e auto-regulação de um homem que depois de desbloquear
os seus processos inacabados e críticos, pôde finalmente viver como uma pessoa mais conectada com os
seus potenciais, com a sua criatividade, generosidade e inteligência. Este artigo pretende que os leitores
possam encontrar no caso do Nuno, um espelho positivo para os seus próprios percursos, abrindo assim o
caminho para novas descobertas e mudanças pessoais.

Fabiana Andrade

10. “Antigas Modernices“


Esta é a história de um casal que procura a terapia para melhorar a sua relação, acreditando que a comuni-
cação entre si é a chave. Perante uma herança familiar que se torna clara ao longo do processo, o terapeuta
experiencia o desafio de colocar este casal em contacto com alguns mitos familiares. As mudanças no
processo basearam-se na necessidade de compreensão dos novos papéis e das culturas familiares a
montante, na diferença de poderes entre homem e mulher, assim como, na validação das necessidades
individuais integradas no sistema familiar.

Gustavo Pedrosa

12. “Vencer os esquisitos - Um caso de perturbação obsessiva-compulsiva”na infância”


Este artigo conta a história de uma menina, Leonor de 9 anos, cheia de coragem, mas com muitos receios
e questões sobre os seus estranhos pensamentos e os comportamentos que estes a “obrigam” a fazer. Em
conjunto com a terapeuta, atendendo às necessidades da Leonor, inicia-se uma batalha: nós (Leonor na
linha da frente, pais e terapeuta ao seu lado) contra eles (uns tais de pensamentos “esquisitos”)... O que
lhe propomos é uma viagem pelo processo terapêutico de uma criança que em conjunto com a sua família
ganha mais conhecimento sobre si própria, aprende a importância das tarefas terapêuticas fora das sessões
e, finalmente, aprende a lidar com a perturbação obsessiva-compulsiva diminuindo o impacto desta na sua vida.

Inês Afonso Marques

12. “Um presente chamado passado”


Este artigo traduz alguns dos aspetos mais relevantes do acompanhamento psicoterapêutico da Mariana. A
sua queixa principal está relacionada com graves dificuldades em ter relações sexuais com o seu namorado,
e este é o móbil para a descoberta de todo o passado traumático que era reprimido através da supressão
sexual. Uma jovem a quem a vida exigiu um crescimento demasiado rápido, e que se vê atualmente enredada
nas teias de um passado indesejavelmente presente. Confrontando-se com a sua própria história, Mariana
reivindica a sua integração, de forma a conseguir libertar-se e reclamar o seu direito a uma sexualidade
livre e satisfatória.

Joana Florindo
Textos introdutórios dos casos individuais Síntese 05.

14. “A Vânia do Malmequer”


Este é o caso de Vânia que surge em terapia no seguimento de instabilidade sentida no seu namoro, uma relação de ano
e meio, que corria bem até o namorado ter descoberto que no início da relação a Vânia esteve envolvida com outro rapaz.
O namorado não consegue aceitar este envolvimento passado, teme que se repita, e os dois entram numa
espiral de inconsistência na relação. Vânia fica perdida e angustiada, por um lado quer manter a relação
com o namorado, que ama, por outro está a ser muito difícil lidar com esta inconsistência. Ao longo de todo
o processo a terapeuta ajuda Vânia a caminhar num sentido de maior afirmação de si, promovendo desta
forma uma clara melhoria na sua relação.
Joana Fojo Ferreira

16. “A procura inglória da certeza: um caso de POC”


Este artigo pretende ilustrar os principais passos do processo psicoterapêutico com Margarida, uma mulher que
sofre de perturbação obsessiva-compulsiva (POC). Através deste caso, ficamos com uma clara percepção
das dificuldades que o terapeuta e cliente atravessam e a importância da relação conjugal de Margarida
nos seus avanços e recuos ao longo do processo. Assistimos a uma descrição clara dos métodos e estratégias
de intervenção na POC. A partilha do diagnóstico, o trabalho psicoeducativo e a prática de exercícios de
índole cognitivo-comportamental e de Mindfulness foram alicerces de toda a intervenção e essenciais para
activar trabalho que reforçou novas referências de afecto e aceitação em Margarida.

Luís Gonçalves

18. “Hipnoparto”
Quando a terapia tem como objetivo testemunhar e participar no processo de preparação para o nascimento
de uma nova vida, as sessões ganham um sabor inigualável e único. Ágata, uma mulher grávida de 37 anos,
procurou na hipnoterapia o apoio para o parto da sua primeira filha. A terapia focou-se primordialmente na prática
de técnicas de relaxamento, na terapia sugestiva por hipnose para controlo da dor, na encenação das 3
fases do trabalho de parto, no reforço da confiança e controlo, e na projeção para um futuro desconhecido
e altamente desafiador.

Susanne França

20. “Quando uma depressão separa/aproxima uma família”


O caso apresentado ilustra uma intervenção familiar para abordar um caso de depressão expresso através
da dependência e luto presentes numa família de duas irmãs. O motivo da consulta é a vivência de depressão
grave por parte da Carla, de 51 anos. No diálogo entre irmãs, a terapeuta promove uma reflexão sobre as
emoções e pensamentos envolvidos nas perdas dolorosas que ambas tiveram aquando da morte dos pais.
Ao longo do processo: solidão, dependência, perda, papéis e sistema familiar tornam-se palavras-chave
e passam a ter novos significados e representações para as duas irmãs e em especial para Carla, que
compreende melhor o seu papel e a forma como as depressões estavam intimamente ligadas à dinâmica
familiar.
Vanessa Damásio

22. “Caso bullying: um icebergue do qual apenas se vê o cume“


Esta é uma intervenção psicoterapêutica com um adolescente de 13 anos que vivenciou situações de violência
escolar e tornou-se extremamente inseguro no estabelecimento de relações interpessoais, fechando-se
sobre si mesmo. Encontrará neste artigo comovente, um alerta importante para pais e educadores sobre
a importância do conhecimento, tratamento e até mesmo prevenção do bullying que se constitui um cada
vez maior desafio nas escolas.

Vera Lisa Barroso

22. ”Sarar as feridas, um trabalho em artesanato de emoções”


Neste caso, observamos uma mulher cuja vida afetiva se encontra perturbada desde a sua infância, com
visões de si própria muito negativas e uma expressão limitada das suas necessidades, que se traduz em
dores corporais frequentes. Todo o trabalho terapêutico é aqui centrado na redução dos sintomas ansiosos
de Sara, na diminuição das suas dores e na melhoria geral da sua vida. Apesar da cliente exibir uma clara
fragilidade, a terapeuta vai reconhecendo nela recursos e forças que a ajudarão a vencer...

Vera Martins
06. Gustavo Pedrosa Antigas Modernices

Caso IV - Antigas Modernices


Resumo Introdução existente era pouco consistente
com as capacidades intelectuais
Todos os sistemas têm demonstradas pelos membros do
por base uma história, um A intervenção em sistemas
sistema anterior, de onde diferenciados tem muitas vezes subsistema parental. A principal
herdam comportamentos, escondidos alguns segredos queixa passava pela comunicação,
culturas e papeis. Na
culturais sistémicos que, por muito que foi considerada deficitária
criação de uma novo desde o início da relação, há
sistema familiar, subsistem que os clientes e terapeutas se
esforcem conscientemente para cerca de 23 anos, presentemente
algumas marcas que não
se conseguem apagar, não os admitir ou lhes dar relevo, marcada por uma grande
e que inquinam toda a acabam por surgir quando menos tensão e pressão, que resultava
comunicação.
são esperados. Neste caso em numa aumentada e disfuncional
particular, por muito que os papeis ansiedade, sentida especialmente
Quando existe mudança de pela mãe. Foram estas as queixas
papéis sociais e familiares, de casal se fundam com os de pais
especialmente quando esta em perfeita harmonia e coesão principais, demonstrando-se pouco
não é esperada, submergem de subsistemas, por muito que a consistentes com a narrativa da
comportamentos e receios
história contada seja tão igualitária história familiar e do seu quotidiano.
antigos, perante a diferença O processo de afastamento e conflito
e a novidade; surgem as e exemplo de uma família moderna,
não deixam de persistir os papeis durava há cerca de 5 anos, mas foi
dificuldades na mudança.
Neste caso, houve de géneros que subsistem desde a relatado como sendo um processo
necessidade de trabalhar formação dos indivíduos enquanto de degradação progressiva da
sobre os mitos, repensar
elemento integrado num sistema relação.
o subsistema de casal
e perceber os ganhos sobrecarregado de, no mínimo,
duas culturas claramente distintas. Neste sistema, os pais são altamente
que cada elemento tem
perante a sua ocupação e, qualificados a nível profissional, dife-
consequentemente refazer renciados, educados e participa-
as referências culturais no tivos nas mais diversas tarefas de
presente sistema familiar. educação e ocupação dos filhos,
Formulação do Caso com uma educação e cultura familiar
baseadas na transparência e na par-
A família G. é composta por 4 tilha de tarefas e responsabilidades.
elementos de duas gerações,
Palavras-chave formada pelos pais e por um idílico Não foi identificada a presença de
Mitos; casal de filhos, descritos como bons segredos familiares, embora fosse
Cultura; alunos e exemplares na sua relação admitida a existência de algum ciúme
Papéis familiares; com os ascendentes, existindo do marido perante as relações de
Rendimentos. regras e fronteiras definidas e amizade da mulher, principalmente
respeitadas por todo o sistema. com os antigos amigos.

Quando o pedido de terapia de No início do processo de intervenção


casal surgiu, a comunicação era trabalhou-se a diminuição da
contaminada pela confusão entre tensão verificada na comunicação,
queixas, problemas e pedido. permitindo clarificar alguns
A queixa sempre se mostrou processos anteriores que estavam
pouco concreta, e o pedido pouco esclarecidos (de onde

Gustavo Pedrosa

Psicólogo Clínico | Terapeuta conjugal / familiar


Antigas Modernices Gustavo Pedrosa 07.

Caso IV - Antigas Modernices


surgiam a maioria das situações de para cuidar e ocupar-se dos
ciúme), incrementar a verbalização filhos, sentindo uma subjugação
de ambos fora das situações de perante o papel de sustentação
tensão e tornar a narrativa mais fluida económica familiar que estava a
e fácil de ser aceite pelo sistema ser desempenhada pela mulher.
familiar. Mesmo com fantásticos Tendo em conta que o papel
progressos, o sistema sempre masculino verificado na geração
apresentou reticências relativamente anterior estava muito ligado ao
ao processo e aos seus resultados e poder e à decisão, e a consequente
progressos. Conseguiu-se que este subjugação do papel feminino,
verificasse e validasse as melhorias estava perante uma situação de
significativas na comunicação contradição cultural.
e na vivência familiares, que se
apresentavam muito mais facilitadas, A mulher, por sua vez, devido
mas sempre apresentou reservas ao maior poder económico e à
quanto ao trabalho e evolução que ocupação laboral mais intensa,
realmente estavam a realizar e a procurou um estilo de vida
sentir. diferente, mais desapegado
das obrigações familiares e
Apenas ao cabo de 8 sessões, ligado aos prazeres imediatos,
em situação de conflito devido apelidado pelo marido como uma
à marcação de um período de vivência estilo “Sexo e a Cidade”.
férias, situação sempre envolta em Esta vivência, que transmite a
grande ansiedade e conflito, como ideia de mulheres de sucesso e
noutras situações de lazer em que independentes, a aproveitar tudo o
participava todo o sistema familiar, se que a vida tem de bom em termos
verificou a presença de um primeiro de consumo, viagens e ocupação
mito familiar: os honorários de cada de lazer, era visto como libertador
um dos elementos do casal. de todo o stresse laboral e familiar
acumulado, sendo visto pelo lado
Assim, mesmo tendo em conta a do marido como um processo
elevada posição na hierarquia da de fantasia e de afastamento e
empresa, o marido estava desde há desligar dos papéis familiares, que
anos estagnado na progressão de até então tinham sido construídos
carreira, devido à menor dimensão e seguidos.
da empresara onde está empregado.
No entanto, a mulher estava desde A família de origem, no caso
há anos num ascendente de carreira, da mulher, estava muito mais
em que as responsabilidades e as acostumada aos papéis com
regalias tinham vindo a aumentar maior poder de escolha e maior
gradualmente, que lhe permitia preponderância na tomada de
ultrapassar os honorários do marido decisões familiares serem tomados
numa percentagem significativa. pelos membros femininos, tendo-se
criado assim um historial antagónico
Com toda esta diferença, surgiu no ao da família de origem do marido.
marido a sensação de impotência
e perda de liderança do sistema. A compreensão destes mitos e
Sentia que o seu papel de “líder tabus, relacionados com a maior
familiar” estava mais condicionado transparência e facilidade da
devido à sua maior disponibilidade comunicação, levou o casal a
08. Gustavo Pedrosa Antigas Modernices

Caso IV - Antigas Modernices


conseguir um maior consenso Após abordarmos os temas “tabu”,
na sua relação, nos seus papéis surgiu de novo a necessidade
familiares. O facto de estas “barreiras” de contenção da tensão na
desaparecerem acabou por servir comunicação, bem como a tentativa
também de rampa de lançamento de mediação das acusações
ao pedido tangente da mulher: a e potenciar a compreensão da
separação. De facto, emergiu uma mudança dos paradigmas nos
completa desmotivação em manter papéis familiares.
a relação.
O permanente questionamento
Após este processo, continuam a sobre a evolução e o processo
tentar descobrir quais os limites de terapêutico foi uma grande barreira
cada um neste novo processo de na intervenção, apenas amenizado
convivência familiar. Houve uma quando as estratégias propostas
renegociação dos papéis e uma começaram a ser aceites e postas
alteração da posição de cada um no em prática, resultando numa maior
sistema familiar. Necessariamente abertura para a comunicação mais
foi imposta uma clarificação clara e eficaz.
das necessidades individuais
e familiares, uma valorização Após este processo, surgiu, por
de todos os seus elementos e a parte da mulher, a desmotivação
criação de novas regras. para continuar o processo e o
consequente pedido “escondido”
A família vive agora um período de de separação. Este último ponto
complexa negociação e aceitação foi particularmente mal aceite pelo
dos limites, das responsabilidades marido, que se disse “enganado”,
e das tarefas relacionadas com os depois de ter empenhado tan-
subsistemas e com o sistema familiar. tos esforços para que a relação
tivesse melhorado.

Desenvolvimento do b) Destaque aos mecanismos de


Processo Terapêutico mudança essenciais

As mudanças basearam-se na ne-


a) Interação Clínica cessidade de compreensão dos
novos papéis e das culturas famili-
A interação clínica, como descrito ares a montante, na diferença da
anteriormente, foi inicialmente nova comunicação e na validação
complexa. A existência de mitos e das necessidades individuais inte-
tabus, relacionados com o papel gradas no sistema familiar.
familiar que culturalmente foi
estipulado pelas famílias de origem,
levou a uma comunicação restrita c) Sessões de mudança/rutura
e pouco clara. Para conseguir
clarificar esses mesmos temas, Nas sessões iniciais houve uma
houve necessidade de abordar mudança importante, que trouxe
temas menos prementes e assuntos uma comunicação muito diferente,
relativos às famílias de origem. criando simultaneamente uma
Antigas Modernices Gustavo Pedrosa 09.

Caso IV - Antigas Modernices


sensação de grande tensão e an- importância dos papéis familiares.
siedade durante a sessão, mas
que era seguida de alívio e com- Neste caso, houve necessidade
preensão durante a vivência familiar de trabalhar sobre a comunicação
e de casal. e os mitos familiares, de forma
a surgir a real problemática: a
No entanto, a grande mudança vontade de quebrar a relação. Foi
surgiu quando o sistema admitiu necessário repensar os papéis
a existência de segredos e temas individuais no sistema e no
tabu (os honorários e a vontade de subsistema, e perceber os ganhos
separação), e permitiu trabalhar que cada elemento tem perante
sobre os mesmos. a sua ocupação, a sua posição e
função no sistema familiar.
A mudança foi posta em prática,
de forma a alterar todo o processo Consequentemente houve que
de comunicação e aceitação. refazer as referências culturais
no sistema presente, para que
a mudança se mantenha e a
d) Outras considerações homogenia pretendida seja atingida.

Desde o início do processo, ambos


eram coniventes com o tabu, não a) Reações do Terapeuta
deixando sinais ou pistas sobre
os temas que infligiam mal-estar Perante a reação do casal em
no sistema. Todas as declarações “pedir” um resultado diferente,
relativas ao trabalho e aos papéis além dos ganhos notórios da
familiares eram cuidadosamente sua comunicação e convivência
ensaiadas e pensadas, revelando-se sistémica, senti necessidade
extremamente complicado trabalhar de abordar os temas que eram
com um casal que tem tanto narrados de forma demasiado
de diferenciado, quanto de protecionista e elaborados de
culturalmente marcado pelas famílias forma cuidadosa. Foi uma decisão
de origem e anteriores vivências. ponderada e que, numa primeira
fase, naturalmente, não foi bem
aceite pelo sistema.

Conclusões No entanto, era um foco de tensão


e, naturalmente, acabou por
Todos os sistemas têm por surgir numa troca de argumentos
base um sistema anterior, de e explicações, marcada pela
onde herdam culturas e papeis, agressividade verbal mais difícil
vivências e histórias, mesmo de conter, durante as sessões em
quando os seus elementos tentam que debatíamos temáticas mais
ser muito diferentes dos sistemas sensíveis ao casal.
precedentes. Podem tentar criar
um novo paradigma, criando uma No final, o facto de surgir,
nova vivência, mas subsistem os finalmente, o pedido latente de
receios perante a diferença e a um dos membros do sistema,
novidade; surgem as dificuldades revelou um novo rumo, dando
na mudança, especialmente na
10. Gustavo Pedrosa Antigas Modernices

Caso IV - Antigas Modernices


Bibliografia início a uma terapia praticamente o pedido de separação ou a falta
nova. de motivação para a continuidade
Correa, O. (2003). Trans- da relação (interesses comuns) se
missão psíquica entre ge-
rações. Psicologia USP (v. identificam como contra-indicações
14, n. 3): 35-45, São Paulo.b) Integração de aspetos de mu- para a terapia de casal. Mas, e
dança e sua ligação ao referencial se o pedido surge já quando o
Gameiro, J. (2002). Terapia teórico processo terapêutico está muito
de Casal. Psychologica avançado?
(31): 43-48.
No decorrer do processo
Gameiro, J. (2007). Entre terapêutico, através da investigação Fará sentido abandonar o processo
marido e mulher: Terapia da história familiar, podem ser de reequilibro sistémico quando
de Casal. Lisboa: Trilhos revelados os segredos familiares, existem crises resultantes de
Editora. que podem pertencer a um membro segredos familiares que passam a
Mason, J. (1989). Facing da família; ou compartilhados com integrar a narrativa familiar?
Shame: Families in outros (Pincus e Dare, 1981). Os
Recovery. New York: W. W. segredos familiares, quando não são Foi a mudança que revelou uma
Norton & Company. elaborados, podem transformar-se “nova terapia”, um novo objetivo,
em tabus, tornando a dinâmica surgido a partir do momento em
Pincus, L.; Dare, C. (1981).
Psicodinâmica da Família. familiar rígida (Correa, 2003). que há um pedido diferente, mas
Porto Alegre: Artes Médicas. sempre integrada num processo
Segundo Mason (1989), estes muito complexo e impossível de
tabus culturais envolvem dinheiro, separar das temáticas abordadas
sexo e doença, protegendo algo, nas sessões anteriores.
mantendo-o invisível aos outros.
Neste caso, esta herança invisível
leva a uma negação de sentimentos,
especialmente os negativos ou
vulneráveis, como ansiedade (no
caso da mulher) e rejeição (da
parte do marido). A necessidade
de perfeição por parte do marido,
de fazer sempre o que está “certo”,
não chegou para que este se
sentisse valorizado o suficiente, e
que ultrapassasse o estigma de ser
inferiorizado pelo poder económico
dela.

Esta mudança no sistema, criada


pelo emergir do segredo, levou
ao novo objetivo da terapia nas
últimas sessões – a separação – e
leva-nos a ponderar se realmente
este é um objetivo que não pode
ser trabalhado em terapia de casal.
Certamente poderá ser trabalhado
numa perspetiva sistémica, mas o
modelo de terapia de casal de José
Gameiro (2002, 2007) sugere que
CASOS
&
CASOS
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JULHO
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