Você está na página 1de 29

EDUARDO MASCARENHAS

ALCOOLISMO,
DROGAS
&
Grupos Anônimos
de Mútua Ajuda

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS
NARCÓTICOS ANÔNIMOS
OUTROS

1993
O PSICANALISTA DO POVO
O psicanalista Eduardo Mascarenhas
você já conhece. É uma das inteligências mais
consagradas do País. E possui uma
característica que o diferencia de tantos: ele
é gente como a gente e fala de igual para
igual, sem tira r uma de sábio ou de doutor.
Não é à-toa que é chamado de "psicanalista
do povo". É emocionante vê-lo na televisão,
ouvi-lo no rádio e ler sua coluna do jornal
O Di$. Ele já revolucionou a psicanálise e
agora deseja revolucionar os Serviços
Públicos de Saúde por meio de sua proposta
de abri-los aos Grupos Anônim os de Mútua
Ajuda, como única maneira de enfrentar o
alcoolismo, as toxicom anias e as doenças de
fundo emocional. Desde o início dos anos 80
já proferiu mais de 400 palestras sobre o tema
dentro e fora dos Alcoólicos Anônim os, dos
Narcóticos A nônim os e dos Neuróticos
Anônim os; fez mais de 400 programas de
rádio etelevisão, escreveu centenas de artigos
para revistas e jornais, sempre deixando bem
claro que não se trata de ser contra o álcool
ou os prazeres da vida e sim a favor da
recuperação dos dependentes químicos. Este
Iivreto corresponde a uma revisão de uma
série de artigos escritos por Mascarenhas em
1993 para o jornal Ú ltim a Hora onde, nessa
época, era colunista. Desses artigos nasceu
a idéia de escrever um livro A lcoolism o,
Drogas & Grupos A nônim os de M útua Ajuda,
que já ocupa um lugar entre os livros mais
vendidos no País, e foi editado pela Editora
Siciliano.

3

IN T R O D U Ç Ã O Alguns estarão pendurados em andaimes,


descompassadamente balançando para um lado
Brasil, dom ingo, IO h o ra sd a m anhã. M uitos já enquanto o andaime balança para o outro. Muitos
acordaram, mas muitos vão dormir até tarde, até estarão zonzos e desconcentrados lidando com
porque beberam demais durante a noite e vão serras elétricas, chaves de alta tensão, pilotando
destilar mais uma ressaca na cama. aviões, dirigindo veículos em ruas cheias de outras
Faz sol. Indo para a praia uns já pararam no pessoas, muitas das quais igualmente bêbadas.
boteco “só pra uma cervejinha'’ e lá ficaram. Um Sabemos que trinta a quarenta por cento dos
tanto envergonhadamente já passaram da cerveja acidentes de trabalho têm como causa o
para o conhaque ou mais diretamente para a alcoolismo.
cachacinha. Fizeram careta ao engolir, emitiram O alcoolismo é também responsável por reduzir
sons guturais mas, mesmo assim, pediram uma em 30% a produtividade do trabalhador. É
nova dose. Na praia, vários se deliciam com uma responsável também por um número bastante
cervejinha bem gelada. expressivo de faltas imotivadas ao trabalho, o
O dia mal começou mas o número de chamado absentrismo e por aposentadorias
brasileiros alcoolizados já ultrapassa o primeiro precoces.
milhão. E cada hora que passar mais um novo
milhão se somará a esse primeiro. No fim do dia O alcoolismo não só é a principal causa dos
serão 10 milhões e, antes da noite acabar, no auge acidentes de trabalho, como das consultas médicas
etílico do domingo, os bêbados serão em tomo de no INAMPS. Boa parte das internações e
12 a 15 milhões! reintemações psiquiátricas é constituída por
Cem estádios do Maracanã lotados, duas vezes alcoólatras.
a população do Grande Rio, duas vezes a De acordo com o sanitarista Ernani Luz Jr., de
população da cidade de São Paulo. Imaginem que Porto Alegre, de acordo com uma pesquisa levada
quadro feríamos se pudéssemos reuni-los em um a cabo em 319 estatais espalhadas pelo país, 23,5%
único lugar. dos funcionários apresentam problemas com Oi
O pior é que o álcool, para um grande número álcool.
de bebedores, altera a personalidade, geralmente Este grave problema social é também
no sentido de uma maior agressividade. responsável pela desagregação de famílias e, se
Assim, neste domingo, amigos e familiares uma parte dos mendigos de nossas cidades é
serão destratados durante o almoço, esposas e composta por retirantes e desempregados, outra é
filhos serão ofendidos e muitos até mesmo constituída por pessoas falidas ou enlouquecidas
espancados. Sabe-se que boa parte dos pelo álcool.
espancamentos e estupros acontecem sob o efeito
do álcool. Homicídios, assaltos e crimes passionais Não é à toa que a Organização Mundial dc
se sucederão. Suicídios também, já que ele é 50 Saúde considera o alcoolismo a terceira doença
vezes mais freqüente em alcoólatras na ativa do que mais mata no mundo.
que no resto da população. Esta publicação representa uma tentativa de
É inegável a sólida conexão entre alcoolismo, esclarecimento sobre o alcoolismo e como
cidade grande e violência urbana. combatê-lo. Paralelamente ao alcoolismo e muitas
Excessos de Fms de semana? Infelizmente, não. vezes se cruzando com ele existe também o
É claro que nos sábados, domingos e feriados o crescente problema com as drogas, que promete
número de bêbados cresce. Mas o pior é que tornar-se, junto com a AIDS e o Alcoolismo, um
segunda-feira a grande bebedeira nacional vai dos problemas de saúde pública mais importantes
continuar. Não serão. 15 milhões de bêbados — é do planeta.
verdade — mas serão 10 milhões! E nos dias
seguintes também, em proporções crescentes, até MAIO DE 1993
chegar aos picos da embriaguez dos Fms de
semana.
Acreditem se quiser: a partir de amanhã e As estatísticas citadas foram recoUiidas do
durante toda a semana, existirão entre 10 e 12 Projeto Dial do Ministério da Previdência e
milhões de trabalhadores bêbados espalhados do Assistência Social e da Organização Pan
Oiapoque ao Chuí! Americana de Saúde
5
om grande curiosidade, aguardei a Reconheceu, também, naquela palestra, a

C anunciada vinda do Dr. Eduardo


M ascarenhas para assistir a uma reunião de
Alcoólicos Anônimos, em meu grupo.
existência de uma tênue e sutil linha divisória que
separa as áreas de atuação da Medicina e dos
Alcoólicos Anônimos no tratamento do
alcoolismo.
Eu sou um alcoólatra há algum tempo fazendo E, colocando-se rigorosamente dentro de sua
o programa sugerido por Alcoólicos Anônimos
área de especialização, usando seu talento e sua
para me m anter distante do álcool.
vivência, com o suave tempero de seus
É necessário dizer que, antes de vir para ο A.A., sentimentos, escreveu os magníficos artigos
já havia tentado de m uitas formas controlar a publicados em sua coluna de "Ú ltim a H o ra” , que
minha bebida. Entre outras, busquei o auxílio da estão reunidos e revistos nesta publicação.
psicanálise Ih d o que adquiri com isto foi apenas Dentro da filosofia da irm andade de Alcoólicos
uma consciência m aior de quão problemática era a Anônimos ninguém fala pela obra, mas sinto a
rfílnha m ente E continuei a beber — muito — e satisfação de dizer, em meu nome, na certeza de
cada vez mais. Ficou evidente para mim que eu que serei endossado pelos membros de nossa
não conseguia responsabilizar meus traumas pela irmandade, que os artigos do D r Eduardo
minha bebida. E a decadência continuou, já que, Mascarenhas primam, acima de tudo, pela
como vim a saber mais tarde, o alcoolismo é um a sobriedade, traduzindo um testemunho intenso
doença, além de incurável, progressiva. Assim é daquilo que lhe foi dado conhecer em A.A.
que só após m uita desventura e tangido pelo O conteúdo de seus artigos dizem isto de forma
sofrimento, foi que resolví procurar o A.A, em clara e revelam que seu convencimento, de que só
desespero, em bora sem esperança. o A.A. pode apresentar a resposta ao problema
do alcoolismo, longe de ser um convencimento
Não cabe, nesta oportunidade, dizer mais sobre entusiasta é a consequência de uma evidência, que
o que ocorreu, além de que não mais bebi e vivo não poderia ser recusada pela sua sensibilidade
uma nova vida feliz, sem a bebida.
Mais uma vez, embora não falando pelo A.A.
Restou, contudo, da fase mais amarga de como um todo, sinto-me na responsabilidade de
minha vida, do meu “ fundo de poço” , uma agradecer ao Dr. Eduaido Mascarenlias pelo seu
revolta generalizada contra todos os profissionais comportamento sem preconceitos diante do nosso
de saúde com quem fui buscar ajuda e que não me programa, bem como pela coragem de expressar na
disseram a verdade sobre a minha doença, antes imprensa as suas percepções, correndo o risco de
acenando um a oportunidade de, em conhecendo desagradar até os honestos e bem-intencionados
as causas motivadoras, poder beber sem cientistas que persistem em utilizar diferentes
problemas. terapias de recuperação de alcoólatras.
A estes, desejo amplo sucesso, pois a posição
Esta Ioi a razão da minha curiosidade sobre a dos Alcoólicos Anônimos a respeito está exposta
visita do Dr. Mascarenhas ao meu grupo. no livreto "Alcoólicos Anônimos, o A.A. não se
Mas o que m e foi dado ver foi essa conhecida e diz como a única forma de deter o alcoolismo,
ilustre figura do psicanalista, humildemente, deixando aos outros o julgamento sobre a
querendo aprender a razão do sucesso dos eficiência do programa de A .A .” (Tãl eficiência é
Alcoólicos Anônim os na recuperação de hoje reconhecida internacionalmente E, em nosso
alcoólatras. A tal ponto que, antes de mais nada, país, de forma bastante patente, pelo programa
teve a preocupação de nos conhecer. De conhecer a PREAA do DINSAN, em implantação em todo o
nossa literatura básica que enfeixa as sugestões de Território Nacional).
nosso programa. Estudou-a. Fez, posteriormente, Ao Dr. Eduardo Mascarenhas, o meu mais
em nosso grupo, um a palestra quando, com sincero reconhecimento. Como A .A., sei avaliar a
humildade, disse ter tido oportunidade de se importância para cada um de nós, alcoólatras, da
conhecer como estamos certos, ao dizer que não divulgação de nossa mensagem. E, quando a nossa
são os problemas que levam ao alcoolismo. Que o mensagem é transmitida de forma sóbria, como o
alcoolismo é um a doença de causas desconhecidas foi em seus artigos, estou certo de que os mesmos
— mas que ninguém se torna alcoólatra porque atrairão muitos que, como eu, ignoraram por
tem problemas. muito tempo a gravidade de sua doença.

6
uso ao álcool rem onta às épocas negros e am arelos, pobres e ricos. A tinge

O im em oriais. H á m ilênios e h u m a n id a d e
descobxju seu efeito liberador, euforizante
e dionisíaco. J á n as trib o s prim itivas, o álcool
participava d as festas e d o s rito s religiosos. O
indiscrim inadam ente pessoas d e todos os tipos
físicos e d e todo tipo de tem peram ento. G ordos e
m agros, altos e baixos, pessoas bem -sucedidas e
fracassadas, tím idos e extrovertidos, gulosos e
próprio cristianism o utiliza o vinho com o sím bolo frugais, personalidades alegres ou tristes, ativos ou
d o sangue d e Cristo. P ode-se dizer q u e não h á preguiçosos, angustiados ou tranqüilos, todos
com em oração h u m an a, pública ou p rivada, d e qué estão sujeitos à dependência ao álcool. O
algum a fo rm a de bebida n ão participe. alcoolism o n ão seleciona sua vítim a. A quele atleta
A té a í m uito bem . A fora os eternos m oralistas, d e ontem , que acordava com o nascer do sol e
sem pre dispostos a enxergar em tu d o q u an to for apresentava a m ais férrea força de vontade, p o d e
prazer algum a tram a d e S atanás, ou d e seus perfeitam ente tom ar-se o p a u -d ’água d e am anhã.
sucessores co ntem porâneos, qu e sem pre descobrem É discutível que o alcoolism o seja hereditário,
um je ito d e dizer q u e tu d o q u e é gostoso dá se bem q u e filhos de alcoólatras apresentam
câncer, to d o s hão d e convir q u e um pilequinho de possibilidades um pouco m aiores do q u e outros.
vez em q u an d o n ão h á d e fazer m al a ninguém e Será, porém , herança física ou herança de hábitos
a té dá um realce, u m brilho. psíquicos, assim ilados ao longo do convívio
Tanto é assim q u e H um phrey B ogart — ο familiar?
grande a to r norte-am erican o d e C asablanca — No m undo d os problem as m entais, esta
num a tirada d e hum or, chegou a dizer q u e o pergunta é sem pre de difícil resposta. H ouve
problem a d a h u m a n id a d e é qu e a n atureza fez o herança d e sangue, ou na realidade o que houve foi
h om em com d u a s doses a m enos. Q u er dizer, se no um a espécie de contágio psíquico com pletam ente
seu sangue corresse um a p itad a d e vinho, seria independente d e fatores genéticos de nascença?
m enos m al-hum orado, irritadiço e careta, e m uitos D e qualquer m aneira, as estatísticas pouco
d e seus problem as estariam resolvidos. significam. M uitos filhos de alcoólatras não se
N ão sei se H u m p h ery B ogart estava certo. Sei tornam alcoólatras e m uitos filhos d e não-
contudo, qu e u m g ran d e núm ero d e pessoas pensa alcoólatras se tornam alcoólatras.
com o ele, a p o n to d e corrigirem diariam ente, A lguns filhos de alcoólatras, a té com o defesa
através de drinques, essa suposta falha da aos horrores da infância, tornam -se avessos a
natureza. O problem a é q u e nesse afã d e colocar a qualquer tentação etílica.
vida em ordem , m ilhões d e pessoas com eçam com O alcoolism o deve assim ser definido com o
as duas doses, mas, com o p assar do tem po, não um a doença sem causa específica cientificam ente
param p o r aí. D aí a pouco esticam p ara três, conhecida. O fato é que cerca de 13% dos
espicham p ara q u atro e, q u an d o dão p o r si, já bebedores têm um a relação com o álcool diferente
estão com um a garrafa de gim debaixo d a cam a. dos 87 % restantes. Seu corpo e sua m ente parecem
reagir de m odo pernicioso. A esses 13% só se po d e
recom endar um a coisa: m antenham -se afastados
E discutível que o alcoolismo seja hereditário, se do copo. Acima de tu d o — com o não se cansam
bem que filhos de alcoólatras apresentam
de repetir os A lcoólicos A nônim os — evitem a
possibilidades um pouco maiores do que outros
prim eira d o se A prim eira dose é com o sangue
Será, porém, herança física ou herança de hábitos
lançado à água: o tubarão que navega nos seus
psíquicos, assimilados ao longo do convívio
m ares interiores enlouquece e ninguém segura m ais
familiar?
sua fissura enlouquecida. Não se esqueçam de que
a força de vontade é a prim eira que fica no pileque.
G rande p arte d a p o p u lação bebe e isso não Já na prim eira dose, está bêbado deixando a
aco n tece E ntra ano, sai ano e, espontaneam ente, personalidade exposta às m ais variadas
m antêm a m oderação. Esses bebedores, é óbvio, justificações, a desculpas m ais esfarrapadas, que
não têm com que se preocupar. Um b rin d e para nesse estado m ental, tom am -se super-razoáveis.
eles.
E ntretanto, com um a porcentagem
relativam ente alta (13% ), a m oderação d e hoje O alcoolismo, na esmagadora maioria de casos,
transform a-se no destem pero d e am anhã. deve ser considerado como uma doença incurável
C om eçam a b eber na adolescência, a seguir bebem
norm al e m o d erad am en te até os 30-35 anos. D aí É p io r do que cigarro para quem deixou de
p o r d ian te as doses vão au m en tan d o pelos m ais fum ar, do que doce para quem está d e dieta.
variados motivos. Q u an d o chegam à m eia-idade, Reiniciada a fissura, torna-se extrem am ente difícil
já e stã o ‘bebendo d esco n tro lad am en te e, adm itindo controlá-la. O m ais grave é q u e parece q u e surge
ou não, já são alcoólatras. um a espécie de forra p o r todas as doses não
As causas do alcoolism o são m isteriosas. O bebidas. Bebe-se o que se deixou de beber no
alcoolism o acom ete h o m en s e m ulheres, brancos, período sóbrio.
7
O alcoolism o não deve ser considerado um a om o estou escrevendo sobre esse tem a tão
fraqueza de caráter ou falta d e vergonha na cara,
se bem q ue possa gerar fraqueza de caráter e falta
de vergonha na cara. N ão confundam os, contudo,
causa com consequência. O alcoolism o deve ser
C im portante, o alcoolismo, não podería
deixar d e dizer algum a coisa sobre esta
organização de ex-bebedores, q u e existe há meio
século, encarregada de auxiliar alcoólatras na
considerado um a doença, da q u al o alcoólatra é “ ativa” a p a ra r de beber; e a ex-bebedores a não
um a vítim a. N inguém tom a-se alcoólatra porque voltar a beber: A.A., ou seja Alcoólicos
quer. Torna-se alcoólatra independentem ente de A nônim os.
seus sinceros esforços. O tratam ento do alcoolism o é difícil. Claro,
Além disto, o alcoolism o, na esm agadora internar um alcoólatra num hospital é fácil. A h ele
m aioria de casos, deve ser considerado com o um a ficará afastado da garrafa, se desintoxicará e se
doença incurável. Não no sentido de que um a vez recuperará das carências vitam ínicas e alim entares
alcoólatra, alcoólatra até morrer. M as incurável no que o alcoolism o costum a provocar. Porém , o
sentido de que o alcoólatra rarissim am ente problem a é: com o fazer um alcoólatra não voltar
conseguirá voltar a beb er com m oderação. Se a beber? A í reside a dificuldade do tratam ento.
conseguir passar un s tem pos sem beber, caso p o r O período hospitalar é relativam ente simples.
descuido retom e ao álcool, rapidam ente voltará a O problem a é o depois.
beber descontroladam ente Im pressionado pelo núm ero de recaídas de
D aí a recom endação suprem a daqueles que alcoólatras, um m áiico norte-am ericano, ele
entendem do assunto po rq u e o sentiram na própria próprio um alcoólatra que conseguira se m anter
carne — os alcoólatras q ue abandonaram o álcool: sóbrio, sem beber, bolou u m m étodo d e prevenção
evite a prim eira dose... d e recaídas.
P artiu do princípio de que ninguém entende
a ra r de beber é fácil, o difícil é não voltar a m ais d e alcoolism o do que quem já o sentiu na

P beber. própria c a rn e E foi congregando ex-bebedores até


fu n d ar um a organização hoje espalhada p o r todo
o m undo, os A lcoólicos A nônim os.

O problem a do tratam ento do alcoolism o O A A . seria uma soáedade secreta que se reúne em
é com plicado e nem sem pre bem-sucedido. subsolos escuros. Uma espécie de Ku-Klux-Klan
A prim eira p a rte do tratam ento consite, antialcoólica Não é nada disto.
obviamente, num a desintoxicação e num a
reposição de proteínas, vitam ina e sais minerais.
D ado o perigo de voltar a beber, essa p arte do Noto que as pessoas, de um m odo geral, já
tratam ento, se possível, deve ser feita em condições ouviram falar do A.A. M as não sabem exatam ente
hospitalares. do que se trata. Freqüentem ente possuem uma
Essa, contudo, é a parte mais fácil. O problem a visão negativa e preconceituosa, considerando-os,
é com o fazer o alcoólatra não voltar a beber. sei lá, um a sociedade secreta, de m oralistas
Com o disse, o alcoolism o, enquanto tendências místicos, um a espécie de seita religiosa contra tudo
a beber desbragadam ente, é incurável. Basta um a que for prazer, vida, poesia, liberdade, enfim , algo
dose e o alcoólatra q uase sem pre voltará a beber meio para o repressivo, o dep rim en te o lúgubre.
desbragadam ente, inclusive para tirar a barriga da Confesso que eu próprio tinha um a impressão
m iséria. P o r isto, é tão freqüente a reinternação meio desse tipo. O tal do “ não vi e não gostei” .
A s classes m ais intelectualizadas, então,
dos alcoólatras.
possuem um fraco preconceito. C onsideram o
Para se to m a r abstêm io e sóbrio, o alcoólatra
A.A. algo d e baixo nível, talvez dirigido po r
deve ser cercado d o s m aiores cuidados. Pode,
m ísticos aposentados da extrema direita, com
transitoriam ente e sob supervisão m édica, recorrer
crenças obscurantistas, daqueles q u e acham que
a certas drogas q u e criam u m h o rro r à bebida.
até o Papa é com unista e que é um a im oralidade
Porém isto é um quebra-galho, n ão é solução
a Missa não ser m ais rezada em latim. Ou então
definitiva.
o A.A . seria um a sociedade secreta q u e se reúne
P or esta razão, o alcoólatra deve fazer um a em subsolos escuros. Uma espécie de Ku-Klux-Klan
prolongada psicoterapia, p ara auxiliá-lo a resolver antialcoólica. Ou ainda um a instituição de
conflitos sem o auxílio do álcool. M inha caridade deprim ente, dirigida p o r um a ideologia
experiência, contudo, revela que até um a filantrópica igualm ente deprim ente N ão é nada
psicanálise p rofunda para m uitos casos é suficiente disto. Fui convidado p o r um de seus m em bros para
P o r isso, ex-bebedores inveterados, que conhecem um a reunião. Era um edifício comercial de
com o ninguém as dificuldades do não beber, se C opacabana, num conjunto de salas arejadas, sem
reuniram em associações de Alcoólicos A nônim os. qualquer clima de seita e de mistérios. A s salas
O auxílio é com pletam ente gratuito e realizado poderíam ser de um cursinho de vestibular. Não
por pessoas abnegadas e idealistas, sem credo havia ninguém encapuzado. Nem um sím bolo
religioso e político, en quanto m em bros do A.A.
8
esotérico nas paredes, nenhum clima místico, No A.A. não existem líderes e liderados e todos
nenhum aspecto lúgubre ou de pessoas metidas a são voluntários.
boas, caridosas ou filantrópicas. Fui recebido por No A.A. não existem dirigentes nem dirigidos
um dirigente (coloco o grifo porque, na realidade, (nem trabalho remunerado, exceto, é óbvio, o
não existem dirigentes). Um senhor simpático, trabalho de secretárias etc.). Cada A.A. é
jovial, de uns 50 anos de idade Uma pessoa completamente autônomo de outros A.A.
completamente normal, sem ser metida a virtuosa Todo trabalho é voluntário. Os mais experientes
e — pasmem — sem nenhum preconceito contra o e de maior devoção e liderança — é óbvio — terão
álcool ou os prazeres da vida. Não posso revelar participação mais ativa na Instituição. Thdo no
seu nome, dado o compromisso de anonimato que A.A. é voluntário. Inclusive parar de beber.
ele tem, enquanto membro do A.A. Comparece às reuniões quem quer e não há
Por que esse anonimato? Para evitar que certos qualquer moralismo com respeito ao álcool.
membros do A.A. tenham a tentação de se Ninguém será exortado a parar de beber e nem
celebrizar usando este título. Aliás, também — criticado por não parar de beber.
não era o seu caso, mas pode ser o de muitos — Thdo é gratuito. Quem quiser e puder fará
para não ser tornada pública sua condição de contribuições financeiras, as quais também serão
alcoólatra ou de ex-bebedor. sigilosas, para evitar honrarias e constrangimentos.
Mas, nada de fartura de grana, aplicações
financeiras, lucros e mordomias, nem auxílios
No A A . não existem líderes e liderados e todos são diretos a ninguém.
voluntários.
Thdo isto geraria muito mais problemas do que
benefícios. Dentro em pouco apareceríam
Esse compromisso de anonimato só diz respeito espertalhões faturando a grana que administram e
aos grandes canais de comunicação de massa. Em outros espertalhões, mais pobres, fingindo serem
comunicações pessoais, um membro do A.A. pode, alcoólatras, ou quererem parar de beber, só para
se assim o desejar, revelar para quem quiser esse faturarem algum. A única condição para ser
fato. Mas é obvio que, por razões éticas, não deve membro do A.A. é a condição sincera de parar de
revelar o nome de outros membros do A.A. A beber.
razão pela qual um membro do A.A. não deve usar
para se celebrizar não tem nada de moralista, esta visita a que me referi assistí a uma das
místico ou esotérico. A razão é simples. É
extretamente prática. É para evitar conflitos, ciúmes,
disputas indesejáveis entre membros do A.A. o que
desestabilizaria o clima radicalmente democrático e
N reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Para
surpresa minha, encontrei pessoas
absolutamente normais e diria, até, saudáveis, ■*
alegres e joviais. E olha que não era aquela alegria
sem hierarquia da Organização. Daqui a pouco, jovial de padre interessado em mostrar as
um membro do A.A. estaria utilizando seu maravilhas de sua fé. Não, eram uma alegria e uma
prestígio para se tornar político, fazer negócios ou jovialidade absolutamente normais. Gente como a
até anúncios de televisão. Isso subvertería o gente, conversando descontraidamente, prestando
espírito da Organização. Se algum membro quiser depoimentos despojados e sinceros, sem qualquer
ser político, fazer negócios ou anúncios de TV, sabor de proselitismo ou catequese.
tudo bem. Mas faça-o como cidadão e não como Alguns mais bem-vestidos, outros menos bem-
membro do A.A. Aliás, como cidadão, um membro vestidos, mas ninguém ostentando riqueza ou
do A.A. pode fazer o que quiser. Até ser um beberrão. ostentando pobreza. Eram, mais ou menos, umas
Disse que os A.A. são uma organização aberta vinte pessoas. Algumas delas, membros do A.A.
e democrática. Diria, até, moderna. Confesso que há mais tempo, com 5, 10 e 15 anos de vida sóbria,
a literatura que oferece tem um ranço um pouco sem recaída no álcool. Outras, com algumas
americano e antigo. Pudera, foi escrita por recaídas; outras, ainda, freqüentando as reuniões
americanos, há 50 anos. Fica aqui uma sugestão pela primeira vez, indecisas se iriam ou não
para os A.A.: sem trair suas tradições, que são permanecer.
importantes para a sobrevivência de qualquer À mesa, sentava-se uma senhora extremamente
instituição, poderíam escrever uns livros mais simpática, sem nenhuma afetação. Transparecia a
atualizados e, acima de tudo, mais brasileiros, mais serena confiança de quem já é experiente na
capazes de retratar a nossa cultura e a nossa vida. matéria. Sua função era meramente coordenadora.
Ou seja, ex-bebedores brasileiros escrevendo para Suas intervenções sóbrias (em todos os sentidos)
futuros ex-bebedores brasileiros. Mas esse é um revelavam uma personalidade fina e sensível, sem
detalhe A literatura psicanalítica, por exemplo, tirar uma de benfeitora ou de bondosa.
padece de vícios equivalentes. Contudo, em nome Acolhedora, sim, metida a benfeitora, não. Uma
de uma imagem pública que retrate com maior pessoa que deve levar uma vida como todo mundo.
fidelidade o que é, de fato, o A. A., creio que essa Com suas qualidades e defeitos. Decididamente
modernização da literatura seria importante jamais demonstrou qualquer ranço carola ou
9
piegas. Quem quisesse podería fazer uso da palavra alcoólatra, porque quer. Bebe porque sofre de uma
e a ela competia controlar o tempo. De um modo irresistível compulsão. Para um membro do A.A.
geral as pessoas prestavam depoimentos sobre suas o alcoolismo é apenas uma doença, como outra
vidas, seu temperamento, como entraram e saíram qualquer, como o diabetes ou a hipertensão
da compulsão de beber. Algumas possuíam um arterial. Tal como os diabéticos têm se conformar
nível cultural mais alto: eram profissionais liberais com uma dieta de açúcar, os hipertensos com uma
e a fala era mais sofisticada. Outras possuíam de sal, os alcoóücos terão de se conformar com
menos escolaridade e a fala era mais simples. uma dieta de álcool.
Porém, isto não era o importante O importante O alcoolismo — tal como o diabetes — é
era a sinceridade e a emoção com que passavam considerado uma doença incurável. Mas o fato
os seus depoimentos. A sincera vontade de ajudar dc se considerarem portadores de uma doença — o
sem, contudo, invadir a liberdade de ninguém. alcoolismo — não significa que se considerem
Tlido muito simples, emocionado e emocionante. pessoas doentes. Como pessoas não são melhores
Em algumas horas parecia-me estar diante ou piores do que ninguém. Tal como os diabéticos
de uma sessão psicanalítica de grupo. A única e os hipertensos, algumas pessoas que padecem da
diferença é que todos ali possuíam um problema incapacidade de beber moderadamente serão
comum — o alcoolismo — e não havia um grandes pessoas. Exatamente como as que não
psicoterapeuta. Era um grupo que cuidava padecem dessa incapacidade Um membro do A.A.
do grupo. fala de si nas reuniões exatamente como um
diabético fala sobre seu diabetes num grupo de
diabéticos. É interessante se assimilar que no A.A.
Uma das melhores maneiras de evitar suas próprias existe uma figura chamada Padrinho (ou
recaídas no álcool é auxiliarem outros alcoólatras Madrinha). O Padrinho éum membro do A.A. já
a evitar a bebida. experiente na capacidade de evitar a bebida. Um
membro recente do A.A. escolherá o seu Padrinho.
Depois soube que esses grupos se reuniam Esse é uma espécie de irmão mais velho, de amigo
sempre, cada vez com um coordenador diferente, qualificado e se compromete com o novato a estar
durante umas duas horas, e comparecia quem à sua disposição. Pode ser acoidado até de
quisesse, a quantas reuniões quisesse Alguns madrugada. Aliás, ele, por experiência própria,
membros do A.A., por serem personalidades sabe que é exatamente nessas altas horas da noite,
públicas e que não poderíam arriscar algum as chamadas “ horas do lobo”, que as tentações
eventual vazamento se reuniam a portas fechadas, etílicas se exacerbam.
cm grupos especiais. Um membro do A.A. pode, Esse Padrinho funciona como uma espécie (Je
se quiser, passar as horas de todos os seus dias amigo e confidente das horas difíceis, o que, todos
nessas reuniões. Afinal, esse amparo emocional é sabemos, é importantíssimo para todo mundo —
fundamental para evitar-se a recaída. Percebi no alcoólatras ou não.
A.A. uma coisa muito interessante, razão pela qual O clima desse relacionamento não tem nada de
não há aquele insuportável cüma de bom- misterioso, obscuro ou esotérico. É um
mocismo, de almas caridosas, de benfeitores. É que relacionamento entre pessoas comuns, que se
os membros mais experientes descobriram que tornaram amigas pelo convívio e pela
uma das melhores maneiras de evitar suas próprias disponibilidade de se ajudarem mutuamente sobre
recaídas no álcool é auxiliarem outros alcoólatras um problema comum que possuem, o alcoolismo.
a evitar a bebida. Logo, ao ajudarem os outros, Disse mutuamente porque, repito, para um
estão, ao mesmo tempo, tendo um prazer fraterno membro do A.A., auxiliar alguém a se libertar do
e ajudando a si próprios. álcool não é um ato apenas filantrópico, caridoso
Não há também clima moralista, nem mesmo ou humanitário. Não. Representa uma maneira de
com relação ao álcool. Ninguém é contra o álcool ajudar a si mesmo.
ou advoga cruzadas por algum tipo de lei seca.
Não. Reconhecem o álcool como uma das boas ejo com a maior simpatia instituições como
coisas da vida. Só não foi para a vida deles. Sabem
que 87% das pessoas que bebem não se tornam
alcoólatras e, por isto, não têm qualquer razão
para evitara bebida. Infelizmente, contudo, eles
Y esta. Não só já prestaram, prestam ainda,
representam modelo de instituição
moderna e democrática. Creio que no século XXI
a humanidade recorrerá cada vez mais a
caíram naqueles 13% que, em vez de consumirem instituições desse tipo. Existirão grupos de Obesos
o álcool, são pelo álcool consumidos. Não são, Anônimos, de Diabéticos Anônimos, de Asmáticos
portanto, contra o álcool. São contra o alcoolismo. Anônimos, de Ulcerosos Anônimos, de Alérgicos
Nenhum membro do A.A. se considera um Anônimos, de Fumantes Anônimos, e tantos
degenerado, um fraco de caráter ou um sem- outros mais. Será a própria sociedade tratando a
vergonha na cara. Dejeito nenhum. Sabe muito própria sociedade Sem nada de médicos,
bem que ninguém bebe, ao ponto de se tomar um psiquiatras, psicanalistas, psicólogos. Pessoas que

10
viveram na própria carne certos problem as e é exatamente isto, tudo singelo e sem mistério,
aprenderam a controlá-los ou superá-los e, por completamente diferente do que imaginam as
isto, estão aptas a auxiliar pessoas com problemas pessoas que dela nunca participaram.
semelhantes. Acima de tudo, esse tipo de Quando disse que achava ótimo instituições
instituição não depende de nenhum IN AM PS da sem técnicos universitários no assunto (médicos,
vida e está fora do jugo estatal ou dos interesses de psiquiatras, psicanalistas, psicólogos, etc.) longe de
grandes empresas. mim considerar esses profissionais, entre os quais
Não se fala tanto de democracia, de m e incluo, dispensáveis; cada um no seu lugar. O
organização d a sociedade de fortaleza de suas A.A., inclusive, jam ais hostiliza ou entra em
instituições? Q ue é preciso que a sociedade esteja conflito com a medicina oficial e a psicanálise. Um
livre do inevitável autoritarism o do Estado? Pois membro do A.A. pode perfeitamente (e, em muitos
bem, instituições como esta fortalecem a sociedade casos, deve) ser paralelamente auxiliado p o r um
civil tornando-a m ais autônom a do jogo das médico ou por um psicanalista. O A.A. não
influências políticas. É a própria sociedade se oferece serviços médicos e nem psicanálise Thl
auto-adm inistrando, buscando nela própria a como os médicos e psicanalistas não oferecem
solução de seus problemas, fora da intervenção serviços como os do A.A. Cada qual tem seu valor
do Governo e dos interesses econômicos. Aliás, específico, sua região própria de influência. Não
esta é uma boa maneira de se dim inuir a há contradição entre frequentar o A.A. e fazer
corrupção, a politicagem, os tráficos de influência, um a psicoterapia. Pelo contrário. São m étodos que
as mordomias, a arrogância dos tecnocratas. se complementam e se enriquecem m utuam ente O
Chega de tecnocratas, de especialistas A.A. é por isto extremamente cauteloso, para não
sabichões. Vamos d a r ao cidadão comum a invocar para si mais do que pode oferecer. Seus
plenitude de sua cidadania. membros empenham-se, no mundo todo, em
Instituições como ο A.A., apesar de não manter o melhor relacionamento com os
possuírem qualquer coloração política, ideológica profissionais da Satíde E os bons médicos e os
ou religiosa, são, nesse sentido de libertar a bons psicanalistas mantêm os melhores
sociedade do jugo do Estado e dos interesses relacionamentos com os A.A.
econômicos, profundam ente políticas. Claro que alguns médicos e psicanalistas,
Por que disse que são instituições movidos por um a excessiva vaidade profissional,
não-filantrópicas e ou de caridade? Porque no por um a presunção de que sabem e resolvem tudo,
A.A. não existem alm as bondosas. É que um ex- não pensam assim. E não substimemos que, por
-bebedor ao auxiliar um bebedor está também trás dessa hostilidade, existam interesses
auxiliando a si próprio para não recair no álcool. inconfessáveis e exclusos: temem dim inuir o
É isto mesmo. Em experiência de meio século, em número de clientes ou temem perder o Prestigioje
todo o m undo, o A.A. descobriu que um a das por se considerarem os únicos salvadores da
coisas mais im portantes para um ex-bebedor não hum anidade Essa, Frcud explica...
voltar a beber é dedicar parte do seu tempo Inclusive, muitos membros do A.A. são
auxiliando outros bebedores ou ex-bebedores e médicos, psicólogos, psiquiatras e psicanalistas.
manterem-se longe do primeiro gole. Logo, é um Foram ex-bebedores ou estão tentando deixar de
altruísmo interessado, o que traz um clima mais beber. É sentir na própria carne o limite da sua
descontraído à Instituição. Não há lugar ali para ria ação profissional.
exageradas gratidões ou cobranças. E nem utrosm em brosdo A.A. estão sendo ou foram
ninguém sair se sentindo com a tentação de, por muito tempo psicanalisados. E se tornaram
vaidosamente, se considerar benfeitor ou melhor estudiosos da alma hum ana, principalmente no
do que ninguém. TUdo, portanto, sem heróis ou que se refere ao alcoolismo. Já leram tudo, sabem
mistificadores. Tudo muito humano. O que é bom. muito mais do que um psiquiatra ou psicanalista
sobre o assunto. Tiveram, pois, mesmo que não
sendo nos bancos universitários, uma formação
Não há contradição entre frequentar ο Α Λ . e fazer acadêmica invejável. Tratam, há anos, de
um a psicoterapia. alcoólatras e sentiram na própria carne o
alcoolismo. Por tudo isto, respeito profundam ente
o conhecimento que adquiriram ao longo de sua
Acho este depoimento exemplar, porque auxilia experiência.
a desmistificar a idéia de seita, de sociedade Samba não se aprende na escola. Tratar de
secreta, de reuniões lúgubres e deprimentes que alcoolismo, também não.
muita gente faz do A .A.. Quero dizer que coincide A meus pacientes de consultório, que forem
exatamente com a impressão que colhi da reunião alcoólatras, não hesito em recomendar que
dc que participei. Não há misticismo ou esoterismo procurem também o A.A. Faço isto com a mesma
no A.A. Thdo muito simples, muito arejado, muito naturalidade com que indicaria um
simpático, muito moderno. Aliás, m e fez lembrar gastroenterologista a um paciente que sofresse de
muito de psicanálise de grupo. A sessão de grupo um a úlcera gástrica ou duodenal.
11
elo que conversei com membros experientes reunem-se as famílias e os amigos dos alcoólatras.

P dos A.A., percebí que no seu trabalho de


auxiliar alcoólatras a se manterem afastados
do copo — epara tal é decisivo mantê-los
afastados do primeiro gole — encontram graus de
Em algumas de suas reuniões, os alcoólatras não
podem comparecer (reuniões fechadas). Por quê?
Para sepoderconversarmais livre e espontaneamente
O Alanon existe há cerca de 15 anos no Brasil e
dificuldade que variam de pessoa para pessoa. estou certo de que sem ele o A.A. não teria jamais
Alguns alcoólatras respondem maravilhosamente a eficácia que alcançou.
aos métodos do A.A. Outros, aos trancos e É que o alcoólatra, principalmente nos seus
barrancos, com recaídas e tropeços, acabam primeiros tempos de recuperação, está frágil e
chegando lá. Uma parte, contudo, revela-se necessita de maior amparo familiar. E amparo não
particularmente rebelde e abandonam o A.A. antes significa apenas boa vontade e paciência. Significa
de terem, na realidade, entrado. Esses, também entendimento dos processos psicológicos
evidentemente, ficam excluídos dos benefícios da cabeça do alcoólatra.
desse método aprimorado pela experiência de Entendimento dos complexos jogos afetivos que
décadas. ocorrem no interior de um casal e de uma família.
Isso não é problema só do A.A. Na psicanálise, Numa família ou num casal acaba havendo
acontece o mesmo. Alguns pacientes respondem uma distribuição de papéis: como uma peça de
espetacularmente à terapia. Outros resistem, teatro. Cada qual encarna um personagem, saiba
relutam, se debatem, são ossos duros de roer, mas ou não saiba, queira ou não queira. E quando uma
chegam lá. Uma parte, contudo, simplesmente dos personagens mais marcantes dessa peça — o
comete o grau mais pernicioso da resistência ao alcoólatra —, sem dúvida o protagonista do drama
tratamento: o abandono. Aí, realmente, não há o familiar, vai mudando seu papel, há uin
que fazer. desequilíbrio geral no seio da família. É que,
Felizmente, tanto no A.A. quanto na mesmo quando é para melhor, o ser humano
psicanálise, este último caso não é a regra geral. resiste às mudanças. Cada qual já estava
O problema do A.A., à diferença da psicanálise, é acostumado ao seu papel, viciado na sua rotina,
que lá não existem resultados mais ou menos viciado até no tipo de sofrimento que ocorria no
satisfatórios. Ou se consegue fazer um alcoólatra dia-a-dia. Já existia até o bode expiatório, o
abandonar o álcool, ou se fracassa. Fazer um responsável por todos os males da família que
alcoólatra controlar a doença e beber evidentemente, era o alcoólatra. Quando este
moderadamente é impossível. Dada a natureza do começa a recuperar-sc e ainda está frágil,
próprio alcoolismo. vulnerável, melindroso, irascível,
Apesar dos pesares a porcentagem de inconscientemente, os outros membros da família
recuperação de alcoólatras no A.A. é bastante alta. podem adotar sutis atitudes de oposição a essí
A esmagadora maioria daqueles que levam o mudança. Eu, como psicanalista, sei da espantosa
método às últimas conseqüências consegue jamais capacidade do inconsciente humano de sabotar, de
voltar a beber. Pelas dificuldades próprias ao jogar pra baixo, de desestimular, quando assim o
tratamento do alcoolismo e, principalmente, de quer. Assim, tomar consciência dessa astúcia do
alguns alcoólatras, creio que uma combinação inconsciente, é fundamental.
entre o A.A. e a psicoterapia seria o ideal. O alcoólatra, nos primeiros tempos de
Por exemplo: para muitos casos seria muito recuperação, é como um adolescente, ainda
conveniente uma terapia de casal, que podería ser despreparado para enfrentar o mundo, pode ser
feita por um psicanalista, ou até uma terapia com metido a forte, mas, no fundo, é fraco, é instável e
a família inteira. É que a família de um alcoólatra sujeito demais às influências familiares. Thl como
está toda comprometida. Já está um time viciado no tratamento dos adolescentes, muitas vezes é
em certos padrões de relacionamento. recomendável uma terapia familiar. No tratamento
Os A.A. também pensaram nisto. Rapidamente dos alcoólatras, o alcoólatra em recuperação é
reconheceram a importância da família na como aquela amendoeira recém-plantada.
recuperação do alcoólatra. Para tanto, surgiu uma Qualquer ventinho ou ato de vandalismo será o
instituição chamada Alanon, sigla que também suficiente para lesá-la na sua fragilidade. Seu
significa Alcoólicos Anônimos. pequenino tronco, por isto, tem de ser cercado de
todos os cuidados. Anos depois, porém, quando se
tornar uma amendoeira adulta, não precisará mais
E que o alcoólatra, principalmente nos seus desses cuidados ou proteção. Seu tronco poderoso,
primeiros tempos de recuperação, está frágil e que sustenta sua majestosa copa, suportará todos
necessita de maior amparo familiar. os trancos ou colisões da vida.
O alcoólatra é uma amendoeira...
O Alanon, se bem que aparentado aos A.A. e Quando o alcoólatra se recupera, oco rreuma crise
seguindo seus mesmos métodos e princípios, é uma política em sua casa. Vou citar um exemplo de
instituição autônoma. Lá, em vez dos alcoólatras, dinâmica familiar complicada, só à guisa de ilustração.
12
Suponhamos um alcoólatra, pai de família, de Foi isto que aconteceu em 1935, época em que o
uns 50 anos, filhos adolescentes e enfurnado no alcoolismo alcançava proporções tão alarmantes
copo há vários anos. Ora, sua irresponsabilidade, nos EEUU., que houve até tentativa de resolvê-lo
sua incapacidade de honrar compromissos há por métodos policiais. A tristemente célebre Lei
muito destituiu-o da liderança do lar. A sofrida Seca, com todos os Al Capones, a Máfia e filmes
esposa e os filhos assumiram o comando familiar. de gangsters, é um exemplo dessa invariável e
E já se acostumaram a isso. Quando esse ineficiente tentativa policialesca de resolver o
alcoólatra se recupera, há uma crise política em problema.
sua casa. Terá de haver um remanejamento na Contudo, como a vida não é um caso de
distribuição dos poderes. E, a gente sabe, poder polícia, baixou em outras pessoas a inspiração de
vicia tanto ou mais do que o álcool. resolver seus problemas por métodos não
Embriaga todos, sobe para a cabeça e inebria. policialescos e mais profundos.
Resultado: crise de sucessão presidencial.
Afora isso, vem a gana da forra pelos anos de
sofrimento e privação impostos pelo seu Ninguém se toma alcoólatra porque quer, toma-se
alcoolismo. Sua dívida familiar é maior do que a alcoólatra simplesmente porque, apesar de todos os
dívida externa brasileira e seus credores podem mais sinceros e comoventes esforços, não consegue
tornar-se mais intransigentes do que o FMI e os deixar de beber.
banqueiros internacionais juntos. Como ele (o
alcoólatra) ainda está se recuperando, sua Bill W., um americano que trabalhava na Bolsa,
economia interna e profissional encontra-se ainda conseguira com o auxílio de um médico
em recessão. especialista em alcoolismo, em N. Iorque, o Dr.
Isso a gente vê cristalinamente em qualquer Willian Silkworth, libertar-se da compulsão de
relacionamento, alcoólatra ou não. Por exemplo: beber. Bill partia do princípio de que somente um
quando num casal aquela mulher resolve ser gente, alixjólatra podería ajudar outro alcoólatra.
levantar a cabeça e andar pelos próprios pés, Somente um alcoólatra conhecia as manhas de
costuma gerar o maior tumulto. Nos primeiros outro alcoólatra e lhe podería inspirar a confiança
tempos, o marido se insurge e até os filhos se necessária na dificílima tarefa de se tornar sóbrio.
insurgem. Por isto, muitas sucumbem antes de Digo, erroneamente, porque o alcoolismo não é
haver cessado a tempestade. um vício, é uma doença. É preciso que a gente
perceba essa diferença, porque ela acaba criando
e acordo com o Organização Mundial de

D Saúde, o alcoolismo é considerado uma


doença e é a 3? doença que mais mata no
as maiores confusões.
Vício é uma palavra que traz em si uma série^de
significações negativas depreciativas e
mundo! Só perde para o enfarte e o câncer, os completamente injustas. Que recaem sobre pessoas
quais, em muitos casos quase não são uma doença que a infelicidade de sofrer a doença. Podería ser
em si, pois se confundem com o próprio processo diabetes, hipertensão, reumatismo, só que é o
natural de envelhecimento. Um velhinho de 102 alcoolismo. Se o vício, por um lado se encaixa um
anos quando morre, não se diz se morreu de aspecto correto do alcoolismo, ou seja a
câncer ou do coração. Já se diz que morreu de compulsão irresistível de beber, por outro
velhice O alcoolismo, não. Esta é uma doença estigmatiza o alcoólatra como um fraco de caráter.
mesmo, que não tem nada a ver com a velhice Ora, convenhamos, ninguém se torna alcoólatra
com seus efeitos devastadores sobre o corpo e a porque quer, toma-se alcoólatra simplesmente
mente e que pode perfeitamente ser evitada. Basta porque, apesar de todos os mais sinceros e
parar de beber. comoventes esforços, não consegue deixar de
Mas aí é que está o problema. Internar um beber. Poder-se-ia argumentar: então, por que
alcoólatra num hospital, desintoxicá-lo e recuperá- começou a beber? Ora, quem aos 15 anos n ão ,.
lo é fáciL O difícil é que ele não volte a se tornar começa a tomar seus chopinhos depois da praia,
biriteiro. É tão difícil que a Medicina, a Psicanálise seu cuba-libre nas fest.inhas, sua caipirinha de
e a Psiquiatria já de há muito reconhecem a vodka ou de cachaça, seu vinhozinho no Natal?
limitação de sua ação. Por essas e outras, é que Com mais grana, quem, não tomará seu
surgiram instituições como o A.A. champanhe na passagem do ano? Seu uísque no
baile? E quem iria adivinhar que, anos depois, se
O alcoolismo não é um vicio, é uma doença tornaria um alcoólatra? Deixemos, pois, de ser
hipócritas e de sair pichando, denegrindo,
estigmatizando os outros por suas dificuldades.
Como sempre, a humanidade, quando se Se o alcoólatra bebe, não é por falta de vergonha
defronta com um problema de difícil solução, põe na cara. Bebe, primeiro, porque todo mundo bebe
sua imaginação criadora para funcionar e inventa E bebe descontroladamente porque possui uma
novas soluções. doença que pode acometer qualquer um: o
13
alcoolismo. Aliás, falta de vergonha na cara é sair Desseencontro nasceu o A.A. Bill W. é o A.A.
por aí encontrando explicações fáceis e cômodas n? 1 e o Dr. Bob o n? 2. Hoje, são milhões do
para problemas difíceis e incômodos. mundo inteiro. É interessante notar o espírito
Nós que, moderadamente, entornam os nossas fundador o A.A.: Bill foi procurar outro
gostosas doses etílicas em ocasiões sociais, alcoólatra, não só como benfeitor, mas para
podemos, perfeitamente, sem percebermos ajudar-se a si próprio... Dia chegará em que os
tornarmo-nos am anhã escravos do álcool. alcoólicos perderão sua vergonha de se
Podemos perfeitamente padecer desta doença reconhecerem como portadores, não de um vício,
— o alcoolismo — e simplesmente não sabermos. mas de uma doença. Com isto, reconhecerão
Como j á se disse, se 87 por cento de nós j amais beberão serenamente sua doença e procurarão aqueles que,
descontroladamente, 13 por cento o farão. Tlido de fato, entendem do assunto: os ex-bebedores.
muito lotérico. É mais fácil se tornar alcoólatra do Nesse dia, teremos muito maior número de grupos
que acertar no milhar, jogando semanalmente no de A.A. por este país afora e muito menor número
bicho. E infinitamente mais fácil do que acertar a de pessoas destruídas pela bebida...
quina da loto. Portanto, mais delicadeza do nosso
julgamento não fará mal a ninguém. Inclusive a nós próprio Ministério da Saúde reconhece os
mesmos, pois quem com julgamentos apressados
fere com julgamentos apressados poderá ser ferido...
Vergonha na cara não é o que falta ao
alcoólatra. A vergonha que ele sente de beber
O inestimáveis serviços dos A.A., tanto é
assim que vários hospitais convocam
membros dos A.A. para prestar-lhes auxílio. E o
alcoólatra, depois de deixar a internação,
desbragadamente é tam anha, que bebe mais ainda prossegue sua recuperação nos grupos de A.A.
para embriagar a própria culpa. existentes.
Um dos líderes do A.A. que me considera um É preciso mudar a mentalidade que ainda existe
amigo me confiou: “ Eduardo, eu antes de virar sobre o alcoolismo, pois essa mentalidade dificulta
biriteiro barra pesada, cheguei até a morar no enormemente a recuperação dos alcoólatras.
Copacabana Palace. Depois, é óbvio, fui perdendo Alcoolismo — volto a insistir — não é resultado de
tudo: dinheiro, profissão e até a família. Acredite um caráter frouxo, de uma força de vontade débil,
se quiser, tornei-me mendigo. Mendigo, mesmo, de falta de vergonha na cara. E uma doença, como
tipo cata-sobras de comida. Quando ia pedir qualquer outra. Portanto, não diminui ninguém.
esmola, tomava mais umas e outras, para ganhar Um bebedor descontrolado não deve sentir-se
coragem. Não coragem para pedir esmola e me envergonhado por sua condição. Não há gente que
assumir como mendigo, mas para me assumir tem reumatismo, que tem alergia, que tem asma,
como alcoólatra. A palavra me fazia mal demais. que tem pressão alta, que tem diabetes, que tem
Mendigo, sim; alcoólatra, não!” . Conversamos problemas glandulares? Isto é vergonha? Poisj»
com ele, é outro líder do A.A. que também se alcoolismo é a mesma coisa. Há gente que
tornara mendigo. H ojeum a pessoa completamente simplesmente possui uma compulsão irresistível de
normal, extremamente simpática e ativa — beber. Pode, ao lado disto, ter a maior força de
chegamos a concluir que talvez o que estraçalha o vontade, a maior integridade de caráter, o maior
alcoólatra seja a vergonha na cara demais! Thnto é valor pessoal.
assim que o alcoólatra luta com todas as suas Temos que, de uma vez por todas, fazer uma
forças para, primeiro, não reconhecer serenamente diferença: o alcoolismo é uma coisa, o valor
que possui uma doença: o alcoolismo; segundo, pessoal, outra.
resiste a mais não poder para procurar ajuda para É claro que o alcoólatra na ativa está com seu
se tratar dessa doença. valor comprometido. Porém um alcoólatra, que
aprendeu a controlar sua doença, que realizou
Procurar outro alcoólatra, não só com o benfeitor, profundas transformações na sua personalidade
m as para ajudar-se a si próprio... beberrona, é um cidadão qualificado para
qualquer atividade Enfim, é gente como a gente
Como todos nós, haverá ex-bebedores de
Mas, voltando à história do A.A. Bill W., que extraordinária criatividade e capacidade de
há seis meses não bebia, foi fazer uma viagem de liderança e outros com menor. Entretanto, só o
negócios, de N. Iorque para Ohio. O negócio não fato de terem-se tom ado ex-bebedores já soma
saiu e Bill sentia-se tentado a beber. Percebeu, pontos... Demonstraram uma invulgar força de
então, que, para salvar-se, precisaria levar sua caráter.
mensagem a outro alcoólatra. Esse, por acaso, era Como me dizia, outro dia, um líder do A.A.:
um médico — o Dr. Bob. Encontrou-se com ele de "Você vê como são as coisas. Quando um doente
manhã e as mãos do médico estavam trêmulas. qualquer deixa o hospital, sua família o recebe de
Bill, inclusive, pagou-lhe um a cerveja, para aliviar- braços abertos, comemora a sua volta. Quando,
-Ihe a tensão. Depois disso, conversaram entretanto, um alcoólatra deixa o hospital, sua
longamente e o Dr. Bob jam ais voltou a beber. família o recebe com a tentação de lhe dizer: vê se

14
d e agora em d ian te você to m a vergonha na c a ra !” No fundo, em bebedam -se do prazer de
Realmente, essa m en talid ad e tem d e acabar, pois co m b ater bêbados , em briagam -se em lu tar contra
ela é u m a d as causas geradoras, n ã o d o alcoolism o em briagados, inebriam -se de n ão ser ébrios.
m as, certam ente, da d ificu ld ad e d o alcoólatra em O abstêm io é um alcoólatra d e cabeça para
superar sua com pulsão de beber e se recuperar baixo.
para a vida.

stam os falan d o sobre um assunto m uito 1lB eber é coisa de homem, parar de beber, coisa de

E sério e q u e só não é tratad o m ais a sério


p o r conta d e inconfessáveis interesses
macho.

econôm icos d a in d ú stria etflica. E, principalm ente,


p o r desses desatu alizad o s preconceitos.

A sobriedade é m uito m ais p ro fu n d a e


com pletam ente diferente da abstêm ia. É um nível
O lha q u e não tenho nada contra o álcool em si.
su perior de convivência com a doença
Pessoalm ente bebo enquanto perceber q u e o faço
alcoólica.
com natural m oderação; não pretendo deixar de
É u m a transform ação radical d a personalidade
fazê-lo. C cm o um delegado nacional d o A.A. bem-
bêbada. É um a nova e revolucionária atitu d e
hum oradam ente me relembrava a frase d e um d iante da vida, d iante d o s outros e d e si
grande poeta brasileiro: “ O m elhor am igo do
mesmo.
hom em não é o cachorro, é o u ísque” . P ara quem É a assim ilação p ro funda da m oderação. Em
pode pagar, talvez a té seja verdade Porém , verdade
todos os sentidos, em todos os níveis.
para 87 p o r cento d o s bebedores. C ontudo, para 13
É u m a ultrapassagem d o s apetites
p o r cento, se puderem , é bem m elhor um cachorro.
pantagruélicos, d as fissuras e voracidades.
Senão, viverão um a existência de cão. Os m em bros
C ontudo, para se chegar à personalidade sóbria,
do A.A. não têm n ad a contra o álcool. São
exige-se um prolongado trabalho, qu e os A.A.
radicalm ente contra leis secas e outras providências
cham am de OS D O Z E PASSOS.
policialescas. O fato d e um a parte da população
não pod er conviver n u m a boa com o álcool não
s A.A. fazem um a p ro fu n d a diferença
deve ser m otivo para o resto ter de privar-se de seus
h um anos prazeres. M uitos A.A. m antêm bebidas
alcoólicas em casa e o u tro s m em bros d e sua fam ília
bebem regularm ente Podem perfeitam ente servir
O entre um a pessoa q ue conseguiu
sim plesm ente deixar d e beber e um a o utra
q ue tenha alcançado a so b ried ad e Para um A .A .,
um a coisa é ser abstêm io, o u tra é ser
bebida a am igos seus não-alcoólatras. Seu problem a
sóbrio.
não é com o álcool em si. É com o alcoolismo.
Ser abstêm io é difícil, m as alguns alco ó latra^o
R igorosam ente falando, não é nem com o
conseguem , até defínitivam ente: a m aio r parte,
alcoolismo. É com o seu alcoolismo e com o alcoolismo
entretanto, q ue chega a alcançar o grau de
daqueles q u e os procuraram para serem auxiliados e
abstêm io, o faz p o r certos períodos, voltando,
com os quais assum iram com prom issos d e honra. posteriorm ente, a beber excessivam ente A lguns
passam seis meses sem beber e seis meses tirando a
Ser abstêmio para um A.A. é um nível inferior de barriga d a miséria. O utros passam três anos sem
convivência com o alcoolismo. beber e o u tro s tan to s em briagados. É um a espécie
d e oscilação d e perío d o s de vacas secas e vacas
bêbadas. O lem a do abstêm io clássico deveria ser:
U m A .A. ja m a is recom endará a um outro “ Beber é coisa d e hom em , p a ra r d e beber, coisa d e
alcoólatra, ou à sua fam ília, q u e esconda bebidas, m a c h o .”
q uebre g arrafas ou to m e providências equivalentes A grande m eta de um A.A . é alcançar a
àquela p iad a do tira r o sofá d a sala. A final, um A.A. so b ried ad e S obriedade em to dos os sentidos.
é um ser hum ano, u m cid ad ão com um e q u e pretende Inclusive de n ão se em bebedar com a idéia d e que
prosseguir vivendo n o plan eta Terra, sem revoluções superou o alcoolism o e, p o r isto, po d erá, d e agora
islâm icas d e aiatolás o u tentações de se m u d a r para em diante, voltar a beber so briam ente Essa idéia
P asárgada, inclusive p o rq u e lá sendo am igo do rei, p ode ser inebriante, m as revela u m a visão pouco
é bem possível que lh e seja oferecido um saboroso sóbria sobre a própria so b ried ad e A sobriedade de
vinho francês, ou um delicioso scotch envelhecido... um alcoólatra passa pela hum ildade d e se
A liás, u m verdadeiro A.A. faz u m a categórica reconhecer im potente diante da bebida. Se to m ar o
diferença entre ser ab stêm io e ser sóbrio. Ser prim eiro gole, corre o risco dc ver sua sobriedade
abstêm io p ara um A .A . é um nível inferior de ru ir e voltar a ser devorada pelo tu b arão etflico que
convivência com o alcoolism o. A p erso n alidade navega p o r seus m ares interiores. Para um A .A., o
co n tin u a.um a p erso n alid ad e alcoólica, apenas alcoolism o é um a doença. E u m a doença sem cura.
co n tro lad a. O abstêm io p o d e to m a r-se um E le ja m a is poderá voltar a beber. Seu corpo e sua
an tialco ó latra fanático, substitu in d o a com pulsão alm a reagem , fissurada e enlouquecidam ente, caso
d e b eb er pela com pulsão de co m b ater o álcool. circule sangue alcoolizado p o r suas veias.
15
fazendo um a oração rom ântica, social ou sexual.
TUdo isto é muito importante. E não vamos nos
' ‘Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
esquecer de um a coisa: a palavra “ religião”
para aceitar as coisas que não podemos modificar.
significa religar, ligar de novo; encontrar o fio da
Coragem para modificar aquelas que podemos e meada; sacar o que está acontecendo; cair na real,
sabedoria para distinguir uma das outras. "
sem deixar de viajar p o r luas, planetas e estrelas;
restabelecer os vínculos entre céu e terra. Em todos
Um A.A., tam bém em nom e da sobriedade, os sentidos.
jam ais pronunciará frases pouco sóbrias do tipo
"Jam ais beberei de novo” . Não. A sobriedade
implica em conviver eternam ente com a A palavra pecado não vem daquela hedionda noção
possibilidade da recaída. "N ão beberei hoje, pelas do bem e do mal que nos ensinaram nos catecismos
próxim as 24 horas. A m anhã, eu não sei. Depois é dos colégios. Pecado vem do latim pecare, que
depois. Pode ser que venha a beber. E, se o fizer, significa, tão-somente, “erraro alvo”.
tudo bem. Iniciarei tudo de novo. Se não tiver
forças, procurarei outro membro do A .A., Se religião para nós foi um a em boscada
frequentarei suas reuniões, até me internarei, se anti-sexual, antivida, antipoesia, antiliberdade,
necessário for. Acima de tudo, ja m a is m e deixarei isso não tem nada a ver com se ligar de novo na
em briagar pela m inha auto-suficiência, m e inebriar sexualidade, na vida, na poesia, na liberdade
pela m inha vaidade Tâmbém serei sóbrio nas
Deus não é necessariamente moralista e
m inhas autocríticas e nos m eus constrangimentos. lúgubre, corta barato de direita, que fica fazendo
Não m e enxovalharei, nem terei ressacas morais. promessas de um a vida futura, para que a gente se
Sobriam ente, reconhecerei m inhas falhas; esqueça da nossa vida presente Quem foi que disse
sobriam ente, m e censurarei; sobriam ente, me
que Deus é existencialmente um conservador e
arrependerei e, sobriamente, me em penharei p o r politicam ente um reacionário? Deixemos de ser
reconquistar m inha sobriedade Q uando se luta
crédulos para poderm os acreditar. Deixemos d e ser
contra forças superiores, há que se ter a hum ildade sentimentais, para poderm os nos entregar aos
de reconhecê-las enquanto tal. O q ue não significa
sentimentos. Deixemos de respeitar Deus, para
autocom placência, autopiedade H á que ser sóbrio poderm os descobri-lo e respeitá-lo.
inclusive no perdão e na compreensão de si
mesmo. Se a culpa, o remorso, o auto- Por que estou falando de oração, Deus e
enxovalhamento, a vergonha, a ressaca m oral religião? Para que nós possam os entender OS
podem ser desbragados, a autocom preensão, a DOZE PASSOS do A.A. Como disse, a palavra»
autocom placência, tam bém . Existem tanto a pecado não vem daquela hedionda noção do bem
intolerância quanto o perdão desm edidos.” e do mal que nos ensinaram nos catecismos d os
P o r estas e outras, os A.A. possuem um a bela colégios. Pecado vem do latim pecare, que
oração, que eles cham am de Oração da Serenidade: significa, tão-somente, “errar o alvo” . Ou seja,
“ Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária perder o jpé das coisas, o pé de si mesmo, o fio da
para aceitar as coisas que não podem os modificar. meada. E só isto.
Coragem para m odificar aquelas q u e podem os e A fissura, a compulsão, a escravização a
sabedoria p ara distinguir um a das o u tra s.” qualquer coisa só é ruim porque nos faz ficar
Sem carolice, pieguice, ou sentimentalismo prisioneiros de um aspecto da vida e não nos
baratos, vocês hão de convir, é uma bela oração. perm ite vivê-la como um todo.
M ais bela do que aquelas que, como papagaios _ Vamos, então, nos libertar do vício de escutar
carolas, fom os tantas vezes obrigados a repetir. É certas palavras ou frases como tendo que,
preciso qu e recuperem os o sentido m oderno e não necessariamente, significar sempre as m esmas
piegas da oração. A oração, no fundo, é um coisas.
poem a. É como ouvir um a bela canção. Seus Olha que, nesse sentido, ouvir as palavras como
versos, sua melodia, seu com passo e sua cadência necessariamente significando certas coisas é
produzem um conteúdo poético e dram ático (no pecado, é tornar-se prisioneiro e viciado em certas
bom sentido do term o) da m aior im portância. Não significações.
vamos, p o r justas indignações do nosso passado,
quando a religião nos foi, deploravelmente, enfiada Vamos nos deixar em briagar pelas palavras
goela abaixo, nos insurgir contra tudo que tiver o como se elas fossem sempre um novo copo. Thlvez
seja um a boa m aneira de não se to m ar
nom e de oração. Q uando cantam os o Hino
N acional, estam os fazendo um a oração política. alcoólatra...
Q uando cantam os o hino do Flamengo,
Fluminense, Vasco ou Botafogo, estam os fazendo OS DOZE PA SSOS do processo psicanalítico não
um a oração esportiva. Q u an d o ean taro lam os seriam muito diferentes dos do Α Λ .
C aetano Veloso, ou Roberto Carlos, estam os
16
experiência em todo o mundo, acumulada indiscutivelmente física, como o diabetes por

A nos seus anos de existência, durante


os quais recuperou milhões de alcoólatras,
e solidamente do álcool aquele que fizer uma
exemplo, imagine admitir uma doença, que nem
doença é considerada pela maioria, mas sim falta
trouxe ao A.A. a convicção de que só se liberta de
realvergonha na cara. Realmente, é difícil se admitir
perdendo o domínio sobre o álcool, pois o
profunda reformulação de sua personalidade alcoolismo, infelizmente, ainda é um pesado
Para alcançar essa reformulação, cumpre percorrer estigma. Pau-d’água degenerado, cachaceiro
aquilo que na tradição dos A.A. ficou conhecido desenfreado, bêbado, pessoa que vive no pileque,
como OS DOZE PASSOS. porrista, viciado, alcoólatra, pé-de-cana, vocês hão
Claro, OS DOZE PASSOS são um guia, uma de convir, são expressões que adquiriram cores
meta ideal a ser conquistada. Nenhum A.A. claramente insultuosas.
conseguiu atravessá-los completamente. Não se 2? Passo — Acreditar que exista um tratamento
trata, pois, de virar santo ou se tornar perfeito. para o alcooüsmo. Não um tratamento apenas
Trata-se, isto sim, de esforçar-se permanentemente físico, técnico, impessoal. É mais fácil tomar uma
para um aperfeiçoamento pessoal. OS DOZE B-12 na veia, entregar um coração para uma
PASSOS são uma maneira didática de se alcançar cirurgia de ponte de safena, a cabeça para um
esse aperfeiçoamento. Não são as Sagradas Valium da vida, do que confiar numa pessoa, ou
Escrituras, nem pretendem ser a palavra de Deus. em grupos de pessoas, para realizar um tratamento
de que participe algum grau de entrega pessoal.
E que a mentalidade contemporânea ou é
Reconhecer que já está perdendo o domínio sobre o crédula cheia de crendice a ponto de se entregar ao
álcool (ou que já o perdeu há muito tempo) é, primeiro santo milagreiro que passar na sua frente
evidentemente, o primeiro passo para deixar de ser e dele esperar milagre, ou é profundamente
um biriteiro. cientificista. No primeiro caso, a confiança é
depositada num guru com forças extraterrenas, um
Com todo respeito pelas tradições do A.A., vou ET da alma. No segundo, a confiança depositada
me permitir descrevê-los com as minhas palavras, na ciência, com seus sacerdotes vestidos de branco.
tal como os entendi. Descubro neles uma coerência Por isto, os médicos, os cirurgiões, os neurologistas
semelhante à coerência psicanalítica. OS DOZE inspiram confiança. Não eles, como pessoas, mas
PASSOS do processo psicanalítico não seriam sim como sacerdotes da técnica. Em ambos os
muito diferentes dos do A.A. casos — quer na fé infantil a um Deus poderoso
1? Passo — Superar o orgulho, a vaidade, o e milagreiro, quer na fé igualmente infantil nas
narcisismo e reconhecer que já não bebe só parafernálias e engenhocas dos laboratórios
quando quer e o quanto quer. Em vez de dominar americanos, cheios de tubos de ensaios, fios, ratos
o álcool, é o álcool que já está dominando. Ano e computadores — os seres humanos, com seus
após ano, o equilíbrio de forças está pendendo poderes pessoais, estão excluídos. Conclui-se daí
mais para o copo do que para a mão. Não é mais a que o difícil mesmo é gente confiar em gente Não
mão que procura o copo. É o copo que atrai a em gurus divinizados, mas em gente mesmo.
mão. As resistências aos A.A. passam por aí. Só que,
Outra coisa: chega de empulhação. Chega de imagino, devem ser maiores ainda. E que, aos
desculpas do tipo paro quando quero. Realmente trancos e barrancos, a psicanálise infiltrou-se na
até que se pára quando se quer. Por um dia, uma cultura e o psicanalista acabou sendo reconhecido
semana, um mês, até um ano. Só que depois se como um semi-saceidote “ da ciência” . Hoje é até
volta e com forças redobradas. Parodiando a frase chique fazer psicanálise Os A. A., porque são
de Oscar Wilde sobre o parar de fumar. Parar de gratuitos e porque suas sessões não são dirigidas
beber é tão fácil, que já parei 10 vezes. por doutores, têm mais cheiro de povo e menos
Reconhecer que já está perdendo o domínio perfume óè elites iluminadas. Não exalam o
sobre o álcool (ou que já o perdeu há muito discreto charme da pequena burguesia artística e
tempo) é, evidentemente, o primeiro passo para intelectual. Além disto, o anonimato de seus líderes
deixar de ser um biriteiro. não possibilita que se tornem celebridades a serem
Por incrível que pareça, este passo é dificílimo e adoradas, entrevistadas pela TV e pela imprensa. O
o ego luta com todas as suas foiças contra ele fato de sua origem norte-americana — e não
Primeiro, porque é angustiante mesmo se sentir européia — colabora mais ainda para uma certa
perdendo o controle numa área de tão sérias perda de prestígio do tipo aristocrático. Enquanto
conseqüências sobre a vida como um todo. a psicanálise possui Freud, de Viena; Jung, de
Segundo, porque as pessoas insistem em considerar Zurich; Lacan, de Paris; os A.A. possuem como
o alcoolismo não como uma doença como outra fundadores Bills e Bobs, de Ohio.
qualquer, mas sim, como uma fraqueza de caráter, As pessoas de classe social mais alta,
uma falta de força de vontade, de autodomínio. Se dominadas pelo elitismo, tendem a desprezar as
muita gente já se humilha por ter uma doença reuniões de pessoas de diversas camadas sociais.
17
O p io r é que, sem sa b e r d o q u e se tra ta , C om essa a titu d e in terio r é m e lh o r n ã o ir.
im ag in am logo m en d ig o s, cachaceiros d e pés P o rq u e ir é m ais u m a alta em p u lh ação , m ais um
in ch ad o s, e n to a n d o m ú sicas evangélicas. álibi, m ais u m a m en tira q u e se c o n ta a si m esm o.
A s pesso as d e classe social m ais b aix a, tam b ém N ão; eu fui, eu tentei, fiz o q u e pude, m a s não
d o m in a d a s pelo elitism o, tendem a se in tim id a r deu certo. Foi m esm o? Tentou m esm o? Fez o q u e
co m este tip o d e e n co n tro , p o r m o tiv o s p ô d e m esm o?
sim etricam en te o p o sto s. Im ag in am q u e estarão· na N ão q u e eu seja co n tra u m a pessoa ir a u m
ac a d e m ia d e letras, ten d o q u e fazer discursos. lugar, verificar q u e não tem n ad a a ver, e n ã o
“ E u a b rir m eu co ração pra c a c h a ce iro ? ” , diz o v o ltar m ais. P o rém , vam os a b rir o jo g o . A
d o u to r, d o m in a d o pelo scotch. psicanálise é coisa séria, feita p o r gente séria,
44E u te r d e fa la r d ia n te d o d o u to r? **, d iz o q u e acu m u lo u u m a experiência d e anos. O A .A .
c id a d ã o proven ien te d a s c a m a d a s p o p u la res tam b ém é coisa séria, feita p o r gente séria, q u e
d o m in a d o pela cachaça. acu m u lo u experiência equivalente. É p resu n ção
E to m e resistência. E to m e m ais p ileques d em ais e arro g ân cia d em ais u m leigo no assu n to
ain d a... d a r u m a o lh a d a e sair, chegando a conclusões
E m su m a , o 2? P asso p a ra se livrar do negativas. P sican álise e A .A . n ã o existem p a ra
alco o lism o é recu p erar a crença e a esp eran ça de p reju d icar pessoas. E xistem e desenvolveram
q u e existe algo q u e p o ssa se r feito. U m a força m éto d o s d e tra b a lh o com o único p ro p ó sito de
s u p e rio r à vontade, c a p a z d e e n fre n ta r essa ou tra a ju d a r pessoas. Se a psicanálise pode, a in d a q u e
força superior à vontade, que é o alcoolismo. levianam ente, ser acu sad a d e existir p a ra fa tu ra r
O 3? Passo co nsiste em entregar-se d e corpo e gran a d e ricos deso cu p ad o s, o A .A . nem disso
alm a a esse tipo d e a ju d a . N ão en treg ar-se com o p o d e ser acusado, p o is n ão co b ra um to stão d e
a n jin h o crédulo. C laro q u e não. N inguém po d e ninguém . Seus líderes n a tu ra is n ã o p o d em n em
p ed ir a nin g u ém q u e ab ra m ão d e seu senso crítico to rn ar-se celebridades e p o sa r d e benfeitores, pois
e se deixe p o ssu ir p o r u m a crendice to la . O q u e nem seus nom es são revelados p u b licam ente.
o A .A . ped e é q u e se ab ra m ão d a a rro g â n cia, O 4? Passo, reco m en d ad o pelo A .A . ao s
d o s p reco n ceito s e d a s certezas, d a m a n ia d a alco ó latras q u e estejam realm en te d isp o sto s a p a ra r
au to -su ficiên cia, d a p resu n ção d e se c o n sid erar d e b eb er e reco n stru ir suas vidas, é u m passo
d o n o d a verdade. O A .A . n ã o p ed e c o n fia n ç a cega, óbvio: q u e eles com ecem a se c o n h ecer m elhor, q u e
m as p e d e q u e se evite a d esco n fian ça p a ra n ó ica. com ecem a p re sta r m ais aten ção ao je ito d e ser da
E n fim , q u e se esteja d e cabeça a b e rta p a ra ver e p ró p ria p erso nalidade, suas m a n h a s e a rtim a n h a s,
o u v ir e d e c o ração ab erto p a ra sen tir aq u ilo q u e d e seus tru q u es, b irras e m anias; a m en tirad a q u e
fato esteja o co rren d o . É óbvio que, c o m o ostras co n ta p ara si p ró p rio e p a ra os outros.· E n fim , que
e ro ch ed o s, n ã o h á A .A . o u psican álise n o m u n d o se inicie um sincero cam in h o d e busca d a v e rd a d e
c a p a z d e d a r jeito . N ão com u m o lh a r com p lacen te q u e descu lp a
tudo. N em com um o lh a r policialesco q u e c o n d en a
tudo. M as sim com um o lh a r am igo, só b rio e
É presunção demais e arrogância dem ais um leigo
sensato, c ap az d e reconhecer q u alid ad es e a p o n ta r
no assunto dar uma olhada e sair, chegando a
defeitos, c ap az d e fra te rn a lm en te p e rd o a r se fo r o
conclusões negativas. Psicanálise e A A . não
caso e co n stru tiv am en te criticar se tam b ém f o r o
existem para prejudicar pessoas. Existem e
caso. O 4? P asso é u m a espécie d e inventário
desenvolveram m étodos de trabalho com o único
d e q u alid ad es e defeitos. E investir no
propósito de ajudar pessoas.
auto co n h ecim en to u m p o u co d aq u ilo q u e se
investia na beb id a, a q u al, n u m certç sentido,
O q u e o A .A . e a psican álise p ed em é u m a fu n cio n a com o au to co n h ecim en to . É com o
sincera d isposição in te rio r d e se d e ix a r tocar, caso cantava V icente C elestino: " T o m e i- m e u m éb rio
o q u e estiver sendo oferecido d e m o n s tra r m erecer e n a beb id a busco esq u ecer..."
su a c o n fia n ç a , em su m a , q u e se e n tre n o b arato ou A busca d a verdade, custe o q u e custar, d o a o
n a viagem q u e esteja sen d o p ro p o sta d e espírito q u a n to doer, é u m processo m ais d ifícil do q u e se
d e sa rm a d o . Pelo m enos, m ovido pela cu rio sid ad e pen sa, com ele, erguem -se as ten taçõ es d a vaidade,
d e ver o n d e aq u ilo vai dar. É óbvio q u e u m a do orgulho e do narcisism o. Freud ja m a is se
pesso a q u e vai u m a vez a u m a reu n ião d o A .A ., ou can so u d e su b lin h a r a im p o rtâ n c ia dessa
a u m a sessão d e p sican álise e se m a n d a , n ão está, resistência.
co m sinceridade, indo. Sim plesm ente, n ã o deu O triste disso é q u e a vaidade, o o rgulho e o
chance, deixou-se levar p o r u m a p rim eira narcisism o n ã o sacam q u e a b usca d a v erd ad e n ã o
im pressão que, p o r acaso, fo i negativa. é co n tra eles. À m ed id a q u e a investigação se
E u n ã o sei o n o m e q u e os A .A . d ã o a essa a p ro fu n d a , a pessoa vai d esco b rin d o q u e as
a titu d e d e se sair d a s coisas an tes m esm o d e haver vergonhas, as hum ilh açõ es, os sen tim en to s d e b o d e
en trad o . E u sei o n o m e q u e a p sican álise dá: expiatório e c u lp a são m o n ta d o s e, com isto,
resistência. E d a b ra b a . E d a s m ais p rim á rias. consegue desm o n tá-lo s. N o fim do p ercurso, a

18
vaidade, o orgulho e o narcisism o, em vez de capacidade d e nos fazer sofrer.
considerarem a bu sca d a verdade u m inim igo, a O com partilham ento opera com o u m a
considerarão u m a com panheira. A í a pessoa ficará deseletrificação d a m en te Só assim a gente deixa
vaidosa d e sua coragem interior, orgulhosa p o r ser de ficar com os nervos à flor da pele, com o fios
verdadeira, a té n arcisam ente encantada com suas desencapados. E, sabem os, um a d as razões que
p ró p rias co n q u istas interiores. E stará liberta da leva o alcoólatra ao álcool é a eletricidade interior
vergonha, d as culpas, d o s sentim entos desm edidos q u e ele precisa d e algum a form a dar. A lém disto, o
d e hum ilhação. Esses, sim, ferem b ru talm ente a com partilham ento, realizado n u m a b o a, funciona
auto-estim a. com o um a bênção, um sacram ento, u m a
absolvição. É incrível m as é verdade
O com partilham ento absolve, abençoa e, acim a de
Eu não hesitaria ern dizer: a psicanálise é cultivo do tudo, legitima as nossas em oções reduzindo
partilhamento e ela cura porque o ser humano im ensam ente os pesados sentim entos d e culpa.
precisa tanto partilhar com alguém seu interior, Q uem já desabafou com um amigo, colocou as
como de ar para respirar. coisas em pratos üm pos, sabe do q u e estou
falando. Sabe q u e o com partilham ento efetuado
O alcoólatra b eb e para não ver. N ão vendo, em certas condições é capaz de p ro d u zir
to rn a-se presa fácil d e culpa, vergonhas e milagres.
hum ilhações. T o rnando-se presa fácil p ara esse É capaz a té de serenar sonhos frustrados. É isto
sofrim ento, é o b rig ad o a beber. Bebe p ara mesmo. Só o fato d e com partilharm os nossas
anestesiar a alm a. frustrações com alguém já sacia em p a rte nossa
O 5? Passo é o d esdobram ento n a tu ra l do 4? sede. N ovam ente parece um milagre. N ada
e o rep u to decisivo. É o co m partilham ento, é o aconteceu, os sonhos não foram realizados e é
c o m p a rtilh a r a verdade interior com alguém que com o se tivessem, em parte, sido.
inspire confiança e, à m edida qu e essa confiança Com o o copo é m uito usado com o am igo
se am plia, atrever-se a m ais ousados confidente e o álcool para afogar as m ágoas,
com partilh am en to s. co m p artilhar é u m bom substitutivo p a ra a
Isto é fu n d am en tal. Se m e pedissem p ara bebedeira. A liás, m into. É o contrário. O copo e o
d efin ir n u m a frase o q u e é a psicanálise e p o r que álcool é que j á entraram com o substitutivo de
d a cura, eu não h esitaria em dizer: a psicanálise com partilham ento q u e não p ô d e se efetuar... esta
6 cultivo do p artilh am en to e ela cura porque o ser é um a das causas do alcoolismo.
h u m a n o precisa ta n to p a rtilh a r com alguém seu O utra im portância do com partilham ento é que,
interior, com o de a r p a ra respirar. Aliás, volto a através dele, é que aprendem os a falar e convessar.
dizer, c o m p a rtilh a r nosso segredo com alguém em A gente pensa que sabe falar e conversar, m as não
q u e a gente confia é o p ulm ão d a alm a. Sem isso, é verdade A gente sabe falar sobre coisas
inevitavelmente, virá o sufoco. Vão se acum ulando exteriores, sobre assuntos irrelevantes m as, q u ando
ta n to s grilos d en tro da gente que, no fim d e algum chega à zona do agrião, desaparece nossa
tem po, viram os u m a pasta. capacidade d e conversar. N a segunda fase, ou
A essência do processo psicanalítico é u m a estam os paralisados d e m edo ou d e rancor, ou já
pessoa c o n ta r a alguém aquilo qu e se passa estam os aos berros brigando ou discutindo.
verdadeiram ente com ela. O A.A. p o r cam inhos M ais ainda. U m a das coisas m ais difíceis que
diferentes, chegou à m esm a conclusão q u e a existem é colocar em palavras exatas e precisas
psicanálise: c o m p a rtilh a r e libertar. D epois falarei aquilo que se sente, q u e se deseja, que se aspira.
m ais sobre o co m partilham ento. N ão só colocar para alguém , m as co locar para nós
mesmos.
hegam os ao 5? Passo, 1?, ad m itir q ue já A í surge o m aior problem a. É que, q u a n d o a

C não se co n tro la o álcool; 2 ? , buscar ajuda


levando fé e d a n d o chance; 3?, se entregar
gente não consegue colocar em palavras as nossas
em oções, nosso pensam ento perde a cap acidade de
acom panhá-las, de entendê-las. Perde o fio da
d e co rp o e alm a a essa aju d a; 4 ?, devolver a visão
interior, inspirando a busca da verdade; 5 ° , m eada e surge um a d as m ais dolorosas sensações
co m p a rtilh a r as p ró p ria s emoções. mentais: a confusão. Q uando a co n fusão fica
Parei no co m p artilh am en to p o r q u e é um passo m uito forte, tem -se a nítida im pressão d e q u e se
decisivo. está ficando louco.
E q u e a em oção precisa d esab o to ar o peito e O q u e faz um psicanalista? C oloca em palavras
deixar sangrar aq u ilo q u e guarda dentro, senão: m ais exatas e precisas as em oções que lh e são
explode coração. contadas em palavras m enos exatas e precisas.
A s em oções n ão com partilhadas, Com isto, ele descobre o fio da m eada, dim inui a
p rincipalm ente aq u elas qu e g uardam os com o confusão e am plia significativam ente a visão
segredos tra n c a d o s a sete chaves, vão se interior. Seu m étodo: ensinar seu paciente
eletrificando, am p lian d o sua carga perniciosa, sua a falar.
19
Um membro mais experiente do A.A. faz O levantamento das culpas tem a ver com o
exata mente isto com o alcoólatra que o procura. levantamento do fel e da bílis que se é capaz de
Funciona exatamente como um psicanalista. E, produzir. Claro, ninguém perpetra desatinos,
como ele é um ex-bebedor, sabe, como ninguém, desacatos e despautérios quando o amor predomina
colocar em palavras a alma do bebedor. sobre o rancor, quando a doçura é mais forte do
As sessões do A.A. também funcionam por este que a amaigura, quando o sentimento prevalece
método. Parecem sessões de análise de grupo. sobre todo o ressentimento. Fazer um levantamento
Vou pular o 6? e o 7? Passos, os quais das cuipas é também um ato de poderosa
abordarei adiante, juntamente com o 11° humildade Mas a humildade bem-dosada é
decisiva, pois é o único antídoto contra o orgulho
8? Passo, que os A.A. recomendam e a vaidade desmedidos. E são eles os principais

0 àqueles que sinceramente desejam deixar


de beber, consiste em fazer um
levantamento de perdas e danos que a vida bêbada
ocasionou.
responsáveis pela produção de tanto ódio. São
o fígado da alma, de onde se destila tanto veneno,
tanta bílis, tanto fel.
Relembrando mais uma vez: 1? Passo — parar
Enfim, é um inventário dos insultos, dos de empulhação e reconhecer que já é biriteiro; 2?
prejuízos, das injustiças, das deslealdades que o Passo — confiar numa boa em algum tratamento;
álcool realizou. Não somente enquanto estava 3? Passo — entrar de ponta a cabeça nesse
alcoolizado, mas em toda a sua vida. É que o A.A. tratamento; 4? Passo — iniciar uma métodica
está convencido de que uma das causas do auto-análise; 5? Passo — compartilhar seus
alcoolismo é um acümulo de culpas que ficam segredos com quem você confia e entende do
gravadas na memória emocional. Elas geram assunto; 6? e 7? Passos — abordarei
mal-estar interior, uma inquietação, uma posteriormente; 8? Passo — fazer um inventário
incapacidade de se inebriar pela vida que acabam das aprontações e das pessoas com quem se
desaguando na necessidade de se inebriar aprontou.
artificialmente através do álcool.
arei neste 8? Passo, que pode ter, para
Os A A . estão convencidos de que o alcoolismo é
fru to de corações que se melindram facilmente. P algumas pessoas que tenham ficado
indispostas com as religiões, um ranço de
catecismo, de confissão de pecados, de céu e
inferno, de uma mea culpa, de penitências carolas.
É que, no fundo, somente emoções inebriam Não que o cristianismo, numa leitura profunda
emoções. Porém, quando a culpa, consciente ou de seus maiores pensadores, seja isto. Contudo,
inconsciente, ultrapassa um determinado nível, concordo que o cristianismo vulgar, tal comcfé
nossas emoções já não se sentem com o legítimo assimilado pelas massas, tenha colaborado — e
direito de receber emoções de mais ninguém, muito — para um sentimento anti-religioso. Eu,
principalmente daqueles que mais prezamos. pessoalmente, até conhecer e ter estudado anos
Assim, os relacionamentos vão aos poucos com um frei franciscano, de rara inteligência e
perdendo o brilho, perdendo a cor, perdendo a luz profundidade — o frei Archangelo Buzzi — tinha
e vai se tomando necessário embebedar-se para exatamente essa implicância e cheguei a nutrir
recuperar a capacidade de viver, de se emocionar, um prolongado sentimento anti-religioso.
de emocionar os outros. Embebedar-se para
embebedar a culpa e o remorso. Embebedar-se Deus é o amor, virtude e pecado, salvação e
para resgatar a alegria peidida. perdição, culpa e absolvição — são entendimentos
Além disto, os A.A. estão convencidos de que o de suprema complexidade e não podem ser
alcoolismo é fmto de corações que se melindram descritos de form a tão primária e caricata
facilmente E acumulam o fel do ressentimento.
Em pouco tempo, estão “ um pote até aqui de
mágoa” . Ora, com tanto fel circulando nas veias é Realmente, entender Deus como um senhor
impossível amar e se fazer amado. Gostar de se barbudo, vestido de branco, disposto a enxergar
fazer gostado, se embevecer e se fazer objeto de pecado em tudo quanto fosse prazer e propondo
embevecimento, comover-se e se fazer um cultivo masoquista da culpa, a virtude sendo
comovente uma coisa lúgubre, sem brilho e sem cor, num
Como a mente humana precisa clima de franco baixo astral, o céu sendo algo
desesperadamente viver algo inebriada e sentir-se monótono e pueril, com anjinhos barrocos
inebriante, e como isto deixa de ocorrer, surge a tocando harpa em cima das nuvens, é demais. Um
tentação etüica. É que o vinho natural que corre Deus que só chamava de amor a certos
em nossas veias virou vinagre. Daí uma sentimentos assexuados, piegas e açucarados, tudo
necessidade de recorrer-se ao vinho exterior, e tome mais sendo considerado astúcias de Satanás, a
pileque... alegria quase se resumindo a euforias
20
infantilizadas de anúncios de TV, marcas de água Daí os A.A. preconizarem seu 9? Passo: para
mineral, também é demais. Um Deus que se libertar do álcool, é que o alcoólatra, na medida
condenava toda a originalidade e o desassombro do possível, tenta reparar suas culpas, procurando
existenciais, que só pensava em aflitos e enfermos, novamente, se possível, as pessoas que foram
como se existir uma j uventude cheia de vida e uma insultadas ou prejudicadas por ele, para tentar
alegria que se desfile pelas passarelas do samba colocar a vida em pratos limpos. Obviamente,
fosse quase uma imperdoável frivolidade; e ainda os A.A. não vão exigir de ninguém gestos
um Deus politicamente de uma Direita reacionária, sobre-humanso como, intempestivamente, procurar
indisposto com as justas lutas democráticas dos uma Delegacia de Polícia para ser condenado por
trabalhadores, propondo-lhes, em vez disto, uma um delito por acaso cometido, ou gestos afms.
apática resignação nesta vida em troca de Tãmbém não vão exigir de ninguém que saia
recompensas somente em vidas futuras. Thdo isto relatando em minúcias seus delitos matrimoniais
foi fermentando um generalizado sentimento para quem está casado. Relatos desse tipo acabam
anti-religioso. gerando muito mais mal do que bem.
A religiosidade, em vez de aparecer como Outra coisa. Nessa caminhada não se trata de ir
expressão dos níveis supremos da reflexão e das como um invertebrado, de cabeça baixa, com uma
emoções humanas por pouco se confunde com humildade excessiva. Não. Basta buscar as pessoas
crendices infantis em divindades milagreiras, lesadas, de cabeça erguida, de coração aberto,
portanto, somente capaz a de sensibilizar parcelas apenas para recolocar as coisas nos seus devidos
incultas e desesperadas da população. lugares.
Ora, cristianismo e religião não têm Esse tipo de ação, na esmagadora maioria das
necessariamente nada a ver com isto. Deus é o vezes, não só produz naquele que é procurado uma
amor, virtude e pecado, salvação e perdição, culpa surpreendente boa recepção, como até desfaz
e absolvição — são entendimentos de suprema mágoas ou provoca admiração. Quem não se sente
complexidade e não podem ser descritos de forma bem ao ver alguém que lhe aprontou alguma
tão primária e caricata. chegando dignamente para lhe pedir desculpas?
Os A.A. conferem importância, sim, aos Os A.A. recomendam, entretanto, que isto deve
sentimentos de culpa. Quem, no mundo, podería ser feito, mas desde que não prejudique terceiros.
desconsiderá-los? Eles existem, são poderosíssimos Caso contrário, ao se limpar a barra com alguns,
e arruinam muitas vidas, levando algumas até a estará se sujando com outros.
buscarem salvação no álcool. Além disto, muitas vezes, nesse tipo de
A psicanálise sempre conferiu a maior reparação, é preciso lutar poderosamente contra o
importância para os sentimentos de culpa. Freud, orgulho e a vaidade Ter que engolir em seco e
por exemplo, os estudou exaustivamente. fazer das tripas coração.
Descobriu que nem todos os sentimentos de culpa E isto é bom, é muito bom. Primeiro porque,
são iguais. Existem sentimentos de culpa por prejuízos objetivamente falando, não é um a humilhação.
realmente causados p o r deslealdades realmente Só o orgulho e a vaidade desmedidos vivem esse
praticadas, por injustiças realmente perpetradas. gesto como uma humilhação. Segundo, porque é
São os sentimentos de culpa racionais, justos, devidos. fundamental e decisivo para o alcoólatra quebrar
E outros, não. Não têm nada a ver. São irracionais. o seu orgulho e vaidade excessivos. Nada melhor
O que fazer com os do primeiro tipo? Sd cabe, para isto que que exercitar, na prática da vida, a
na medida do possível, tentar repará-los, de digna humildade Sabem por que é tão importante
alguma maneira. Nada favorece mais o quebrar a arrogância e a presunção? Porque esta
aparecimento de genuínos sentimentos é a origem mais profunda das mágoas e do
embevecidos e embevecedores, inebriados e ressentimento (sentimentos típicos de alcoólatras)
inebriantes, do que estarmos, minimamente, de e que os levam a beber. E também esta é a origem
alma limpa, não fazendo com os outros, pelo profunda dos sentimentos neuróticos de culpa,
menos, muito mais do que fizeram conosco. ou seja, daquelas dores de consciência irracionais
Digo, minimamente, porque não se trata de ser que simplesmente não têm nada a ver.
santo. Nem se tom ar alma pura e imaculada.
Somos humanos e isso seria impossível. Além á descrevi: 1? Passo: chega de empulhação
disto, não há avaliação de realidade sem que o eu
puxe a brasa para sua sardinha... todos os nossos
julgamentos são sempre meio parciais.
Thdo bem, ninguém é perfeito, ninguém é
J e assuma que é biriteiro; 2? Passo: confie que
existe tratamento para você; não é de
remedinhos nem internação. Porque isso não
resolve nada; só as terapias psicológicas (incluindo
santo, e nem precisa ser, para sentir a consciência as do A.A.) podem mantê-lo definitivamente
tranquila. Porém, tudo tem limite. Depois de certo afastado do copo; 3? Passo: entre de cabeça e de
ponto, começamos a ferir demais nosso senso peito aberto nessas terapias, dando uma chance
instintivo de justiça e a í a barra pesa, os remorsos para elas provarem sua eficácia; ir a 10 sessões e
se assanham, as culpas vão a mil. abandonar é como não ir; 4? Passo: comece a
21
fazer uma sistemática auto-análise; 5? Passo: orgulhoso c vaidoso — não faz mais do que a
encontre alguém em quem você confia e entenda obrigação! Logo ele não sc emociona, nem se
do assunto para compartilhar seus segredos; inebria por nada nem por ninguém. Resultado:
guardá-los sé para si não basta; o tédio. Resultado: tome pileque
compartilhamento prolongado e sistemático é A vaidade e o orgulho excessivos, eu também
fundamental; 6? e 7? Passos: abordarei disse, geram poderosos sentimentos de
posteriormente; 8? e 9? Passos: primeiro faça um intolerância, rancor, mágoa, ressentimento,
levantamento das pessos com quem você aprontou; vingança.
depois, procure-as sempre que possível, com uma
digna boa vontade para tentar colocar as coisas em
pratos limpos. Estes dois últimos passos são A vaidade e o orgulho geram o rancor e a
fundamentais, por vários motivos. Primeiro, intolerância O rancor e a intolerância geram o
diminuir sentimentos de culpa. Segundo, melhorar superego sádico, este gera sentimentos poderosos e
as relações das pessoas com você. Terceiro, ajudar irracionais de culpa Resultado: mais alcoolismo.
a quebrar o orgulho e a vaidade, que são a
principal fonte de rancor, da mágoa e do A mente possuída e envenenada por esses
ressentimento. Este ponto é fundamental. Uma sentimentos enxerga o mundo pela ótica
pessoa orgulhosa e vaidosa em excesso é,
necessariamente, toda melindrosa, toda cheia de envenenada por intolerância, ódio, rancor,
não-me-toques e reage a qualquer coisinha com vingança e ressentimento. Noutras palavras, passa
os mais intensos sentimentos de vergonha, a enxergar as pessoas à imagem e à semelhança de
humilhação, depressão, ódio, mágoa e ressentimento. si próprio. Ora, isso gera enorme sentimento de
culpa. Não de culpas justas e racionais, mas de
culpas que não têm nada a ver com a realidade.
A pessoa com ódio no coração não pode se mebriar Nada a ver com o que as pessoas realmente são.
pela vida Como ninguém aguenta viver não Isto dá uma sensação de ameaça, medo,
inebriadamente, vai ter que buscar o álcool para insegurança, impressionantes. O mundo é vivido
voltar a se sentir in ebnado. Só que aí vira ébrio mesmo. como perigoso, hostil e vingativo, mais do que de
fato é. Gera uma verdadeira paranóia. Resultado:
para reduzir esse terror — álcool.
Claro, o orgulho e a vaidade divinizam o Outra coisa ainda. Todos nós possuímos, dentro
próprio eu. Como um reizinho que merece todas as da cabeça, uma consciência moral, um senso de
coisas e para quem os outros existem respeitando justiça. A psicanálise deu a essa parte da mente até
sua majestade; tudo que sair dessa escrita dará um nome técnico: superego, esse olhar interno que
bode, humilhação, indignação. Como fazem isso os avalia, esse juiz interno que não Rmcionajs
comigo? Eu ter de fazer essas coisas, ir a luta? independentemente do resto da personalidade
Esperar minha vez? Daí para o ódio, a mágoa, o Claro, tudo é farinha do mesmo saco, vinho da
ressentimento, a autopiedade, a sensação de vítima mesma pipa. Assim, se uma personalidade é
de um mundo cruel, incompreendido pela amorosa, gentil e justa, esse juiz interno tenderá a
sociedade, não custa. ser amoroso, gentil e justo. Seu olhar será atento e
O pior é que a pessoa com ódio no coração não seu julgamento justo, fraterno e construtivo.
pode se inebriar pela vida. Como ninguém agüenta Entretanto, se uma personalidade é rancorosa,
viver não inebriadamente, vai ter que buscar o intolerante, violenta, acusadora, implacável,
álcool para voltar a se sentir inebriado. Só que aí implicante, vingativa, saiam de baixo. Esse olho
vira ébrio mesmo. interior nos enxergará com os piores olhos e nos
A fonte maior do ódio e do ressentimento não avaliará de uma forma brutal. Estará sempre
estão sendo nem as frustrações da vida. Por disposto a enxergar defeitos, é cego para nossa
incrível que pareça, isto é verdade A fonte maior qualidades, insensível aos nosso esforços,
do ódio e do ressentimento são o orgulho e a implicante está sempre esperando a hora de nos
vaidade enxovalhar, nos humilhar, nos reduzir a pó. E tome
Orgulho e vaidade geram ódio e ressentimento. culpa, tome angústia, tome complexo de
Ódio e ressentimento cortam o barato da vida. inferioridade, tome timidez, tome insegurança,
Cortado o barato da vida, só resta beber, inclusive tome depressão. E tome álcool.
porque ninguém agüenta uma pessoa odienta e Essa consciência moral, rígida e brutal é
ressentida. J amais ela despertará sentimentos responsável pelos sentimentos neuróticos de culpa.
inebriados e inebriantes em ninguém. A psicanálise dá a esse tipo rancoroso de juiz
Mas não é só por isto. O orgulho e a vaidade interno o nome de superego sádico.
geram uma divinização do eu, uma sensação do eu A vaidade e o orgulho geram o rancor e a
posso’ tudo, tudo me é devido. Ora, essa sensação é intolerância. O rancor e a intolerância geram o
um tremendo corta barato. Por quê? Porque, por superego sádico, este gera sentimentos poderosos e
mais que alguém faça alguma coisa para um irracionais de culpa. Resultado: mais alcoolismo.
22
Quebrar, portanto, a vaidade e o orgulho O 12? Passo preconizado pelos A.A. é, de
excessivos 6 decisivo para o alcoólatra. alguma forma, tornar-se membro do A.A., exercer
Daí a importância que o A.A. concede aos 8? e algum tipo de militância ativa na recuperação dos
9? Passos. alcoólatras.
Pedir desculpas não só bota a vida em pratos Não é difícil para mim reconhecer a sabedoria
limpos, como ainda é um excelente exercício para desse tipo de recomendação. Claro, alcoolismo é
se quebrar o orgulho e a vaidade barra pesada e há sempre períodos de recaídas.
Assim, através desses passos, diminui-se a culpa Nada melhor, portanto, do que investir aquelas
sadia — aquela que vem na justa medida das energias investidas no álcool em alguma atividade
aprontações — e diminui, ainda, de lambuja a antialcoólica. Há que ser prudente com o tubarão
culpa doentia — aquela que vem da consciência etílico. Ele está sempre à espreita, pronto para
moral rancorosa e que não guarda proporção com atacar e possuir, com sua goela larga e manobra
o tamanho da aprontação. certeira, a personalidade. Se quem já foi rei nunca
O 10? Passo contra o alcoolismo. Na realidade perde a majestade, quem já foi alcoólatra nunca
não passa de um aprofundamento do 4? Passo, a perde a inclinação etílica. Ela pode ficar quietinha,
auto-análise sistemática. não incomodar nunca mais. Mas, atenção: não
jogue sangue (ou melhor, vinho) na água.
cabeça humana desenvolve aquilo que ela Daí a insistência de se evitar o primeiro

A pratica. Por isto, um maestro escuta uma


sinfônica inteira sem pender uma nota do

violinos. Um técnico de futebol enxerga, no


gole.
Uma militância na recuperação de alcoólatras
mais humilde dos oboés e do mais afastado dosnão só preenche o rombo deixado pelo não beber,
como ainda gera um sentimento profundo de
campo, espaço e manobra que jamais um torcedor responsabilidade com um ideal. Um A.A. de 15
enxergaria. anos, por exemplo, tem compromissos demais
Assim, é também com a visão interior. Vejo consigo mesmo e com os outros e pensará 100
isto, por exemplo, em mim mesmo. Lembro-me dos vezes antes de beber.
meus primeiros tempos de psicanalista, ou de Além disso, como me dizia um líder do A.A.,
paciente de psicanálise. Tinha a maior dificuldade bem humoradamente: “o A.A. acaba virando uma
para enxergar esse festival de emoções que existem cachaça...” .
nos nossos interiores. Hoje, 20 anos depois, a
velocidade e a precisão do meu olhar são centenas ntencionalmentc, deixei 3 Passos excluídos.
de vezes maiores, rápida e precisamente, saco o que
está acontecendo comigo e até com os meus

segundos entro no barato do que está escrito e


I É que os*considero como de mais complexa
compreensão e, numa leitura apressada,
pacientes. Ao ler uma carta enviada, em questão de podem gerar as maiores reticências.
Refiro-me aos 6?, 7? e 11? Passos. Os 3, na sua
começo rapidamente a formular as primeiras redação original, não deixam margem a dúvidas.
sacações. Tfatam da necessidade da crença numa força
Isto não é mérito. É apenas questão de prática. superior, da fé na existência de Deus. Não
Longe de mim achar que todo mundo deve necessariamente do Deus dessa ou daquela religião.
desenvolver essas percepção psicológica. Há Mas de Deus como cada um o concebe
algumas coisas na vida tão interessantes quanto Ora, a palavra Deus gera as maiores
ela. Desenvolver, por exemplo, a percepção resistências. Os ateus ou materialistas pulam e
artística, a percepção política e tantas outras sentem ímpeto de fechar a página. Ah! Não! Papo
percepções. Às vezes, fico boquiaberto com a de religião, nem pensar.
capacidade de certos coreógrafos em bolar Mas as resistências não vêm somente daí. Daí
passos para os seus bailarinos e a destes em vêm as resistências frontais, talvez até mais fáceis
executá-los. de serem contornadas, se as coisas ficarem bem
Contudo, um mínimo de percepção é necessário esclarecidas. Sei que não é fácil contorná-las, mas
a todo mundo, sob o risco de adoecermos. Agora, dá perfeitamente para chegar lá. Se eu fosse um
então, para pessoas já adoecidas e, em A.A., não me intimidaria muito com esse tipo de
recuperação, como o alcoólatra, isto é resistência. Por quê? Porque na maioria das vezes
fundamental. Daí a insistência dos A.A. nesse ela não é uma resistência a Deus, como expressão
cultivo da autp-análise, da visão interior. Entender do mais complexo dos sentimentos. É, sim, uma
o que se passa consigo e com os outros não resolve resistência às idéias infantilizadas de Deus, que
tudo, mas que ajuda bastante, ajuda. povoam, não os níveis superiores da reflexão
humana mas os seus níveis mais rasteiros. É o
Deus dos catecismos decorados, o pai milagreiro
Se quem já fo i rei nunca perde a majestade, quem que oferece proteção mediante a prática de certos atos
já fo i alcoólatra nunca perde a inclinação etílica. mecânicos ou orações que se repetem como papagaio.
Em suma, o Deus das crendices mais primárias.
23
É daí, exatamente daqueles que dizem acreditar Freud, por exemplo, diz que o ser humano se
em Deus e praticar algum culto, que, creio, virão as move na vida em busca de uma plenitude, de um
mais difíceis resistências. Deus para eles, no fundo, congraçamento cósmico que ele chama de “ estado
não é uma experiência interior profunda. É uma oceânico” e que se podería chamar de encontro
entidade exterior meio mágico, da qual, através com Deus.
de ritos mágicos, se obteria a simpatia O eu luta com todas as suas forças para, com
e proteção. seus próprios recursos, sem precisar de nada ou de
ninguém, alcançar essa plenitude, esse
congraçamento cósmico, esse “ estado oceânico” .
Creio que p o r mais garimpagem que se faça de Quer bastar-se a si mesmo, ser auto-suficiente, ser,
todo esse cascalho de crendices, sobrará, aí sim, portanto, Deus.
mais do que nunca, o ouro da existência de algo Quando constata que por si só ele não se
que nos transcende. completa e nem se basta, ou seja, quando constata
que não é Deus, várias coisas podem acontecer.
Deus, para os A.A. de alto nível, certamente, Primeira. O eu renuncia em parte a sua
não tem nada a ver com isto. Quando um A.A. condição de Deus, tudo bem precisa dos outros.
fala a palavra Deus, não está falando nem do Deus Não de igual para igual, mas sim como
interpretado — e muito bem — por Freud, nem do adoradores. O eu deixa de ser um Deus de absoluta
Deus interpretado — e muito bem — pela auto-suficiência e se torna um Deus necessitado de
sociologia. adoradores.
Para Freud, a impotência e a ingenuidade da Essa é a origem profunda do orgulho, da
criança, seu desamparo emocional e seu desespero arrogância, da presunção, do narcisismo.
intelectual fazem-na enxergar os adultos como Se os outros não se comportarem direitinho
seres todo-poderosos, em cujos braços nada de mal como adoradores, esse eu autodivinizado sente a
acontecerá. Se estiver bem com eles, tudo estará maior indignação e não hesita em desfechar sobre
bem na sua vida. Se estiver mal, tudo estará mal. as pessoas sua fúria divina. Como não fazem tudo
No fundo, Deus, seria papai e mamãe, visto pelos o que eu quero, a hora e a tempo? Como não
olhos crédulos da criança. adivinham meus mais secretos desejos, não
Se o adulto cresce fisicamente, mas não cresce cumprem meus desígnios? Como podem ter outras
emocionalmente, mais tarde se tomará presa fácil coisas na vida além de mim? Esta é a origem
para prosseguir acreditando num Deus desse tipo. profunda do rancor, da mágoa e do ressentimento
A sociologia oferece uma interpretação igualmente desmedidos. Não ser o centro da festa,
interessante A necessidade de que os interesses de homenageado o tempo todo, por tudo e por tgdos,
uma determinada classe social se manterem a salvo significa para o eu, autodivinizado, humilhação ou
das tentações de outras classes sociais faz com que vergonha. Com o passar do tempo, pode passar do
elas sacralizem os valores que defendem os seus tempo, pode passar a se sentir um Deus esquecido,
interesses. Com o passar dos séculos essa um Deus que não deu certo, um Deus fracassado e
sacralização fica mais forte ainda. Daí para a idéia falido. Esta é a origem da perda da auto-estima, do
de Deus, de seus mandamentos e desígnios, basta complexo de inferioridade, da timidez, da
um pulo. Ttido que interessa à classe que domina a insegurança, da depressão.
sociedade é sacralizado e apresentado como Sentindo-se um Deus fracassado, fica carente e
expressão direta da vontade de Deus. acaba por divinzar os outros. É que ele não sabe
Daí surgem as idéias de direito sagrado, direito gostar, não sabe amar, não sabe se aperfeiçoar. Só
natural, direito de vida, ordem natural das coisas sabe divinizar. Aí podem pintar as maiores
etc, etc fissuras, as maiores dependências, as maiores
Ora, de que tudo isto seja chamado de Deus, eu paixões, numa ruim.
não tenho dúvida. Agora que, caso sejam Enquanto se sente ainda um Deus não
depurados esses sentimentos, não sobrará fracassado, ele não sente culpa nenhuma. (Já se
mais nada para Deus, aí tenho as maiores viu Deus sentir culpa? Afinal os outros não
dúvidas. existem para servi-lo e adorá-lo?) Essa ausência de
Creio que por mais garimpagem que se façá de culpa permite toda sorte de aprontações com uma
todo esse cascalho de crendices, sobrará, aí sim, inacreditável autocomplacência, autopiedade.
mais do que nunca, o ouro da existência de algo Quando se sente um Deus fracassado, diviniza os
que nos transcende. outros (agora ele não é ninguém e os outros é que
A primeira vez que entrei em contato com os são Deus). Passa a se sentir indigno, inferior,
A.A. estranhei de cara que 3 de seus 12 Passos pisando em ovos, todo cerimonioso e cheio de
falassem de Deus. Conversando com alguns A.A. culpa por qualquer coisinha. Claro, já pensou
fui entendendo o que isso significava. Num certo pisar na bola diante de um Deus? Olhem, então,
sentido, a psicanálise, com outra palavras, diz as em que enrascada se mete um eu que insiste em se
mesmas coisas. considerar Deus. Que a vida obrigou a se sentir

24
Deus fracassado; cai-lhe profunda insegurança e
depressão. Poderá morrer no álcool para repor o
brilho pendido. A í descobre que somente em Deus, nos momentos
E tome de pileque! Se o orgulho e a vaidade de f é profunda, obtém esse nível de plenitude.
forem tão intensos, o eu pode sentir-se humilhado Se o eu renuncia à condição de Deus numa boa,
por precisar até de adoradores. “Não, um Deus deixará de se divinizar e de divinizar os outros. Se
precisar de gente para se sentir bem, é humilhante tomará apenas gente inebriando gente e sendo por
demais!” Como, entretanto, s<5 a emoção inebria a gente inebriada. O risco do alcoolismo será
emoção humana, esse eu divinizado sentindo-se imensamente menor.
humilhado por precisar dessas emoções alheias, Desdivinizando-se, a pessoa descobrirá que,
não pode se inebriar com elas. O que fazer? apesar das pessoas a completarem parcialmente,
não a completam totalmente, não lhe trazem a
O álcool, porque de alguma form a inebria, entra no plenitude, congraçamento com o cosmos, o estado
lugar do verdadeiro álcool natural que é o amor, a oceânico. Aí descobre que somente em Deus, nos
sensualidade, a poesia. momentos de fé profunda, obtém esse nível de
plenitude

Ninguém agüenta viver sem um mínimo de ara se curar do alcoolismo há que se fazer
inebriamento, sem estar minimamente embriagado
por algo. Se o vinho humano — as emoções dos
outros — humilha, então, há que se recorrer ao
vinho da natureza, ao vinho dos deuses, ao vinho
P uma desdivinização ampla, geral e irrestrita
de si próprio e dos outros. Só se sentindo
humano e não divino, só sentindo os outros
humanos e não divinos, é que uma pessoa se livra
das parreiras, ao vinho da Escócia, ao vinho dos da arrogância, da vaidade do orgulho, da mágoa e
canaviais. E tome de pileque. do rancor, por um lado; e de culpa excessiva da
O álcool, aqui, representa a incapacidade do eu submissão aos outros, da insegurança, do
de se embriagar, se embebedar, se inebriar com o complexo de inferioridade por outro. É só
vinho humano das emoções, do amor e das renunciando à condição de Dcus que se pode
paixões. O álcool, porque de alguma forma verdadeiramente descobrir Deus. Aí, o alcoolismo
inebria, entra no lugar do verdadeiro álcool natural que no fundo, é uma busca inesperada de
que é o amor, a sensualidade, a poesia. O congraçamento, de unidade com o cosmo, deixa de
alcoólatra substitui o amor aos outros pelo amor existir. Por que? Porque descobrir Deus é descobrir
ao copo ou à garrafa. o próprio congraçamento, a própria unidade ctyn
Há uma outra razão por que ele prefere o copo o cosmo.
e a garrafa às pessoas, o copo e a garrafa são mais
dóceis e estão sempre à mão. Ele, o alcoólatra, os
adora porque eles (garrafa e copo) são adoradores ALCOÓLATRAS DROGADOS E DROGADOS
de absoluta submissão e docilidade. Além disto, o ALCOÓLATRAS
álcool está dentro de seu corpo, sempre inebriando
a sua alma. Não é como as pessoas que ora estão Antigamente chegava-se num grupo de
perto e ora estão longe; ora estão nos inebriando Alcoólicos Anônimos e só se via alcoólatras e num
e inebirados por nós, ora estão inebriando e grupo de Toxicômanos Anônimos só se via
inebriados por outrem. Não, o álcool, não. toxicômanos. Atualmente não é mais assim. Cada
Um eu que insiste ainda por outra razão. vez se vê mais casos mistos de alcoolismo e drogas
Desprezando o amor aos homens, só aceita o amor — as chamadas dependências cruzadas. São
divino. Afinal, um Deus só pode ser amado por alcoólatras usando outras drogas e toxicômanos
outro Deus. O álcool, por todo o seu poder de bebendo sem parar.
viciar, por todo o seu poder irresistível de inebriar Até os anos 60 o álcool era consumido em larga
e embebedar, por seu poder até de matar, de escala. As drogas, contudo, praticamentè se
mudar o humor e/ouo sentimento das pessoas, restringiam ao primeiro mundo e na maior parte
pode passar a ser temido e admirado como uma resumiam-se à morfina e à heroína — as chamadas
espécie de Deus. Assim, ingeri-lo é como receber uma "hard Drugs” (drogas pesadas). Cocaína,
espécie de sacramento, uma espécie de eucaristia. maconha e outras eram raridade
Beber, aí toma-se uma busca enlouquecida de Deus. Por isso, o número de grupos de Alcoólicos
Descrevi até agora algumas das coisas que Anônimos era imensamente maior que os de
podem acontecer quando o eu insiste em ser Deus Toxicômanos Anônimos. Estes eram frequentados
e como isto pode levar ao alcoolismo. por músicos de jazz escravizados pelos picos nas
Não é que o alcoólatra seja só isto: não ame, veias, por ex-boxeurs falidos, jogadores de beisebol
não goste das pessoas. Claro que não. Mas é que envelhecidos — figuras do cinema americano dos
dentro dele sobrevivem poderosos núcleos anos 50. Nesses casos, os efeitos devastadores da
emocionais desse tipo. morfina e da heroína eram tamanhos que não

25
havia lugar paia sequer pensar se além de tudo Enquanto isso, apenas 1% da cocaína traficada
eram ou não alcoólatras. é apreendida.
A partir dos 60, esse quadro mudou A droga, além do mais, é altamente
drasticamente. Por conta do aparecimento do favorecedora do crime.
movimento jovem, da guerra do Vietnam, da Primeiro, porque sendo muito lucrativa forma
contracultura, do movimento hippie, outras drogas uma rede de traficantes.
(maconha, LSD, cocaína, Mandrix, Dexamil) Segundo, porque rapidamente os jovens ficam
apareceram e foram consumidas em larga escala dependentes a ela e ela afeta suas mentes ainda
pela juventude Tornaram-se até símbolo das novas imaturas de maneira imprevisível.
gerações na sua luta contra antigos valores. “Puxar Terceiro, porque esses jovens são capazes de
um charo”, “tom ar um ácido”, “cheirar um pó” , tudo para obtê-la.
não significavam dependência química e sim um Quarto, porque gera uma subculture das
ato cultural de afirmação de uma geração sobre drogas, dentro da qual ocorre o prazer de
suas predecessoras, um ato de rebeldia e libertação transgredir leis, de desafiar autoridades, de
de valores velhos e repressivos. Ser jovem se viciar em malandragem e contravenção.
significava a ousadia de consumir essas drogas. Claro. Ninguém gosta de restrições e limites
As antigas gerações, cujas compulsões se a seus impulsos e prazeres. Todos desejam o
instalaram antes do surgimento dessas novas ilimitado e o irrestrito. Como não são possíveis,
drogas, não tinham porque experimentá-las. há que se conformar com as regras, as autoridades,
Já não bastavam os problemas com o cigarro as leis. Isso custa esforço, renúncia, sacrifício.
e o álcool? Para que, depois de velhos, arrumar Há sempre a tentação à transgressão. Se a cultura
novos problemas? na qual se vive não inibir essa tentação e ainda
AssimJovem cheirava pó ou era maconheiro, estimulá-la, louvá-la e heroificá-la, não haverá
enquanto coroa era biriteiro. força humana capaz de contê-la. E surgirá
Passado o grande conflito de gerações dos anos o ímpeto à delinquência.
60-70 as coisas começaram a mudar de sentido. Os recentes acontecimentos na Colômbia
Muitos dos atuais “ coroas” foram jovens na época representam a confluência criminal de todos esses
das novas drogas culturais e fizeram uso delas. E o fatores econômicos, psíquicos e culturais. O Cartel
álcool prossegue consumido por todas as gerações. de Medellin, com suas cifras e crimes, tom a as
peripécias dos gangsters de Chicago nos anos 30
brincadeiras de crianças ou aventuras românticas
O PROBLEMA DAS DROGAS para filmes de época. O narcotráfico, hoje, rivaliza
em poder financeiro até com o comércio de armas!
Se as drogas nos anos 60-70 possuíam um Se contra o álcool a Medicina é a Psicanáfise
sentido contracultural, se representavam a luta de pouco conseguem, se até contra o cigarro são
uma geração para afirmar seus novos valores, nos impotentes, se não são eficazes sequer para conter
anos 80-90 não possuem mais. Tornaram-se apenas a comilança e a jogatina compulsiva, imagine
drogas; fontes de prazer quimicamente produzidos. “ curar” drogados!
Não se trata de ser contra nenhum tipo de E não se pense que esta questão das drogas diga
prazer. Trata-se apenas de avaliar o quanto este respeito somente às grandes cidades. Dejeito
prazer custará. Não só em termos de dinheiro mas nenhum. A maconha, a cocaína, os psicotrópicos
em termos de outros prazeres. Quanto de prazer se há muito tempo não são drogas de cidade grande.
perde para se ganhar determinado tipo de prazer? Já se expandiram até para o sertão.
O problema dos prazeres quimicamente
produzidos é que eles são capazes de despertar
as mais furiosas compulsões. Por isso, toda O CRESCIMENTO DOS TOXICÔMANOS
substância capaz de afetar prazerosamente o ANÔNIMOS
cérebro é perigosíssima. Se existe o tubarão
alcoólico em tanta gente, em muitas mais existe o Diante de um quadro desses, o que os
tubarão cocaínico e outros tubarões fissurados em toxicômanos iriam fazer? Drogar-se até matar
entorpescências e excitações. ou morrer?
Não é à toa que só nos Estados Unidos, a cada O controle policial das drogas é espalhafatoso,
dia que passa, mais de cinco mil pessoas ingressam porém chega às raias do patético. Não atinge 1%
no mundo das drogas. São 150.000 por mês, quase das drogas comercializadas e consumidas no país.
dois milhões por ano. No ano 2000 serão mais de A Medicina e a Psicanálise são impotentes. As
30 milhões, afora os atuais que tiverem sobrevivido! internações são artificiais, inúteis. Desintoxicam,
Um verdadeiro mundo de entorpecidos e drogados. é verdade Mas logo, logo, ocorre a recaída e a
Somente o comércio com a cocaína ultrapassa necessidade de uma futura reintemação. Broncas,
a inacreditável cifra de 100 bilhões de dólares por pitos, cortes de mesadas e conselhos não resultam
ano. E cresce 10% a cada ano que passa! também cm nada.

26
Frente a essa realidade s<5 restava aos Além disso, mesmo quando uma pessoa não
toxicômanos fazer o que os alcoólatras fizeram: possui mais de uma compulsão, as substâncias que
darem-se as mãos, multiplicarem grupos de auxüio excitam as outras, podem excitá-la. Por exemplo,
mútuo. Decorre desse fato o rápido crescimento uma cocainômano que bebe moderadamente: ele
dos Toxicômanos Anônimos. quer parar com a cocaína, mas não com o álcool;
Os Toxicômanos Anônimos diferem muito aí, consegue não cheirar “pó” , porém, toma uma
pouco dos Alcoólicos Anônimos. Na realidade são cervejinha. Seu estado de carência de cocaína se
praticamente iguais, principalmente com esse surto excita. Ele vai para outra cervejinha e mais outra.
crescende de “ dependências cruzadas” que, ao que No fim da noite está no pileque e... louco atrás
tudo indica, veio para ficar. de pó. Se não for nessa noite será na próxima.
Os métodos e princípios de funcionamento A cervejinha para ele não despertou alcoolismo,
são rigorosamente idênticos. Sua única diferença mas ressuscitou a fissura cocaínica. O equivalente
consiste em ter por objeto as toxicomanias e não ocorrerá com um alcoólatra que tenha parado
o alcoolismo. Ou seja, um cocainômano que não com o álcool e tenta substituí-lo pela cocaína.
seja alcoólatra deve procurar os Toxicômanos Se escapar da cocaína, recairá no álcool.
Anônimos, mesmo que faça uso do álcool. TM Em função desses fatos foi-se construindo o
como um alcoólatra que não seja cocainômano conceito de dependência química. De acordo com
deve procurar os Alcoólicos Anônimos, mesmo esse conceito o álcool não deve ser considerado
que eventualmente use cocaína. uma coisa e as drogas outra. Muita gente por
Contudo — repetimos — tanto Toxicômanos pensar assim já sofreu várias recaídas. O álcool
Anônimos quanto os Alcoólicos Anônimos, hoje também deve ser considerado uma droga. Toda
em dia, recomendam abstinência de todas as substância que afere prazerosamente o cérebro
drogas, incluindo entre elas o álcool. ou a mente deve ser considerada uma droga.
Se o anonimato é fundamental para os A idéia de dependente químico vai
Alcoólicos Anônimos, será ainda mais susbstituindo assim a idéia de alcoólatra e
fundamental para os Toxicômanos Anônimos, por toxicômano, por incluir a ambos. E, só se consegue
haver freqüente conexão entre droga e transgressão manter adormecida uma compulsão, se todas as
de leis. Assim, os Toxicômanos Anônimos não substâncias que afetem a mente forem evitadas.
querem saber a vida pregressa, nem atual de Não basta “ Evitar o primeiro gole” ou “ Evitar a
ninguém. Não querem saber o quanto de droga primeira dose” . Há que se evitar ambos.
se usava, o modo que era conseguida, os
comportamentos que ela despertava. Para se ser COMO SABER SE VOCÊ É UM
aceito como membro dos Toxicômanos Anônimos, TOXICÔMANO? ■**
basta uma coisa: querer parar de consumir drogas.
Nada além disso. Thl como no fundo é fácil qualquer um saber
Os fatos revelaram que prisão, hospício e se é um alcoólatra, também é fácil saber se é um
religião pouco adiantaram para os toxicomânos. toxicômano. A atração pelas drogas, a necessidade
E os Toxicômanos Anônimos, estão certos de que imperativa delas não deixa margem a dúvidas.
o valor terapêutico de um toxicômano ajudando Só o horror de se reconhecer impotente diante
outro é sem paralelo. de algo de tão profundas consequências sobre a
As "dependências químicas” para os vida não deixa o toxicômano enxergar o óbvio:
Toxicômanos Anônimos não são curáveis, só são “que usa drogas para viver e vive para usar
controláveis. Nenhum toxicômano poderá usar drogas” , como costumam dizer os membros dos
drogas moderadamente. Por isso, para os Toxicômanos Anônimos.
Toxicômanos Anônimos, as toxicomanias são uma Reahnente é duro reconhecer uma derrota
“ doença” tão incurável e progressiva quanto os completa diante de substâncias socialmente tão
Alcoólicos Anônimos consideram o alcoolismo. “ malditas” .

O NOVO CONCEITO DE DEPENDENTES TOXICOMANIA NADA TEM A VER COM


QUÍMICOS CABEÇA RUIM

Atualmente os grupos de Alcoólicos Anônimos As mesmas idéias que já descrevemos dos


estão repletos de alcoólatras que consomem drogas Alcoólicos Anônimos, sobre o alcoolismo, os
e os grupos de Toxicômanos Anônimos repletos de Toxicômanos Anônimos têm com relação às
toxicômanos que não controlam também o álcool. toxicomanias.
Essas "dependências cruzadas” ensinaram Toxicomania não tem relação com traumas
muitas co'isas. A primeira delas foi verificar que de infância, pais desasjustados, lares desfeitos
as compulsões não são compartimentos estanques, ou outros chavões desse calibre. Dá em todo tipo
costumam se comunicar. Quem possui uma, corre de jovem. Em todo tipo de família. Com a mesma
o risco das demais. freqüência.
27
Toxicomania também não é resultado de boas
e más companhias. A droga está em toda parte.
Impossível impedir o acesso a ela. E, se bom
conselho resolvesse, não existiría toxicomania há
muito tempo. Nem pito, nem sermão, nem bom
exemplo conseguem conter o tubarão toxicômano
quando ele emerge com a fúria de sua boca voraz,
carente de drogas.
Outro mito é imaginar que o toxicômano é uma
personalidade diferente das outras. Alguém
deprimido, esquisitão, cheio de problemas.
Ou alguém excitado, angustiado, eternamente
insatisfeito.
Não é nada disso. Toxicomania ocorre com a
mesma freqüência em todo tipo de personalidade.
Em pacíficos e em violentos. Em mimados e em
não mimados. Em gulosos e em moderados. Em
revoltados e em conciliadores. Em homossexuais c
cm heterossexuais. Em líricos e em obscenos. Em
puros e em devassos.
Que os pais, portanto, não se culpem. E nem
culpem os filhos. Não existem culpados. Não
existem responsáveis. Todos são vítimas.
Toxicomania não se resolve atacando ninguém.
Nem a si próprio. Toxicomania se resolve
procurando quem entende de Toxicomania.
ALCOÓLICOS ANÔNIMOS
RIO DE JANEIRO
Escritório Elstadual
do Rio de Janeiro — 253-9965/233-4813
Zona Sul — 235-3086 (Copacabana)
285-0244 (Largo do Machado)
Zona Norte — 270-1345
Zona Rural 394-4283
Niterói 718-4956
São Gonçaio - 712-3097
PRINCIPAIS TELEFONES NO BRASIL
ALAGOAS — (082) 211-2611
AMAPÁ — (096) 222-5154
AMAZONAS — Manaus — (092) 232-1717
BAHIA - Salvador — (071) 243-9415
CEARÁ — Fortaleza — (085) 231-2437
DISTRITO FEDERAL - Brasília — (061) 226-0091
ESPÍRITO SANTO — Vitória — (027) 223-7268
GOIÁS — Goiânia — (062) 233-0445
MARANHÃO - São Luís — (098) 222-4050
MATO GROSSO — Cuiabá — (065) 321-1020
MATO GROSSO DO SUL — Campo Grande — (067) 383-1854
MINAS GERAIS - Belo Horizonte — (031) 284-7744
PARÁ - Belém — (091) 224-2965
PARAÍBA — Campina Grande — (083) 222-2256
PARANÁ — Curitiba — (041) 222-2422
PERNAMBUCO - Recife — (081) 221-3592
PIAUÍ — Tferesina — (086) 223-5919
RIO GRANDE DO NORTE - Natal — (084) 221-3181
RIO GRANDE DO SUL — Porto Alegre — (0512) 240-0140
RONDÔNIA — (069) 221-7243
SÃO PAULO - São Paulo — (011) 227-5601
SANTA CATARINA — (0482) 22-6713
SERGIPE - Aracaju — CAIXA POSTAL 700 CEP 49015
EDUARDO MASCARENHAS é médico, psicanalista e atualm ente exerce um m an­
dato de Deputado Federal pelo PSDB do Rio de Janeiro.
Para se com unicar com ele escreva para o seguinte endereço: Rua Visconde
de Pirajá, n? 550, sala 2.306, Ipanema , CEP: 22410-002 — Rio de Janeiro — RJ