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RESENHA

Por
Kátia Gally Calabrez

ARAGÃO, Monique; Música, Mente, Corpo e Alma – Interpretação, a Comunicação


através da Música. Rio de Janeiro/RJ: Rocco. ISBN 978-85-325-2318-1.
A autora ARAGÃO, é pianista, compositora e arranjadora, formada em Música pela
UNIRIO. Nos anos 1970, venceu concursos de piano. Em 1990, dedicou-se à composição
de trilhas sonoras para filmes, peças e espetáculos de dança. Tem 06 discos gravados e
atua como produtora musical em programas de TV.
A publicação é um livro que traz uma nova abordagem sobre questões que podem
ajudar os intérpretes a ampliar o entendimento sobre seu relacionamento com a música e
com o mundo ao redor. A interpretação é o que permite ao artista canalizar sua música na
direção do público; mas acima de tudo, é uma estrada em que obra e artista revelam-se
um ao outro num intercâmbio onde ambos são transformados.
Através da interpretação, a alma do artista se comunica diretamente com a alma do
público. Cantando composições com tanta propriedade, mesmo sendo de outros
compositores, fazendo com que todos se sintam compositores das canções. A música é
uma poderosa forma de comunicação.
Propiciar ao intérprete uma nova abordagem na construção de sua interpretação.
Ampliar o entendimento sobre seu relacionamento com a música e com o mundo; é uma
forma de desenvolver o autoconhecimento e o poder de comunicação com o público.
A música é um mundo em si mesma, com uma linguagem que todos nós
entendemos. Desenvolver a comunicação através da música. A música é um veículo de
comunicação, não a finalidade em si; é um meio usado para levar ao público uma grande
mensagem de verdadeiro simbolismo universal. Carrega em sua forma diversas
informações como estilo e técnica usados em sua composição; no entanto, esses
atributos não apresentam características de uma linguagem universal. O estilo, a forma, a
técnica usada na composição; são os adornos utilizados; a música carrega consigo algo
que suplanta os padrões culturais e intelectuais das pessoas. A força da comunicação
atribuída à música está, na realidade, na interpretação do artista. A interpretação coloca o
artista de frente para os sons, onde observa e modela o que vê para corresponder à
imagem de si próprio, internamente. A interpretação é um processo de fusão entre o
artista e a obra; onde se revelam um ao outro, onde ambos são transformados. O
verdadeiro intérprete sempre será um criador. A cada novo trabalho, se aprimora. No
momento em que o interprete incorpora e transcende a música, estará transcendendo a si
mesmo e irá descobrir em sua alma a verdadeira e poderosa mensagem de sua
comunicação. A grande mensagem que a música carrega é a emoção do seu intérprete.
Durante o processo de interpetação, o interprete se auto observa.
Todos os fatos de nossa vida são percebidos, interpretados e expressados por nós,
através do corpo, da alma e da mente; partes indissociáveis de nós, que são planos
básicos de expressão; que podem ser expressos de forma prática (ação, lógica e
intuição), ou de forma transcendente (sensações, sentimentos e emoções). Os
sentimentos são julgamentos particulares, circunstanciais e transitórios que o plano
mental faz de todos os fatos de nossa vivencia; são construídos pela mente usando uma
lógica irracional. As sensações são fundamentais para o desenvolvimento do cérebro; as
experiências do corpo ficam registradas em forma de memória auditiva, visual e muscular.
No vasto universo da mente vivem formas transcendentes, manifestações psicológicas,
onde a razão se encontra com a alma, dando origem a todos os sentimentos. Os
sentimentos são escolhas mentais que variam de acordo com nosso histórico pessoal e,
principalmente, com as habilidades que temos em cada momento para nos relacionar com
os fatos da nossa vivencia. Toda vez que a mente conhecer a mesma lógica nos fatos, os
sentimentos se repetirão. O mesmo fato que desperta um determinado sentimento em
uma pessoa, poderá despertar outro, completamente diferente em outra pessoa. Os
sentimentos aproximam nossa interpretação musical de nossa própria história de vida;
então criamos relações entre nossos sentimentos e algumas músicas ou trechos
musicais; mas não devemos nos aprisionar aos sentimentos. A arte requer a
transcendência do plano físico-mental para que seja o veículo que transporta uma
mensagem de linguagem universal. O mesmo fato que desperta um determinado
sentimento em uma pessoa, poderá despertar outro completamente diferente em outra
pessoa. O interprete não pode estar aprisionado em seus próprios sentimentos durante
sua interpretação; isso pode atrapalhar a execução. Na arte, precisamos transcender
nossa vivencia particular, fazer contato se distanciar dos nossos sentimentos. Quando
estamos inspirados ficamos tomados pela emoção; fazendo ter uma percepção clara da
alma, nos levando a atuar de uma outra perspectiva. O público é o receptor da
comunicação, uma vez que sua alma foi tocada pela emoção do interprete, pode ou não
associar, rotular ou julgar sua própria emoção de acordo com seu momento, seu histórico
pessoal ou cultura. Os grandes interpretes não sentimentalizam plateias, eles emocionam.
O interprete deve seguir suas sensações, deve aproximar sua obra de sua história
de vida através de seus sentimentos, só assim irá enxergar-se refletido em sua obra;
mergulhando fundo em sua individualidade transcenderá os julgamentos do corpo e da
mente, transcendendo sua própria história de vida e encontrara legitimidade de sua
mensagem no profundo de sua alma. Levando-o a outra esfera de interpretação, num
profundo relacionamento com sua obra. A emoção conecta a alma do interprete com a do
mundo.
A musicalidade é a capacidade que todo indivíduo tem de se relacionar com a
música; pode se expressar em uma extensa gama de possibilidades que vai da atrofia até
a genialidade, dependendo do interesse, do exercício, da forma e da intensidade com que
nos relacionamos com ela ao longo de nossas vidas. A música percorre um caminho que
passa pela percepção, pela interpretação até a sua comunicação.
A musicalidade percorre um longo caminho antes de expressar e que pode variar
extremamente de acordo com o tipo de relacionamento que estabelecemos com nós
mesmos e com o mundo foram fatos que mudaram completamente a nossa concepção de
talento. O relacionamento que o grande músico tem com a própria música é de paixão
incondicional, dedicação obstinada, entrega total, renuncia ao mundo.
Técnica musical pode ser definida como um conjunto de procedimentos utilizados
para obter o melhor resultado com o mínimo de esforço e de movimento; constitui meios
para realizar a interpretação com segurança e conforto. O prazer pelo trabalho determina
a vocação, possibilitando horas mergulhados em seu estudo, mantendo vivo o interesse
pela música. O corpo precisa de movimento, a mente precisa de lógica e a alma de
emoção. O domínio da música requer um saber de percepção e expressão do corpo,
mete e alma. Desenvolvemos uma grande capacidade de comunicação entre nosso
corpo, nossa mente e nossa alma, com nosso instrumento e com a música.
Despertar sentimentos ajuda a dar forma, um caráter, uma intenção à música.
O prazer de exercer sua vocação é o verdadeiro segredo da arte musical,
mantendo sempre acesa a chama da arte.
As palavras são meios de comunicação que transportam mensagens; expõe fatos,
descrevem raciocínios, lógicas, imagens e sentimentos; através delas, as manifestações
do plano mental se exteriorizam. É preciso muita habilidade para desbravar o mundo das
emoções utilizando palavras. Utilizar esses trunfos como característica principal. Alguns
gêneros musicais colocam a música a serviço de suas letras que cotam histórias.
Carisma, presença de espírito pressupõe estarmos presentes por inteiro, agindo
com agilidade, graça e inspiração. Podendo se expressar em diversas atitudes, mas antes
de qualquer movimento, se nota pela alma. O incomodo de olhar e de se perceber visto
afasta o cantor de um relacionamento mais próximo com o público e enfraquece sua
presença de palco. Uma má relação com a linguagem dos olhos pode prejudicar uma
apresentação. Os olhos estabelecem diferentes tipos de comunicação; quando se dirigem
explicitamente ao receptor estabelecem com ele uma comunicação direta. Os olhos
elegem o receptor, olhamos para quem queremos nos dirigir e, no momento em que o
contato visual é travado, cria-se um vínculo estreito entre as pessoas. A função do artista
é estabelecer uma forma de comunicação da alma. A emoção não tem cara; está num
patamar acima de nossas experiências físico-mentais. O fato é que a emoção, com seu
caráter transcendente, transforma, eleva e amplia os significados das letras. Como a
música é uma linguagem transcendente, sublimamos os conceitos mentais. Os artistas
que se entregam à arte, enxergam através dela.
Nossa consciência faz reconhecer nossa identidade; mas a consciência de nossa
identidade não exclui aspectos do coletivo, de nossas origens e da ideologia da tribo a
que pertencemos. Podemos nos relacionar com tudo, faremos parte do todo, mas
manteremos nossa individualidade. É dessa maneira que evitamos que fracassemos em
meio às aparências. Nossa identidade não se expressa na teoria, apenas na prática,
precisamos nos experimentar para nos conhecer. Experimentar e amadurecer nossa
personalidade artística. O corpo precisa ser conduzido a expressar todo um trabalho de
interpretação. A linguagem da música seria traduzida em gestos e formas de caminhar,
um grande exercício de conscientização corporal; caminhando por algum motivo, para
chegar a algum lugar, em um momento oportuno, nos fazendo valer da lógica, sensações
físicas e intuições; essas respostas serão determinantes em sua postura de palco. Os
movimentos não devem prejudicar a execução vocal, nem a compreensão da letra da
música, por isso escolher o momento certo de faze-los é importante. Para muitos artistas,
sua verdadeira postura de vida só se revela na sua postura de palco. Se faz necessário
conhecer a própria identidade artística. Ser inteiros em nossa interpretação,
representando a todos por ser única, traduzindo a sua visão do mundo em sua arte.
Músicas e palavras devem trabalhar juntas, sem desperdiçar potência, trabalhando-
as separadamente e depois uni-las. Existe um significado oculto, escondido por trás das
palavras da canção. Tudo está na força da intenção; é preciso ser clara a intenção para
que se expresse. A personalidade artística é algo que muitas vezes não aparece na vida
cotidiana de uma pessoa, muitas vezes só se revelando durante a interpretação; e só
conhecera se permitir vir à tona. Os gestos do cantor precisam ser condizentes com suas
intenções com seu universo interpretativo.
No processo de criação nos transportamos para um outro tempo onde tudo cabe e
nada consegue nos atingir. Os julgamentos do plano mental se elevam ao patamar da
emoção e os sentimentos se afastam. Corpo, mente e alma se alinham. A inspiração é
nossa capacidade de ouvir os insights, as mensagens da alma. A mente, tem a tarefa de
elaborar a forma e ao corpo o desígnio de executá-la. É em momentos como esses que
vivemos intensamente e nos sentimos inteiros.
A revelação da beleza de uma nova obra exige várias etapas de credibilidade. O
criador precisa depositar sua confiança em sua concepção, investir em sua elaboração,
trabalhar em sua interpretação. Cada obra precisa ser vista e respeitada como um
indivíduo que tem seu tempo próprio para crescer, se desenvolver e amadurecer. O
interprete precisa conhecer profundamente a nova criação, precisa experimenta-la,
modela-la, dominá-la e incorpora-la por inteiro e estar convicto de sua beleza. Somente, o
interprete, pleno desta beleza, poderia convencer o resto do mundo. Esse processo
precisa de um tempo maior do que se espera. O interprete precisa estar preparado física,
mental e emocionalmente para esta tarefa. A inspiração ajuda muito nesse processo. A
inspiração está diretamente ligada à nossa capacidade de enxergar e acreditar na beleza
de nossas próprias ideias. O interprete é quem precisa se convencer da integridade de
sua música antes de tentar convencer sua audiência; antes dominando sua execução e
torna-la inegavelmente bela para si, para que outros possam perceber sua beleza. Não
pode faltar visão aos compositores, nem aprisionar composições, nem ter preconceito
pelas dificuldades iniciais ou pelas críticas adversas. A verdadeira beleza não reside
apenas no que é belo, no êxtase da alma, na emoção.

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