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RESENHA

Por
Kátia Gally Calabrez

ARAÚJO, Marconi, Belting contemporâneo – Aspectos técnico-vocais para Música de


Câmara e Ópera (1ª. Edição). Brasília/DF: MusiMed, 2019. ISBN 978-85-7082-061-4.

O autor ARAÚJO, é maestro, compositor, vocal coach, diretor musical e cantor; é


pioneiro do Belting contemporâneo no Brasil, um dos mais reconhecidos diretores
musicais e vocais do pais, com trabalho em Teatro Musical, televisão e cinema.
A obra, através de uma linguagem prática e com um discurso descontraído,
apresenta análises de tratadistas de canto e das práticas de performance; sobretudo,
revela a sua visão técnica de como otimizar a voz lírica, baseando-se nos conhecimentos
da fisiologia da voz. Um guia excelente e fundamental para os estudantes, amadores e
profissionais da Ópera, da música de Câmara, concertistas e todo o universo do canto
lírico.
Ter uma voz rica, poderosa, flexível, com clareza de texto e dona de uma saúde
vocal impecável são qualidades essenciais ao cantor.
Os nove músculos da laringe atuam movendo cartilagens e articulações,
aproximando e separando as pregas vocais. Desses nove músculos, só um seria
considerado respiratório por permitir que o ar passe para os pulmões, já que atuam
separando as pregas vocais. Os outros oito músculos seriam considerados fonatório
porque regulam a tensão das pregas vocais, aproximando-as de várias formas, atuam na
proteção da passagem do ar e na criação dos vários tons possíveis. A participação dos
músculos inspiratórios no controle do canto é importantíssima. A laringe possui
basicamente um osso (hioide), cartilagens e ligamentos. As cartilagens são nove: três são
impares (cartilagem tireóidea, cricóidea e epiglótica) e três são pares (cartilagem
aritenóidea, cuneiforme e corniculada). Os músculos extrínsecos ou são levantadores da
laringe (tireo-hióideo, estilo-hioideo, milo-hióideo, digástrico, estilofaríngico e
palatofaríngeo) ou são abaixadores da laringe (omo-hióideo, esterno-hioideo e
esternotireóideo). Os músculos intrínsecos da laringe são adutores, abdutores e tensores
das pregas vocais; que aparecem aos pares. Os músculos cricotireóideos (CT) são os
tensores responsáveis pelo alongamento das pregas vocais durante a emissão de tons
agudos, e que os músculos tireoaritenóideos (TA) são responsáveis pelo encurtamento
das pregas vocais durante a produção de tons graves. As características físicas destes
músculos: força e explosão (TA) e resistência (CT). A importância dos músculos
Cricoaritenóideos posteriores (CAP) são os únicos abdutores das pregas vocais, e a
importância destes na regulagem d pressão subglótica e controle dos registros. Os
principais adutores tensores, TA e CT; e dos abdutores (CAP), mas sem esquecer dos
cricotireóideos laterais (CAL), dos aritenóideos (AA) e dos tireoaritenóideos externos (TA
externo), adutores e também muito importantes no que chamamos de fechamento de
glótico.
É possível distinguir os registros observando-se o comportamento da onda
mucosa. Nas emissões modais com predomínio do registro de peito, a onda mucosa
mostra-se ampla e evidente; já nas emissões em registro de cabeça, a onda mucosa
passa a ser mais restrita. A diferença muscular na produção dos registros e
fonoaudiólogos especialistas em voz, aceitam o diafragma de atividade muscular
intrínseca de três registros modais.
Registros para homens e mulheres: Registro basal ou fry (aquele cuja participação
de TA é quase absoluta), Registro de peito ou denso (o registro modal com mais
participação de TA e menos de CT), Registro médio (o registro modal com maior equilíbrio
na participação de TA e CT, onde normalmente se encontra o “clec” em cantores não
treinados em junção de registros), Registro de cabeça ou tênue (o registro modal com
mais participação de CT e menos de TA), Registro elevado ou falsete (aquele cuja
participação de CT é quase absoluta). Nas mulheres encontra-se um registro superagudo
(registro de flauta), que pode ser dividido em flageolet e bell register (subregistros que
alteram borda e cor). O quarto registro é chamado de whistle tone (onde não há vibração
glótica e o som passa a ser modulado por um orifício glótico, como um assobio); que se
estende muito além do registro sobreagudo. Quando a participação de CT é maior que a
de TA, a prega fica alongada e sua borda mais fina (tênue); quando a participação de TA
é maior que a de CT a prega fica mais encurtada e sua borda mais redonda (densa). As
bordas tênue e densa no registro médio se tornam muito parecidas e distintas do registro
de cabeça e peito; ou seja, registro mix-tênue (registro médio com borda tênue) e registro
mix-denso (registro médio com borda densa).
Os músculos extrínsecos da laringe ajudam na elevação ou abaixamento da
mesma, facilitando o seu uso de acordo com o equilíbrio entre altura e intensidade
sonora, dentro dos estilos vocais. Vozes líricas possuem a laringe mais baixas do que as
vozes do Teatro Musical; esse abaixamento é fundamental para os sombreamentos
acústicos necessários à grande pressão subglótica utilizada por cantores de ópera. O que
é uma laringe alta para uns pode ser baixa para outros. A elevação excessiva da laringe
favorece um aumento da adução glótica por constrição do tipo esfinctéria; a descida da
laringe causa redução da adução glótica. A posição da laringe pode ser mudada com o
uso dos músculos extrínsecos abaixadores da laringe, sobretudo o ET (esternotireóideo),
e a elevação velar parece interferir também nesse processo, de alguma forma.
A combinação de fechamentos glóticos, velocidade de passagem do ar na glote e a
pressão subglótica consequente podem gerar timbres específicos; o descontrole destes
mesmos fatores pode gerar o desenvolvimento de patologias.
Diferentemente do canto pra o teatro musical, onde a alteração faríngea é
extremamente necessária para a construção de personagens, no canto lírico a faringe
tende a se manter ais estável (com poucas exceções), gerando uma identidade vocal que
é extremamente benéfica para a carreira desse cantor. O conhecimento profundo do
equilíbrio do chamado Chiaroscuro ou ponto de giro de cada voz pode resolver o dilema
de onde a voz deve ressoar. Também, a diferença entre volume e projeção pode aliviar
muito o esforço na produção do som.
Cinco setores de ressonância: três posteriores na faringe (Laringofaringe – que se
estende desde a prega vocal até o início da cavidade oral. Orofaringe – que se estende
desde o osso hioide e do início da cavidade oral até o palato mole. Rinofaringe ou
nasofaringe – que se estende do palato mole à toda parte superior da faringe). Duas
cavidades anteriores: Nasal e Oral.
A voz em sua formação, é o produto de duas forças: uma de propulsão e uma de
retenção. Uma voz saudável administra bem o equilíbrio destas duas forças sem
sobrecarregar nenhuma delas. Depois de sua formação, para que a voz tenha projeção e
cor, deve começar o domínio da ressonância, finalizando a voz otimizada. Dentro do
binômio propulsão-retenção, temos fatores importantes como: ataques, fechamento
glótico, pressão subglótica, velocidade de passagem de ar, controle muscular da
inspiração e da expiração e posicionamento laríngeo.
Propulsão da voz vem do sopro. O domínio de todos os músculos participantes em
um sopro equilibrado é vital para a qualidade do processo fonatório do canto. A melhor
maneira para não sobrecarregar a pressão subglótica é o apoio no floating. A voz precisa
estar firmemente sustentada. O aumento da pressão subglótica e o aumento significativo
do fechamento glótico, causadas por uma tentativa errônea de apoio, podem implicar
retenção excessiva de ar. O floating consiste em manter o osso esterno levemente
elevado, manter os ombros baixos, abrir as costelas na direção Leste-Oeste (horizontal)
durante a inspiração. Inspirar em sensação de apneia procurando soltar o ar de uma
maneira equilibrada. A abertura correta das costelas proporciona uma melhor descida do
diafragma, que é a melhor situação, e que, consequentemente, melhora a propulsão,
permitindo à musculatura abdominal trabalhar ajudando no apoio, mas sem esforço (apoio
costodiafragmático).
Formação (Retenção) – Fonte. A formação do som propriamente dita se encontra
na glote. A retenção que acontece durante a adução é a força opositora à propulsão do
ar. É neste estágio que a voz se forma. Ter certeza de não sobrecarregar o músculo vocal
por falta de sopro ou por excesso dele. Cantar sem esforço começa no controle efetivo da
propulsão/retenção. Encontrar o equilíbrio dos músculos intrínsecos para obter um bom
fechamento glótico, equilibrado e sem esforço.
Ressonância – Filtro, se torna um pouco psicológica. Visualizar os músculos e
ressonadores usados, para que não se perca em sensações, mas às associe à
sonoridade, por meio de imagens em seu corpo. O objetivo da ressonância é terminar a
otimização da voz, amplificando-a, dando a ela seu timbre particular (completamente
associado à fisiologia única de cada um), com a projeção necessária para a ação
dramática. Usamos a laringofaringe, a orofaringe, a rinofaringe, cavidade nasal e cavidade
oral como principais ressonadores. Diversos elementos trabalham no ajuste destas
ressonâncias e da articulação do texto: língua, mandíbula, lábios e palato mole. Para cada
subregistro, alguns destes elementos estarão trabalhados e combinados, direcionando
assim a otimização da voz dentro do estilo vocal pretendido, e buscando a unidade de
todos os registros e cor. As vogais são importantes nos justes das ressonâncias,
modificações vocálicas para o ajuste final do timbre; usar mudanças vocálicas, são
associadas à musculatura usada para que se compreenda o que está fazendo e seja hábil
a repetir tais mudanças. Não confundir vogais tímbricas com vogais articulatórias. O uso
das vogais tímbricas permite abrir cavidades e elevar músculos através das tentativas de
reprodução dessas vogais dentro do trato vocal, sem se limitar apenas à língua e lábios.
Buscar o máximo de ressonância com o máximo de conforto. Para buscar as
ressonâncias necessárias a cada subregistro, são necessários exercícios específicos;
isso devera ser feito segundo as características de cada subregistro e sua interação com
cada ressonância. Todo e qualquer exercício devera ser adaptado ao trato vocal individual
de cada cantor.
O contra-apoio é uma designação para uma manobra de controle de sustentação
da voz, na tentativa de alcançar o controle máximo de leveza do som, durante o apoio,
consiste em logo após a inspiração e durante o floating, colocar o abdômen para dentro
(sensação de esconder e não pressionar o abdômen).; usando o músculo grande dorsal,
mantendo o epigástrio solto e livre. Proporciona no aumento do aproveitamento do ar,
proporcionando frases mais longas, mesmo durante variações de dinâmica. A voz parece
estar com a ressonância muito mais alta e sem a participação da laringe. (Lutte vocalle
descreve a luta vocal entre os músculos inspiratórios e expiratórios. Importante a
regulagem da pressão subglótica, ou seja, o equilíbrio entre pressão respiratória e
resistência glótica (lutte vocale, appoggio, stuze – sustento; e satuprinzi – princípio de
armazenamento).
Volume ou intensidade de função pode ser regulado nos níveis: subglótico
(aumento da potência aerodinâmica, ou seja, sopro, resultando em um acréscimo da
pressão subglótica aumentando a intensidade acústica). Glótico (o aumento da resistência
glótica pode influenciar no controle da intensidade vocal, por meio da contração da
musculatura adutora da laringe, ocorrendo um aumento da fase fechada do ciclo
vibratório, aumentando a intensidade vocal). Supraglótico (a ressonância do trato vocal
superior tem efeitos importantes na distribuição espectral de energia acústica. O trato
supraglótico pode ser alterado voluntariamente para modular suas características de
atenuação e amplificação do som glótico). Usar a ressonância para conseguir a
intensidade vocal necessária, tendo a certeza que existe um equilíbrio, nos níveis
subglótico, e glótico, que facilitam o uso do trato supraglótico.
Os principais articuladores que podem moldar o som vocal são os lábios, língua e
mandíbula; mas é a combinação desses fatores que fazem com que o resultado vocal
seja mais efetivo. Levando em conta os lábios existem seis tipos de embocaduras:
redondos (posição dos lábios fechados na emissão vogal [u], tende a afinar a voz para o
oscuro, sendo facilitadora para processos de cobertura vocal), estirados (posição dos
lábios estirado no eixo horizontal, deixando os dentes superiores aparentes, como na
emissão de um [i] exagerado; tende a afinar a voz para o chiaro, sendo usada muitas
vezes para a manutenção do brilho), soltos (posição dos lábios em repouso e o comando
do seu formato é definido somente pela mandíbula, facilitando para a afiação do
chiaroscuro, seu relaxamento facilita para o oscuro da voz), campânula (posição dos
lábios fechados, mas com a ponta empurrada para fora com bastante tônus; afinando
para o chiaro, mas sem perda do oscuro), cobertura de lábio superior (posição onde o
lábio superior cobre os dentes superiores e o inferior mostra os dentes inferiores; afinando
para o oscuro da voz, facilitando para a cobertura e troca de subregistros e passagens) e
cobertura de lábio inferior (posição onde o lábio inferior cobre os dentes inferiores e o
lábio superior mostra os dentes superiores num meio sorriso, afinando para o chiaro,
facilitando o brilho no sobreagudo). Levando em consideração a língua e a distância entre
sua ponta e os dentes incisivos inferiores, são dois tipos de posição: próxima (posição
onde a ponta da língua se aproxima dos dentes inferiores, afinando para o chiaro) e
distante (posição onde a ponta da língua se desloca para longe dos dentes inferiores,
afinando para o oscuro). Com relação à elevação do dorso da língua: anterior (posição
onde o dorso da língua se desloca em direção ao palato duro, afinando para o chiaro) e
posterior (posição onde o dorso da língua se desloca em direção ao véu palatino,
afinando para o oscuro). Levando em consideração a mandíbula, três tipos de posição:
cerrada (posição onde os dentes superiores se encostam aos dentes inferiores, posição
afinando para o oscuro), ampla (posição onde os dentes superiores se encontram mais
distantes dos inferiores, afinando para o chiaro) e meio-cerrada (posição intermediária
entre a cerrada e a ampla; afinando gradativamente para o chiaro, à medida que a
mandíbula se aproxima mais da posição ampla, afinando para o oscuro, à medida que a
mandíbula se aproxima mais da posição serrada).

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