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RESENHA

Por
Kátia Gally Calabrez

SWANWICK, Keith; Música, Mente e Educação – Belo Horizonte/MG: Autêntica Editora


LTDA, 2014. ISBN 978-85-8217-115-8.
O autor, Swanwick, é professor emérito do Instituto de Educação as Universidade
de Londres. Foi o primeiro professor titular de educação musical e Diretor de Pesquisa da
Europa. Formado com honras no Royal Academy of Music, onde estudu trombone, piano,
órgão, composição e regência. Passou a dedicar-se a docência em escolas de ensino
médio, cursos de especialização e universidades. Vasta experiência em regência, atuou
em orquestras e igrejas. Foi editor do British Journal of Music Education, o primeiro
presidente da British National Assoiation of Education in the Arts, chefe do Music Council
(Inglaterra), professor visitante na Universidade de Washington e professor conselheiro no
Instituto de Educação (Hong Kong).
O autor, Swanwick, nesta obra ele quis identificar os elementos psicológicos
essenciais que formam a mente musical, ou seja, a mente experimentando o mundo com
a música. Mostra que os estímulos musicais têm sido reduzidos a fragmentos de som sem
nenhuma relação com a música como a experimentamos de fato; também mostra ser
necessário, portanto, que retornemos aos fundamentos para chegarmos a uma visão
positiva das artes como parte do processo de desenvolvimento da mente e para
expormos os elementos essenciais da apreensão e resposta musicais, o coração da
produção e da conquista da música. O autor revela que a música não é simplesmente
uma sensação prazerosa que dá origem a uma reação de “reflexo” físico; mas envolve
processos cognitivos e pode ser mais ou menos compreendida pelos que respondem a
ela. A música não é simplesmente um espelho que reflete sistemas culturais e redes de
crenças e tradições, mas pode ser uma janela que abre novas possibilidades.
A música é um tema poderoso demais para comprometer sua individualidade à
teoria da educação. Talvez a teoria de educação musical mais antiga e melhor
estabelecida seja aquela que enfatiza que os alunos são herdeiros de um conjunto de
valores e práticas culturais e precisam dominar habilidades relevantes e informações para
poderem tomar parte em assuntos musicais. Uma consequência dessa teoria é que o
papel do professor passa de “diretor” musical para facilitador do aluno: ele estimula,
questiona, aconselha e ajuda, em vez de mostrar ou dizer. O sucesso de tal abordagem
está em os professores serem incrivelmente sensíveis aos produtos musicais dos alunos.
Uma questão crucial é que não estamos pensando sobre uma cultura musical
alternativa, mas sobre um pluralismo. A música é comumente envolvida no processo de
delimitação de territórios culturais; músicas diferentes têm seus próprios públicos, suas
próprias estações de rádio e suas próprias seções em lojas de discos. Os valores cruciais
do respeito às tradições musicais, criatividade individual e relevância social apresentam
um desafio a qualquer tentativa de desenvolver um conjunto de ideias que sirvam para o
futuro. Precisamos planejar um pouco mais para alcançarmos consistência e efetividade;
precisamos ter currículos elaborados sensivelmente, com um raciocínio claro; importa,
sim, que pensemos juntos sobre a educação musical. Ideias que se relacionem
fortemente com a natureza da própria música, com a psicologia humana e os contextos
sociais. De maneira geral, o trabalho psicológico na música e na educação musical
parece ter negligenciado o problema central e não tem tido uma teoria unificada e
compartilhada.
As artes conferem outros benefícios através dos processos de transferência;
desenvolvem certas qualidades e habilidades como postura, graça e coordenação;
encorajam “disciplina, dedicação e atenção ao detalhe”; e auxiliam no entendimento
interpessoal e até mesmo internacional. A não ser que as artes possam ser percebidas
como desenvolvedoras da mente (no sentido mais amplo), sua função não pode ser
basicamente compreendida, tampouco seu papel na educação. Educação é certamente
mais do que apenas ter “experiências”, ou adquirir um repertório de habilidades e fatos.
Tem a ver com o desenvolvimento do entendimento, perspicácia: qualidades da mente.
Afirma-se que através da criação artística que podemos reconhecer, ordenar e externar
nossos distúrbios, nossos sentimentos, resolvendo assim “dificuldades com apelos
sensoriais”. As artes são frequentemente vistas como criadoras de mundos de sonhos,
dentro dos quais podemos “escapar” da realidade. As artes como maneiras de conhecer
são tão potencialmente poderosas quanto qualquer outra forma de discurso humano e, do
mesmo modo, são capazes de contribuir para o desenvolvimento da mente num nível
conceitual. As artes são, e sempre foram, essenciais para desenvolver e sustentar a
mente, assim como outras formas de representação, incluindo a linguagem. E esse
desenvolvimento da mente é intrinsecamente recompensador, absorvente, empolgante. O
sujeito das artes é a consciência humana, deliberadamente ampliada e explorada. É por
isso que as artes têm sido muitas vezes ligadas a sonhar ou ao “outro mundo”.
A música tem significado para o indivíduo num alto nível de importância pessoal.
Não só o valor da música é fortemente sentido e publicamente declarado, como também o
campo é sujeito à análise crítica detalhada e desenvolvimento; o potencial musical é
expandido por novos processos e perspectivas. A educação musical é apenas um fio da
experiência numa rede de atividades sociais e valores comunitários. Tenhamos de deixar
claro que os processos de rotular a música e colocá-la em um contexto de “aprovação”
social são universais e podem ser encontrados facilmente em qualquer categoria de
tradições clássicas ocidentais ou “folclóricas”. Algo dessa fusão da música com a cultura
geral e o estilo de vida se baseia em costumes culturais óbvios, que poderiam ser
religiosos, políticos ou cair na categoria geral do “costume e prática”.
O papel do educador é familiarizar os alunos com diferentes convenções
estruturais através do compromisso ativo – explorando e observando como as ideias
musicais podem se estabelecer e se transformar por meio de várias formas de repetição e
contraste. Diferentemente da caracterização expressiva, os procedimentos formais não
são tão facilmente identificáveis com grupos culturais particulares. Se a música está
sempre tão firmemente entrelaçada dentro de estruturas sociais e práticas culturais
específicas, as pessoas não poderiam responder à música de outros tempos e lugares.
Através da educação, procuramos o desenvolvimento da mente, para o cultivo estético da
consciência, e não a anestesia do barulho e a catarse física, mesmo que estas possam
ter um importante papel em alguns contextos.
A tarefa da educação é reduzir o poder de tais estereótipos por meio de uma
exploração vívida dos procedimentos musicais, fenômenos que podem ser relativamente
independentes de propriedade cultural. A música tem suas próprias maneiras de criar
novos valores, transcendendo tanto o indivíduo quanto a cultura imediata. Acima de tudo,
a música é uma arte social, em que tocar com outros e ouvir outros tocarem é a
motivação, a experiência e o processo de aprendizado. Isso é educação musical pelo
encontro. Na música, “fazemos soar o mundo subjetivo”. O professor precisa ter cuidado
para não acordar o aluno, e “a falta de jeito, insensibilidade, nervosismo e insegurança do
professor, todos ameaçam o sonhador”. A tarefa maior da escola e da faculdade é
aumentar a probabilidade desses encontros por meio da construção do conhecimento e
da experiência de maneira sistemática num espírito explícito de crítica musical,
relacionando a produção musical dos alunos ao mundo da música exterior,
interculturalmente.
Música é psicologicamente tecida dentro da tapeçaria do discurso humano; sua
presença numa cultura é um sinal positivo. Nossa tarefa é criar um currículo
verdadeiramente progressivo para todos, ao mesmo tempo que promovemos eventos
únicos para alguns. Essa dupla obrigação, embora difícil, é inevitável.

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