Você está na página 1de 5

CRÍTICA

A PSICANÁLISE a fazer psicanálise e a pensar psicanaliticamente


E SEU DUPLO com o primeiro dos psicanalistas.
Ora, aquela sessão, apresentada como se tivesse
ocorrido de fato, não passou de uma boa construção
A viagem: da literatura à psicanálise, de Noemi de ficção freudiana — como a consciência literária
Moritz Kon. São Paulo, Companhia das Letras, 2003, contemporânea tem nomeado o fenômeno. Pelo
416 pp. menos naquela forma de clínica e diálogo psicanalí-
tico em transferência, nada daquilo jamais ocorreu,
Tales Ab'Sáber pois o paciente que trazia o seu sintoma mediante
lembranças encobridoras ao analista Freud era na
realidade o próprio homem Freud. É a história de vida
Em 1899, quando se preparava para publicar de Freud e sua construção psíquica de uma lembran-
ça encobridora infantil digna de análise que são
A interpretação dos sonhos, Freud escreveu um
apresentadas, na ficção literária da sessão, como se
pequeno ensaio acerca de um outro fenômeno de
fossem de um outro, um paciente inteligente e
defesa que a sua recém-criada psicanálise havia
sensível que, segundo o narrador Freud, "passou a se
identificado. Tratava-se de mais uma das mínimas e
interessar por questões psicológicas desde a ocasião
inúteis formas psíquicas da vida cotidiana que tanto
em que consegui livrá-lo de uma leve fobia por meio
deram valor e riqueza à nova disciplina, a qual ele
da psicanálise"1.
então chamou de "lembrança encobridora". Para
enfrentar o problema teórico que lhe interessava Essa curiosa construção, em que Freud analisa
demonstrar — o do uso deslocado e psiquicamente Freud numa peça de ficção que passa perfeitamente
muito investido de lembranças infantis ligadas em por real, na qual borgianamente ele se depara consi-
falso a um acontecimento central, esse sim emocio- go mesmo como se fosse um outro, um paciente
numa sessão de análise, dá forma literária sintética à
nalmente significativo e que por isso mesmo caía
intensidade do próprio processo de auto-análise e
em esquecimento —, Freud construiu uma pequena
mostra o quanto Freud aprendia teoricamente desde
peça de ficção literária, talvez a primeira aparição
si mesmo, ao mesmo tempo que tentava ensinar ao
do diálogo de mútuo reconhecimento e descon-
leitor a forma ideal de se comportar diante do até
fiança entre a literatura e a psicanálise, campos que
então desconhecido dispositivo analítico. Trata-se de
sempre foram algo afins e algo distantes. Ele
uma rica reflexão freudiana — construída como um
descreveu uma sessão analítica com um paciente
conto, forjada como um sonho, em que todos os
inteligente, "de nível universitário", mas que "traba-
elementos presentes correspondem ao sujeito sonha-
lhava num campo muito distante" daquele do seu
dor —, embora muito simples e precisa em ato e em
analista, o narrador Freud. Homem sensível, apren-
forma, sobre a imbricação fantasmática entre o espa-
dia muito da forma de desdobramento do humano
própria ao inconsciente freudiano por meio de sua
própria análise com Herr Professor. Aprendia mes- (1) Freud, Sigmund. "Lembranças encobridoras". In: Edição
standard das obras psicológicas completas, vol. III. Rio de
mo a aceitar as formas psíquicas por ele propostas, Janeiro: Imago, 1987, p. 276.

JULHO DE 2004 181


CRÍTICA

ço analítico e o espaço literário, entre a criação de francesa Monique Schneider, para quem "a decisão
formas de self próprias ao continente psicanalítico da tomada repetidamente por Freud de estudar a obra
sessão e a experiência imaginativa apresentada pela de arte como uma produção fantasmática [...] se daria
literatura, que no texto configuram um único espaço. como uma defesa contra um dos poderes da arte:
Podemos lembrar aqui que alguns anos depois Lukács reenviar ao psicanalista uma visão recusada dele
pensaria como a literatura ganhara consciência, na mesmo"3. Esse é um ponto teórico que, como vere-
própria forma (o romance), da incompletude do mos, retornará com toda a força em A viagem, mas
sujeito e de seu processo histórico ainda antes que a me parece importante apontar desde já que aquele
psicanálise — que se constituía no mesmo fenôme- primeiro trabalho de questionamento da complexa
no, fruto do mesmo processo histórico — viesse a relação entre psicanálise e arte desaguava no pensa-
surgir daí com a sua própria ficção eficaz. mento psicanalítico de Donald Winnicott e sua es-
É essa senda da dimensão do que é ficcional na pantosa criação da "terceira zona da experiência
teoria científica do psiquismo elaborada por Freud humana", definida pelo grande analista inglês como
— num contexto histórico em que muitas ficções aquela que, em estado de paradoxo, não é nem
literárias falavam da necessidade objetiva de uma realidade interna nem mundo externo. Passemos
época de criar teorias da alma humana — que este então ao avanço conceitual, articulado a essas pes-
A viagem vem retomar. Em seu elaborado viés quisas anteriores, que representa A viagem.
foulcaultiano, a autora nos remete à relação mais Moritz Kon parece convencida de que a literatu-
íntima da psicanálise com o seu tempo originário. ra é uma modalidade de formulação — no sentido de
Deixando um pouco de lado o já tão conhecido dar forma e criar modelos — para a experiência
espetáculo teórico e epistemológico que foi a emer- subjetiva que não deixa a dever ao trabalho análogo
gência da disciplina freudiana em seu momento realizado em outros campos da cultura, como o da
heróico, ela demonstra a profunda correspondência psicanálise, que por sua vez, em sua forma conceitual
de formas e hipóteses, bem como o fascínio cultural historicamente constituída, responde a problemas da
pela alma humana e sua complexidade moderna, literatura de seu tempo de origem. Esse ponto é
que a psicanálise partilhava não com a ciência mais importante, pois assinala a historicidade e a particu-
dura e rigorosa do seu tempo, mas com o campo do laridade epistemológica do conhecimento psicanalí-
seu duplo cultural, que sempre assombrou Freud e tico, que não é universal ou a-histórico ou mesmo
sua disciplina: a literatura e os "poetas" — como ele real em si, consistindo antes num método experi-
gostava de se referir, genericamente, aos homens de mental de produção teórica de um significante para
letras. um significado desconhecido — como pensou Lévi-
Um dos campos privilegiados do pensamento Strauss — que teria correspondência profunda com o
psicanalítico contemporâneo, a pesquisa das rela- próprio trabalho da ficção e sua específica concepção
ções entre psicanálise e arte encontra em Noemi do humano.
Moritz Kon uma de suas principais formulações entre Essa perspectiva, que iguala imaginariamente o
nós. Numa área de estudos que revela grande aden- trabalho da ficção freudiana ao das demais ficções
samento e uma forte tradição local, lembremos ape- fantásticas correntes na época de sua emergência, as
nas três nomes que se dedicaram à questão: os quais também se detinham no mistério da alma
mestres Isaías Melsohn, Renato Mezan e João Frayze- humana — como os contos e novelas de Edgar Allan
Pereira. E não é de surpreender que a mais jovem e Poe, Robert Louis Stevenson, Machado de Assis e
não menos radical analista tenha freqüentado, na Guy de Maupassant —, é duplamente importante na
intimidade de sua formação, o pensamento dos três, matéria de A viagem, pois é essa conexão que
para não falar de Luiz Alfredo Garcia-Roza, igualmen- permitirá a Moritz Kon passar do plano do conteúdo
te mestre de teoria psicanalítica e de escrita literária. do problema ao fascinante plano da forma de sua
O trabalho mais amplo de Moritz Kon, que inclui própria obra. Para operar e demonstrar essa corres-
estudos sobre Proust, Paul Klee, Clarice Lispector e
Sebastião Salgado, tem como fundamento o livro (2) Kon, Noemi M. Freud e seu duplo: reflexões entre psicanálise
Freud e seu duplo2, em que ela examina a complexa e arte. São Paulo: Edusp, 1996.
e ambígua relação de Freud com a arte. Ali a autora (3) Schneider, Monique. "La realité et la résistence à
foi levada pelo fio hermenêutico da psicanalista 1'imaginaire", apud ibidem.

182 NOVOS ESTUDOS N.° 69


CRÍTICA

pondência histórica a autora radicaliza o plano da objetiva de uma matéria que está lá, sob o recalque,
analogia, fazendo passar o próprio pensamento para ser lembrada, mas como algo que deve ser
freudiano para o interior de uma ficção, uma novela criado vivamente desde aquela vida específica, uma
fantástica em que o médico vienense interessado construção que analista e paciente operam juntos, e
na histeria viaja com seus colegas literatos contem- que tem real efeito subjetivante na vida psíquica do
porâneos igualmente interessados nas dissociações e paciente, a partir de um único índice de sua verdade
formas estranhas da vida psíquica humana de seu — a convicção de que as coisas foram assim, nas
tempo. Além de articular numa única forma, num palavras de Freud. E nesse ponto ele é obrigado a
único novo sonho — o da novela A viagem —, a pensar a relação entre teoria psicanalítica e delírio,
psicanálise e a literatura fantástica, na seção teórica pois ainda aí se depara com o caráter ficcional, e
do livro Noemi discutirá tanto os passos da criação da eficaz, de toda a sua construção.
psicanálise quanto a natureza e a teoria da literatura Já avançada no tempo histórico e epistemológico
fantástica. pós-freudiano, com a presença desalienante e encan-
É assim que o problema teórico levado radical- tatória de Foucault, Merleau-Ponty e Winnicott em
mente a sério pela analista parece exigir mesmo a seu pensar, Noemi Moritz Kon não necessita mais da
forma ficcional, em lugar do tradicional discurso estrutura racionalista do pensar freudiano clássico,
desencantado do campo analítico. Tal campo passa a operando criticamente — como seus mestres teóricos,
ser o de uma ficção operativa correspondente às mas a seu modo muito particular — uma verdadeira
criações dos literatos — como o livro demonstra com "dialética do esclarecimento" no interior mais pro-
precisão —, mas que se tornou fenômeno desen- fundo da psicanálise, disciplina que, ela própria e a
cantado na psicanálise pela forma positiva da razão seu tempo, iniciou o giro da razão na direção de seu
iluminista, força interior de caráter filosofante que fez contrapelo. Nessa dialética da psicanálise ela radica-
da criação imaginativa freudiana uma ciência. Ao liza a sua própria hipótese inicial numa construção
reunir em um vagão de trem que vai de Paris ao teórica para fora do campo da razão. Se o duplo
interior da França os escritores de relatos fantásticos negativo que demonstrava os limites racionalistas da
e o primeiro psicanalista, todos contemporâneos, psicanálise freudiana em seu primeiro tempo era a
para uma viagem pelas figuras e modelos análogos arte, como o livro de 1996 já apontava, agora a
da alma humana, Noemi faz perder a fronteira entre analista avança para a oposição epistemológica cen-
a ciência e ficção — como Freud sempre intuiu e tral entre as teorias da alma dos literatos de fins do
temeu —, não apenas porque essa é a matéria de seu século XIX e aquela de Freud, que se tornou hege-
estudo no plano do conteúdo, mas porque a própria mônica: enquanto aqueles mantinham as estranhas
forma imaginativa de sua novela (que ela chama em formas da experiência psíquica, que conheciam tão
dado momento de "ficção instrumental") demonstra bem quanto Freud, sob a égide do sentido encan-
em ato e experiência a profundíssima relação, de tatório do "fantástico", o psicanalista transformava
forma mesmo, entre a psicanálise e a construção toda experiência psíquica, por mais estranha que
literária. chegasse a ser, em um jogo de formas positivas e
pensáveis, em um campo para a fala vitoriosa da
Ao lermos a ficção teórica de Kon não diferen-
razão, na esfera de um último desencantamento, o da
ciamos mais o Freud dos primeiros tempos de seus
própria natureza opaca da vida subjetiva.
colegas escritores contemporâneos, não apenas por-
que reconhecemos conceitualmente que eles nave- Diante dos mesmos fenômenos, enquanto Freud
gam nas mesmas águas — ou trilhos —, mas porque enunciava "onde há id faça-se ego" os escritores
temos reconstituído o fundamento humano mais pareciam suportar um lugar de indefinição e de
complexo e verdadeiro de tal campo — em corres- abertura à intensidade do sentido nas formas radicais
pondência com o tempo, o que só a forma literária de dissociação e fatos psíquicos inexplicáveis, o qual
pode dar —, que é também o verdadeiro lugar onde não se capturaria sob nenhuma redução ao conceito.
acontece uma análise: o gesto especulativo criador Na esfera da literatura e da arte chegava-se mesmo a
fundado profundamente sobre o sentido da experi- propor modelos acerca da natureza e funcionamento
ência do sujeito. E é exatamente nessa direção que da alma humana — alguns muito próximos aos da
Freud, ao fim de sua vida criativa, vai definir a noção própria psicanálise, outros ainda aos de uma psica-
de construção em análise, não mais como certeza nálise até mesmo pós-freudiana —, mas os artistas

JULHO DE 2004 183


CRÍTICA

cultivavam a noção de mistério, mantendo opaco e nística a Freud até Winnicott e Bion, que superaram,
recôndito um certo núcleo sintetizador da experiên- cada qual a seu modo, os limites da enunciação
cia e da produção de sentido humanas, segredo que positiva do inconsciente freudiano. Mesmo o último
a postura epistemológica de Freud tendia a devassar. Lacan, aquele dito o da clínica do real, parece
Desse modo, o trabalho de Noemi repõe uma trabalhar com abstrações teóricas as mais radicais
das questões epistemológicas centrais endereçadas à para permitir a emergência radical do não-saber e do
psicanálise ao longo de seu primeiro século: a ordem paradoxo como formas igualmente produtoras do
das razões que organiza o discurso freudiano, a sentido humano.
estrutura de sua própria enunciação, de caráter po- No estudo de Noemi Moritz Kon o problema
sitivo e iluminista, de extração essencialmente pós- reaparece sob outra forma: a do estrangeirismo
kantiana, seria uma força epistemológica estrangeira radical da percepção da realidade psíquica do in-
à própria natureza do inconsciente psicanalítico? Dito consciente pelos literatos pré-psicanalíticos, que
de outra maneira, até onde a psicanálise, com sua mantêm a ordem do mistério e do fantástico lá onde
abertura à outridade do sentido humano, pode estar Freud, crendo nos poderes emancipatórios da razão,
limitada e distorcida pela natureza histórica das cate- quis ver um enigma cujos elementos constitutivos
gorias de sua enunciação, seu positivismo e materia- poderiam ser localizados e ordenados como inter-
lismo de fundo biologizante e seu princípio metafí- venção científica no caos da natureza humana. Em
sico de questionamento de seu objeto, ao manter a face dessa velha ilusão do mestre — ilusão histori-
lógica de diferenciação entre o sujeito, o objeto e seu camente necessária para a própria constituição da
conceito? disciplina — Moritz Kon acentua o caráter sintético e
Tal crítica a uma possível interiorização norma- fantástico da epistemologia literária que ela cria para
tiva da razão na esfera do inconsciente tem longa a psicanálise de Freud: "A forma literária, assim como
história. Como a autora indica, o próprio Freud teria o sonho, parece poder presentificar de golpe, num
sido um dos primeiros a realizá-la em Além do todo, múltiplas linhas entrelaçadas; configuração
princípio do prazer, de 1920, ensaio construído de densa ou, em outros termos, condensada, guarda
forma radical e originária para a própria disciplina espaço para a manifestação concomitante de uma
sobre uma outra ordem de razões. Podemos lembrar pluralidade de vozes e permite operar mais próximo
aqui o célebre trabalho de Georges Politzer, Crítica da simultaneidade, da não-linearidade própria do
dos fundamentos da psicologia (1928), marco da trabalho inconsciente. Mantém assim um aspecto
crítica à operação objetivante da psicanálise, e o robusto, multidimensional, holográfico, que o pensa-
espinhoso conjunto de fragmentos sobre a disciplina mento analítico, num movimento contrário, busca
em Minima moralia (1951), em que Adorno questi- destrinchar e inserir no domínio da lógica identitária
ona os limites epistemológicos e críticos da psica- e da determinabilidade. Entre o pensamento analíti-
nálise, bem como seu malfadado destino público. A co e o pensamento sintético há um desencontro, ou
questão foi retomada de forma surpreendente por talvez uma oposição, que é preciso sublinhar; eles
Foucault, já nos anos 1970, no primeiro volume de são, de certa maneira, como a teoria e a clínica psi-
sua História da sexualidade, no qual ele aponta o canalíticas, como a inspiração e a expiração de um
horizonte epistêmico da modernidade em que, bem ser: sua respiração" (p. 312).
ao contrário do que Freud engenhosamente cons- Diante desse nó teórico abordado no longo
truiu para a ideologia de sua ciência, sobre o sexual trabalho do livro pelo cotejo de Freud com seus
se devia falar sempre e mais e mais, transformando- outros colegas, os romancistas das teorias da alma,
o em um campo de apropriação e controle das for- Noemi relembra a necessidade de operação dessa
mas do poder e sua ordem de razão, em face do qual força sintética, propositiva de formas e da emer-
a psicanálise não seria uma construção inteiramente gência imanente do sentido, própria às formações
isenta, mas, bem ao contrário, condizente. do inconsciente, aos sonhos, aos chistes e à obra de
No interior da própria disciplina há uma história arte, e propõe a noção literária de fantástico,
de reencantamento do sentido psíquico, de revalori- esquecida pelo nosso tempo prático, para operar a
zação do mistério, que vai pelo menos de Grodeck e sua própria clínica psicanalítica: "Essa literatura
seu humor teórico, de Ferenczi e sua análise mútua e demarca um núcleo duro no bosque do maravilhoso,
de Binswanger e sua exigência de integridade huma- uma casamata, uma trincheira que não se deixa

184 NOVOS ESTUDOS N.° 69


CRÍTICA

invadir ou derrubar. Nesse ponto as duas formas de psicanálise exatamente nessa mesma direção to-
'teorias da alma', a literário-sintética e a literário- mada por Noemi.
psicanalítica, parecem buscar e atingir alvos dife- Essa viagem criativa pela história da psicanálise
rentes. Há algo que na via literário-sintética não vem sendo tramada de longe, pelo menos desde os
necessita, não deve ou não pode ser demonstrado anos 1940, e agora alcança uma de suas estações mais
ou aplacado. [...] O fantástico é território misto, de belas, a das correspondências sensíveis e reversíveis
transicionalidade; instala-se no evanescente, na da psicanálise com a literatura. Não é por acaso que
passagem, na fronteira, gerando um curto-circuito Noemi Moritz Kon não é apenas uma grande analista
na máquina da razão. É momento de crise no qual e teórica da disciplina, mas provavelmente, ao lado
não há conforto possível. Constrói sua morada no de Renato Mezan, a maior escritora de psicanálise
ponto de desequilíbrio. Opera um apagamento de que pude reconhecer entre nós. A viagem é, em seus
limites entre sujeito e objeto, questiona a existência muitos tempos e a um tempo, a divertida e complexa
de uma oposição irresistível entre real e irreal, entre comprovação dessa qualidade.
realidade e fantasia" (p. 328). Aos leitores versados
na teoria psicanalítica contemporânea será sensível
Tales A. M. Ab'Sáber é membro do Departamento de Psi-
nesse ponto a presença conceituai e espiritual de
canálise do Instituto Sedes Sapientiae e pesquisador do
Winnicott, o primeiro grande renovador teórico da Programa de Psicopatologia do Naippe-USP.

JULHO DE 2004 185

Você também pode gostar