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O AÇÚCAR NA FORMAÇÃO DO BRASIL COLONIAL

Vera Lucia Amaral Ferlini

Universidade de São Paulo

Cátedra Jaime Cortesão / FFLCH

RESUMO

O artigo discute o papel do açúcar na formação colonial, com a constituição das


bases do poder político e social dos senhores de engenho, fundamentado no
monopólio da terra e na escravização de indígenas e africanos. Aponta como a
colonização, estruturada a partir da hegemonia do mercado externo, criou, ao
longo de três séculos, uma população rural livre, de brancos, negros forros e
mestiços, que sobreviviam em pequenas lavouras e roças de subsistência,
dependentes do poderio dos grandes proprietários. A partir da centralidade dos
engenhos no mundo açúcar, destaca o caráter patriarcal dessa sociedade, base e
sustentáculo de seu poder político. Ressalta aspectos da “geografia” do açúcar,
com a ocupação territorial por atividades subsidiárias, como subsistência, tabaco
e subsistência, no Nordeste, e com a expansão da produção açucareira no Sul, a
partir do século XVIII.

PALAVRAS CHAVE:

HISTÓRIA DO BRASIL; COLONIZAÇÃO; AÇÚCAR; SOCIEDADE


AÇUCAREIRA;

Produto que marca até hoje o cenário agrícola, o açúcar, além de sua importância

econômica, lançou as bases da configuração social, política e fundiária brasileiras.

Embora o Brasil não tenha sido, no período colonial, só açucar, sua produção criou o

poder político e econômico, com base no monopólio da terra, diferenças sociais profundas

e direcionou a economia prioritariamente para a exportação.


Durante três séculos, a grande propriedade açucareira escravista fundamentou a

exploração colonial do Brasil. Forma adequada aos interesses da Coroa Portuguesa,

atendia às necessidades fiscais do Reino, ordenava-se à dinâmica mercantil e garantia

ocupação e defesa do território. A posse de escravos e o domínio territorial promoveram

concentrava renda e poder e o estabelecimento de laços de compromisso entre o rei, os

mercadores e os senhores de escravos. Escravos e terras configuraram, na Colônia, uma

ordem social reprodutora da exploração metropolitana, reservando a poucos a vinculação

direta ao Estado e seus benefícios. A colonização, através da produção açucareira, legou

uma massa de livres pobres, nas fímbrias da sociedade polarizada entre senhores e

escravos, que ao final do século XVIII, adquiriu maior visibilidade, frente ao avanço da

produção de exportação, à conquista do sertão, às lutas nas fronteiras meridionais. Massa

incômoda e necessária, alvo de convocações militares e dos esforços para a produção de

alimentos.

Parte da configuração territorial do Brasil foi criada pelo açúcar. Espalhados ao

longo da costa, desde o século XVI, a produção dominou extensas áreas do litoral

nordestino e promoveu a interiorização, a partir da pecuária. No século XVIII, ampliou a

ocupação dos Campos de Goitacazes, espraiou-se ao longo do Vale do Paraíba e

consolidou a economia escravista em São Paulo.

1. O AÇÚCAR COMO SOLUÇÃO PARA A POSSE E DEFESA DA

TERRA

A introdução sistemática da produção açucareira, no século XVI, atendeu às

necessidades de ocupação e defesa do território, base indispensável para a navegação e

comércio com o Oriente. A partir de 1530, quando a Coroa, no reinado de d. João III,
iniciou a efetiva posse do Brasil, os engenhos foram os núcleos de povoamento, capazes

de fixar povoadores. Gandavo afirmava que “a felicidade e aumento desta terra consiste

em ser povoada de muita gente” e que “não havia de haver pessoa pobre nestes Reinos

que não fosse viver a estas partes com favor de S. A. onde os homens vivem todos

abastados.”1 Na segunda metade do século, de meio para fixar povoadores e defensores

da terra, o açúcar passou a fim da própria colonização, tornando-se produto de grande

valor econômico para a Coroa.

Tornar possível a ocupação, exigia atividade econômica rentável, capaz de atrair

tais povoadores. Portugal já possuía experiência na produção açucareira, desenvolvida no

século anterior nas ilhas do Atlântico; dispunha de contatos comerciais que permitiam a

alocação do produto no mercado europeu; seu relacionamento com o mundo financeiro

de então, principalmente com banqueiros genoveses e flamengos, abria-lhe linhas de

crédito para os investimentos básicos; o Brasil possuía terras em abundância.

Embora, em 1517, já constasse na alfândega de Lisboa, remessa de açúcares do

Brasil, a iniciativa de construção de um engenho por Martim Afonso de Souza, em 1534,

está entre as pioneiras ações sistemáticas para a produção açucareira. Para isso, foram

mobilizados recursos com a constituição de uma sociedade mercantil, da qual faziam

parte, além do próprio Martim Afonso, seu irmão Pero Lopes de Souza, Francisco Lobo,

Vicente Gonçalves e o flamengo Johann Van Hielst, conhecido como João Vaniste.Com

a ida de Martim Afonso para as Índias, Van Hielst introduziu a capacidade e o capital

mercantil dos Schetz, que em 1550 adquiriram as partes dos portugueses. Algum tempo

depois, o próprio Van Hielst venderia sua participação aos filhos de Erasmo Schetz. Essa

iniciativa, na capitania de São Vicente, teria seguidores e até o final do século XVI havia

mais de uma dúzia de estabelecimentos produtores de açúcar na Baixada Santista, o que

1Pero Magalhães Gandavo, Tratado da Terra do Brasil (1570), São Paulo/Belo Horizonte : EDUSP/Itatiaia,
1980, p.21.
dava certa prosperidade à região, alvo de ação de piratas e corsários, entre 1591 e 1615.

Apenas ao final do século XVIII, o açúcar voltaria a assumir importância em São Paulo. 2

Espalhados nas marinhas das capitanias de São Tomé, Rio de Janeiro e Espírito Santo, os

engenhos persistiram, mas não tomaram a dimensão econômica da grande plantação. No

recôncavo da Guanabara, desde o início da colonização, os engenhos marcavam a

paisagem e, subsistiram em função do tráfico de escravos com a Angola restaurada 3.

Até o século XVIII, porém, seria o Nordeste, com seu solo de aluvião fértil, o

massapê, que desenvolveria a lavoura de cana e o fabrico do açúcar, transformando a

Colônia em elemento fundamental do Império Português. Não apenas o solo favorecia o

plantio da cana e os negócios do açúcar no Nordeste. Servida por vasta rede hidrográfica

litorânea, com clima quente e úmido, as comunicações com a Metrópole eram facilitadas

pela menor distância em relação à Europa e pelo regime favorável de ventos, fundamental

à navegação.4 Os primeiros engenhos de Pernambuco começaram a funcionar a partir de

1535, com Duarte Coelho. Em 1550, já eram 4 os estabelecimentos, 30 em 1570 e 140 na

época da conquista holandesa. A produção canavieira avançava para a Paraíba e para o

Rio Grande do Norte, que em meados do século XVII possuíam cerca de 22 engenhos. 5

No século XVI, a produção também prosperava na Bahia. O Recôncavo, que em

1570 contava com 18 engenhos, em 1584 já atingia 40 unidades de produção. Ao final do

primeiro século de colonização, o Brasil produzia, anualmente, 350 mil arrobas de açúcar.

A produção brasileira conheceria anos de glória até 1650, quando começaria a manifestar-

se a concorrência das Antilhas e da América Central.6

2 Cf. Maria Thereza Schorer Petrone. A Lavoura Canavieira em São Paulo, São Paulo: Difel, 1968, p.10;
3 C. R. Boxer, Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686. Trad. port.São Paulo: Nacional,
1973; Augusto de Carvalho, Apontamentos para a História da Capitania de S. Thomé. Campos:Typographia
e Litographia de Silva, Carneiro & Comp., 1888.
4 Cf. Stuart Schwartz, Segredos Internos. São Paulo, Companhia das Letras, 1988, p.144 e ss.
5 Idem, Ibidem.
6 Cf. Vera Lucia Amaral Ferlini. A Civilização do Açúcar, Op. cit., p. 29.
2. TERRA

Em 1548, o Regimento recebido por Tomé de Sousa, primeiro governador geral,

determinava a doação, separadamente, de terras para engenhos e de terras para o trato dos

canaviais: “Além da terra que a cada engenho haveis de dar pera serviço e manejo dele,

lhe limitares a terra que Vos bem parecer e o senhorio dela será obrigado de no dito

engenho lavrar aos lavradores as canas que no dito limite houverem de suas novidades

ao menos seis meses do ano que o tal engenho aquela parte pela informação que Ia

tomareis vos parecer bem de maneira que fique o partido favorável aos lavradores para

eles com melhor vontade folgarem de aproveitar as terras e com esta obrigação e

declaração de partido a que um partido a que hão de lavrar as ditas canas se lhes

passarão suas cartas de sesmaria”. 7

Trazer colonos era fundamental, pela necessidade de manutenção e defesa da

importante faixa atlântica. O grande engenho requeria capitais de vulto e, para isso, o

empreendimento colonial português associou-se a homens de largos recursos, aos quais

interessava a produção em larga escala, capaz de remunerar altamente seus investimentos.

O custo de um engenho, capaz de moer 200 tarefas de cana anualmente (cerca de 10.000

arrobas de açúcar) foi estimado 48.000 cruzados, para a primeira metade do século XVII,

o que correspondia ao valor de uma nau para o comércio da Índia.8

Era preciso, ainda, ter empreendedores de menores cabedais, que se

responsabilizassem pelo cultivo de cana, abastecendo o engenho de sua matéria - prima ,

provedores, ao mesmo tempo do substrato populacional básico da dominação portuguesa.

7Regimento de 17.12.1548. Documentos para a História do Açúcar, Rio de Janeiro: IAA, 1954, p.48.
8Fréderic Mauro, Le Portugal, le Brésil et l’Átlantique au XVII siécle, Paris:Fondation Caloiuste Gulbenkian,
1983, p.245.
Atrair povoadores, acenando-lhes com a qualificação social impossível na Metrópole,

vinculando-os ao processo produtivo exportador, mas apenas nos umbrais da propriedade

da terra, permitiu à empresa colonial contar com a contribuição de uma massa de

lavradores, agregados, artesãos, que nas épocas de apogeu repartiam parcelas dos

benefícios dos negócios do açucar, mas que, na depressão, não oneravam o sistema

produtivo e constituíam verdadeira "argamassa paramilitar usada como aríete na defesa

das povoações"9

O absenteísmo dos senhores era corrente, pelo menos nessa fase inicial, e o

erguimento e maneio dos engenhos eram providos por feitores. No caso, a divisão entre

lavouras e engenhos objetivava a atração de colonos dotados de menores recursos, mas

que efetivamente se fixassem na nova colônia, incentivando-os à participação no trato das

lavouras, na medida em que o domínio do território exigia, sem dúvida, a ocupação das

terras por súditos portugueses. Apesar da relativa escassez demográfica de Portugal,

estima-se que, ao final do século XVI, o Brasil contasse 100000 habitantes, sendo 30 000

europeus, e no fim do século seguinte, a população européia já houvesse quadruplicado.

10Esses povoadores não seriam, nas determinações régias, pequenos produtores ligados à

agricultura de subsistência. O estabelecimento de população branca deveria atender ao

sentido geral da colonização: a produção especializada para o mercado europeu.

Determinação, outrossim, clara aos contemporâneos. Gabriel Soares de Sousa observava,

escrevendo as possibilidades da terra do Brasil: e por aqui acima é a terra muito boa

para, se poder povoar, porque dá muito bons canaviais de açúcar...”11

A produção açucareira tornou possível, simultaneamente, uma atividade lucrativa,

9 Florestan Fernandes, Circuito Fechado, Op. cit., p.35.


10
, Célia Freire da Fonseca, A Economia e a Colonização do Brasil ( A experiência de Duarte Coelho) Rio
de Janeiro, Conselho Federal de Cultura e Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1978, p.191.
11 Gabriel Soares de Sousa, Tratado Descritivo do Brasil em 1587. 4a.ed.São Paulo, Nacional/EDUSP,
1971, p.69.
áreas de povoamento e defesa, mas, acima de tudo, a estrutura fundiária excludente, que

mantinha essa dominação. As concessões de sesmarias na região açucareira excederam,

em muito, as necessidades do erguimento e maneio dos engenhos. Garantiam-se terras

para os canaviais, águas para as levadas e matos para as fornalhas. Uma sesmaria de duas

léguas em quadra ( menor que o usual, acima de três léguas em quadra) significava 8.712

hectares de terra. Ora, um engenho de grande porte moía, anualmente, cerca de 200

tarefas. Correspondendo cada tarefa a uma área plantada de 4.356m2, a extensão das

lavouras não excederia 90 hectares. Se considerarmos ter cada sesmaria apenas um

engenho, a proporção de aproveitamento das terras era de 1%. Há que se considerar a

necessidade de matas para abastecer de lenha as fornalhas, pesando na dimensão da data

original. O abastecimento de lenha era tão importante que, na segunda metade do século

XVII, quando proliferaram as engenhocas nas terras próximas aos grandes engenhos, os

senhores envidaram esforços para a Coroa proibir o erguimento de novas moendas,

estabelecendo-se a distância mínima de meia légua entre as unidades manufatureiras, o

que reservava, a cada engenho cerca de 952 hectares. Se tomarmos essa área como a

mínima para um engenho e seus canaviais, o aproveitamento agrícola era de 10%, ficando

o restante como fornecedor de lenha e madeiras, roças de mantimentos e reserva para a

rotação das plantações. Nesse caso, os canaviais , que se recomendava não ultrapassassem

sete anos de plantio, exigiam, mais ou menos 270 hectares de terra ( três vezes a área

básica).12

O setor produtor de matéria-prima, os canaviais, podia ser constituído por terras

do engenho ou de terceiros. As terras do engenho, por sua vez, eram cultivadas às

expensas de seus proprietários ou arrendadas a lavradores, dotados de recursos para

organizarem o plantio. Tanto no caso de terras arrendadas como na relação com os

12 Vera Lucia Amaral Ferlini, Terra, Trabalho e Poder, 3a.ed., São Paulo: Alameda, 2017, p.151-157.
lavradores proprietários, poderia ocorrer a vinculação da produção à moagem em um

engenho, o que constituía “cana-obrigada”. Os arrendatários pagavam, ainda, uma

porcentagem da parte que lhes cabia, após a moagem, pelo arrendamento da terra: era o

“terço”, caso se tratasse de terra fértil ou próxima ao engenho, ou o “quarto”, quando tais

condições não ocorriam.

A contribuição dos lavradores de cana variou durante o período colonial. Até

1650, sua participação foi fundamental para a produção, e os engenhos do Nordeste

moíam quase que exclusivamente cana de terceiros. A necessidade de fornecimento de

cana por parte dos lavradores esteve ligada à escassez de recursos para o investimento,

nas épocas de maior lucratividade do açúcar. Fernão Cardim, no século XVI, notava que

havia engenhos carentes de cana para atingir sua total capacidade de moagem. Houve,

portanto, íntima relação entre a existência dos lavradores de cana e a necessidade de

máxima produtividade dos engenhos em períodos de expansão 13.

No caso de lavradores proprietários, colocava-se ainda o problema da terra, obtida

por doação ou compra. Embora a Colônia dispusesse de muita terra, já no início do século

XVII, as áreas férteis do litoral nordestino haviam sido doadas e o acesso à produção de

cana só era possível por compra ou por arrendamento. A documentação colonial é rica

em escrituras que atestam o intenso movimento de mercantilização das férteis terras do

Recôncavo e de Pernambuco.

A existência dos lavradores de cana constituiu particularidade da produção

brasileira, ligada à necessidade inicial de ocupação e defesa. e contribuíram, sem dúvida,

para tornar mais complexas as relações sociais na Colônia.

3. TRABALHO

13 Fernão Cardim, Op. cit., p. 190.


Para aproveitar a terra, porém, era preciso escravos, “pois se os moradores desta

Costa do Brasil todos têm terras de Sesmaria dadas e repartidas pelos Capitães da terra,

a primeira cousa que pretendem alcançar são escravos para lhes fazerem e granjearem

suas fazendas, porque sem eles não se podem sustentar na terra...” 14

A gênese do escravismo moderno está profundamente ligada à articulação de

grandes unidades produtivas, voltadas para o mercado europeu. A produção em larga

escala, para um mercado distante e sem qualquer ligação imediata com o consumo, exigia

grande contingente de trabalhadores que se submetessem a trabalhar para outros, sem

terem, eles mesmos, qualquer motivação pelo processo de produção.

Desde o final da Idade Média crescera, nas plantações de cana-de-açúcar do

Mediterrâneo, o uso da escravidão. Não se tratava das antigas formas de trabalho escravo

medievais, mas de relação nova, consequência das transformações recentes, do capital

mercantil. O crescimento dos investimentos genoveses e venezianos na produção

açucareira em Chipre, Creta e Sicília, o comércio mediterrâneo estendeu suas bases à

Península Ibérica. Ao mesmo tempo intensificou-se o tráfico de escravos por todo o

Mediterrâneo, avançando em direção ao Atlântico. Os comerciantes de Gênova estavam

também ligados ao estabelecimento do cultivo de cana no Algarve e à produção de açúcar

nas Canárias e na Madeira. A necessidade de carrear grandes quantidades de produtos

como o açúcar, a dominação da produção pelos interesses comerciais e a abertura de

novas fontes de escravos na África Ocidental concorreram para a criação dessa moderna

forma de trabalho.

A moderna produção mercantil escravista necessitava da centralização e da

concentração da produção, com o monopólio de terras para suas determinações e exigia

14 Pero Magalhães Gandavo, Op. cit. p.49.


ponderável número de um tipo específico de trabalhadores, o que só era possível, naquela

época, pela compulsão. Como afirmava van der Dussen analisando as condições de

ocupação do Brasil: "assim os que pretendem fixar-se no país devem trazer alguns bens

e, para serem bem sucedidos devem comprar alguns negros, porque sem negros nada se

pode cultivar aqui, e nenhum branco - por mais disposto ao trabalho que tenha sido na

Pátria - se pode dedicar no Brasil a trabalhos tais, nem mesmo consegue suportá-lo... 15

Nos primeiros tempos, a produção açucareira usou o braço indígena,

imediatamente acessível e barato, até que a produção rendesse o suficiente para se

conectar ao tráfico atlântico de africanos. 16A pouca disposição dos nativos ,porém, para

as lides da lavoura de cana e do engenho, levaram à escravização, ao custo de violência.

A reação dos índios, em ataques e mesmo conflitos mais longos, por outro lado,

justificava, perante à Coroa, o aprisionamento em guerra justa, princípio legal utilizado

para a escravização.

Os religiosos em geral, e os jesuítas, em especial, buscaram impedir a sistemática

escravização, criando e estimulando aldeamentos, o que levou a conflitos frequentes com

os colonos. Ao longo do século XVI, os indígenas foram a principal força de trabalho dos

engenhos. Guerras e epidemias, porém, dificultavam o aprisionamento e dizimaram

populações, que migravam para sertões distantes. Por outro lado, o tráfico de africanos

escravizados era negócio rentável, dinamizando o comércio triangular, entre Portugal,

África e Brasil. Calcula-se que entre o século XVI e início do XIX, mais de 3 milhòes de

africanos aportaram no Brasil, sendo pelo menos metade, para as áreas açucareiras. 17

Dessa forma, a dinâmica dos negócios e a rentabilidade do açúcar impulsionaram o tráfico

15 Adriaen Van der Dussen, Relatório sobre as Capitanias Conquistadas (1639). Suas condições
econômicas e sociais. Trad. de José Antônio Gonsalves de Mello, Rio de Janeiro: Instituto do Açúcar e do
Álcool, 1947,p.85.
16 Schwartz, Stuart, Segredos Internos, Op. cit., pp.40-73.
17 Maurício Goulart, A Escravidão Africana Brasil (Das Origens à Extinção do Tráfico), São Paulo: Alfa-
Ômega, 1975.
de africanos, como comércio lucrativo, embora a utilização dos indígenas, aldeados ou

escravizados, tenha sido constante em todo o período colonial.

4. PODER

O engenho foi o polo aglutinador da sociedade açucareira nos primeiros séculos

de colonização, ordenando a propriedade e o uso da terra em função da dinâmica do

grande comércio. O modelo da produção colonial baseado na grande propriedade

monocultora e escravista açucareira consagrou o poderio dos senhores de engenho,

impedindo o desenvolvimento autônomo de uma camada de pequenos e médios

proprietários, que tinham as condições de sua existência atreladas ao engenho, que lhes

moía as canas e comprava sua produção de mantimentos, tábuas, telhas, tijolos, etc. Os

que não tinham recursos sequer para arrendar terras, gravitavam em torno do engenho,

como trabalhadores especializados do açucar, moradores, agregados, prestando serviços

aos senhores. Foram, também, elementos essenciais para a manutenção da dominação

política e social dos senhores, bem como de seu domínio militar. Na prática, estruturaram

núcleos fortes de poder local, de extrema resistência na sociedade nordestina. Formou-se

uma elite colonial, detentora do controle da terra e que a partir dela reproduziu os valores

estamentais da sociedade porrtuguesa, permitindo a realização das aspirações senhoriais

dos vassalos.18 Antonil, no início do século XVIII, definiu essa relação, ao afirmar: “ser

senhor de engenho é título a que muitos aspiram, titulo a que muitos aspiram, porque

traz consigo o ser servido, obedecido & respeitado de muitos”.19

A estratificação vigente em Portugal à época dos descobrimentos foi a matriz para

18 Raymundo Faoro, Os Donos do Poder, Rio de Janeiro: Globo, 1958. Estudo detalhado sobre o poder dos
senhores encontra-se em Rodrigo Ricupero, A formação da Elite Colonial, São Paulo: Alameda, 2008.
19 André João Antonil, Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas (1711), Trad. Franc. e
comentários críticos por Andrée Mansuy, Paris: IHEAL, 1968, p.50-51.
a organização social da colônia americana e para a estruturação das formas de poder

político dominante, mas a ela foram acrescentados outros princípios de ordenação, que

surgiram das condições de ocupação, de raça, de cor e de status - distinções especificas

resultantes da realidade americana, o que como apontou Schwartz, resultou em uma

sociedade de múltiplas hierarquias de honra e consideração, de múltiplas categorias de

trabalho, de complexa divisão de cor e de formas variadas de mobilidade e mudança. Mas,

onde no limite preponderava a tendência a reduzir as complexidades a dualismos de

contrastes (senhor/escravo, nobre/plebeu, católico/gentio). 20

Embora a legislação portuguesa tivesse caráter imobilista e excludente no tocante

à organização social, sua aplicação, no Brasil, implicou em arranjos, pois o povoamento

foi feito justamente, em sua maior parte, através dos segmentos sociais por ela excluídos

das posições de mando e de estima social. 21 Nela, componentes diversos, como a questão

das diferenças fundamentais, senhor/escravo, estiveram inseridos em relação mercantil

de produção . Os atributos de raça/cor estabeleciam graduações e diversificações sociais,

dentro dos estamentos e a miscigenação e a manumissão dos escravos criaram novas

categorias sociais.

A adaptação da estrutura social da Colônia ao corpo de padrões sócio-políticos

portugueses foi fundamental para o domínio. Vários fatores introduziram interferências

importantes: abundância de terras, determinação mercantil da produção, necessidade de

larga base de mão-de-obra alienada, historicamente inexistente como proletários. Os

critérios estamentais da sociedade portuguesa tinham validade para os brancos, para os

outros, a população indígena e depois os africanos, a estratificação deu-se

fundamentalmente em função de critérios raciais. Tomando-se a diferença fundamental

20Stuart Schwartz, Segredos Internos, Op. cit., p. 209.


21Cf. Laima Mesgravis, "Os aspectos estamentais da estrutura social do Brasil Colônia". Estudos
Econômicos. São Paulo, 13 (especial), p.802, 1983.
senhores/escravos, entre esses dois extremos situava-se uma população livre,

predominantemente mestiça de brancos e índios, identificada com o estamento dominante

em termos de solidariedade e lealdade, mas dificilmente incluída na ordem estamental.

Esses setores oscilantes constituíam, em geral, uma espécie de subordem de castas, como

o caso dos libertos que mesmo adquirindo o status legal de livre, eram tratados. A

plantação escravista transformou e ampliou as tradicionais categorias, fazendo pessoas

de "mor-qualidade" muitos que não poderiam assim ser chamados em Portugal,

desenvolvendo, ao mesmo tempo, novos princípios de diferenças que separavam as

camadas dominantes das subordinadas, mesclando critérios de hierarquização. 22 Não

bastava ser livre, e possuir escravos, pois os princípios dessa sociedade exigiam signos

formais e manifestações externas que comprovassem ser “homem bom", "um dos

principais da terra", “limpo de sangue" , viver “`a lei da nobreza” e não padecer de

acidentes de mecanismos.

Embora articulada a partir de duas categorias - senhores e escravos - a sociedade

nascida do açúcar no período colonial foi uma organização mais complexa e mutável,

enquadrada, sem dúvida, nos padrões estamentais portugueses e tendo, por referência,

polos básicos, sem, no entanto, a ela se reduzir. A sociedade escravista brasileira não foi

apenas criação da escravidão, mas o resultado da integração da plantação escravista

mercantil com os princípios europeus preexistentes. A compreensão dessa diversidade é

fundamental para o entendimento dos mecanismos de monopólio de poder por um

pequeno grupo de privilegiados. A configuração dominante da sociedade, os valores que

regiam o mundo dos brancos e a relação senhor/escravo, determinaram formas de

controle, tanto no tocante à esfera jurídica, como no exercício político. Do ponto de vista

político, nas Câmaras Municipais, ressaltava a supremacia dos homens-bons, os mais

22 Stuart Schwartz, Segredos Internos, Op. cit., cap. 9.


ricos, os honrados e respeitados chefes de família. Eleitores e passíveis de serem eleitos,

eles faziam o rol da nobreza (aqueles que fariam parte da nobreza da terra e os que

deveriam ser excluídos),e formavam, realmente, a governança da terra. Os conselhos

municipais constituíam a estrutura jurídico - política básica e se correspondiam

diretamente com o governador geral e com a Coroa, toda vez que isso lhes parecia

necessário, interferindo, não raro em assuntos políticos e eclesiásticos.23

Ao colono/colonizador cabia a reprodução e perpetuação da ordem social e

econômica. Já em 1936, Sérgio Buarque de Holanda iniciava Raízes do Brasil, afirmando:

“A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território, dotado de

condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas

origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em conseqüências.

Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias

e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos

ainda hoje uns desterrados em nossa terra”.24 Essa identificação do colonizador, agente

da exploração, como colonizador não foi linear, direta e contínua e só ao final do século

XVIII, a elite passou a colocar-se em oposição à Metrópole, mantendo, entretanto,

internamente, em relação à sociedade local, atitudes e privilégios de dominação. A

representação estamental dessa sociedade, colonial e escravista, dificultava a consciência

de colonizado, o reconhecimento da alteridade da metrópole e, por outro lado, retirava do

escravismo seu caráter de pura exploração econômica, redefinindo-o em função da

fidalguia e da diferença racial e religiosa.`

Desde o final do século XVI, no Nordeste açucareiro, no cume da pirâmide social

estavam os senhores de engenho. De diversos níveis de posse, constituíam, sem dúvida a

elite colonial, como ressalta Antonil. Os lavradores - de - cana, também diferenciados

23 Sedi Hirano, Pré – Capitalismo e Capitalismo. São Paulo: Hucitec, 1988, pp.199-200.
24 Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1936), Op. cit., p. 8.
pela propriedade ou não de terras, pela extensão de suas lavouras e de sua escravaria,

vinham a seguir. Constituíam segmento da sucarocracia, mas eram, de certa maneira, a

elite dos agricultores, dos lavradores, na qual se incluíam os lavradores de roças de

subsistência. Estes, mais difíceis de identificar, embora apareçam freqúentemente

menções, podiam ser também, lavradores de cana. Ligados aos engenhos tínhamos, ainda

os trabalhadores especializados livres, nos primeiros séculos brancos de origem

portuguesa, mais tarde, mulatos ,negros forros e caboclos, como atestam os censos e a

crônica colonial. Eram mestres- de - açúcar, banqueiros, ajuda - banqueiros, purgadores,

caixeiros, calafates, caldereiros, tacheiros,carpinteiros, pedreiros, barqueiros. Muitos

deles, aparecem, na documentação, tanto como lavradores, como exercendo outras

atividades.

Entre os escravos, havia diferenças que devem ser, de início, levadas em conta:

escravos de procedência indígena e africanos. Entre os africanos, havia os qualificados,

arrolados por suas especialidades (calafates, barqueiros, carapinas, pedreiros, tacheiros);

os domésticos e os de eito. Indios aldeados eram utilizados em trabalhos específicos,

como desmatamentos, limpeza das levadas e mesmo busca de africanos fugidos. Ao final

do século XVIII, os registros apontam hierarquia mais complexa, com trabalhos

especializados desempenhados simultaneamente por livres e escravos.25

Os lavradores de cana apresentavam diferentes origens sociais e escalas

econômicas diversas. Considerados por Antonil como cidadãos que dependiam dos

fidalgos, unia-os o status social que apontava possibilidade de ascensão.Ser lavrador -de-

cana era caminho para a qualificação social. A história não confirmou, no geral, a

aspiração de ascensão social. Se no início do século XVII os lavradores estavam ainda

próximos dos senhores de engenho, a partir da crise da segunda metade do século, a

25Stuart Schwartz - Segredos Internos, Op.cit: Vera Lucia Amaral Ferlini, Terra, Trabalho e Poder, Op. cit.,
p.128 e ss.
distância cresceu. Constata-se, ao longo dos séculos, a deterioração de sua posição

econômica, embora se diferenciassem do restante dos homens pobres, por estarem ligados

à produção açucareira e por possuírem escravos. Não chegavam, porém, a constituir um

grupo em si, homogêneo, visto que havia diferenças econômicas acentuadas entre eles,

desde colonos humildes, possuidores de, no máximo, dois escravos, até grandes

plantadores, com 30 ou mais escravos.26. Tollenare observou que, em sua maioria, no

início do século XIX, em Pernambuco, eram brasileiros, de origem branca, pouco

mesclados de mulatos.27

A ocupação sistemática de várias áreas para a produção de açúcar, desde o século

XVI não se limitou à geração e reprodução de população escrava. A população livre,

branca ou mestiça cresceu consideravelmente ao longo de três séculos,28 Essa população

rural livre de pequenos agricultores, arrendatários e dependentes permaneceu sem rosto e

sem nome. Provedores de alimentos e serviços, mantinham-se em pequenos sítios e roças,

descritos por viajantes, ao final do século XVIII e no inicio do XIX. Com o declínio da

lucratividade do açúcar, na segunda metade do século XVII, as comunidades de

cultivadores pobres expandiram-se, e no início do XVIII, no Nordeste, áress das fronteiras

das plantações de cana e dos engenhos registravam sua presença, sobrevivendo em uma

economia de subsistência. 29 Ao longo do século XVIII, as demandas por abastecimento,

da mineração, das tropas que avançavam na região meridional, deram impulso às

atividades dessa população, principalmente na produção de mandioca e milho. Em

Pernambuco, durante o século XVIII, emergiu um setor camponês, de cultivadores livres

26 Idem, O Engenho Sergipe do Conde (1622-1653). Contar, Constatar e Qüestionar.São Paulo,


FFLCH/USP, 1980, dissertação de Mestrado, pp. 108-128.
27 Tollenare, Louis François de Tollenare, Notas Dominicais (l8l6-1818), Recife: Secretaria da Educação e
Cultura, 1978. p. 73. Também analisaram a situação dos lavradores e agregados, nas regiões açucareiras:
John Luccock, Notas sobre o Rio de Janeiro e Partes Meridionais do Brasil (1808-1818). São Paulo: Livraria
Martins Editora, 1942, e Henry Koster, Viagens ao Nordeste do Brasil (1816). São Paulo: Nacional, 1942.
28 Iraci Del Nero da Costa, Arraia-miúda: um estudo sobre os não-proprietários de escravos no Brasil,
São Paulo: MGSP, 1992;
29 Palácios, Guillermo Palácios, Cultivadores libres, Estado y crisis de la esclavitud en Brasil em la época
de la Revolución industrial. Mexico: El Colegio de Mexico, 1998, p.23.
e pobres, inicialmente articulado ao cultivo clandestino de tabaco para os mercados

africanos de escravos e de mandioca para as cidades e ao final dos setecentos para a

produção e venda de algodão para a Inglaterra 30.

Na década de 1760, quando os dados de população se tornam mais frequentes,

verifica-se o peso dessa população rural livre em várias partes da colônia e mesmo em

cidades como Recife, Salvador e Rio de Janeiro31. Na Bahia, a presença desses

contingentes livres participa da Revolta de 1798, alcunhada dos mulatos ou dos alfaiates,

junto com escravos e membros da elite. 32 Em São Paulo, no esforço de restaurar a

Capitania, a partir de 1765, o Morgado de Mateurs buscou direcionar essa extensa

população, para o cultivo de alimentos, para as tropas e para a ocupação da área

meridional.

5. ALÉM DOS ENGENHOS

A vida econômica do Nordeste, nos dois primeiros séculos, girou em torno da

exportação do açúcar, mas a partir dela desenvolveram-se outras atividades, fornecendo

os produtos de subsistência, provendo o comércio local e o escambo de escravos. O

caráter deletério da economia açucareira e seu papel na consolidação de estrutura

fundiária altamente concentrada e excudente, as bases escravistas da sociedade, o tráfico

negeiro, a dizimação de populações indígenas e o poderio dsas elite proprietária não são

os únicos pontos do papel do açúcar na formação do Brasil.

Para o provisionamento dos escravos era essencial a mandioca. De acordo com a

legislação, os plantadores de cana deveriam reservar terras e tempo para que os próprios

30 Idem, Ibidem.
31 Stuart Schwartz, Escravos, Roceiros e Rebeldes, Trad. Port. Bauru: EDUSC, 2001, pp.117-164.
32 Istvan Jancso, Na Bahia contra o Império, São Paulo, Hucitec, 1991; Patrícia Valim, Corporação dos
enteados: tensão, contestação e negociação política na Conjuração Baiana de 1798, São Paulo:
FFLCH/USP, 2013, tese de doutoramento.
escravos plantassem mandioca. Todavia, nem sempre isso acontecia e a demanda de

mandioca para os escravos diminuía a quantidade desse alimento para a população

urbana.33 O tabaco, essencial para o tráfico de africanos escravizados, foi cultivado desde

o final do século XVI. Como o açúcar, o tabaco era uma agricultura baseada no trabalho

escravo. Dentro da hierarquia social, porém, o plantador de tabaco não dispunha de

prestígio e poder como os senhores de engenho. 34

Do ponto de vista da ocupação territorial, alem da extensa área litorânea

nordestina, com seus engenhos canaviais, plantaçõees de tabaco e roças de alimento, a

expansão da criação de gado interiorizou a ocupação, gerando uma cultura sertaneja

específica, criando caminhos e rotas de circulação de homens e mercadorias. O gado

bovino era indispensável ao trato das lavouras e dos engenhos, principalmente para o

transporte de cana e de lenha. A criação de gado fornecia, além do transporte, força motriz

para as moendas mais simples e alimento para a população. Introduzido no século XVI,

o gado bovino foi criado, inicialmente, no litoral. Mas a expansão dos canaviais afastou

a pecuária das regiões litorâneas, empurrando o gado para o interior e iniciando a

ocupação do sertão. A partir da criação de gado, organizou- se uma forma diferente de

povoamento e de sociedade, com menos escravos, de costumes rudes e simples. As áreas

canavieiras da Bahia e de Pernambuco foram os focos de irradiação da pecuária. Na

Bahia, à época de Tomé de Souza, Garcia d’ Ávila estabelecera as primeiras fazendas de

gado, que já no século XVII atingiam a região do Rio São Francisco, caracteristicamente

denominado “rio dos currais”. 35

33 Veja-se Katia de Queirós Mattoso - Bahia: a Cidade do Salvador e seu Mercado no século XIX. São
Paulo/Salvador: Hucitec/Secretaria Municipal de Educação e Cultura, 1978, pp.155 e ss.
34 Guillermo Palácios, Cultivadores libres, Estado y crisis de la esclavitud en Brasil em la época de la
Revolución industrial, Op. cit..
35 Sobre a pecuária das áreas açucareira, consulte-se: Capistrano de Abreu, Capítulos de história colonial
& Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil,(1907 e1930 Brasília: Editora da UnB, 1982.
O açúcar gerou vilas e cidades, fundamentais para o comércio e para a

dministração, com portos, merados e população que se adensou e diversificou ao longo

do período colonial. A começar por São Vicente ( 1532), Santos ( 1534), Salvador ( 1549),

Olinda (1535), Recife ( 1537). Foram cidades administrativas e mercantis, cidades de

magistrados, de governadores, de embarcadouros, de navios e comerciantes, com

urbanização peculiar. As áreas próximas aos portos abrigavam o comércio, com

armazéns e lojas de mercadores; mais distantes, ou em um plano mais alto, como em

Salvador, ficavam as habitações e prédios administrativos, as igrejas e as praças.

Os senhores de engenho e lavradores mais ricos possuíam casas nas cidades, mas

delas estavam ausentes a maior parte do ano, entregues aos trabalhos da safra. Em geral,

entre os meses de maio e de julho as cidades ficavam repletas, estimuladas pelos negócios

e pela chegada dos navios. A marca do escravismo era visível nos centros urbanos. Os

principais portos possuíam mercados de escravos, às vezes grandes quarteirões

6. UMA SOCIEDADE PATRIARCAL

No Nordeste, onde o açucar vicejou durante séculos, a sociedade configurou-se

como uma verdadeira civilização do açúcar, com valores sociais e culturais marcantes,

dominados pelo cenário da casa grande e da senzala. Os engenhos eram núcleos

aglutinadores da população, das lavouras e das roças do entorno,com sua capela e suas

festas, determinando o ritmo de vida das áreas rurais.

Gilberto Freyre assinalou que a “colonização do Brasil se processou

aristocraticamente... Aristocrático patriarcal e escravocrata. O português fez-se aqui

senhor de terras mais vastas, dono de homens mais numerosos que qualquer outro
colonizador da América.”36 O poderoso senhor de engenho ocupava o ápice da pirâmide

social, sobre a imensa massa de escravos africanos. Modo patriarcal de vida, com

estrutura social rigidamente estratificada, de grandes distâncias sociais marcadas por

componentes étnicos. O número de escravos definia o status dos brancos. Sem escravos,

um que fosse, nenhum colono poderia ser considerado, realmente, um homem livre. E

mesmo as famílias mais pobres tinham o seu negro, que muitas vezes ganhava o sustento

de todos. Nada se fazia sem escravos. Saía-se à rua carregado em liteiras por escravos.

Para montar, para vestir, para comer, para banhar-se, para tudo era necessário ter

escravos.

Os grandes proprietários procuravam ostentar poder em roupas, cavalos, arreios,

móveis, louças, cristais, mesa farta, serviçais. Riqueza nem sempre real, pois era apenas

um véu de opulência que encobria a miséria geral. O negócio do açúcar dava aos senhores

cerca de 5% sobre os recursos investidos, o que os obrigava a comprar fiado dos

fornecedores metropolitanos, hipotecando safras e bens. Quando insolventes, apelavam

às autoridades portuguesas. 37 Mas, mesmo garantidos na posse de suas propriedades, o

endividamento os obrigava a vender o açúcar a preços baixíssimos, agravando ainda mais

sua difícil situação econômica.

Na América Portuguesa, os engenhos, eixos da produção açucareira, constituíam

microcosmos , verdadeiras agências de colonização, no dizer de Oliveira França,

condensando populações e articulando, à moda de cidade, funções econômicas, militares,

religiosas e administrativas.38 Cada engenho possuía uma capela dedicada a um santo,

patrono da propriedade. Ao redor dos engenhos, pouco a pouco, estabeleciam-se ainda

freguesias, com suas paróquias, centralizando e supervisionando as atividades religiosas

36Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala, Op. cit., p.190.


37 Cf. Vera Lucia Amaral Ferlini, O Engenho Sergipe do Conde, Op. cit., cap.1.
38 Eduardo d’Oliveira França, “Engenhos, Colonização e Cristãos Novos na Bahia”. Anais do IV Simpósio
da ANPUH, pp. 181-241, 1967.
e constituindo-se em arraiais. As festas religiosas abriam espaço para demonstrações do

poder e da autoridade desses senhores. Sem essa solidariedade constantemente redefinida

pelas cerimônias pelas festividades, pelo encontro, o elo de ligação entre os que viviam

em colônias e o sentido maior da colonização se perderia. As festas deveriam reafirmar

que essa sociedade buscava, no espaço colonial, a glória de Deus e a riqueza e

prosperidade do Reino.

A família, sediada na grande propriedade açucareira ia além do marido, mulher e

filhos. Os escravos, os lavradores de cana, os roceiros e outros trabalhadores compunham

esse núcleo semiurbano, em que o poder emanava da autoridade do patriarca, o grande

senhor rural proprietário de terras. No mundo açúcar não havia outra comunidade

sólida.39

Ao contrário da visão da democracia racial que muitos tentaram imprimir, essa

intimidade interiorizava diferenças e estabelecia distâncias. Relações paternalistas

mascaravam a extrema violência do escravismo. Donos da vida e da morte em seu mundo,

aos senhores cabia velar pelos negros, nutrindo-os, vestindo-os e castigando-os. Pão, pano

e pau, eram as obrigações do proprietário, como anotado por Benci.40 Nos três séculos de

vida colonial, as regiões do açúcar foram palco de tensões e conflitos entre senhores e

escravos, entre brancos e índios, entre colonos e agentes metropolitanos, entre

proprietários de engenho e lavradores e comerciantes.

Modelo dessa sociedade, organizada como clã patriarcal, a família era a escola

onde se aprendia a subordinação, a passividade, a obediência, o respeito à autoridade

suprema do pai. Sob o mesmo teto conviviam filhos, tios, tias, sobrinhos, irmãos,

bastardos, afilhados, agregados, escravos. No centro estava o senhor, que determinava o

39Eni de Mesquita Samara, A família brasileira. 4ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.
40Jorge Benci, Economia Cristã dos Senhores o Governo dos Escravos (Livro brasileiro de 1700), São
Paulo: Grijalbo, 1977.
papel de cada um. A esposa, rodeada de escravos, gerava filhos, fazia doces, costurava e

bordava. Quando na cidade, frequentava a Igreja. As mulheres eram educadas para

reproduzir o papel da mãe, como esposas servis e submissas. Aos homens reservavam-se

as posições de mando: o mais velho educado para substituir o pai, os outros destinados

invariavelmente ao sacerdócio ou ao estudo acadêmico. A possibilidade de se servirem

de escravas criou no mundo dos senhores uma divisão racial do sexo.

A colonização do Brasil, marcada desde o início pela cruz, teve na religião ponto

de apoio para a dominação e para a repressão e subordinação dos escravos. No engenho,

ao lado da casa grande ou mesmo em seu interior, a capela estava presente. Não se tratava,

porém, de religiosidade profunda, mas manifestação de um culto misto de respeito aos

costumes europeus e reunião social, ponto importante dos principais momentos da vida

da colônia. As festas e cerimônias religiosas uniam o mundo do açúcar, trazendo às

capelas. a população das lavouras mais próximas para a missa dominical. Novos

encontros ocorriam nos inúmeros dias santos, assim como em batizados, casamentos e

funerais.

O universo religioso dos negros foi modificado no espaço colonial. Batizados

muitas vezes ainda em África antes do embarque nos tumbeiros, já no Brasil só eram

permitidas manifestações religiosas dentro dos parâmetros do catolicismo. Seus cultos

africanos eram ilegais, considerados bruxaria e feitiçaria. A prática do catolicismo pelos

escravos, em geral, era superficial e remetia aos valores místicos africanos. A integração

manifestava-se por atitudes exteriores, como ir à missa, entoar cânticos religiosos, seguir

procissões, acompanhar o terço às tardes. A persistência nas práticas religiosas africanas

representava rebeldia e era punida. Acusados de feitiçaria, bruxaria, magia, negros foram

levados, durante o período colonial, às barras do Tribunal da Inquisição. 41Embora

41 Laura de Mello e Souza, O Diabo e a Terra de Santa Cruz, São Paulo: Cia das Letras, 1986.
permitissem a participação dos negros em festas religiosas, as formas musicais e estéticas

africanas eram diluídas e formalizadas dentro dos padrões brancos. A organização de

confrarias criou elementos de solidariedade entre ele, possibilitando a aproximação, o

contato e a organização dos escravos, ainda que sob as vistas vigilantes da sociedade

branca. Dentro dos seus limites, procuravam socorrer escravos doentes, abandonados

pelos senhores, dotar negras livres pobres para casamento, organizar funerais.42Os cultos

afros permaneceram, por muito tempo, em locais escondidos, nas capoeiras das matas,

distantes dos núcleos urbanos. Depois, lentamente, em unidades quase conventuais, nos

“terreiros” de subúrbio. e seu papel, antes os santos foram levados ao universo de valores

dos negros. 43

7. O AÇÚCAR NAS CAPITANIAS DO SUL

O incremento da produção, no final do século XVIII, criou uma nova geografia

açucareira do Brasil, em especial no Sudeste. Gradativamente, o açúcar foi imprimindo

às terras e aos homens uma outra configuração, assentando as bases de um mundo de

senhores e escravos que o café se encarregaria de consolidar. O início da Guerra de

Independência na América do Norte, o conflito generalizado no Caribe e no Atlântico,

com a consequente tendência de alta dos preços, a partir da década de 1770, deram novo

impulso à produção açucareira do Sul, orientando-a, agora, para o mercado mundial e

consolidando, nessas áreas, produção escravista de larga escala. 44 O porto do Rio de

42 João José Reis, A morte é uma festa, São Paulo: Cia. das Letras, 1991.
43 Marina de Mello e Souza, “Catolicismo negro no Brasil: santos e minkisi, uma reflexão sobre
miscigenação cultural”, Afro-Ásia, 28 (2002), 125-146.
44 Não se pode atribuir unicamente às guerras e às revoltas no Caribe, o impulso favorável à produção
açucareira do final do século XVIII. No caso do Brasil, há de se levar em conta a nova inserção dos produtos
agrícolas numa economia que se expandia à época da Revolução Industrial. Assinale-se, ainda, a política
de fomento agrícola, estimulada, desde o tempo de Pombal pelos administradores coloniais. Cf. José
Janeiro já desempenhava papel fundamental no tráfico negreiro, constituindo-se em

principal polo de importação e redistribuição de escravos para a mineração. 45As

Minas estimulavam um florescente comércio negreiro que tinha na aguardente o principal

produto de troca. Ao mesmo tempo, lavouras de cana e engenhos beneficiavam-se da

maior disponibilidade de escravos.46

Ao final do século, as estimativas apontam 806 engenhos, para o Nordeste, e o

Sul, contava com mais 1 000 unidades produtoras de açúcar e centenas de engenhocas de

aguardente., concentrando-se as maiores unidades na área do Rio de Janeiro. 47Em São

Paulo, o avanço da lavoura canavieira configurou áreas exportadoras no litoral e “serra

acima”. No litoral, destacavam-se Ubatuba, São Sebastião e Ilha Bela, com engenhocas

produtoras, principalmente, de aguardente. Essas unidades, cerca de 70 em 1801, eram

subsidiárias do Rio de Janeiro, para onde vendiam sua produção. No planalto, a lavoura

açucareira ocupou duas regiões, a do Vale do Paraíba, ao longo do caminho para o Rio

de Janeiro e o chamado quadrilátero do açúcar, formado por Sorocaba, Piracicaba, Mogi

Guaçu e Jundiaí. Outras áreas possuíam plantações de cana e engenhocas, mas sem

produção significativa. No Vale do Paraiba, a configuração da produção era semelhante

à do litoral e vinculada ao Rio de Janeiro. Na área conhecida como quadrilátero do açúcar,

destacavam - se Campinas e Itu.

Em Minas Gerais, desde o início da exploração, registrou-se a presença de

engenhos. 48 No século XIX seu cultivo estava espalhado e a produção provincial de

açúcar, rapadura e cachaça parece ter sido muito grande. Viajantes e observadores

Jobson de Andrade Arruda. O Brasil no Comércio Colonial. São Paulo, Atica, 1980, p. 642 e ss.
45 Cf. Maurício Goulart. A Escravidão Africana no Brasil, Op. cit.
46 Cf. Mafalda P. Zemella. O Abastecimento da Capitania das Minas Gerais no Século XVIII, 2a. ed., São
Paulo: Hucitec/EDUSP, 1990 (1a. ed. 1951).
47 Cf. José Jobson de Andrade Arruda. A Produção Econômica. In: Maria Beatriz Nizza da Silva (org.) O
Império Luso Brasileiro (1750-1822). Lisboa: Editorial Estampa, 1986, pp.95-102.
48 Miguel Costa Filho. “Engenhos e Produção de Açúcar em Minas Gerais”, Revista de História da Economia
Brasileira. São Paulo: 1(1):42-50.
notaram que os canaviais, engenhos e alambiques eram componentes usuais dos

estabelecimentos rurais na maior parte da província e não havia um setor açucareiros. Os

engenhos, no geral, eram engenhocas produtoras de rapadura e aguardente. 49Em Mato

Grosso, em função da mineração, já no século XVIII proliferaram pequenos engenhos de

aguardente e rapadura Ao longo do século XIX, a produção cresceu, e os engenhos

passaram a atender aos mercados do Paraguai e da Bolívia.

O avanço da produção açucareira nas Capitanias do Sul implicou em

configurações fundiárias diversas. Nas áreas ocupadas pela produção escravista de

exportação, predominaram as grandes unidades, com grandes planteis de escravos,

relações complexas de propriedade, de posse e de arrendamento e muitas vezes com

separação entre engenho e lavouras de cana. Já nas áreas dedicadas à produção escravista

para consumo interno, principalmente de rapadura e aguardente, a ocupação correspondia

a unidades menores, com menos escravos e sem a complexidade de hierarquia de

lavradores. Nas áreas exportadoras paulistas e nas do Rio de Janeiro, o processo usual de

ocupação foi a posse e estabelecimento de fazendas de cana e engenhos, para posterior

requerimento da sesmaria. muitas vezes passavam-se anos e mesmo gerações sem que o

título legal fosse requerido, o que contribuía para a proliferação de conflitos e mesmo

para usurpações violentas. Para São Paulo, parece ter sido bastante rara a existência de

lavradores de cana sem engenho. Todavia, a constatação de unidades detentoras de

pequenas áreas , mas comparativamente com produção significativa, pode indicar a

existência de terras ocupadas por pequenos produtores a moer cana em engenho alheio.

Sem dúvida, o açúcar levou a concentração de escravos até então desconhecida

nas áreas de Campos, Rio de Janeiro e São Paulo, em finais do século XVIII. Estimativas

de 1789 mostram que a Capitania do Rio de Janeiro alcançava 168.709 habitantes, dos

49Cf. Roberto Borges Martins. Growing in silence. The Slave Economy of nineteenth century Minas Gerais,
Brazil, PHD Thesis, USA, 1980, p. .301-306.
quais 82.448 eram escravos, o que correspondia a 48,9% do total. No início do século

XIX, Saint - Hilaire que visitou a região em 1816, indicava 14.560 livres e 17.537

escravos, em Campos, ou seja, 54, 4% de escravos. 50 Em São Paulo, em 1813 a proporção

entre escravos e livres era menor, e de um total de 160.969 habitantes, contava-se 48.245

escravos. Ai, os cativos representavam 28,6% da população. 51

Quais os padrões sociais e econômicos dos senhores do açúcar no sul? As

pesquisas apontam menor concentração de riqueza dos senhores do açúcar na região, que

a classicamente atribuída aos senhores do Nordeste. De forma geral, os padrões senhoriais

diferenciaram-se em função da maior ou menor integração ao mercado exportador, em

função da existência ou não de uma hierarquia de senhores e lavradores de cana e em

função da persistência ou não da produção. Em Campos, onde a economia açucareira

esteve firmemente voltada para a exportação e era freqüente a existência de lavradores

de partido, foi se firmando uma sociedade nos moldes aristocráticos, como a do Nordeste.

Em áreas como as do Vale do Paraíba e do litoral norte da capitania de São Paulo, onde

a produção açucareira estava voltada para mercado interno, organizada em pequenas

unidades e, portanto sem a hierarquização entre diversos tipos de senhores, teríamos

padrões culturais menos aristocráticos e maior flexibilidade no relacionamento entre

senhores e escravos. Ressalte-se, porém, no,caso do Vale, que quando o café tornou-se

hegemônico, a paisagem social da área foi marcada com a imagem dos “barões”. A

partir do quadrilátero do açúcar, a ocupação das terras e a acumulação de riqueza

permitiram o avanço dos cafezais, durante o século XIX, com a necessidade de mais

trabalhadores e vias de comunicação, encaminhando novos processos sociais e políticos.

50 Auguste de Saint- Hilaire, Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil.( 1833), Trad. Port., São
Paulo, Itatiaia/ EDUSP, 1974, p. 202.
51 Cf. Maria Thereza S. Petrone, Op. cit., p. 110.
DISCUSSÃO BIBLIOGRÁFICA

O papel da economia açucareira na formação do Brasil tem lugar importante na

historiografia. Tratado pela crônica desde o período colonial, mais tarde nas abordagens

gerais de história do século XIX e início do XX, a questão do açúcar está intimamente

ligado às reflexões sobre a colonização. A questão tornou-se central especialmente a

partir da década de 1930, quando a crise da ordem oligárquica apontava a necessidade de

novas percepções e ajustamentos. Esse redescobrimento 52 expressou-se, especialmente,

nas obras de Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, com

interpretações originais e paradigmáticas sobre a realidade brasileira, que ainda hoje

pautam os estudos do tema. 53 Em diferentes aspectos, os autores questionaram o papel

da preeminência de uma economia mercantil e escravista, das bases do mandonismo

político, da marginalização de extensas camadas da sociedade, do monopólio da terra.

Caio Prado Jr., na ótica do materialismo histórico, tomou o período colonial como

elemento constitutivo da vida brasileira, definindo o sentido da colonização do Brasil: a

construção, no período colonial, de uma sociedade e uma economia voltadas acima de

tudo para o mercado externo, dependente da economia internacional e que impedia o

crescimento do mercado interno. O clã patriarcal, base da sociedade rural, atraia à sua

órbita de influência, além dos escravos, as populações vizinhas, em busca de proteção e

favores que a autoridade pública, geralmente não proporcionava.

Sérgio Buarque de Holanda, diferentemente de Prado Jr., buscou explicar a

estrutura da sociedade brasileira a partir de seus aspectos culturais: formas de convívio,

52 Cf. Renato Moscatelli, “Um redescobrimento historiográfico do Brasil”, Revista de História Regional,
Goiânia: UFGO, 1, 2000, pp.187-201. Veja-se também Carlos Guilherme Mota, Ideologia da cultura
brasileira (1933-1974): pontos de partida para uma revisão histórica, São Paulo: Ática, 1978.
53 Caio Prado Jr, Evolução Política do Brasil, (1933) 9a.ed. São Paulo, Brasiliense, 1975 e Formação do
Brasil Contemporâneo, (1942) 13 a.ed., São Paulo: Brasiliense,1973; Sérgio Buarque de Holanda, Raízes
do Brasil (1936) 4ª ed., Brasília: UNB, 1963; Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala (1933), 20a.ed., Rio
de Janeiro: José Olympio,1980.
instituições, idéias. Elementos que sintetizam o “homem cordial”, o proprietário que age

a partir de práticas autoritárias de poder, tratando a realidade com os olhos da cultura

européia, desconsiderando os problemas concretos da colônia, consequência da força

cultural do patriarcalismo, pois no mundo rural, a vontade do senhor era lei,

predominando o poder da esfera privada , da família sobre o Estado. Se Caio Prado Jr.

dirigiu suas preocupações e sua análise da história brasileira, em função da crítica à

dependência econômica do país, Sérgio Buarque de Holanda privilegiou o mandonismo

político, que se intensificava no governo Vargas.

As questões raciais e do escravismo, polêmicas nas abordagens desde a abolição,

foram centrais na análise desses autores, que rejeitaram o caráter deletério da

miscigenação. Para Prado Jr., a posição social inferior dos negros e de seus descendentes

era resultado de séculos de escravização, que produziram a subordinação de negros e

índios para gerar a riqueza dos brancos. Sem conseguir escapar de um certo preconceito,

aponta que as condições do processo produtivo impediram que as várias “raças” se

comunicassem como representantes de diferentes civilizações, dentro de uma escala

hierárquica de evolução civilizatória de critérios questionáveis. 54 Sérgio Buarque de

Holanda salientou as vantagens da mestiçagem para o processo de colonização do Brasil,

pois a plasticidade social dos portugueses, foi uma virtude cultural, que permitiu que a

obra colonizadora beneficiasse-se da miscigenação.

O fator mais importante, para Gilberto Freyre, era a adaptação dessas raças e

culturas, em contato na Colônia, ao meio ambiente tropical. As relações domésticas

teriam amenizado até os antagonismos senhor/escravo, proporcionando o contato

contínuo entre as raças, entre a casa grande e a senzala. Essa argumentação, que nega as

possibilidades de confronto e aponta a idéia de um “paraíso racial”, ressalta a família

54 Cf. Renato Moscatelli, Op. cit., pp. 187-201


patriarcal como fonte de estabilidade social, em discurso a favor manutenção do pacto

agrário-industrial firmado pelas elites dirigentes brasileiras da década de 30.

A partir da década de 50, os estudos sobre a colonização e seu peso no processo

sócio político econômico ganharam novo fôlego, estimulados pela descolonização do

segundo pós guerra e pela luta para a superação da dependência, em especial na América

Latina. O papel das estruturas coloniais, no Brasil, e em especial daquelas criadas a partir

da grande unidade açucareira, estiveram na base de obras como Formação Econômica do

Brasil, de Celso Furtado, Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, Portugal e Brasil na

Crise do Antigo Sistema Colonial, de Fernando Novais, Circuito Fechado, de Florestan

Fernandes, O Escravismo Colonial, de Jacob Gorender, dentre outros. 55 O papel dos

setores produtivos voltados ao abastecimento e ao mercado interno ganharam ênfase a

partir dos estudos de José Roberto do Amaral Lapa e de Maria Yedda Linhares e do grupo

de pesquisadores por ela formados, constituindo-se em contraponto e base de debates

sobre a natureza da colonização.56

Estudos mais gerais sobre o açúcar foram produzidos desde a década de 30, sob

os auspícios do Instituto do Açúcar e do Álcool e publicadas na Revista Brasil Açucareiro

e em livros, como os de Gileno de Carli e Wanderley Pinho.57 Gilberto Freyre, pioneiro

em retratar a sociedade açucareira do Nordeste, completou suas análise com Sobrados e

55 Celso Furtado, Formação Econômica do Brasil, Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959; Raymundo
Faoro, Os Donos do Poder, Op.cit; Florestan Fernandes,, Circuito Fechado, Op. cit. ; Fernando Antonio
Novais, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777--1808), São Paulo: Hucitec, 1979; Ciro
Flamarion S. Cardoso, “O Modo de Produção Escravista Colonial na América”, in Santiago, Theo, América
Colonial, Rio de Janeiro: Pallas, 1975; Jacob Gorender, O Escravismo Colonial, São Paulo: Ática, 1978.
56 José Roberto do Amaral Lapa (Org.), Modos de Produção e Realidade Brasileira. Petrópolis: Vozes,
1980; Maria Yeda Linhares e Francisco Carlos Teixeira da Silva, História da Agricultura Brasileira.
Combates e Controvérsias, São Paulo: Brasiliense, 1981.Vejam-se ainda os trabalhos de João Fragoso,
Manolo Florentino, Sheila Faria, Márcia Mota, Hebe de Castro, dentre outros.
57 Gileno de Carli, O Drama do Açúcar, Rio de Janeiro, : Pongetti, 194; Idem, O Doce Amargo, Rio de
Janeiro, : Pongetti, 1942;
Mucambos(1936), Nordeste (1937), Açúcar (1939), O Mundo que o Português Criou (

1940).58

As pesquisas de Fréderic Mauro, sem dúvida, impulsionaram reflexões mais

profundas sobre o açúcar, a partir de Le Portugal et L’ Atlantique (1570-1670), sua tese

defendida, em 1957, tendo por base amplos dados seriais , traçou um vigoroso quadro

econômico do Império Português do Atlântico, no período em que o açúcar brasileiro era

o motor da atividade colonial. 59

O trabalho mais acurado e exaustivo sobre história do açúcar é o de Stuart

Schwartz. Desde a publicação de “Free Labor in a Slavery Economy”, em 1976,

desenvolveu as pesquisas que resultaram, em 1985, em Sugar plantation in the

Formation of Brazilian Society. Publicado em 1988, no Brasil, com o título de Segredos

Internos, inspirou dezenas de pesquisas detalhadas e reflexões historiográficas que

apontam o papel do açúcar no período colonial e de suas projeções na sociedade. A

grande herança do poder dos donos de terras e de homens, firmou-se como base política

do século XIX e grande parte do XX, ecoando até hoje como elemento de mando.

8. FONTES E BIBLIOGRAFIA CITADAS


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58Gilberto Freyre, Sobrados e Mucambos, Rio de Janeiro: José Olympio, 1936; Idem, Nordeste, Rio de
Janeiro :José Olympio, 1938; Idem, O Mundo que o Português Criou, :Rio de Janeiro: José Olympio,
1940.
59 Fréderic Mauro, Le Portugal et L’Atlantique (1570-1670) Paris : École Pratique des Hautes Études,
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9. LEITURAS COMPLEMENTARES

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