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I

PORTEIROS
DA MADRUGADA
COLEÇÃO- CEDIBRA ESPECIAL (Série Amarela)

Próximo lançamento:

5. COPACABANA, AMOR E TRAIÇÃO —

Carlos Aquino

Outros lançamentos desta coleção:

Série Verde 4

SEM RUMO NA NOITE —

Hélio Miranda de Abreu

Série Azul 4

AGONIA NO NATAL — José Edson Gomes

Série Vermelha 4

•MORTE POR ENCOMENDA — José Louzeiro

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— Editora Brasileira Ltda. — Caixa Postal 20.095 -

Rio de Janeiro, Capital.

PORTEIROS

DA MADRUGADA
Carlos Aquino

Capa: Edi Briançot Bousquet

Copyright © M C M L X X V I CEDIBRA — Editora Brasi¬

leira Ltda

Rua Filomena Nunes, 162 — 20.000 — Rio ZC-22 — RJ.

Composto e impresso pela Cia. Editora Americana

Rua Visconde de Maranguape, 15 — RJ.

O texto deste livro não pode ser, no todo ou em parte,

nem registrado, nem reproduzido, nem retransmitido,

por qualquer meio mecânico, sem a expressa autoriza-

ção do detentor do copyright.

PREFÁCIO

Uma mulher de sociedade entediada; um

porteiro noturno que na sua solidão imensa des-

cobre, perplexo, ser bem mais fácil alcançar o

que lhe parecia sonho; uma prostituta sequiosa

de amor de verdade. Com estes três persona-

gens, que se entrecruzam, se medem, odeiam e

amam, Carlos Aquino construiu uma nova his¬

tória diferente na abordagem e com desfecho


insuspeitado — mas repleto de carga dramática.

Por que são personagens extraídos a vida, dupli¬

catas da realidade, figuras humanas autênticas.

E as situações em que se encontram, neste ro¬

mance, não fogem ao diapasão de cada dia.

Aliás, de cada noite, no Rio de Janeiro, onde o

autor foi recolher, flagrar, capturar para recriar

—5

momentos da violência e da crueldade com que

estamos, neste último quarto-de-século, nos ha-

bituando a coabitar.

Esse sopro de verdade que reponta em cada

página de Carlos Aquino, já do conhecimento

dos leitores

talvez com

mais força neste romance insólito. Há uma crí¬

tica . velada ao comportamento da alta burgue¬

sia que poderá chocar, até desagradar, mas o


romancista não utiliza, em momento nenhum,

digressões pseüdomoralistas. Apenas descreve,

expõe, coloca em cena os atores e os problemas

que os envolvem nesse carrossel de angústias.

A cada novo livro, sente-se que o escritor

apura sua técnica, lança mão do seu agudo

senso de repórter, e da sua notável habilidade

de dramaturgo e dialoguista de cinema, para

tecer episódios que são, simultaneamente, boa

ficção e trechos de vida. Mônica e Mara são

mulheres de carne e osso; o sangue corre em

suas artérias, seus corações pulsam, são mu¬

lheres com todas as virtudes e defeitos. Tam¬

bém os homens da história não são figuras ape¬

nas ideadas — cada um de nós conhece alguém

como o marido de Mônica, alguém como os dois

porteiros pintados por Aquino. Gente, que exis¬

te, sofre e se alegra, ri e chora, sonha e vibra.

Gente.

E essa gente, suas peculiaridades, seus mo¬


dismos, o autor retrata, sofregamente, numa

narrativa sincopada onde o diálogo tem uma

particpação decisiva, definitiva. E o estilo de

Aquino, aperfeiçoado, burilado. Ele caminhou

um bocado desde "E Verão no Rio". E quando

fechamos a última página deste livro temos a

impressão de ir encontrar, pela madrugada, um

porteiro que recorda o passado sem muita es-

perança no futuro, uma grã-fina entediada com

o ramerrão de uma vida de festas e bacanais,

uma prostituta agindo com a frieza profissional

até encontrar o amor de sua vida.,


Salvyano Cavalcanti de Paiva
PRIMEIRA PARTE
Mônica e o Tédio

CAPÍTULO I
uma mulher fiel
Mônica afundou no sofá, com um copo de

uísque na mão. Procurara um local tranqüilo

no imenso apartamento, a fim de fugir dos

outros convidados. Estava literalmente cheia

daquelas festas maçantes a que ia quase como

uma obrigação.

Era todo mundo muito rico. Ali estava reu¬

nido quase todo o "beautiful people", como cos¬

tumava ser designada pelos colunistas sociais

aquela gente que não tinha muito o que fazer e

cujas conversas quase sempre giravam em tor¬

no das mesmas coisas.

Uma beleza falsa. Uma alegria falsa. Uma

anrzade falsa. Se a maioria daquelas mulheres

presentes a festa lavasse a cara e tirasse todos

—11

os artifícios seria irreconhecível. Mônica não

pôde deixar que um sorriso irônico aparecesse


em seu rosto ao pensar como ficaria a Clotilde

Pereira, por exemplo, sem maquilagem, sem os

dentes postiços e sem o vestido Saint-Laurent

que estava usando. Certamente, um monstro.. .

No entanto, ao chegar à festa, ela própra,

Mônica, abraçara e beijara Clotilde na face, di¬

zendo :

— Você está linda, querida!

Clotilde, sorrira com ar superior, como se es¬

tivesse cansada dos elogios feitos à sua aparên¬

cia. Mônica sentiu uma certa repugnância por

si mesma, ao lembrar-se de que também era tão

hipócrita quanto toda aquela gente.

Já nascera naquele ambiente. Crescera em

meio à juventude dourada da Zona Sul. Casara

com Haroldo, também riquíssimo. Lua-de-mel

na Europa, cruzeiro pelas Ilhas Gregas, notícias

nos jornais. Pouco tempo depois, Haroldo já não

conseguia olhá-la sem disfarçar o tédio que sen¬

tia.
Apesar de acostumada àquela vida fútil, de¬

pois dos vinte e cinco anos começava a sentir

um vazio enorme. Jovem ainda, tinha se tor¬

nado "blasée". As festas e jantares constantes,

as citações nas colunas, as esticadas nas boates,

as viagens constantes à Europa, haviam se trans¬

formado numa rotina exasperante.

Surpreendera-se várias vezes questionando-se

a respeito da inutilidade de sua existência. Ti¬

vera dois filhos, que eram praticamente cria¬

dos pelas babás. Não via sentido nenhum em

sua vida, não precisava lutar para conseguir na¬

da e tinha um pouco de sentimento de culpa

por ter tudo tão fácil em termos materiais. PÁG 12

Se ao menos Haroldo a a m a s s e . . .

Ele rira às gargalhadas quando lhe falara

nisso:

— Você está reclamando de barriga cheia,

Mônica. Você não tem de que se queixar. Vi-

vemos bem, temos tudo. Não acre d to que seja


tão ingênua para acreditar em amor eterno, fi-

delidade e essas coisas gagás de um tempo que

a gente não conheceu. Você está bancando a

menina boba de cidade do interior do começo do

século. É ridículo!...

Cinco anos de casados. Haroldo tinha mui¬

tas aventuras com várias mulheres de todas as

classes sociais, da secretária do escr tório à es-

posa do seu sócio na firma. Mas continuavam

juntos. Como ele mesmo lhe dissera, casamen¬

to não tinha nada a ver com fidelidade.

Mas o mais curioso de tudo, era que ela nun¬

ca o traíra. Não sabia bem dizer o motivo, mas

a verdade é que nunca tivera relações sexuais

com outro homem depois que casara com Ha¬

roldo.

Receio? Não, não havia motivos para ter

medo. Todos, inclusive o próprio Haroldo, pou¬

co estavam ligando para a sua fidelidade. Não

havia o que temer.


Uma questão de princípios? Também não

era bem o caso. Já estava tão acostumada com

a promiscuidade do mundo em que vivia, que

não podia dizer que tivesse princípios muito

rígidos de moral.

Talvez a explicação fosse o tédio. Era tudo

tão fácil! Qualquer um dos seus conhecidos iria

para a cama com ela, com a maior facilidade.

Era só querer. Mas não se sentia especialmente

atraída por nenhum. Sabia que era apenas uma

—13

questão de tempo. Mais dia menos dia arran¬

jar a um amante ou vários, nem que fosse para

quebrar um pouco aquela monotonia.

— Está meditando? /

Mônica olhou para Ester, que acabara de

se aproximar:

— Resolvi me afastar um pouco daquela

gente chata.

Ester sentou-se ao lado de Mônica, que ficou


ligeiramente irritada. Não estava com disposi¬

ção para conversar. Mas Ester nem de longe

percebeu isso, ou se percebeu, não se incomodou.

—; Não está gostando da festa?

— Na verdade, eu não gosto de festas em

geral. E uma conclusão definitiva.

— Sem essa, Mônica.

— Diga com franqueza: você ainda conse¬

gue se divertir nestas reuniões?

— Mas claro, Mônica. Eu adoro. Não po¬

deria viver sem elas.

Mônica resolveu deixar de ser sutil:

— Então por que não volta para o meio dos

outros?

— Não precisa engrossar, não é? Vi você

aqui triste, pensei que podia ajudar em alguma

coisa.

— Não estou precisando de nenhum tipo de

ajuda que você possa me dar.

— Esta agressão toda é por que o Haroldo


está flertando descaradamente com a Cláudia?

— Ora, Ester, você acha que por estas al-¬

turas dos acontecimentos eu ainda me importo

que Haroldo vá pra cama com que ele bem

entende?

14—

— Decididamente seu humor hoje está mui¬

to azedo.

Ester levantou-se e saiu do aposento. Môni¬

ca suspirou aliviada, mas tinha certeza de que

não ficaria muito tempo soznha. Não sabia

mesmo como havia conseguido aquele recanto

pra ficar longe dos outros.

Ouvia a música, o falatório, as gargalhadas

que vinham dos salões. Não entendia como

aquela gente conseguia se divertir tanto sem

nenhuma razão. Enfim, cada um é como é.

Os outros é que não deviam compreender como

ela não se divertia.

Como Mônica previra, pouco depois, apare¬


ceu alguém para lhe perturbar. Bráulio apro¬

ximou-se, pegou em seu queixo e falou, já meio

bêbado:

— O que está fazendo aqui?

— Nada.

Bráulio sentou-se ao seu lado e colocou a

mão em sua coxa:

— Enquanto estamos sós, podíamos aprovei¬

tar um pouco.

Mônica retirou a mão de Bráulio de sua

perna:

— Não estou com vontade de aproveitar

nada.

— Qual é o problema?

— Nenhum, Bráulio. Estou apenas com von¬

tade de ficar só.

— E por que veio a festa?

— Não sei. A força do hábito, sem dúvida.

— Por que não volta pra casa?

— É o que estou pensando em fazer.


—15

— Haroldo não deve estar querendo ir em-

bora.. Está muito animado com a Cláudia. Se

quiser, eu te levo.

Bráulio colocou o braço pelas costas de Mô-

nica, abraçando-a e beijando-a a seguir. Ela

afastou-se friamente e dirigiu-se para o terraço.

Ele a acompanhou.

— Você não desiste?

— Por que você não quer nada comigo, Mô¬

nica?

— Não é só com você que não quero. Não

estou querendo nada com ninguém.

— Deixe de ser tola. A vida é uma só.

— Que novidade!

Outras pessoas conversavam no terraço.

Mônica levou o copo de uísque aos lábios. Fora

pior ter procurado se afastar. Tivera o azar de

Bráulio tê-la descoberto e agora sabia que ia ser

difícil livrar-se dele. Mais difícil ainda seria


aturá-lo.

Havia muito tempo que Bráulio lhe canta¬

va. Trair Haroldo com qualquer um daqueles

homens que conhecia era o mesmo que não

trair. Eram todos tão parecidos com seu ma¬

rido. ..

Bráulio insistia:

— Eu ainda vou pra cama com você.

— .Desista, Bráulio.

— Por que tanto escrúpulo? Haroldo não

vai se importar...

— Eu sei disso.

— Muito pelo contrário. Ele é capaz de fi¬

car até satisfeito. Sabe que eu acho mulher fiel

uma coisa muito chata? PÁG 16

— E por que vive atrás de mim?

— Sempre tive todas as mulheres que

quis......

Quanto tempo ainda ia ter que suportar

Braulio? Devia ser mais ou menos uma hora


da madrugada. A festa se estenderia até às

quatro pelo m e n o s . . .

— Se você for comigo até meu apartamento

uma vez, garanto que vai gostar. Todas que

estiveram lá, repetiram a dose — disse Brau¬

lio procurando dar um tom engraçado à sua


V07.
Mônica olhou-o com uma seriedade até certo

ponto cômica e o deixou sozinho, entrando num

dos salões cheios de gente. Algumas pessoas

dançavam. Procurou Haroldo com os olhos, mas

não o viu. Devia estar em outro aposento.

Ester conversava animadamente com um ca¬

sal. Não teve coragem de se aproximar. Ten¬

tou ver se encontrava alguma cara desconheci¬

da. Talvez uma pessoa diferente, com quem pu¬

desse trocar idéias sem se chatear tanto. Mas

todos os rostos eram familiares. Monotona¬

mente familiares. Já sabia com antecedência o

que iriam dizer e o que ela iria responder.

Um garçom passou e Mônica trocou seu co¬

po quase vazio por outro cheio. Como sempre, o

melhor mesmo era beber o mais que pudesse.

Entorpecida pelo álcool, a tortura da festa seria

mais suportável...
Olhou o garçom de cima a baixo e imagi¬

nou-se na cama com ele. O rapaz ficou pertur¬

bado pela maneira como o fitara e afastou-se.

Mônica divertiu-se ao pensar que havia desco¬

berto um novo jogo, observando os garçons que

serviam, em vez de olhar os outros convidados...

—17

CAPÍTULO II

As Saudades de João

Sentado na portaria do edifício, João ouvia

baixinho seu rádio de pilha. A música do rádio

se misturava com os sons longínquos que che¬

gavam do apartamento lá em cima, onde a fes¬

ta se realizava. Na rua, uma pessoa ou outra

passava.

Era um trabalho tranqüilo. Na verdade, não

podia se queixar da sorte aqui no Rio. Lá em

sua terra é que as coisas não tinham andado

bem. Um dia criara coragem, deixara tudo e

viera embora...
João tinha vinte e oito anos de idade. Mo-,

r e n o , cabelos pretos, bigode. E s t a t u r a mediana, f o r t e e, a p e s a r


dos t r a ç o s u m pouco g r o s s e i r o s , p o d i a s e r considerado bonito.

—19

Nascera no interior de Pernambuco. Conhe¬

cera Zezé, uma mulata muito bonita por quem

se apaixonara, quando tinha dezoito anos. Fo¬

ram viver juntos e tiveram três filhos. A vida,

que já era ruim, ficara pior. Cansada da misé¬

ria, Zezé conhecera um outro cara e o largara.

Os meninos passaram a ser criados por sua tia

e ele resolvera vir para o Rio tentar a sorte.

Todos os meses mandava parte do salário

para a tia que cuidava dos garotos. Já fazia

mais de um ano que chegara. Às vezes sentia

uma saudade aguda de sua terra e dê Zezé.

Apesar de tudo, continuava gostando da mu¬

lata que o deixara por outro.

Primeiro conseguira um trabalho como por¬

teiro de um edifício em Copacabana. Fizera

amizade com outros da mesma rua. Um deles


fora trabalhar naquele edifício luxuoso do Le

blon e algum tempo depois, ao de xar o em¬

prego por uma coisa melhor que arrumara, o re¬

comendara para ficar em seu lugar.

Durante os oito meses em que trabalhara

em Copacabana, ficara conhecendo todos os ví¬

cios do bairro e tivera muitas aventuras. Gos¬

tava de ficar observando as pessoas que passa- -

vam na madrugada. Bêbados, bichas, prostitu¬

tas, casais, jovens, hippies... Toda a fauna des¬

filava ante seus olhos curiosos.

Mara, uma prostituta que faz!a ponto na.

esquina da rua onde trabalhava antes, certa vez

passara por ele e lhe perguntara as horas. Agra¬

decera sorrindo e fora para o seu local de "tra¬

balho". Pouco depois um automóvel parara e

ela fora embora.

Com o tempo accstumara-se com a presen¬

ça de Mara na esquina, que aos poucos fizera

amizade com ele. 'Quando passava, arranjava


20—

sempre um jeito de parar e conversar alguns

minutos. Já fazia muito tempo que João tivera

relações com uma mulher e não suportava mais

ter que masturbar-se quando não agüentava

mais de desejo e solidão.

Uma noite, Mara demorara-se mais conver¬

sando com ele.

— Sabe que acho você um cara legal? A

gente bem que podia transar.

— Quando?

— Agora. Você não quer?

João olhara o relógio e vira que ainda eram

duas horas:

— Agora não dá. Tá muito cedo. Tenho

que tomar conta da portaria. Sabe como é,

quando chega um morador de carro, tenho que

abrir a porta da garagem. Se desse pra você

voltar lá pras três ou quatro h o r a s . . .

— ótimo — exclamou Mara, realmente sa¬


tisfeita. — Assim dá tempo de pegar um fre¬

guês na esquina, ir com ele e voltar pra te en¬

contrar .

Mara fora para a esquina como fazia sempre

e partira no primeiro carro que parara. João

não cabia em si de contentamento. Chegara fi¬

nalmente o dia de possuir Mara, de voltar a ter

uma mulher em seus braços

Mas as horas passaram e Mara não voltara.

Três horas. Três e um quarto. Três e meia. O

último carro de morador do prédio já chegara.

João. continuara a esperar. Três e quarenta.

Três e quarenta e cinco. Quatro horas.

Ela tinha que vir. Por que deixaria de vir?

Fora ela mesma quem tocara no assunto e se

oferecera. Estava atrasada, mas ainda ia chegar.

—21

Quatro e quinze. Quatro e meia. Quinze para

as cinco. O dia já estava clareando.

Aborrecido, João desistira de esperar. Teria


sido melhor que ela não tivesse se oferecido.

Será que estava a fim de gozá-lo? Prostituta era

assim mesmo. Se não se podia confiar em mu¬

lher direita, e ele t nha como exemplo a Zezé,

em prostituta muito menos.

No dia seguinte, acordara ocm a cabeça

doendo. A primeira coisa que pensara fora em

Mara. À noite, se a visse, iria dizer-lhe umas

verdades.

Com efeito, Mara aparecera antes da meia-

noite. Chegara sorrindo, o que irritara João

mais ainda.

— Está muito invocado comigo?

— Não quero mais papo com você.

Mara encostara a mão na barriga dele num

gesto carinhoso:

— Desculpe. Não pude voltar. O cara de

ontem quis que passasse a noite toda com ele.

E me pagou uma nota. Não podia deixar de

aproveitar a oportunidade. Não é todo dia que


a gente acha um mão aberta. Como você sabe,

eu preciso de dinhero, tenho de viver. Mas hoje,

se ainda me quiser, eu volto pra te encontrar.

— Não é preciso — dissera João ainda abor¬

recido.

— Mesmo que não espere por mim, eu volto.

Como teria que ficar mesmo na portaria du¬

rante a noite, João não perderia tempo esperan¬

DO-a. Mas não acreditava que voltasse. Perto

das quatro horas, avistara Mara dobrando a es¬

quina e dirgindo-se para ele:

— Eu não disse que hoje vinha? A gente

PODE entrar agora?

22—

João levara Mara para a garagem do edifí¬

cio. Era uma quarta-feira e o prédio todo dor¬

mia àquela hora. Fizeram amor em pé, num

canto, encostados numa parede. Há muito tem¬

po que não tinha mulher e queria aproveitar

aquela oportunidade ao máximo. Não deixara


Mara ir embora logo. Poder am não se encon¬

trar mais. Mara relutou diante de sua pro¬

posta:

— Outra vez, João? Estou muito cansada.

Já tive com outro homem antes.

— Amanhã você descansa.

João recomeçara a pegar nos seios de Mara.

Sentira que estava novamente excitado. Queria

possuí-la mais uma vez, duas vezes, tantas quan¬

tas pudese a g ü e n t a r . . .

Depois disso, Mara o procurava para fazerem

sexo, pelo menos duas vezes por semana. João

começara então a ver que seu trabalho lhe ofe¬

recia muitas vantagens extras. Quando alguma

mulher passava altas horas da noite pela porta

do edifício, sozinha, procurava adivinhar se ela

toparia um programa com ele ou n ã o . . .

Desse modo, conhecera mais algumas. Não

lhe era difícil conquistá-las, pois era simpático,

quase bonito. Além disso, sua masculinidade


era um fato, apesar de Zezé não ter sabido dar

o devido valor...

Mara, quando descobria que ele estava an¬

dando com outras, ficava aborrecida, com ciú¬

mes.

— Onde já se viu homem ter uma mulher

só, Mara? Homem nasceu pra ter uma porção.

— Homem meu, não.

— Você não anda com outros?

—23

— Mas isso é outra coisa. Eu tenho que ga¬

nhar a vida. Você já tem o seu emprego.

Apesar das broncas, Mara vinha vê-lo conti¬

nuamente. Só uma vez coincidira aparecer no

exato momento em que ele estava entrando com

outra. Não era o dia em que costumava apare¬

cer e João não esperava que viesse.

Mara ficara na porta do edifício esperando


a outra

andado alguns

passos e estava um pouco afastad


_
a do prédio

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Mara puxara uma discussão, que terminara

numa violenta briga. Alguns moradores das vi¬

zinhanças abriram suas janelas para verem o

que estava acontecendo. João disfarçadamente

entrara, para que ninguém soubesse que ele fora

a causa de t u d o . . .

Algumas noites depois, ao voltar a encon¬

trar-se com ela, reclamara:

— Que papelão você fez!

— Eu fui até muito fina. Deixei pra brigar

longe do seu edifício para não te prejudicar.

— Não quero mais nada com você.

— Não acredito.

— Por quê?
— Você já disse isso antes.

Realmente João não estava com vontade de

romper com Mara. Depois da confusão que ela

armara por sua causa, sentira-se lisonjeado.

Era uma prova de que gostava dele...

— Por que você gosta tanto de mim, Mara?

— Está pensando que eu não posso viver

sem você, é?

Mesmo depois que deixara o prédio e fora

ser porteiro do edifício onde estava atualmente,

Mara continuava a procurá-lo. A princípio, ele

24—

tivera um pouco de receio. Não podia facilitar

logo no início.

Mas depois de um mês, o desejo foi mais

forte do que o medo. Apesar do novo edifício

ser de luxo, tomando as devidas precauções,

dava para fazer Mara entrar sem que descobris¬

sem, e tudo permanecera como antes.

No entanto, às vezes, ficava apreensivo:


— Se eu perder o emprego por sua causa,

não quero te ver nunca mais.

— Deixe de ser medroso, homem.

— Isso aqui é edifício grã-fino.

— E daí?

— Eu não quero ficar no olho da rua.

— Deixe de bobagem, ninguém vai ver a

gente. Se você ficar pensando o pior, aí é que

vão descobrir mesmo.

O radinho de pilha começou a tocar uma

música nordestina. João voltou a sentir sau¬

dades de sua terra, de Zezé que o abandonara,

dos filhos...

Os sons da festa que se realizava lá em cima

continuaram a intrometer-se nas saudades de

João...

—25

CAPÍTULO III

na calçada

Depois de vários uísques, Mônica decidira


aderir ao "hustle". Seu parceiro era um jovem

queimado de praia. Não s e n t a realmente pra¬

zer, mas dançar era o melhor que podia fazer.

Se ficasse num canto, bebendo, no mínimo

seu marido, que se divertia com Cláudia, pode¬

ria pensar que, em vez de tédio, ela estivesse

sentindo dor-de-cotovelo. Não queria lhe dar

essa alegria.

Exausta, depois de vinte minutos ininterrup¬

tos de "hustle", Mônica parou de dançar. Mu¬

rilo, o jovem parceiro, reclamou:

, — Vamos continuar.

. — Se quiser, continue. VOU fazer uma pausa.

Murilo riu e foi com ela apanhar mais be-

bida. Mônica passou por Haroldo, que perma¬

necia abraçado com Cláudia. Seu marido falou,

entre curioso e irônico:

— Parece que você está se divertindo muito,

Mônica.

— Mais do que você, eu garanto.


Mônica puxou Murilo por um braço e depois

de pegarem seus copos de uísque, foram para

o terraço.

— Haroldo está paquerando a Cláudia des¬

de que chegou. Você não se importa?

— Eu? — perguntou Mônica surpresa.

— Eu vim para a festa com a Cláudia.

— E agora está querendo se vingar do Ha¬

roldo . Por isso que resolveu ficar comigo...

Mônica compreendia mais uma vez que não

tinha estômago suficientemente forte para su¬

portar aqueles ridículos jogos de amor. Haroldo

se beijando com Cláudia, enquanto ela dança¬

va com Murilo. Troca de parceiros, vinganças

imbecis, futilidade e vazio.

Mas se ela estava ali, nada mais lhe restava

a não ser fazer o mesmo jogo dos outros. Era

i n ú t l lutar contra a maré. Se não tinha cora¬

gem de romper com tudo, de mudar inteira¬

mente de vida, então o único jeito era fazer o


que os outros faziam...

Do terraço avistava Haroldo segurando o

braço de Cláudia, pegando-lhe no ombro, dizen¬

do-lhe coisas idiotas. Podia imaginar perfe ta-

mente o que os dois conversavam. Não devia

ser muito diferente do que falava com Murilo.

Trocou seu copo de uísque por uma taça de

champanha. Não gostava de misturar bebida,

mas sentia que era necessário. O uísque tam¬

bém tinha se tornado incrivelmente monótono.

28—

Meía hora depois estava se sentindo muito

cansada. Sua maquilagem já devia estar des¬

feita e sem dúvida seu rosto estava marcado.

Largou Murilo de lado e foi até o banheiro.

Olhou-se no espelho e este confirmou. Seu

rosto apresentava sinais de cansaço e olhe. ras

muito profundas. Seus olhos castanho- dourados


estavam irritados. Retocou rapidamente a pin¬

tura e voltou a um dos salões.

Murilo dançava com uma garota qualquer,

uma cocotinha

ele. Sentiu-se aliviada. Não t nha muita paciên¬

cia para agüentar um diálogo com um rapaz

recém-saído da adolescência, criado naquele am¬

biente fútil

. Er

au

u negóci

negóci muit

o difícil de
aturar, superior às suas forças.

Pegou uma outra taça cheia de champanha

e começou a passear pelo apartamento. O ter¬

raço estava cheio. O primeiro local onde tinha

encontrado alguns minutos de solidão e tran¬

qüilidade fora descoberto por outras pessoas.

Não havia como fugir dali. Chegou ao vestíbulo,

viu a porta aberta e o elevador logo em frente.

Teve a sensação de ter tido uma brilhante idéia

e achou que o melhor era fazer aquüo que tinha

acabado de pensar...

Saiu do apartamento e tomou o elevador.

Tocou o botão que indicava o térreo. Olhou o

relógio. Duas horas da madrugada. A rua de¬

veria estar vazia, silenciosa. Andaria um pou¬

co pelo quarteirão, respirando o ar puro, se de¬

sintoxicando das pessoas e das conversas e; da

música e da bebida...

Percebeu então que estava com uma taça

cheia de champanha na mão. O que iria fazer


com aquela taça? Voltaria para de xar no apar¬

tamento? Não. Qual o mal que haveria em sair

—29

assim? Quando acabasse de tomar o conteúdo,

jogaria a taça na r u a . . .

O elevador chegou ao térreo. Mônica abriu

a porta e caminhou pelo hall do edifício, passan¬

do por João, que a acompanhou com o olhar,

meio curioso. Ela notou e virou-se, mas o por¬

teiro disfarçou, fingindo que não a estava ob¬

servando .

Mônica abriu a porta que dava para a rua.

Uma brisa meio fria tocou-lhe de leve nos om¬

bros nus. Desceu os degraus e viu-se na calçada.

Teve vontade de correr. Resistiu ao impulso.

Se alguém a visse correndo pela calçada, de ves-

uma taça de champanha na mão,

certamente julgaria que estava completamente


louca.

Olhou para cima e para os outros edifícios.

Nenhuma janela acesa, a não ser as do aparta¬

mento de onde viera. Tornou a olhar para os

quadrados e retângulos escuros das outras ja-

nelas. As pessoas descansavam, faziam amor,

dormiam ou sonhavam. Outras tinham insônia.

Alguém sem dúvida sentia dores, físicas ou não.

Deu alguns passos. Tomou um gole de cham¬

panha. Começou a observar os desenhos da cal¬

çada . Como num "flashback" de um filme, viu-

se pequena, brincando com outras meninas da

mesma idade, há muitos e muitos anos. Um

século? Não, apenas vinte anos.

Foi até a esquina. Um carro ou outro pas¬

sava. Ficou equilibrando-se no meio-fio, sem

notar que o sinal fechara e um automóvel ti¬

nha parado. Os dois rapazes que estavam no

carro a observavam. Quando o sinal abriu eles

passaram bem rente ao meio-fio. Um deles co¬


locou a cabeça para fora e disse com voz falsa¬

mente meiga, olhando-a de cima a baixo:

,30—

— Que gracinha! Linda, com uma taça na

mão! Era exatamente isso o que eu estava pre¬

cisando encontrar.

Mônica teve vontade de rir. Talvez atirar-

se ao pescoço do rapaz e beijá-lo. Mas assumiu

uma atitude séria e desviou a vista como se não

o visse. Ele ainda disse mais uma piada e se¬

guiu em frente com o carro vagarosamente.

Depois que o automóvel desapareceu na es-

quina seguinte, ela sorriu satisfeita. Pelo me-

lros t'nha acontecido uma coisa imprevista. Um

instante de alegria e autenticidade naquela noi¬

te horrorosa. Tomou mais um gole de cham-

panha. O líquido tinha outro

rente do que sentira quando estava na festa.


Estava perdida em seus pensamentos, quan¬

do viu de novo o carro dos dois rapazes aproxi¬

mando-se. Eles tinham dado a volta ao quar¬

teirão e voltavam. Desta vez pararam em sua

frente e o mJ esmo que falara da outra vez, foi

mais explícJto:

— O que está fazendo aí sozinha? Voltei

bara me certificar se você estava aqui mesmo ou

só tinha sido uma alucinação.

O outro completou:

— Não quer fazer companhia a dois rapazes

solitários?

O primeiro voltou a atacar:

— Estamos sós e abandonados à procura de

|ima pessoa que tenha pena da g e n t e . . .

O segundo continuou:

— Como vê, somos rapazes bonitos, educados

e sadios. Não quer mesmo dar uma volt nha?

Mônica não os olhou diretamente. Fixava

a vista num ponto qualquer da rua. Desejou


Intrar no carro, abraçar-se com os dois e fazer

—31

amor até não agüentar mais. Em vez disso, no

entanto, virou-se e dirigiu-se de volta ao edifí¬

cio de onde saíra. Ainda ouviu as vozes dos

rapazes:

— Por que está fugindo?

— Nós te amamos.

— Não quer mesmo ter uma noite de amor?

Eles ainda falaram mais alguma coisa e ter¬

minaram indo embora.

Como não tinha sequer visto os rostos dos

jovens, Mônica começou a imaginar como se¬

riam. Louros, morenos, olhos negros, verdes ou

azuis?

Por que não aceitara o convite? Ia ser uma

curtição, quando seu marido a procurasse ao

terminar a festa e não a encontrasse...

Quando estava chegando perto do edifício,

resolvida a entrar, viu que alguém estava na


porta. Não apenas uma pessoa, mas duas. Re¬

conheceu o porteiro e uma mulher de botinhas.

Notou que o porteiro estava meio nervoso, man¬

dando a mulher embora.

Mônica parou onde estava e ficou observando

disfarçadamente. A mulher despediu-se e o por¬

teiro tornou a entrar no hall do edifício.

Durante alguns minutos, Mônica permane¬

ceu onde estava. A mulher passou por ela sem

olhá-la. Mônica compreendeu que devia ser uma

prostituta, de baixa classe, sem dúvida, pela rou¬

pa com que estava vestida e pela pintura. Teve

pena dela.

A prostituta foi embora e Mônica sem sen¬

tir dirigiu-se novamente até a esquina. Não a

viu mais. O automóvel com os dois rapazes

também desaparecera e não voltara. Um outro

32—

carro ia passando e um homem bêbado gritou

com toda força:


— Piranha!

Só então, Mônica viu que a mulher que pou¬

co antes estivera na porta do prédio parara uns

cem metros adiante. Ficou pensando se o ho¬

mem que gritara tinha se referido a ela ou à

prostituta.

Um outro automóvel apareceu longe. Parou

diante da outra mulher. Ela pouco depois en¬

trou no carro.

Por um instante, Mônica invejou a outra.

Pelo menos era mais autêntica do que ela, que

sentira vontade de entrar no automóvel dos dois

rapazes que a tinham abordado pouco antes,

mas não tivera coragem de ir com eles.

Desejou ardentemente que os dois jovens vol¬

tassem, mas isso não aconteceu. Decidiu regres¬

sar à festa da qual havia fugido... PÁGINA 3 3

CAPÍTULO IV

a taça de champanha

Sentado em seu posto na portaria do edi¬


fício, João cochilou alguns minutos. Logo acor¬

dou com a buzina de um carro. Mesmo porque

não devia dormir em serviço e, por dever de ofí¬

cio, seu organismo já estava educado. Nunca

pegava no sono profundamente durante o tra¬

balho. Apenas um cochilo rápido e logo após já

estava acordado.

Ainda não eram três horas da madrugada.

Mara passara por ali, mas não pudera entrar.

Hav.a a festa, os convidados poderiam sair a

qualquer momento. Não queria ser surpreendi¬

do levando uma prostituta para a garagem.

Além disso, havia aquela grã-fina que saíra

com uma taça de champanha e passeava pela

—35

calçada. Provavelmente tinha visto quando des¬

pedira Mara, alguns minutos antes.

O que estaria fazendo na rua, aquela mulher

bem vestida, em vez de estar na festa? No mí¬

nimo devia ser maluca. Essa gente rica é tão


esquisita! Mas que era muito bonita, não se

podia negar. Quando a vira sair, com o longo

vestido preto sem ombros, ficara deslumbrado

ante a visão de Mônica. Muito alva, a pele fi¬

níssima, os olhos maravilhosos.

Comparou-a com Mara e teve pena de sua

amante. Esta tinha a pele estragada, vestia rou¬

pas baratas, pintava-se com exagero. O rosto

sempre brilhando e cansado, a barr'ga um pou¬

co grande, as pernas, as nádegas e os seios flá¬

cidos ...

Imaginou como seriam as pernas da grã-

fina. Seus seios eram firmes, ele não deixara

de notar. Talvez fossem falsos. Mara já tinha

lhe falado que essas mulheres ricas usam mui¬

tos artifícios. O dinheiro embeleza qualquer um.

Mas falsa ou não, a beleza de Mônica o impres¬

sionara muito.

João viu que a milionária estava voltando

do seu passeio pela calçada e dirigia-se de volta


à portaria. Quando ela passou perto, não resis¬

tiu e olhou-a. Ficou embaraçado ao ver que

ela o encarava. Desviou a vista encabulado.

Mônica parou na porta a uma distância mui¬

to pequena de João. Ele sentia sua respiração.

De repente, ela falou com naturalidade:

— Não deve ser nada divertido passar as noi¬

tes aí sentado.

Totalmente inibido, João ficou sem saber o

que responder. Mônica o observava com muita

atenção. Achou-o bonito: os lábios grossos, sen-

36—

suais, o rosto de traços firmes, másculos. Exa-

minou-o dos pés às cabeça, despudoradamente.

Mesmo porque João não estava olhando para

ela e certamente não sabia que estava sendo

analisado tão detalhadamente.

Mônica sentm um estremecimento de prazer

ao adivinhar o corpo cabeludo e cheio de mús¬

culos do porteiro. Estava meio bêbada e depois


do passeio na calçada sentia-se incrivelmente

livre e disposta a toda e qualquer aventura.

— Você não me respondeu. Não é chato pas¬

sar a noite toda aí sentado?

João retrucou sem encará-la:

— O que se pode fazer? É o meu trabalho.

— Você não fica revoltado em ver que, en¬

quanto você trabalha, os outros estão se diver¬

tindo?

— Existem empregos piores.

Mônica aproximou-se mais dele. Regozijou-

se do próprio descaramento. Toda a repressão .

em que tinha vivido voluntariamente nos últi¬

mos, anos desapareceu, dando lugar a um desejo

enorme de fazer tudo que não era permitido.

Por que não podia ter uma aventura com um

porteiro? O que podia impedi-la de fazer isso? O

que tinha a perder? Absolutamente nada.

— Quer um pouco de champanha?

— Quem? Eu?! — perguntou João, cada vez


mais surpreso.

— Você mesmo. Não gosta?

— Nunca tomei.

Mônica estirou o braço oferecendo-lhe a taça.

Completamente aturdido, João hesitou e não

aceitou:

—37

— Não devo beber enquanto estou traba-

lhando.

— Prove um pouquinho só. Ninguém está

vendo.

Mônica sorriu. João apanhou a taça de sua

mão. Bebeu timidamente e antes que a devol¬

vesse, a mulher continuou:

— Pode tomar tudo. Eu já bebi demais.

João acabou de tomar o resto do líquido.

Mônica já estava mais perto dele e deixava dis¬

plicentemente, como se fosse por acaso, que sua

perna encostasse na do porteiro. Este sentiu o

contato e encolheu-se um pouco, afastando-se de


Mônica, que ficou por alguns segundos sem sa¬

ber o motivo por que ele fizera isso. Mas logo

compreendeu que devia ser por timidez.

Mônica pegou a taça vazia de volta:

—Então, gostou?

— Muito.

— Não acredito que nunca tivesse bebido

champanha antes — disse Mônica como pretex¬

to para continuar a conversa, apesar de saber

que realmente o porteiro nunca tinha provado a

bebida.

— Quem sou eu pra tomar bebida cara?

Mônica deixou que sua perna encostasse de

novo na de João. Desta vez, ele fez que não ti¬

nha percebido e deixou a sua imóvel. Mônica

fixou o olhar nele, diretamente, sem dissimula¬

ções .

— Eu estava me aborrecendo tanto na festa,

que achei melhor descer.

As pernas dos dois continuavam se roçando


e ela notou que João estava excitado. Sentiu um

prazer enorme com isso. Falou sobre vários as-

38—

suntos, sem saber exatamente o que estava di-

zendo.

A rua permanecia deserta. Não passara nin-

guém . Entre eles criou-se naturalmente' um cli-

ma de cumplicidade. João nem ousava pensar

que uma mulher como aquela poderia ser sua,

apesar de todas as evidências. Mas ao mesmo

tempo desejava ardentemente possuí-la, nem que

fosse uma única vez. Mesmo que perdesse o em-

prego. Valia a pena qualquer risco. Além disso

estava muito excitado agora e não podia mais

controlar suas emoções.

— O que aquela mulher veio fazer aqui há

pouco?

— Quem? A Mara?

— É Mara o nome dela?

— Pelo menos é o nome que usa.


— O que foi que ela veio fazer aqui?

— B e m . . . eu e M a r a . . .

— Já sei, ela gosta de transar contigo.

João ficou novamente encabulado. Mônica

olhava diretamente para o sexo do rapaz, que se

notava nit damente mesmo por baixo da calça,

devido ao estado de excitação em que ele se en¬

contrava.

— Para onde vocês vão, quando querem tran¬

sar?

O porteiro permaneceu calado. Qual seria a

daquela grã-fina? Será que estava mesmo que¬

rendo fazer amor com ele?

Vendo que João não respondia à sua pergun-

ta, Mônica concluiu: "

— É na garagem que vocês fazem sexo?

Mônica afastou-se de João e deu alguns pas¬

sos em direção ao interior do edifício. No fundo

—39

do hall, depois do elevador de serviço, parou e


virou-se para ele. Sorriu. João levantou-se da ca¬

deira onde estava e veio em sua direção, como

que hipnotizado.

Não trocaram nenhuma palavra. Não ha¬

via mais a menor necessidade. Mônica deixou-o

passar. João desceu a pequena escada que le¬

vava para a garagem subterrânea. Ela o acom¬

panhou .

Na semi-escuridão da garagem ele parou e

Mônica encaminhou-se diretamente ao seu en¬

contro. Os dois corpos se j u n t a r a m . Ela deixou

a taça vazAa em cima de um automóvel qualquer

e com as mãos livres, enlaçou-o pelo pescoço.

Ele não podia acreditar no que estava viven¬

do. Tinha vontade de beliscar-se, a fim de ter

certeza de que não sonhava. Não era possível

que estivesse com uma mulher tão bonita em

seus braços.

Mônica agarrava-o com sofreguidão, beijan-

do-o na boca, nos olhos. Deu uma dentada no


queixo de João, enquanto que com as mãos aper¬

tava seus braços fortes. Ele, por sua vez, acari¬

ciava a pele macia daquela mulher que lhe pa¬

recia ter caído do céu. Fez as inevitáveis com¬

parações com Mara. Coitada de sua amante! A

diferença entre as duas era tão grande que João

teve certeza de que nunca mais conseguiria sen¬

tir prazer com a pobre prostituta, depois que

possuísse Mônica.

Mas será que ia possuí-la mesmo? E se tudo

de repente terminasse, antes que consumasse o

ato? Se aparecesse alguém e os surpreendesse ou

se Mônica subitamente começasse a rir, debo¬

chando dele e dizendo que tinha feito aquilo

tudo, até aquele momento, com o fim único de

deixá-lo excitado para depois ir embora?

40—

No entanto, as coisas se encaminharam sem

nenhum contratempo. Mônica desprendeu o

vestido e deixou-o cair no chão. Ele a puxou pa¬


ra um pequeno banheiro. Esqueceu que era um

simples porteiro, que não poderia nunca em

cAcunstâncias normais ter relações com ela.

Alisou seus seios firmes, sua pele incrivel¬

mente lisa, descendo as mãos pelas costas. Que

diferença de M a r a . . .

Mônica também perdera a consciência de

tudo. Não lhe importava a sordidez do que esta¬

va fazendo, nem o local onde estavam. Não via

sequer que o banheiro estava molhado. Que di¬

ferença de Haroldo...

Devido ao excitamento de ambos e talvez

inconscentemente porque sabiam que corriam

o perigo de serem surpreendidos, foi tudo muito

rápido. Mônica nunca sentira tanto prazer...

Ela saiu do banheiro, pegou o vestido que

estava atirado no chão. Vestiu-o rapidamente,

sacudiu-o com as mãos, ajeitou-se o melhor que

pôde e voltou para o hall do edifício. João ob¬

servara tudo em silêncio, num misto de adora¬


ção e tristeza por tudo já ter acabado, além da

certeza de que nunca mais Mônica seria dele.

Ela tocou o botão do elevador social, cha¬

mando-o. Antes de tomá-lo, ainda voltou-se pa¬

ra" olhar João, que estava um pouco atrás, e sor¬

riu levemente.

João voltou para a portaria e sentou-se. Sua

cabeça era um turbilhão de pensamentos desen¬

contrados. Nem mesmo Zezé, de quem gostara

muito, lhe proporcionara tanto prazer. Como

acontecera tudo aquilo? Por que Môn'ca resol¬

vera entregar-se a ele assim, gratuitamente?

Não encontrava explicações para o fato.

—41

Levantou-se e foi até a calçada ver se Ma¬

nuel, o porteiro do edifício do lado, estava por

ali, mas não o viu. Costumava bater longos

papos com Manuel noite adentro. Porém, com¬


preendeu que de nada adiantava contar ao co¬

lega o que havia lhe acontecido, pois ele ia pen¬

sar que enlouquecera e nunea acreditaria.

Será que aquilo tudo tinha realmente acon¬

tecido? Ou teria dormido e sonhado? Ele pró¬

prio não estava muito certo. Fora tudo tão rá¬

pido, tão alucinante.... Teria sido efeito da be¬

bida que tomara?

Nunca mais conseguiria sentir prazer com

Mara nem com nenhuma outra mulher. Lem¬

brou-se da taça que Mônica havia colocado em

cima de um automóvel na garagem. Ela tinha

ido embora sem nada nas mãos.

Retornou à garagem, á fim de certificar-se

Se estivesse, en-

tão não tinha sido um sonho, tinha acontecido

de verdade.

Com ansiedade desceu os degraus. Olhou

para o carro e viu, apesar da semi-escuridão rei¬

nante, que a taça continuava no mesmo lugar


onde Mônica a deixara. Aproximou-se e pegou

nataça...

Tudo tinha sido verdade. Não havia so¬

nhado.

CAPÍTULO V

o premio

Mônica entrou no salão que ainda estava

cheio de gente. Ninguém tinha ido embora ain-

encontro:

— Onde é que você esteve durante todo esse

tempo?

— Por que quer saber?

— Fiquei preocupado. Te procurei por to¬

dos os c a n t o s . . .

— Não me faça rir. Desde quando você se

preocupa conrgo?

— Ninguém também tinha te visto, nem sa¬

bia onde você estava.

— Depois eu conto o que estava fazendo. E


Cláudia? Ela não está mais contigo?

— Foi retocar a maquilagem. Da festa, um

grupo vai esticar com a gente numa boate. Você

quer ir?

- — Não. Vou procurar o Bráulio pra me le¬

var até em casa.

Ao passar pela portaria junto com Bráulio,

Mônica sorriu para João, quando este abriu a

porta. O porteiro correspondeu timidamente ao

sorriso e Mônica seguiu com Bráulio, a quem o

gesto dela não tinha passado despercebido.

— Você costuma sorrir assim para os por¬

teiros dos edifícios?

— Por quê? Não posso?

— Senti uma certa intimidade em seu sor¬

riso.

— Ora, Bráulio, você tem uma imaginação

fantástica!

No automóvel, de volta para casa, Mônica

sentia-se bem-humorada. Bráulio estranhou seu


estado de espírito:

— Você não estava assim na festa.

Mônica decidiu ser gentil:

— Lá eu estava sufocada pela presença de

tanta gente detestável. Aqui, sozinha cont go,

sinto-me outra.

— Posso interpretar isso como uma pro¬

messa?

— Quem sabe?

No dia seguinte, Mônica acordou depois do

meio-dia. Sentia-se leve e bem disposta. Harol¬

do, apesar de ter chegado mais tarde do que ela,

já fora para a firma, pois tinha um negócio

importante para resolver.

44—

Mônica passou o resto do dia pensando como

arranjar um meio de se encontrar com João ou¬

tras vezes. Não tinha combinado nada, mas

sem dúvida que iria procurá-lo qualquer dia.

O mais importante para Mônica era o fato


de não se sentir enojada nem ter o menor re-'

morso pelo que fizera na noite anterior.

' Mais tarde, logo depois do jantar, Haroldo

perguntou-lhe:

— O que foi mesmo que você fez ontem

quando desapareceu da festa?

— Ainda está pensando nisso?

— Claro.

— Não estou com vontade de lhe dizer.

— Você prometeu que ia me contar.

— Estou estranhando cada vez mais este

seu súbito interesse porémim.

— Vai contar ou não?

— Não precisa ficar zangado. O que acon¬

teceu foi muito simples. Eu desci porque não

agüentava mais aquela maldita festa e resolvi

ter uma aventura com o porteiro do edifício.

O rosto de Haroldo se contraiu:

— Nunca gostei de humor negro.

— Nem eu nunca tive vocação para humo¬


rista, Haroldo. Você me conhece muito bem.

— Justamente por te conhecer é que sei que

o que me disse é mentira.

Mônica não pôde deixar de rir:

— Tive uma aventura com ele, sim. Posso

lhe garantir que gostei.

— Com um porteiro, Mônica?

— Ele é um homem como outro qualquer.

Aliás, não me expressei bem, ele é muito mais

homem do que os outros que conheço.

—45

— Se sua intenção é me fazer ciúmes, está

perdendo seu tempo. Prefiro não acreditar em

você.

— Faça o que achar melhor. A mim pouco

me importa se acredita ou não.

Não tocaram mais no assunto. Pouco depois,

Haroldo saiu para encontrar-se com Cláudia e

Mônica foi a um teatro em companhia de Bráu¬

lio.
Mais tarde foram a uma discoteca freqüen-

tada quase exclusivamente por jovens. No meio

da multidão de garotos que se divertiam com as

músicas ensurdecedoras, cs efeitos de luz alu¬

cinantes e outras bossas, Mônica sentia-se ale¬

gre e descontraída.

— Nunca te vi assim antes — falou Bráulio

quando voltaram à mesa para beber mais um

pouco, depois de quase meia hora dançando

sem parar.

— Estou me sentindo feliz, Bráulio, só isso.

Tem alguma objeção a fazer?

— Claro que não.

Da boate foi para o apartamento de Bráulio.

Não que quisesse ir para a cama com ele, apenas

porque achou que seria justo fazer um pequeno

sacrifício. Afinal, Bráulio há muitos meses, ou

melhor, há alguns anos, vivia esperando o mo¬

mento de fazer sexo com ela. Achou que não

seria nada demais ser gentil com ele, nem que


fosse como um prêmio à sua persistência.

Quando se aprontava para voltar para casa,

achou oportuno esclarecer:

— O fato de termos feito amor hoje, não

signfica que, fique com a obrigação de encon¬

trá-lo constantemente.

— Não gostou?

46—

— Não se trata de gostar ou não, Bráulio.

Apenas não quero ter um amante oficial. Seria

o mesmo que ter dois maridos. Suportar Haroldo

já é o bastante para mim.

Depois que Bráulio a deixou em casa, Mô¬

nica estava resolvida a não ir mais ao seu apar¬

tamento. Não tinha a menor vontade de perder

tempo com uma pessoa que não lhe proporcio¬

nava nada, nem mesmo um prazer físico mais

intenso.. .

O que estaria fazendo João naquele momen¬


to? Certamente tendo relações com a prostituta-

zinha que o amava. Como era mesmo o nome

dela? Mara. Nome de guerra, evidentemente.

Qualquer dia ia procurar João outra vez. Sa¬

b i a que era uma coisa perigosa, mas estava de-

c i d i d a . E se alguém

visse? O es-

cândalo seria enorme. Com o dinheiro que ti¬

nha podia alugar ou comprar um apartamento

e levar João lá todas as vezes que quisesse. À

tarde, é claro, pois à noite ele trabalhava.

Mas não ficou particularmente entusiasma¬

da com a idéia. Talvez mais tarde agisse assim.

Por enquanto, passaria a encontrá-lo no edifício

onde trabalhava. Talvez ela tivesse sentido tan¬

to prazer, não por João em si, mas pelo lugar

insólito em que haviam feito amor. Além disso,

o perigo a que se expusera a excitara muito.

Talvez, durante o dia, num apartamento

qualquer, em circunstâncias consideradas nor¬


mais, grande parte do encanto, ou talvez todo

o encanto, desaparecesse.

47

CAPÍTULO VI

entre duas mulheres

Quando João contou a Manuel a aventura

e tivera com a grã-fina, a reação do amigo

. inexplicável para ele:

— Essa gente gosta de variar.

Pensara que Manuel não fosse acreditar em

da do que dissesse, mas o outro não pôs sua

lavra em dúvida nem por um momento. João

lou ainda que, como prova de que tudo era

rdade, podia mostrar a taça que Mônica dei-

fa e que ele guardara.

— Acho que você deve dar fim a esta taça,

João

— Por quê?

— Podem pensar que você roubou.

— Para que eu ia roubar uma taça?


49

— Sei lá. O melhor mesmo é jogar fora.

Manuel então falou das muitas experiências

que já tivera como porteiro de vários edifícios:

— Tem muita gente sem vergonha no mun¬

do. O pessoal bebe, não encontra companhia,

vê um porteiro dando sopa e não pensa duas

vezes.

— Mas ela não estava sozinha.

— Pois é, mas gosta de variar. Eu, de mi¬

nha parte, não deixo escapar ninguém. Nunca

tive a sorte de pegar uma grã-fina. O mais que

consigo é prostituta ou empregadnha. Mas não

rejeito nenhuma. Você j á . v i u pobre recusar

comida?

Manuel contou com riqueza de detalhes uma

série de aventuras que já tivera:

— Uma vez chegaram a me pegar com uma

mulher no corredor de um edifício onde traba¬

lhava . Era muito tarde, apaguei a luz e pensei


que ninguém ia ver.

— E o que aconteceu quando descobriram

vocês dois?

— Quase fui despedido, mas o síndico era

um cara legal. Pediu somente para eu não fazer

mais aquilo, pois se repetisse ia embora mesmo.

Claro que, enquanto trabalhei lá, não levei mais

ninguém.

— O negócio é perigoso mesmo.

— Mas se a gente tem cuidado, não acontece

nada.

João ficou meio decepcionado ao ficar sa¬

bendo que o fato era muito mais comum do que

pensava. Então ele não era um privilegiado como

julgava. Quase todos" os porteiros noturnos ti¬

nham também seus casos para contar.

50—

Mas certamente nenhum deles possuíra uma

mulher tão bonita quanto Mônica. O que mais

lhe aborrecia era pensar que ela não apareceria


mais e ter que se conformar com Mara.

Duas noites depois Mara voltou a aparecer:

— A barra está limpa hoje?

— Está — respondeu João sem muito entu¬

siasmo .

— Qual é o grilo?

— Que grilo?

— Você está com cara de quem não está

muito a fim...

— Impressão sua.

— Então, vamos entrar?

— Vamos.

Foram para a garagem, como de costume.

Mara esforçou-se o quanto pôde, mas João não

conseguia se excitar:

— O que está acontecendo, João? Você ficou

doente?

— Devo estar muito cansado.

— Nunca aconteceu isso antes. Você precisa

se cuidar, homem. Por que não vai ao médico?


— Só por isso?

— Acha pouco? Homem pobre que não fun¬

ciona, não serve nem pra lata de lixo. Você pode

ir ao INPS. Não gasta nada.

— Eu lá vou ter coragem de dizer pro mé¬

dico o que aconteceu?

— Não precisa dizer. Basta falar que anda

fraco, sem vontade de n a d a . . .

— Vou seguir seu conselho.

Mara foi embora visivelmente preocupada

com a saúde de João. Este também ficou aflito.

—51

Será que não era mais o mesmo homem de an¬

tes? Mas ao pensar na noite que passara com

Mônica viu que estava excitado. E se ela não o

procurasse mais?

. Uma semana depois, quando não tinha mais

esperança de que Mônica aparecesse, João viu

um carro parando em frente ao edifico. Pro¬

curou olhar melhor e descobriu que era Mônica.


Aproximou-se do automóvel.

— Oi, como vai? Está lembrado de mim? —

perguntou a mulher sorrindo.

— Eu ia me esquecer?

Depois de verificar que a rua estava mes¬

mo deserta e que havia poucas possibilidades

de ser vista, Mônica desceu do carro e entrou

no ed fício j u n t o com João. Dirigiram-se em

silêncio para o mesmo lugar da vez anterior.

Mônica tomara algumas doses de uísque pa¬

ra criar coragem de vir. Mesmo'assim, o medo

era maior do que na noite da festa. Não sabia

explicar por que, mas tinha a impressão de que

desta vez as coisas não correriam tão bem. No

entanto, ao começar a alisar o peito ca4 beludo

de João, esqueceu todos os receios... 4

Antes de ir embora desta vez, combinou

voltar: '

— Você se importa se eu aparecer aqui na

semana que vem?


— Por que ia me importar?

Durante algumas semanas, Mônica voltou a

procurá-lo sistematicamente. Para João fora a

52—

melhor coisa que lhe acontecera na vida. A

única pedra em seu caminho era Mara, a quem

evitava, dizendo-se realmente doente e mentindo

ao afirmar que fora ao médico e este lhe reco¬

mendara ficar algum tempo sem fazer sexo.

Certa noite, depois de mais um encontro com

Mônica, João abriu a porta do edifício para ela

sair. Antes que esta entrasse em seu carro, o

porteiro viu Mara parada na esquina. Esta veio

apressada em direção ao prédio, mas ao se apro¬

ximar, Mônica já tinha partido.

— Então é assim que você está doente? O

que foi que esta mulher veio fazer aqui?

— O que é que você está pensando, Mara?

Ela veio visitar alguém no edifício. Não sei nem

quem é. Apenas abri a porta como faço com


todo mundo.

— É mentira sua.

— Acha que uma mulher rica vai transar

com um porteiro?

— Por que não? São todas umas taradas.

Eu vi quando ela chegou. Eu já estava descon¬

fiada que você tinha outra. Hoje fiquei escon¬

dida olhando. Eram maAs de três horas da ma¬

drugada quando ela desceu do carro. Aquilo

não era hora de visitar ninguém. Você veio abrir

a porta e vi que vocês sorriam. Resolvi esperar.

Essa sem-vergonha entrou e meia hora depois

estava s a i n d o . . . Na semana passada aconteceu

a mesma coisa. Não adianta querer me enga¬

nar, João.

Apesar de ter tido medo a princípio de que

Mara armasse um escândalo, João compreendeu

que desta vez ela não iria fazer nada. Começou

a chorar, as lágrimas manchando a pintura do

rosto: PAGINA 53
— Por que fez isso comigo, João? Por que

não arrumou outra igual a mim? Pelo menos eu

a parada. Você não vai

Mara estava verdadeiramente humilhada.

Tinha plena consciência da vantagem enorme

que a outra levava. João ficou penalizado, mas

não esboçou o menor gesto, nem disse uma úni-

ca-palavra.

A mulher virou-se e foi embora.

João passou muito tempo sem vê-la nova¬

mente .

— Foi melhor assim — falou Manuel do

alto de sua experiência, quando João lhe reve¬

lou a cena que Mara fizera.


— Piquei com pena dela.

— Deixa pra lá, cara. Mulher como Mara

você encontra aos montes. Pode acreditar que

foi melhor mesmo. Mulher apaixonada é um

dido, a tal grã-fina não ia saber para onde você

tinha ido e aí é que as coisas ficavam pretas.

Você teve muita s o r t e . . .

João chegou à conclusão mais uma vez de

não se lembrava mais de Mara. Mônica, sema¬

nalmente, uma ou duas vezes aparecia.

— No mês que vem, vou alugar um aparta¬

mento pra gente se encontrar — falou Mônica

num dos encontros. — Assim eu não me arrisco

tanto.

Apesar de gostar da sensação de perigo que

aqueles encontros lhe proporconavam, Mônica

54—

achara melhor mesmo arranjar um outro local

onde pudesse fazer amor com João. Mas ad ava

o plano sempre, talvez porque inconscientemen¬


te ela queria que a situação continuasse como

estava. Temia perder parte do interesse pelo

porteiro.

— Ou você prefere que a gente passe a se

encontrar num motel?

— Pra mim qualquer lugar é bom — foi a

resposta lacônica de João, que expressava exa¬

tamente o que ele achava.

—55

SEGUNDA PARTE

Mônica e o desejo

CAPÍTULO VII
Uma vida dupla
Mônica estava realmente conseguindo esca¬

par do tédio. A vida dupla que começou a levar

desde a primeira relação com

Mais do que nunca procurou representar o pa¬

pel da mãe e esposa perfeita, durante quase todo

o tempo, para duas vezes por semana, de ma¬

drugada, ir à procura do porteiro.

Haroldo não acreditara na aventura que ela

mesma confessara e agora Mônica achava con¬

veniente que ele realmente pensasse que era

mentira.

À medida que os dias iam passando, come¬

çava a sentir que João não lhe satisfazia mais

como nas primeiras vezes. Desistira de alugar o

apartamento para levá-lo e preferiu continuar P59

com os encontros clandestinos na garagem do

edifício.

Apesar de não ter ainda consciência disso,


Mônica mergulhara de cabeça num poço sem

fundo. Ansiava por emoções cada vez mais for-

tes e passou a observar todos os porteiros pelos,

quais passava de madrugada.

Não tinha tido ainda a ousadia de se apro-

ximar de nenhum outro, mas sabia que era ape-

nas uma questão de tempo. João já não lhe tra-

zia novidades. Conhecia o corpo do rapaz nos

menores detalhes e o prazer não era tão forte

quanto antes. A única coisa que a prendia era

a adoração com a qual ele continuava a pos¬

suí-la .

Imaginava como seria agradável ver aquela

-mesma expressão de êxtase e admiração em ros¬

tos diferentes.

Haroldo não ligava a menor importância às

suas saídas noturnas. Julgava que finalmente

a esposa tivesse se tornado amante de Bráulio

è não se importava. Num certo sentido, era até

melhor, porque assim ela se distraía e o deixava


em paz para as suas conquistas.

Realmente, de vez em quando Mônica ia ao

apartamento de Bráulio. Este estava cada vez

'mais apaixonado e, devido aos obstáculos cons¬

tantes que ela colocava para não encontrá-lo, a

desejava cada vez mais.

Mômca saiu da casa de Bráulio com o firme

propósito de arranjar uma outra pessoa com

quem pudesse satisfazer seus instintos. Percor¬

reu de carro diversas ruas, sem coragem sufi¬

ciente de realizar seu plano.

Depois de passar por quase todas as ruas

de Copacabana, seguiu para Ipanema. Estava

' 60 —

decidida a retornar à sua casa, quando resol-

veu dar mais uma volta. Entrou numa rua es¬

cura e avistou um porteiro sem camisa lavando

um automóvel em frente de um edifício.

Passou por ele devagar, quase estacionando


seu carro. O rapaz devia ter no máximo vinte

anos e tinha compleição atlética. Um desejo

violento se apossou dela. Parou o carro mais

adiante e pegou no maço de cigarros.

O jovem deixou por um instante o trabalho

que estava fazendo e ficou observando-a. Mô¬

nica chegou a pegar no isqueiro, mas abando¬

nou-o imediatamente. Colocou a cabeça para

fora do carro, com o cigarro apagado numa das

mãos.

— Você tem fósforos?

O rapaz aproximou-se procurando a caixa de

fósforos num dos bolsos da calça. Aproximou-se

de Mônica e acendeu-lhe o cigarro.

— Quer um? — perguntou, olhando-o de

maneira penetrante.

Ele aceitou. Mônica não sabia como conti¬

nuar a conversa. Teve uma outra idéia e a co¬

locou em prática:

— Não conheço o Rio direito. Não sou daqui.


Estou meio perd da. Você sabe me dizer que ca¬

minho devo tomar para chegar no Jardim Bo-

tânico?

O jovem acreditou que ela realmente preci¬

sava da informação e indicou-lhe o caminho

mais fácil, voltando em seguida a lavar o auto¬

móvel. Mônica ficou um pouco indecisa, mas

não teve outra saída a não ser ir embora com

um terrível sent mento de frustração.

Passou o outro dia irritada consigo mesma.

Por que não fora direto

Resolveu

—61

que à noite voltaria ao mesmo local e levaria as

coisas às últimas conseqüências.

Alberto lavava o carro em frente ao edifício

em que trabalhava, quando viu o mesmo auto¬

móvel da noite passada, dirigido pela mesma

mulher bonita que lhe pedira informação.

Na véspera desconfiara que ela tinha pedido


o fósforo como pretexto, mas depois afastara o

pensamento quando Mônica quisera saber como

chegar ao Jardim Botânico.

Mas ao vê-la agora de novo, compreendeu

que a mulher estava querendo alguma coisa com

ele. Parou de lavar o carro e ficou olhando-a

passar. Mônica estacionou e Alberto foi em sua

direção.

— Olá!

— Oi!

— Você não se cansa de lavar automóveis?

Ele riu de maneira irônica. Mônica achou

qualquer coisa de desagradável em seu riso.

Alberto lembrou-lhe de repente o tipo clássico

do jovem delinqüente que se vê nos filmes poli¬

ciais . O medo que teve do rapaz fez aumentar o

desejo.

Não precisaram falar muito pra se entende¬

rem. Poucos minutos depois, ela estava no inte¬

rior do prédio, num pequeno quartinho destina¬


do aos porteiros do edifício.

— O outro que dorme aqui está de folga.

Hoje estou sozinho.

A cama velha, os lençóis ordinários, nada

disso impediu que Mônica sentisse um prazer

62—

enorme com Alberto. O jovem tinha qualquer

coisa de sádico e a possuiu com uma violência

acima do normal, o que lhe agradou mais ainda.

— Fique mais um pouco — disse Alberto

quando acabaram.

— Não tem perigo de aparecer alguém?

— Não. Depois, você é muito legal pra gen¬

te transar uma vez só.

Ficou com Alberto até pouco antes do ama¬

nhecer. Ao chegar em casa já passava das

cinco horas. Foi ao banheiro, lavou-se e deitou-

se, adormecendo quase imediatamente.


, Acordou ao meio-dia, e à tarde, quando se

preparava para sair, a fim de ir ao cabeleireiro,

viu que todo o dinheiro que tinha na bolsa havia

desaparecido. Irritou-se, não pela quantia em

si, que era pequena e não iria lhe fazer nenhu¬

ma falta, mas por ter sido tão facilmente enga¬

nada por Alberto.

— O rapaz é mesmo muito audacioso — pen¬

sou em voz alta.

Procurou-o alguns dias depois. Ele fez que

estacionou o carro. Desceu

e foi ao seu encontro.

— Você por aqui outra vez? — perguntou

Alberto meio desconfiado.

— Pensou que não ia voltar mais?

— Hoje não posso te levar lá dentro. O ou¬

tro porteiro está aí.

— Não fique preocupado por causa dos du¬

zentos cruzeiros que tirou naquela noite. Não

vim cobrar.
Alberto riu descaradamente:

—63

— Volte amanhã. Amanhã dá pé da gente

transar.

Mônica passou a alternar suas visitas a Al¬

berto e a João. Deste último já estava meio can¬

sada. Gradativamente foi deixando de procurá-

lo. Alberto era mais jovem e seu mau-caratismo

a fascinava.

De vez em quando preocupava-se aonde po¬

deria levá-la aquela compulsão. Tinha vontade

de parar com aquilo, mas ao mesmo tempo não

conseguia evitar o desejo de procurar sensações

cada vez mais perigosas.

Estava ainda deitada na cama do pequeno

quarto, observando a nudez de Alberto que se

levantara, quando este anunciou:

— O Raimundo quer transar com você tam¬

bém.

— Quem é Raimundo?
Alberto vestiu a cueca:

— O outro porteiro.

— Ele está aí?

Nesse momento um homem de certa idade

entrou no quarto. Mônica não precisava ser

muito inteligente para compreender que era Rai¬

mundo.

— Não vou querer nada com ele — disse Mô¬

nica com raiva.

— O que é que tem, boneca?

Alberto saiu do pequeno aposento, deixan¬

do-a a sós com o outro porteiro que já estava

64—

completamente nu e deitava-se por cima de Mô¬

nica, sem ligar para sua expressão de nojo.

Depois deste incidente, Mônica achou melhor-

deixar Alberto de lado e sair à procura de outras

pessoas. Afinal de contas, a cidade era enorme.

Existiam milhares e milhares de edifícios, onde

os porteiros da madrugada estavam à sua es¬


pera. ..

Onde iria parar com aquela loucura? Por que

não resistia àquela compulsão? Às vezes, duran¬

te o dia tomava a decisão inabalável de não pro¬

curar mais ninguém, mas a força do hábito e o

desejo de aventuras sempre falavam mais alto.

Resolvida a parar com tudo, chegara a mar¬

car num calendário que aquele seria o último

dia em que sairia em seus passeios noturnos.

Prometeu a si mesma passar oito dias, pelo me¬

nos, sem procurar companhia. Não era assim

que alguns fumantes faziam quando queriam

deixar o vício? Se conseguiam se abster do ci¬

garro durante alguns dias, possivelmente fica¬

riam curados. Mas não agüentou nem até o fim

da semana e recomeçou seus longos passeios

solitários pela madrugada.

Interrogava-se a si mesma o que a tinha

levado àquilo. Conseqüência do desamor e da

falta de ter por que lutar? Talvez. Pelo menos


era a única explicação que encontrava para a

sua estranha atitude nos últimos meses. O que

não deixava de ser uma justificativa. Página 65

CAPÍTULO VIII

uma triste noticia

João curtia sua solidão com seu inseparável

radinho de pilha. Uma música antiga, que co-

nhecia desde os tempos de criança, levou-o de

rolta à sua t e r r a . . .

Era uma festa de São João. Enquanto um

homem tocava sanfona, as pessoas dançavam.

Ele, feliz da vida, segurava a cintura de Zezé.

Bons tempos aqueles. Zezé bonita, dentes muito

alvos, realçados pela sua pele morena-escura.

Todo mundo olhava para ela. Em vez de ciú

mes, sentia prazer em saber que sua mulher era

«cobiçada, mas pertencia só a ele.

O tempo passara, tinham vindo os filhos,

Zezé não nascera para sofrer. Quando apare¬

cera um cara com algum dinheiro, o abando-


—67

nara e também aos filhos. Sofrera muito com a

separação. Sua tia não se conformava em vê-lo

triste pelos cantos da casa:

— Onde já se viu homem ficar assim por

causa de uma sem-vergonha?

— Me deixe em paz, tia Josefa.

— Essa mulher nunca prestou. Desde o co¬

meço que eu adivinhava que ela ia terminar

mostrando quem era. Sempre achei que não

passava de uma sonsa.

João deixava a tia falar e não respondia mais

nada. O pior de tudo era a dor que sentia por

Zezé ter ido embora com outro. Por que não

conseguia esquecê-la?

Agora, mais de um ano depois, imaginava

o que teria acontecido com ela. Alguns meses

após sua chegada ao Rio, recebera uma carta

da tia, que contava que Zezé fora abandonada

pelo homem por quem o deixara e virara pros¬


tituta. Nos braços de quem Zezé estaria àquela

hora?

A música que lhe trouxera aquelas recorda¬

ções, acabou. Ò rádio passou a transmitir uma

outra, estrangeira, que não lhe dizia nada. Ma¬

nuel deixou a portaria do edifício ao lado e veio

conversar com João:

— Por que está com essa cara?

— Pensando na v i d a . . .

— Não vale a pena. E a grã-fina? Nunca

mais apareceu?

— Não. Mas não era nela que eu pensava.

Pensava em Zezé. A grã-fina não ia continuar

mesmo vindo a q u i . . .

Apesar da felicidade que encontrara no cor¬

po de Mônica, ou talvez por causa disso, João

68—

não se espantou quando ela de repente sumira.


Desde o início que não acreditava que aquilo

fosse durar muito. Todas as vezes que ela ia

embora, sempre pensava que seria a última. E

quando Mônica reaparecia, ficava surpreendido.

— Ela não tinha dito que ia arrumar um

apartamento pra vocês se encontrarem?

— Era conversa fiada.

— Chato é que, por causa dela, você perdeu

a Mara. Agora não tem nem uma nem outra.

Mas não se preocupe não, companheiro, depois

vem a bonança. Qualquer dia

você arruma outra. Mulher é o que não falta

no mundo.

Mas para João a tempestade ainda ia durar

algum tempo. Uma semana depois, numa das

cartas mal escritas da tia, ficou sabendo que

Zezé morrera. O choque foi enorme. João sen-

tiu como se lhe tirassem um pedaço de seu pró¬

prio corpo. Talvez no íntimo ainda esperasse

voltar para sua terra e Zezé, arrependida, pe¬


disse para voltar. Ele a perdoaria e os dois vol¬

tariam a ser felizes.

Agora, esta última esperança havia desapa¬

recido. Zezé estava morta. Tivera uma infecção

e sem condições para se tratar, não resistira.

Não podia imaginar Zezé morta. Era tão alegre,

tão cheia de vida...

— Sabe, Manuel? Acho que não vale a pena

viver.

— Tire essas idéias da cabeça, homem. Todo

mundo morre. Eu acho que você está precisando

é arranjar uma mulher, em vez de ficar aí so¬

nhando com uma que morreu e outra que su¬

miu. Se quiser eu lhe ajudo. Falo com Rosa,

aquela crioulinha que vem se encontrar comigo

quase todo dia.

—69

— Mas ela é sua.

— Quem foi que disse? Pensa que ela só

anda comigo? Ou você não quer a Rosa por que


não é bonita? A gente não pode escolher muito.

Porém na noite seguinte, antes que Manuel

acertasse tudo com Rosa, João teve uma sur¬

presa. Estava como de hábito, sentado no seu

posto, quando avistou uma figura familiar do¬

brando a esquina. Reconheceu Mara, que havia

desaparec do desde a noite em que o pegara em

flagrante com a grã-fina.

Mara aproximou-se:

— Oi, João, como vai?

— Você tava s u m i d a . . .

— Pois é. Mas resolvi voltar, se você ainda

me quer de novo. A grã-fina continua apare¬

cendo?

— Não, nunca mais vi.

Mara sorriu contente:

— Então a gente pode ser feliz como antes.

— Você acha que a gente era feliz?

— Acho, João. Sempre me dei bem com você

antes daquela vagabunda aparecer.


— Se quer voltar pra mim, é melhor não

ficar falando nisso.

— Não vou falar mais. Juro.

Os dois foram para a garagem. Mara estava

longe de ser a mulher ideal, mas na situação em

que se encontrava, João não podia se dar ao

luxo de recusar nada. Depois que terminaram,

Mara ainda continuou conversando alguns mi¬

nutos .

— Estou achando você triste. Ficou gamado

pela grã-fina, não foi?

70—

— Não, Mara. É que tive uma notícia ruim

lá da minha terra. A mãe dos meus filhos mor¬

reu tem poucos dias. Por isso que estou assim.

Mara ficou feliz ao saber o verdadeiro mo¬

tivo da sua tristeza:

— Esquece, João. Prometo que venho lhe

ver todas as vezes que quiser.

— Vamos sair logo daqui da garagem. Você


sabe que a gente não pode demorar.

Mara acabou de se arrumar e saiu na frente

de João. Atravessou a portaria e ganhou a rua.

João voltou para o seu posto e ainda avistou

Mara desaparecer na esquina.

A vida de João continuou como antes. Aos

poucos foi esquecendo Zezé. Mara vinha ao seu

encontro dia sim, dia não. Mônica ficará em

sua lembrança como se tivesse sido um sonho

acontecido há muito tempo.

Enquanto isso, Mara fazia planos:

— Um dia eu largo essa vida e a gente vai

viver j u n t o .

— Prá quê?

— Você não quer? Eu gosto de você, João.

Tenho umas economias na Caderneta de Pou¬

pança. Talvez dê até pra dar entrada numa ca¬

sinha ... Você deixa esse trabalho e pode arru¬

mar alguma coisa pra fazer lá no subúrbio.

— Não dá certo, Mara.


— Por que você não quer? Eu posso me em¬

pregar como doméstica.

— Vamos continuar assim como a gente es-,

tá. É melhor. Página 71

CAPÍTULO IX

a descoberta

Recostada num sofá, Mônica lia um roman-

ce. Foi interrompida por Haroldo:

— Você não gostaria de fazer uma viagem,

Mônica?

— N ã o , Haroldo. .

. — Estou pensando em dar um giro por Pa¬

ris e Londres.

— Leve a Cláudia.

Haroldo fingiu-se ofendido:

— Você está muito desatualizada. Podia ao

menos disfarçar o pouco caso que faz de mim.

Se tivesse algum interesse por minha vida, devia

saber que há muito tempo acabei com Cláudia.

— Então leve sua amante atual.


—73

— Quero ir com você, Podemos ter uma nova

lua-de-mel.

Mônica levantou a vista do livro:

— Não estou querendo viajar, Haroldo. Por

que você não vai sozinho?

Haroldo não insistiu e Mônica voltou a ler.

Ele acendeu um cigarro e ficou olhando a esposa.

Aparentemente ela permanecia a mesma, mas

Haroldo adivinhava que alguma coisa estava

acontecendo com Mônica. Não sabia exatamente

o que era. Fez uma tentativa para descobrir,

apesar de ter quase a certeza de que estava ta¬

teando numa pista falsa:

— Não quer viajar por causa do Bráulio?

— Francamente, Haroldo... Quer me deixar

ler este livro em paz?

Ele se levantou e se dirigiu ao bar. Preparou

um drinque e foi até a janela, com o copo na

mão. Bebeu alguns goles. Mônica estava mu¬


dada de alguns meses para cá. Disso não tinha

dúvidas. Nunca tinha se interessado muito pela

vida pessoal de sua mulher. Formavam o que

se convencionou ser um casal moderno: cada

qual tinha suas aventuras sem se intrometer

um na vida do outro.

Mas de alguma maneira Mônica estava dife¬

rente e, pela primeira vez, desde que tinham

casado, ele teve curiosidade em saber do que se

tratava. Tinha quase certeza de que ela nunca

o traíra antes com ninguém, a não ser com

Bráulio.

De repente, lembrou-se da conversa que ti¬

vera com Mônica, depois daquela festa em que

ela desaparecera por muito tempo e lhe contara

que tivera uma aventura com o porteiro do edi¬

fício .

74

Pensara na época que ela lhe dissera aquilo,

apenas para provocá-lo. Será que Mônica tinha


tido mesmo relações sexuais com um porteiro,

conforme afirmara? Não sabia bem por que mis¬

teriosa razão ele se importava agora tanto com

o fato. De qualquer modo, estava disposto a

descobrir o que se passava com a esposa e resol¬

veu que ia descobrir.

Mônica levantou os olhos do livro outra vez:

— Não vair sair hoje?

Raramente Haroldo ficava em casa à noite,

mas naquele dia estava pensando em não sair.

Mas decidiu modificar seus planos:

— Quer ir a algum lugar?

— Não — respondeu Mônica, voltando sua

atenção para o livro que estava lendo.

Haroldo acabou de beber seu uísque, foi até

o quarto trocar de roupa e alguns minutos de¬

pois saiu. Não tinha combinado nenhum pro¬

grama e foi a uma boate, onde certamente en¬

contraria conhecidos.

Eram mais ou menos duas horas da madru¬


gada, quando achou melhor voltar para casa.

Não estava se divertindo e sentia-se cansado.

Ao entrar em seu apartamento, não encontrou

Mônica. Isso já havia acontecido várias vezes,

mas antes nunca dera importância.

— Onde esteve ontem à noite? — pergun¬

tou a Mônica no dia seguinte.

— Estou abismada com este seu súbito in¬

teresse por mim — retrucou a esposa.

Apesar de aparentar indiferença, Mônica fi¬

cou com receio de que o marido desconfiasse de

alguma coisa. Por que estas perguntas todas?

Será que ele a estava vigiando? E se descobrisse

o motivo das suas saídas noturnas? P 75

Haroldo não incomodou mais a mulher com

perguntas. Concluiu que ela tinha arranjado

um outro amante e não queria que ele desco¬

brisse . Não entendia a razão desta sua atitude,


porque afinal, sabia que ele não ia se importar.

Mas se Mônica achava melhor esconder seu

novo caso amoroso, Haroldo achou que não de¬

via interferir mais.

Ao voltar para casa de madrugada, Haroldo,

antes de chegar ao edifício onde morava, viu o

carro de Mônica saindo. Sua curiosidade voltou

a se manifestar e seguiu a esposa a uma distân¬

cia razoável, a fim de não ser visto por ela.

"Aonde Mônica vai a esta hora?", pensou.

A cidade estava praticamente deserta. Era

um dia de semana e àquela hora a maioria das

pessoas dormia. O carro de Mônica percorreu

diversas ruas. Haroldo a acompanhava à dis¬

tância. Viu quando ela estacionou seu automó¬

vel em frente a um prédio, descendo logo em

entrando no edifício. Até aí Haroldo não achou

nada demais. Mas estrahou quando o porteiro

também entrou.

Haroldo, que havia parado'seu carro um pou¬


co adiante, desceu do automóvel e andou até o

prédio onde Mônica entrara. Lembrou-se do que

a esposa lhe contara a respeito da aventura com

um porteiro. ..

Agora tinha quase a certeza do que estava

acontecendo. Voltou para seu carro e esperou

pacientemente. Meia hora depois, Mônica saía

do edifício. Era vez de acompanhá-la, permane¬

ceu onde estava. Quando o carro da mulher de-

76—

sapareceu no final da rua, dirigiu-se até o prédio

de onde saíra momentos antes. O porteiro estava

sentado. Haroldo dirigiu-se a ele.

— Boa noite.

O porteiro olhou-o:

— Boa noite.

— Eu precisava de uma informação — dis¬

se Haroldo tentando dar um tom natural à sua

voz. — Aquela mulher que acabou de sair do

edifício vem sempre aqui?


O homem ficou meio assustado. Haroldo con¬

tinuou perguntando:

— Vai me responder ou não?

— Nunca vi a cara dela antes.

— E o que ela veio fazer aqui?

— Não sei, não senhor. Deve ter ido na

casa de algum conhecido.

— Para entrar a esta hora da madrugada,

ela deve ter dito o número do apartamento onde

ia. Você vai me dizer qual foi o apartamento.

— Quem é o senhor para me falar desse jei¬

to? — perguntou o porteiro, criando coragem.

— Sou o marido dela e você vai me dizer

imediatamente o número do apartamento aonde

ela foi.

O homem mentiu:

— Ela estava no 501.

— Vou até lá verificar se está falando á ver¬

dade.

— Não vou deixar o senhor entrar.


— Não tem importância. Amanhã venho

aqui durante o dia e falo com o morador do 501.

Se você estiver mentindo, vai se dar mal —

ameaçou Haroldo, retirando-se a seguir.

—77

Pela expressão do porteiro, Haroldo compre¬

endeu que ele mentira, mas queria ter certeza.

Assim, no dia seguinte, mais ou menos na hora

do almoço, voltou ao edifício e tocou a campainha

do apartamento 501. Uma velhinha veio aten¬

der.

— Boa dia.

A velhinha respondeu, amável:

— Bom dia. O que o senhor deseja?

Haroldo sentiu-se ridículo com o papel que

estava representando, mas levou avante o seu

plano:

— Estou fazendo uma pesquisa. Será que a

senhora poderia me responder algumas per¬

guntas?
— Pode perguntar, estou à sua disposição.

— Quantas pessoas moram neste aparta¬

mento?

— Duas, eu e minha irmã.

— Não vive mais ninguém aqui?

— Não.

Haroldo fez mais algumas perguntas à velha,

para disfarçar, e depois de agradecer, retomou

o caminho de casa. Enfim, tinha a certeza ab¬

soluta de que o porteiro não lhe dissera a ver¬

dade.

Ao entrar em seu apartamento, Mônica ficou

surpresa:

— O que está fazendo aqui a esta hora? É

feriado na sua firma?

— Acabei de descobrir o que você fez ontem

à noite.

Mônica resolveu ser sarcástica:

— Estou louca para saber o que você desco¬

briu .
78—

— Eu te acompanhei no seu passeio pela ma¬

drugada e vi quando encontrou-se com o por¬

teiro de um edifício.

O rosto de Mônica ficou pálido. Mas agora

que- estava tudo descoberto, enfrentou a situa¬

ção:

— E daí?

— Com um porteiro, Mônica? O1 que foi que

deu em você? Não acha que está indo longe

demais?

— Ora, Haroldo, o que é que tem?

— Ainda pergunta? .

— Estou cheia desta hipocrisia toda! Você

não se importa que eu seja amante de Bráulio,

mas fica achando que é o fim do mundo porque

eu fiz sexo com um p o r t e i r o . . .

— É muito diferente.

— Não.vejo diferença nenhuma.

— Está bem, Mônica. O que você fez, está


feito. Mas acho que deve parar com isso. Não

é conveniente. Você está se expondo demais.

Não tem medo do que possa lhe acontecer?

— Não.

— Isso pode terminar em escândalo.

— Você está muito preocupado com as apa¬

rências, não é?

— Lembre-se de que, às vezes, nem tudo é

permitido. Se você teimar em continuar assim,

o melhor é...

— O quê? Complete o que ia dizendo.

— O melhor é a gente se separar. Temos

que pensar nas crianças.

Mônica foi mais irônica do que nunca:

—79

— Estou profundamente comovida com a

sua preocupação pelos meninos.

Resolveram se separar definitivamente. Ha¬

roldo foi radical: pediu desquite e exigiu que os

filhos fossem criados por sua mãe. Mônica não


pôs objeções: aceitou tudo tranqüilamente e de

certa forma sentiu alívio de ver-se livre da pre¬

sença do marido.

Financeiramente, ela permanecia muito rica,

pois além da fortuna pessoal, Haroldo não colo¬

cara obstáculos quanto à divisão de bens.

Durante esse período, Mônica tornou a pro¬

curar o porteiro com o qual fora surpreendida

pelo marido. Miguel ficou apreensivo ao vê-la:

— É melhor não vir mais aqui.

— Por quê?

— Seu marido descobriu tudo.

— Eu sei disso. Não se preocupe que ele não

vai mais incomodar a gente.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Ele estava muito aborrecido e me amea¬

çou .

— Pode ficar descansado. Não vai lhe acon¬

tecer nada. Estou me separando dele. De agora


em diante Haroldo não tem mais nada a ver com

minha vida.

80—

CAPÍTULO X

um homem de sorte

João avistou Mara, que se dirigia para ele.

Ficou meio aborrecido, porque as visitas da mu¬

lher eram quase diárias.

— O que veio fazer aqui hoje?

— Vim te ver.

— Você não veio ontem?

— Parece até que não gosta de mim. Se fosse

a grã-fina, você não reclamava.

— Você não jurou que não ia mais falar

nela? -

Mara estava se apegando demais a ele e isso

não era bom. Mas não teve outro jeito a não ser

continuar conversando com ela. Não notou o

barulho de alguém que abria ou fechava uma

janela num dos apartamentos do prédio. Pou-


—81

cos minutos depois, cedeu à insistência de Mara

e levou-a para a garagem.

No outro dia, foi chamado pelo administra¬

dor do edifício:

— Você está despedido.

João ficou lívido:

— Despedido?

— Onde é que você tem a cabeça? Isso aqui

é lugar de respeito. Não sabe que é proibido tran¬

sar com mulher no edifício?

— Quem falou isso?

— A proprietária do 201 viu quando você

entrou com uma prostituta. Não adianta querer

negar. Ela disse que já vinha lhe observando há

muito tempo e ontem teve certeza que a mulher

vinha se encontrar com você quase todas as


noites.

João compreendeu que não adiantava conti¬

nuar negando. O administrador fez suas contas

e pagou. Com a ajuda de Manuel, poucos dias

depois João estava novamente empregado. Vol-

tou para

edifício

nem de longe lembrava o luxo do anterior. Pediu

ao amigo para não dar seu novo endereço a

Mara, caso ela o procurasse.

Mas João não se viu livre da mulher com

a facilidade que queria. Mara insistiu para que

Manuel lhe dissesse o paradeiro do amante.

— Não sei para onde ele foi — repetiu Ma¬

nuel mais uma vez.

— Você sabe. Se não me disser eu conto que

você transa com a Rosa no edifício e você tam¬

bém perde seu emprego.

. Diante da chantagem, Manuel não teve outra

saída a não ser revelar o que Mara desejava.


João ficou irritadíssimo quando a viu:

82—

— Como conseguiu saber onde eu estava? .

— Por que não quer mais me ver?

— Você já atrapalhou demais a minha vida.

Não vou fazer de novo as besteiras que fazia

antigamente.

— Agora está até melhor, João. Este edifí-

cio é bagunça e ninguém vai ligar se eu entrar.

— Pode tirar o cavalinho da chuva, Mara.

Não vou entrar mais em fria.

— De qualquer maneira, de vez em quando

venho aqui. Depois de uma semana sem mulher,

você vai ficar doido pra transar comigo.

Mas as coisas não se passaram como Mara

previa. Em seu novo emprego, João via todas as

noites uma mulher morena que sempre chegava

acompanhada por um homem diferente, altas

horas da noite. Compreendeu o tipo de vida que

levava e não deixou de perceber que ela às vezes


o olhava. Uma noite em que vinha sozinha per¬

guntou:

— Você é novo aqui, não é?

— Sou.

A mulher tomou o elevador, mas poucos mi¬

nutos depois estava de volta:

— Será que você podia me ajudar?

— Em quê?

— A minha chave enguiçou. Não consegui

abrir a porta do apartamento. A esta hora não

tem nenhum chaveiro aberto. Você pode ir até

lá em cima ver se consegue abrir?

João acompanhou Norma até seu aparta¬

mento . Pensou que tudo não passava de um pre¬

texto, mas depois verificou que realmente a

chave tinha enganchado na fechadura. Após

—83

alguns minutos de tentativas infrutíferas, con¬

seguiu finalmente abrir a porta.

— Não quer entrar um pouco?


A tentação era grande. João viu que não ia

resistir, mas respondeu:

— Não posso ficar longe da portaria muito

tempo.

— Nem pra tomar um cafezinho?

João entrou no apartamento. Norma esquen¬

tou o café e colocou na xícara:

— É uma pena que você não possa ficar mais

tempo. O que faz durante o dia?

— Durmo.

— O dia todo?

— Não.

— Por que não passa aqui às três horas da

tarde? Não tenho nada pra fazer amanhã.

João acabou de tomar o café, agradeceu e

antes de sair, Norma ainda falou:

— Amanhã às três. Combinado?

Ele afirmou com a cabeça e voltou para a

portaria

Que mal haveria em ir ao apartamento de


Norma no dia seguinte? Não era hora de traba¬

lho e ninguém podia reclamar. Tratava-se de

uma oportunidade única. Não queria mais ne¬

gócio com aquelas prostitutas de porta de edi¬

fício e não podia ficar a vida toda sem mulher.

Assim, o melhor mesmo era aceitar o convite.

Norma recebeu-o com um sorriso. Vestia

uma saia muito curta, que deixava à mostra suas

esplêndidas pernas. João pensou que afinal de

84—

contas ele era um homem de sorte. Poucos ca-

ras da sua condição conseguiam mulheres como

aquela. Claro que Norma estava longe de ser

bonita e fina como Mônica, mas não deixava

de ser também muito desejável.

Enquanto João olhava para as coxas de Nor¬

ma, esta tirou da geladeira uma garrafa de cer¬

veja, f ngindo não notar' que estava sendo ad-

mirada .

— Vamos beber um pouco?


A mulher encheu dois copos e ofereceu um

a João:

— Você é muito bonito para ser um simples

porteiro.

João teve a impressão de que ficara ruboriza¬

do. Ela riu:

— Ficou encabulado?

Ele procurou disfarçar, olhando em volta. O

apartamento era modesto e os móveis um pouco

gastos. O forro do sofá estava desbotado e a

geladeira precisava urgente de uma pintura.

— O que você está observando com tanto in-

teresse? Acho que sou bem mais agradável à

vista do que estes móveis horrorosos — tornou a

falar Norma, sentando-se bem perto dele.

João sentiu vontade de pegar naquelas per¬

nas lindas que estavam bem próximas das suas.

Mas não se atreveu. Ela continuou:

— Você é muito tímido mesmo ou não gosta

de mulher?
— Acha que vou gostar de quê?

— Não s e i . . . cada um se diverte como pode

e como quer.

Norma aproximou os lábios e o beijou. João

perdeu a inibição inicial e deitou-se por cima

dela. Ali mesmo, no sofá, fizeram a m o r . . .

—85

— Sempre que estiver com a tarde livre, eu

te aviso, tá legal? — disse Norma, enquanto tor¬

nava a se vestir.

— E se os vizinhos souberem?

— Nunca me preocupei com os outros. Não

é agora que vou começar a me preocupar.

João deixou o apartamento de Norma plena-

mente satsfeito com a vida. Chegou a agrade¬

cer mentalmente a Mara por ter feito com que

fosse despedido do outro emprego.P 86

CAPÍTULO XI

o amor

Mônica estava separada de Haroldo há mais


de um mês. Pensava em refazer sua vida, arran¬

jar um novo objetivo. Deixara de freqüentar as

festas que tanto odiava e que ia somente para

acompanhar o marido. Mas o seu círculo de

amizades permanecia o mesmo.

Julgou que talvez fosse melhor voltar a es¬

tudar. Quem sabe não encontraria um sentido

para a existência? Mas estudar o quê? Não ti¬

nha uma vocação específica para nada. Com¬

preendia que uma carreira, um trabalho-que a

absorvesse, logicamente a levaria a algum lu¬

gar. Pelo menos conheceria pessoas de meios

diferentes. Assim como estava não podia con¬

tinuar.

—87

No entanto, antes que se decidisse sobre o

o que deveria fazer, permanecia com suas rondas

noturnas em busca de aventuras. Precisava aca-

bar com aquilo, mas nao tinha força de vontade

suficiente para resistir ao impulso.


Achou que não poderia deixar aquele hábito

repentinamente. Disso sempre teve certeza. Te-

' ria que ir diminuindo os passeios pela madru-

gada aos poucos. Três vezes por semana, duas,

depois u m a . Enquanto isso, matriculou-se n u m

curso de literatura inglesa. Sempre gostara de

línguas e tinha um certo fascínio pelos escritores

britânicos.

Pouco tempo depois compreendeu que estava

no caminho certo. Lamentou não ter se separa-

do de Haroldo há mais tempo. No curso conhe-

cera gente com outra mentalidade e estava fa-

zendo amizades úteis. Não se sentia mais tão

vazia quanto a n t e s .

Seus passeios solitários foram diminuindo.

Algumas noites sentia um desejo enorme de sair,

mas concentrava-se no estudo e ficava em casa.

Dois colegas do curso tornaram-se mais ín-

timos e os três costumavam sair nos fins de se-

m a n a . Nada de sexo. Amizade sadia, espontâ-


nea. Se acontecesse alguma coisa entre eles al-

gum dia, seria u m a conseqüência natural, nun-

ca u m a coisa premeditada.

Sentada n u m barzinho da Avenida Atlântica,

Mônica olhava o líquido dourado em seu copo.

Até o chope era mais gostoso quando estava

acompanhada por Paulo e Bruno.

— Sabe que às vezes custo a acreditar que

você já foi casada e tem dois filhos, Mônica?

Paulo e Bruno tinham mais ou menos vinte

anos, eram filhos de família burguesa, mas não

88—

chegavam a ser ricos. Eram pessoas despreo¬

cupadas, sem marcas profundas de sofrimento.

— Eu já estou velha. Vou fazer 26 anos no

mês que vem.

— Como era mesmo a vida de dondoca da

alta sociedade que você levava? — perguntou

Bruno em tom de brincadeira.

— Vamos falar de outro assunto. Quero es¬


quecer ...

— Está bem, está bem, não está mais aqui

quem falou.

Mônica observava os dois e compreendia cada

vez mais que era muito melhor que nunca tives¬

se relações sexuais com eles. No íntimo sempre

achara que o sexo atrapalhava as coisas e era

um negócio muito complicado. Os grilos come¬

çavam logo a aparecer e o que poderia ser uma

sólida amizade, tornava-se um relacionamento

atormentado e difícil.

Por que existia o amor e o sexo? Não seria

melhor que as pessoas fossem assexuadas? O

amor dá tanto trabalho! Uma verdadeira mão-

de-obra. O sentimento de posse, o ciúme, as pe¬

quenas e as grandes traições, as mentiras. No

conceito de Mônica, o amor, pelo menos o que

ela conhecia, era uma coisa sórdida e destrutiva.

Em conseqüência, o sexo também.

Despediu-se dos amigos às duas da madru¬


gada. Tomou o seu carro e pensava ir direta-

queria procurar nenhu¬

ma aventura. Estava cansada delas. Felizmente

aquele período de loucura total havia passado.

O sinal fechou e Mônica parou o automóvel.

Olhou naturalmente para a calçada e viu um

rosto conhecido. Desviou a vista. O sinal tor¬

nou a abrir, mas Mônica ficou parada. Tornou

89

a olhar para a calçada e notou que João, sen¬

tado na portaria do edifício, fixava os olhos nela.

Sentiu o desejo subir pelo corpo. O que esta¬

va João fazendo ali? Certamente deixara o an-

trabalhava como porteiro

naquele prédio. Ele a tinha reconhecido, certa¬

mente. Encostou o carro e desceu. Não queria

fazer aquilo, mas alguma coisa mais forte a


impelia a ir até ele.

João viu Mônica como uma miragem. Há

Podia

mesmo dizer que já a tinha esquecido. Mas ante

a visão daquela mulher linda, que fora tantas

vezes sua, ficara desnorteado. Estava satis¬

feito com as visitas que fazia ao apartamento

de Norma, mas não podia deixar de reconhecer

que Mônica era inigualável.

— Alô, como vai?

— Bem. E você?

— Quanto tempo que a gente não se vê,

não é?

— É verdade.

— Por que saiu do outro edifício?

— Me mandaram embora.

Ficaram em silêncio olhando um para o

outro. João observou que Mônica não estava

tão bem vestida nem tão pintada como antiga¬

mente. Mas achou que assim era mais bonita


ainda. Seus olhos castanho-dourados pareciam

brilhar como nunca.

João falou muito baixo, como se tivesse ver¬

gonha do que estava dizendo:

— Eu tive saudades de você.

Ela compreendeu então que nunca tinha tra¬

tado João como um ser humano. Naquela época

90—

de loucura, quando começara a procurar homens

pela rua, só via e só pensava em sexo. Utiliza¬

ra-o como se fosse um boneco de carne, sem

querer saber que ele também tinha sentimentos,

sofria e gozava como qualquer ser humano, o

que de fato era.

Mônica nunca tinha reparado direito no ros¬

to de João. Notara os lábios grossos, sensuais,

mas nunca percebera a expressão de seus olhos.

João tinha os olhos tristes, foi a descoberta que

fez a seguir. Emocionou-se com aquele homem

que praticamente a adorava. Que a tinha pos¬


suído inúmeras vezes, mas sempre a tratara com

um respeito que sem dúvida ela não merecia.

João falou de novo:

— Por que não me procurou mais?

Arrependeu-se do que tinha dito. Não se

sentia com direito de reclamar nada a Mônica.

Por que iria procurá-lo? Ela parecia adivinhar-

lhe os pensamentos. Respondeu:

— Eu tive uma fase, muito complicada em

minha vida. Não dá para explicar.

— Desculpe ter perguntado isso.

Um homem passou e olhou com curiosidade

para os dois. Mônica não tomou conhecimento.

Continuou falando:

— Não tem do que pedir desculpas.

Mônica sentiu aumentar a vontade de fazer

amor com João. Mas de uma maneira diferente.

Agora o desejava como um ser humano igual a

ela:

— Se você pudesse ir. comigo até minha


casa...

— Está querendo me levar até sua casa? —

perguntou João, incrédulo.

—91

— Claro. Não gostaria de fazer como das

outras vezes...

João teve ódio do seu emprego e da sua con¬

dição. Em sua simplicidade, julgou que Mônica

não o - procurara mais, porque não queria con¬

tinuar encontrando-o nos fundos de uma ga¬

ragem, arriscando-se a ser descoberta. Nunca

poderia imaginar que ela fizera isso com inú¬

meros o u t r o s . . .

— Infelizmente não posso deixar á portaria.

Mônica hesitou alguns segundos. Mais do

que nunca desejava João. Se ele não podia sair

dali, o jeito era entrar no edifício. Pensou em

marcar para o dia seguinte em seu apartamento,

mas não queria adiar, não podia deixar passar

aquele momento.
— Se quiser eu entro contigo no edifício. De¬

pois a gente passa a se encontrar lá em casa.

Depois que passara a trabalhar ali, João não

voltara a fazer o que sempre fizera no edifício

anterior. Medo de perder o emprego e também

porque estava satisfeito com Norma. Mas com

Mônica era diferente. Daria tudo para poder ter

o corpo da mulher encostado ao seu, nem que

fosse apenas mais uma vez. E o preço a pagar

poderia ser qualquer u m . . .

Mara dobrou a rua e a uns cinqüenta me¬

tros de distância ficou paralisada ao ver que

João estava conversando com a grã-fina. Viu

que os dois se encaminhavam para dentro do

edifício. Então era assim que ele dizia que não

podia levar mulher ali?

Correu em direção aos dois, mas ao alcançar

o prédio era tarde demais. João e Mônica já

haviam desaparecido no interior do edifício.

92—
Teve vontade de começar a gritar e fazer um

escândalo. Mas viu que de nada adiantava. O

nais que podia conseguir era fazer com que

João perdesse novamente o emprego e a grã-

fina continuaria a encontrar-se com ele do mes-

no jeito em outro lugar.

O prédio não tinha garagem. João conduziu

Mônica para um pequeno banheiro sujo e cheio

de água, mas nenhum dos dois importou-se com

isso. Ele passou a mão delicadamente pelos om¬

bros e pelos seios da mulher. Mônica alisou a

b a r b a meio crescida de João. Não era somente

desejo o que sentia. Será que pela primeira vez

ela estava conhecendo o amor? De uma maneira

insólita e com uma pessoa, sob todos os pontos

de vista convencionais, errada para ela. Mas

que era amor, não tinha d ú v i d a s . . .

Os lábios se encontraram. João não se im¬

portava de morrer naquele momento. Morreria

feliz, abraçado com a mulher por quem tinha


verdadeira adoração. A maciez da pele, o perfu-

ne que se desprendia dela. Sentia até remorsos

em apertá-la com tanta força...

Antes de saírem do imundo aposento em que

se encontravam, Mônica o beijou mais uma vez.

Pegou um pedaço de papel na bolsa e ao chega¬

rem num local mais claro, escreveu seu ende¬

reço:

— Vá amanhã lá em casa.

— Quer mesmo que eu vá? A que horas?

— À hora que puder. Não vou sair.

Então João fez uma coisa de que iria arrepen¬

der-se pelo resto da vida:

— Vá na frente. A porta por dentro abre sem

precisar de chave. Eu vou ficar um pouco aqui,

—93

para que não me vejam junto com você. Se al¬

guém te ver, pensa que você estava em algum

apartamento e não desconfia de nada.

Mônica atravessou o hall do prédio. Abriu


a porta e ao sair, sentiu uma dor fina atraves¬

sar-lhe as costas. Mara, que a esperava, conti¬

nuou a dar-lhe diversos golpes com uma peque¬

na faca...

Atraído pelo barulho, João correu até a porta.

Ao abri-la, ainda teve tempo de ver Mara cor¬

rendo pela rua. A seus pés, o corpo ensangüen¬

tado de Mônica, sem v i d a . . .

— Você leu no jornal? — perguntou Paulo

a Bruno, quando chegou na aula de literatura

inglesa.

— Que coisa terrível! E pensar que Mônica

estava conversando com a gente no bar pouco

tempo antes.

— Não sei por que, mas eu tinha impres¬

são que alguma tragédia ia acontecer com Mô¬

nica algum dia-.

— "Elá era muito e s t r a n h a . . .

—- Eu gostava muito dela, sabe?

A noite, na solidão do seu posto, João ligou


seu radinho de pilha. Começou a tocar uma

música nordestina. Mas não era em Zezé que

ele pensava e sim em Mônica. Será que ele ti-

94—

nha amado e sido amado por ela? Ou tudo não

passara de um sonho que tinha se transformado

num terrível pesadelo? P 95

FIM

DIGITALIZADO POR LEANDRO EM OUT 2017

Carlos Aquino vem d e s p o n t a n d o

c o m o um d o s m a i o r e s

a n a l i s t a s da Z o n a Sul c a r i o c a .

Toda a v a r i a d a fauna que

flutua pelas longas n o i t e s , do Leme

ao Leblon, já foi r e t r a t a d a

em s e u s livros. O a g u d o s e n s o de

o b s e r v a ç ã o de Aquino não se

limita a o s b a r e s e b o a t e s da m o d a ;
vai mais além, p e n e t r a n d o no

sombrio m u n d o d o s edifícios-favela,

no Beco da F o m e , na

Galeria A l a s c a , nos inferninhos.

A biografia de Carlos Aquino

foi incluída r e c e n t e m e n t e na oitava

e d i ç ã o do "International Authors

and Writers W h o ' s Who".

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