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A biologia na violência

Biology in the violence

Renato Zamora Flores 1

Abstract The contributions of biology, especial- Resumo As contribuições da biologia, em espe-


ly behavior genetics and evolutionary psycholo- cial da genética do comportamento e da psico-
gy, to understanding violence in the contempo- logia evolucionista, para o entendimento da
rarys societies have not been understood by violência nas sociedades contemporâneas não
other areas of the knowledge that study the têm sido bem entendidas por outras áreas do
same phenomenon at levels of bigher com- conhecimento que estudam o mesmo fenômeno
plexity, as the social sciences. Recent studies em níveis de maior complexidade, como as
show that, at the theoretical level, the indiffer- ciências sociais. Estudos recentes mostram que,
ence about the importance of genetics and no nível teórico, o descaso em relação à impor-
Darwinians approaches to violence leaves gaps tância de abordagens genéticas e darwinianas
in the causal models used. In the practical exer- da violência deixam lacunas nos modelos cau-
cise of the resolution of social problems, the sais utilizados. No exercício prático da resolu-
exclusion of the biological aspects, as the rele- ção de problemas sociais, a exclusão dos aspec-
vance of certain mental states in violent behav- tos biológicos, como a relevância de certos esta-
iors, generate the absence of health and social dos mentais nas condutas violentas, leva à au-
resources to assist persons predisposed to violent sência de recursos de saúde e assistência social,
behavior to deal with it. na sociedade, para auxiliar indivíduos predis-
Key words Violence, Darwinism, Psychology, postos a comportamentos violentos a lidarem
Behavior com suas circunstâncias.
Palavras-chave Violência, Darwinismo, Psico-
logia, Comportamento

1 Departamento de
Genética, Universidade
Federal do Rio Grande
do Sul. Caixa postal 156.031
91501-970 Porto Alegre RS.
rzflores@ufrgs.br
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A biologia na violência petidas as mesmas condições, um dado evento


se repetiria (Walter, 2001). Em termos mentais,
Ainda que a contribuição de um grande con- o determinismo psíquico é a teoria, proposta
tingente de estudos genéticos, neurológicos e por Sigmund Freud, de que os atos mentais
paleontológicos sobre a natureza da violência têm causas e não há, como regra, lugar para fe-
humana seja de conhecimento público, conti- nômenos aleatórios.
nuam sendo freqüentes as críticas exaltadas à Não se trata de discutir se todas as causas
contribuição da biologia aos estudos das for- de um fenômeno mental estão, ou estarão al-
mas de violência que ocorrem nas sociedades gum dia, acessíveis à ciência; e o mais provável
humanas. A dicotomia natureza versus cultura é que não, ou seja, determinismo não é sinôni-
persiste muito viva no discurso das áreas da mo de previsibilidade. Igualmente, porém, não
ciência que estudam fenômenos humanos com- sabemos explicar de onde poderia surgir a in-
plexos, como a vida em sociedade. determinação, ou seja, como, no tipo de uni-
O raciocínio básico, nessas críticas, foi ex- verso em que vivemos, poderia haver algo que
presso, enfaticamente, por Rose (1997), quan- não fosse conseqüência de eventos anteriores?
do apresentou o determinismo neurogenético Mas seria tolice procurarmos a contribui-
que, segundo ele, advoga a relação causal entre ção da biologia dentre os entes causais da vio-
gene e comportamento: Se os motivos de nossas lência? Desde o início do século 20, dezenas de
aflições são exteriores a nós, cabe às ciências so- estudos com gêmeos têm identificado um com-
ciais e à política resolvê-los. Mas, se as causas de ponente genético no comportamento criminal,
nossos prazeres e sofrimentos, de nossa virtude e ainda que variando no tempo e no espaço (Vo-
de nossos vícios estiverem, sobretudo, na biolo- gel & Motulsky, 1996), sugerindo que a influên-
gia, então devemos buscar sua explicação na cia dos genes não é invariante. Genes influen-
neurociência e devemos recorrer à farmacologia e ciam o comportamento de uma maneira pro-
à engenharia molecular para encontrar solu- babilística, contribuindo para condições psico-
ções... Quando as diferenças entre ricos e pobres lógicas que facilitam ao indivíduo agir de ma-
são tão grandes, quando os lucros potenciais da neira violenta (Lyons, 1994). Note-se, ainda,
violência podem ser tão altos e especialmente que o fato de se apontar o efeito de genes em
quando, nos Estados Unidos, diz-se que há mais um determinado fenótipo, comportamento vio-
de 280 milhões de revólveres de propriedade pri- lento neste caso, não traz qualquer presunção
vada, é tolo e dispendioso procurar na biologia sobre o efeito do ambiente neste fenótipo nem
explicação determinante para a violência. sobre eventuais interações entre ambos, genes
Nenhum cientista conhecido defende um e ambiente.
determinismo como exposto acima. Além dis- A relação entre genética e criminalidade
so, genes não são a matéria bruta da evolução; violenta e sistemática parece ser mediada pelo
comportamentos, por serem fenótipos, o são. conceito do transtorno de personalidade anti-
Comportamentos selecionam genes e não o social, um problema crônico, de início na se-
contrário. É um equívoco assumir que a teoria gunda década de vida, caracterizado, em sua
evolutiva enfatiza o controle biológico do com- versão mais profunda, por ausência de culpa,
portamento. Ao contrário, ela explica como os vergonha ou remorso, pobreza de relações afe-
fatores ambientais e culturais moldam não só a tivas, incapacidade de aprender com a experiên-
evolução do cérebro, mas, também, o seu de- cia e insensibilidade social (Hart et al., 1995).
senvolvimento em cada indivíduo (Hans et al., Flores e Hackmann (2001) ao estudarem 560
2000). Por isso, é pertinente se perguntar se os adolescentes gaúchos com mais de 14 anos, em
milhares de revólveres, mencionados acima, regime de privação de liberdade por haverem
também seriam um perigo diante de outros cé- apresentado comportamento criminalizável,
rebros que não aqueles existentes nos seres hu- estimam que cerca de 40% dos diagnósticos
manos. psiquiátricos pertenciam a esta categoria. Entre
Entretanto, a visão científica atual é, essen- aqueles com idade entre 18 e 21 anos, internos
cialmente, determinista. Em relação à conduta em uma unidade para indivíduos de maior ris-
humana, determinismo é a tese de que tudo co, este valor chegava a mais de 90%.
que acontece – incluindo-se ações, decisões, Raine et al. (1996) e Raine e Liu (1998) mos-
emoções e sentimentos humanos – é conse- traram outra maneira de a biologia contribuir
qüência de condições tais que levaram a um para o fenômeno da violência. Identificaram
determinado desfecho e não a outros e, se re- uma combinação explosiva para gerar compor-
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tamentos violentos: fragilidades biológicas, es- As diferenças entre os sexos, quanto à serie-
timadas pela presença de problemas neurológi- dade, qualidade e quantidade dos atos violen-
cos, atraso no desenvolvimento neuropsicomo- tos, também parecem ser uma constante na
tor e complicações de parto, combinadas com história humana e compartilhada com outros
um ambiente familiar inadequado, especial- grandes primatas, quer vistas por uma ótica
mente no primeiro ano de vida. Nas amostras evolutiva dos machos, quer das fêmeas (Camp-
estudadas, holandesas e norte-americanas, o bell et al., 2001).
risco de se envolver em comportamentos cri- O papel primordial de jovens do sexo mas-
minais era de mais do que o dobro do repre- culino entre agressores e vítimas, que ocorre
sentado pela presença de apenas um deles – em nossa sociedade, é partilhado com outras
fragilidade biológica ou ambiente inadequado espécies de animais sociais – lobos, elefantes,
isoladamente – correspondendo a mais de 2/3 chimpanzés, etc. – que apresentam um estágio
do total de crimes cometidos pelos cortes estu- extra de desenvolvimento, denominado adoles-
dados. cência, no qual os indivíduos já não desfrutam
Estudos preliminares de uma amostra de 21 dos privilégios dos filhotes, mas ainda não ad-
jovens violentos, mas sem condenações crimi- quiriram todas as habilidades dos adultos (Bo-
nais, de Porto Alegre, identificaram três variá- gin, 1999).
veis cuja presença aumenta significativamente A principal lição dos estudos bioarqueoló-
o escore de violência utilizado: problemas obs- gicos é de que a violência interpessoal é uma
tétricos, maus-tratos na infância e história fa- rara igualdade na história humana. Não há ne-
miliar positiva de criminalidade. nhuma forma de organização social, de modo
Estes resultados de pesquisas nos ajudam a de produção ou de condições ambientais que
entender por que, em ambientes culturais e fa- tenha permanecido livre de violência por mui-
miliares semelhantes, algumas pessoas se tor- to tempo (Walker, 2001).
nam violentas e outras, não. Talvez, estes sejam O segundo grupo de teorias, identificado
os que apresentam uma fragilidade maior para por Minayo e Souza (1998), está também erra-
lidar com a pressão estressante do ambiente. do, pois é igualmente fundamentado na pre-
missa de que a violência é natural: “substituem
a idéia de processo social e histórico pelo con-
Equívocos, biologia e ciências sociais ceito de agressão, que provém da biologia, eto-
logia, genética e medicina”. Este grupo de teo-
Minayo e Souza (1998), em uma ampla análise rias é considerado ainda pior do que o primei-
causal da violência, identificam dois grupos de ro, pois seus defensores pretendem subordinar,
teorias equivocadas, relacionando violência à a priori, os componentes da atividade humana
biologia. O primeiro deles, evolucionista-adap- aos instintos biológicos. É semelhante ao crité-
tacionista, interpreta a violência como fenôme- rio de determinismo neurogenético, porém,
no “extraclassista e a-histórico”, de caráter uni- mais amplo, pois parece negar a participação
versal. Este modelo vê a sociedade como um das doenças mentais na violência, fenômeno
campo de luta competitiva entre indivíduos, observado em diversos países.
grupos, nações, etc. Para os autores, essas teo- Em contraste, Flores e Hackmann (2001),
rias fundamentam-se na idéia errônea de que a no estudo mencionado, encontraram que 42%
agressividade é uma qualidade inata da nature- dos adolescentes do sexo masculino, em regime
za humana e, portanto, os conflitos da vida so- de privação de liberdade, apresentavam diag-
cial, seja qual for a etapa do desenvolvimento nóstico de doença mental. Entre os fatores etio-
histórico, são de caráter eterno e natural. lógicos mais relevantes para estas patologias es-
Entretanto, não é bem isto que a antropo- tava o fato de o jovem ter sido maltratado na
logia nos mostra. Walker (2001), revisando os infância, que aumenta em 1,7 vezes o risco de
estudos sobre lesões traumáticas na pré-histó- que ele desenvolvesse doenças mentais, e o fato
ria, afirma que as raízes da violência interpes- de haver histórico de doença mental na famí-
soal penetram profundamente em nossa histó- lia, que aumenta o mesmo risco em 5,7 vezes.
ria evolutiva. As marcas de agressões nos ossos Comparativamente, 30% dos adolescentes
são surpreendentemente comuns, consideran- ingleses condenados e 50% daqueles em inter-
do-se a escassez de restos de hominídeos. Os nação provisória tinham diagnóstico psiquiá-
estudos não apontam diferenças relevantes en- trico (HM Chief Inspector of Prisons for En-
tre populações do velho e do novo mundo. gland and Wales, 1997). Em uma amostra ca-
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nadense, 64% dos internos haviam recebido tra- Nestas críticas existe uma vinculação da
tamento para doenças mentais (Jack & Ogloff, biologia a um destino imutável, prejudicando
1997). Já em um grupo de adolescentes homi- o estudo do fenômeno e, pior, o tratamento
cidas norte-americanos, 96% tinham diagnósti- adequado que poderia ser prestado, pelos ser-
co psiquiátrico (Myers et al., 1995). O maior ín- viços de saúde, a indivíduos patologicamente
dice, 100% dos jovens infratores com diagnósti- violentos (Raine e Liu, 1998). Para Hans et al.
co psiquiátrico, foi encontrado em uma amostra (2000), esta visão biológica antiquada, com
da Finlândia (Haapasalo & Hamalainen, 1996). mais de um século de atraso, adotada pelas
No Rio Grande do Sul, entre indivíduos ciências sociais, se mantém por uma negação
adultos cumprindo medida de segurança devi- dos conhecimentos de outras áreas e, até, por
do à conduta criminal, a doença mental mais um certo orgulho em ignorar o que ocorre nas
prevalente (60%) é a esquizofrenia (Telles et outras ciências correlatas. Esta fragmentação
al., 2000), cujas causas são diversas, mas todas do conhecimento leva a teorias sobre o funcio-
de base orgânica. Para estes pacientes, falta de namento do cérebro que são ou muito inatistas
tratamento é o principal fator associado ao ho- ou excessivamente baseadas na cultura e no
micídio, aumentando seu risco em 2, 56 vezes, aprendizado.
mesmo quando as variáveis sociodemográficas O que Minayo e Souza (1998) entendem
e clínicas foram controladas (Menezes e Bus- por instintos biológicos ou por seu termo cor-
nello, 2002). relato, as qualidades inatas da natureza huma-
Em um estudo numa comunidade de baixa na, são os genes reproduzidos de geração em ge-
renda, Flores et al. (2002) mostraram que, de- ração, nos seres humanos, [que] transmitem uma
vido às dificuldades para obter atendimento informação de sentido e conteúdo determinados,
para problemas de saúde, especialmente men- levando os indivíduos a reagir em condições con-
tal, as famílias em situação de indigência social cretas do ambiente de forma a garantir a sua so-
ficavam presas em um círculo no qual a violên- brevivência. Trata-se de um conceito bastante
cia familiar aumentava o risco de doença men- ambíguo. Genes portam informações bem de-
tal na família, que por sua vez levava a vários terminadas, mas não levam, diretamente e sem
comportamentos desadaptativos, predispondo mediações nos níveis de maior complexidade
a nova geração a maior risco de envolvimento organizacional, os indivíduos a reagirem de
em violência e maior risco de desenvolver maneira predeterminada, como ocorre em or-
doenças mentais. ganismos de sistema nervoso mais simples, co-
mo insetos.
Equívoco semelhante foi cometido, no iní-
Causas nas ciências sociais cio do século 20, pelo psicólogo alemão Carl G.
Jung (1875-1961), que propôs a existência de
Conforme El-Hani e Videira (1999), uma das grandes temas culturais/mitológicos univer-
questões contemporâneas mais importantes é a sais, já que seus pacientes utilizavam-se, no ní-
clara formulação científica das noções de cau- vel pessoal, de símbolos adotados por várias
salidade a ser adotada pelos diversos domínios culturas e tradições religiosas do mundo intei-
relacionados à mente humana. Entre as dificul- ro. Estas similaridades levaram à reificação de
dades existentes, há uma excessiva frouxidão um “inconsciente coletivo” composto de figu-
nos modos de definir causalidade, implicados ras, símbolos e conteúdos arquetípicos de cará-
na relação entre o simples e o complexo. ter transcultural, comum a toda a humanida-
Para eles, ainda que os fenômenos sociais de. O mesmo erro ocorreu, também, com S.
estejam em um nível de complexidade maior Freud, quando desenvolveu o conceito de com-
do que fenômenos biológicos, as propriedades plexo de Édipo, que atribuía a todos os seres
emergentes dos primeiros não aniquilam as humanos um mesmo mecanismo de lidar, du-
dos últimos, ao contrário, as propriedades de rante a infância, com as relações de afeto na fa-
nível superior devem ser dependentes das pro- mília nuclear (Flores, 1996). Em ambos os ca-
priedades de nível inferior. A manutenção des- sos o engano foi devido a um desconhecimen-
tas propriedades leva a problemas praticamen- to de como a informação genética é transmiti-
te insuperáveis quando se admite apenas um da e de como surgem suas variações.
modo causal ou quando, no caso das críticas O número de propostas de mudanças cien-
mencionadas, se deseja excluir os aspectos bio- tificamente embasadas, ressaltando a impor-
lógicos da violência humana. tância da biologia nas ciências sociais, tem au-
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mentado muito, inclusive, em áreas mais res- que estariam em nível de humanidade inferior,
tritas como nas denominadas ciências sociais como os animais. Esta tendência naturalmente
normativas, nas quais se incluem as ciências ju- humana é bastante utilizada pelas religiões e
rídicas. Fernandez (2002) rotula estas concep- ajuda a entender por que, de modo geral, pes-
ções, que excluem a biologia evolucionária e a soas religiosas são mais rígidas moralmente e
psicologia cognitiva do estudo do direito, de menos benevolentes, do que indivíduos sem re-
construtivismo social, que teria chegado ao ligião (Rubin & Peplau, 1973).
ápice com alguns filósofos pós-modernos, para A associação entre ciências da computação
os quais a realidade, a natureza, as emoções, o e psicologia evolucionista tem mostrado que
funcionamento do cérebro e até a gravidade se- muitos aspectos importantes da cognição hu-
riam socialmente construídos. mana, como regras de escolha de alimentos,
O conhecimento biológico trará profundas parceiros ou alianças sociais são baseadas em
mudanças ao pensamento jurídico, quando pu- processos computacionais, heurísticas e algo-
der alcançá-lo. Por exemplo: como os instintos ritmos, comuns a toda a humanidade, pois di-
sociais humanos não foram desenvolvidos para zem respeito a como o cérebro humano pro-
uma sociedade como a nossa e sim, para a con- cessa informação (Gigerenzer & Todd, 2000).
vivência em pequenos bandos, o direito deve
levar em conta que a estrutura mental humana
predispõe os indivíduos a certas regras epige- Conclusões
néticas de pensamento. Por exemplo: a grande
maioria das agressões humanas ocorre em um A principal dificuldade para a compreensão do
contexto mental no qual o indivíduo que agri- papel da biologia na violência pode ser enten-
de sentiu-se previamente agredido. Das dife- dida como uma incapacidade de perceber-se
rentes formas de agressão interespecífica que uma hierarquia, nas suas causas, que não é um
ocorrem entre animais, a mais relevante para o atributo externo ao fenômeno e, sim, depende
entendimento da violência é a agressão defen- do nível em que se deseja examiná-lo. Não pa-
siva, modulada positivamente pela amígdala e, rece possível que existam fenômenos sociais
negativamente, por regiões do hipotálamo (Al- que não sejam mediados pelas mentes dos in-
bert et al., 1993). Anomalias no processamento divíduos que compõem o grupo social. Não
de informações recebidas fazem com que mui- existem mentes que ocorram fora de cérebros.
tas respostas violentas sejam o resultado de uma Por isso, é perfeitamente válido, do ponto de
percepção exagerada de uma agressão sofrida. vista científico, analisar o fenômeno nestes ní-
As ciências jurídicas fundamentaram suas veis, tanto como em níveis de maior complexi-
noções de relações de poder, justiça, interpreta- dade – estes, os preferidos por Rose (1997) e
ção jurídica e estrutura jurídica e social, basea- por Minayo e Souza (1998).
das nos pressupostos implícitos de que os seres Mesmo que a causa inicial de um processo
humanos são dotados de uma capacidade geral de violência seja eminentemente social, como
de processar igualmente qualquer informação, uma guerra, por exemplo, o entendimento dos
adaptando-se igualmente bem a qualquer es- processos que se seguirão, no desenrolar do con-
trutura social, o que não corresponde aos re- flito, deve levar em conta os modelos de fun-
sultados da psicologia cognitiva (Fernandez, cionamento da mente. A raiva, o medo e os de-
2002). mais recursos de processamento que o cérebro
Ao contrário, as habilidades cognitivas hu- dispõem determinarão as respostas dos indiví-
manas estão especializadas para lidar com in- duos neste ambiente.
formações relativas às pressões da seleção na- É incorreta a presunção culturalista de que
tural ocorridas no pleistoceno. Um exemplo todos os tipos de pensamentos são possíveis.
dramático destas tendências mentais é o de di- Por exemplo, é viável calcular-se um sistema de
vidir o conjunto social em “nós”, composto pe- quatro eixos ortogonais entre si, mas não é
los que merecem apoio, solidariedade e o me- possível visualizá-los mentalmente. Também é
lhor de nossas virtudes, e “eles”, para os quais incorreta a presunção de que todos os pensa-
reservamos todo o repertório de condutas mes- mentos possíveis têm a mesma chance de ocor-
quinhas e cruéis de que somos capazes (Har- rer. É bastante mais fácil odiar os inimigos do
tung, 1995). Antropólogos encontram, com que amá-los ou perdoá-los e isto, independen-
freqüência, culturas nas quais o termo “huma- temente da opção moral de cada um, é uma
no” não é aplicável a outros povos vizinhos, realidade decorrente da seleção natural.
202

Os resultados dos estudos apresentados aci- faz sentido exceto à luz da história”, o que é
ma sugerem que níveis de menor complexida- bastante correto, considerando-se as semelhan-
de, como o mental e o biológico, são funda- ças dos métodos e dos discursos históricos e
mentais para o entendimento da violência em evolutivos e também que a ciência, como pro-
nossa cultura. Mais do que isso, sugerem que as cesso seqüencial, é muito dependente de even-
análises sociais devem levar em conta os pro- tos anteriores.
cessos evolutivos da mente humana. Entretanto, poderíamos acrescentar ainda:
Em um artigo clássico de 1973, o importan- “nada faz sentido, na sociologia, senão a luz da
te evolucionista e geneticista Theodosius Dobz- evolução”. Os já mencionados revólveres são
hansky afirmou que “Nada, na biologia, faz perigosos apenas na presença de organismos
sentido exceto à luz da evolução”. Parafrasean- que, além de certo tipo de cérebro, possuem
do-o, Rose (2000) afirmou: “Nada, na biologia, também certo tipo de membros.

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