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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

GRUPO - MODERNAS TENDÊNCIAS DE TEORIA DO DELITO (MTTD)

ESBOÇO DE PROJETO DE PESQUISA SOBRE “TRATAMENTO DE CHOQUE”

INTRODUÇÃO

Entre o final de maio e o início de junho de 2021, um médico brasileiro de grande


popularidade nas redes sociais, Dr. Victor Sorrentino, foi detido na cidade do Cairo, capital
do Egito, após assediar a vendedora de uma loja em um bazar turístico, constrangendo-a
com perguntas de conotação sexual que foram filmadas e postadas em sua conta no
Instagram. O vídeo viralizou na internet e, como consequência, gerou grande repercussão
negativa por parte dos brasileiros e principalmente dos egípcios, os quais mobilizaram as
autoridades públicas do país africano para que tomassem as providências cabíveis em face
da aparente violação dos “princípios e valores da sociedade egípcia e a santidade da vida
privada da vítima”1.

PROBLEMA CENTRAL

Desse ocorrido, extrai-se as seguintes perguntas centrais que podem nortear o


desenvolvimento do projeto de pesquisa: (i) penas curtas, como uma espécie de
“tratamento de choque” para pessoas de classe alta, são ou podem ser aplicadas
como resposta penal em certos casos? (ii) Qual seria a natureza penal do tratamento
de choque segundo a teoria das funções da pena? (iii) Quais são as possíveis críticas
ao “tratamento de choque” sob a ótica de diferentes segmentos que compõem o
Direito Penal contemporâneo?

1. Penas curtas, como uma espécie de “tratamento de choque” para pessoas


de classe alta, são ou podem ser aplicadas como resposta penal em certos casos?

Para que se possa analisar a existência ou a possibilidade de implementação de


uma pena como o “tratamento de choque” para pessoas de classe alta, faz-se necessário,
antes de tudo, conceituá-la. De uma maneira geral, cuida-se de sanção penal cujo intuito é
o de educar o indivíduo que cometeu crime ou ato infracional por meio do contraste -

1
.https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2021/06/02/medico-brasileiro-investigado-por-assed
io-sexual-no-egito-o-que-se-sabe-e-o-que-falta-saber.ghtml (acesso em 17 de junho de 2021).
“choque” - entre a sua realidade cotidiana e o estabelecimento prisional, de modo a fazer
com que ele tenha medo de infringir a lei no futuro.
Utilizando como base a classificação das espécies de penas adotada pelo Código
Penal Brasileiro (CP), em seu artigo 32, é razoável admitir o possível enquadramento desse
“tratamento de choque” tanto na modalidade de restrição de direitos, quanto na de privação
de liberdade. Na primeira hipótese, tal penalidade consistiria em uma simples excursão ao
estabelecimento prisional, oportunidade na qual o indivíduo iria ter contato direto com a
angustiante realidade das pessoas que tiveram a sua liberdade cerceada pelo Estado,
ouvindo seus relatos, visitando as suas celas, e conhecendo a sua monótona rotina. Este
modelo é adotado em algumas penitenciárias nos Estados Unidos, as quais oferecem essa
excursão como medida restritiva de direitos aos adolescentes que estão em conflito com a
lei. Na segunda e mais grave hipótese, a referida punição compreenderia a privação de
liberdade por um curto período de tempo, não superior a 90 dias, com vistas a provocar no
indivíduo transgressor da lei a experiência real de ter a sua liberdade tolhida pelo poder
punitivo estatal.
Consultando os principais diplomas jurídico-penais brasileiros, observa-se a
inexistência de qualquer sanção penal que se assemelhe ao “tratamento de choque”, seja
enquanto pena restritiva de direitos ou privação de liberdade. A prova disso se dá, no
primeiro caso, pela ausência de previsão legal da referida excursão ao estabelecimento
prisional no rol taxativo de penas restritivas de direito do art. 43 do CP, e, no segundo, pela
impossibilidade do cumprimento de pena privativa de liberdade não superior a 90 dias, por
força do art. 44 do CP que preceitua a substituição dessa pena pela restritiva de direito.
Uma vez verificada a ausência desse instituto, resta investigar a possibilidade da
sua implementação no ordenamento jurídico-penal brasileiro. Para isso, faz-se necessário
pesquisar os possíveis critérios e formas de aplicação desse tipo de pena, tais como: o
lugar processual (fase pré-processual, processual, de execução); a quem ela se destina
(menores infratores ou adultos imputáveis; classe alta, média ou geral); os crimes aplicáveis
(menor potencial ofensivo; com ou sem violência; pena máxima e mínima cominada em
abstrato); a sua duração máxima e mínima (um dia, uma semana, um mês, três meses) etc.
Deve-se, contudo, atentar-se à legalidade e constitucionalidade do tratamento de
choque, haja vista a existência de hipóteses adequadas e inadequadas ao ordenamento
jurídico-penal brasileiro. Durante a construção desse projeto, descartou-se, por exemplo, a
hipótese do tratamento de choque como prisão cautelar processual, pois isso implicaria em
aplicação de pena antes do trânsito em julgado da sentença condenatória e, assim, ferindo
o princípio da presunção de inocência.
Pode-se afastar, também, a possibilidade de aplicação desse instituto ao réu
primário, em razão de afronta ao princípio da intervenção mínima. Isso porque, se há
possibilidade de aplicação de pena menos gravosa do que a privativa de liberdade, como a
pena de multa ou a de restrição de direitos, deve ela ser aplicada. Sendo assim, não é
razoável, sob a ótica de um Estado Democrático de Direito, aplicar uma curta privação de
liberdade como a primeira resposta penal a um sujeito sem quaisquer antecedentes
criminais, devendo-se priorizar a aplicação das outras espécies de penas mencionadas,
seja em primeiro plano (art. 43, CP) ou em substituição (art. 44, CP).

2. Qual seria a sua natureza penal segundo a teoria das funções da pena?

Com a moderna inserção da política criminal na dogmática jurídico-penal, as penas


passaram a ser estudadas, primordialmente, segundo as suas finalidades preventivas.
Nesse sentido, as teorias relativas da pena se sobrepuseram às teorias absolutas, de modo
que a pura e simples retribuição punitiva do mal pelo mal não mais se conforma às
exigências de um Direito Penal democrático e garantista. Em seu lugar, analisa-se a pena
como uma consequência jurídica do crime relacionada à sociedade, somente existindo por
ela e para ela.
Com efeito, conforme atesta Patrícia Vanzolini, o desenvolvimento dessas teorias
desembocou em uma “predominância das teorias preventivas ditas ecléticas, que reúnem,
de forma ora aditiva ora dialética, todas as finalidades preventivas já concebidas, em um
todo mais ou menos articulado, assumindo-se que o Direito Penal previne crimes de todas
aquelas maneiras: ameaçando com a pena ou reforçando valores sociais (na fase da
cominação legislativa e da aplicação judiciária), e ressocializando ou neutralizando o infrator
(na fase de execução)”2.
O Código Penal Brasileiro, nessa matéria, aborda em seu artigo 593 a ideia de
prevenção como sendo o propósito fundamental da aplicação da pena, com especial
observância à sua necessidade e proporcionalidade. Sendo assim, a pena obtém a sua
justificativa legitimadora tão somente se possuir, em si, uma finalidade concreta e orientada
ao futuro, qual seja, a prevenção de novos delitos.
Portanto, o estudo científico do “tratamento de choque” perpassa, necessariamente,
pela análise das suas finalidades preventivas, devendo-se investigar a sua adequação às
exigências supramencionadas. À primeira vista, é possível identificar o pretenso caráter
dissuasório dessa punição, na medida em que se objetiva, pela ameaça intimidatória de
privação de liberdade, evitar que o indivíduo transgressor da norma pratique novos crimes.
Resta averiguar, contudo, se tal finalidade se faz necessária e proporcional ao fato delituoso

2
VANZOLINI, Patrícia. Teoria da pena: sacrifício, vingança e direito penal. 1ª edição. São Paulo:
Tirant lo Blanch, 2019. pg. 13.
3
Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do
agente, aos motivos, às circunstâncias e conseqüências do crime, bem como ao comportamento da
vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime:
praticado pelo sujeito, em observância rigorosa aos princípios que fundamentam e limitam o
Direito Penal.

3. Quais são as possíveis críticas ao “tratamento de choque” sob a ótica de


diferentes segmentos que compõem o Direito Penal contemporâneo?

Pretende-se realizar, na pesquisa a ser desenvolvida, análises sob a ótica de


diferentes segmentos que compõem as Ciências Criminais: Criminologia, Dogmática Penal,
Processo Penal, Execução Penal e Política Criminal, para que se possa estudar esse
fenômeno em sua totalidade.
A controvertida temática do “tratamento de choque” dá margem para diversas
críticas construtivas que podem vir a atestar a sua fragilidade conceitual, por meio da
refutação das premissas que o sustentam e, também, pela inefetividade das suas
consequências, as quais podem até ser contraproducentes.
Utilizando como base dos estudos desenvolvidos pela criminologia crítica, podemos
atestar a ineficácia do caráter preventivo que fundamenta o tratamento de choque, o qual
serviria apenas como estratégia de dominação social orientada para a produção da
delinquência, e não para diminuição da criminalidade. Ademais, conforme alerta Vanzolini,
uma série de outros problemas estruturais podem ser ligados a esse tipo de punição, tais
como: “a instrumentalização do indivíduo, a propensão ao terror penal, ao Direito Penal
simbólico, a dissolução da fronteira entre culpabilidade e periculosidade, (...) dentre tantos
outros que podem e são há muito tempo apontados pelos juristas, sociólogos e filósofos,
modernos e antigos”4.
Nessa toada, a abordagem crítica da Teoria da Pena nos leva a uma compreensão
holística e aprofundada dessa problemática, nos permitindo inferir aos seus defeitos
teóricos uma evidente manifestação autoritária do poder punitivo do estado, a qual se vale
de conceitos aparentemente legítimos para realizar práticas abusivas de recrudescimento
irracional das sanções a pretexto de evitar novos delitos.
Além disso, também se faz pertinente a investigação dos fatores midiáticos e sociais
que possivelmente coadunam com as pretensões punitivas que supostamente seriam
supridas com o advento do tratamento de choque. O estudo do chamado “populismo penal”
é providencial para a compreensão do fenômeno por trás da existência desse tipo de
penalidade, cuja essência se manifesta há séculos em diferentes momentos e lugares da
história da humanidade.

4
Op. cit. pg. 15.
METODOLOGIA

Como pretende-se que o trabalho seja desenvolvido em várias frentes, com a


possível formação de grupos de trabalho para melhor aprofundar os âmbitos de
investigação, as técnicas de pesquisa a serem adotadas dependem do lado que se
examina. No que diz respeito ao debate dogmático, sugere-se a revisão bibliográfica, bem
como o estudo de ordenamentos jurídicos internacionais, para que sejam realizadas
comparações referentes à forma que esse instituto se manifesta na doutrina estrangeira e a
viabilidade de uma possível importação ao Direito Penal brasilieiro.
Para a feitura das críticas, é possível valer-se de outras ciências alinhadas aos
estudos da criminologia, como no caso de se pensar a função preventiva especial da pena
como uma espécie de reforço negativo, segundo as perspectivas behavioristas da
Psicologia.
Ainda, sugere-se o estudo de casos emblemáticos nos quais se tenha utilizado
respostas similares ao caso do médico, supramencionado, que se constituiu no disparador
da pesquisa que se pretende realizar.

PRODUTO FINAL

Um dos produtos resultantes da pesquisa a ser desenvolvida seria descobrir se essa


proposta de intervenção é útil ao contexto brasileiro, além de, em caso positivo, sugerir
possíveis aplicações em conformidade com a sistemática do ordenamento jurídico pátrio.
Uma dessas possíveis aplicações seria a criação de uma nova modalidade da pena
restritiva de direitos na forma de uma visita ao cárcere, podendo ser aplicada nos casos de
acordo de não persecução penal e cometimento de crimes de menor potencial ofensivo, ou,
na ótica do direito da criança e do adolescente, nos casos de remissão e aplicação de
medidas socioeducativas diversas de internação e semiliberdade.
Além disso, seria proposto uma nova forma de se aplicar a pena privativa de
liberdade, de uma forma mais curta, por um período não superior a 90 (noventa) dias, para
os indivíduos que já cumpriram penas restritivas de direitos em condenações anteriores, ou
que, eventualmente, descumpriram injustificadamente a restrição imposta, nos moldes do
art. 44, § 4o, do CP.
OBS.1: Sobre a inviabilidade de usarmos a ideia legislativa de “tratamento de
choque” proposta no site do Senado Federal5 como base para esta pesquisa.

Em uma das mensagens no grupo do Whats App MTTD, o Professor Alexis sugere a
possibilidade de utilização da ideia legislativa indicada pelo membro Victor Fanti como base
para produção científica sobre o tema. No entanto, observa-se que tal proposta legislativa
carece dos mínimos requisitos para que seja levada a sério. Isto porque, além de conter
erros substanciais na sua propositura, como por exemplo, ao sugerir que crianças e
adolescentes podem cometer crimes, também não apresenta o mínimo de impacto ou
repercussão social, possuindo apenas um (01) apoio em aproximadamente três anos, o
qual, provavelmente, foi do próprio criador.

OBS.2: Sobre a impertinência da utilização do caso do médico brasiliero preso no


Egito como leading case para esta pesquisa.

O caso do médico que foi detido apareceu como um disparador da discussão e figura na
introdução desse projeto, contudo, a prisão em questão se constitui numa medida cautelar,
e, como discute-se no item referente ao problema central, o tratamento de choque, no
ordenamento jurídico nacional, seria ou uma pena restritiva de direitos ou uma pena
privativa de liberdade, ocupando, portanto, local processual distinto da medida vista no caso
do médico.

5
https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaoideia?id=101853

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