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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 2, n. 1, p. 59-76, jan-abr.

2007

Novas perguntas para um velho problema: escolhas tecnológicas como índices


para o estudo de fronteiras e identidades sociais no registro arqueológico
New questions for an old problem: technological choices as indexes to the study
of social boundaries and identities in the archaeological record

Adriana Schmidt Dias I

Resumo: A relação entre variabilidade artefatual e identidades sociais no registro arqueológico é uma das principais problemáticas
da pesquisa arqueológica, independente do enfoque teórico. No que tange à arqueologia brasileira, esta questão foi
tradicionalmente abordada através dos conceitos de fase e tradição, porém suas aplicações não acompanharam os
debates teórico-metodológicos sobre tecnologia produzidos ao longo dos últimos 40 anos, através da antropologia das
técnicas e dos estudos de estilo tecnológico. Neste artigo são apresentadas as implicações desta perspectiva na
interpretação do registro arqueológico no alto vale do rio dos Sinos, Rio Grande do Sul.
Palavras-chave: Arqueologia Sul-brasileira. Tradição e fase Arqueológica. Estilo tecnológico. Tecnologia Lítica.
Abstract: The relation between artefactual variability and social identities in the archaeological record is one of the main issues
of the archaeological research, regardless of the theoretical approach. In Brazilian archaeology, this question has being
approached under the concepts of phase and tradition, although their applications are not in tune with the theoretical
debate on technology produced throughout the last 40 years, by the anthropology of techniques and studies of
technological style. We will discuss the implications of such perspective in the interpretation of the archaeological record
from the upper Sinos river valley, Rio Grande do Sul, southern Brazil.
Keywords: Southern Brazilian archeology. Archaeological tradition and phase. Technological style. Lithic technology.

I
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Departamento de História. Professora Adjunta. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
(dias.a@uol.com.br).

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Novas perguntas para um velho problema: escolhas tecnológicas...

Um dos principais objetivos da pesquisa arqueológica, Evans quanto às rotas de migração e difusão cultural
independente do enfoque teórico, é promover a nas terras baixas da América do Sul. O principal
compreensão da relação entre escolhas tecnológicas objetivo do Programa era estabelecer um esquema
e padronização da cultura material e como estas cronológico do desenvolvimento cultural no país,
refletem aspectos de fronteiras e identidades sociais através de trabalhos prospectivos de caráter regional
no registro arqueológico (STARK, 1998). Na e seriações (FORD, 1962). De acordo com a
arqueologia brasileira, esta problemática é tratada, proposta, seqüências seriadas semelhantes para uma
desde a década de 1960, através dos conceitos de mesma região seriam reunidas em fases, as quais,
fase e tradição. Percebe-se que ambos os conceitos por sua vez, formariam tradições. Estes conceitos
referem-se à articulação entre os aspectos contextuais marcariam os ritmos da distribuição espaço-
que geram variabilidade tecnológica nos conjuntos temporal dos grupos humanos pré-históricos que
artefatuais, embora suas aplicações no Brasil não sejam viessem a ser descobertos a partir das atividades do
acompanhadas de propostas metodológicas que Programa (DIAS, 1994, 1995).
permitam viabilizar este tipo de análise.
Apesar de sua importância central na caracterização
Nosso objetivo é rever estes conceitos à luz das dos quadros culturais identificados a partir do
discussões teórico-metodológicas sobre tecnologia, PRONAPA, a única definição formal dos conceitos
produzidas ao longo dos últimos 40 anos, através de fase e tradição é encontrada na “Terminologia
da antropologia das técnicas e dos estudos de estilo Arqueológica Brasileira para a Cerâmica” (CHMYZ,
tecnológico. Com este exercício, busca-se apontar 1966, 1976). Glossário dos termos utilizados pelo
alguns caminhos que permitam compreender quais PRONAPA, a “Terminologia” define por fase
aspectos justificam interpretar a variabilidade de “qualquer complexo de cerâmica, lítico, padrões de
conjuntos artefatuais em um dado contexto regional habitação, relacionado no tempo e no espaço, em
em termos de Tradições Arqueológicas e como as um ou mais sítios” (1966, p. 14; 1976, p. 131).
escolhas tecnológicas podem refletir fronteiras e Quanto ao conceito de tradição, este é definido
identidades sociais no registro arqueológico. como “grupo de elementos ou técnicas que se
Para ilustrar esta discussão, serão apresentadas as distribuem com persistência temporal” (1966, p.
implicações deste tipo de perspectiva na 20; 1976, p. 145). Ambos conceitos derivam de
interpretação do registro arqueológico no alto vale uma larga tradição de pesquisa na arqueologia norte-
do rio dos Sinos, região nordeste do estado do Rio americana, sintetizada na obra de Gordon Willey e
Grande do Sul. A partir do conceito de estilo Philip Phillips (1958). Porém, sua utilização,
tecnológico, procurou-se analisar, de forma crítica, descolada do corpo teórico do qual se originou, fez
a validade das categorias conceituais utilizadas pelo com que a definição de fases e tradições se
Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas transformasse na finalidade última das pesquisas para
(PRONAPA) para refletir sobre as ocupações de um número significativo de arqueólogos que atuaram
caçadores coletores nesta área, definidas pelas no sul do Brasil entre as décadas de 1960 e 1980
Tradições Umbu e Humaitá (DIAS, 2003). (DIAS, 1994).
A abordagem histórico-cultural popularizou-se na
A perspectiva histórico-cultural: arqueologia norte-americana a partir da década de
os conceitos de T radição e FFase
Tradição ase 1920, possuindo um enfoque eminentemente
O PRONAPA, desenvolvido entre 1965 e 1970, classificatório, voltado à organização de cronologias
consistiu em um desdobramento, para o território regionais através de comparações estratigráficas ou
brasileiro, das pesquisas de Betty Meggers e Clifford de seriações. As primeiras sínteses histórico-culturais

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para o Novo Mundo relacionaram-se aos trabalhos processual, na qual as regularidades apontadas
de Nelson, Kidder, Kroeber, Spier e McKern, autores receberiam uma explicação a partir da teoria
responsáveis pelas formulações iniciais referentes aos antropológica (1958, p. 31).
conceitos de componente, fase, tradição e horizonte
A base da aplicação do método de integração
na arqueologia americana. Contudo, estes conceitos
histórico-cultural é taxonômica e lida com dois
somente foram sistematizados em 1958, a partir da
conceitos básicos: tipos e unidades arqueológicas.
obra de Willey e Phillips, “Method and Theory in
Segundo a definição de Willey e Phillips, os tipos
American Archaeology” (TRIGGER, 1992, p. 189-
são instrumentos para a classificação dos artefatos
192). Fruto da inter-relação entre correntes teóricas
associados a um contexto arqueológico. Os
vigentes na arqueologia norte-americana dos anos
indicadores selecionados para a definição de um tipo
1950, “Method and Theory” oferece uma síntese dos
métodos desenvolvidos pela abordagem histórico- devem representar uma realidade comportamental,
cultural, interpretados à luz dos enfoques funcionalista entendida como norma pelas sociedades que
e ecológico-cultural. O cerne das preocupações de produziram o artefato sob análise. A relação espaço-
Willey e Phillips encontra-se na busca de uma postura temporal apresentada pelos tipos é expressa pelo
propriamente científica para a arqueologia norte- conceito de unidade arqueológica, definido pela
americana, marcada, até então, pelo empiricismo da combinação de seu conteúdo formal, duração no
escola histórico-cultural. Romper com esta tradição tempo e distribuição geográfica (1958, p. 14). O
de pesquisa significava, em última instância, reivindicar conceito de unidade arqueológica varia em
à arqueologia um papel ativo no processo de produção magnitude e em função da quantidade de tempo e
do conhecimento. Para tanto, tornava-se necessário espaço que subentende, podendo ser apresentado
um novo realinhamento com a antropologia social, de duas maneiras: unidades arqueológicas básicas e
que ofereceria as bases de sustentação teórica das unidades arqueológicas integrativas.
quais carecia a arqueologia para atingir uma prática As unidades arqueológicas básicas são representadas
notadamente científica (WILLEY; PHILLIPS, 1958; pelos conceitos de componente e fase. Um
WILLEY; SABLOFF, 1993). componente é uma manifestação de um dado foco
Para os autores, os níveis de organização do trabalho arqueológico num sítio específico, não podendo ser
arqueológico e as atividades a eles relacionadas estariam considerado propriamente como uma unidade
de acordo com três etapas. A primeira etapa seria o taxonômica (1958, p. 21). O conceito de fase,
trabalho de campo, que objetiva “observar os produtos difundido na arqueologia americana a partir de sua
materializados do comportamento humano” (WILLEY; definição por Kidder, na década de 1940 (WILLEY;
PHILLIPS, 1958, p. 4). Os dados obtidos seriam PHILLIPS, 1958, p. 22), constitui-se em
organizados e descritos em uma segunda etapa, chamada
uma unidade arqueológica que possui traços
pelos autores de integração histórico-cultural, que suficientemente característicos para distingui-la de
compreende a elaboração de tipologias, a formulação todas as outras unidades similarmente concebidas,
de unidades arqueológicas e a determinação das seja da mesma ou de outras culturas ou civilizações,
dimensões internas e externas destas unidades, definidas especialmente limitada pela magnitude de uma
localidade ou região e cronologicamente limitada a
em sua relação espaço-temporal. O objetivo principal um intervalo de tempo relativamente breve.
desta etapa de análise é descrever os acontecimentos
de uma unidade cultural específica, em um tempo e De acordo com a definição original, uma fase pode
espaço determinados. A última etapa do trabalho ser representada por apenas um nível pouco espesso
arqueológico corresponderia à interpretação de um sítio, refletindo não mais do que um breve

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acampamento, ou por uma ocupação prolongada componente e fase é predominantemente formal e


presente em um grande número de sítios, estática, sendo o passo inicial da integração histórico-
distribuídos em uma região de proporções muito cultural. Já a ligação entre horizonte e tradição é
elásticas. Assim, as fases sempre devem ser definidas fluida e histórica, correspondendo a uma síntese dos
em função de uma seqüência de ocupação regional, dados formais oferecidos pelo sistema componente/
seja esta contínua ou não. fase. Por sua vez, a relação externa entre as fases é
expressa nas unidades integrativas horizonte e
As unidades arqueológicas integrativas, por sua vez,
tradição, embora a definição de uma fase não tenha
são representadas pelos conceitos de horizonte e
por único objetivo conceber uma tradição, pois “a
tradição, responsáveis por efetivar a integração
eficiência deste aparato depende do livre jogo das
histórico-cultural das unidades arqueológicas básicas
unidades básicas e integrativas, sem limitações rígidas
(componentes e fases) em uma escala geográfica de caráter sistemático” (1958, p. 41).
maior que a regional (1958, p. 30). O termo
horizonte foi aplicado pela primeira vez por Max Em suma, as unidades básicas e integrativas
Uhle, em 1913, e formalizado por Kroeber, em constituem-se em ferramentas metodológicas que
1944, sendo, por sua vez, definido por Willey e permitem sistematizar as informações descritas no
Phillips (1958, p. 33) como “uma continuidade nível de integração histórico-cultural, a fim de que
espacial, representada principalmente por traços ou recebam uma explicação à luz da teoria
conjuntos de traços culturais, cuja natureza e modo antropológica, no nível de interpretação processual
de ocorrência permite a suposição de uma vasta e (1958, p. 57). No entanto, Willey e Phillips
rápida dispersão”. advertem que é necessário seguir alguns passos
fundamentais para que tal proposta se efetive. Em
Quanto ao conceito de tradição, sua ampla utilização primeiro lugar, a ênfase do trabalho arqueológico
pela arqueologia americana da década de 1940 fez deve estar fundamentalmente voltada à formulação
com que este assumisse uma conotação polissêmica de unidades básicas (componente e fase), de acordo
(1958, p. 35). Em conseqüência dos debates com sua distribuição nas seqüências locais e regionais,
suscitados em torno da sistematização deste estabelecidas a partir de controle estratigráfico. As
conceito, Willey e Phillips definem que uma “tradição dimensões espaço-temporais destas unidades devem
arqueológica é fundamentalmente uma continuidade ser sempre limitadas para que se mantenham
temporal representada por configurações persistentes manejáveis. As fases, por sua vez, devem ser definidas
em tecnologias únicas ou outros sistemas de formas levando-se em consideração um estudo profundo
relacionadas” (1958, p. 37). O conceito de tradição tanto de seu contexto cultural quanto de seu contexto
subentende uma unidade ou uma série de unidades natural, com o intuito de se ter bases seguras para
arqueológicas básicas (fases) relacionadas entre si, integrá-las nas tradições e horizontes.
que são socialmente transmissíveis e persistentes no
Em segundo lugar, deve-se sempre considerar que
tempo. Portanto, uma tradição seria caracterizada
os conceitos de tradição e horizonte são unidades
principalmente pela profundidade temporal,
que expressam relações intra-áreas, sendo limitados
enquanto um horizonte teria por marca distintiva a
para uma integração espaço-temporal em larga escala
amplitude geográfica.
(1958, p. 63). Para que adquiram validade histórica,
De acordo com o método proposto, uma tradições e horizontes definidos durante a pesquisa
integração histórico-cultural relaciona as unidades devem ser organizados em função de uma série de
básicas (componente e fase) com as unidades estágios de desenvolvimento cultural, denominados
integrativas (horizonte e tradição). A relação entre pelos autores de estágios histórico-desenvolvimentais

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(no caso americano representados pelos estágios a posição reservada aos distintos estágios histórico-
Lítico, Arcaico, Formativo, Clássico e Pós-clássico) desenvolvimentais que ofereceriam a coesão
(1958, p. 71). Esses estágios não visam a explicar as necessária aos conjuntos culturais definidos.
mudanças culturais ocorridas, tarefa da antropologia,
Por fim, ao avaliar os dados produzidos pelo
mas sim descrever os tipos de culturas e sua
PRONAPA para a região sul do Brasil, é possível
organização na possível ordem seqüencial de
observar que os aspectos tecnológicos e contextuais
ocorrência (1958, p. 76-77).
intrínsecos aos conceitos de fase e tradição receberam
As limitações ao nível descritivo das unidades pouca atenção. Destacam, porém, os que são
básicas e integrativas, salientadas fortemente por justamente estes pontos que se encontram no cerne
Willey e Phillips, não foram consideradas em sua das críticas processuais e pós-processuais à forma
aplicação em território brasileiro pelo PRONAPA. tradicional de se fazer arqueologia. São estas as novas
A definição de fases e tradições foi encarada perguntas que gostaríamos de resgatar para refletir
enquanto finalidade última da pesquisa e não como sobre este velho problema de pesquisa no Brasil.
meio para a descrição e sistematização de dados a
serem interpretados pela teoria antropológica. As perspectivas processual e pós-
Como conseqüência, a falta de reflexão teórica na processual: os conceitos de sistema
arqueologia brasileira da década de 1960 tecnológico e estilo
propiciou, nos anos subseqüentes, a consolidação A partir da década de 1960, a reação processual à
de uma visão míope quanto à amplitude do perspectiva histórico-cultural passa a compreender
método utilizado, estruturalmente limitado ao nível a tecnologia como o resultado de estratégias
descritivo de análise. adaptativas, inter-relacionadas com as limitações e
No Brasil a definição de fases desconsiderou a possibilidades do meio natural e as demandas da
premissa subjacente à aplicabilidade do conceito, organização sócio-econômica das populações. Para
relacionada à comparação de aspectos cronológicos a arqueologia histórico-cultural, a interpretação das
e contextuais (de ordem cultural e natural) do registro semelhanças e diferenças nos padrões morfológicos
arqueológico que deveria reger sua integração em dos artefatos possui conotações étnicas e as mudanças
uma tradição. Por sua vez, as tradições passaram a ao longo do tempo nestes padrões são explicadas,
assumir conotações distintas da enfatizada pela principalmente, em termos de processos de difusão
definição original, limitada a descrever fenômenos e migração. A partir da visão materialista, ou standard,
de continuidade temporal relacionados a aspectos defendida pela escola processual, entende-se a
de natureza tipológica. Esta postura anômala da tecnologia como um modo a partir do qual os
arqueologia brasileira cristaliza-se no pensamento de homens viabilizam sua existência frente ao mundo
Meggers e Evans (1985, p. 5) ao sugerirem que natural, um meio extra-somático de adaptação. As
investigações sobre este tema centraram-se,
fases definidas em termos de seqüências seriadas
portanto, sobre o entendimento das inter-relações
podem ser correlacionadas a comunidades
autônomas ou semi-autônomas e que tradições entre os sistemas tecnológicos e aspectos como
definidas em termos de fases que compartilham um disponibilidade de matérias primas, características
conjunto de elementos [...], provavelmente, físicas dos materiais, atribuições funcionais a que
representam entidades tribais ou lingüísticas. se destinam os artefatos e sua eficiência na
Desta forma, as tradições assumiram no Brasil um exploração do meio natural (PFAFFENBERGER,
papel distinto do originalmente proposto, ocupando 1992; DOBRE; HOFMAN, 1994).

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A partir dos anos de 1980, as limitações interpretativas O estudo das relações entre cultura material e
da perspectiva materialista influenciaram o sociedade torna-se, então, o estudo das condições
desenvolvimento, nos países de língua inglesa, de de coexistência e transformação recíproca de um
pesquisas voltadas à compreensão da natureza da sistema tecnológico e da organização tecnológica da
variabilidade tecnológica e qual sua relação com os sociedade na qual opera.
processos de formação do registro arqueológico. Por Para Lemonnier (1986, p. 154-155), a tecnologia é
sua vez, a tradição francesa de estudos de tecnologia um produto social, sendo as escolhas tecnológicas
passou a explorar a relação entre cognição e escolhas estratégias dinâmicas, relacionadas freqüentemente
tecnológicas, examinando o processo pelo qual a com diferenciação e identidade social. As técnicas são
variação tecnológica é criada através da seqüência de produções sociais que expressam e definem
manufatura dos artefatos. Em ambas tradições de identidades, auxiliando a reafirmar, representar e dar
pesquisa, seja guiada pela noção de cadeia operatória sentido a um mundo socialmente construído de
de André Leroi-Gourhan ou pela cadeia possibilidades e limites. De acordo com esta lógica,
comportamental de Michael Schiffer, o objetivo grupos vizinhos, em geral, têm plena consciência das
comum é compreender como o comportamento suas escolhas técnicas mútuas e a ausência de um dado
tecnológico cria e intermedia relações sociais. Neste traço tecnológico em um dos sistemas pode
caso, a etnoarqueologia e a arqueologia experimental representar uma estratégia consciente de demarcação
constituem-se no campo principal de elaboração de de diferenciação social (DOBRES; HOFFMAN, 1994,
modelos teóricos que contribuem para esta discussão p. 221). Os sistemas tecnológicos são, portanto, um
(STARK, 1998). recurso e um produto de criação e manutenção de
De acordo com a perspectiva defendida por um ambiente natural e social, simbolicamente
Lemonnier (1986, p. 154-155), a tecnologia é uma constituído. Neste sentido, a tecnologia pode ser
preocupação antropológica, pois manifesta as escolhas definida como o corpus de artefatos, comportamentos
feitas pelas sociedades de um universo de possibilidades e conhecimentos transmitidos de geração a geração
das quais as técnicas, em seus aspectos mais materiais, e utilizados nos processos de transformação e
fazem parte. Igualmente, a tecnologia deve ser utilização do mundo material.
entendida enquanto um sistema de relações, uma vez Por sua vez, os estudos de estilo tecnológico vinculam-
que cada técnica, arbitrariamente definida, é locus de se a esta vertente teórica, pois compreendem o
múltiplas interações e de constantes ajustes entre os fenômeno estilístico como algo inerente e subjacente
elementos, pois sem a ação que o anima e o aos processos de produção dos quais resultam os aspectos
conhecimento de seus efeitos, o artefato não é nada. visuais relacionados à forma final dos artefatos. Destaca-
Em uma dada sociedade, as técnicas interagem ao se que o estilo não é um fenômeno unidimensional,
compartilhar os mesmos recursos, conhecimento, integrando várias concepções e, ao mesmo tempo,
sítios e atores. Assim, o uso em algumas tecnologias apresentando uma multi-funcionalidade em diferentes
dos produtos de outras, bem como a existência de contextos sócio-culturais (DIAS; SILVA, 2001, p. 96).
seqüências operacionais ou princípios técnicos em No entanto, as diferentes perspectivas analíticas sobre o
comum, criam múltiplas relações de interdependência conceito de estilo tecnológico compartilham alguns
entre as diferentes técnicas, conferindo a estas um princípios básicos: o estilo tecnológico refere-se a um
caráter sistêmico. A representação cultural das técnicas determinado modo de fazer algo ou alguma coisa; este
e sua classificação por um dado grupo contribuem modo de fazer implica em escolhas dentre possibilidades
para firmar seu caráter sistêmico e ao mesmo tempo alternativas; e é próprio de um determinado tempo e
reafirmar as identidades culturais nele representadas. lugar (HEGMON, 1992).

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Para Sackett (1986, p. 630), a noção de estilo se em escalas de análise micro-regionais (STARK,
tecnológico é uma qualidade latente e inerente a 1998; DIETLE; HERBICH, 1998, DOBRES;
qualquer variação artefatual na medida em que a HOFFMAN, 1994, 1996; WIESSNER, 1989).
forma é constituída de escolhas feitas pelo artesão,
Partindo da reflexão teórica sobre o conceito de estilo
conscientemente ou não, de um amplo espectro à
tecnológico, pode-se sugerir que a variabilidade
sua disposição. Estas escolhas tecnológicas são ditadas
artefatual associada a distintos contextos de uma dada
pela tradição na qual o artesão foi enculturado como
área resulta de escolhas tecnológicas que são
membro de um grupo social, traduzindo-se em
culturalmente determinadas. Os estilos tecnológicos
noções de design peculiares a certos lugares e
estão representados nestas escolhas, que se refletem
tempos, diagnósticos de etnicidade. Portanto, estilo
na seleção das matérias primas, nas técnicas e
e função são aspectos complementares que
seqüências de produção escolhidas e nos resultados
determinam a morfologia dos artefatos e as
materiais destas escolhas, representados pelas
características das cadeias operatórias que lhes dão
diferentes categorias de artefatos produzidos. O estilo
origem. O aspecto funcional de um artefato reside
tecnológico pode ser entendido como produto de
na maneira como a sua forma serve a um
uma tradição cultural e seu estudo, relacionado a
determinado fim e o aspecto estilístico reside na
outros aspectos de ordem contextual, pode servir
variante étnica ou escolha isocréstica em que esta
como indicador de identidades sociais representadas
forma surge, ou seja, nas escolhas tecnológicas
no registro arqueológico. Contudo, esta percepção
(SACKETT, 1977, p. 75). Para o autor, padrões de
demanda um suporte contextual de análise na medida
variabilidade tecnológica, derivados de variações
em que um estilo tecnológico só adquire sentido
étnicas, também se refletiriam em diferenças quanto
quando compreendido como parte de um sistema
às formas de exploração dos recursos, às
tecnológico e este, por sua vez, de um sistema
características estruturais dos sistemas de
cultural mais amplo (DIAS; SILVA, 2001, p. 101).
assentamento e à maneira como os artefatos são
descartados nos sítios (1986, 1993). Portanto, o debate sobre a validade dos conceitos
de tradição e fase na arqueologia brasileira pode ser
A principal crítica ao modelo de Sackett centra-
redimensionado a partir das perspectivas teóricas
se na relação entre estilo tecnológico e
acima expostas. Foi a partir deste tipo de reflexão
etnicidade, categoria conceitual discutível quando
que lançamos um novo olhar sobre as coleções líticas
aplicada à interpretação do registro arqueológico
do sul do Brasil relacionadas à ocupação pré-colonial
(HEGMON, 1998; JONES, 1997). Porém,
do alto vale do rio dos Sinos, região nordeste do
estudos etnoarqueológicos executados nas últimas
Rio Grande do Sul.
décadas demonstram que tecnologia, função e
estilo são aspectos inter-relacionados do Refletindo sobre fronteiras e identidades
comportamento, sinalizando fronteiras sociais e
sociais no registro arqueológico: as tradições
afiliação cultural que podem ser reconhecidas na
líticas da região nordeste do Rio Grande
cultura material. Contudo, a natureza destes
fenômenos é altamente contextualizada em do Sul
termos históricos, podendo relacionar-se a No decorrer das atividades do PRONAPA, os sítios
interesses interpessoais (relativos às categorias de líticos identificados na região sul do Brasil foram
idade ou gênero) ou intergrupais (na mediação classificados em 42 fases arqueológicas em função
de relações entre grupos vizinhos), devendo os de distinções nos padrões de implantação regional,
estudos arqueológicos sobre o tema centrarem- cronologia e características morfológicas dos

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conjuntos de artefatos. Tomando por base estes permitissem a compreensão de possíveis distinções
trabalhos, no final da década de 1970 as Tradições no comportamento das fases e tradições ao longo
Umbu e Humaitá foram formalmente definidas da do tempo e do espaço. Tentando suprir esta
seguinte forma: deficiência, na década de 1990, vários pesquisadores
dedicaram-se ao estudo tecno-tipológico de
Duas tradições líticas gerais têm sido reconhecidas
no sul do Brasil, uma com pontas de projétil líticas e coleções das tradições Umbu e Humaitá a fim de
outra onde estas estão ausentes. Esta última avaliar as permanências e descontinuidades sofridas
designada tradição Humaitá é representada por por estas indústrias líticas (HILBERT, 1994; DIAS,
inúmeros sítios em locais florestais, ao longo de 1999; DIAS E HOELTZ, 1997; HOELTZ, 1997).
rios, lagos e banhados. [...] As datas mais antigas
estão associadas [...] [a um] tipo de artefato mais Refletindo sobre os resultados destas pesquisas, Dias
característico: um biface bumerangóide. Choppers e Silva (2001) destacam que, se por um lado as
alongados unifaciais ou bifaciais, com secção
indústrias líticas da tradição Umbu apresentam uma
transversal circular e triangular; raspadores plano
convexos e facas sobre lascas são também típicos. extrema homogeneidade, a diversidade dos
[...] As pontas de projétil líticas são antigas na América conjuntos relacionados à tradição Humaitá poderia
do Sul e persistem no sul do Brasil depois de 5000 ser melhor entendida se observada em relação aos
a.C., na tradição Umbu. [...] Entre a variedade de contextos regionais de distribuição dos sítios. Como
pontas apedunculadas e pedunculadas, há algumas
com margens serrilhadas e outras com retoque
os trabalhos originais do PRONAPA já apontavam,
unifacial. A forma mais comum é triangular estes sítios líticos estão associados a áreas
alongada, com pedúnculos de lados paralelos ou tradicionalmente ocupadas por horticultores
expandidos e com base reta, côncava ou convexa. relacionados às tradições Taquara e Guarani,
Trituradores e pequenas bigornas líticas com
podendo, portanto, serem integrados aos sistemas
concavidade central são típicos, assim como
choppers, raspadores terminais e lascas com de assentamento destes grupos ceramistas. Tal
marcas de uso. Freqüentemente, estão também hipótese torna-se pertinente se for considerada a
associados bolas [boleadeiras], machados polidos definição da tradição Humaitá associada a duas pré-
e semi-polidos e afiadores líticos (MEGGERS; concepções derivadas do enfoque histórico-cultural,
EVANS, 1977, p. 548-551).
sendo a primeira a que todos os conjuntos líticos de
Ao longo dos anos de 1980, as primeiras sínteses um mesmo grupo devem ser homogêneos e,
produzidas para a arqueologia sul brasileira voltaram- portanto, distinções entre conjuntos líticos
se ao estabelecimento da relação espaço-temporal pressupõem grupos culturalmente distintos; e a
entre as fases das tradições Umbu e Humaitá em segunda que todo sítio lítico é necessariamente
sua inserção no quadro geográfico-ambiental, relacionado a um grupo caçador coletor. A
assumindo-se que os contextos arqueológicos premência destas pré-concepções, associada à
descritos representariam organizações sociais de ausência de escavações contextualizadas e de estudos
caçadores coletores (SCHMITZ, 1981, 1984, tecno-tipológicos centrados na interpretação da
1985; RIBEIRO, 1979; KERN, 1981, 1983, 1991). variabilidade lítica, contribuíram, ao longo dos anos,
Destaca-se que as indústrias líticas receberam um para transformar a tradição Humaitá em um
tratamento superficial em tais sínteses em depositário de conjuntos líticos, muitas vezes díspares
decorrência da escassez de dados descritivos ou entre si.
quantitativos presentes nas publicações originais. Buscando refletir sobre esta problemática e tomando
Assim, as limitações metodológicas das análises o conceito de estilo tecnológico como referência
iniciais, centradas na morfologia das peças, teórica para interpretar a variabilidade das indústrias
dificultaram o estabelecimento de parâmetros que líticas do sul do Brasil, estruturamos uma proposta

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de estudo para uma região de 216 km2, que abrange ocupação da área (estimado entre 4.000 e 1.000
o alto vale do rio dos Sinos, região nordeste do anos AP), caracterizado pela presença de pontas
estado do Rio Grande do Sul. O objetivo principal de projétil de corpo triangular e base de pedúnculo
desta pesquisa foi testar a hipótese de que as cadeias bifurcado, apresentando, em alguns casos, bordas
operatórias relacionadas à produção de diferentes serrilhadas. É com base nos estudos realizados por
categorias de artefatos, associadas aos sítios Miller (1976, 1974) para esta região que a tradição
arqueológicos de uma determinada área, manifestam Umbu foi definida.
significado cultural em termos de identidades sociais.
As demais fases pré-cerâmicas da região nordeste
Desta forma, a comparação da organização
do Rio Grande do Sul relacionadas à tradição
tecnológica das indústrias líticas de diferentes sítios
Humaitá foram caracterizadas de forma mais
de uma mesma região permitiria avaliar se a
genérica. A fase Camboatá estaria representada por
variabilidade presente nestes conjuntos representa
centenas de sítios a céu aberto caracterizados pela
variações regionais, temporais e/ou funcionais de
presença de artefatos lascados e polidos, estando
uma mesma tradição tecnológica.
ausentes as pontas de projétil. Estes sítios estariam
A seleção desta região para estudo justificou-se tendo implantados na encosta e no planalto, em altitudes
em vista o potencial que apresentava para entre 400 e 1.000 m, sendo os artefatos
investigações sobre o tema, evidenciado pelas caracterizados por diferentes tipos de talhadores
pesquisas do PRONAPA nos vales dos rios dos Sinos bifaciais lascados a partir de núcleos de basalto, lascas,
e Maquiné e na zona lagunar litorânea. Entre 1965 percutores, polidores de arenito e raros machados
e 1970, Eurico T. Miller (1967, 1974) identificou polidos. Embora estes sítios não apresentem
nesta região 484 sítios arqueológicos, sendo os sítios datações, de acordo com Miller (1967, p. 19), a
líticos classificados em cinco fases pré-cerâmicas (fases fase Humaitá seria mais antiga que a fase Camboatá
Humaitá, Camboatá, Camuri, Umbu e Itapuí) e os e estaria
demais classificados em quatro fases cerâmicas (fases
representada por apenas dois sítios, [sendo]
Maquiné e Paranhana, ambas relacionadas à tradição caracterizada por artefatos líticos lascados por
Guarani; fase Taquara, primeira definida para a percussão e confeccionados a partir de lascões
tradição homônima; e fase Monjolo, relacionada à destacados de grandes blocos de basalto,
cerâmica colonial). conservando grandes porções da crosta natural. A
única evidência que temos até o momento, para
Do conjunto de fases pré-cerâmicas para esta comparação relativa de antiguidade, é o
região, as fases Camuri, Umbu e Itapuí apresentam adiantadíssimo estado de oxidação dos implementos
aí existentes. Os sítios localizam-se a 700 metros de
pontas de projétil, diferenciando-se pelo tipo de
altitude, nos patamares arredondados da encosta
sítio arqueológico e pela morfologia desta categoria do planalto, próximos a sangas e junto a grandes
de artefato. A fase Camuri caracteriza sítios a céu blocos de basalto. (...) Os talhadores (choppers),
aberto, enquanto as fases Umbu e Itapuí lascões discóides unifaciais grandes, representam mais
predominam em sítios em abrigo sob rocha. Por de 50% dos artefatos. Encontram-se ainda: biface,
talhador unifacial alongado, talhador unifacial com
sua vez, através de seriações de pontas de projétil, ponta e fio, talhador com talão e numerosíssimas
foi definido que a fase Umbu seria a mais antiga lascas de grandes proporções (1967, p. 18).
(com estimativas cronológicas entre 6.000 e 4.000
anos AP), predominando em seus conjuntos pontas A tradição Humaitá foi, portanto, definida com base
de projétil pedunculadas de corpo triangular e na suposta antiguidade de sua fase homônima, sendo
pontas de projétil lanceoladas. A fase Itapuí seu conteúdo cultural representado por conjuntos
corresponderia a um período mais recente de artefatuais caracterizados por alta variabilidade.

67
Novas perguntas para um velho problema: escolhas tecnológicas...

As prospecções realizadas entre 1999 e 2001, no Os sítios líticos de caçadores coletores


alto vale do rio dos Sinos, identificaram 61 sítios Para a definição do estilo tecnológico relacionado
arqueológicos, dos quais 23 apresentavam aos sítios de caçadores coletores, estudamos, de
unicamente artefatos líticos. Destes, 15 estavam forma comparativa, as coleções líticas de sete sítios
associados à tradição Umbu e 8 possuíam conjuntos arqueológicos da área, escavados durante o
artefatuais característicos da tradição Humaitá, PRONAPA, situados no vale do arroio Campestre
representados por artefatos bifaciais de grande porte.
(sítios RS-S-358: Toca Grande e RS-S-359:
Estes últimos, no entanto, também apresentavam
Aterrado) e na várzea do rio dos Sinos (sítios RS-
correlação contextual com 14 sítios lito-cerâmicos
S-265: Campestre, RS-S-327: Sangão, RS-S-337:
identificados na área, dos quais 13 associavam-se à
Monjolo, RS-S-360: Marimbondo e RS-S-361:
cerâmica da tradição Guarani e um à cerâmica da
Mato da Toca). As coleções totalizaram um
tradição Taquara. Deste conjunto de sítios, três foram
conjunto de 21.491 peças, analisadas de forma
selecionados para escavações com o objetivo de
comparativa quanto à escolha das matérias primas,
estabelecer uma cronologia para esta ocupação.
Nestes sítios, em abrigo sob rocha, foram realizadas à organização geral da tecnologia e à composição
12 datações radiocarbônicas, que indicam uma artefatual dos conjuntos de acordo com as
ocupação contínua relacionada à tradição Umbu para propostas metodológicas de Dias e Hoeltz (1997).
esta área entre 8.800 e 440 anos AP. Sondagens
a) Escolha das matérias primas
realizadas em um dos sítios da tradição Guarani
permitiram a obtenção de amostras cerâmicas As matérias primas identificadas nos sítios da tradição
datadas por termoluminescência, com resultados de Umbu são de origem local. A seleção do basalto
205 e 165 anos AP. Os sítios da tradição Taquara está relacionada à coleta junto aos cursos de águas
não apresentaram amostras passíveis de datação, de seixos e fragmentos de basalto colunar trazidos
porém as atividades do PRONAPA no vale do rio por arraste fluvial das encostas. Nos sítios próximos
dos Sinos forneceram uma datação para contextos à várzea do rio dos Sinos, observa-se a utilização
similares de 1.665 anos AP. preferencial desta matéria prima, que corresponde
entre 97 e 61% do conjunto dos resíduos de
Destaca-se, ainda, que estes sítios líticos também
lascamento, com índices de utilização entre 36 e
apresentaram distinções quanto ao padrão de
27% nos sítios do vale do arroio Campestre. A
implantação no espaço regional. Os sítios líticos
utilização do arenito silicificado varia entre 5 e 32%,
associados ao sistema de assentamento da tradição
estando sua procedência relacionada à exploração
Umbu estão representados, em sua maioria, por
ocupações em abrigos sob rocha, relacionados aos de afloramentos. A calcedônia ocorre na área na
morros testemunhos junto à várzea do rio dos forma de geodos associados ao arraste fluvial das
Sinos e ao vale do arroio Campestre. Por sua vez, encostas e o quartzo está associado à exploração
os sítios arqueológicos da tradição Taquara situam- preferencial de afloramentos. A utilização da
se junto às nascentes de afluentes do rio dos Sinos, calcedônia é preferencial nos sítios RS-S-358 e RS-
em topografia acentuada e altitudes entre 100 e S-359, localizados no vale do arroio Campestre,
400 m. Os sítios líticos correlacionados à tradição correspondendo a 50% das matérias primas
Guarani estão localizados junto à várzea do rio empregadas. Quanto ao quartzo, sua utilização situa-
dos Sinos e seus afluentes de maior porte, em se entre 9 e 1% para a amostragem analisada, sendo
áreas de meia encosta com altitudes, em geral, mais freqüente nos sítios do vale do arroio
abaixo de 100 m. Campestre.

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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 2, n. 1, p. 59-76, jan-abr. 2007

b) Organização geral da tecnologia analisados, com índices entre 2,07 e 0,12%; e os


Quanto à organização da tecnologia, os sítios RS-S- fragmentos de lascas sem as terminações proximais e
358 e RS-S-359 são os que apresentam vestígios os fragmentos de núcleos apresentam uma
de lascamento bipolar em termos elevados, participação relativa similar entre os sítios analisados,
correspondendo a 32,04 e 25,97% da composição variando entre 46 e 17,03%.
geral do conjunto lítico. Nos demais sítios, os resíduos
de bipolaridade variam entre 4,36% e 0,45% da c) Composição artefatual
composição geral da indústria e relacionam-se ao Quanto aos conjuntos artefatuais associados aos sítios
processamento da calcedônia e do quartzo. da tradição Umbu, estes representam 13% da
amostra para os sítios do vale do arroio Campestre,
Uma situação inversa é observada quanto à participação
enquanto os demais apresentaram uma composição
relativa das lascas unipolares nos conjuntos analisados,
que varia entre 1 a 5%. A distribuição dos tipos de
associadas à redução das matérias primas basalto e
artefatos, por sua vez, apresenta igualmente variações
arenito silicificado. Os menores índices estão
entre os sítios. Para os sítios do vale do arroio
associados aos sítios do vale do arroio Campestre,
Campestre, as peças bifaciais representam entre 98
que apresentam entre 20,90 e 16,22% de suas
e 95% dos conjuntos de artefatos. Sua representação
coleções compostas por esta categoria de resíduos.
nos sítios da várzea dos Sinos, no entanto, é mais
Nos sítios associados ao vale do rio dos Sinos as lascas
variada, atingindo entre 89 e 51% dos conjuntos
unipolares distribuem-se entre 33,18 e 18,97% da
dos sítios RS-S-265, RS-S-360 e RS-S-327. Nos
composição geral das indústrias.
dois sítios restantes (RS-S-361 e RS-S-337)
As lascas que apresentavam dimensões inferiores a 1 predominam os artefatos polidos e brutos em relação
cm foram incorporadas à categoria de microlascas, à participação relativa de artefatos bifaciais.
cuja origem tecnológica pode ser variada. Sua
As pontas de projétil representam entre 57 e 41%
participação nas coleções variou entre 0,65 e
22,65%. Quanto às lascas unipolares maiores de 1 dos artefatos bifaciais dos sítios do vale do arroio
cm, a análise qualitativa dos conjuntos associados aos Campestre, estando presentes também em suas
sítios RS-S-237, RS-S-337 e RS-S-360 indicou um coleções pré-formas de pontas de projétil (27 a
predomínio de lascas relacionadas à redução de peças 25%) e os fragmentos de peças bifaciais (23 a 11%).
bifaciais, com dimensões entre 1 a 2,5 cm de Dentre os sítios da várzea do rio dos Sinos, observa-
comprimento, representando entre 74,17 e 70,54% se um predomínio dos fragmentos de artefatos
das amostras analisadas, sendo pouco representativas bifaciais, entre 42 e 50% dos conjuntos, destacando-
as lascas relacionadas à preparação de núcleos. Esta se, em um segundo plano, a presença de pontas de
observação é confirmada pela baixa presença de projétil. As pontas de projétil lanceoladas estão
núcleos unipolares e bipolares na amostra analisada, majoritariamente representadas nos conjuntos
com índices em geral entre 0,71 e 0,10%. A ausência artefatuais dos sítios RS-S-359 e RS-S-358,
de estratégias de preparação de núcleos apresenta, produzidas a partir do retoque periférico de lascas
por sua vez, relação com a presença de fragmentos bipolares de calcedônia. Por sua vez, a unipolaridade
naturais em todos os sítios estudados, indicando se relaciona com a produção das demais categorias
estratégias de coleta e estocagem de matérias primas. de artefatos bifaciais para todos os sítios estudados,
A participação relativa desta categoria para as coleções estando associada à produção de bifaces sobre lascas,
estudadas varia entre 3,77 e 34,72% dos conjuntos. pré-formas e pontas de projétil pedunculadas,
A participação relativa de lascas unipolares ou bipolares elaboradas preferencialmente em basalto e arenito
com retoque é pequena para todos os conjuntos silicificado. As pontas pedunculadas diferenciam-se

69
Novas perguntas para um velho problema: escolhas tecnológicas...

por apresentar bases de pedúnculos retos ou Estes sítios representam áreas de atividade específica
bifurcados, possuindo, em alguns casos, corpos com neste sistema de assentamento, voltadas à produção
bordas serrilhadas. Contudo, contrariamente às de artefatos, em função da maior disponibilidade de
expectativas dos modelos de evolução cronológica matérias primas em seus locais de implantação.
das pontas de projétil no nordeste do Rio Grande
do Sul, representadas pelas fases Umbu e Itapuí Os sítios líticos de horticultores
(MILLER, 1974), a variabilidade morfológica de As características tecnológicas das indústrias líticas da
pontas não apresenta evidências de variação tradição Guarani foram definidas a partir da análise
cronológica de acordo com sua distribuição de um conjunto de 200 peças líticas associadas a 24
estratigráfica em correlação com as datações sítios arqueológicos localizados na área estudada. A
radiocarbônicas obtidas. Por outro lado, a maior maior parte da coleção provém de coletas de
incidência de pontas lanceoladas nos sítios RS-S-358 superfície realizadas pelo PRONAPA nos sítios RS-
e RS-S-359 pode ser explicada em função da sua S-287: Passo da Forquilha 2 (34%) e RS-S-289:
produção a partir de lascas bipolares retocadas, o Mont Serrat 1 (30,6%). Por sua vez, os conjuntos
que influenciaria uma maior propensão ao descarte. líticos da tradição Taquara totalizam 112 peças
As pontas pedunculadas sofreram um maior índice relacionadas a quatro sítios arqueológicos
de reativação a fim de ampliar sua média de uso, identificados nos trabalhos de campo entre 2000 e
justificando a variabilidade de formas observadas e o 2001. A maioria do material lítico provém dos sítios
menor índice de descarte. RS-S-429: Furna 1 (55,35%) e RS-S-431: Furna 3
As escavações e datações dos sítios RS-S-360, RS- (36,6%), cuja análise prévia indicou também grande
S-327 e RS-S-337 indicaram que não há variações similaridade na composição das coleções. Para a
temporais significativas na organização da tecnologia definição do estilo tecnológico relativo a estas
e nas características funcionais dos sítios associados coleções, a análise do material lítico seguiu os
ao sistema de assentamento da tradição Umbu na mesmos critérios metodológicos aplicados ao estudo
região do alto vale do rio dos Sinos. Independente dos conjuntos líticos da tradição Umbu.
das datações obtidas, a distribuição estratigráfica do Sugere-se que os sítios líticos associados à tradição
material lítico nestes sítios é caracterizada por Taquara na área estudada representam parte de
padrões recorrentes de descarte primário, um sistema de assentamento mais amplo que se
associados à periferia de estruturas de fogueiras. Por estende para o norte, abrangendo as terras mais
sua vez, as características dos conjuntos líticos em altas do planalto sul-brasileiro e, para o leste,
sua relação com os vestígios arqueofaunísticos explorando os recursos das lagoas litorâneas. Este
indicam áreas de atividades domésticas associadas à modelo de domínio vertical prevê a exploração
preparação, à distribuição e ao consumo de diferencial destes três pacotes ambientais de forma
alimentos, bem como com a produção e sazonal, a fim de garantir a subsistência ao longo
manutenção de artefatos bifaciais de pequeno porte. do ciclo anual. O sistema de cultivo, nas áreas de
Portanto, os sítios líticos da tradição Umbu da região encosta, seria suplementado por estratégias de
estudada correspondem às unidades domésticas de estocagem de alimentos obtidos através da caça e
um mesmo sistema de assentamento, ativo na região coleta nas florestas de araucária do planalto e da
por 8.000 anos. Porém, a variabilidade nas indústrias pesca e coleta de moluscos no litoral. A
líticas, observada através de estudos comparativos, estabilidade econômica proporcionada por estas
indica uma maior intensidade de produção de pontas estratégias, por sua vez, teria como conseqüência
de projétil nos sítios do vale do arroio Campestre. uma alta mobilidade residencial, gerando uma

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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 2, n. 1, p. 59-76, jan-abr. 2007

variabilidade de tipos de sítios habitacionais conjunto analisado, predominando os blocos de


relacionados às características ambientais das distintas afloramentos de basalto (65,5%), aos quais todos
áreas (SCHMITZ; BECKER, 1991). os sítios da tradição Taquara estão associados. Os
seixos (14,75%) e placas (9,83%) de basalto,
O sistema de assentamento Guarani na área
originários de arraste fluvial, também estão
estudada, interpretado a partir das propostas de
representados nesta amostra, bem como cristais de
Noelli (1993, p. 266), representaria conjuntos de
quartzo (9,83%).
aldeias relacionadas à ocupação de longa duração
de única área de domínio (tekohá). De acordo com
b) Organização geral da tecnologia
as fontes históricas do século XVI, os tekohá Guarani
comportariam uma relação complementar entre três Nos conjuntos líticos da tradição Guarani
espaços distintos: a aldeia (amundá), as roças (cog) e predominam os artefatos unifaciais e bifaciais, que
a vegetação circundante (caa). As roças iniciam-se correspondem a 42% da amostra analisada. Quanto
fora do perímetro das aldeias, localizando-se a aos resíduos de lascamento, predominam as lascas
diferentes distâncias, de acordo com a sua unipolares (28%) e os núcleos unipolares (8%),
antiguidade. Além das roças, inicia-se o espaço das sendo raros os fragmentos de lascamento (3%) e
matas, no qual se situam as áreas de pesca, coleta e núcleos bipolares (1%). O restante da amostra é
caça e as jazidas litológicas e de argila. Nestas formado por fragmentos naturais (16%). As
também estão presentes outras áreas de manejo que indústrias líticas da tradição Taquara apresentam uma
podem refletir antigas ocupações ou a preparação composição diferenciada, na qual se destaca a
para futuros assentamentos, levando a crer que o participação relativa dos resíduos de lascamento.
raio de ação do ambiente humanizado pelos Guarani Há a predominância da presença de lascas
estendia-se por muitos quilômetros a partir da sede unipolares (47%), núcleos unipolares (21%) e
do tekohá. fragmentos de lascamento (11%), havendo também,
em baixa proporção, lascas bipolares (3%). Os
a) Escolha das matérias primas artefatos bifaciais correspondem a 8% do conjunto
analisado, com a presença de artefatos brutos, na
Quanto à obtenção de matérias primas relacionadas
forma de percutores (2%), e de artefatos polidos,
às indústrias líticas da tradição Guarani, 93,4% das
representados por fragmentos de mãos de pilão
peças foram confeccionadas em basalto e o restante
(2%). O restante das coleções é composto por
está representado pelo arenito silicificado (5%), a
fragmentos naturais (6%).
calcedônia (1%) e o quartzo (0,5%). Em 81% do
conjunto das peças analisadas foi possível identificar A análise qualitativa dos núcleos e lascas unipolares
que a origem da matéria prima relaciona-se a seixos apontou para uma diferenciação significativa em
de arraste fluvial (65,43%). O restante do conjunto termos de estilo tecnológico entre as indústrias das
tem sua origem relacionada a placas de basalto tradições Taquara e Guarani. Nos conjuntos líticos
colunar (12,34%) e a blocos de afloramento da tradição Guarani prevalecem os núcleos
associados, em alguns casos, ao próprio unipolares que apresentam duas plataformas
assentamento (22,2%). Nas indústrias líticas dos bidirecionais opostas (47%) e os com duas
sítios da tradição Taquara, o basalto também é a plataformas em ângulo (33%), sendo menos
matéria prima mais utilizada (93,7%) e o restante freqüentes os núcleos unipolares com uma
do conjunto lítico está representado pelo quartzo plataforma definida (13%) ou com três a quatro
(5,3%) e pela calcedônia (1%). Foi possível identificar plataformas em várias posições (7%). Nos conjuntos
a procedência da matéria prima para 54% do líticos da tradição Taquara, sobressaem-se os núcleos

71
Novas perguntas para um velho problema: escolhas tecnológicas...

com uma plataforma ventral (39%), que utilizam a ‘fósseis guia’ da tradição Humaitá. Nos conjuntos
face ventral de uma lasca espessa e de grande porte de artefatos da tradição Guarani, os bifaces com
como plataforma de percussão, seguidos por núcleos redução primária em apenas uma extremidade
com duas plataformas em ângulo (33%). Neste (40%) ou atingindo até metade da peça (23%)
conjunto estão também presentes, em proporções compõem o maior número de exemplares, mas
relativamente menores, núcleos unipolares com duas também é significativa a participação relativa das peças
plataformas bidirecionais opostas (13%), com três unifaciais com redução primária em apenas uma das
a quatro plataformas em várias posições, geralmente extremidades (19%) e dos artefatos com redução
formando ângulos entre si (13%), e com apenas bifacial em todo o contorno da peça, formando gume
uma plataforma definida (9%). periférico (12%). O restante da amostra é composto
por bifaces elaborados sobre lascas unipolares (5%),
No que se refere aos tipos de plataforma de
com poucos artefatos com redução primária bifacial
percussão dos núcleos unipolares, as mais freqüentes
nas indústrias líticas da tradição Guarani são corticais em ambas extremidades (1%). Para os conjuntos
(60%) ou lisas (20%), indicando a seleção de de artefatos bifaciais da tradição Taquara, prevalecem
suportes de lascamento, sejam estes blocos de os bifaces com redução primária em ambas
afloramento ou seixos, que já apresentavam planos extremidades (34%) ou em todo o contorno da
de percussão naturais. Nas indústrias líticas da peça (33%), formando um gume periférico. O
tradição Taquara, o predomínio de núcleos restante da amostra é representado por artefatos
unipolares com uma plataforma ventral relaciona- que possuem redução primária em uma
se à maior freqüência de plataformas de percussão extremidade, formando um gume que se estende
acorticais lisas (56,6%), sendo mais raros os que até metade da peça (22%) ou artefatos que possuem
apresentam plataformas unicamente corticais (4,3%). redução primária bifacial em apenas uma
extremidade (11%).
A maioria das lascas unipolares associadas aos sítios
Guarani é do tipo cortical (44,6%) e o restante Como a maior parte do conjunto lítico da tradição
representado por lascas de redução de núcleos Guarani está associada a dois sítios arqueológicos,
(39,28%) e lascas de redução de biface (8,9%). As sugere-se que estes correspondem aos principais
lascas corticais dos conjuntos líticos da tradição locais de extração e preparação inicial de artefatos
Taquara representam 28,3% da amostra, 56,6% líticos do tekohá do alto vale do rio dos Sinos. Estes
está representado por lascas de redução de núcleos sítios representariam áreas de atividade específicas
e 3,7% são lascas de redução de bifaces. As lascas neste sistema de assentamento, voltadas à extração
unipolares modificadas correspondem a 7,14% da de matérias primas e à produção de artefatos bifaciais
amostra para a tradição Guarani e a 11,32% da de grande porte, utilizados na construção das
amostra para a tradição Taquara. estruturas habitacionais da aldeia, na confecção de
canoas e nas atividades agrícolas e de manejo
c) Composição artefatual agroflorestal (DIAS e NOELLI, 1995). A produção
inicial dos artefatos ocorreria nestes sítios de atividade
Os conjuntos de artefatos bifaciais e unifaciais
específica e as peças acabadas seriam transportadas
correspondem a 40,5% da indústria lítica da tradição
para as sedes de aldeias ou para os locais de roças,
Guarani e a 8% da amostra relativa à tradição
justificando os sítios lito-cerâmicos e líticos com baixa
Taquara, não havendo evidências de redução
densidade de material localizados nas prospecções.
secundária (retoque) em nenhuma das peças.
Predominam, em ambos, os casos de artefatos de Os seixos de morfologia alongada foram
grande porte, que poderiam ser classificados como selecionados como suporte preferencial para a

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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 2, n. 1, p. 59-76, jan-abr. 2007

produção de artefatos unifaciais e bifaciais, podendo estes artefatos serem utilizados em distintas
apresentando maior freqüência nas coleções as atividades nas áreas de cultivo. Destaca-se ainda que,
categorias relacionadas às primeiras etapas da cadeia de acordo com a definição formal do PRONAPA,
operatória, que seriam descartados em maior estes conjuntos líticos da tradição Taquara se
freqüência junto aos locais de produção de artefatos enquadrariam na definição original da fase Humaitá
(tradicionalmente definidos como choppers e realizada por Miller (1967).
chopping tools). As características deste conjunto
artefatual indicam que as faces planas originais do
seixo selecionado para a produção do artefato
CONSIDERAÇÕES FINAIS
serviram como plataforma inicial para o lascamento. O estudo de caso do alto vale do rio dos Sinos
O lascamento primário inicia-se, em geral, por duas permite concluir que as distinções tecnológicas
retiradas em uma das faces da peça, para teste da observadas sinalizam fronteiras territoriais entre os
matéria prima, centrando-se em apenas uma das distintos grupos que ocuparam a região. Os resultados
suas extremidades. Esta etapa de produção gera um das pesquisas arqueológicas desenvolvidas ao longo
gume funcional, podendo o artefato ser utilizado, dos últimos 40 anos na região nordeste do estado
abandonado em função da presença de sugerem a contemporaneidade entre estes distintos
irregularidades na matéria prima ou sofrer de dois a sistemas de assentamento que compartilharam o vale
três lascamentos na face oposta, produzindo um do rio dos Sinos. As datações disponíveis para os
gume bifacial, com terminação em ponta. vales dos rios dos Sinos e Caí indicam que as
Intensificando-se a redução primária em uma das primeiras ocupações da tradição Taquara iniciam-se
faces do artefato, pode-se ampliar o gume bifacial em torno de 1.500 anos AP, havendo uma
até a metade da peça ou optar-se por estender a intensificação da ocupação Guarani na área a partir
redução primária por todo o contorno, formando de 500 anos atrás (NOELLI, 1999/2000). Embora
um gume periférico. Por fim, constata-se que os os assentamentos Guarani preferencialmente
tipos formais de artefatos destas coleções líticas da ocupem áreas de menor altitude, próximas ao
tradição Guarani correspondem à definição original curso de rios de maior porte, sua noção defensiva
da fase Camboatá da tradição Humaitá definida por de território certamente limitou a circulação das
Miller (1967). populações de caçadores coletores da tradição
Por sua vez, os sítios líticos da tradição Taquara do Umbu e de horticultores da tradição Taquara pelos
alto vale do rio dos Sinos correspondem às áreas de diferentes ambientes explorados tradicionalmente
atividade específica neste sistema de assentamento ao longo do ciclo sazonal. Embora haja evidências
relacionadas à extração de matérias primas e à arqueológicas de contato entre estes distintos
redução de núcleos junto aos afloramentos de grupos, as formas bélicas de conquista e manutenção
basalto. Estes núcleos seriam transportados para as dos territórios de domínio desenvolvidas pelos
sedes das aldeias e utilizados como suporte para a Guarani sugerem que conflitos e disputas com os
extração de lascas empregadas em distintas atividades caçadores coletores e outras populações horticultoras
domésticas. Os bifaces, por sua vez, são pouco marcaram a tônica do tipo de relação predominante
representativos nas amostras estudadas e elaborados na região nordeste do estado.
sobre blocos de afloramento. A quantidade de córtex Embora os conceitos de tradição e fase correspondam
é significativa, havendo o investimento tecnológico a expedientes de classificação que diagnosticam
de formatação relacionado à elaboração de gume variabilidade entre conjuntos artefatuais, estes não
ativo bifacial, em uma ou ambas extremidades, permitem explicar como esta variabilidade se

73
Novas perguntas para um velho problema: escolhas tecnológicas...

relaciona a comportamentos culturais no passado. através de estudos de conjuntos líticos que obedeçam
Com base nos resultados das pesquisas realizadas a orientações teórico-metodológicas pertinentes à
no alto vale do rio dos Sinos, procuramos interpretação das escolhas tecnológicas identificadas.
demonstrar que a avaliação da procedência dos Por sua vez, estes dados devem necessariamente
conceitos de tradição e fase só pode ser feita a partir ser acompanhados de estudos de caráter regional,
de estudos específicos, de caráter regional, que baseados em cronologias consistentes, pois é
respeitem a contextualização espacial dos sítios em somente através deste tipo de estratégia que se
suas características internas e externas. Estes aspectos poderá construir um referencial empírico sólido que
contextuais, por sua vez, devem estar associados a dê suporte ao estudo de fronteiras e identidades
estudos de coleções que compreendam os artefatos sociais no registro arqueológico.
enquanto resultados de escolhas tecnológicas e,
portanto, produto de uma tradição cultural, que
sinalizam, em última instância, fronteiras e
AGRADECIMENTOS
identidades sociais no registro arqueológico. Este artigo sintetiza as conclusões da tese de
No caso específico da arqueologia do sul do Brasil, doutorado da autora, defendida em 2003 junto ao
o modelo interpretativo proposto para os conjuntos Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade
líticos do alto vale do rio dos Sinos indica uma clara de São Paulo, estando o texto integral disponível
distinção em termos de estilos tecnológicos entre para consulta em www.teses.usp.br. Gostaríamos
caçadores coletores, representados pela tradição de agradecer à CAPES e à FAPESP (processo nº
Umbu, e os diferentes grupos horticultores, 2000\07609-0) pelo apoio financeiro, a Paulo De
representados pelas tradições Taquara e Guarani. Blasis, que orientou esta pesquisa, e a André Jacobus
Para estes dois últimos casos, as distinções pela oportunidade de realizar os trabalhos de campo
tecnológicas identificadas nas cadeias produtivas da no âmbito do Projeto Arqueológico de Santo
cerâmica também encontram reflexos no sistema Antônio da Patrulha, por ele coordenado.
tecnológico relacionado aos conjuntos líticos. Estas Agradecemos também à equipe do Museu
diferenças, porém, não se refletem apenas na Arqueológico do Rio Grande do Sul, que permitiu
morfologia dos artefatos bifaciais de grande porte o acesso às coleções estudadas, à Sirlei Hoeltz pelo
(talhadores), tradicionalmente identificados como auxílionasanálisesefetuadasecomentárioscríticos,
‘fósseis guia’ da tradição Humaitá, mas estão a Lucas Bueno e aos pareceristas anônimos que
demarcadas por distinções claras nas cadeias contribuíram com suas sugestões para a versão final
operatórias aos quais estes estão relacionados, desteartigo.
indicando escolhas tecnológicas sinalizadoras de
identidades sociais distintas. REFERÊNCIAS
Com base nos resultados das pesquisas aqui CHMYZ, Igor. Terminologia arqueológica brasileira para a
analisados, questionamos em que medida os âmica
cerâmica
cerâmica. Curitiba: CEPA/ UFPR, 1966. 34 p. (Manuais de
conjuntos definidos como pertencentes à tradição Arqueologia, 1)..
Humaitá, no sul do Brasil, podem também CHMYZ, Igor. Terminologia arqueológica brasileira para a cerâmica.
2 ed. rev. e amp. Cadernos de Arqueologia
Arqueologia, Paranaguá: Museu
corresponder a uma realidade semelhante à de Arqueologia e Artes Populares, n. 1, p. 119-148, 1976.
apresentada pelo alto vale do rio dos Sinos. Para DIAS, Adriana Schmidt. Repensando a T radição Umbu através
Tradição
avaliar esta questão, um primeiro passo necessário de um estudo de caso. Dissertação (Mestrado). Porto Alegre;
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 1994.
é revisar de forma crítica o conhecimento produzido
até o presente e a validade dos conceitos utilizados

74
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Recebido: 05/07/2006
Aprovado: 03/04/2007

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