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INOVAÇÃO, COMUNICAÇÃO E O PENSAR EMPREENDEDOR - GRUPO DE JOVENS

ABBA1

Lucas Matsumura2
Gabriel Lyra Ribeiro3
Victor Finkler Lachowski4

RESUMO

O artigo buscou estudar e analisar o grupo de jovens da igreja Comunhão Cristã ABBA e suas
formas de comunicação para com outros jovens, membros da igreja ou não, e com a própria
religião. Através de uma pesquisa etnográfica, participando e sendo expostos aos encontros, ritos e
eventos, além de pesquisando referências quanto ao dialogo entre os jovens e as igrejas na
contemporaneidade. A partir de uma pesquisa sobre a perspectiva mercadológica e os valores,
morais e econômicos, que se refletem numa sociedade em constante aprimorando tecnológico e
comunicativo. Após esses estudos participativos, expositivos e analíticos, foi-se observado a
tendência dos jovens membros da ABBA um contínuo uso de celulares como forma de
comunicação para fins religiosos e pessoais, fortalecido e reforçado pela própria instituição. Outro
fenômeno registrado é a tendência empreendedora propagada pela igreja, ensinando sobre valores
econômicos liberais em cultos que utilizam técnicas didáticas advindas principalmente do coaching
moderno.

Palavras-chave: Jovens; ABBA; comunicação; empreendedorismo; coaching

1. INTRODUÇÃO

“A missão da Comunhão Cristã Abba é realizar um trabalho sob total dependência de Deus,
tendo como única regra de fé e prática a Bíblia Sagrada. Temos como visão salvar vidas e formar
líderes. Como igreja, o desejo é viver dia a dia a plenitude da vida cristã. Por meio de várias frentes
evangelísticas, a Abba busca todos que desejam ter um relacionamento vivo com Deus, na pessoa
do Senhor Jesus Cristo”. Esta é a descrição de “Quem Somos?” do site da Abba, Igreja de
Comunhão Cristã de Curitiba a qual pesquisamos através de métodos qualitativos e quantitativo o
grupo de jovens. O AbbaJovem responsável por reunir adolescentes e adultos semanalmente em um
contexto atual e atrativo, muito oposto ao conservadorismo natural de grande parte das igrejas.
Exemplo é o uso de smartphones dentro da igreja substituindo a bíblia de carne e osso.

O cristianismo adoptou uma linguagem estranha – o logos grego e mais tarde a


retórica; agora se tornou inevitável o encontro da religião com as tecnologias da
comunicação. A sociedade em que participamos é uma sociedade mediática e a vida da
mensagem cristã e a sua transmissão estão confrontadas com esta sociedade. O mundo dos
media é um dado de sociedade e de cultura. Nesta sociedade tudo pode ser inculturado, por
assimilação, deformação e cópia. O artificial está a substituir o natural. (MOURÃO, 2002,
p. 86)

1 Trabalho inscrito para o GT Comunicação e Consumo, do 10 oENPECOM.


2Graduando pela UFPR, lucas.matsumura@hotmail.com.
3Graduando pela UFPR, gabriel.lyra.r@hotmail.com.
4Graduando pela UFPR, victorlachowski@hotmail.com.

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O aparelho celular é utilizado para a leitura da palavra do encontro mediada pelo líder,
figura mais experiente da igreja responsável por tutorar o grupo de jovens que, aqui, são chamados
de liderados. Os liderados possuem um grupo de WhatsApp onde solicitam, entre si e os líderes,
orações em apoio de si ou dos que amam. Essa interação e cooperação é um dos pontos mais fortes
dos grupos. Percebe-se natural amizade entre os liderados que apresentam completa liberdade para
interagir, comunicar e se expressar sobre o que conquistaram ou afligiu durante a semana. Todo este
contexto é levado com muito bom humor e descontração, tal como um grupo de amigos de longa
data se reúne para jogar conversa fora e contar das mazelas e glórias da vida, e é este o grande plot
da Abba, não tratar a igreja como uma instituição puramente ritualística, metódica, séria e fechada
nos antigos escritos, mas compreender seu público-alvo e falar a sua língua.
Outro caráter amplamente adotado pela Abba é o perfil empreendedor. Logo em seu slogan
lemos “formar líderes”, responsável por resgatar a moral do jovem e impulsioná-la o mais alto
possível.

Uma ética ancorada na religião destina para o comportamento por ela suscitado prêmios
psicológicos (não de caráter econômico) bem específicos altamente eficazes enquanto a fé
religiosa permanecer viva [...]. Só na medida em que esses prêmios funcionam e, sobretudo,
quando agem (e o decisivo é isto) numa direção que se afasta bastante da doutrina dos
teólogos [...], consegue a fé religiosa uma influência autônoma sobre a conduta da vida e,
através dela, sobre a economia [..]. (WEBER, 2004, p. 178-179)

Como isso rege as relações do grupo? Como a igreja acaba os diferenciando e


padronizando? Quais seus hábitos e rituais? Estas e algumas outras dúvidas irão se explicitar no
decorrer deste paper.

2. A INFLUÊNCIA DA RELIGIÃO NA VIDA ROTINEIRA DOS JOVENS

Para o jovem, o campo da cultura é um espaço privilegiado na construção de identidades e


ao estudar o comportamento juvenil no âmbito do lazer (NOVAES, 2005) é possível afirmar que o
ato de ir à missa, igreja e culto ocupa uma posição privilegiada no lazer de jovens.
Apesar de entender que a religiosidade está ligada à essência da espiritualidade do
indivíduo, isto não nos obriga a sintetizar a complexidade das experiências culturais religiosas em
uma única moldura, no caso, de perceber que o ato religioso implica na disponibilidade e
organização do tempo do jovem na semana. O que implica muito mais a questão do próprio
significado e essência da religião, do que a frequência do indivíduo nos cultos.
Dessa forma, é interessante perceber que há elementos simbólicos que garantem um
processo de identificação diante das opções culturais oferecidas pela família, comunidade e religião
que nos conduzem a diferentes cenários do ponto de vista do comportamento desses jovens. Como
sugere HALL (1999), que “O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos,
identidades que não são unificadas ao redor de um eu coerente. Dentro de nós há identidades
contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identidades estão sendo
continuamente deslocadas” (p.13).
Apesar de o exemplo ter sido fruto de um contexto específico, a lição que fica é a da
possibilidade, mesmo dentro das religiões mais doutrinárias, de outros projetos de identidade a
serem construídos e tecidos em paralelo. Como bem observa GEERTZ (1989), não há mais espaço
para o absolutismo grupal, as sociedades modernas são plurais e respondem de diferentes modos ao
processo de identificação.

Indo mais além, a individualização da fé, ou a privatização da fé, é identificada por

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HACKMANN (1999) como sendo resultado das transformações mais amplas que estão ocorrendo
na sociedade moderna por conta da globalização, principalmente no que diz respeito ao papel dos
modernos meios de comunicação na divulgação do sagrado.
As novas tecnologias de comunicação tornaram o sagrado próximo e acessível. Isto não quer
dizer que essas modernas tecnologias estejam a serviço apenas da moderna indústria do
entretenimento e do consumo. Há um ambiente que está transformando o comportamento cultural
em diferentes esferas, provocando a difusão da espiritualidade, principalmente por conta do acesso
aos novos meios midiáticos.
A partir disso, é possível entender que houve uma mudança significativa na forma de operar
tal relação depois que os evangélicos garantiram uma nova dinâmica aos cultos.
E isso se estende quando visto que esse movimento visava garantir a onipresença de Deus
em todos os lares evangélicos. Coube à mídia garantir o encontro com o sagrado. Graças a tal
movimento foi criada uma série de produtos para o entretenimento litúrgico: CDs, DVDs, internet,
games bíblicos, celulares e canais exclusivos de rádio e TV.

3. O USO DA INTERNET E REDES SOCIAIS NAS IGREJAS

O específico de Igreja e a internet é a consideração das implicações que a internet tem para a
religião, especialmente a Igreja católica. A introdução enfoca essa reflexão: o interesse da Igreja
pela internet é um aspecto particular de sua preocupação por todos os meios de comunicação,
considerados em forma positiva na qual a internet introduz mudanças que influem não só no modo
como as pessoas se comunicam, mas também no modo como compreendem sua vida.
A Igreja, ao considerar os meios de comunicação, tem duplo objetivo. O primeiro: fomentar
o correto desenvolvimento e uso com vistas ao progresso humano, dialogando com os responsáveis
dos meios para colaborar na elaboração de uma política adequada e para compreender bem a
natureza mesma dos meios. O segundo: a Igreja se preocupa também com a comunicação na e pela
própria Igreja, já que a comunicação eclesial não se reduz a questões técnicas, mas, fundando-se na
comunicação da Trindade, chega a ser uma qualidade essencial tanto na evangelização como na
prática eclesial interna.
Os católicos estão convidados a não ter medo de abrir as portas dos meios de comunicação a
Cristo. Afronta-se o fenômeno dos meios e da internet em relação à própria missão da Igreja. Dado
que anunciar Jesus Cristo às pessoas formadas por uma cultura dos meios de comunicação requer
considerar atentamente as características especiais dos próprios meios, a Igreja precisa agora
compreender a internet. Isso é preciso para comunicar-se eficazmente com as pessoas, de maneira
especial com os jovens, que estão imersos na experiência dessa nova tecnologia.
Os meios de comunicação oferecem importantes benefícios e vantagens à Igreja, e
particularmente a internet é importante para muitas atividades e programas da Igreja: a
evangelização, que inclui tanto a “reevangelização” como a nova evangelização e o tradicional
labor missionário, a catequese e outros tipos de educação; as notícias e informações; a apologética,
o governo e a administração; algumas formas de assessoria pastoral e direção espiritual.
O texto “Ética na internet” foi redigido com o desejo de expor o ponto de vista católico
sobre a internet, como um ponto de partida para a participação da Igreja no diálogo com outros
setores da sociedade, especialmente outros grupos religiosos, com relação ao desenvolvimento e ao
uso desse instrumento tecnológico.
As contribuições positivas da internet para as pessoas e a sociedade são múltiplas quando se
baseiam em princípios éticos que conduzem a construir a identidade humana. E todo esse contexto
se mantém presente fortemente quando analisado a comunicação da Igreja ABBA a qual será
analisada adiante.

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4. A COMUNICAÇÃO DA IGREJA ABBA

“Temos promovido as mais variadas oportunidades para que a comunhão seja uma
característica forte e essencial em nosso ministério. Outra prática muito eficaz é o
treinamento e capacitação de pessoas através de cursos.
Na bíblia o profeta Oséias faz um diagnóstico exato da razão pela qual o povo de Deus
estava sendo destruído.O que me deixa impressionado, é que o agente destruidor, não foi
um exército poderoso, nem uma praga incontrolável. Também não foi a escassez
econômica, ou de recursos matérias. O que estava destruindo o povo era a falta de
conhecimento, era a ignorância.
Portanto, temos dado muita importância ao ensino. Ensinar através de vários meios e vários
assuntos. A FATEMI-Faculdade de Teologia Ministerial é o nosso carro chefe. É um curso
prático, inspirativo e capacitador.
Realizamos fóruns sobre economia, em que vários preletores, dentre os mais renomados do
mercado, comparecem para ensinar sobre vários assuntos que são pertinentes aos
empresários e profissionais liberais, tais como: finanças, marketing, previdência, gestão,
recursos humanos, política, e tantos outros temas de instrução.
Temos aprendido a administrar na escassez, precisamos aprender a administrar na
abundância. Hoje atuam mais de trinta ministérios na igreja, e temos acertado e errado,
mas acima de tudo, temos aprendido.
Os desafios são grandes, empolgantes e merecedores de serem enfrentados. Temos buscado
manifestar dia a dia o reino de Deus. Salvando Vidas e Formando Líderes, até a volta do
nosso Senhor Jesus Cristo.” (Pio Carvalho, fundador da Igreja ABBA)

Este é o texto relativo aos ministérios da Igreja Cristã ABBA, disponível no website deles.
A diferença desta entidade religiosa para as demais em sua comunicação é a busca por uma
integração entre religião e todos os aspectos da vida de seus membros, não isolando, mas mostrando
que o conhecimento adquirido na igreja pode ser inserido no dia a dia, no trabalho, faculdade,
família, do mesmo.
A ABBA buscou entender que a comunicação assertiva com seu público interno poderia ser
um instrumento de aprofundamento e engrandecimento do membro da entidade sobre a instituição,
assim como um aprofundamento da instituição sobre o membro da entidade, vendo aquilo não como
uma prática religiosa separada de sua vida, mas como algo presente em suas ações cotidianas. Ou
seja, a igreja não é mais aquele lugar que se vai duas horas por semana, é um local que engloba suas
ações, escolhas e sonhos.
E como a ABBA faz isso? Através do coaching, coaching religioso, antes de tudo. O
coaching, faz a pessoa buscar conhecimento, soja sobre si mesma ou sobre o próximo. Assim, “a
modernidade religiosa é uma tendência geral para a individualização e a subjectivação das crenças
religiosas” (MOURÃO, p. 87), sendo essa a principal crítica ao coaching religioso, a
antropomorfização dos conceitos divinos e religiosos em situações casuais e humanistas, tirando a
religião da esfera superior, sagrada, e trazendo para uma realidade “supérflua e vil” do ponto de
vista mais conservador, como afirma o Pastor Renato Vargens em seus “07 motivos porque pastores
e igrejas não devem aderir ao “coaching” teológico”:

“1- Por que as Escrituras devem ser a única e exclusiva forma de consolo, conforto,
exortação, admoestação e motivação para o crente.
2- Pelo fato de que o “coaching” incentiva a prática de um evangelho humanista e
antropocêntrico.
3- Pelo fato de que uma igreja não é um negócio, nem o evangelho um tipo de business e
tampouco o crente um cliente que deve ser motivado a encontrar o caminho da felicidade,
4- Porque o “coaching” ensina que o homem deve ter fé em si mesmo, utilizando para isso
técnicas humanas onde o indivíduo é o centro de tudo
5- Porque o “coach” em vez de expor as Escrituras, faz de suas pregações palestras

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motivacionais confundindo evangelho com empreendedorismo e Cristo com um guru
motivacional.
6- Pelo fatos de que as técnicas motivacionais substituem de forma velada, a suficiência de
Cristo e das Escrituras.
7- Pelo fato de que a teologia do “coaching” é mais um braço do pragmatismo religioso do
nosso tempo onde em nome da felicidade do cliente se faz qualquer negócio desde que o
objetivo seja atingido.”

Para outro ponto de vista, o coaching religioso é uma forma de trazer o divino com
simplicidade e ajuda em ramos materiais com vantagens positivas, de poder abençoar,
materialmente e espiritualmente, uma pessoa, como explica Lenildo Medeiros:
“Quanto mais ferramentas de coaching para atender as pessoas que procuram um pastor ou
líder cristão para ser ajudado, mais resultados espirituais serão possíveis.”

O espírito empreendedor desse grupo religioso específico mostra que essa mescla de vida
cotidiana com o plano sagrado pode ser

Uma ética ancorada na religião destina para o comportamento por ela suscitado prêmios
psicológicos (não de caráter econômico) bem específicos altamente eficazes enquanto a fé
religiosa permanecer viva [...]. Só na medida em que esses prêmios funcionam e, sobretudo,
quando agem (e o decisivo é isto) numa direção que se afasta bastante da doutrina dos
teólogos [...], consegue a fé religiosa uma influência autônoma sobre a conduta da vida e,
através dela, sobre a economia [...]. (WEBER, 2004, p. 178-179, grifo do autor).

Mas, independente das opiniões quanto ao uso dessa técnica, a Comunhão Cristã ABBA
continuará usando essa forma de comunicação para atender seu público, tendo em vista sua missão
principal: Salvar Vidas e Formar Líderes.

5. SANTO EMPREENDEDORISMO

Pare e pense o que lhe vem à cabeça quando são elencados os seguintes substantivos: “Café
Prosperity in Business”, “Creative Night”, “Três atitudes que produzem Vida”, “Retiro Fly”. Muitos
devem ter pensado em eventos de coaching, outros devem ter relacionado à autoajuda, alguns até
em eventos empresariais. Todos acertaram quando pensaram nessas opções, mas, acredito que não
tenha lhe calhado a pensar que todos esses substantivos fazem parte de uma só instituição, a
Comunhão Cristã Abba.

“[...]a crença de que ser bem-sucedido nos negócios requer não apenas a
competência profissional e a racionalidade administrativa, mas algo que é um bem
essencial: a bênção de Deus. Para obtê-la, é imprescindível que as ofertas sejam feitas a
Ele, sendo a igreja a intermediária do processo. Dito de outra forma, o sucesso e o lucro ou,
em termos gerais, a boa performance empresarial, são considerados efeitos da performance
espiritual, que permite a intervenção do poder sobrenatural de Deus.” (SERAFIM &
FEUERSCHUETTE, 2013, p. 5)

Mas muito além do poder transcendental se vale a religião nos campos alheios à igreja.
Visto que organizações religiosas têm como objetivo repassar conhecimentos e filosofias de vida,
esta barreira religiosa é rompida e enquadrada em um conglomerado de práticas sociais, onde a
religiosidade interfere nas práticas de consumo, comportamento e cultura. Portanto, nesta
perspectiva, podemos atestar a religião como prática social, entendendo suas práticas e
principalmente seu comportamento econômico. Faz-se necessário, portanto, analisar a cultura
religiosa sendo entendida como “[...] orientação doutrinária/teológica capaz de atribuir sentido e

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motivar a ação empreendedora.” (SERAFIM, BRAGA E RODRIGUEZ, 2011, p. 2)
O empreendedorismo, ou o uso do termo “empreendedor” surge no século XVIII, referindo-
se à agricultores que inovavam com novas técnicas de cultura ou arriscavam seu capital no
mercado. No entanto, o surgimento de grandes corporações e o aumento da burocratização por volta
de 1950 fez esse profissional desaparecer, erguendo então grupos de especialistas e estrategistas,
sendo essa posição retomada novamente apenas em 1980, principalmente pelo fenômeno da
globalização, o mercado de trabalho virtual e a precarização dos postos de trabalho.
O empreendedor é quem promove desenvolvimento econômico, é inovador na criação de
novas combinações dos fatores de produção (SCHUMPETER, 1961), onde não segue o padrão de
atender necessidades e maximizar utilidade (MARTES, 2010). Atualmente, o conceito mais adotada
para definir o perfil do empreendedor e sua função no âmbito social-econômico é a criação de novas
organizações (ALDRICH, 2005).
Um dos objetivos da cultura ao empreendedorismo no âmbito religioso é criar uma cultura
de vitoriosos, daqueles que são retirados de uma situação precária e colocados, pela igreja, no topo
do mundo, conseguindo se reerguer e buscar o sucesso pessoal e, principalmente, profissional, onde
a conduta do fiel e empreendedor é orientada por fortes convicções religiosas. Percebe-se aqui uma
certa lucidez das igrejas em perceber que estamos inseridos em uma sociedade capitalista,
independente de credos, que necessita do trabalho para a sobrevivência e que a salvação de seus
devotos se dá na busca da fé em Deus e da luta por prosperidade econômica. Desse modo, alguns
preceitos religiosos como a caridade e o dízimo podem ser ofertados por uma rede muito maior de
fiéis sem serem prejudicados com isso. O retorno à igreja e à sociedade é dado em forma de
gratidão e devoção ao próximo e a Deus.

“[...]a igreja gera e propicia internamente, a seus membros, recursos


organizacionais que são fatores-chave para a abertura de negócios. Isso é especialmente
importante para aqueles que possuem níveis insuﬕcientes de capital físico e capital
humano. Entretanto, talvez o principal tipo de capital gerado pela associação de um
indivíduo a uma organização religiosa seja o capital social.” (CUSTÓDIO, BRAGA &
RODRIGUEZ, 2011, p. 2).

O uso da temática empreendedora na religião remonta à década de 1930, nos Estados


Unidos, pós grande depressão, onde era necessária a retomada da economia e, portanto, atuação da
infraestrutura da sociedade, responsável, segundo Althusser (1970), por manter as rédeas da
sociedade.
O que nos cabe a interpretar é comunicação visando tornar os fiéis empreendedores e fazer
com que eles sigam uma espécie de síntese entre moral dos escravos e a moral dos senhores
(NIETZSCHE, 1886). A primeira, diz respeito àqueles que buscam a verdade fora do mundo da
vida devido a repressão que sofreram por seus impulsos, se mantendo obrigados a manter a negação
da vida para poder sobreviver, assim, o sujeito é colocado sob a guarda de um sistema, no caso o
religioso, conformando-o com a sua realidade, validando o status-quo e a passividade. O segundo,
no entanto, afirmava a própria vida dentro da vida, cria seus próprios valores, é corajoso, forte e
destemido.
A síntese das duas morais viria no alinhamento das principais linhas de pensamento de cada
moral, onde, primeiramente, a igreja acolheria o indivíduo sem perspectivas e traçaria um rumo em
sua vida, tal qual é elencado na slogan da instituição “Salvando Vidas e Formando Líderes”, mas
não da maneira em que as igrejas católicas e evangélicas estão acostumadas a tratar seus fiéis, numa
certa dependência da própria igreja, estornando a dependência de uma coisa em outra, agora nas
mãos da religião, mas fazendo com que os seus frequentadores ,e agora adeptos, da religião sejam
não mais diretamente independentes de instituições, e sim formadores de opinião, líderes,

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desbravadores, tudo sob o olhar de Deus. É a interseção perfeita entre moral e escravo, onde, por
um lado, se liberta do ressentimento em ser subjugado e inferiorizado, e por outro se transforma em
um senhor de si mesmo, reconhecendo a guerra e a aceitando, não como vítima dela, mas mais um
guerreiro.

“É pressuposto [...] que o mundo espiritual determina o mundo material. Portanto,


antes de tudo, os homens devem ser “guerreiros espirituais” para que a dádiva divina seja
desbloqueada pelas entidades demoníacas. [...] Essas ações realizadas pelos indivíduos são,
portanto, vistas como uma estratégia [...] Tudo é estratégia, porque se está numa guerra.”
(SERAFIM & FEUERSCHUETTE, 2013, p. 6).

6. O COACHING NA IGREJA

Antes de discorremos sobre o fenômeno do coaching na atualidade precisamos entender seu


conceito. Primeiramente porque há uma infinidade de especulações sobre o real significado da
palavra e depois por perder seu valor em estar sendo utilizado ao desgaste.
Do inglês “coach”, que significa “treinador”, se derivou o termo “coaching”, que é “[...] a
parceria entre coach (profissional) e cliente onde acontece um processo estimulante e criativo que
inspira e maximiza o potencial pessoal e profissional do cliente.”, segundo a IBC, o Instituto
Brasileiro de Coaching. A SLAC considera que “o profissional de coaching atua como um
estimulador externo que desperta o potencial interno de outras pessoas, usando uma combinação de
flexibilidade, insight, perseverança, estratégias, ferramentas pautadas em uma metodologia de
eficácia comprovada”. Felipe Dias, coach, psicólogo e MBA em gestão de pessoas pela FGV
considera o coaching “[...] um processo de desenvolvimento que envolve orientação e modificação
de comportamentos com o objetivo de ampliar os resultados que a pessoa atinge em dimensões
específicas da vida e gerar autonomia, entendida como a capacidade de se autoavaliar, avaliar o seu
contexto e tomar a decisão sobre os caminhos a percorrer para alterar tanto o seu comportamento
quanto o contexto no qual ele ocorre”.
Fazendo uma síntese de tudo isso, o coaching busca aprimorar de maneira inteligente o
indivíduo para que ele caminhe com autonomia na vida, através de um treinador (coach) que tem
experiência e conhecimento sobre situações de interesse do público, tudo isso em uma linguagem
mais descontraída.
O que se vê atualmente nas igrejas, e a Abba não foge disso, é essa tendência a uma linha de
pensamento voltada muito mais ao “você sofreu, mas agora consegue se reerguer porque você ouviu
a minha palavra” onde, idealmente o pastor ou o líder do grupo de jovens fala sobre experiências
ruins do passado e como elas foram superadas. Toma-se de exemplo um dos encontros da Abba
Jovem, no dia 21/04, onde o líder do grupo dá um testemunho sobre experiências de vida,
explicando sobre os erros do passado e como se aprende com eles.
Uma comunicação um tanto quanto paradoxal, visto que o coaching concentra muito mais a
atenção no humano, no antropocentrismo, do que em Deus e seus ensinamentos propriamente ditos,
utilizando a fé em si mesmo como motivador de sucesso, substituindo muitas vezes a crença em
Deus. É uma evolução da transmissão do evangelho visto que o número de pessoas sem religião no
Brasil vem subindo cada vez mais nos últimos anos, batendo o recorde de 32,1% da população
brasileira da geração Y, segundo pesquisa feita pela PUC-RS. A adaptação a um discurso mais atual
e atraente se faz necessária quando números tão alarmantes batem a porta e as organizações
religiosas, ao perceberem isso, se adapta à demanda atual, tal como a ABBA Comunhão Cristã faz.

7. CONCLUSÃO

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Antes de discorremos sobre o fenômeno do coaching na atualidade precisamos entender seu
conceito. Primeiramente porque há uma infinidade de especulações sobre o real significado da
palavra e depois por perder seu valor em estar sendo utilizado ao desgaste.
Do inglês “coach”, que significa “treinador”, se derivou o termo “coaching”, que é “[...] a
parceria entre coach (profissional) e cliente onde acontece um processo estimulante e criativo que
inspira e maximiza o potencial pessoal e profissional do cliente.”, segundo a IBC, o Instituto
Brasileiro de Coaching. A SLAC considera que “o profissional de coaching atua como um
estimulador externo que desperta o potencial interno de outras pessoas, usando uma combinação de
flexibilidade, insight, perseverança, estratégias, ferramentas pautadas em uma metodologia de
eficácia comprovada”. Felipe Dias, coach, psicólogo e MBA em gestão de pessoas pela FGV
considera o coaching “[...] um processo de desenvolvimento que envolve orientação e modificação
de comportamentos com o objetivo de ampliar os resultados que a pessoa atinge em dimensões
específicas da vida e gerar autonomia, entendida como a capacidade de se autoavaliar, avaliar o seu
contexto e tomar a decisão sobre os caminhos a percorrer para alterar tanto o seu comportamento
quanto o contexto no qual ele ocorre”.
Fazendo uma síntese de tudo isso, o coaching busca aprimorar de maneira inteligente o
indivíduo para que ele caminhe com autonomia na vida, através de um treinador (coach) que tem
experiência e conhecimento sobre situações de interesse do público, tudo isso em uma linguagem
mais descontraída.
O que se vê atualmente nas igrejas, e a Abba não foge disso, é essa tendência a uma linha de
pensamento voltada muito mais ao “você sofreu, mas agora consegue se reerguer porque você ouviu
a minha palavra” onde, idealmente o pastor ou o líder do grupo de jovens fala sobre experiências
ruins do passado e como elas foram superadas. Toma-se de exemplo um dos encontros da Abba
Jovem, no dia 21/04, onde o líder do grupo dá um testemunho sobre experiências de vida,
explicando sobre os erros do passado e como se aprende com eles.
Uma comunicação um tanto quanto paradoxal, visto que o coaching concentra muito mais a
atenção no humano, no antropocentrismo, do que em Deus e seus ensinamentos propriamente ditos,
utilizando a fé em si mesmo como motivador de sucesso, substituindo muitas vezes a crença em
Deus. É uma evolução da transmissão do evangelho visto que o número de pessoas sem religião no
Brasil vem subindo cada vez mais nos últimos anos, batendo o recorde de 32,1% da população
brasileira da geração Y, segundo pesquisa feita pela PUC-RS. A adaptação a um discurso mais atual
e atraente se faz necessária quando números tão alarmantes batem a porta e as organizações
religiosas, ao perceberem isso, se adapta à demanda atual, tal como a ABBA Comunhão Cristã faz.

6. REFERÊNCIAS

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