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Conteúdo

Apresentação
Prólogo
Conceituação, classificação e especialização
Modularização, Tecnologia e Inovação
Disrupção, concorrência e eficiência
Inclusão, sustentabilidade e rentabilidade
Crise, regulação, supervisão e convergência
Sobre o Autor
Jairo Saddi

FINTECHS: CINCO ENSAIOS

São Paulo
2020
ISBN 978-65-87082-08-0

Fintechs: cinco ensaios

@ Edição e Distribuição da Editora IASP

O Autor desta obra goza da mais ampla liberdade de opinião e de crítica.


Cabendo-lhe a responsabilidade das ideias e conceitos emitidos em seu trabalho.

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Capa e diagramação: Tábata Gerbasi
Dados para Catalogação

SADDI, Jairo
Fintechs: cinco ensaios / Jairo Saddi. São Paulo: Editora Iasp, 2020. 288p.

Livro digital - formatos epub, mobi e pdf


ISBN 978-65-87082-08-0 

1. Direito bancário; 2. Operações bancárias; 3. Serviços bancários; 4. Fintechs; 5. Startups. I. Título.

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Ives Gandra da Silva Martins
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Rui Celso Reali Fragoso
Tales Castelo Branco
Maria Odete Duque Bertasi
Ivette Senise Ferreira
José Horácio Halfeld Rezende Ribeiro
APRESENTAÇÃO

É com elevada honra que o Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) dá
continuidade à sua missão de difundir a cultura jurídica, assumindo o encargo da
publicação da presente obra posta ao público. O IASP, a mais antiga entidade jurídica
do Estado de São Paulo, com rica história e atuação fundamental na própria origem
da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção de São Paulo (OAB-SP), é espaço
consagrado de debate científico. Sua participação ativa, desde o século XIX, ainda se
faz presente nos debates do Congresso Nacional, Poder Judiciário, ações
governamentais e culturais.

Foi ele criado, em 29 de novembro de 1874, com o propósito de promover o


aprimoramento do estudo e da prática da ciência jurídica. Ao depois, foi declarado de
utilidade pública pelo Decreto Federal nº 62.480, de 28 de março de 1968, Decreto
Estadual nº 49.222, de 18 de janeiro de 1968 e Decreto Municipal nº 7.362, de 26 de
janeiro de 1968. Hoje, ele se mostra como uma associação civil de fins não
econômicos que congrega Associados e Associadas, admitidos por rigorosa avaliação,
dentre os principais juristas, professores, advogados, magistrados e membros do
Ministério Público do país e do estrangeiro.

Na verdade, esse propósito já fora buscado ainda antes, no que se entende pelas
primeiras tentativas de sua fundação, em momento mais remoto e próximo à própria
fundação da própria Faculdade de Direito de São Paulo, quando da inauguração dos
cursos jurídicos no Brasil. De todo modo, com o passar dos anos, e no decorrer do
século XX, sua missão se viu firmada no sentido de necessário aprimoramento
cultural.

Foi com esse renovado escopo que, reconhecendo uma inegável necessidade de
propiciar a divulgação de obras jurídicas de escol, o IASP buscou a criação de sua
Editora, escolhendo e selecionando obras de mérito para publicação. O que o leitor
tem em mãos – Fintechs: cinco ensaios, de Jairo Saddi –, é vivo exemplo dessa missão.

Ele, Doutor em Direito Econômico na Faculdade de Direito da Universidade de


São Paulo, Pós-Doutor em Oxford, advogado de sucesso e autor renomado, entre
tantas ramas, também de Direito Bancário, é figura exemplar em vários pontos.
Recordo, em viva memória, de um dos primeiros contatos mais próximos com o
autor. Era passada a sua primeira eleição como Diretor Financeiro do IASP, e dava-se
um jantar festivo. Já o conhecia da Academia e de seu nome inscrito que já era no
Direito Econômico – algo a mim próximo, em uma de suas derivações, o Direito
Penal Econômico. O encanto e a presença de espírito, com a largueza de
conhecimentos vários, desde logo impressionou. Figura ímpar, detém o que os antigos
chamariam de capacidade enciclopédica, sendo verdadeiro homem dos sete
instrumentos, com inegável veia britânica. Além de ser um dos maiores especialistas
nacionais sobre questões bancárias e comerciais, também é profundo conhecedor do
universo musical, intercalando Direito, música e artes em geral, outras de suas
paixões. De poesia, é grande entendedor, como de pintura e literatura. Kipling, enfim,
fosse a retratá-lo, definiria ser ele um pukka sahib.

O tempo se passou e foi sedimentado o respeito e admiração. Uma das grandes


alegrias quando de minha eleição à presidência do IASP foi, justamente, a de ter a
felicidade, orgulho e a honra de vê-lo, novamente, junto à Diretoria. Sua gestão
mostra-se, dia-a-dia, aliás, como sempre, fundamental.

Quis o destino, e a generosidade do autor, que eu tivesse o galardão de


apresentar Fintechs: cinco ensaios. O tema não poderia ser mais oportuno, e, em
particular, muito agrada.

A modernidade dos novos portais de aplicação e serviços financeiros, sem a


usual presença física, é algo que está a abalar toda a realidade do mundo jurídico.
Evidenciando, como Janus, lados opostos, caminha a obra até mesmo em temas
menos palatáveis, como open banking e bitcoin. Retrata, enfim, um futuro que
somente a sensibilidade de um autor como Jairo Saddi poderia ter. Como já se disse,
estudioso da noção dos bancos, principia, assim, em seus cinco estudos, inicialmente
sobre a conceituação, classificação e especialização das fintechs. Ao depois, vai ao
horizonte de modularização, tecnologia e inovação, avançando sobre a oferta de
produto e serviços financeiros. Chega ao tema mais conflituoso de disrupção,
concorrência e eficiência, para, então, tratar de inclusão, sustentabilidade e
rentabilidade. Por derradeiro, tem-se o ensaio sobre crise, regulação, supervisão e
convergência, como que em conclusão a buscar cenários possíveis em futuro incerto.

De todo modo, a sensibilidade do autor às artes é evidenciada, desde logo,


quando, ainda na apresentação de sua obra, expõe o repertório de Schumann, em
Fünf Stücke im Volkston, Op. 102 (Cinco peças em estilo de folclore), e faz
comparações entre a harmonia dos instrumentos e o que pretende demonstrar em
relação ao universo das fintechs. Mesmo que alguns possam sustentar que a
proximidade entre música e Direito não seja algo de todo inédito (já que autores
outros já propuseram a dialética existente na intersecção dos campos), a poesia
proposta é de todo inspirada e com propriedade ímpar.

Em similar passo, é de se dizer que ainda que outros tantos pensadores tenham
escrito tantos ensaios alinhavando grupos de escritos, como se verifica na Europa de
ontem e de hoje, a empatia e a semelhança ao lado musical são imperiosas em Jairo
Saddi, dando, à presente obra, vida sem par em tema ainda em construção, ou, como
prefere, em ânsia por um novo dia. Célebre frase de Lord Byron, que também tanto
influenciou Schumann, diria que o melhor dos profetas do futuro é o passado, e isso
talvez explique dificuldades tantas vividas na tecnologia, ora retratada. Isso, contudo,
talvez se mostre, ao menos em parte, superado pela antevisão do autor. Saddi e
Schumann, também românticos a seu turno, ambos com paixões e incursões ao
Direito e à música, cada qual tendencialmente ao seu próprio lado, completam-se e se
encontram postos nos presentes ensaios que dão boa visão de algo a tantas pessoas
ainda inóspito.

Trata-se, enfim, de um trabalho único e muito atual, e de prazerosa leitura,


sendo um orgulho ao IASP poder participar, a todos, sua publicação. Obrigado e
parabéns a Jairo Saddi, bem como parabéns ao público leitor, que no avançar das
próximas páginas poderá comprovar o brilho das ideias que se seguem.

Prof. Dr. Renato Silveira


Presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo - IASP
Professor titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo
PRÓLOGO

Uma das mais belas obras do repertório musical clássico para instrumentos de
câmara é, reconhecidamente, Fünf Stücke im Volkston, Op. 102 (Cinco peças em estilo
de folclore), de Robert Schumann (1810-1856). Schumann, em sua curta existência,
apesar de sofrer com transtornos depressivos, foi prolífico em sua criatividade artística
para piano, combinando-o com outros instrumentos, como o violoncelo. Em abril de
1848, ele compôs, em pouco mais de dois dias, cinco pequenas peças singelas,
baseadas num marco de lirismo folclórico, consideradas de fácil execução. A beleza
das peças está em transformar a música entre o piano e o cello num diálogo fresco e
cheio de graça, como se a música transbordasse a ânsia por um novo dia. Acima de
tudo, parece haver cooperação e entendimento entre os dois instrumentos e a melodia
flui intensamente.1

Em uma possível analogia com Schumann, o universo das fintechs guarda muita
semelhança com cooperação, popularidade e inclusão. E também tem várias
características de simplicidade e acessibilidade. Fintechs consistem em portais virtuais
de aplicação, crédito e serviços financeiros, sem a necessária presença física do cliente
ou mesmo a entrega de documentos em papel para cadastro e operações bancárias
variadas. Junção dos vocábulos financial (financeiro) e technology (tecnologia), do
inglês, as fintechs são parte do admirável mundo novo da internet.2

Para os bancos tradicionais, a concorrência das fintechs é uma preocupação, mas


também uma oportunidade de maior eficiência e de novos produtos. Eficiência
porque os bancos podem reduzir custos e agências físicas; novos produtos porque o
crescente uso de smartphones nos negócios financeiros demanda maior simplicidade e,
possivelmente, maior interação individual e direta com o cliente, permitindo, em tese,
a oferta e a inovação de soluções bancárias inéditas. Não é sem outra razão que, no
universo de inovação na internet, as fintechs ocupam lugar de destaque.3

Supõe-se, assim, que o negócio da desintermediação financeira seja mais rentável


que o dos bancos tradicionais e daí os preços elevados pagos a tais startups sem
qualquer comprovação fática com receitas ou lucratividade. Não há mais consenso
razoável na avaliação de tais empresas, já que, por não possuírem custos fixos de
intermediação financeira, como custos de agências, instalações e outras altas despesas
fixas, o negócio presumivelmente deve gerar mais retorno ao investimento do que
uma atividade bancária tradicional.

Como isto ainda não é plenamente provado, novas empreitadas e negócios


nascem a todo dia, sempre com a expectativa de um novo negócio de aquisição, cada
vez por valores maiores. Como tudo no mundo da internet, a perspectiva e o
potencial de receita e de rentabilidade são maiores do que a realidade, ou ao menos
eram até a crise do Covid-19.4

No caso dos países emergentes e, em especial, do nosso, o fato é que ainda não se
conhece a extensão de um mercado virtual, ainda que os prognósticos sejam muito
otimistas, dado o grau de penetração de diversos produtos e serviços financeiros. Mas
como tantos outros negócios na internet, alguns simplesmente não sobrevivem.5

Dito isto sobre a seara financeira e sobre a escalabilidade das suas operações,
maior inclusão e concorrência na indústria, as fintechs, não tenhamos dúvida, vieram
para ficar.

Do ponto de vista do Regulador, no caso, o Banco Central, inúmeros são os


desafios. Primeiro, é fundamental que a chegada de novas tecnologias e a abertura
total do mercado de meios de pagamentos eletrônicos garantam o que se conhece
como interoperabilidade, além do já reconhecido compartilhamento da rede de
pagamentos.6

Segundo, deve-se considerar também que sempre há a tentação de tentar


enquadrar novas tecnologias nos atuais regramentos bancários – considerando o
enorme abismo regulatório existente no arsenal atual e o idealmente pretendido –, ou
então no regramento dos meios de pagamento e nas competências atribuídas ao
Banco Central nesse mercado desde 2013.7

Finalmente, o desafio de regulamentar a supervisão das chamadas giantechs


também não pode ser desprezado. O direito ainda é local; mas a atividade financeira é
global. Giantechs são empresas de internet cujo valor de mercado supera a casa dos
trilhões, apenas para indicar uma referência mais palpável e lembrando que a sede de
tais empresas sempre está em jurisdições fora do direito pátrio.

No passado, a desintermediação financeira no Brasil alcançou maior sucesso


No passado, a desintermediação financeira no Brasil alcançou maior sucesso
com o cheque pré-datado, que passou, na época de maior inflação, a representar a
esmagadora totalidade do crédito comercial do lojista ao consumidor, em que o
próprio lojista assumia o risco de crédito. Hoje, com a popularização da figura do
recebível – antecipação de receitas futuras que geram um fluxo de desconto,
garantido por contratos de compra, venda e de prestação de serviços ou arrecadação –,
o uso do cheque pré-datado se reduziu drasticamente.

Dois comentários se impõem neste ponto. Os ensaios tratam de open banking e


de bitcoin, mas não são nem sobre um nem sobre outro. Open banking é uma
plataforma aberta na qual informações de uma dada conta-corrente, aliadas às
transações de pagamento, poderão ser fornecidas por uma mesma entidade
tecnológica, mesmo que exista mais de um provedor e a conta seja de outro banco.
Um exemplo: o cliente experimentará o serviço bancário por uma única fonte, ainda
que ele esteja sendo fornecido por várias entidades legais distintas, bancos e não
bancos, como as Assets, por exemplo.

Há dois tipos de provedores de serviços neste novo ambiente. O que se


denomina AISP (Account Information Service Provider – ou provedor de serviços de
informações de contas-correntes) e os de meios de pagamento propriamente ditos, os
PISPs (Payment Initiation Service Provider). Os AISPs são aqueles que oferecem
serviços de acesso à informação (e consolidação dos dados) de uma dada conta-
corrente dos clientes bancários. Esses serviços se valem de dados históricos para
auferir, analisar e registrar o comportamento de receitas e despesas de um usuário ou
mesmo agregar suas informações gerencialmente. Já os PISPs cuidam do fluxo dos
meios de pagamento, em especial, os cartões de débito ou crédito, nos quais as
informações passam a transitar diretamente entre clientes e varejistas, sem a
intermediação de adquirentes e de outros players, já que o serviço de pagamento é
iniciado em nome do usuário.

Já os bitcoins são moedas eletrônicas (o nome vem de bit, unidade de


informática, e coin, moeda metálica). A noção foi primeiramente apresentada como
uma criptomoeda de um sistema eletrônico de pagamento peer to peer e foi introduzida
no ano de 2008 em um ensaio publicado por um(a) suposto(a) programador(a), cujo
pseudônimo, ou nome verdadeiro, não se sabe até hoje, era Satoshi Nakamoto.8
Mesmo que o tema seja fascinante e ainda em plena evolução, o fato é que um meio
de pagamento precisa ser crível para ser disseminado e o Estado ainda representa a
ordem monetária imperativa.

Se open banking é o ambiente onde fintechs devem prosperar, bitcoins


representam, acima de tudo, muito mais que uma moeda, são um novo meio de
pagamento. Os ensaios aqui apresentados incluem os dois conceitos, mas eles não são
centrais ao que se pretende, ainda que mereçam ser objeto de pesquisa futura.

Não há como tratar de fintechs sem discutir o papel do Regulador. Como se


sabe, os bancos centrais têm duas esferas de atuação. A primeira diz respeito ao poder
de emissão de moeda e a segunda, ao poder de organizar e fiscalizar o Sistema
Financeiro e os meios de pagamento. Em ambos os casos, presume-se que as regras
gerais estejam expostas no ordenamento jurídico, via leis, e seu detalhamento, via
regulamento. Nosso Banco Central cuida de muitos assuntos, inclusive de sua
expressão na dívida pública, na sua relação com o Tesouro Nacional; neste, há uma
nova discussão sobre o papel institucional da autoridade monetária. 9

E, é claro, a União detém o poder emissor, por meio do tratamento dado à


moeda – competência da União, mencionada nos artigos 21 e 22 e, mais adiante, no
artigo 48 da Carta de 1988.

Na história, bancos centrais nascem em razão das crises bancárias, outro tema
que não se pode perder de vista. Excetuando-se o poder emissor, são três os
instrumentos básicos de cunho preventivo que servem de anteparo às crises. Tem-se,
primeiro, que os bancos centrais agem como prestamistas de última instância,
servindo de fonte de recursos financeiros aos bancos participantes do Sistema. Além
disso, mediante regulação, ou seja, o processo de ordenação da atividade econômica,
função legislativa estatal, cujo objetivo vem a ser a determinação da conduta dos
agentes econômicos sob a inspiração do interesse comum. Finalmente, pelo sistema de
garantia de depósito, geralmente de quantias limitadas, acobertando o pequeno
poupador contra eventuais riscos, que no Brasil está organizado sob a égide privada
do FGC – Fundo Garantidor de Créditos.10

No Brasil, a experiência das duas primeiras estratégias é de sucesso limitado,


enquanto a do FGC é de muito acerto; no entanto, há uma verdadeira revolução em
curso para promover a alteração do uso de tais instrumentos e processos,
especialmente à luz das fintechs. Pode haver rede de segurança com as fintechs?
Qual é o enfoque jurídico que deve ser dado a esse processo de mudança? Nosso
Banco Central realmente vinha atuando como emprestador de última instância,
como regulador e como fiscalizador da atividade bancária? Tanto em relação ao seu
poder emissor como em relação aos seus aspectos institucionais, há projetos
legislativos que poderão alterar o seu curso, transformando o atual regime seja pelo
estabelecimento das metas monetárias, seja pela aplicação das regras de redesconto,
tabelamentos ou mesmo pela revisão do processo de fiscalização. Tais projetos,
contudo, nem sempre dialogam com o novo universo das fintechs.

Finalmente, sobre o ano de 2020, em que este livro foi escrito. O ano reuniu três
choques econômicos inesperados e globais, sendo o último a conhecida pandemia da
Covid-19, doença provocada pelo vírus Sars-Covid-2. Mas a pandemia foi antecedida
pela discussão da Arábia Saudita para aumentar a oferta de petróleo e também pelo
choque de oferta na China, com a drástica redução da sua produção no início do ano.
Agora, se viu a mais acentuada queda no PIB mundial, assemelhada apenas à ocorrida
na Segunda Guerra Mundial e, ainda assim, superior à da Grande Depressão de 1929
ou, a mais recente, de 2008 com fatos inusitados e completamente desconhecidos,
especialmente porque não nasceu de uma crise bancária ou monetária.

A crise do Covid-19 em Março/Setembro de 2020 mostrou claramente as


fragilidades de um sistema cuja arquitetura ainda não está acabada. Só para dar uma
amostra dos efeitos da pandemia, Itaú Unibanco e Bradesco, o maior e o segundo
maior banco privado do país, prorrogaram R$ 123 bilhões em operações de crédito de
pessoas físicas e micro, pequenas e médias empresas com pagamentos em dia durante
a crise, com carências para pagamentos.11 Há por vir. A estimativa atual para retração
do PIB (em Junho/2020) está próximo a 10% para o segundo trimestre, na
comparação com o período de janeiro a março, com provável de queda de 6% no ano.

A função dos bancos centrais como prestamista de última instância,


absolutamente clássica, foi progressivamente revista e atualizada, já que se tornou
difícil, senão impossível, para qualquer banco central agir como o garantidor
universal do sistema.

Como se vê, muitas são as questões postas e há outras tantas ainda, as


pressupostas.12

Neste livro, apresentamos cinco ensaios sobre o tema das fintechs. É evidente
Neste livro, apresentamos cinco ensaios sobre o tema das fintechs. É evidente
que não temos a pretensão de esgotar o assunto, mas, sim, apresentar um rápido olhar
sobre o seu léxico, sobre seu ambiente regulatório e sobre os desafios de seu ambiente,
além, evidentemente, dos seus progressos, acertos, erros e oportunidades até aqui.

O primeiro ensaio, introdutório, cuida da conceituação, classificação e


especialização das fintechs. Há alguma topologia que possa ser determinada ao caso
brasileiro? Alguns autores afirmam que toda revolução tecnológica – se é que as
fintechs o são – pode ser dividida em fases, por exemplo, embrionária, maturidade,
irrupção, frenesi, algum ponto de inflexão e sedimentação.13 Isto se aplica ao caso das
fintechs? Em que estágio estão nossos empreendimentos ?

Já o segundo ensaio, “Modularização, Tecnologia e Inovação”, trata do tema do


ponto de vista da oferta de produtos e serviços financeiros em seu ecossistema maior,
tanto pelo viés das estruturas verticais quanto das modulares. Quanto é preciso inovar
e qual é a tecnologia proprietária que permite vantagens competitivas? Quanto é
requerido em padronização para que tal tecnologia possa ser mais eficiente? Estas e
outras indagações são discutidas no ensaio.

O terceiro ensaio, “Disrupção, concorrência e eficiência”, trata dos diferenciais


de concorrência e dos atuais participantes da indústria financeira vis-à-vis os novos
entrantes e seus modelos cooperativos ou em plataformas abertas. Fintechs
potencializam a entrada de novos concorrentes? Tornam os mercados mais
contestáveis?

O quarto ensaio, “Inclusão, sustentabilidade e rentabilidade”, cuida da


indagação básica do modelo de negócios em que as fintechs estão envolvidas. Se, por
um lado, é evidente a substituição de certos produtos tradicionais por novos – e
também por novos meios de pagamento–, e o próprio relacionamento com os clientes
bancários vem se transformando cada vez mais, por outro, não é evidente que no
longo prazo esse processo vá caminhar para uma certa comoditização da indústria
financeira e as fintechs serão opção superior em termos de rentabilidade e inclusão
financeira? A redução nas margens dos bancos incumbentes é definitiva ou apenas
uma acomodação mais temporária de mercado? O ensaio busca também discutir
certos modelos de risco inerentes à indústria financeira e aplicados às fintechs.

Finalmente, o último ensaio, “Crise, regulação, supervisão e convergência”, à


Finalmente, o último ensaio, “Crise, regulação, supervisão e convergência”, à
guisa de conclusão, busca desenhar dois cenários possíveis para a indústria e para os
bancos à luz de criar as melhores soluções para os clientes. O primeiro cenário é de um
mercado financeiro mais aberto, ainda que predominantemente doméstico: os
consumidores estarão mais dispostos a usar outros provedores de serviços financeiros
que não bancos para suas necessidades, e muitos destes provedores estarão fora do
radar regulamentar e estatal, que é exatamente o que vamos chamar de cenário de open
banking. Mas bancos continuarão a existir e competirão para o fornecimento das
melhores e mais especializadas soluções. Ou, em outras palavras, aprofundar o cenário
atual.

Já o outro cenário acelerará um mercado livre de instituições financeiras e


repletos de non-banks banks, por um lado, com mais cooperação, mas, por outro, com
intensa concorrência, liderados pelas giantechs e, possivelmente, com moedas virtuais
globais, porém com a remoção gradual, mas certeira, das barreiras de entrada ao
sistema financeiro, tornando-o potencialmente mais inseguro. Vamos denominar esse
processo – e talvez por falta de melhor expressão – de free banking. O ensaio busca –
sem futurologia – se ater a um e a outro, lembrando desde logo que tais cenários não
são, nem podem ser, mutuamente excludentes.

Schumann compôs Fünf Stücke im Volkston, Op. 102, sob o clima das
revoluções de 1848 – também conhecidas como Revoluções Liberais – que eclodiram
na Europa com protestos contra o establishment autocrático herdado do Sacro
Império Romano-Germânico. Será mesmo o movimento das fintechs uma revolução
como as de 1848?

Muitos historiadores entendem que os movimentos de 1848 se alinhavam aos


defensores da República entre os partidários do federalismo, unitarismo e da
democracia, enquanto outros defendiam a solução monárquica. E, acima de tudo,
havia uma discussão sobre a liberdade constitucional combatida ferozmente pela
nobreza. Tanto que, em novembro de 1848, com o apoio da Prússia, a Assembleia
Nacional de Frankfurt foi dissolvida, o sufrágio universal suprimido e os privilégios
reestabelecidos. Assim mesmo, e sem revolução, vinte e tantos anos mais tarde
ocorreria a unificação da Alemanha, sob a liderança dos Hohenzollern.

Independentemente do que possa acontecer, fintechs já são, em si, produtos de


uma mudança em curso, ainda que talvez menos revolucionária e mais tecnológica do
que possa se acreditar. Se o futuro reserva um desenho da indústria muito diferente
do atual ninguém sabe. O que é certo é que não se pode resumir o futuro de uma
indústria a um único caminho ou uma única forma.

Valinhos, Setembro de 2020.


[1] Michael FINK escreveu: “Fünf Stücke im Volkston, Op. 102 are miniatures containing the simplicity, bold
expression, and broad humor of German folk songs and dances. The first, Mit Humor, is a jaunty piece
dominated by anapest rhythms and a whimsical mood. In contrast, Langsam (slowly) is like a lullaby or meditative
ballad focusing largely on the cello’s melody. The third piece, marked Nicht schnell (not fast), begins and ends as a
little wistful waltz; then, surprisingly, the meter and mood change to become assertive and declarative. Nicht zu
rasch (not too quickly), is one of Schumann’s passionate moments often associated with his manic side. In his
writings and in the Davidsbundertänze for piano, he ascribed this mood to a character named “Florestan”. The
final piece, marked Stark und markiert (strong and well-marked), is characterized by triplet rhythms — more
dance than song. Again showing Florestan (now in an impetuous mood), this concluding music moves to strong
chord progressions, both cello and piano asserting their individual but cooperative messages. Notas ao Programa
de Concerto. Camerata San Antonio. 21/08/2018. Disponível em: https://cameratasa.org. Acesso em: 11 jan.
2020.
[2] Há muitos outros: insurtech, govtech, lawtechs. Segundo o site gramática.net: “a palavra tecnologia tem sua
origem no grego antigo. Vem de techne, que significa técnica, junto a logos, que pode ser interpretado como
argumento, razão ou discussão. Ou seja, tecnologia é todo o conjunto de conhecimentos, razões em torno de algo
e/ou maneiras de alterar o mundo de forma prática, com o objetivo de satisfazer às necessidades humanas. Como o
termo logia também pode ser entendido como ciência, a palavra também significa o estudo do ato de transformar,
de modificar.”
[3] Segundo levantamento da PwC Brasil e da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), são mais de 500
fintechs (em torno de 27% das startups). Das fintechs, a maioria (57% do total) está no estado de São Paulo, 26%
delas têm entre seis e dez funcionários e 30% faturam até R$ 350 mil por ano. Na divisão por segmentos, os meios
de pagamento lideram, com 22% das fintechs. Na sequência, aparecem crédito, financiamento e negociação de
dívida (21%); bancos digitais (10%); gestão de investimento (8%); gestão financeira (7%); seguros (4%); e outros
(28%).
[4] Segundo o Valor Econômico (31/07/2019) (“Avanço de fintechs pressiona bancos a melhorar eficiências”),
somente em um mês “três operações relevantes foram fechadas envolvendo novatas do setor. A Creditas,
plataforma de crédito com garantia, captou US$ 231 milhões, numa rodada liderada pelo Softbank. O grupo
japonês também colocou R$ 1 bilhão numa oferta de R$ 1,25 bilhão em ações do Banco Inter fechada anteontem.
O Nubank, por sua vez, levantou US$ 400 milhões numa transação na qual foi avaliado em US$ 10 bilhões.”
[5] Vide produtos como Orkut, MySpace etc. O Orkut foi uma das primeiras redes sociais a fazer grande sucesso
no Brasil, nos anos 2000, mas perdeu força após a chegada do Facebook, tendo encerrado suas operações em 2014.
[6] Nas palavras de Otavio Damaso, Diretor de Regulação do Banco Central (BC), no Congresso de Meios
Eletrônicos de Pagamento, em março de 2019: “A infraestrutura não pode se tornar uma barreira à entrada no
mercado. Reitero o compromisso do BC com o desenvolvimento sustentável do setor”. Valor Econômico,
19/03/2019, pág. C-2.
[7] Vide Res. nº 4.282, de 4 de novembro de 2013.
[8] Segundo Jerry BRITO e Andrea CASTILLO. Bitcoin: A primer for policymakers. Arlington, VA: Mercatus
Center; George Mason University, 2012.
[9] Vide debate da regulamentação do art. 192 da CF de 1988. Na Comissão de Constituição e Justiça do Senado
Federal, tramitam os Projetos de Lei do Senado n. 72/07 e n. 102/07, que tratam da regulamentação do art. 192 da
Constituição Federal. As duas propostas são de autoria do senador Arthur Virgílio.
[10] Hoje regido pela Resolução 4.653, que alterou a Resolução nº 4.222 (de 23/05/2013), para ajustar a
contribuição ordinária, estabelecer a contribuição adicional e alterar o estatuto e o regulamento do Fundo
Garantidor de Créditos (FGC), que estabelecem ajuste na meta de porte do patrimônio do fundo, criação de
reserva contábil destinada a custear as operações com as instituições financeiras que designa e a alteração de regras
relativas à sua governança.
[11] Valor Econômico. 17/06/2020. pág. C3
[12] No original de Eros GRAU. Direito posto e direito pressuposto. 7. ed. São Paulo: Malheiros, 2008.
[13] Vide Carlota PEREZ. Technological revolutions and financial capital. Cheltenham, UK: Edward Elgar,
2002.
ENSAIO I: CONCEITUAÇÃO, CLASSIFICAÇÃO E
ESPECIALIZAÇÃO

RESUMO

Este ensaio, de caráter introdutório, trata da conceituação, classificação e


especialização das fintechs a partir do conceito de revolução tecnológica e da
classificação proposta pela economista Carlota Perez, que pode, de maneira genérica,
ser classificada em quatro fases: irrupção embrionária; frenesi; a seguir, evidencia-se
algum ponto de inflexão que separa as primeiras duas fases das últimas, que são
sinergia e maturidade. Prevendo-se, depois, o momento de sedimentação. A partir
desse ponto, o ensaio avança na topologia ao caso brasileiro, trata da atividade e da
classificação das fintechs.

Quando se pensa em avanços da humanidade, geralmente vem à tona a ideia de


revolução no sentido de ruptura, mas também de mudanças evolucionárias. Por
exemplo, no caso das guerras, certamente a descoberta da pólvora foi uma drástica
mudança “revolucionária”, no sentido mais preciso do termo, ainda que a discussão
de suas vantagens civilizatórias ou avanços humanitários possam ser seriamente
questionados.

Mas o fato é que aqueles guerreiros que se prepararam, anos após anos, em se
esmerar no uso de espadas, machados ou bolas de ferro, repentinamente se viram
destituídos de qualquer vantagem competitiva em relação a seus inimigos. Pode-se
dizer que a pólvora representa uma ruptura com o passado e, neste sentido, é uma
inovação que possibilitou a quem a descobriu uma inegável superioridade sobre o
outro.

Uma revolução tecnológica pode, portanto, definir um novo modo de


produção. Melhor exemplificar com algo que está na nossa consciência imaginária: no
século XVII, os meios usuais de transporte urbano eram o cavalo, o burro, as
charretes e as carruagens, geralmente puxadas por cavalos e trens se popularizaram no
Século XIX. Em 1908, quando Ford iniciou a produção de seu Modelo T, em
Detroit, Michigan, ele não apenas transformou o modo de locomoção e mobilidade
urbana e rural, mas deu início a uma nova era do petróleo, da produção em massa, e,
claro, de automóveis como meio de conduzir alguém de um lugar a outro. Produto
que se manteve, mesmo mais de cem anos depois, como o meio mais popular de
transporte, com mais de um bilhão de unidades comercializadas até hoje.14

Vamos nos ater um pouco neste exemplo comum e conhecido. O primeiro


aspecto é que houve uma mudança de paradigma (paradigma vem do grego
paradeiknumi, que significa “pôr em relação a outro; em paralelo a, mostrar,
apresentar ou confrontar algo). O paradigma é a representação de um modelo a ser
seguido e define o normal, ou seja, o modelo comum e geralmente aceito.15

Do conceito de paradigma nasce a noção de ruptura radical, o que de fato


constitui a mudança daquilo que era normal e que deixou de ser, algo como um
“novo normal”, como alguns se referem habitualmente. Mas se o normal mudou e
deixou de ser, é preciso que exista uma nova maneira de enxergar, de fazer, de usar, de
proceder etc. O novo normal muda radicalmente e a resistência inicial às mudanças
também se dissipa de forma rápida e seu custo cai radicalmente.

Schumpeter, que foi o grande intelectual do tema da inovação, entendia a


inovação como resultado do acesso a novas matérias-primas ou ao fato de novas
tecnologias estarem mais disponíveis no sentido de custo econômico.16 Portanto, não
é na gênese de uma ideia nova que se dá a revolução tecnológica, é somente quando seu
custo é baixo o suficiente para que a produção ganhe em escala e escopo.

Mas foi Carlota Perez, acadêmica venezuelana radicada no Reino Unido, a


maior estudiosa do tema das mudanças tecnológicas e das finanças em seu livro
seminal Technological Revolutions and Financial Capital, um verdadeiro clássico do
tema e, não por outra razão, resumo aqui algumas de suas conclusões.17

A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA SEGUNDO CARLOTA


PEREZ

Para Schumpeter, a relação entre o empreendedor e o financista foi pouco


explorada e aprofundada. Claro, sem capital – e crédito – não pode haver a
“popularização” dos novos paradigmas – aqui entendidos como processos ou
produtos ou qualquer outro constructo humano.18 Paradigmas tecnológicos por sua
vez são aqueles processos de desenvolvimento que encerram novas tecnologias.19

Como veremos neste ensaio, o ponto de partida é que fintechs preenchem um


importante elo entre agentes deficitários e agentes superavitários; entre uns que
compram e outros que vendem, bens e serviços.

É evidente que é difícil descrever e precisar o que é ou o que foi e aquilo que não
é ou que não foi revolucionário. Por exemplo, muitos consideram a invenção do
iPhone (da Apple, Inc.) como uma ruptura com o passado, que deu margem ao
smartphone, como nós o conhecemos hoje. No entanto, sem o microprocessador da
Intel, lançado em novembro de 1973, em Santa Clara, Califórnia, por Bob Noyce e
Gordon Moore, produzido com silício, que possibilitou o armazenamento e o
processamento de informação e de dados, não existiriam os atuais iPhones. 20

Carlota Perez se refere aos microprocessadores como a “quinta revolução” da


humanidade. A primeira foi a Revolução Industrial, alavancada pelo tear mecânico de
Arkwright, Cromford Mill. A seguir, vêm a era das ferrovias, a era da eletricidade etc.
E, para Perez, como consequência desses movimentos, nasce uma revolução da
informação. Evidentemente, pode-se classificar as mudanças tecnológicas de qualquer
outra maneira, mas, é claro, que há algumas características básicas que as definem,
com o uso da história em sua narrativa para tentar explicar o presente.21

Algumas das características fundamentais das revoluções tecnológicas podem


ser aqui descritas.

Primeiro, tem-se a redução de custos de transação ou produção em qualquer das


revoluções existentes. O custo do fenômeno do processo de quebra do paradigma
anterior cai dramaticamente. Quando os custos caem, há maior lucro para o
empreendedor, evidentemente, mas também há maior volume, já que a demanda
cresce. O fato de os custos se reduzirem faz com que novos entrantes e novos
competidores se animem a produzir, decorrendo daí, naturalmente, um ciclo virtuoso
de expansão. Mas a redução dos custos não é instantânea. Por exemplo, o petróleo já
existia antes de 1908 e muitos aparelhos elétricos como o rádio e o próprio aparelho
de televisão já haviam sido lançados bem antes de 1973. Entretanto, somente quando
o automóvel ou o microprocessador realmente romperam a barreira econômica com
menores custos, é que a revolução tecnológica pôde se instalar plenamente.22
Um segundo e fundamental aspecto em relação à revolução tecnológica diz
respeito à infraestrutura existente. Por exemplo, no caso dos automóveis, para a
revolução existir, foi preciso construir autoestradas, rodovias, postos de combustível e
criar todos os serviços de apoio.23 Na área financeira, não poderia haver
desenvolvimento do mercado de capitais sem as bolsas de valores e sem as centrais
registradoras e de custódia, e, na seara bancária, sem, por exemplo, os birôs de crédito.
Na revolução da informação que vivemos atualmente, a infraestrutura está sendo
constantemente redefinida na forma que a conhecemos hoje. Essa redefinição se dá
concomitantemente, uma no bojo da outra.

Tomemos a internet de alta velocidade ou a própria comunicação por satélite


como exemplo. Como já se afirmou, certamente não existiriam – ou se existissem,
seriam de preço inalcançável – sem a revolução inicial dos microprocessadores, mas
não se pode dizer que são a mesma coisa. Trata-se de uma revolução na infraestrutura
existente com uma consequente redefinição de seu papel.24

Em terceiro lugar, quando tratamos do paradigma do novo e do generalizado


sentido daquilo que muda e que, de gradualmente incerto, passa a se transferir para as
práticas sociais, para o campo institucional e mesmo para a própria legislação como
fonte de direito geralmente aceito, não há como não realinhar e realinhavar os
interesses econômicos, sociais e culturais.

Se há redução de custos econômicos de um lado, é evidente que há perdedores


de outro. Dor e sacrifício – e, em especial, o desemprego – são características que
definem o processo de mudança no capitalismo e o papel do Estado nesta conjunção
de fatores como agente contracíclico ainda está para ser melhor definido.25

Pode-se diferenciar os conceitos de tecnologia, de inovação tecnológica e de


revolução tecnológica. Como Schumpeter, a quem é creditado o uso do termo
“destruição criativa” – ainda que a expressão tenha aparecido pela primeira vez no
século XIX, cunhada pelo economista Werner Sombart – no sentido de que a
inovação, seja por novos produtos ou simplesmente novas maneiras de se fazer um
dado processo – está na essência do capitalismo e do progresso da humanidade.26

É bem verdade que o capitalismo ou o meio capitalista de produção é o sistema


que mais se alinha com o aproveitamento de novas oportunidades que surgem ao
permitir que outros, por assim dizer, destruam o que está sendo construído com o
novo paradigma. Mas há aqui um certo cunho ideológico de louvor ao capitalismo
em celebrar o darwinismo econômico na estreita visão de que só os mais adaptados
sobrevivem como resultado do jogo entre ganhadores e perdedores.

Kusnet, por exemplo, afirma que o círculo vitorioso do capitalismo inflama a


inovação de novos potenciais entrantes e que novos talentos surgem somente após a
revolução tecnológica se instalar; exatamente por avizinharem maiores e melhores
lucros em razão das novas tecnologias estarem visíveis, brotam novas competências.
Segundo ele, há no capitalismo três fatos certos sobre tais eventos: primeiro, não é um
movimento contínuo ou uma marcha retilínea da história; segundo, há um momento
de transição em que se convive com os dois sistemas e, finalmente, há um momento
de esgotamento da inovação implantada, vale dizer, um final em que invariável e
inevitavelmente se encerra com uma crise dantesca.27

Segundo Carlota Perez, há duas categorias nas revoluções tecnológicas: a fase da


instalação (installation) e a fase posterior, do aproveitamento (deployment). Durante
a fase inicial, que é a instalação de uma nova tecnologia, há dois movimentos
distintos: o surto da irrupção e o que ela denomina de fase posterior, o frenesi. Já no
momento do aproveitamento, há um primeiro instante de sinergias, seguida de um
platô de maturidade e de sedimentação que encerra o ciclo com o advento de novas
descobertas.28

Na era da implementação, o primeiro tempo é embrionário, é o da irrupção, que


também pode ser denominado de big bang. Irrupção, como se sabe, é sinônimo de
entrada súbita, de momento impetuoso. E a impetuosidade pode se dar de várias
formas, como, por exemplo, com um novo design, uma nova funcionalidade, ou,
ainda, com a descoberta de uma nova matéria-prima, como descreveu Schumpeter. O
que é importante na fase da irrupção é a rapidez com que ocorre o fenômeno e
também o fato de que a ideia irruptiva inflama as demais muito rapidamente.29 Há,
em geral, um momento dos próprios incumbentes – os atuais participantes do
mercado – de gerar soluções ou novos produtos, já que são eles que, de facto, têm
recursos para investir em pesquisa e desenvolvimento e podem ser os próprios players
estabelecidos, que, num primeiro momento, vão gerar a gênese do que virá a ser
revolucionário. Mas o período de irrupção é curto e, apesar de pontuado pela
criatividade, se caracteriza como a divergência e o conflito entre o novo e o velho, o
risco e a incerteza da descoberta, que levam a abrir mão de receitas estabelecidas.
O que é importante notar é que nesta fase há investimento, há recursos, mas há
também uma certa sincronia entre o crescimento de uma nova indústria e o rápido
declínio de outra. Como é sempre difícil, como testemunhado pela história no curto
prazo, os incumbentes não querem abrir mão de seu status quo em nome de algo que
não dominam. E, principalmente, de algo que contradiz o sucesso que os levou até
aqui. Tudo isto faz com que as críticas se ampliem e a troca de tecnologia não possa
ser plenamente realizada.

Já num segundo momento, o do frenesi, a instalação se completa com a tomada


pelo capital financeiro. É aqui que entram o capital e a especulação, no sentido
keynesiano do termo. O capital ocupa todos os espaços. Há, concomitantemente, a
exploração de todas as possibilidades que se abrem pela revolução tecnológica, mas,
num processo dicotômico de tentativa e erro, de acerto de escopo e de foco, de
intensificação e criação de nova infraestrutura.

O frenesi também se caracteriza pela feroz competição de muitos investidores e


pelas investidas de financistas ofertando novos produtos e serviços, sem nem saber
direito quais são as suas funcionalidades ou sequer ter dimensão de seu alcance, muito
menos imaginando onde aquilo tudo acabará. É neste momento que ocorre o que
Carlota Perez denomina de “ponto da virada” ou turning point (ponto de inflexão),
que separa, ao menos conceitualmente, o momento da implementação do momento
do aproveitamento dos recursos. É também nesse momento que a tecnologia passa a
integrar o “bom senso”. Diz-se conceitualmente, já que, na prática, a distinção entre o
frenesi e o momento seguinte, de aproveitamento dos benefícios da revolução
tecnológica, a sinergia, pode ser relativamente longo.

As tensões no capitalismo conduzem à decadência e à crise, momento em que as


oportunidades surgem mais uma vez num ciclo que nunca se acaba e, como lembrou
Karl Marx: “tudo o que é sagrado” seria “profanado” e “tudo que é sólido derreteria
no ar”.30

Mas o frenesi – e aqui, em uma conclusão precipitada deste primeiro ensaio, o


momento atual das fintechs no Brasil – é intenso e agudo, tanto em concorrência
como em possibilidades criativas. Nada mais motivador do que o sucesso do outro,
especialmente quando o sucesso se dá na forma monetária e traz riqueza ao
empreendedor.
Poderíamos resumir da seguinte forma o que foi dito até aqui, numa espécie de
“ciclo de vida da revolução tecnológica”, mas que é entremeado por momentos
pontuais anteriores ao início de cada uma das suas fases características:

Instalação

1) Fase Pré-Irrupção: gestação e criação de condições necessárias para a


configuração de um novo paradigma.

2) Fase de Irrupção: a efetiva descoberta de uma nova ideia.

3) Fase Pré-inicial: novos produtos e novos participantes surgem na indústria.


Há um crescimento explosivo e a possibilidade da inovação se torna mais real.

Aproveitamento (“Deployment”)

4) Fase do Frenesi: momento da explosão de novos entrantes e concorrentes.

5) Fase da Expansão: crescimento e início da consolidação de novas indústrias,


sistemas e tecnologias, novas infraestruturas surgem com o sucesso de novos
produtos e a modernização dos parques existentes.

6) Fase das Sinergias: o mercado e o potencial de mercado se expandem


rapidamente e alianças estratégicas são celebradas para otimizar ganhos de
eficiência ou mesmo maximizar a lucratividade existente.

7) Fase da Maturidade: últimos produtos do ciclo aparecem e, mais uma vez,


desaparecem. Mercados tendem à saturação e à completude.

No período de instalação ou implementação, há a disrupção seguida do turning


point. Muitos podem entendê-lo como um momento único, a data de um
determinado evento ou o lançamento de uma ideia “revolucionária”, o que pode não
ser preciso, já que não é claro para ninguém quanto e quando o movimento é de fato
disruptivo. Em outras palavras e numa analogia às bolhas econômicas já
exaustivamente estudadas: só se sabe que o momento em que se vive é uma bolha
depois que ela estoura. Aqui vale o mesmo: só se sabe o que é disruptivo, depois que a
disrupção de fato ocorre. O momento da disrupção em si traz sempre promessas,
apesar de poder provocar grandes ou pequenos impactos. Somente ao final do
período de implementação é que a realidade se impõe e a revolução ganha força e
tração e passa a ser generalizadamente aceita como um novo estágio.

Já o deployment, ou o aproveitamento dos recursos, é o período de grande poder


transformador, de mudanças de paradigma e do novo “normal”. Como se refere
Carlota Perez, há um momento “modernizador”, já que a tecnologia passa a gerar
aquilo que é produtivo, que é de fato inteiramente redesenhado, inclusive com novas
áreas urbanas se tornando polos fabris ou laboratórios daquela nova tecnologia.31

Perez se vale também do conceito schumpeteriano de “destruição criativa” para


fazer um retrato da revolução tecnológica e aplicá-lo aos momentos atuais, ainda que
sua explicação sempre de dê através da história. Aqui, temos uma divergência quanto
ao modo geral das revoluções tecnológicas: elas podem ter características iguais, mas é
evidente que o que ocorreu no século XIX não aconteceu antes, e o que vier a
acontecer no século XXII também só será criado naquele momento. Insiste-se que
pode mesmo existir um padrão genérico do velho contra o novo e um certo
comportamento cíclico em relação às bolhas econômicas, entre outras características
apontadas por ela. Mas há muitas outras divergências novas na história – em especial
as ideológicas – que tendem a nublar o horizonte com o discurso de um certo novo
capitalismo, críticas à acumulação de lucros, redistribuição e concentração
econômica, que pela primeira vez estão sendo expostas e debatidas com a intensidade
(e popularidade) dos dias atuais.32

Mas é verdade que se trata de um processo circular – o automóvel


proporcionou a infraestrutura de rodovias e a primeira indústria do petróleo e a sua
evolução é constante – por exemplo, a infraestrutura precisa ser continuamente
atualizada e conservada e os carros também, tornando-se elétricos ou híbridos, como
se vê atualmente.

No momento do frenesi, é que se tem contato com as finanças. Não que não se
possa falar em finanças antes ou mesmo no período inicial. Há finanças sempre e todo
o tempo. Mas é no período de frenesi que o financiamento de projetos se torna
corrente e há um certo clima de “excitamento” (para não dizer de deslumbramento)
com a análise da viabilidade de tais iniciativas.
É nesse momento que nascem alianças entre financistas e tecnologias. A
justificativa é explorar todas as possibilidades em razão do excesso de capital – o que
acontece invariável e inevitavelmente antes e depois de qualquer recessão econômica
– explicando em parte os ciclos econômicos – com ondas de tentativa e erro entre
todas as possibilidades de curso e produtos.

Tome-se por exemplo o caso dos aplicativos de transporte. Todos se diziam


satisfeitos com o sistema de táxis até aparecer um tipo (ou vários) de aplicativo que
facilita os deslocamentos sem que precisemos ficar na calçada como perfeitos idiotas
com “o braço esticado na chuva”, como lembrou o semanário The Economist.33

O momento da virada, ou do turning point, é que dá início ao deployment, que


também não é um instante único, mas um movimento que tende a aclamar ou a
sedimentar o período do frenesi, ainda que os dois possam se sobrepor e existir
concomitantemente.

Carlota Perez afirma que é nesse momento do ciclo que a atividade produtiva
floresce e novos negócios se consolidam, com um maior nível de emprego. A lógica
implementada é considerada o modelo supremo, que ela resume como o tempo do
“porvir” e “da esperança”.34

Finalmente, a fase da maturidade, que, para Carlota Perez, é um tempo para o


questionamento e para a complacência – ou quando o ciclo volta ao seu ponto de
partida. Há aqui dúvidas quanto ao modelo adotado, que passa a ser ferozmente
contestado. Tal questionamento leva inevitavelmente à crise, dando início a uma
nova fase: a da “destruição criativa”.

FINTECHS: CONCEITO

Uma vez tendo desenhado a concepção genérica das revoluções tecnológicas, é


hora de centrar nossos argumentos no conceito das fintechs.

No prólogo deste livro, definiram-se as fintechs como portais virtuais de


aplicação, crédito e serviços financeiros, sem a necessária presença física do cliente ou
mesmo a entrega de documentos em papel para cadastro, e realização de operações
bancárias variadas. Lembrou-se também a origem do termo: junção dos vocábulos
financial (financeiro) e technology (tecnologia), que é explicável por si só, mas que
decididamente tem uma infraestrutura matriz onde as fintechs existem (e florescem): a
internet.35

O primeiro ponto óbvio é que, sem internet, não haveria fintechs. Mais do que
isso, sem internet e banda larga, fintechs não seriam competitivas nem teriam
qualquer vantagem competitiva sobre o sistema físico de redes bancárias. E, além da
infraestrutura ter que existir e ser veloz, é absolutamente fundamental que seja segura
e confiável, fácil de implementar e simples de usar.

A revolução tecnológico-financeira, como já dito, depende diretamente da


informação baseada em softwares e internet, mas tem, além disso, necessidade de se
integrar a uma rede cujos componentes e membros participam sempre de modo
descentralizado. A ideia e a noção de “rede” se sobrepõem, ainda que não se oponham
completamente como sistema, ao “indivíduo”, trataremos disso mais adiante.

Atualmente, a informação está em rede e a operação bancária (até pelo sigilo


envolvido) é exclusiva e individual. A comunhão entre algo que é coletivo com algo
intrinsecamente pessoal e individual não é trivial; sendo até mesmo é inusitado na
história humana e, não por outra razão, a quantidade de serviços e propósitos que
unem um ao outro representa de fato um novo paradigma. A nova LGPD, sigla
adotada para designar a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei n. 13.709, de 14 de
agosto de 2018.36

Outra característica das fintechs diz respeito ao seu verdadeiro capital, e aqui
num sentido mais amplo. O verdadeiro capital das fintechs não é o seu patrimônio
líquido ou o seu volume de clientes, mas é a informação e o conhecimento de seu
público aliados à criatividade na busca de soluções.

Há, então, um alto volume de capital intangível que passa a ser adicionado ao
seu valor e à sua marca. Há ainda movimentos de diversidade, adaptabilidade e
heterogeneidade em todos os momentos, tratados mais adiante nos demais ensaios.

Quando se trata de fintechs, também é necessário pensar em segmentação de


mercado e proliferação de nichos. Economias de escala e de escopo e de especialização
são combinadas com processos globais de interação entre o global e o local, e,
finalmente, sobre clusters de competição que instantaneamente se instalam.
As fintechs surgiram inicialmente das lacunas de serviços financeiros que
existiam. Não há uma inovação no sentido funcional – crédito é crédito e custódia
permanece custódia. Mas a prestação dos serviços financeiros se dá de um modo
inteiramente diferente.

Se há uma fase inicial de irrupção, na classificação de Carlota Perez, a maior


intensidade na inovação dos serviços financeiros (por exemplo, em crédito ou
câmbio) se dá no momento do frenesi, em que ocorre sua ampla generalização,
justificada, principalmente, pelo preço praticado (e, consequentemente, nas margens
de lucro) ao consumidor.

As margens no Sistema Financeiro Nacional (SFN) sempre foram elevadas tanto


em razão da concentração bancária quanto em razão dos elevados custos da
intermediação financeira, aqui incluídos os custos operacionais, os custos de
inadimplência e todos os demais riscos de crédito.

Neste momento, todos querem ser uma fintech – e não é por outra razão que,
das startups desenvolvidas em 2019, mais de 60% eram de fato fintechs.37

CAPITAL FINANCEIRO, CAPITAL PRODUTIVO E


ESPECIALIDADE DA ATIVIDADE BANCÁRIA

Se há ampliação do número de participantes, há mais capital financeiro


envolvido, especialmente numa atividade que é, por excelência, dependente de
capital.

Conceitualmente, há uma distinção entre capital financeiro e capital produtivo,


que, a meu ver, é parcial, senão inteiramente defasada. Para muitos, capital financeiro
é a riqueza na forma de ativos, que podem rapidamente se tornar líquidos, na forma
de moeda. Já capital produtivo é aquele que gera nova riqueza para produção de
novos bens e serviços. O capital financeiro seria improdutivo no sentido de que ele
não gera mais riqueza, salvo na sua forma parasitária, que seria o rendimento (juros e
seus frutos, como os dividendos).

Há um nítido condão ideológico na definição: um é especulativo, nocivo,


aproveitador. O outro é bom, útil e gerador de empregos e fábricas. E é evidente que a
distinção tem origem no século XIX com Marx e Engels, entre outros pensadores,
mas também está nas relações entre metrópole e colônia e, ainda no século XX, entre
países desenvolvidos e emergentes.38 Talvez, na história do capitalismo, a distinção
tenha feito sentido, mas com a globalização econômica, com o crescimento dos países
emergentes, em especial, a importância geopolítica e econômica da China, enfim, com
tudo o que se sabe atualmente, a distinção é anacrônica. Todo capital é financeiro;
claro, seu uso pode ser de curto, médio ou longo prazo, mas, por definição, ele é
acumulativo e ínsito a produzir resultado na forma de lucros ou dividendos.

Capital é capital, se é na forma de moeda, ouro, debêntures ou ações, em nada


ele se distingue do capital na forma imóvel, na forma de prédios, máquinas ou mesmo
patentes farmacêuticas que salvam vidas. Capital pode, sim, ser tangível ou intangível.
Moeda é capital tangível; marca é intangível, mas pode ser monetizada e mesmo
contabilizada.

Isso é diferente de discutir o uso que se dá ao capital: e aí, sim, o capital


financeiro era exclusivamente de seu detentor; sua função (e não sua definição) era
multiplicar-se e aumentar. Atualmente, se dá ao capital muitas outras funções,
inclusive um relevante aspecto social e sustentável. Vamos voltar a essa discussão no
terceiro ensaio, “Inclusão, sustentabilidade e rentabilidade”.

De toda forma, a relação entre capital e tecnologia não é óbvia. Por certo que
toda inovação tecnológica necessita de capital, de investimento em pesquisa e
desenvolvimento, e todas essas atividades demandam crédito e linhas de investimento
no lançamento de produtos e na sua comercialização. E ainda de certo arcabouço
institucional, como nos ensinou Douglass North, como, por exemplo, a proteção ao
direito de propriedade. 39

O conceito de seed capital é exatamente este, vale dizer, o financiamento


destinado a projetos e empresas iniciantes, startups, ainda em fase de concepção e
planejamento, em que investidores aportam capital e empreendedores aportam
“conhecimento”.

Mas o conhecimento é capital? Claro que não é, mas o conhecimento produtivo


pode se tornar capital se vier a dar base ao empreendedorismo. É o conhecimento
aplicado a determinada atividade econômica que produz receita, gera despesas e
resulta em superávit, ou lucro.
Portanto, melhor que tentar definir um ou outro tipo de capital, melhor é olhar
o assunto pelo prisma da atividade econômica, no seu aspecto funcional.

É sabida, e ressabida, a definição jurídica de atividade: sequência de atos


coordenados em vista de um determinado fim; atos que têm natureza ampla e que
podem ou não se tornar negócios jurídicos. Por sua vez, os fins de qualquer atividade
devem ter três características para ser considerados privativos da entidade empresarial:
economicidade, profissionalidade e organização. É a entidade empresarial em
funcionamento que, se bem-sucedida, fará uso do capital.

Fintechs têm na especialização funcional, que aqui se pretende descrever, o


papel de bancos. É claro que fintechs não são bancos na precisa acepção jurídica do
termo, mas economicamente prestam a mesma função ao abranger produtos e
serviços financeiros. Fintechs são bancos digitais na sua concepção mais ampla, ainda
que possam existir aquelas que não são bancos ou mesmo bancos que não são
estritamente bancos (non-banks banks), assim como nem todo banco é digital e nem
toda fintech é arranjadora ou instituição de pagamento. Mas todo banco presta
serviços financeiros e oferta produtos bancários.

Tome-se, por exemplo, os correios ou o sistema postal. Em muitos países, como


o Japão, os correios servem como bancos. Recebem depósitos, intermedeiam
empréstimos, pagam saques e aplicam recursos. Mas não são bancos, da mesma forma
que casas lotéricas ou padarias não são bancos, mas correspondentes bancários. Não
se desconhece o alcance da definição de instituição financeira estabelecido na Lei
Complementar n. 105/2001, mas, para este admirável mundo novo das fintechs,
bancos não são apenas aqueles que têm autorização nos termos das Res. CMN
4.122/2012, Res. 2.788/2000, Res. 3.426/2006 ou mesmo da própria Lei
4.595/1964, no seu art. 10, X, a, com a redação dada pela Lei 7.730/1989. Voltaremos
também a este debate no último ensaio do livro, “Regulação, supervisão e
convergência”.

Vale notar aqui o conceito de especialização da atividade bancária. A natureza


bancária é específica por uma razão muito singela, apontada por David Ricardo, e
citada por Walter Bahegot: a confiança. “A característica distintiva do banqueiro”,
afirma Ricardo, “inicia-se enquanto ele usa o dinheiro dos outros; enquanto usa o seu
próprio dinheiro, ele é somente um capitalista”.
Há outras razões da especialidade bancária. Uns afirmam ser em razão da
assimetria informacional e à natureza incompleta dos contratos bancários. Os
depositantes não têm condições de avaliar de forma mais apurada ou precisa a
solvência de uma dada instituição (entendendo-se solvência como capacidade de
liquidar ativos para honrar passivos), visto que desconhecem tanto as operações ativas
dos bancos como suas operações de tesouraria, e porque sabem que os bancos
oferecem contratos líquidos e certos de depósito, por um lado, e emprestam de modo
incerto, por outro. Restam, destarte, ressaltar duas consequências: a primeira é a
regulação com o objetivo de suprir e superar a deficiência informacional; a segunda,
um certo monitoramento dos agentes econômicos com caráter avaliativo, mediante
determinados sinais. Também voltaremos ao assunto no último ensaio.

Os bancos são especiais porque, para a sociedade, e sob o ponto de vista


macroeconômico, há grande relevância dessas instituições no sistemas de poupança e
de crédito e como participantes ativos nos meios de pagamento. Tanto o crédito
como o sistema de pagamentos representam o verdadeiro oxigênio da economia.

A especialidade do negócio bancário privado também apresenta características


muito determinadas para a concessão de crédito: a habilidade de pagamento do
futuro mutuário; seu caráter e histórico de crédito e, finalmente, as condições de
garantias subjacentes ao negócio. No entanto, a correta concessão de crédito implica
boa prática bancária – baixa concentração em determinados clientes ou setores da
economia–, além de expansão cautelosa e um controle rigoroso do perfil e dos
descasamentos entre ativos e passivos da instituição.

Portanto, depois desta necessária digressão, vamos usar a expressão “banco


digital” para toda e qualquer fintech, por uma questão de liberdade didática deste
ensaio. Bancos regulados ainda são – e serão por muito tempo – intermediários
financeiros por excelência. Portanto, insiste-se, agentes financeiros regulados e
autorizados precisam de regulação, como se verá no último ensaio. Mas fintechs ou
bancos digitais, numa dada economia, nada diferem dos bancos tradicionais, além da
autorização estatal. Todos desempenham o papel de intermediadores de recursos ou
de disponibilidades de liquidez, repassando-os das unidades superavitárias para as
deficitárias; são também transmutadores de ativos, em que créditos com determinadas
características de vencimento, risco, volume ou liquidez, entre outras, podem ser
transformados em aplicações diversas ou financiamento de bens (por exemplo,
depósitos de poupança que se convolam em crédito habitacional). Finalmente, os
bancos, no sistema financeiro, servem de palco para compensações entre seus diversos
agentes, função também conhecida, lato sensu, como intermediador dos meios de
pagamentos.

Por exemplo, a figura do correspondente bancário no Brasil, regulamentada por


resolução, pôs ordem num sistema caótico de banqueiros sem bancos e comerciantes
bancários.40

Assim, no sistema capitalista, instituições financeiras, gênero do qual bancos e


seus assemelhados são espécie, agentes econômicos, públicos ou privados, têm três – e
somente três – atividades – com resultados e fins que lhes proporcionam sua
finalidade e intuito de lucro.

Primeiro, a intermediação, o principal e maior negócio dos bancos, que, no


mundo inteiro, é tradicionalmente ligada ao crédito e ao recebimento de depósitos. A
maior parte da rentabilidade bancária advém da diferença cobrada entre as taxas de
captação e as taxas de remuneração, no trinômio clássico, também abarcada pela
definição legal brasileira, que conta com aspectos como captação, intermediação e
aplicação.

Ainda que possa haver outros participantes na captação dos depósitos do


público em geral, especialmente na indústria de fundos em condomínio, grande
receptadora de recursos em caráter fiduciário, os bancos são, por natureza,
intermediários entre agentes superavitários e deficitários. É sempre, e em qualquer
lugar, uma relação indireta, já que quando recursos são captados diretamente do
público poupador, o banco assume a posição de devedor, bem como ao repassar os
valores captados para terceiros através de relações de crédito, a nova relação creditícia
só pode, legalmente, estar no âmbito do mercado financeiro.

Nesta mesma toada, bancos podem intermediar ativos, comprando títulos


evidenciadores de dívidas de uns e vendendo a outros. Apesar disso, é claro que
sociedades empresárias não bancárias (como as asset managements) também fazem o
mesmo.41

Bancos também operam e investem os próprios recursos. Esta atividade é


conhecida como sendo própria e particular de “tesouraria”, denominação criada por
ser esse o departamento responsável pela preservação do capital do banco como
princípio fundamental de gestão prudente do risco e do caixa. As operações de
tesouraria nada mais são do que as do próprio banco, em nome e de interesse próprio,
adquirindo certos créditos ou ativos, para, atendendo à estratégia financeira
desenhada pela administração, proteger – ou fazer crescer – o patrimônio líquido da
instituição, aplicando o saldo de disponibilidades e, eventualmente, com isso,
gerenciar o risco do descasamento entre ativos e passivos bancários. O objetivo final
das operações de tesouraria atendem ao seu próprio proveito, já que se referem ao uso
de seus próprios recursos em benefício próprio (ou, ao menos, correndo o risco de
contraparte, se os recursos forem de terceiro).

Finalmente, bancos prestam serviços. Desde o tradicional serviço de custódia de


valores de propriedade de terceiros, de que trata a Lei n. 4.595, até os já quase
esquecidos serviços de guarda de valores em cofres.

Atualmente, está em vigor a Resolução do CMN n. 3.919, de 25 de novembro


de 2010, que sistematizou a matéria e classificou os serviços prestados por bancos em
quatro formas distintas: serviços essenciais, prioritários, especiais e diferenciados.

Serviços essenciais são aqueles ligados às contas de depósitos, saques, transações


com cartões eletrônicos e cheques, enfim, imprescindíveis para a movimentação e
controle de uma conta bancária.

Serviços prioritários são aqueles relacionados à padronização dos vários fatos


geradores da atividade bancária, mas usualmente relacionados a cadastro,
transferência de recursos e operações de crédito e arrendamento mercantil, além de
operações de câmbio.

Já serviços especiais são aqueles que a legislação e a regulamentação específicas


definiram como tal, por exemplo, os serviços que os bancos prestam ao crédito rural,
ao Sistema Financeiro da Habitação, ao FGTS etc.

Há, ainda, os serviços diferenciados, entre os quais, e de forma explícita no


regramento citado (inciso V, da Res. CMN n. 3.919),incluem-se as garantias pessoais
(aval e fiança). Serviços diferenciados são aqueles que as pessoas naturais contratam
com os bancos na condição de usuários, admitindo-se a cobrança de tarifa como sua
contraprestação, desde que explicitadas ao cliente formal e expressamente por meio de
instrumentos de contratos particulares.
Logo, há uma fácil definição para fintechs – ao menos do ponto de vista
funcional – que é prover capital (financeiro ou produtivo, já discutidos) aos
empreendedores. Mas, como já citado, o relacionamento entre capital e tecnologia é
mais sofisticado do que apenas prover linhas de crédito e financiamento.

Fintechs requerem capital para investir principalmente no convencimento do


cliente, vale dizer, no esforço mercadológico, já que a tecnologia, ad initio, já foi paga.
Ou, em outras palavras, uma vez implementados determinada tecnologia, processo ou
produto, seja na fase do frenesi, seja na etapa de obter as sinergias, é preciso escalar. E
escalar – ou aumentar – significa um maior número de clientes. É, portanto, um
processo de massificar a atividade econômica.

O conceito de escalabilidade é um dentre outros conceitos emprestados da


teoria de sistemas, que estabelece que, em qualquer sistema, rede ou processo, é
desejável, por razões econômicas, aumentar a carga total de forma uniforme à
capacidade . E daí derivam dois conceitos subcategorizados: escalonar
horizontalmente (ou scale out/in), ou seja, adicionar (ou remover) nós ou partes a um
dado sistema da rede e compartilhá-lo com desempenho melhor. Já escalonar
verticalmente (ou scale up/down) significa adicionar recursos (ou remover recursos) a
um único nó ou a única parte de dado sistema. Ou seja, escala-se horizontalmente
quando se utiliza mais computadores para um dado projeto e verticalmente quando
se acrescenta mais capacidade de processamento e memória num mesmo computador.

Fintechs precisam escalar, vertical e horizontalmente, para obter economias de


escala e de escopo, reduzir custos de transação e se tornar o modelo “normal” de uso.
E, para escalar, é preciso capital. Para conquistar mercado, é preciso capital. Para
sobreviver à fase inicial de custos pré-operacionais, é preciso capital. E para ter colchão
de risco – no caso de crédito–, também é preciso capital para provisões. O capital vem
de empreendedores e de investidores e é o principal motor para que o negócio possa
avançar.42

CLASSIFICAÇÃO DAS FINTECHS NO BRASIL:

Apenas por uma questão de sistematização, fintechs têm sido categorizadas em


dez diferentes áreas, de acordo com o Report Fintechlab, de 2017, que é aceito como
a mais atual forma de classificação dos empreendimentos de fintechs no Brasil: 43
“1. Pagamentos: empresas especializadas em oferecer soluções de pagamentos para
pessoas físicas e jurídicas nas áreas de adquirência, infraestrutura, e-commerce, gateways
de pagamento on-line, liquidação, depósitos diretos, mobile POS, mobile wallet,
agregadores de cartão de crédito, cartões de crédito, débito e pré-pagos;

2. Gestão financeira: empresas especializadas em oferecer soluções de gestão financeira


para pessoas físicas e jurídicas, tais como soluções para gestão de finanças pessoais,
controle de despesas, gestão de orçamentos, otimização de recompensas/benefícios de
cartão de crédito, suporte de gestão para pequenas e médias empresas, ferramentas para
gestão fiscal, folha de pagamento, faturamento e contabilidade;

3. Empréstimos: empresas especializadas em oferecer soluções de empréstimos


alternativos para pessoas físicas e jurídicas, tais como P2PL e microfinanciamento;

4. Investimentos: empresas especializadas em oferecer soluções de investimento para


pessoas físicas e jurídicas, tanto na área de análises e recomendações como na de gestão
de portfólio utilizando técnicas fundamentalista e/ou técnica (baseada em algoritmos);

5. Funding: empresas especializadas em oferecer soluções de investimento coletivo para


novos produtos, causas sociais e projetos criativos, de modo que tanto pessoas físicas
como jurídicas possam levantar recursos em troca de capital próprio (equity
crowdsourcing), bem como permitir que investidores também possam participar do
mercado de títulos privados;

6. Seguros: empresas especializadas em oferecer soluções de análise e escolha dos


melhores seguros para pessoas físicas e jurídicas, oferecendo ferramentas de análise on-
line, comparação de valores e serviços, simulações, análise de perfil do segurado,
atendimento via chat e até mesmo contratação 100% on-line de um seguro;

7. Negociação de dívidas: empresas especializadas em oferecer soluções de negociação


de dívidas para pessoas físicas e jurídicas, envolvendo desde a análise do perfil de risco
atual até a renegociação direta da dívida com os credores credenciados;

8. Cryptcurrency & DLT (Distributed Ledger Techonologies): empresas especializadas


em oferecer soluções de moedas digitais, tais como bitcoin, litecoin e dodgecoin, bem
como infraestrutura para a negociação dessas moedas, com iniciativas de suporte a
redes descentralizadas públicas e privadas onde o blockchain se insere;

9. Câmbio: empresas especializadas em oferecer soluções de troca de moedas, sejam


moedas reais (ex. real/dólar), sejam moedas reais e digitais (ex. real/bitcoin), tanto para
pessoas físicas como jurídicas;
10. Multisserviços: empresas que oferecem dois ou mais tipos de serviços listados acima
em diferentes categorias.”

Na Europa, o modelo foi classificado em dois grandes grupos: o provedor de


serviços de informações de contas-correntes e o de meios de pagamento propriamente
ditos. Os primeiros são aqueles que oferecem serviços de acesso à informação (e
consolidação dos dados) de uma dada conta-corrente dos clientes bancários,
enquanto os segundos tratam do fluxo dos meios de pagamento, em especial, os
cartões de débito ou crédito.

CONCLUSÃO DO ENSAIO I

Finalmente, em que estágio estão nossos empreendimentos, vulnerabilidades e


perspectivas considerando a conceituação, a classificação e a especialização aqui
expostas.

A primeira indagação é se estamos no centro de uma revolução tecnológica.


Como afirmado no prólogo deste livro, estamos no epicentro de uma revolução
tecnológica, numa revolução em si ou no limiar de uma nova revolução tecnológica?

O conceito de revolução vem do latim revolutio, ato de dar voltas’, cuja origem é
revolutus, particípio passado de revolvere (‘virar, dar voltas, girar). O prefixo -re
significa “de novo”, indicando um movimento orbital, ou mesmo uma rotação em
torno de um eixo.

Revolução traz em sua definição também a designação de revolta, de


necessidade de mudança contra o status quo, seja econômico, político, moral, seja
cultural. Revolução é então uma transformação profunda que afeta tudo e todos .

Mas se uma revolução implica nova ordem, não é exatamente isto que se
vislumbra nas fintechs. Pagamentos instantâneos, open banking, bitcoins etc.
certamente são novas tecnologias que têm a função de servir à mesma atividade
bancária de intermediação, coleta e aplicação de recursos, por um lado, e prestação de
serviços de custódia e transmutação, por outro. Seria revolução se a moeda como nós
a conhecemos fosse substituída. Ou se o crédito fosse substituído por qualquer outra
contraprestação além da pecuniária. Trata-se, portanto, de um modo novo de operar
e de os participantes da indústria se relacionarem com seus clientes. Mas o que
determina a revolução tecnológica neste caso é a revolução dos dados, o big data, a
grande quantidade de dados de usuários, de consumo etc. que estão disponíveis e
desestruturados, mas cuja análise já vem sendo feita com as ferramentas de inteligência
artificial que estão surgindo.

Portanto, fintechs, aqui para nós, significam uma inovação absolutamente


fundamental e inusitada de processos, não se tratando, porém, de uma revolução
tecnológica, como as quatro descritas por Carlota Perez. Estamos, sim, no início de
um processo de instalação de um movimento maior, a revolução dos dados, que pode
representar uma radical mudança na vida individual e na sociedade moderna. Tal é o
tamanho da ameaça que provocou insuspeitos capitalistas, como Bill Gates, a
proporem a taxação pelo uso de robôs.44

É claro que o Brasil também passa pelo momento inicial da instalação das
fintechs, ainda que não seja revolucionário, mas está em processo de evolução.
Podemos entender tal momento como especificamente o momento do frenesi.
Algumas justificativas claramente o definem:

a) A quantidade de novos participantes;

b) O capital financeiro disponível para desafiar o atual modelo do Sistema


Financeiro Nacional;

c) As promessas de um mundo novo e admirável, com crédito abundante e


serviços gratuitos para todo o sempre;

d) A falta de um planejamento estratégico nas políticas públicas que claramente


possam indicar uma arquitetura mais robusta e sustentável com propósitos
melhor definidos baseados em uma análise quantitativa estocástica;

e) A indefinição de receitas e de lucratividade nos produtos ofertados por um


lado, e a elasticidade na demanda, por outro;

f) O crescimento na infraestrutura de meios de pagamentos, em especial, como


avenida para a atuação das fintechs.
Vamos pensar primeiro na temática da regulação como condutor e indutor do
momento atual do frenesi das fintechs (retomaremos o assunto no último ensaio,
“Regulação, supervisão e convergência”).

Se as fintechs não são uma revolução tecnológica, mas um movimento de


inovação de um processo dentro de algo mais amplo, aqui – como em outras partes
do mundo – o papel do Estado foi de impulsionar e patrocinar a mudança.

O Estado pode regular os agentes econômicos por uma série de motivos: porque
sofre influência de grupos de pressão para defender o interesse específico da indústria
regulada, ou porque tem objetivos políticos próprios, por exemplo, quando visa se
legitimar no poder ou se (re)eleger. Usualmente, é sobre essas motivações que se
debruçam os cientistas políticos. Os economistas, por seu turno, se interessam pela
regulação como um instrumento que pode aumentar a eficiência econômica, vis-à-vis
uma situação em que o mercado funciona sem interferência, enquanto os juristas
olham a regulação como a forma de criar regras de conduta e dotá-las de sanção para
que sirvam de incentivos a todos. Em teoria, é sempre possível ao Estado utilizar a
regulação com esse fim. Mas no tema das fintechs, a regulação é usada como motor de
inovação, por um lado, mas, por outro, como estratégia deliberada de aumentar o
número de entrantes e ampliar ainda mais o frenesi existente.

As justificativas da estratégia oficial desse mundo idealizado são três. Primeiro,


nada seria necessário se:

(a) não houvesse entre agentes econômicos interações que não fossem
intencionais e de comum acordo;

(b) a informação fosse total e igualmente disponível para todos;

(c) houvesse um número muito grande de empresas competindo em condições


semelhantes, em cada mercado, para ofertar para um número também elevado
de consumidores parecidos.

Como as três hipóteses existem na realidade, a regulação como motora da


inovação se explica e se justifica. Fintechs são inovações que só se tornaram possíveis
com a escalabilidade e uma nova perspectiva do consumidor.
O próximo ensaio, “Modularização, Tecnologia e Inovação”, trata do tema do
ponto de vista da oferta de produtos e serviços financeiros em seu ecossistema maior,
tanto pelo viés das estruturas verticais quanto das modulares. Quanto é preciso inovar
e qual é a tecnologia proprietária que permite vantagens competitivas? Quanto é
requerido em padronização para que tal tecnologia possa ser mais eficiente? Estas e
outras indagações são discutidas no segundo ensaio deste livro.
[14] O número aproximado é de um veículo para cada sete habitantes no planeta. Vide:
<www.noticiasautomotivas.com.br/o-mundo-ja-tem-mais-de-1-bilhao-de-veiculos>.
[15] Quem melhor tratou do assunto foi: Thomas KUHN. The structure of scientific revolutions. Chicago:
Chicago University Press, 1962.
[16] Joseph A SCHUMPETER. Teoria do desenvolvimento econômico: uma investigação sobre lucros, capital,
crédito, juro e o ciclo econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Coleção Os Economistas)
[17] Carlota PEREZ. Technological Revolutions and Financial Capital. The dynamics of bubbles and golden ages.
Northampton : Edward Elgar, 2002.
[18] Op cit. p. 90
[19] Simon KUZNETS. Modern Economic Growth: Findings and Reflections. In: Population, Capital and
Growth: Selected Essays. New York: Norton, 1973.
[20] Op. cit., p. 11-12.
[21] Op. cit., p. 18 e ss.
[22] Op. cit., p. 26 e ss.
[23] Op. cit. p. 34 e ss.
[24] Op. cit. p. 36 e ss.
[25] Op. cit. p. 217.
[26] Op. cit. p. 22.
[27] Op. cit. p. 36 e ss.
[28] Op. cit. p. 37
[29] Op. cit. p. 38
[30] Karl MARX; Friedrich ENGELS,. Manifesto comunista. São Paulo: Edipro, 2015.
[31] O melhor exemplo aqui é o Vale do Silício, na Califórnia, Estados Unidos.
[32] Vide o movimento Occupy Wall Street e sua repercussão. Trata-se de um movimento de protesto contra o
setor financeiro nos Estados Unidos.
[33] The Economist, 02/05/2019.
[34] Op. cit. p. 62 e ss.
[35] Peter KNIGHT. Sunday Times 1980. Citicorp projeto com terceiros. Fórum econômico mundial: refere-se ao
uso inovador de tecnologia e criação de produtos e serviços financeiros. 1990.
[36] O principal objetivo da LGPD é garantir transparência no uso dos dados das pessoas físicas em quaisquer
meios. A nova lei alterou a Lei n. 12.965, de 23 de abril de 2014, popularmente chamada de “Marco Civil da
Internet”, que regulava essas relações até então. Vide Ensaio V deste livro.
[37] Fonte: O Estado de S. Paulo. 09/01/2020.
[38] Marx, por exemplo, afirmava que previu que o capitalismo destruiria todos os remanescentes do feudalismo.
Rasgaria em pedaços “os heterogêneos laços feudais que ligavam o homem a seus superiores naturais”, nas palavras
do Manifesto Comunista. Afogaria êxtases de fervor religioso e entusiasmo cavalheiresco nas “águas geladas do
cálculo egoísta”. E submeteria todas as instituições nacionais à lógica revolucionária do mercado global.
[39] NORTH, D. C. Institutions, institutional change and economic performance. Cambridge: Cambridge
University Press, 1990.
[40] Vide Resolução n. 3.954/2011.
[41] Instrução CVM 558, de 26 de março de 2015, com alterações posteriores pelas Instruções CVM n. 593/17,
597/18, 604/18 e 609/19.
[42] Jean SIGRIST. Fintechs entregam o que o cliente quer’, diz sócio-diretor do Neon. Entrevista ao jornal O Estado
de S. Paulo. 18/01/2020
[43] Fonte: FINTECH LAB. Report Fintech Lab, 2017, 2017. Disponível em: <http://fintechlab.com.br/wp-
content/uploads/2017/02/Report_FintechLab_2017-2.pdf>. Acesso em: 8 fev. 2020.
[44] “The robot that takes your job should pay taxes, says Bill Gate”. Quartz, 17 fev. 2017. Disponível em:
<https://qz.com/911968/bill-gates-the-robot-that-takes-your-job-should-pay-taxes/>. Acesso em: 11 fev. 2020.
ENSAIO 2: MODULARIZAÇÃO, TECNOLOGIA E
INOVAÇÃO

RESUMO

Este ensaio, Modularização, Tecnologia e Inovação, trata do tema do ponto de vista


da oferta de produtos e serviços financeiros em seu ecossistema maior, tanto pelo viés
das estruturas verticais quanto das modulares. Quanto é preciso inovar e qual é a
tecnologia proprietária que permite vantagens competitivas? Quanto é requerido em
padronização para que tal tecnologia possa ser mais eficiente? Estas e outras
indagações são discutidas no ensaio.

A transformação digital financeira, representada pela abertura de contas-


correntes por meio de telefone celular, pela contratação de operações de crédito,
investimentos em fundos e outros depósitos a prazo, pelas compras on-line, pelo
pagamento de boletos e tantas outras operações, vem crescendo cerca de doze a
quinze vezes a cada ano, numa progressão mais que geométrica. Essas operações vêm
se tornando cada vez mais relevantes em relação ao total de transações realizadas pelos
consumidores. Foram 36 milhões de transações em 2017, já, em 2019, foram cerca de
445 milhões realizadas por meio de telefones celular e da internet. Há cerca de 230
milhões de usuários para aproximadamente 100 milhões de clientes bancários e, em
grandes bancos de varejo, ainda com grandes redes físicas, mais de 80% das transações
são feitas pelos meios digitais. No pós-Covid-19, 46% de todos os brasileiros
bancarizados já se valeram do meio digital e apenas 14% dos clientes ainda prefere a
rede física de agências como seu canal preferencial.45

Fundamentalmente, prevê-se que o total da participação digital no universo de


todas as relações econômicas mundiais chegue a 50% em 2024. Para ter uma ideia da
magnitude do número, estamos tratando de cerca de 20 a 25 trilhões de dólares a cada
ano.46

Para continuar com dados estatísticos, o crescimento das operações financeiras


digitais tem estreita relação com o desenvolvimento do mercado de telefonia celular
no Brasil. Atualmente, o país tem mais de uma linha de telefonia móvel por habitante,
o que impacta a realização de operações bancárias. Segundo dados da Febraban, o
volume das operações com o uso do mobile banking saltou de 4,7 milhões em 2014
para 31,3 milhões em 2019, um crescimento de 565%. Durante esse período, em
2018, as transações por smartphones passou de 10% do total para 40%, tornando-se a
principal entre as demais modalidades.47

Além do uso cada vez maior do celular para realizar pagamentos, transferências,
investimentos e aplicações, a quantidade de contas abertas por mobile banking passou
de 1,6 milhão, em 2017, para 2,5 milhões, em 2018, alta de 56%, estimando-se quase 5
milhões de contas em 2019. Nesse mesmo ano, o volume de contas acessadas pelo
celular ultrapassou, pela primeira vez, o de contas operadas por outros meios (em
especial, o computador), chegando a 70 milhões, contra 53 milhões do internet
banking.48

Considerando o montante de investimento que o mundo financeiro detém,


enquanto uma das maiores indústrias do planeta – a farmacêutica – investe cerca de
2% a 2,3% do total de seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento, bancos e
assemelhados, na média, investem cerca de 7%.49

Mas os bancos nunca foram tão lucrativos, o lucro dos quatro maiores bancos
brasileiros (públicos e privados) em 2019 cresceu 18,4% e alcançou R$ 86,6 bilhões;
no entanto, é preciso olhar este número com relatividade. A carteira de crédito
ampliada, conceito contábil que envolve todas as operações ativas dos bancos e é
usualmente uma boa medida do tamanho do negócio, cresceu 7,6% e atinge R$
2.424,9 trilhões. Um pelo outro, em comparação, tem-se uma rentabilidade sobre a
carteira (e, portanto, sobre o risco) de magros 4% – ainda relevantes numa economia
de juro baixo, mas muito menos do que qualquer outra atividade econômica no setor
de serviços.

Tudo é relativamente conhecido, cantado em prosa e em verso ao longo de


tantos e exaustivos debates, com a mesma informação quantitativa. E enquanto este
ensaio aborda modularização, tecnologia e inovação no âmbito das fintechs, o uso da
estatística é útil apenas para ilustrar os argumentos que serão propostos adiante.

A primeira constatação é a mudança cultural, vale dizer, a transformação do


hábito presencial para o universo digital. Parece óbvio que cada vez mais – e
principalmente no âmbito do mercado financeiro – transações se deem na forma
digital.

Tomem-se, por exemplo, as filas de atendimento nos bancos. Sem uma lei
federal, mas com vários estados e municípios editando leis próprias para delimitar o
tempo de espera, a situação é uma verdadeira babel regulamentar. Há ainda uma
norma de autorregulação da Febraban, que determina um limite de tolerância
máxima de 20 minutos para os dias comuns e de até 30 minutos nos dias de pico e,
ainda que a regra seja voluntária, todos os grandes bancos de varejo são signatários. O
assunto é tão sensível que, no REsp 1737412, a ministra Nancy Andrighi condenou a
“intolerável e injusta perda do tempo útil do consumidor” decorrente do “desrespeito
voluntário das garantias legais, com o nítido intuito de otimizar o lucro em prejuízo
da qualidade do serviço”. Segundo a ministra, a violação “aos deveres de qualidade do
atendimento presencial, exigindo do consumidor tempo muito superior aos limites
fixados pela legislação municipal pertinente (Lei n. 3.441/2007), infringe valores
essenciais da sociedade e possui, ao contrário do afirmado pelo acórdão recorrido, os
atributos da gravidade e intolerabilidade, não configurando mera infringência à lei ou
ao contrato”, sendo “suficiente para a configuração do dano moral coletivo”.

Comparando o atendimento presencial com o digital, em que qualquer


transação pode ser feita em segundos, fica claro que um assunto trivial, e que deveria
ser princípio basilar e elementar para o consumidor, o pronto atendimento, torna-se
matéria do STJ. Em vista disso, justifica-se por que a maior parte das transações no
mundo moderno serão cada vez mais realizadas nos meios digitais.

Mas há alguns problemas evidentes com o advento do mundo digital, sendo o


mais óbvio o fechamento de um parque de agências obsoleto, de que trataremos
adiante. Mas, por ora, voltamos à estatística como elemento de ilustração do
argumento: os cinco grandes bancos privados de varejo fecharam 430 agências em
2019, totalizando uma rede física de menos de dez mil pontos e evidente desemprego:
o quadro de colaboradores foi reduzido em 6,923 mil pessoas, cujas saídas foram
motivadas, principalmente, por programas de demissão voluntária (PDV). Despesas
administrativas e de pessoal dos grandes bancos de varejo crescem no mesmo período
4,3% – índice menor, portanto, que o lucro líquido ajustado de 18,4%, mas, ainda em
volume absoluto, recorde: R$ 146,6 bilhões de despesa contra R$ 86,6 bilhões em
lucro.50
O que é mais complexo, onde residem as maiores dificuldades, é entender o
consumidor nesse novo ambiente, exatamente por ele ser polivalente: o consumidor
quer atendimento padronizado e produtos proativos, serviços sob demanda e
soluções de segurança instantâneas e imediatas sem qualquer risco; quer uma maior
experiência e inter-relação entre o físico e o digital e reclama da impessoalidade das
máquinas e da inteligência artificial. O dilema é que todos esses anseios são
incompatíveis com produtos e economia de massa. Não é possível ser massificado e,
ao mesmo tempo, individualizado. Assim como não é possível ser sob medida e, ao
mesmo tempo, padronizado.

Acrescentem-se à complexidade desse dilema os problemas de segurança e de


cibercrimes, que nem sempre dialogam de forma muito fácil com um atendimento
padronizado. Não que não exista infraestrutura legal para lidar com o tema. Duas leis
relacionadas aos crimes na internet foram sancionadas em 2012, alterando o Código
Penal e instituindo penas para crimes específicos cometidos no mundo digital. A
primeira delas é a Lei dos Crimes Cibernéticos (Lei n. 12.737/2012), conhecida como
Lei Carolina Dieckmann, que tipifica atos como invadir computadores (hacking),
roubar senhas, violar dados de usuários e divulgar informações privadas. Apesar de ter
ganho relevo na mídia e no debate com o caso da conhecida atriz, a mudança legal há
muito vinha sendo reivindicada pelos bancos diante do grande volume de fraudes e
roubos de senhas pela internet. O dilema existente é obrigar o consumidor a enfrentar
uma teia de confirmações, senhas, contrassenhas, duplas checagens, enfim, um custo
de transação elevado que o protege, mas que, no final do dia, é mesmo um problema
de quem oferece o serviço e impede-o de um tratamento mais personalizado e
próprio.

Outro exemplo vivo é o telemarketing e o teleatendimento. Tal é o excesso de


ligações e de mensagens que o Procon permite que qualquer pessoa física titular de
conta-corrente ou usuária de outros serviços oferecidos por instituições financeiras
conveniadas pode, por meio do website (www.naomeperturbe.com.br), solicitar o
bloqueio do recebimento de ligações de ofertas de crédito consignado.

Com esta introdução, a dúvida que permanece é como preservar a oferta de


produtos num sistema financeiro em constante mutação? disso que este ensaio trata
em três ângulos: a modularização, movimentos tecnológicos e aspectos relacionados à
inovação.
MODULARIZAÇÃO

A noção de modularização também é emprestada do mundo de sistemas e da


própria engenharia de produção. “Para o fabricante, por um lado, a modularização
tem a vantagem de reduzir a complexidade do problema, dividindo-o em
subproblemas mais simples, que podem inclusivamente ser resolvidos por equipes
independentes”. Modular é transformar em módulos, ou seja, alterar a composição de
um dado sistema ou de um circuito, para que possa, sem deixar de se integrar ao todo,
interagir com todos os demais módulos simultaneamente. “A arte da modularização
está em identificar claramente que módulos devem existir no sistema, de modo a
garantir que as ligações entre os módulos são minimizadas e que a sua coesão interna é
máxima. Isto significa que, no caso dum bom sistema de alta fidelidade, os cabos entre
os módulos são simplificados ao máximo e que os módulos contêm apenas os
circuitos que garantem que o módulo faz a sua função”.51

Modularizar tem, portanto, relação com integrar e tornar coeso. Tem também
relação intrínseca com maximizar e, por isso, é preciso que tenha uma única função,
bem definida. Em resumo, pode-se dizer que modular é simplificar para se tornar mais
coeso e funcional, e, com isso, maximizar o resultado.

Há um segundo conceito a ser lembrado e que se refere à ideia de padronizar.


Padronizar e modular, em geral, estão juntos no sentido de paradigma sinalagmático,
de ponto de partida. Padronizar é tornar padrão, vale dizer, adotar como meio
normal. Modular é reduzir a complexidade a padrões administráveis.

Outra expressão, muito utilizada para ilustrar o que é modular e padronizar, é


uniformizar, tornar uniforme, no sentido de normal. Padronização ou normalização é
o processo de desenvolvimento e implementação de determinadas operações,
processos ou normas técnicas que podem e devem ser seguidas por todos. Aqui nos
valemos da noção de que a padronização, além da modulação, tem como objetivo
definir especificações técnicas que auxiliem na maximização da compatibilidade,
reprodutibilidade, segurança ou qualidade de determinado processo, produto ou
serviço.

Por exemplo, o sistema métrico decimal é padrão como sistema de medição


internacional. Foi criado durante a Revolução Francesa, desencadeada em 1789, em
virtude da dificuldade de funcionamento do comércio e da indústria devido à
existência de diversos padrões de medida. Até hoje, o Reino Unido mantém um
sistema diferente mesmo com a edição do Weights and Measures Act, de 1824 – há
quase 200 anos – o que prova que nem sempre é trivial padronizar qualquer coisa.

Já um exemplo de modularidade é a implantação em etapas. Por exemplo, no


desenvolvimento de um novo site é a sua estrutura modularizada que permite
personalizações e desenvolvimento de novos módulos específicos para suas diversas
particularidades.

Num país em que ainda há pessoas que não têm conta em banco, assunto do
próximo ensaio, ao tratar de concorrência e inclusão, apenas para ter noção das
dificuldades, contas para pessoas de baixa renda precisam levar em consideração o
pacote de internet ou mesmo o aparelho de smartphone, já que é provável que elas não
terão como acessar portal ou App próprio, reduzindo o mundo digital à transmissão
de mensagens, que, em geral, não têm custo e podem ser veiculadas em qualquer
lugar, a qualquer tempo e por qualquer um.

Voltemos ao mercado financeiro: modular significa criar produtos e serviços


financeiros iguais e padronizados, reproduzíveis no seu sentido de volume, penetração
e alcance de clientes. O que vamos ver aqui é que cada caso é realmente um caso
distinto e não é possível generalizar todos os produtos e todos os mercados.

Há, como se sabe, crédito para pessoa física e para pessoa jurídica, e, em ambos
os casos, crédito livre e crédito direcionado. Crédito livre é aquele em que a
instituição financeira pública ou privada pode livremente decidir sobre seu destino ou
mesmo se deve ou não concedê-lo. Já no crédito direcionado, existe a obrigação legal
da aplicação dos recursos captados em determinadas linhas de produtos fixadas por
políticas públicas.

No crédito à pessoa física ou à pessoa jurídica, há diversas modalidades: crédito


pessoal, crédito para financiamento de veículos, crédito consignado etc. Isto é
relevante, já que o crédito concedido à pessoa física tem vários tipos que se agrupam
em produtos bancários de taxas prefixadas (aquisição de outros bens, aquisição de
veículos, cartão de crédito parcelado, cartão de crédito rotativo, cheque especial,
crédito pessoal consignado ao benefício recebido do INSS, crédito pessoal consignado
privado, crédito pessoal consignado público, desconto de cheques, financiamento
imobiliário com taxas reguladas, financiamento imobiliário com taxas de mercado,
crédito pessoal não consignado, leasing de veículos) e em taxas pós-fixadas
referenciadas em TR (financiamento imobiliário com taxas reguladas, financiamento
imobiliário com taxas de mercado).

Cada modalidade de crédito representa um mercado relevante distinto que não


deve ser confundido com os demais mercados, tanto pela existência de garantias como
pelo fato de que igualaria produtos com prazo, entrada, valores e características muito
diferentes. Vale dizer, não se pode comparar o crédito pessoal com, por exemplo, o
crédito para aquisição de veículo, ou mesmo com o crédito emergencial do cheque
especial. Esta confusão de nomenclatura, juros e outros aspectos ligados ao crédito já
foram objeto de estudos anteriores, e é lamentável que se tenha visto pouco progresso
depois de tantos anos do mesmo debate.52

Na seara de investimentos, no que diz respeito ao passivo dos bancos, há


investimentos de renda fixa, investimentos híbridos ou variáveis. Mas, aqui, há uma
separação fundamental no balanço dos bancos: o que é gestão de carteira própria e o
que é gestão de recursos de terceiros. Todos também são modulares, ainda que, em
determinados casos, podem ser estruturados, criados e planejados para determinados
fins, seja de planejamento sucessório, de riscos ou mesmo tributário.

Neste ensaio, vamos nos ater a um exemplo de produto bancário e financeiro


popular e de massa, que é igual e reproduzível no seu sentido mais amplo e que foi um
dos maiores sucessos do mercado financeiro até hoje: a caderneta de poupança.

O Decreto n. 2.723, de 12 de janeiro de 1861, que criou a Caixa Econômica da


Corte, já o mencionava. No art. 1º, d. Pedro II afirmava que aquela instituição tinha
“[...] por fim receber, a juro de 6%, as pequenas economias das classes menos
abastadas e de assegurar, sob garantia do Governo Imperial, a fiel restituição do que
pertencer a cada contribuinte, quando este o reclamar [...]”. Garantida pelo Estado, a
poupança tornou-se popular e muito democrática.53

Mas a origem moderna das cadernetas de poupança se deu na reforma bancária


de 1964. A Lei n. 4.380, de 21 de agosto de 1964, determinou que fosse instituída a
correção monetária para os depósitos de poupança além da remuneração anual de 6%
(0,5% ao mês), com atualização mensal. Atualmente, a poupança passou a ser
remunerada por uma fórmula que prevê uma espécie de “gatilho” vinculado à Taxa
Selic, que é uma taxa referencial de juros do Sistema Especial de Liquidação e de
Custódia (Selic) para títulos públicos federais, ou seja, títulos do Tesouro Nacional.

A caderneta de poupança, contudo, difere, e em muito, de produtos


estruturados, daqueles instrumentos financeiros compostos por um ou mais
derivativos com objetivos determinados dos investidores na busca de rentabilidade ou
de hedge de proteção. Um é de massa, o outro, individual e customizado (o conhecido
anglicismo significa modificar, adaptar ou personalizar; adjetivo de “feito sob a
encomenda”, “elaborado sob medida”).

O mercado financeiro é mercado de produtos e serviços de massa, ainda que


possa pretender a percepção de exclusividade. É em razão da padronização, da
modularização e da segmentação que qualquer produto de massa tem o condão de
parecer único.

E aqui há uma distinção fundamental entre produto e serviço. Produto, no


sentido financeiro, é rentabilizado pelo cliente; serviço é intangível, ainda que possa
aumentar ou diminuir a sua rentabilidade. O serviço pode ser personalizado, como
em qualquer relação humana; exemplos dos segmentos mais upstream dos bancos de
varejo claramente indicam isto. Produtos, por sua vez, podem ter aparência de
personalizados (mesmo um fundo exclusivo, por exemplo) sem o ser.

Tomemos, por exemplo, os tais produtos customizados. Apesar de estruturados,


contratos de derivativos seguem o chamado padrão ISDA – Associação Internacional
de Swaps e Derivativos –, organização supranacional no mercado de derivativos de
balcão, sediada em Nova York, responsável por criar um contrato padronizado (o
Contrato Principal ISDA) para firmar e formalizar transações com derivativos.

Há dois motivos para a baixa personalização do produto financeiro. Primeiro, é


a própria conta-corrente; segundo, é o regime histórico do float inflacionário, que fez
com que fosse extremamente relevante modularizar o sistema financeiro em poucos
produtos, de fácil compreensão, mas de altos custos de transação. A elevada inflação,
debelada em 1994 com a adoção do Plano Real e que foi grande aliada do float
bancário, dispensa maiores comentários, já que é extremamente conhecida.

No Brasil, é a conta-corrente que dá a base para todos os demais produtos


bancários e é nela em que tudo ocorre. Tudo depende dela e é somente pelo trânsito
na conta-corrente que débitos ou créditos se realizam. Evidentemente existiam, além
das contas poupança, as contas de investimento, regradas pela Lei n. 10.892, de junho
de 2004, que nada mais eram do que a conta-corrente de depósitos para
investimentos, utilizadas exclusivamente para realizar aplicações financeiras com o
propósito de não pagar CPMF. Mas, de toda forma, hoje, todos os sistemas bancários
estão regrados pela Resolução n. 4.753, de 26 de setembro de 2019, que dispõe sobre a
abertura, a manutenção e o encerramento de conta de depósitos e revogou a
Resolução n. 2.025, de 24 de novembro de 1993, como principal ato normativo sobre
o assunto. Apenas para mencionar, criaram-se também as contas simplificadas,
disciplinadas pela Resolução n. 3.211, de 30 de junho de 2004. As regras que dispõem
sobre as contas movimentáveis exclusivamente por meio eletrônico, de que tratam a
Resolução n 2.817, de 22 de fevereiro de 2001, e a Resolução n. 4.480, de 25 de abril
de 2016, facultam a abertura e o encerramento de conta de depósitos por meio
eletrônico.

Contudo, foi graças às contas-correntes e ao estabelecido no art. 464 da


Consolidação das Leis do Trabalho, que afirma que o pagamento do salário do
trabalhador deve ser feito por meio de depósito em conta bancária e em nome do
empregado, que grandes bancos se formaram e se conglomeraram.54 Por criarem
relações comerciais de reciprocidade, ao longo dos anos, foram os bancos de varejo
que receberam as folhas de pagamento e puderam não apenas aumentar a base de
clientes, como também a prestação de serviços, como, por exemplo, a celebração de
convênios de arrecadação de contas, impostos e outros documentos entre os
administradores das concessionárias e os bancos. Esta formalização, em geral, se deu
por relação contratual em que eram definidas cláusulas relativas à quitação dos
documentos, prazos de repasses dos recursos (float), tarifas e sua forma de cobrança,
mais importantes nas épocas de inflação do que atualmente.

Ainda assim, a infraestrutura e a base de clientes ou relacionamentos dão aos


grandes bancos de varejo uma decidida vantagem competitiva. Isto em razão dos
produtos atualmente existentes. A grande indagação é se, com o surgimento de novos
produtos, o cenário permanecerá o mesmo.

Ou seja, produtos bancários precisam de modularização e padronização, e os


atuais incumbentes dominam o mercado, já que são eles que construíram, ao longo
dos anos, tal ambiente.
Por exemplo: pagamentos instantâneos. O Banco Central acaba de lançar sua
marca PIX, uma nova forma de realizar pagamentos e transferências instantâneas no
Brasil, que estará disponível a partir de novembro de 2020. Com o PIX, será possível
realizar transações bancárias on-line entre correntistas em todos os dias da semana por
meio de um QR Code ou de informações digitadas.55

O objetivo do PIX, novo sistema de pagamentos instantâneos, é estar inserido


em um ambiente aberto, “competitivo e seguro”, que poderá “apoiar no processo de
eletronização e digitalização dos pagamentos, aumentar a eficiência no mercado de
pagamentos de varejo e viabilizar o desenvolvimento de soluções focadas na
experiência do cliente”.56

Já existem 980 instituições financeiras estão participando do processo de adesão


ao PIX, com a participação de bancos, cooperativas de crédito e fintechs. Do total, 34
instituições têm participação obrigatória - todas aquelas com mais de 500 mil contas
corrente, pré-paga ou poupança. Já as demais, 946 têm participação facultativa.57

Vale algum comentário sobre a iniciativa, ainda que, decididamente,


pagamentos instantâneos possam mesmo ajudar a mudar o cenário do sistema
financeiro. Primeiro, o papel do Estado, representado pelo Banco Central, em
promover algo do tipo. Mariana Mazzucato, da Harvard Business School, adverte que
tais iniciativas podem contribuir para aumentar a criação de riqueza, deixando de ser
um mero “facilitador” para se tornar um “ator” – sem mesmo ser um participante
capitalista (como ocorre no caso das empresas de capital misto).58

Aqui, o Estado é um indutor-inovador que assume determinados riscos (de


modelo), ao mesmo tempo que obriga os participantes a aderirem ao projeto. No
entanto, seu objetivo não é o lucro, mas estabelecer e ditar o standard – o padrão – a
fim de atender ao interesse público. Por outro lado, e em especial no caso brasileiro, o
Estado inibe a iniciativa privada ao fazê-lo. Aceita-se no Brasil este papel “inovador”
do Banco Central, completamente estranho às suas funções e competências clássicas
como autoridade monetária, mas esquece-se de que, num regime amplo de iniciativa
privada, deveria ser o próprio mercado a determinar o modelo a seguir.

Um segundo comentário é quanto à compulsoriedade da iniciativa e quem


realmente será afetado – imagina-se que cartões de débito das adquirentes e
credenciadoras, por exemplo, afetarão muito mais do que bancos de varejo, por razões
evidentes.59 E insista-se, particularmente aquelas que atuam nos mercados pequenos
e informais.

A discussão de preço pelo serviço prestado é relevante, tanto na linha de receitas


como na composição da margem de lucro. O México, por exemplo, tem um sistema
similar, CoDi, também criado pela autoridade monetária, o Banco do México, no
qual não há cobrança de tarifas, ou custos para o consumidor, ainda que limitado a
pequenas transferências.

No Brasil, aparentemente, a escolha é permitir que bancos possam cobrar pelo


serviço, mas certamente com um valor menor do que as atuais tarifas de DOC ou
TED, ou mesmo que o serviço faça parte de um pacote mensal de tarifas aos clientes.
A receita deste tipo de tarifa, ainda que venha aumentando em volume, caiu 6,3% em
2019.60

Houve ainda a iniciativa do sistema de mensagens Whatsapp, (controlada pelo


Facebook) de inaugurar no Brasil, o seu serviço de pagamento e transferência de
dinheiro pelo aplicativo, sem o uso da “maquininha” para transações de pequenos
comerciantes, mas que foi suspenso pelo BC. Vamos tratar do assunto adiante.

No terceiro e próximo ensaio, em que vamos tratar da concorrência, o


argumento também é discutido: sem a força vinculante do poder burocrático e da
autoridade nela inscrita, talvez a adesão fosse menor ou mesmo inexistente. Parte da
informação até hoje divulgada é que o Banco Central será responsável pela
administração dos dados do PIX. Um comentário que se impõe é a dificuldade no
que diz respeito à segurança e à responsabilidade in vigilando: vale dizer, a fiscalização
pelo ente público tomador de serviços do cumprimento pelas empresas participantes,
para demonstrar que assegurou a contento o adimplemento de todos os pagamentos.

Ainda assim, a iniciativa do PIX será mais um tema espinhoso para os grandes
bancos, já que ataca a vantagem competitiva original que eles detinham, comentada
mais adiante neste ensaio, em razão das barreiras à entrada – e que passam a ser
extintas. O tema ficou ainda mais premente quando no dia 15 de junho de 2020, o
Facebook, que é dono do WhatsApp, anunciou o lançamento mundial de
pagamentos instantâneos pelo aplicativo no Brasil, num acordo com a Cielo,
Mastercard e Visa, Nubank, Banco do Brasil e Sicredi para realizar as transações e foi
vetado pelo BC.61
O conceito de barreiras à entrada é oriundo da sistematização, como um dos
elementos das cinco forças de Michael Porter.62 Constituem o conjunto de fatores
que dificultam o início de atuação de uma empresa num determinado segmento ou
mercado, tornando seus custos de implementação inicial mais elevados.

Historicamente, há cinco barreiras à entrada, favoráveis aos grandes bancos de


varejo, que são autoexplicáveis e que têm sido usadas pelo presidente do Banco
Central do Brasil, Roberto Campos Neto, em suas aparições na mídia:63

1. Agências físicas e capilaridade de distribuição de produtos; a presença física


no território nacional dificulta qualquer novo entrante;

2. Plataforma de produtos financeiros em ambiente “fechado”, facilitando


qualquer tipo de venda cruzada a clientes do mesmo segmento;

3. Meios de Pagamentos tradicionais: sistemas proprietários que não se


comunicam com os demais e o uso do cheque como meio de pagamento e,
muitas vezes, como meio de crédito;

4. Robustez do Balanço Patrimonial: a solidez de uma instituição financeira


permite diversas operações e maior reciprocidade com o cliente;

5. Monopólio de Dados e bases de clientes: somente a própria instituição é


capaz de aquilatar e avaliar melhor o risco em razão de ter conhecimento
proprietário daquela informação.

Numa análise superficial das barreiras de entrada, nos dias de hoje, e também
parece desnecessário nos aprofundar, somente restam duas e ainda muito resilientes: o
balanço patrimonial (e a capacidade de dar crédito etc.) e o monopólio de dados (daí
as justificativas do baixo desempenho da portabilidade de crédito). Ideias como
openbanking, discutidas no próximo ensaio, visam exatamente combater o monopólio
de dados. Restarão a robustez do balanço e as vantagens econômicas do tamanho.

Portanto, a conclusão é que, se produtos bancários precisam de modularização e


padronização, os atuais incumbentes que dominam tal mercado terão maior sucesso
em prover produtos padronizados e modularizados ao cliente, em razão das barreiras
de entrada? A resposta é, curiosamente, negativa e positiva ao mesmo tempo. Por um
lado, há mesmo um problema concorrencial, mas, por outro, a dúvida é se o cliente se
satisfaz com os serviços prestados pelos grandes bancos de varejo.

Tome-se, por exemplo, a discussão de tarifas. A observação corrente é que


tarifas são a forma clássica de extração de renda, ainda que no resto do mundo é vista
como a cobrança por um serviço: “Só em 2019, os brasileiros deixaram mais de R$ 29
bilhões nas mãos dos cinco maiores bancos só com o pagamentos de pacotes e serviços
de conta-corrente – o equivalente a 10% das receitas totais, segundo mostram os
balanços dessas instituições. Essa indústria ainda cresce ano a ano, mas o ritmo
desacelerou. No ano passado, o aumento foi de quase 5%, pouco acima do índice de
inflação IPCA. Até então, a receita com tarifas vinha crescendo a uma velocidade
superior a 10%”.64

O argumento acima é esposado por uma boa parte da população que com os
juros do cheque especial inscrevem os banqueiros no sétimo círculo do inferno de
Dante. Apesar disto, estima-se que quase 30% dos usuários ainda pagam tarifas de
manutenção de conta, quando se sabe que, por definição regulamentar, serviços
bancários essenciais não podem ser cobrados do cliente. São pessoas familiarizadas
com aplicativos e recursos tecnológicos, mas aceitam pagar tarifas para manter seu
relacionamento bancário. Por um lado, há o pagamento automático, mas, por outro,
há simplesmente a aceitação de que o serviço tem mesmo valor, o que difere dos casos
do passado quando podia haver cobrança de tarifa sem a autorização expressa do
cliente.

No entanto, a cobrança de tarifas não é horizontal para todos os produtos, e


apenas a discussão da cobrança de fees em fundos administrados mostra que o debate
ainda é intenso. Vale dizer, a relação com o consumidor é conflituosa e cheia de
complexidades, é pouco transparente e, no sentido do imaginário popular,
completamente pouco compreendida.

Um segundo aspecto da satisfação do cliente atende pelo nome de NPS,


abreviatura de Net Promoter Score, metodologia criada em 2003 pela empresa de
consultoria americana Bain & Company para mensurá-la. Algumas observações se
impõem. Primeiro, o NPS é um indicador de desempenho de médio/longo prazo e é
utilizado para implementar e acompanhar deficiências e progressos.
De forma simplificada, a avaliação é baseada em dois questionamentos: a parte
quantitativa, numa escala de 0 a 10, trata da recomendação a terceiros; já a parte
qualitativa cuida de justificar a razão da nota. Os respondentes são divididos em três
categorias, com base nas notas atribuídas: promotores, neutros e detratores. Os
primeiros são os que atribuem notas 9 ou 10, ou seja, são os consumidores satisfeitos,
que pretendem continuar na relação e até mesmo incentivam o envolvimento com a
instituição; os neutros são os que dão notas 7 e 8, aqueles que não ajudam, mas
também não atrapalham; e, finalmente, os detratores são aqueles que dão notas de 0 a
6, pessoas insatisfeitas e que podem prejudicar a imagem da instituição.

Dessa maneira, a satisfação do cliente parece estar ligada à forma com que ele se
vale da tecnologia para uso tanto dos produtos como da percepção que ele tem da
personalização de seus produtos financeiros.

TECNOLOGIA

Quando se fala em tecnologia, habitualmente se pensa em sistemas de hardware


ou de software, e é claro que parte da tecnologia é mesmo baseada em sistemas. Mas,
em primeiro lugar, cabe indagar o objetivo maior da tecnologia no mercado
financeiro: a resposta parece estar relacionada à promoção de um maior fluxo de
informações para reduzir o custo de transação.

Por muito tempo, a TI – Tecnologia de Informação – foi vista como despesa, e


só mais recentemente como investimento, chegando ao ponto de sistemas fazerem
parte dos ativos da empresa. Talvez a TI não seja nem despesa nem investimento, mas
parte imaterial dos motores de desenvolvimento de um dado negócio em razão do
impacto que gera.

Em geral, a tecnologia está ligada ao conceito de eficiência. Já o conceito de


eficiência diz respeito aos usos e recursos de um sistema. Pode-se dizer que um dado
sistema é mais ou menos produtivo se ele gerar mais ou menos resultados com os
mesmos recursos. A eficiência é sempre um meio de se atingir um resultado e
inevitavelmente se refere ao processo pelo qual isso se realiza.

Mainetti Jr. et al. indagam se há ganhos de eficiência e desempenho quando se


aumentam as despesas com TI e se elas afetam a organização em todos os seus
segmentos. A partir de uma amostra de 37 bancos com quase a totalidade dos ativos
do sistema financeiro, eles notam que a despesa de Ti de fato aumenta a eficiência,
medida objetivamente como a razão entre o número de funcionários e os ativos totais,
já que, quanto menor, melhor é a eficiência do banco, mas não de forma horizontal.
Os resultados da pesquisa indicam que a TI tem maior impacto “em decorrência das
necessidades dos segmentos de negócios”, sendo mais importante nos bancos de
varejo do que nos de atacado.65

Além disso, comumente se associa tecnologia ao conceito de inovação


disruptiva. A teoria da inovação disruptiva foi criada por Clayton Christensen,
professor da Harvard Business School, em seu livro The Innovator’s Dilemma.
Christensen usou o termo para descrever inovações em que novos mercados surgem,
desvelando novas categorias de clientes, em decorrência do advento de novas
tecnologias, mas também pelo desenvolvimento de novos modelos de negócios e pela
exploração de tecnologias antigas de uma nova maneira.

Mas é por meio de exemplos que podemos compreender melhor o argumento.


Por exemplo, uma nova tecnologia que de fato revolucionou o sistema financeiro e a
vida dos consumidores, considerada por muitos o verdadeiro marco de mudanças, foi
a invenção do caixa eletrônico em 1962.

O uso da senha num cartão plástico, que possibilitou o acesso ao papel-moeda


sem ida à agência, já em 1967, em Londres. Foi o ATM da agência do Barclays em
Enfield Town, usualmente atribuída a John Shepherd-Barron, que deu início ao uso
do computador pelo cliente, já que o uso de computador em bancos estava restrito ao
processamento interno. Segundo consta, de acordo com a verdade ou com o folclore,
a tecnologia revolucionária nasceu inspirada pelas vending machines de chocolate: se
era possível vender qualquer coisa comestível ou bebível, por que não papel-moeda?
Nesse momento, definiu-se uma nova tecnologia para tirar o cliente da agência
bancária, cujo percurso ainda levaria 50 anos.

Claramente, havia uma nova tecnologia nos ATMs, tanto de sistemas


computacionais como na forma de uso, a qual daria o suporte necessário para toda a
indústria de cartões de crédito e de débito, ainda que tenha surgido uma década
antes.66

Adaptando a matriz em que John Schindler se baseou para discutir inovações


Adaptando a matriz em que John Schindler se baseou para discutir inovações
tecnológicas, vamos rapidamente nos valer dos mesmos conceitos para delinear como
é a tecnologia no sistema financeiro, que pode ser superficial, genuína ou
fundacional.67

Ela será superficial quando não mudar a natureza do produto ou serviço, mas
permitir maior facilidade de uso e da interface com o usuário. A maior parte das
mudanças tecnológicas estão nesse grupo. Já as tecnologias genuínas mudam
fundamentalmente a natureza da inovação e do produto. Tome-se o advento dos
recibos de ações negociadas nos Estados Unidos, os ADRs.

De fato, é a criação, por meio de tecnologia de custódia, de algo inteiramente


novo que permitiu o acesso a novos capitais e à maior liquidez de ativos em praças
offshore. Finalmente, temos o nível mais profundo da tecnologia, que é a tecnologia
fundacional, aquela que determina a infraestrutura existente sobre a qual todas as
outras se edificarão. Tome-se um exemplo ainda mais prosaico de tecnologia contábil:
as partidas dobradas, dando início às ciências contábeis.68

Numa percepção pouco acurada, estamos repletos de tecnologias superficiais e


algumas, de fato, genuínas. Enquanto o openbanking, assunto a ser discutido no
próximo ensaio, ainda promete o uso intensivo de tecnologias abertas, há dúvidas se
elas poderão de fato transformar a humanidade.

Mas não faz qualquer sentido discutir tecnologia sem que se possa discutir
inovação; tecnologia sem inovação cai no vazio da falta de propósito.

INOVAÇÃO

Inovar é tornar ou criar algo novo. Vem do latim innovatio, uma ideia, método
ou objeto novo. Muitos acreditam que “inovar” se origina etimologicamente de
innovare e que, diferente de novo, tem o sentido de renovar já que o prefixo in- define
o grau de intensidade, referindo-se a verbos incoativos para denotar a passagem a um
novo estado.69

De toda forma, há o conceito de novo, ou seja, aquilo que não é ou não se


parece com padrões anteriores. No capitalismo, o termo inovação geralmente é usado
no contexto de invenção, seja de produtos ou ideias.

Mas, na inovação, há necessariamente um processo que inclui maior eficiência


(ou menor custo) entre as atividades técnicas, concepção, desenvolvimento, gestão e
que resulta na comercialização de novos (ou melhorados) produtos, ou na primeira
utilização de novos (ou melhorados) processos.70

Inovação, no mercado financeiro, sempre está ligada a vantagens, sejam


individuais aos consumidores, sejam societárias, das corporações organizadas na
forma de pessoas jurídicas. Seja por meio de produtos ou serviços, quando se pensa
em bancos e moedas, está se pensando na mudança para melhor e para o mais
lucrativo, em consertar, corrigir, adaptar a novas condições o que é custoso,
inadequado do ponto de vista do cliente ou da instituição.

Mas é necessário uma distinção entre inovação – aquilo que renova o existente –
e simplesmente uma nova prática. Por exemplo, causou certa polêmica entre nós
quando determinado gestor e administrador de fundos passou a não cobrar nenhuma
taxa fixa de administração, ainda que pudesse haver cobrança de pequenas custas para
ressarcir despesas administrativas, de pesquisas e eventuais taxas públicas, quando
houvesse negócios com seus ativos. Isso nada tem de inovador no sentido abordado
aqui, pois representa apenas uma mudança de prática num mundo global, onde a
indústria de fundos de investimento, especialmente em renda variável, de modo geral,
cobra 2% anuais sobre o montante investido, acrescentados de 20% de taxa de
performance (a conhecida fórmula 2 + 20). Vale dizer, uma nova prática é apenas
uma nova prática, não uma inovação, ainda que se reconheçam mudanças
significativas no modelo de “taxa zero”.

Inovação, no sentido abordado aqui, requer ruptura, ou produtos ou serviços


que permitam reconfigurar o conhecimento do que existia para algo inteiramente
diferente.

Um conhecido Manual de Oslo pretende classificar as inovações em diversos


tipos: 71

1) Inovação do produto (mais amplo: inovação tecnológica): introdução no


mercado de novos, ou significativamente melhorados, produtos ou serviços.
Inclui alterações significativas nas suas especificações técnicas, componentes,
materiais, software incorporado, interface com o utilizador ou outras
características funcionais;

2) Inovação do processo: implementação de novos, ou significativamente


melhorados, processos de produção ou logística de bens ou serviços. Inclui
alterações significativas de técnicas, equipamentos ou software;

3) Inovação organizacional: implementação de novos métodos organizacionais


na prática do negócio, organização do trabalho e/ou relações externas;

4) Inovação de marketing: implementação de novos métodos de marketing,


envolvendo melhorias significativas no design do produto ou embalagem, preço,
distribuição e promoção dos mesmos.

É claro que há muitos outros tipos de inovação, e qualquer classificação poderia


ser plenamente justificada. Mas, aparentemente, duas são fundamentais: a closed
innovation e a open innovation. A inovação fechada limita e restringe o conhecimento
ao seu inovador, enquanto a inovação aberta permite o uso e as informações externas,
em especial licenças e patentes. Por um lado, a inovação aberta dá maior velocidade ao
processo – é só imaginar o processo de criação dos atuais Apps – e, ao mesmo tempo,
o torna mais universal e amplamente utilizável. Já a inovação num regime de
exclusividade, ou mais fechado, em geral tem no seu bojo um maior retorno sobre a
pesquisa empregada e protege a renda por ela gerada. Por exemplo, inovações na área
farmacêutica são inovações fechadas, altamente rentáveis do ponto de vista de
investimento e geradoras de caixa por anos.

Uma segunda classificação fundamental se relaciona à origem da inovação – no


pressuposto de que existam interesses econômicos que propiciem as corretas
condições para que elas ocorram: se, em consequência de fatos inesperados ou
imprevistos, inovação não planejada vis-à-vis as chamadas inovações planejadas, que
são as geradas em razão de mudanças na indústria ou no mercado demográficas,
imposições legais ou regulamentares.

Do ponto de vista do sistema financeiro, distinguindo-se aqui das indústrias que


detêm direitos de patente, como a farmacêutica, é a atividade financeira que define o
que os bancos fazem ou deixam de fazer, já que, por definição, como tratamos no
ensaio anterior, bancos prestam serviços de intermediação por excelência. Por
exemplo, um princípio ativo numa nova medicação, ou a substância que deverá
exercer o planejado efeito farmacológico, depende do clássico investimento em
pesquisa e desenvolvimento: trata-se de uma inovação planejada e cautelosamente
testada. As fintechs – que muitos pretendem chamar de inovações tecnológicas – não
são tão programadas, mas fruto de oportunidades de investimento com perspectivas
de grande retorno.

É claro que há um grande frisson nas grandes fintechs e elas estão em expansão –
por exemplo, das 50 empresas incluídas na lista “Fintech 50”, de 2019, da Forbes, 19
(ou 38%) estão avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais. Esta avaliação reflete uma
expectativa de fluxo de caixa descontado de vários bilhões e é natural que a
perspectiva de uma ideia se tornar um legado bilionário é irresistível. No primeiro
ensaio, tratamos da classificação das fintechs e voltamos a elas agora. Quais delas são
realmente inovadoras?

Muitas fintechs estão apenas reformulando a forma de prestar o mesmo serviço


bancário; facilitando a vida do consumidor ou simplesmente não cobrando nenhuma
tarifa por isso. É evidente que o intuito é louvável, mas, insista-se, pouco tem de
inovação genuína, como descrito anteriormente. O que evidentemente não diz muito:
é bem possível estarmos apenas no começo do processo de mudança, no meio do
frenesi, ainda incertos do turning point, descrito por Carlota Perez no primeiro
ensaio. Ou é possível ainda estarmos no início de todo o processo.

CONCLUSÃO DO ENSAIO II

Com o Covid-19, o universo da indústria, seja em razão das elevadas provisões


necessárias, seja pela percepção do consumidor de estabilidade ou qualquer outra
razão, deverá sofrer tanto na captação de recursos para o seu financiamento, como
também na sua conquista de participação de mercado.

Outra forma de considerar a inovação no sistema financeiro é olhar o número


de empresas entrantes, ou startups, e, como afirmado antes, o número é crescente.
Desta divisão, temos a experiência de banco digital despontando, como indicado na
tabela a seguir.
Tipo % do total Número
de startups

“Pagamentos e Remessas” 25 % 96
“Empréstimos”(Crédito) 15% 56

“Wealth Management” 7 % 25

“Crowdfunding” 7 % 25
“Gestão Financeira Pessoal” 8 % 30
“Gestão Financeira Empresarial” 17 % 63
Outros 21% 78

Fonte: Finnovation - Mapa de Fintechs no Brasil - 2019

Finalmente, é preciso sempre lembrar que inovar depende de contexto, timing e


alguma necessidade crítica a ser satisfeita.

No próximo ensaio, “Disrupção, concorrência e eficiência”, vamos tratar do


tema concorrencial: fintechs potencializam a entrada de novos concorrentes? Tornam
os mercados mais contestáveis?
[45] Valor Econômico. 13/14/15 Junho/2020, pág. C2.
[46] Fonte: Banco Central do Brasil e Febraban.
[47] Fonte: PwC. “Customers in the spotlight - How FinTech is reshaping banking”
[48] Idem.
[49] Fonte: Banco Central do Brasil.
[50] Valor Econômico. 06/05/2020.
[51] http://home.iscte-iul.pt/~mms/courses/ip/1998-1999/teoricas/capitulo-3.htm
[52] O PL 1.166/2020, aprovado no Senado recentemente, é um bom exemplo. Estabelece teto de 20% ao ano
para todas as modalidades de crédito ofertadas por meio de cartões de crédito e cheque especial para todas as
dívidas contraídas entre os meses de março de 2020 e julho de 2021. Vide artigo de Camila DURAN e Daniel
STEINBERG. Tabelamento de juros, boas intenções e efeitos perversos. Valor Econômico. 06 Ago 2020, pág. A18
[53] Até os escravos podiam ter poupança. A Lei n. 2.040, de 1871, permitiu ao escravo formar um pecúlio, por
meio de doações, legados e heranças, ou renda proveniente de algum tipo de trabalho. De acordo com o Decreto n.
5.153, de 13 de novembro de 1872, que regulamentou a Lei n. 2.040 do ano anterior, as Caixas Econômicas
poderiam recolher os depósitos feitos pelos “escravos de ganho”, isto é, aqueles que trabalhavam em atividades que
ganhassem renda tanto para seus senhores como para si mesmos, ainda que na caderneta deles constasse o nome do
seu senhor, uma vez que era necessária a autorização deste para que a conta do escravo fosse aberta.
[54] CLT - Decreto Lei n. 5.452, de 1º de maio de 1943: “Art. 464 - O pagamento do salário deverá ser efetuado
contra recibo, assinado pelo empregado; em se tratando de analfabeto, mediante sua impressão digital, ou, não
sendo esta possível, a seu rogo. Parágrafo único. Terá força de recibo o comprovante de depósito em conta
bancária, aberta para esse fim em nome de cada empregado, com o consentimento deste, em estabelecimento de
crédito próximo ao local de trabalho”. (Parágrafo incluído pela Lei n. 9.528, de 10.12.1997)
[55] De acordo com o release do BC: “Segundo informações preliminares, as transações poderão ser feitas por
meio de QR Code ou por meio do uso de informações simples dos usuários, tais como CPF, CNPJ, número de
celular ou e-mail, sendo possível enviar e receber quantias instantaneamente por meio do celular. O PIX
funcionará da seguinte forma: as instituições financeiras, instituições de pagamentos ou fintechs deverão
disponibilizar em seus aplicativos de celular uma opção relativa ao sistema. Bastará escolher a forma com que se
deseja realizar a operação e fazer a leitura do QR Code ou inserir uma das ‘chaves’ que a transação será realizada. A
quantia será creditada de forma instantânea na conta do destinatário da transação. O PIX também estará
disponível em outros canais de atendimento, como caixa eletrônico ou internet banking. A existência de uma
marca única é imprescindível para que os usuários (pagadores e recebedores) identifiquem esse novo meio de
realizar pagamentos e transferências de uma forma clara. A identidade visual facilitará o entendimento e a adoção
do instrumento”.
[56] Idem, ibidem.
[57] Fonte: BCB. Dentre as instituições inscritas no PIX 634 são cooperativas de crédito, seguidas por instituições
de pagamento (252), bancos comerciais ou múltiplos com carteira comercial (61), financeiras (12), e outras (21).
[58] As formas de atuação direta, segundo Eros Grau, são as seguintes: (1) Absorção ou participação: o Estado
intervém no domínio econômico no campo de atividade em sentido estrito, sendo, então, agente econômico. Na
absorção, o Estado age de forma a assumir o controle integral, sendo o regime na forma de monopólio; na
participação, o controle assumido é parcial e o regime é de competição com as empresas do mesmo setor. (2)
Intervenção por direção e intervenção por indução: o Estado intervirá como regulador da atividade. No caso da
direção, o Estado pressiona a economia, fazendo um controle compulsório através de normas e mecanismos; no
caso da indução, o Estado manipula os instrumentos de intervenção de acordo com a Lei. O Estado atua no
domínio econômico de forma indireta através da atuação das Agências Reguladoras, que irão exercer a função do
Estado, no entanto, são autarquias de regime especial (entes privados).
[59] Há o argumento de que empresas adquirentes e credenciadoras tem capital dos bancos: então por um lado se
ganharia, por outro se perderia receita, equivalendo-se.
[60] Relatório JP Morgan.
[61] “O BC em nenhum momento proibiu o WhatsApp de operar, essa informação não é verdadeira, o que
entendemos é que era um arranjo muito relevante para a economia e que precisava passar pelo mesmo processo de
aprovação que os outros arranjos”, disse Campos Neto em evento virtual promovido pelo jornal Correio
Braziliense 02/07/2020.
[62] “O modelo das Cinco Forças de Porter, concebido por Michael Porter, foi publicado na forma do artigo “As
cinco forças competitivas que moldam a estratégia”, em 1979, na Harvard Business Review e destina-se à análise da
competição entre empresas. Considera cinco fatores, as “forças” competitivas, que devem ser estudados para que
se possa desenvolver uma estratégia empresarial eficiente. Porter refere-se a essas forças como microambiente, em
contraste com o termo mais geral macroambiente. Utilizam dessas forças em uma empresa que afeta a sua
capacidade para servir os seus clientes e obter lucros. Uma mudança em qualquer uma das forças normalmente
requer uma nova pesquisa (análise) para reavaliar o mercado.” Sua análise continua atual e utilizada. Vide in:
pt.wikipedia.org/wiki/Cinco_forças_de_Porter
[63] Vide entrevista na Globonews. 12-Fev-2020.
[64] https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/02/14/brasileiros-pagam-r-29-bi-em-tarifas-de-conta-em-
2019.ghtml
[65] Sergio Mainetti Junior, Maria Cristina Nogueira Gramani & Henrique Machado Barros Gastos com TI e a
eficiência das empresas um estudo com DEA no setor bancário. in: www.insper.org.br
[66] O conceito de usar um cartão para compras vem muito antes do Diners implementá-lo em 1950. Ele foi descrito
em 1887 por Edward Bellamy em seu romance utópico Looking Backward. Bellamy se vale da expressão “cartão de
crédito” onze vezes nesse romance, embora se referisse a um cartão para gastar dividendos.
[67] John SCHINDLER. Fintech and Financial Innovation: Drivers and Depth (2017- 08-10). FEDS Working
Paper No. 2017-081.
[68] O frei franciscano Luca Pacioli, que viveu entre os anos de 1447 a 1517, é considerado o pai da contabilidade
moderna. Sua participação e importância se dá devido a um capítulo dedicado ao método das partidas dobradas
em um livro de sua autoria intitulado Summa de Arithmetica, Geometria, Proporção e Proporcionalidade (Coleção
de conhecimentos de aritimetica, geometria, proporção e proporcionalidade). O livro, publicado em Veneza no ano
de 1494, continha um capítulo sobre contabilidade expondo o “Particulario de Computies et escripturis”, que,
para nós, é o método das partidas dobradas.
[69] Ciberdúvidas da língua portuguesa. Disponível em: <https://ciberduvidas.iscte-
iul.pt/consultorio/perguntas/sobre-a-palavra-inovar/14208>. Acesso em: 7 mar. 2020.
[70] Cristopher FREEMAN. The Economics of Industrial Innovation, 3rd edn. (co-author with Luc Soete),
Pinter, London, 1997.
[71] Manual de Oslo. Diretrizes para coleta e interpretação de dados sobre inovação. 3a edição. OCDE e Finep.
ENSAIO 3: DISRUPÇÃO, CONCORRÊNCIA E
EFICIÊNCIA

RESUMO

Este ensaio, Disrupção, Concorrência e Eficiência, trata dos diferenciais de


concorrência e dos atuais participantes da indústria financeira vis-à-vis os novos
entrantes e seus modelos cooperativos ou em plataformas abertas. Fintechs
potencializam a entrada de novos concorrentes? Tornam os mercados mais
contestáveis?

Um dos principais temas no debate brasileiro, defendido inclusive pelo próprio


Banco Central do Brasil, é a concorrência na indústria bancária. Lá está com todas as
letras e constantemente lembrada como prioridade no Projeto BC+: “O objetivo do
Banco Central é o de criar um ambiente com concorrência, reduzindo as barreiras à
entrada, estimulando uma maior eficiência no sistema financeiro. Mais concorrência,
mais eficiência, mais bem-estar para o consumidor. A consequência prática para o
consumidor brasileiro será mais conveniência, e crédito mais abundante e barato”. E
para atingir tal objetivo, ainda que ambicioso e relativamente vago, o meio é o uso de
novas tecnologias: “Tecnologia é um vetor de concorrência: redução dos custos de
prover produtos nanceiros e ampliação de soluções de meios de pagamento à
população”.72

Se a concentração dos bancos no sistema financeiro tende a aumentar, o


processo da redução da representatividade do sistema financeiro no Produto Interno
Bruto também tende a se intensificar, mas por outras razões. Comentado em verso e
prosa, o argumento procede. Apenas para nos ater a um exemplo, em 1993, último
ano antes do Plano Real, o sistema financeiro era responsável por 15% do PIB. Em
1996, essa participação caiu para 8,3%, em 2000 era em torno de 6% do PIB e, hoje,
pouco menos de 2%. Similarmente, dos 362 bancos que existiam em 1964, apenas 25
permaneceram até 2000.73 Hoje, há cerca de 170 instituições bancárias no país.74

No Direito Econômico, há uma clássica e ainda vigente distribuição de matérias


No Direito Econômico, há uma clássica e ainda vigente distribuição de matérias
no Direito da Concorrência, que é o controle de condutas, entre outros remédios
contra o abuso de poder econômico, como o dumping, por exemplo, e o controle das
estruturas, por exemplo, no tema dos trustes, que dá origem ao denominado Direito
Antitruste, de que muitos se valem, inadvertidamente, como equivalente ao Direito
da Concorrência.

Para compreender a situação da concorrência do setor financeiro no Brasil, é


necessário discutir um pouco mais sobre sua estrutura, ainda que o tema das condutas
seja também relevante.

Como ensinava Fábio Nusdeo, o Direito Econômico, acima de tudo, trata da


formulação da política econômica, na qual há dois elementos caracterizadores: dados
(objetos de consideração) e fenômenos econômicos (diversas variáveis do mercado em
cujos atores recairá a política econômica).

Há dois tipos de dados econômicos: modificáveis ou não modificáveis. Os


primeiros podem ser quantitativos (instrumentos) ou qualitativos (meios). Já os
dados não modificáveis, como, por exemplo, aqueles de caráter físico ou cultural, são
desprezados pelos formuladores de política econômica pelo fato de incapacitarem a
sua atuação. Finalmente, há os fenômenos econômicos que se traduzem como
objetivos de política econômica. A estrutura do sistema financeiro, portanto, compõe
o sistema econômico como o ambiente em que a política econômica opera, fruto de
uma estrutura social criada pela política e pelo Direito.

Há três aspectos a destacar quanto à estrutura do sistema bancário brasileiro em


2020:

Primeiro, a natureza pública do sistema (pouco mais de 40% dos ativos e dos
depósitos), já que o setor ainda é fortemente dependente da atuação do Estado,
especialmente em áreas sensíveis como a agricultura e a habitação. O quadro abaixo
mostra a estrutura dos bancos brasileiros em relação a determinados critérios:
% do
% do
número % dos % dos % das operações
patrimônio
de ativos depósitos de crédito
líquido
bancos

Bancos publicos 2,14 41,16 43,07 48,14 29,08

Bancos privados
nacionais 91,60 43,11 41,97 37,71 53,75

Bancos privados
estrangeiros 6,26 15,73 14,06 14,15 17,17

Fonte: BCB (incluindo bancos estaduais até 2004 no item “bancos públicos”)

O segundo aspecto, mais relevante, diz respeito à origem do controle, se


nacional ou estrangeiro. Na verdade, os movimentos de
concentração/desconcentração do número de bancos no Brasil também podem ser
analisados à luz da abertura do mercado à participação estrangeira; pós-1994, seu
crescimento também é evidente.75 O arcabouço legal considera três classificações:
controle estrangeiro (no qual o capital estrangeiro é majoritário); participação
estrangeira (na qual o capital estrangeiro é minoritário) e capital estrangeiro (com
qualquer nível de participação do capital estrangeiro).

Os bancos com capital estrangeiro, como % dos ativos, representavam menos de


14 % em 1994 e atualmente representam em torno de15 %. A participação dos
estrangeiros é constante há quase dez anos e o cenário internacional, especialmente
pós-Covid-19, não promete muita mudança.

Anteriormente, por força do artigo 52, parágrafo único, do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias (ADCT) da Carta de 1988, a participação estrangeira no
capital social de instituições financeiras só era autorizada em razão de reciprocidade
ou se fosse do interesse do governo brasileiro, ressalvados casos particulares da
participação estrangeira, de acordo com a Circular Bacen n. 3.317/06. Em 2018,
houve a primeira flexibilização do tema: por meio do Decreto n. 9.544/18, ficava
automaticamente reconhecido o interesse nacional na participação estrangeira de até
100% em fintechs de crédito sem que a Presidência da República tivesse que se
manifestar caso a caso. Um ano depois, estendeu-se essa norma às demais instituições
financeiras.76

Com o advento da flexibilização à entrada dos estrangeiros, permitidas por


intermédio de uma interpretação menos literal, essa participação nos ativos bancários
nacionais poderia crescer, o que efetivamente não aconteceu. Um bom exemplo foi o
HSBC, que adquiriu o liquidado Bamerindus em 1997, então sétimo maior banco
privado do país com 1.200 agências, por meio de um investimento direto de US$ 930
milhões, além da transferência de R$ 5,868 bilhões do Proer.77

Parte da resposta de mais concorrência poderia, por certo, vir do exterior. Mas o
processo de internacionalização bancária ainda é mais empírico que teórico. Muitos
afirmam que varejo na indústria bancária ainda é essencialmente um negócio local,
que depende da cultura e costumes locais.78 Crises como a de 2008 e a mais recente da
Covid-19 estrangulam potenciais interessados em aventuras de além-mar.

Finalmente, o terceiro aspecto, que diz respeito ao peso da intermediação


financeira no Brasil e em alguns países selecionados, como percentual do PIB.

1996 2000 2010 2018

Brasil 7,96 6,55 4,13 5,77

Argentina 6,38 4,27 6,22 8,67

China 1,74 1,72 1,08 0,86

Estados Unidos 3,73 3,52 2,93 2,53

Espanha 2,07 0,76 1,11 2,57

Japão 0,8 1,05 0,85 0,83

México 4,33 5,19 3,72 4,27

Fonte: globaleconomy.com (jul/2020)

Os mesmos tipos de dados podem ser demonstrados como crédito interno ao


setor privado como % do PIB da seguinte forma:
1995 2000 2010 2018

Brasil 43,04 29.07 52,76 59,50


Argentina 19,68 20,16 12,30 15,40

China 83,10 109,87 126,57 157,01

Estados Unidos 46,27 50,15 52,47 52,50

Espanha 92,01 94,93 172,02 105,15

Japão 175,01 107,43 100,03 106,49

México 23,26 11,61 18,33 26,91

Fonte: globaleconomy.com (jul/2020)

Já por tipos de produtos no SFN brasileiro, temos os seguintes volumes:

Tipos Volume (R$ bilhões) % do Total

Depósitos à vista 164,76 8,76


Depósitos a prazo 875,36 46,52
Depósitos de poupança 791,61 42,07
Fundos e carteiras de investimento 49,92 2,65
Totais 181,65 100,00

Fonte: BCB (Dados de Junho/2020)

Finalmente, em termos de concentração do SFN, como % dos ativos, objeto do


presente Ensaio, em termos evolutivos temos os seguintes dados:
1990 1995 2000 2010 2018

5 Maiores Bancos 12,68 17,46 53,47 67,39 80,04

10 Maiores Bancos 14,79 21,90 69,79 81,77 91,22

5 Maiores Bancos Privados 4,98 6,47 26,14 41,29 61,82

10 Maiores Bancos Privados 7,71 8,74 36,56 45,44 68,42

Fonte: BCB (Exclui bancos estaduais até 2004).

Feito este preâmbulo, segue um rápido comentário sobre a evolução histórica.

EVOLUÇÃO HISTÓRICA

Cada país tem a própria evolução dentro de um contexto histórico. Por


exemplo, a indústria bancária japonesa se desenvolveu com a participação de bancos
em empresas. A existência do keiretsu – grupo corporativo diversificado em várias
áreas da economia, mas organizado a partir de um banco – prova que os agentes do
mercado buscam otimizar seus lucros, não as intenções regulamentares.

No Brasil, foram as Resoluções n. 126 e 206, de 1969 que ampliaram a


possibilidade de participação de outras empresas não financeiras no sistema bancário,
abrindo extensivamente o leque de alternativas. No entanto, não eram admitidas
participações recíprocas de capital, nem interligações sucessivas. Também, num
conjunto de instituições financeiras que integrassem um mesmo grupo econômico, a
uma delas apenas seria permitido participar do capital das demais.

O efeito concentrador no Sistema Financeiro Nacional se baseou, no passado,


no uso da regulação como barreira à entrada de novos concorrentes, como tratamos
no ensaio anterior. Esse sistema estava centrado em três pontos: primeiro, um
subjetivo regime de autorização para bancos entrantes; segundo, um regime de cartas
patentes, transformando a autorização estatal em verdadeiro ativo financeiro, num
sistema cartorial; finalmente, um sistema de pontos para abertura de agências que,
indiscutivelmente, propiciou um quase oligopólio, reduzindo o número de bancos
pequenos e médios do mercado brasileiro.79 A Carta de 1988 acabou com o sistema,
transformando em processo aquilo que era ativo: a autorização, requisitos e
procedimentos para constituição, autorização para funcionamento, cancelamento de
autorização, alterações de controle, reorganizações societárias e condições para o
exercício de cargos em órgãos estatutários ou contratuais das instituições financeiras,
por meio da Res. 4.122, de 2 de agosto de 2012 e suas alterações posteriores.
Deve-se também notar que, no período de 1968-1974, houve grande incentivo
por parte do governo federal para a concentração bancária. Modesto Carvalhosa
argumenta que as grandes distorções não ocorreram em função da lei, mas de outros
regulamentos infralegais, tais como as Circulares n. 125/69 ou n. 196/72, que
alteraram por completo o perfil do Sistema Financeiro Nacional, aumentando,
consequentemente, a concentração bancária. A Circular n. 196/72 permitiu a
conglomeração das instituições financeiras e abriu as fronteiras para que grandes
grupos bancários pudessem fagocitar bancos menores.80

Depois do advento do Plano Real, em 1994, os bancos brasileiros passaram a


enfrentar crises de liquidez e muitos apontaram o fato de que haviam imobilizado
recursos excessivos na compra de outros ativos, descapitalizando-se brutalmente. Se
injetassem recursos, bancos que também eram sócios de indústrias reduziriam a
liquidez de suas instituições. Mas, mais importante foi a dramática redução do float
inflacionário, que diminuiu a receita a zero. E finalmente, apesar de expressamente
proibido, bancos controladores poderiam cair na tentação de emprestar a empresas
controladas.

No Brasil, em especial no mundo pós-Plano Real, o Sistema Financeiro não


parou de evoluir. Mas, inegavelmente, se tornou mais concentrado, como vimos no
início deste ensaio. Para muitos, é inevitável e parte de uma realidade imutável; para
outros, apenas equívocos de políticas públicas e incentivos desalinhados. O certo é
que a matéria concorrencial foi grandemente influenciada pelas competências
concorrenciais, certas ou erradas, vigentes. O grande debate histórico, contudo, na
matéria, foi de natureza das competências: quem deveria cuidar do tema, Banco
Central ou Cade?

COMPETÊNCIAS NA ANÁLISE CONCORRENCIAL

Havia uma grande discussão sobre a competência para analisar atos de


concentração no âmbito do Sistema Financeiro Nacional. Não estava claramente
definida se a competência pertencia ao Cade, ao Banco Central ou se devia ser
partilhada por ambos os órgãos. Tal discussão prática acabou nascendo da aquisição
do Banco Francês e Brasileiro pelo Americas Finance Company Limited, pertencente
ao Banco Itaú S/A, caso em julgamento no Cade no final da década de 1990. Pela Lei
de Defesa da Concorrência, Lei n. 8.884/94, atribuiu-se àquele órgão a tutela da
defesa econômica do livre mercado, julgando-se pelo plenário daquele colegiado a
fusão, incorporação ou alienação de qualquer dos participantes do mercado.

A Lei n. 4.595/64, por sua vez, estabeleceu que competia privativamente ao


Banco Central a autorização, supervisão e fiscalização do Sistema Financeiro
Nacional. Aliás, a Lei 4.595/64 em seu artigo 10º, inciso IX, (c), explicita
textualmente que a autoridade monetária, privativamente, concederá autorização às
instituições financeiras para que possam ser transformadas, fundidas, incorporadas ou
encampadas. Além disso, estabelece que compete exclusivamente ao Banco Central
aprovar o efetivo funcionamento de qualquer instituição financeira no país, inclusive
com o inusitado poder de alterar e determinar os estatutos da instituição autorizada.

Havia bons argumentos dos dois lados, como convém a um bom debate, e diga-
se que não há evidência empírica com o argumento contrafactual de que o sistema
teria se concentrado menos se o Cade tivesse ampla competência sobre o setor, e
imagina-se que se possa valer do mesmo argumento para outros setores da economia,
como o de fumo e tabaco, ou mesmo de bebidas, que foram objeto da avaliação do
CADE.

Os objetivos da proteção à livre concorrência, segundo o texto legal vigente à


época, abrangiam os atos econômicos, “independente de culpa” dos agentes que
praticassem as seguintes infrações: a) Limitar, falsear, ou de qualquer forma
prejudicar a livre concorrência ou a livre iniciativa; b) Dominar mercado relevante de
bens ou serviços; c) Aumentar arbitrariamente os lucros; d) Exercer de forma abusiva
posição dominante.

Por esta leitura, se o bem jurídico tutelado pela lei então vigente (incorporada
pela atual Lei n. 12.529, de 30 de novembro de 2011) é a própria ordem econômica,
logo, qualquer ente, inclusive as instituições financeiras devem sujeitar-se às decisões
do Cade, nos eventos de fusão, conglomeração ou incorporação. Além disso, havia
um critério que determinava que, por mercado relevante, pressupunha-se empresas
que transacionassem com faturamento equivalente a quatrocentos milhões de reais.

O assunto concorrencial acabou por meio de um acordo celebrado entre o Cade


e o Banco Central numa solução de cooperação inusitada, até certo ponto. Assim,
permitia-se ao Cade obter informações para avaliar o impacto das fusões e
incorporações de bancos nas condições de concorrência de segmentos não bancários
da economia, com o Banco Central fornecendo informações sobre a indústria
bancária, desde que não estejam protegidas pelo sigilo bancário, mas, ao final e ao
cabo, era preciso que tudo fosse aprovado pela autoridade monetária.

Em dezembro de 2018, BC e Cade editaram o Ato Normativo Conjunto n. 1,


que estabelece procedimentos para harmonizar e tornar mais eficientes as respectivas
ações em atos de concentração e na defesa da concorrência no âmbito do SFN,
previsto no Memorando de Entendimentos firmado anteriormente. Mas, em síntese,
procedimentos relacionados à aprovação, pelo BC, de atos de concentração que de
algum modo tivessem impacto na manutenção da estabilidade do SFN, reserva de
competência exclusiva do próprio BC, ainda que este devesse notificar o Cade sobre
processos administrativos destinados à apuração de infrações concorrenciais
envolvendo as demais.

No entanto, o grande caso da discussão concorrencial, curiosamente, não foi o


embate entre duas autarquias da União, Cade e Banco Central, mas entre os
interessados e o próprio Banco Central. Trata-se do Caso Itaú-XP, em 2018.

A Superintendência-Geral do Cade, por meio do Parecer Técnico n. 24, de 27


de dezembro de 2018, afirmava, ao receber o processo instruído, que a princípio se
tratava de operação bastante sensível, pois a aquisição de um player como a XP, que
fora classificado como “disruptivo” por seu sucesso, pelo lado de um incumbente
como o Itaú, “pode ser motivada por uma necessidade de proteção do próprio
mercado, levando ao arrefecimento do nível competitivo em geral, o que teria efeitos
nefastos para o bem-estar econômico.

Diferentemente da maneira tradicional de atuação do sistema bancário já


estabelecido – verticalização e produtos cativos – os marketplaces operam como
plataformas de dois lados, aproximando, de um dos lados, os diversos ofertantes
(bancos de pequeno e médio porte, assets independentes, empresas emissoras de
títulos privados, etc.) dos consumidores finais, do outro lado”.81 E segundo o Itaú,
“oportunidade de investimento em um novo modelo de negócio que (...) está em
expansão e no qual ele hoje tem uma participação ainda pequena”; já para a XP a
operação “geraria a oportunidade de trazer um investidor de longo prazo, que
fortaleceria a sua base de capital e a sua credibilidade perante os seus concorrentes no
segmento de plataformas abertas”.
Explicava-se ali o modelo de negócio da XP:

(i) possibilitava a competição entre diversos ofertantes em uma mesma


plataforma na arquitetura de plataforma “aberta” (concorrência entre todos os
ofertantes de produtos financeiros);

(ii) promoveria a concorrência entre as plataformas que estão surgindo com esse
novo advento e os agentes bancários tradicionais, tais como o próprio Itaú;

(iii) reduziria as barreiras à entrada para novos ofertantes, que não precisariam
estruturar amplas e onerosas redes de distribuição e de atendimento aos clientes.

Todavia, segundo os interessados, no caso concreto, a aquisição de participação


minoritária (49,9%) pelo Itaú, com limitações nos poderes que a empresa teria sobre a
XP, nos termos do acordo de acionistas firmado entre as partes, mitigaria boa parte
das preocupações, pois seriam mantidos incentivos para que a XP se mantivesse
independente e não se submetesse aos interesses do seu novo sócio.82

A conclusão do Cade foi no sentido de aprovação, condicionada à celebração de


Acordo em Controle de Concentrações (ACC), autorizando, por maioria, a aquisição
de parte do capital social da XP Investimentos pelo Itaú-Unibanco.

A operação foi condicionada a obrigações comportamentais, previstas no


Acordo em Controle de Concentrações assinado pelas empresas. Eram condições à
XP Investimentos:

(i) manter sua plataforma de distribuição aberta a todos os emissores e gestores


de fundos de investimento que desejem ofertar seus produtos por meio da XP
Investimentos, tratando-os dentro de critérios isonômicos, não discriminatórios
e objetivos;

(ii) A não interrupção ou recusa, sem motivo razoável, à distribuição de um


determinado produto de investimento;

(iii) A não exigência da exclusividade de fato ou de direito na sua relação


comercial com agentes autônomos de investimentos e na distribuição de
qualquer produto já distribuído atualmente ou que venha a ser distribuído por
meio das plataformas XP.

A surpresa veio de onde não se esperava vir. Por decisão, em agosto de 2018,
pelo Voto 169/2018 – BCB, o Banco Central, por meio do Deorf, decidiu aprovar,
mas impôs condições, “sopesados os riscos e os benefícios da operação, a conclusão é
que a operação reúne condições de ser aprovada, desde que impostas medidas
compensatórias, a fim de mitigar os riscos de prejuízo à concorrência e para assegurar
a continuidade do caráter disruptivo da XP Corretora e o desenvolvimento de novas
tecnologias”.

Isto significava que o Banco Central havia aprovado com restrições e limitações
a operação entre o Itaú Unibanco e a XP Investimentos com a justificativa de que o
acordo viabilizava o investimento na XP, mas, para preservar sua independência, o
Itaú não poderia adquirir o controle da XP no futuro, tendo sido excluídas do
contrato: a compra, pelo Itaú Unibanco, de 12,5% do capital total da XP em 2020; as
opções de venda do controle acionário da XP ao Itaú, a partir de 2024; a opção de
compra do controle (pelo Itaú Unibanco), a partir de 2034, previstas no negócio
inicial.83

Como a decisão era aquilo que menos se desejava, naturalmente, foi ressoada
pelo Itaú. Candido Bracher, presidente do Itaú Unibanco, comentou sobre a decisão
de impor restrições à compra da XP, “rigorosa demais”: “Não havia risco para a
concorrência na forma como negociamos. Acho que a concorrência se intensifica à
medida que a XP fica mais forte. Mas o BC decidiu e cabe a nós acatar. E a vida segue.
Continuamos achando interessante o negócio”. Roberto Setúbal, co-presidente do
conselho de administração do Itaú, endossou o CEO e disse que o negócio com a XP
começou com uma motivação estratégica: “Estava definido que ela (XP) faria parte
do Itaú e, até termos o controle de fato, nós participaríamos da gestão e discutiríamos
as estratégias. Agora nós nem sabemos se um dia conseguiremos comprar. Ficou em
aberto. Pode ser que sim ou não, mais provável, não. Deixou de ser negócio
estratégico e passou a ser mais um investimento em si”.

O co-presidente do conselho do Itaú disse ainda acreditar que o modelo de


negócio da XP era bom, deveria crescer, tornar-se rentável e gerar valor. “A XP está
performando acima do valuation que fizemos quando fechamos o negócio há um ano
e meio. Estão crescendo um pouco acima do previsto. O fato de eles poderem
anunciar que o Itaú é acionista deu mais confiança para atrair clientes para a operação
deles. Estamos felizes com a transação, mas não temos mais direto de comprar o
controle”.84

O caso da XP-Itaú certamente mudou o perfil da concorrência em plataformas


abertas, como se comentará mais adiante. Mas a verdade é que não serviu como
exemplo ao mercado bancário de crédito: vale dizer, não irradiou efeitos à indústria
bancária como fez no mercado de investimentos.

No ano seguinte (2019), havia notícia de que a XP obtivera autorização do BCB


para se tornar banco. E, segundo entrevista de seus executivos, os produtos e serviços
viriam paulatinamente, dentro do escopo atual de negócio existente: um crédito
colateralizado, com garantia de um ativo financeiro como ações ou recibo de ações,
antecipação de investimentos, serviço de câmbio. Mesmo conta-corrente e cartão de
crédito ficariam para um momento seguinte.

O curioso aconteceu em junho de 2020: Uma campanha de marketing do Itaú


Unibanco, criticava o modelo de corretoras e agentes autônomos, especialmente em
relação ao modelo de remuneração, a comissão percebida pela XP e sua rede de
agentes. O comercial provocou reação violenta por parte da XP Investimentos,
instituição da qual o maior banco privado do país é sócio.

Guilherme Benchimol, CEO e Fundador da XP, publicou uma “resposta aos


ataques do Itaú”, em que afirmava: “Estamos há 20 anos lutando contra um sistema
financeiro concentrado que nunca inovou e nunca se preocupou com o que
realmente importa: o cliente! Tenho certeza que os bancos preferem o Brasil do
passado, com juros altos e baixa concorrência, explorando ainda mais os empresários e
os investidores individuais. A nova campanha do Itaú ataca o comissionamento dos
assessores na distribuição de produtos financeiros, como se ganhar dinheiro com o
trabalho fosse errado. Sempre fomos transparentes nisso. O assessor é um empresário,
um empreendedor que tem a sua própria empresa e somente sobrevive se a visão for
de longo prazo, com um cliente realmente satisfeito e muita ética em todas as suas
atitudes. Se ele falhar, não poderá mudar de emprego, mas, sim, fechará o seu
negócio.” E concluia: “A campanha do Itaú só reforça que estamos no caminho certo.
Para o maior banco do país, com mais de 90 anos de tradição, ir a público e ofender
uma profissão tão fundamental para o desenvolvimento financeiro dos brasileiros, é
porque realmente percebeu que não consegue mais competir colocando o cliente em
primeiro lugar. Tenho uma certeza: se tem algo que o banco não é, nem nunca foi, é
ser feito para você”, em referência ao slogan do Itaú Personalité. 85

EM RESUMO: CONCENTRAÇÃO, CONGLOMERAÇÃO E


ESPECIALIZAÇÃO BANCÁRIA

Há diferenças a considerar entre concentração, conglomeração e especialização


bancária. A primeira trata da redução numérica dos participantes do mercado
financeiro, mas com a crescente detenção dos negócios em valor por essas poucas
instituições. Ou seja, poucos em número detêm muito dinheiro. Conglomeração vem
a ser a capacidade de as instituições financeiras operarem em outras atividades, dentro
ou fora do sistema financeiro. Diante disso, a participação relevante de um banco
numa indústria é uma medida de conglomeração.

É relevante notar que, em sociedades como a japonesa, o desenvolvimento desse


fenômeno contribuiu decisivamente para o progresso. Assim, o keiretsu – grupo
corporativo diversificado em várias áreas da economia, mas organizado a partir de um
banco – consiste numa explicação central para o mercado financeiro no Japão.

Finalmente, a especialização bancária refere-se à centralização das atividades do


banco em uma única área. As chamadas “boutiques financeiras” atestam que há
algumas instituições preparando-se apenas para ser a melhor e a maior dentro de um
segmento, ou por indústria (um banco especializado num determinado segmento, por
exemplo, transportes), ou por região geográfica, ou mesmo por atividade financeira
(comércio exterior, financiamento de capital de giro etc.).

Potencialmente, tanto a conglomeração como a especialização dizem respeito a


atividades que podem ser disciplinadas pelo legislador. O advento da criação de regras
impeditivas de atuação – as conhecidas “muralhas” – pode coibir a performance de
controlados e controladores, com bancos tendo que separar completamente suas
atividades financeiras das não financeiras, bem como incentivar ou não a atuação
específica em um determinado mercado, como quer a especialização bancária. Em
ambos os casos, os riscos de mercado são controláveis pelo legislador, ao menos em
tese.

A concentração é medida pela participação das unidades financeiras na


A concentração é medida pela participação das unidades financeiras na
formação do agregado total dos ativos, e tal definição é aquela que compõe o índice de
Herfindahl, ainda um dos mais utilizados na mensuração econômica da
concentração.86

A concentração bancária, por seu lado, oferece riscos que extrapolam o poder
do legislador em tentar determinar a conduta do mercado. Sua justificativa mais
plausível são as economias de escala – entenda-se que o aumento da quantidade
produzida é obtido com menor utilização de recursos. Com base em autores como
Fischer e Shefrigir, podem-se destacar três riscos oriundos da concentração bancária
que os bancos correm , a saber: o risco da instabilidade estrutural, o risco da assimetria
informacional e o risco da insolvência.

O primeiro risco é o da instabilidade estrutural, que decorre da própria natureza


dos bancos. Bancos criam moeda escritural e fazem empréstimos com base num
encaixe em depósito. Qualquer corrida bancária certamente corrompe o lastro no
qual estão garantidos possíveis saques. Logo, há uma instabilidade natural do sistema,
visto que as expectativas dos agentes econômicos, muitas vezes de cunho emocional,
podem determinar o equilíbrio do sistema. A concentração bancária tende a
aumentar o grau de instabilidade, pois o nível de exposição se multiplica
assustadoramente.

O segundo grande risco é o da assimetria informacional, ou seja, há escassez de


informações para a correta tomada da decisão. Um regulamentador pode não ter
disponíveis todos os dados e fatos necessários para agir prudencialmente, como deve
fazê-lo. A concentração bancária também tende a aumentar a possibilidade do
disclosure das informações tendo em vista práticas manipulativas. Da mesma forma,
os supervisores sempre estão atrás dos bancos na coleta de informações, prejudicando
também seu trabalho preventivo. Em outras palavras, a concentração implica um
aumento significativo de poder por parte dos bancos.

Finalmente, há um último e grande risco. Na década de 1980 e, depois, em


2008, presenciou-se a emergência das teorias too big to fail, ou seja, bancos ou
instituições financeiras de grande porte – em razão do número de depositantes e da
natureza de suas aplicações – que, se fossem liquidados, causariam um desequilíbrio
muito intenso, quebrando inclusive o país de origem. Assim, a autoridade monetária
era convocada a injetar dinheiro público em instituições financeiras muitas vezes
imprudentemente administradas. O intuito explícito era proteger a ocorrência de
uma reação em cadeia por parte do sistema de depósito e poupança. A concentração
bancária pode estimular comportamentos como esse, em que a imprudência é
encorajada, já que o banqueiro sabe que é grande demais para falir. A boa notícia no
Covid-19 é que o fenômeno não ocorreu; os modelos de fortalecimento de capital
adotados em 2008 foram providenciais doze anos depois.

SANDBOX E LABORATÓRIOS

É meio lugar comum a noção de que deve haver oportunidades iguais para
todos de diferentes tamanhos e capacidades financeiras e peculiaridades, mas, no
Estado de Direito, não se oferecem vantagens a ninguém. Trata-se de princípio basilar
do liberalismo e da igualdade econômica.

O grande problema é que o liberalismo, na esfera de sua atuação, a limitação, a


instituição e a organização do poder abalizavam-se no resguardo da liberdade, e é, em
si, pouco aplicável aos dias de hoje. O próprio tema da regulação, como interferência
no domínio econômico por meio de políticas públicas, é forma cabal da prova da
inaplicabilidade dos princípios originais do liberalismo puro do Século XIX Caberia
ao Direito a missão de cumprir a tarefa e a tradição do império da lei sobre os homens
– leis que normatizam a conduta humana na sociedade, no princípio da submissão do
Estado e da sociedade ao Direito.

Mas, enfim, voltemos à ideia de que é preciso, em certas ocasiões, maior espaço
para inovação. Por exemplo, o conceito de sandbox regulatório. Trata-se de propor
um ambiente experimental, temporário, de inovação para determinados participantes,
a fim de que se consiga aprender como regrar comportamentos a partir de
experiências.

Vinicius de Carvalho, ex-Presidente do CADE, em artigo no Valor Econômico,


lembra que, no Brasil, além de liberdade econômica, a iniciativa ganhou maior
respaldo legal, já que a regulação é custosa, impõe barreiras à entrada de novos agentes
e, portanto, é preciso enfrentar novos desafios para permitir movimentos disruptivos,
ou seja, quebra de paradigmas que trazem benefício para o mercado e para os
consumidores. E, em matéria concorrencial, sandbox não se faz com os players
estabelecidos, ou aqueles agentes econômicos concentrados numa dada indústria.87
A princípio então, como conceito de flexibilização de regras, o sandbox desafia
os incumbentes a investir em tecnologia, em mostrar ao Estado a possibilidade de
reduzir a carga regulatória de forma a também reduzir as falhas de mercado. Sandbox é
um ambiente controlado, de laboratório, e segundo Vinicius de Carvalho, é inegável
que a implantação desses sistemas apresenta grande oportunidade de aprendizado, já
que se trata de novidade em escala reduzida.

Ao lado de iniciativas como o sandbox, o próprio BC deu azo a um projeto de


laboratório. Ainda pouco conhecido, o Banco Central criou há dois anos o
laboratório de inovações financeiras e tecnológicas, com a sigla LIFT, e já está na
terceira chamada de inscrição para novos projetos. O projeto é inspirado em uma
experiência bem-sucedida do Banco da Inglaterra e em Cingapura. Trata-se de
protótipos de empresas, de startups, que são “acelerados” no LIFT e começam a
receber aportes de investidores. O LIFT não é propriamente uma incubadora, que
atua numa fase ainda de protótipo, é simplesmente um facilitador, um viabilizador do
desenvolvimento de um projeto, que se conhece como uma segunda fase da inovação.

Para o Banco Central, “é uma oportunidade de diminuir o custo de aprendizado


para que o regulador acompanhe e valide regras necessárias para dar segurança aos
clientes e novos serviços”. Segundo o Relatório do BC, no primeiro ano do LIFT,
foram 18 projetos selecionados e 12 chegaram ao final, na segunda fase, em 2019, 20
foram escolhidos e 17 receberam o protótipo e, em 2020, abriu-se outro projeto para
aumentar o número de inscrições.88 Todo o desenvolvimento é feito no ambiente de
empresas de tecnologia, em geral prestadores de serviço do próprio Banco Central,
que dá um selo e abre caminhos para tais startups receberem investimentos.

Há alguns exemplos bem-sucedidos, ainda que a experiência seja restrita, mas


essas fintechs, após a “aceleração” pelo LIFT, recebem de fato investidores, uma vez
que a mensagem clara, segundo a diretora do BC, Carolina de Assis Barros, é que a
“inovação tem vida”.

Esse papel do BC é inusitado. Aliás, há dúvidas sobre esse papel na própria


administração pública como um todo. Justifica-se: Banco Central é autoridade
regulatória e não o locus para um venture capitalista. Incentivar ambiente é uma coisa,
abrigar startups e empreendedores com investimentos de seed capital é outra,
inteiramente diferente. Enquanto não cabe aqui uma discussão mais pormenorizada,
há de se revisitar o papel que o BC pretende assumir e verificar sua total transparência
e publicidade, como convém a qualquer ente público.

Este papel ativo ficou evidenciado quando o Banco Central e o CADE


suspenderam em Junho de 2020 a função de pagamentos e transferências por meio do
WhatsApp no Brasil. Nessa decisão, exigiu-se que as bandeiras de pagamento Visa e
Mastercard, que viabilizavam as operações financeiras, paralisassem a função para que
pudesse se avaliar riscos e garantir funcionamento adequado do Sistema de
Pagamentos Brasileiro (SPB) e potenciais riscos para a concorrência. Segundo nota
oficial, “A motivação do BC para a decisão é preservar um adequado ambiente
competitivo, que assegure o funcionamento de um sistema de pagamentos
interoperável, rápido, seguro, transparente, aberto e barato”. 89

Finalmente, sobre concorrência e spread bancário, o próprio Banco Central


adverte que: “a relação entre concorrência, concentração e spread bancário é
controversa. A literatura sobre o tema traz diversas hipóteses sobre as possíveis
relações entre essas variáveis. Além disso, evidências empíricas apontando correlação
entre essas variáveis não implicam, necessariamente, relação de causalidade”.90

Mas tanto um quanto outro têm claros propósitos concorrenciais, ou seja, criar
ambiente em que novos players estejam estimulados a entrar em mercados
contestáveis como o da indústria bancária. E, como se sabe, a disputa pelo market
share em mercado concentrado envolve tirar participação dos grandes.

BANKTECHS

A resposta dos grandes bancos incumbentes não vem na forma de confronto


direto e, sim, numa tentativa de cooperação ou simbiose. “Os bancos no futuro não
vão fazer tudo. Mas a torta será muito maior, porque a bancarização vai aumentar”,
afirmou Sérgio Rial, CEO do Banco Santander no Brasil.91 Mesmo para bancos
menores, como o Banco Inter, o CEO afirmou recentemente que entre ser fintech ou
banco tradicional, haviam criado “um segmento novo que não é fintech nem banco.
Essa intersecção do mundo tech com o bancário pode ser chamada de banco digital.
Existe uma solução bancária completa, digital e gratuita, mas também uma solução
para serviços não bancários”.92
Inicialmente, é preciso compor um retrato do que são os grandes bancos no
Brasil, e, antes disto, qual é seu volume de clientes “bancarizáveis”.

Do total de CPFs da população brasileira, 90,4% das pessoas mantêm algum


tipo de relacionamento bancário. Esse cenário recebe o nome de “bancarização”, ou
inclusão bancária. Apenas para efeito de comparação, em 2008, o grau de
bancarização era de 72,4%, e menos da metade disto em 1990. As cinco maiores
instituições – Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Santander
–detinham, em 2019, 81,2% dos ativos totais do segmento bancário comercial, crédito
no segmento, e, em relação aos depósitos totais, 83,8% do total do Sistema Financeiro
Nacional. É, portanto, um mercado bastante concentrado.

Uma necessária digressão: um olhar um pouco mais atento aos números mostra
que, enquanto cresce o número de cidadãos que passam a ter algum relacionamento
bancário, e, em pouco tempo, graças à tecnologia, 100% dos brasileiros estarão
bancarizados, esta bancarização ainda é frágil, superficial e pouco abrangente.
Segundo dados do Sistema de Informações de Crédito do Banco Central (SCR), do
total da população bancarizada, somente 34% têm algum relacionamento de crédito e
menos de 40% utilizam suas contas bancárias para algo além do recebimento mensal
de salários e remunerações fixas como pensão etc.

Menos de 40% usam suas contas bancárias para algo além do recebimento de
salários e remunerações fixas. Ou seja, serviços financeiros ainda estão inacessíveis para
a maior parte dos bancarizados. Vamos retomar este assunto mais adiante, mas, por
ora, é importante ressaltar que cerca de 80% do sistema se concentra em cinco
instituições.

Mas voltemos aos banktechs, expressão cunhada pelo CEO do Santander e que
significa, obviamente, os atuais bancos incumbentes mesclados com a tecnologia de
fintechs.

A aposta é que haverá uma aproximação entre bancos e fintechs nos próximos
anos, “com os primeiros tendo que buscar uma estrutura de custos mais leve e as
novas empresas precisando encontrar o caminho da rentabilidade.” E ele
complementa: “O grande desafio de instituições como a nossa reside na sua
transformação cultural. Sair desse pseudolegado, que se chama banco, com tudo de
bom e de ruim que tem, e transformar a experiência do consumidor em algo que gere
valor”.

O MUNDO DOS MEIOS E ARRANJOS DE PAGAMENTO

Outra discussão pertinente refere-se à distinção entre arranjos de pagamento e


instituições financeiras, já que uma tem clientes e a outra, correntistas, como lembrou
o CEO do Banco Inter.

Há conceitos citados acima que merecem um aprofundamento. Assim, é


importante destacar os integrantes do sistema: arranjadores de pagamento,
adquirentes, emissores, bandeiras e subadquirentes. Todos fazem parte de um
subsistema, distinto das instituições O arranjo de pagamento é compreendido como o
conjunto de regras e procedimentos que disciplina a realização de serviços de
pagamento, tais como compras e pagamentos com instrumentos de crédito, débito e
pré-pago, seja em moeda nacional ou em moeda estrangeira, conforme disciplina o
artigo 6º da Lei n. 12.865/2013.

Segundo o BCB, “instituição de pagamento (IP) é a pessoa jurídica que viabiliza


serviços de compra e venda e de movimentação de recursos, no âmbito de um arranjo
de pagamento, sem a possibilidade de conceder empréstimos e financiamentos a seus
clientes”.

Já as adquirentes processam e fazem a liquidação financeira das transações por


meio de cartão de crédito e cartão de débito. Trata-se de empresas que são
responsáveis pela comunicação com as bandeiras e os bancos emissores.

Pode-se afirmar que a adquirente é o agente operador do sistema de


pagamentos. Popularizada pela figura da “máquina de cartão de crédito” no
comércio, é a adquirente que processa a transação e entrega os valores das vendas
efetuadas na conta-corrente informada, num determinado prazo (em geral até 30 dias,
mas com a possibilidade de antecipação, mediante uma taxa de juros).

Muitos confundem essa prática com o conceito de gateway. O comércio pode


usar as adquirentes diretamente ou através de um portal, em geral eletrônico,
conhecido como gateway. Imagine-se uma loja eletrônica com o pagamento ao final.
Trata-se de um gateway que recebe uma porcentagem na venda, ainda que exista uma
adquirente, com os créditos da venda enviados diretamente à conta do lojista. Então é
correto afirmar que a função do gateway é processar o pagamento no momento do
check out, verificar se os dados pessoais do comprador estão seguros e se há saldo
suficiente para a transação.

Há ainda as bandeiras, como Mastercard, Visa e American Express, marcas


constantes dos cartões e que determinam certas regras como a quantidade de parcelas
em que você pode dividir o pagamento da transação e o número de estabelecimentos
em que eles são aceitos, nacional e internacionalmente.

Finalmente, há as empresas subadquirentes. Elas fazem a intermediação dos


pagamentos entre todas as partes envolvidas, ou seja, a intermediação entre
adquirentes, clientes e lojistas, sendo usadas por pequenos e médios comerciantes, já
que não exigem grande complexidade de integração nas lojas. São, assim,
intermediadores, diferentemente dos gateways, na administração das vendas.
Oferecem a vantagem de repassar ao comerciante diretamente o valor líquido,
descontadas as taxas.

Como se sabe, não existe na legislação pátria uma definição precisa do que seja
instituição financeira, da qual banco é espécie. Temos que aceitar a definição do
artigo 17 da Lei 4.595/64 como a mais instrumental para chegarmos mais próximo ao
conceito, ainda que a Lei Complementar n. 105 de 10 de janeiro de 2001 tenha, ao
obrigar as instituições financeiras a conservarem sigilo em suas operações ativas e
passivas e serviços prestados, definido o que são instituições financeiras 93

Mas, à luz da prática de mercado, não é usual afirmar que uma tem clientes e a
outra, correntistas, é uma meia verdade. Por um lado, é verdade que a conta-corrente,
como já vimos, se tornou o centro do banco e da atividade bancária; por outro, todo e
qualquer negócio tem clientes. A confusão entre clientes e correntistas é meramente
semântica ? Entendo que não, mas todo correntista é cliente no sentido estrito do
termo, ainda que nem todo cliente seja correntista (ou seja, detenha conta-corrente) -
por exemplo, num financiamento de veículo novo por banco de montadora, o
devedor é cliente, mas não necessariamente correntista.

No entanto, o cerne da questão, e de todo o debate da “centralidade no cliente”,


vale dizer, a necessidade de se comunicar, se comportar e interagir com o seu público
de uma maneira alinhada ao momento atual da sociedade como preceito básico de
uma corporação, é tratar das suas necessidades – e aqui necessidades financeiras –
como objetivo da prestação de serviços bancários.

Tomemos como exemplo os AISP (Account Information Service Provider – ou


provedor de serviços de informações de contas-correntes), atualmente em vigor na
União Europeia, que oferecem serviços de acesso à informação (e consolidação dos
dados) de uma dada conta-corrente dos clientes bancários. São os serviços de
organização financeira pessoal que utilizam dados históricos para auferir, analisar e
registrar o comportamento de receitas e despesas de um usuário ou mesmo agregar
suas informações gerencialmente e, por meio delas, oferecer serviços financeiros. Por
exemplo, ao consolidar determinada conta de um consumidor que está com saldo
negativo e, portanto, no limite do cheque especial, ofertar-lhe uma linha de crédito
mais barata. Os chamados organizadores financeiros efetivamente oferecem um
serviço que pode ser complementado com educação financeira, propósito de evitar o
superendividamento etc. Trata-se de uma mudança cultural de deixar, por um lado, a
mera oferta de produtos para, por outro, criar uma relação econômica mais profunda
e duradoura.

A aposta na “metamorfose cultural” – seja lá o que for isto – não encontra


muito apoio em fatos históricos, e ainda que a história dos bancos não seja exatamente
geopolítica, os estudos de Paul Kennedy, A ascensão e queda das grandes potências:
mudança econômica e conflito militar de 1500 a 2000 são úteis. 94

Kennedy argumenta que o poder de uma grande potência é relativo, medido


apenas em relação a outras potências e se correlaciona com os seus recursos
econômicos e militares. São as ameaças consistentes e a necessidade de responder a tais
ameaças, sempre maiores do que suas bases de recursos, que acabam por solapar sua
hegemonia original.95

Kennedy afirma ainda sua teoria quanto ao “conflito militar”, mas sempre está
examinando no contexto de “mudança econômica”. É claro que o triunfo de um
poder hegemônico é sempre, e em qualquer lugar, a consequência direta e imediata de
longos combates bélicos, mas é preciso lembrar das consequências econômicas da
guerra (como já advertia Keynes), da utilização mais ou menos eficiente dos recursos
econômicos produtivos e a maneira pela qual a economia do país vitorioso ou
derrotado se valia delas. Os exemplos dos EUA, da Alemanha e do Japão, no pós-
guerra (1945), são evidentes.

Tomemos a analogia com os grandes bancos. Por um lado, os poderes


estabelecidos são eles, a regulação em geral está ao seu lado, seja por mitigar a
concorrência, ao criar mercados contestáveis, cujas barreiras à entrada e à saída são
elevadas, seja pela característica especial do negócio bancário. Para o sistema, bancos
são possuidores de características muito determinadas para a concessão de crédito: a
habilidade de pagamento do futuro mutuário; seu caráter e histórico de crédito e,
finalmente, as condições de garantias subjacentes ao negócio. Por outro lado, a correta
concessão de crédito implica boa prática bancária (baixa concentração em
determinados clientes ou setores da economia), além de expansão cautelosa e de um
controle rigoroso do perfil e descasamentos entre ativos e passivos da instituição.

Bancos grandes são como grandes potências. Têm vastos recursos à disposição e
imensa capacidade de guerrear; o que não quer dizer que sempre serão vitoriosos. E
podem um dia deixar de ser hegemônicos por múltiplas razões, entre outras, que é
sempre mais difícil crescer a partir de uma base maior, seja de clientes, de ativos, de
depósitos, seja do que for.

No entanto, os entrantes não têm a mesma experiência nem conseguem se


antecipar aos problemas, capital ainda é uma dificuldade e ameaças de crises afetam o
modelo de negócio de forma direta. No próximo ensaio, vamos tratar um pouco do
modelo de rentabilidade, e como crises, como a da Covid-19, afetam os entrantes.

A SOLUÇÃO CONCORRENCIAL DO OPEN BANKING

O Banco Central colocou em consulta pública, até 31 de janeiro de 2020, a


proposta de open banking, abertura do Sistema Financeiro Nacional, dando maior
controle aos clientes de seus dados financeiros. A ideia da autoridade monetária é de
que o processo seja separado em quatro fases, sendo a primeira implementada até
Outubro de 2021.96 Sua intenção declarada era de implementá-lo “sob a ótica
concorrencial”, já que se trata de “processo de equalização das condições competitivas
entre agentes do mercado financeiro”.

As justificativas estão exploradas na Exposição de motivos do Comunicado


As justificativas estão exploradas na Exposição de motivos do Comunicado
33.455/2019. E é provável que provoque o advento de “um dos fatores determinantes
da composição da estrutura futura da intermediação financeira, com consequências
profundas para a competição no mercado de crédito, de capitais e de pagamentos”.

De acordo com o atual Diretor de Regulação do Banco Central, Otávio


Damaso, as instituições financeiras das categorias S1 e S2, os grandes bancos, serão
obrigadas a participar do sistema de abertura. Já para as demais, a participação poderá
ser voluntária. Após a entrada no processo de open banking, os agentes “estarão
sujeitos a ter as informações e fornecer informações”.

A primeira fase, que começará cinco meses após a divulgação dos normativos,
ocorrerá por meio do compartilhamento de dados, produtos e serviços oferecidos
pelas instituições participantes. “Queremos que sejam disponibilizados os custos e
preços daqueles produtos”, afirma o Diretor Otávio Damaso. Assim, em uma relação
entre um cliente e seu banco, um terceiro agente poderá ter acesso às informações,
oferecer produtos e prestar serviços mais vantajosos para o consumidor. Em 23 de
Junho de 2020, foi publicada a Circular 4.032, sobre a estrutura inicial responsável
pela governança do processo de implementação.97

Aqui, é necessária uma digressão sobre a proteção ao consumidor.

O tema do consumidor é o que permeia toda a discussão do open banking em


duas grandes searas: a da relação da “centralidade do cliente” e a questão dos dados (e
informação) de suas atividades financeiras.

Hoje todos tratam do tema da centralidade no cliente como fio condutor de


qualquer estratégia corporativa. Por exemplo, num balanço publicado por um grande
banco de varejo, há um gráfico que tenta descrever sete princípios baseados na noção
de centralidade no cliente:

1. conhecemos e entendemos nosso cliente

2. priorizamos o cliente na tomada de decisões

3. o problema do cliente é problema meu


4. encantar o cliente é responsabilidade de todos

5. inovamos, testamos com o cliente, aprendemos rápido com nossos erros e


acertos

6. comunicamos o cliente de forma simples, clara e transparente

7. reconhecemos e recompensamos pela satisfação do cliente

E aí, em algo denominado “fórum executivo de clientes”, que é composto por


reuniões básicas com diretoria e também com clientes, ainda que não sejam públicos
nem a forma, a frequência ou mesmo o critério de escolha de tais clientes ou
segmentos de clientes, há a descrição de quatro passos dessa estratégia:

1. analisar a satisfação de clientes

2. acompanhar o andamento das iniciativas de centralidade no cliente

3. analisar o que foi feito e como melhorar

4. tomar decisões relativas à centralidade no cliente em nossas frentes


estratégicas

E afirma-se, de novo, nas demonstrações do relatório da administração do ano


de 2019, que, para mudar, é preciso ir além: “acreditamos que essa mudança venha de
dentro para fora, por isso, buscamos melhorar a experiência não somente do cliente,
mas também de nossos colaboradores” e ainda reconhecendo e valorizando
“diferenças que existem dentro de cada pessoa para colocarmos em prática essa
transformação cultural”.98

É claro que esses termos poderiam estar nas demonstrações de resultado tanto
de uma indústria farmacêutica, de uma montadora, ou mesmo de uma padaria.
Aparentemente, são expressões soltas e que se adaptam de forma ambígua a qualquer
situação e hipótese.

O mundo empresarial sempre teve, de fato, tais modas. Trata-se do que se


O mundo empresarial sempre teve, de fato, tais modas. Trata-se do que se
conhece em alemão como Zeitgeist, cuja tradução literal significa “espírito da época”
ou sinal dos tempos, ou, simplesmente, o “espírito do tempo”. A expressão resume o
“conjunto do clima intelectual, sociológico e cultural de uma pequena região até a
abrangência do mundo todo em uma certa época da história, ou as características
genéricas de um determinado período de tempo”. É claro que esse ambiente
respeitoso, produtivo, precisa vir de crenças e cultura; não é algo que se escreve, não é
algo que se lista em alguns princípios, não é algo que se pode transformar em fórum
executivo de clientes, é algo em que se acredita. E crise e cultura levam ao
convencimento de todos universalmente.

O banco de varejo, citado acima, ainda afirma que havia recebido, no ano, cerca
de 650 mil ligações telefônicas, com investimentos de tecnologia crescendo quase 54%
em apenas três anos. Mais do que se gabar em atenção ao cliente com números de
investimento em tecnologia, isso apenas reflete o fato inegável de que o cliente precisa
de fato ser convencido a permanecer em sua instituição financeira após qualquer fato
ou incidente que o motive a ir para outra.

Pois bem: o senso comum é que open banking trata do tema ao entender que o
cliente é rei e pode escolher o que fazer, de que jeito fazer e como fazer. Na acepção
literal, open banking significa “banco aberto”, vale dizer, abre-se um “leque de opções
disponíveis para o consumidor e permite-se que ele tenha mais liberdade para levar
suas informações financeiras para onde quiser”.99 E, segundo o próprio mercado,
trata-se de “uma camada de tecnologia padronizada – uma forma de comunicação
fácil para simplificar a portabilidade de dados”. Isso acontece porque a premissa do
open banking é ter APIs abertas – ou seja, ter essa base de tecnologia disponível para
qualquer um no ecossistema de produtos e serviços.

Nascido no Reino Unido, em razão de multas concorrenciais, e por iniciativa da


própria autoridade da concorrência (Competition and Markets Authority – CMA)
em 2014, o open banking surgiu de uma investigação de mercado baseada na conduta
de bancos junto a clientes médios e pequenos. A conclusão do estudo foi que bancos
de varejo no Reino Unido não desfrutavam de uma concorrência efetiva e não
atendiam às necessidades dos consumidores. A investigação de 2014 identificou vários
assuntos ligados à concorrência nos mercados bancários, entre eles, a baixa mobilidade
era o principal problema relatado. Muitos abriam suas contas-correntes comerciais e
eram obrigados a lá permanecerem em razão de operações de crédito e empréstimos
comerciais. Os números comprovavam o lock-in dos reclamantes: 57% dos
consumidores eram cliente da mesma instituição há mais de 10 anos e 37% há mais de
20 anos. Mas o grau de insatisfação era elevado, confrontados com tarifas e cobranças
que julgavam injustas.

O primeiro movimento passou a ser de mobilidade, depois surgiu a ideia de


permitir o acesso a mais de 4,3 mil bancos diferentes em 14 mercados distintos na
Europa, a partir do Reino Unido, podendo ser livremente utilizado por qualquer
fintech ou outras empresas não financeiras. Entre outros serviços, destaca-se a
capacidade de iniciar pagamentos instantâneos em prol dos consumidores.

O movimento de open banking tem apoiadores e críticos de todos os lados. Mas


há um fato indiscutível na experiência inglesa: o dado estarrecedor refere-se ao
número de acessos aos APIs de janeiro a novembro do ano de 2019: de pouco mais de
20 bilhões a 140 bilhões, um incremento de quase sete vezes, e uma disponibilidade de
99,02% no mesmo período.

Outra característica se refere à padronização, tema visto como uma das maiores
vantagens do sistema inglês já que redistribui responsabilidade a todos os
participantes: mais de 90% dos provedores já estão com projetos em desenvolvimento
ou desenvolvidos para implantação em 2020. Talvez a crise da Covid-19 possa mudar
este horizonte.

Isto afirmado, o assunto ainda tem muito a deslumbrar o consumidor, na


prática, especialmente na oferta de produtos e serviços bancários. Mas a implantação
ainda é considerada lenta e tímida, restando mais de 90% de serviços financeiros ainda
realizados do modo tradicional. Cinco dos nove maiores bancos ingleses não
cumpriram os prazos de permissão de uso de terceiros nos seus sistemas e há notícias
de que o FCA tem sido obrigado a lidar com rigor com os atrasos. Vale dizer, a
implementação está mais lenta e ainda não afetou positivamente a concorrência.

Outra seara que a experiência inglesa ainda não confirmou – e é evidente que é
cedo para isso – diz respeito à lucratividade dos participantes envolvidos, em meio a
tantos interesses distintos, em que a propriedade da informação – como será entre nós
com a LGPD – pertence ao consumidor.

Com esta diretiva, é forçosa uma dupla autenticação de segurança pelo cliente
Com esta diretiva, é forçosa uma dupla autenticação de segurança pelo cliente
em qualquer dos serviços de pagamento on-line ou mesmo nas transferências
eletrônicas, que se, por um lado, aprimora a segurança do sistema e contribui para
reduzir as fraudes, por outro, pode gerar maior dificuldade para os consumidores.

Entre nós, o assunto caminha após a consulta pública e o PIX, já tratados


anteriormente, com promessa de vingar ainda neste ano. Mas há outras iniciativas
sobre o tema. O Banco Central anunciou a intenção de criar um fundo para projetos
de tecnologia e o artigo foi incluído em um projeto de Emenda Constitucional muito
na contramão da extinção dos 248 fundos públicos existentes.100 No esboço do
Projeto da Emenda Constitucional foi incorporado um artigo que prevê a criação de
um fundo para custear “investimentos e projetos estratégicos da autarquia que
deveriam vir de valores pagos pelos bancos ao sistema financeiro”, a intenção, no caso,
era dotar projetos de tecnologia. Como faltou à iniciativa transparência e
objetividade, inclusive com o propósito de quanto, onde e em que projetos deveriam
ser aplicados tais fundos, até agora não foi aprovado. No próximo ensaio vamos tratar
em detalhes do PIX.

CONCORRÊNCIA E MATÉRIA CONCORRENCIAL NA


PRÁTICA

Em artigo acadêmico, apesar de serem funcionários de carreira do BCB, José


Renato Haas Ornelas, Marcos Soares da Silva e Bernardus Ferdinandus Nazar Van
Doornik afirmam que os bancos de varejo são os primeiros a reduzirem taxa de juros
apenas para seduzir novos entrantes; mas, depois de torná-los clientes, aumentarem os
juros. Os articulistas denominam essa estratégia como “atraia e extraia rendas”, que
afeta especialmente as micros e pequenas empresas; no estudo, depreende-se que tais
clientes pagam um spread de 1,5 ponto maior na quarta operação e, a partir da décima
oitava, o sobrepreço é de pelo menos 4,5 pontos, portanto, três vezes mais.

Segundo os autores, a esses empresários não lhes resta outra alternativa de oferta
de crédito. Para comprovar a tese do empoçamento da liquidez, somente a abertura
das informações por meio de open banking poderia contribuir para derrubar os
spreads.101

As conclusões precisam ser observadas na prática. A concessão de crédito é uma


As conclusões precisam ser observadas na prática. A concessão de crédito é uma
arte que envolve mais do que apenas razão e números, envolve, principalmente,
confiança e experiência. E confiança, como se sabe, não se mede, se obtém, e
experiência e história são variáveis de tempo. Ainda que possa mesmo existir um certo
lock-up em razão da baixa mobilidade de clientes, e isto é certo, no crédito pulverizado
– como ocorre com o cheque especial, as distorções não são evidentes. Mas no
mercado maior (e mais organizado) de crédito, a grande influência é a taxa básica
(Selic), que determina a política monetária e pode afetar de forma não linear o
próprio spread, inclusive com a percepção maior das áreas de risco. Mas é claro que,
em um mercado competitivo, um cliente lesado ou maltratado migra com facilidade
para outro, assim como se muda de churrascaria quando a carne não está suculenta.
Trata-se do conceito de switching costs, ou os custos de transação envolvidos com a
mudança. O tema é particularmente relevante no cadastro positivo e na portabilidade
de clientes.

De toda sorte, a concorrência pode ser incentivada e operada de muitas


maneiras. Por exemplo, as novas fintechs fazem segmentação de público, por exemplo,
a criação de fintechs focadas numa segmentação entre afro-brasileiros, mulheres,
LGBTI e mesmo públicos muito específicos, tais como Elasbank, Bridebank,
Blackbank, entre outros empreendedores. O objetivo é fornecer plataformas digitais
de investimento ou parcerias em crédito ou ainda o que se conhece como “fitness
financeiro”, em que há planejamento do consumo para um público específico que se
identifica com o projeto.

É claro que há a ideia de combater preconceitos sociais, como o racismo ou a


intolerância, mas a verdade é que essa estratégia amplia a percepção de valores
determinados para núcleos específicos de clientes. E isto é sempre muito bem-vindo.

Já o compartilhamento de dados entre instituições financeiras, base do open


banking, tais como renda, receita, histórico, cadastro etc., foi objeto de consulta
pública pelo Banco Central encerrada em janeiro de 2020.

Por um lado, as instituições menores representadas pela Associação Brasileira de


Bancos Comerciais (ABBC) defenderam que a troca de informações fosse gratuita
para até vinte consultas; por outro, os bancos grandes de varejo desejavam limites
menores pela gratuidade, defendendo até mesmo uma única troca de dados por mês e
uma consulta de transação por dia, com consultas pagas acima deste limite. Tal
rigidez, segundo os maiores, deveria existir em razão do ressarcimento de custos
operacionais, já que isto implica um custo de informática e processamento.

O consultor do Departamento de Regulação do BCB, Mardilson Queiroz,


reagiu em nome da instituição alegando que “deixar solto não ia rolar” e que o Banco
Central estaria presente nesta discussão. Concluiu afirmando que “até o MMA
(Mixed Martial Arts, a luta livre de combate) tem regra”, ao anunciar a criação de um
comitê de vinte representantes para voltar a discutir o assunto. No final, passou a
valer uma regra de reciprocidade, ainda a ser estabelecida.

Finalmente, discutimos a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).


Havia, um Projeto de Lei que tramitava na Câmara dos Deputados, PL 5762/19,
prorroga por dois anos, de agosto de 2020 para agosto de 2022, a vigência da maior
parte da LGPD. Os itens entrariam em vigor em janeiro de 2020, mas esse prazo já
havia sido adiado pela Lei n. 13.853/19, oriunda da Medida Provisória 869/18. A
crise da Covid-19 apenas antecipou a entrada em vigor, o que afeta o
desenvolvimento do open banking. Já neste ano de 2020, deve iniciar a primeira fase,
até 30.11.20, mas que pode ser antecipado, com a abertura de dados dos produtos e
serviços.102 Até maio de 2021 deverá ocorrer o compartilhamento autorizado de
dados de clientes e de seus representantes, bem como de dados de transações
envolvendo produtos e serviços indicados na primeira fase. Até agosto de 2021 deve
ser implementado o compartilhamento dos dados referentes a iniciação de transação
de pagamento e de encaminhamento de proposta de operação de crédito. Finalmente,
até outubro de 2021 deve acontecer o compartilhamento das demais informações dos
clientes, dentre eles, operações de câmbio, dados de arranjo de pagamentos, seguros,
investimentos, previdência, dentre outros.

A implementação ainda em curso, não é isenta de críticas. Por exemplo, Márcio


Aguiar afirma que “o Brasil ainda não está preparado” para o open banking, já que
“há necessidade de investimentos em vários setores, sobretudo nos que avançam sobre
infraestrutura, isonomia social e legislação específica.” E afirma peremptório: “A
correria para a implementação do Open Banking, no Brasil, causará efeitos colaterais
perigosos.”103

É cedo para desenhar qualquer cenário, otimista ou pessimista, ainda que não se
possa discordar dos objetivos do projeto: incentivar a inovação; promover a
concorrência; aumentar a e ciência; e promover a cidadania nanceira.
FUNDOS DE INVESTIMENTO

Na seara de fundos dos investimentos, o cenário mudou também radicalmente


do ponto de vista concorrencial, em parte pelo advento da XP. Antigamente, o
mercado se caracterizava por algo que se conhecia como uma arquitetura fechada, ou
seja, o banco distribuía unicamente produtos financeiros de investimento que ele
mesmo havia criado. Hoje, em oposição, vige o que se conhece como “arquitetura
aberta”, vale dizer, quando o banco distribui seus próprios fundos, mas também os de
terceiros.

É nesse ambiente que os agentes autônomos de investimento florescem, ao


encontrar um nicho realmente relevante para ofertar a seus clientes sem a
característica de exclusividade. Ainda que eles possam estar vinculados a determinada
instituição financeira (como a XP) e possam oferecer um leque de produtos mais
amplo a seus clientes, tornando a gama de investimentos muito maior, a concorrência
cresce. Estudo do Morgan Stanley estima que a receita das plataformas de
investimento crescerão a R$ 160 bilhões, 113% maior do que em 2020.104

Quanto do modelo XP é realmente disruptivo, há ainda que conferir. Em seu


voto-vogal, no Ato de Concentração n. 08700.004431/2017-16, a Conselheira
Cristiane Alkmin Junqueira Schmidt, ao reprovar a fusão, se referiu à XP como
maverick. “Aprovar esta operação, portanto, é dar o aval para que qualquer outro
banco compre as demais empresas de plataforma aberta que, com todas as
dificuldades, conseguiram entrar neste mercado, copiando a tecnologia da Maverick,
isto é, da XP. É colocar o processo de desbancarização em cheque, destarte. É isso que
esta operação traz como real risco ao SFN brasileiro”.

Maverick, em inglês, é o pouco usual. Trata-se de pessoa que pensa e age de


forma diferente e independente. Ora, e sem entrar no mérito da decisão do Cade nem
do BC, como acima comentado, um negócio com um agente autônomo, visitas etc.
não é exatamente pouco usual. O que pode ser considerado pouco usual na XP foi o
uso e a arquitetura tecnológica aberta, na qual todos vendem aquilo que é comum a
todo mundo.

É evidente que, no regime de concorrência atual, portanto, são os agentes


autônomos de investimentos que, na verdade, demandam essa arquitetura aberta. Há
um assessor de investimento qualificado que conhece o histórico de investimento do
cliente, está inteirado da gestão e faz as recomendações que entende pertinentes.

Atualmente, com o uso de inteligência artificial, tudo isto pode ser feito por
robôs. É essa característica desse novo ambiente que de fato aumenta a concorrência
nesse mercado de investimento. Marcelo D’Agosto, colunista do Valor, no artigo
“Novas tendências na distribuição de fundos”, de 19 fev. 2020, alega que esses
consultores podem induzir a erro na medida em que podem indicar a rentabilidade
passada como garantia da rentabilidade futura e mostrar um desempenho histórico
acima da média de determinado fundo que pode não se repetir. Quanto transborda da
responsabilidade do gestor e do agente autônomo ainda é matéria controversa.

Na mesma linha do chamado maverick, há o tema da não cobrança de tarifas. A


XP não cobra tarifas de custódias e foi pioneira no tratamento do que ficou
conhecido como “custo zero”. O Nubank chegou a 16 milhões de contas em seu
principal produto, a Nuconta, que também não cobra tarifas de manutenção de
conta-corrente e apresentava até janeiro de 2020 um crescimento estrondoso de 456%,
ainda que com o aumento de “apenas” 120% sobre depósitos. 105

Claramente, na seara de fundos de investimentos, a concorrência se opera de


modo distinto. Os fundos assemelham-se ao modelo germânico de condomínio, em
que a pessoa é proprietária apenas de sua parcela ideal, e não da totalidade da coisa,
agrupada por mera conveniência econômica.

A natureza jurídica do fundo de investimento, como tipo de aplicação


financeira pela qual várias pessoas se reúnem com uma finalidade comum, é a do
condomínio. Trata-se de um tipo de copropriedade; situação em que o direito de
propriedade não é exercido de forma unipessoal, mas coletiva; consiste, portanto, de
um grupo de indivíduos que detém a faculdade de possuir, de usar, de gozar e dispor
da coisa em condomínio, diferente daquela regulamentada pelo Código Civil, que é a
de “usar da coisa conforme sua destinação, sobre ela exercer todos os direitos
compatíveis com a indivisão, reivindicá-la de terceiro, defender a sua posse e alhear a
respectiva parte ideal, ou gravá-la”. Neles, não cabe aos cotistas manifestação sobre a
forma de composição do patrimônio, nem mesmo a decisão sobre a dissolução da
comunhão, a divisão dos bens, ou a livre utilização de tais ativos.

A agenda dos fundos implica o objetivo de maximizar os retornos e reduzir os


A agenda dos fundos implica o objetivo de maximizar os retornos e reduzir os
custos. O princípio é um só: os agentes econômicos optam por uma atuação em
bloco; a gestão de indivíduos especializados e as vantagens obtidas pela movimentação
de um grande volume de dinheiro possibilitam melhores condições para uma
diversificação maior dos riscos e da eventual maximização dos resultados. Os fundos
colocam-se como opção de investimento, não somente para minimizar a assimetria de
informações, como, também, e, principalmente, em razão da necessária especialização,
por exemplo, para aqueles que não dispõem de tempo para isso. Ainda que não
dotado de personalidade jurídica própria, o fundo dispõe de direitos, cabendo-lhe
também obrigações. Sobre este ponto, é importante ressalvar que tais obrigações se
restringem apenas àquelas adquiridas com os próprios cotistas, nunca perante
terceiros. Essas obrigações estão materializadas no contrato de gestão, por meio do
qual se estabelece a relação entre os investidores e o administrador de fundos. Vale
lembrar que o administrador não é proprietário do investimento, mas sobre ele
recaem todas as decisões.

Existe, ainda, uma clara separação entre o patrimônio do fundo e o da


instituição administradora, mesmo que não seja, juridicamente, a do “patrimônio de
afetação”, conforme previsto na Lei Imobiliária ou na compensação no âmbito do
mercado financeiro (Lei n. 10.931, de 03/08/2004, que dispõe sobre o patrimônio de
afetação de incorporações imobiliárias, e Lei n. 10.214, de 27/03/2001, que dispõe
sobre a atuação das câmaras e dos prestadores de serviços de compensação e de
liquidação, no âmbito do sistema de pagamentos brasileiro). Trata-se de uma
distinção de via dupla; enquanto se torna impossível ressarcir os credores da
administradora pelos ativos do fundo, impede-se igualmente qualquer tipo de
ressarcimento dos resultados negativos pela instituição financeira, hipótese em que
novo aporte de capital poderá ser requisitado.

Não há, no nosso entender, qualquer preocupação concorrencial sobre fundos


de investimento. Hoje, esses fundos são regidos pela Lei de Mercado de Capitais e por
inúmeras instruções normativas expedidas pela CVM. O estabelecimento de uma
responsabilidade mandatária, cuja presença, embora prevista no Código Civil, não se
encontra na jurisdição brasileira, a manutenção do formato de condomínio do fundo
de investimento é uma das alternativas possíveis.

Uma outra discussão é a imposição de um limite mínimo na capitalização para


as instituições administradoras dos fundos dessa natureza, mas, é claro, estes são temas
que extrapolam o objetivo aqui.

Finalmente, um rápido comentário sobre startups que apostam em inteligência


artificial, rebate de comissões ou modelos de remuneração fixo, novas tecnologias,
algotrading e experiência do usuário para recomendar investimentos. Não se pode ser
contra avanços, e é claro que a base de clientes, volumes de recursos e a popularização
de tais tecnologias só aumentarão. Novos entrantes vão competir com os existentes e
sistemas que oferecem a “varredura” de muitos produtos financeiros irão se tornar
uma nova onda. Mas como já provaram diversos estudos acadêmicos, entre eles os de
Steven J. Huddart, Mark H. Lang e Michelle Yetman – devidamente descritos no
livro “Volume and Price Patterns Around a Stock’s 52-Week Highs and Lows: Theory
and Evidence “– provam que, quando há certas tendências de alta ou baixa, tais
tecnologias (ou inteligência artifical) “estica” a decisão de comprar ou vender,
podendo ter impactos relevantes sob a carteira de clientes e no mercado.106

CONCLUSÃO DO ENSAIO III

Este terceiro ensaio pretendeu tratar dos diferenciais da concorrência e dos


atuais participantes da indústria financeira vis-à-vis os novos entrantes e seus modelos
cooperativos ou em plataformas abertas.

Difícil concluir algo que ainda está em movimento. Até a crise da Covid-19, era
claro que fintechs potencializavam a entrada de novos concorrentes e possivelmente
tornavam os mercados mais contestáveis, tanto em razão da ampla liquidez e de
valuations elevados, como em razão de novas tecnologias acessíveis e inovadoras o
tempo todo. Atualmente, o cenário é outro.

Vários acadêmicos como George Stigler, em sua importante e seminal


contribuição, e, depois, Sam Peltzman, difundiram a justificativa da regulação como
fundamental para a restrição aos monopólios naturais. Primeiro, monopólios naturais
ocorrem quando as economias de escala, que existem no processo de produção, são
tão relevantes que o mercado inteiro pode ser atendido pelo menor preço por uma
única empresa. É evidente que existem circunstâncias em que, por exemplo, não faria
sentido econômico, ou prático, a construção de duas ferrovias no mesmo percurso ou
mesmo dois portos para a mesma região geográfica. Mesmo na presença de um
sistema concorrencial perfeito, os custos unitários desses empreendimentos, se
houvesse concorrência, seriam de tal magnitude que inviabilizariam as economias de
escala.107

O mercado financeiro seria espécie de monopólio natural? Entendemos que


não. Há muitas razões, mas, sendo o bem comercializável – a fidúcia –, já que o objeto
é a moeda, ainda que escasso, pode ser perfeitamente encontrável em qualquer lugar.
Mas, antes, é preciso ensaiar algumas linhas sobre o tema.

A existência dos monopólios naturais, pacificamente aceita pelos liberais,


representa uma justificativa para a regulação, que, segundo a escola de Chicago, elege-
a como a segunda melhor alternativa disponível. Esta visão é duramente combatida
por muitos autores, inclusive o Prof. Calixto Salomão.108 Enquanto o objetivo do
presente trabalho não é este, o assunto será retomado no quinto e último ensaio,
“Crise, regulação, supervisão e convergência”.

Monopólios naturais, contudo, existem não apenas pelas propriedades de


ramificação em redes, que fazem com que seja conveniente a existência de uma só
estrutura: de fato, como cita Salomão, o sistema de telefonia só tem utilidade se todos
os usuários estiverem conectados à mesma rede. Mas sua virtude mais característica é
microeconômica: não seria eficiente, do ponto de vista de Pareto, qualquer tipo de
concorrência se pudesse haver várias redes. Não é o caso do mercado financeiro.

Isto dito, o mercado necessita de proteção do Estado – daí a noção de regulação


concorrencial – é necessário que os custos de entrada no mercado sejam pequenos e
fáceis (que os sunk costs sejam modestos, ou seja, os custos irrecuperáveis de entrada
em determinado mercado).

Um segundo princípio, the winner takes it all, refere-se aos vencedores e


vencidos. Trata-se da hipótese em que os melhores desempenhos conseguem capturar
parcela muito grande (ou quase total) das recompensas e dos ganhos, deixando os
demais concorrentes com muito pouco do que resta. A expansão do vencedor amplia
as disparidades de riqueza, porque alguns poucos conseguem capturar quantidades
crescentes de receita que, de outra forma, seriam mais amplamente distribuídas por
todo o mercado.

O fato é que associando sunk costs à noção do winner takes it all, há sérias razões
concorrenciais na indústria financeira para preencher o debate público do
desenvolvimento. Simplesmente, bancos (entre os outros intermediários) são especiais
demais como agentes econômicos.

Assim, é pré-condição necessária, mas não suficiente, haver um sistema


financeiro sólido e sofisticado. Como intermediador de recursos, cabe ao sistema
financeiro o papel de avaliar e transformar o risco dos devedores em oportunidade aos
credores; sem que isso signifique apenas a geração de custos de transação, mas
também que aumente a criação de valor para o poupador em seu investimento.

Um sistema financeiro suficientemente maduro, propicia, de forma


competitiva, o aumento da oferta de crédito e da gama de produtos e serviços
financeiros disponíveis.

No quarto e penúltimo ensaio deste livro, “Inclusão, sustentabilidade e


rentabilidade”, vamos analisar o modelo de negócios em que as fintechs estão
envolvidas.

[72] João Manoel Pinho de. MELLO. O Banco Central na construção do sistema financeiro do futuro.
Apresentação na FGV EPGE, Rio de Janeiro, RJ, 11 nov. 2019.
[73] Gazeta Mercantil. Participação dos bancos cai. 5 dez. 1998. Um bom histórico sobre a concentração bancária
no Brasil foi escrito por Rafael Alves Horta. A Concentração Bancária no Brasil. Ele define três importantes
períodos pós-Lei 4.595/64: o primeiro vai de 1964 até 1974 com uma forte redução no número de bancos
comerciais e com incentivos fiscais para aquisição de instituições financeiras (Dec.-Lei 1.337/74); o segundo
período, de 1974 até 1987, não apresenta alterações significativas, e o terceiro, que vai de 1989, com a criação dos
Bancos Múltiplos e a inexigência das cartas patentes, objeto de mudança constitucional, até 1994, com o advento
do Plano Real.
[74] Fonte: BCB (Junho/2020). Banco Múltiplo = 134; Banco Comercial = 20; Banco de Desenvolvimento = 4;
Caixas Econômicas Estaduais/Federal = 1; Banco de Investimento =10; Banco de câmbio = 5.
[75] Não se pretende aquilatar as vantagens/desvantagens de um sistema financeiro mais internacionalizado. Entre
as vantagens, apresentam-se: os bancos estrangeiros podem trazer conhecimento e especialização que os bancos
locais podem não ter desenvolvido, seja por falta de interesse, recursos ou mesmo mercado. Em segundo lugar,
bancos locais nem sempre conseguem adentrar em determinados mercados em que os bancos estrangeiros atuam,
em virtude de sua proximidade com as matrizes. Sobre a experiência brasileira, a entrada dos bancos estrangeiros
pós-64 não foi seguida de uma sensível redução nem apresentou as vantagens acima. Vide matéria completa em
Bianca Aceto. Bancos estrangeiros. Jornal do Brasil.
[76] Atualmente, pelo Decreto n. 10.029, de 26 de setembro de 2019, compete ao BC reconhecer como de
interesse do governo brasileiro “a instalação, no País, de novas agências de instituições financeiras domiciliadas no
exterior; e o aumento do percentual de participação, no capital de instituições financeiras com sede no País, de
pessoas físicas ou jurídicas residentes ou domiciliadas no exterior”.
[77] Segundo o Globo, 20/06/2015: “Quando desembarcou no Brasil, em 1997, para assumir o velho
Bamerindus, que estava quebrado, o HSBC tinha planos ambiciosos. Seu primeiro presidente no país, o inglês
Michael Geoghegan, queria usar a força do HSBC para transformar o Bamerindus no maior banco privado
brasileiro, superando pesos-pesados locais, como o Bradesco e o Itaú, e torná-lo uma fonte de lucros polpudos para
a matriz. No rastro da abertura comercial brasileira, ele pretendia também ser o grande parceiro das empresas na
área de comércio exterior. Sua meta era fazer do provinciano Bamerindus, que glorificava a cultura rural, um
banco cosmopolita.”
[78] No pós-crise de 2014/2015, muitos bancos estrangeiros abandonaram ou reduziram suas operações no Brasil.
O Citigroup Inc. vendeu sua financeira e operadora de cartões de crédito em 2013. Já o Société Générale SA
decidiu encerrar a operação de varejo em fevereiro de 2015. Nas duas últimas décadas, também desistiram do
varejo no Brasil o Bank of America Corp., dos EUA, o espanhol Banco Bilbao Vizcaya Argentaria SA, o italiano
Intesa Sanpaolo SA e o francês Crédit Lyonnais SA.
[79] Roberto L. TROSTER. Regulamentação bancária brasileira: situação atual e perspectivas. Brasília: Asbace,
1999. “Como tal, embutia ineficiências, em um efeito concentrador que pode ser auferido pela diminuição no
número de instituições entre 1964 e 1988, quando a Constituição de 1988 aboliu os ‘pontos’ do sistema bancário
nacional.”
[80] Modesto CARVALHOSA. A regulamentação do sistema financeiro nacional: aspectos constitucionais.
Revista do Advogado, São Paulo, n. 36, p. 80-81, mar. 1992. O melhor exemplo histórico é o Unibanco, hoje Itaú
Unibanco. Fundido em abril de 1967, com o Banco Agrícola Mercantil, também conhecido como Agrimer, do
Rio Grande do Sul, passou de uma rede de aproximadamente 120 agências para uma rede de 330 agências, em dez
estados brasileiros.
[81] Importante a crítica dissertação de Paulo Rogério FUCCI. Concorrência no Sistema Financeiro Nacional: um
estudo crítico sobre a competência do CADE em atos de concentração. Dissertação de Mestrado (Faculdade de Direito
da USP, Prof. Orientador Calixto Salomão), 2020. Para ele, o sistema é disfuncional e o caso XP-Itaú “ Por um
lado, ele escancara a existência de dois subsistemas de aplicação do direito antitruste no Brasil quanto ao mercado
bancário; por outro lado, ele revela as próprias de ciências funcionais do único dos sistemas parciais que possui um
certo sistema de precedentes e uma estrutura transparente de análise de atos de concentração: o CADE.” Os “dois
sistemas” criados pelo Ato Normativo, seriam “dois subsistemas concomitantes de adjudicação do direito
antitruste, sendo absolutamente incerto o destino de cada ato de concentração (ou conduta, porque mesmo
eventuais sanções desconcentrativas aplicadas pelo CADE submeter-se-ão ao escrutínio burocrático do BACEN
por força do fato de que este deverá se manifestar “a respeito da possibilidade de materialização de hipótese prevista
no art. 6o deste Ato Normativo Conjunto”, que é justamente a hipótese dos “riscos relevantes e iminentes à solidez
e à estabilidade” do sistema), tendo em vista que o BACEN poderá basicamente alegar qualquer coisa e o CADE
será obrigado a acatar como um argumento de “desenvolvimento econômico”.
[82] Vide o livro biográfico de Maria Luíza FILGUEIRAS. Na Raça: Como Guilherme Benchimol criou a XP e
iniciou a maior revolução do mercado financeiro brasileiro...”
[83] O Voto afirma ipsis literis: “O cenário descrito revela a complexidade de operação. De um lado, argumentam
as requerentes que a aprovação traria mais concorrência para o segmento de plataformas abertas de investimento,
com boa sinalização a novos entrantes, uma prova de que o modelo funciona e poderá continuar crescendo no
País, com a possibilidade de aumento da oferta de produtos de investimento por outros atores, inclusive bancos de
atacado e outras corretoras. De fato, não se pode deixar de reconhecer que o investimento inicial de R$ 600
milhões a ser feio pelo Itaú Unibanco trará fôlego adicional para a XP Corretora, de modo a permitir a caminhada
no seu processo de atuação inovadora e, assim, continuar concorrendo em igualdade de condições com grandes
bancos de varejo, no movimento de desfidelização de clientes. O fortalecimento da atuação das plataformas abertas
de investimento propiciaria o benefício de reforçar os mecanismos concorrenciais no mercado de distribuição de
produtos de investimento, com resultados positivos tanto para as instituições financeiras, especialmente as de
menor porte, que têm seus instrumentos financeiros distribuídos para um público mais amplo, alcançando
investidores aos quais não teriam acesso de outra forma, quanto para os próprios investidores, que passariam a
dispor de mais opções para aplicar recursos financeiros. É importante ponderar, noutra vertente, que a eventual
aprovação da aquisição de 49,9% do capital social da XP Investimentos pelo Itaú Unibanco, sem qualquer
restrição, permitira, em tese a concretização dos efeitos anticoncorrenciais mencionados no parágrafo 29”
Fonte:.Banco Central do Brasil. Voto 169/2018-BCB. Disponível__em
https://www.bcb.gov.br/pre/acordos_e_convenios/Voto_169_2018-BCB.pdf.
[84] Presidente do Itaú diz que restrições do BC à compra da XP foram muito rigorosas. Roberto Setúbal afirmou
que negócio passou a ser um investimento em si. Folha de S.Paulo, 12 set. 2018.
[85] Valor Econômico. pág. B1 29/06/2020. Conflito entre Itaú e XP traz à tona divergências entre sócios. Segundo
a matéria: “ Do ponto de vista financeiro, foi um sucesso incontestável. O investimento que o banco fez, de R$ 6
bilhões, vale hoje 11 vezes mais. “Estamos muito satisfeitos com o investimento. Somos um sócio que interfere
pouquíssimo, e a XP se beneficia do respaldo que o Itaú dá”, afirma fonte ligada ao banco.”
[86] Luiz Carlos P. de CARVALHO; Gilson de Lima GARÓFALO: J. M. G. DEL MONACO. Concentração e
desconcentração dos bancos comerciais no Brasil. São Paulo: IPE;USP, 1989.
[87] Vinicius de CARVALHO. Valor Econômico. Sandbox regulatório: oportunidades e cuidados. 20-Jan-2020,
pág. A-11
[88] Fonte: BCB
[89] Circular DC/BACEN Nº 4032 DE 23/06/2020, que altera a Circular nº 3.682, de 4 de novembro de 2013,
para dispor sobre condições para que arranjos de pagamento passem a integrar o Sistema de Pagamentos Brasileiro
(SPB) em razão do risco ao normal funcionamento das transações de pagamentos de varejo. :”Art. 3º Caso o Banco
Central do Brasil considere que determinado arranjo oferece risco ao normal funcionamento das transações de
pagamentos de varejo com base no parâmetro definido no art. 6º, parágrafo único, inciso VI, da Resolução nº
4.282, de 4 de novembro de 2013, decidirá por sua integração ao SPB e oficiará seu instituidor sobre a decisão.
Parágrafo único. As normas aplicáveis aos arranjos que integram o SPB, inclusive quanto à eventual necessidade de
autorização para funcionamento, passarão a se aplicar ao arranjo e a seu instituidor após 30 (trinta) dias, contados
da data do recebimento da comunicação referida no caput, salvo se o Banco Central do Brasil especificar prazo
diverso em sua decisão ou condicionar o início ou a continuidade das atividades do arranjo à obtenção de
autorização.”
[90]<www.bcb.gov.br/content/publicacoes/Documents/reb/boxesreb2018/boxe16.pdf>. Acesso em: 29 abr.
2020.
[91] Valor Econômico. Santander vê espaço para crescer como ‘banktech’. 30 jan. 20. pág. C-8.
[92] MENIN, João Vitor. Entrevista. O Estado de S. Paulo, 10 fev. 2020.
[93] Lei Complementar n. 105 de 10 de janeiro de 2001 : “§ 1º São consideradas instituições financeiras, para os
efeitos desta Lei Complementar”.
[94] Paul KENNEDY. A ascensão e queda das grandes potências: mudança econômica e conflito militar de 1500 a
2000. Rio de Janeiro: Elsevier, 1989.
[95] Ao longo do livro, ele reitera sua declaração inicial: “Os esforços militares e navais nem sempre foram a razão
de ser dos novos estados-nações, mas certamente foi a atividade mais cara e urgente”, e permanece até o declínio do
poder.”
[96] Valor Econômico. Cronograma do ‘open banking” é desafio para bancos e fintechs. 31/Jan/2020.
[97] Segundo o Comunicado, “com essa medida, o BC criou as condições para o estabelecimento pelo mercado
do arranjo organizacional responsável por reger o processo de implementação do Open Banking no país. A
estrutura inicial será dividida em três níveis: estratégico, representado pelo Conselho Deliberativo, administrativo,
formado pelo Secretariado, e técnico, composto pelos Grupos Técnicos. O Conselho Deliberativo será responsável
por definir o regimento interno da estrutura, deliberar sobre a convenção das instituições participantes, definir
diretrizes para o Secretariado e para os Grupos Técnicos e decidir sobre as demais questões necessárias para a
implementação do Open Banking. O Secretariado fará a organização e a coordenação dos trabalhos e será
responsável por propor, executar e gerenciar o orçamento da estrutura, entre outras atividades de natureza
administrativa. Já os Grupos Técnicos serão encarregados da elaboração de estudos e propostas técnicas, conforme
os planos de trabalho aprovados pelo Conselho Deliberativo. É importante ressaltar que poderão participar dos
Grupos Técnicos, além de representantes das associações presentes no Conselho Deliberativo, representantes de
outras associações, de instituições participante do Open Banking, de empresas de tecnologia, de acadêmicos, entre
outros especialistas, conforme composição a ser decidida pelo Conselho Deliberativo. Também foram
estabelecidas regras para a composição e o processo eletivo do Conselho Deliberativo, os procedimentos de
deliberação e o rateio dos custos de manutenção, entre outras questões. No tocante à composição do conselho
deliberativo da estrutura inicial, ela deverá ser composta por sete membros, sendo um conselheiro independente e
seis conselheiros indicados por seis associações ou grupos de associações que tenham representação significativa de
instituições que prestam os serviços do escopo inicial do Open Banking, quais sejam, operações de crédito de
varejo, contas de depósitos e serviços de pagamento, de forma a favorecer a representatividade e a pluralidade de
instituições e segmentos participantes. O BC acompanhará as discussões dos Grupos Técnicos e do Conselho
Deliberativo, sendo responsável pela aprovação da convenção a ser proposta por essa estrutura. A estrutura inicial
de governança deverá ser formalizada até 15 de julho de 2020 pelas associações de participantes, com previsão de
substituição por uma estrutura definitiva até a implementação da última etapa do Open Banking, em 25 de
outubro de 2021.”
[98] Relatório Anual Banco Itaú. (2020)
[99] Nubank. Disponível em: <https://blog.nubank.com.br/o-que-e-open-banking/>. Acesso em: 6 maio 2020.
[100] Vide https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2020/02/25/bc-quer-criacao-de-fundo-
para-projetos-de-tecnologia.htm. “Enviado no ano passado pelo governo de Jair Bolsonaro ao Congresso, o
Projeto de Lei Complementar n.º 112, que trata da autonomia do BC, foi incorporado a outra proposta que estava
na Câmara desde 1989, de n.º 200, para facilitar a tramitação. (...) A relatoria da matéria ficou a cargo do deputado
federal Celso Maldaner (MDB-SC). Em seu relatório, Maldaner incorporou artigo que institui o Fundo de
Desenvolvimento do Sistema Financeiro Nacional, a ser movimentado pelo BC. Na proposta do governo, enviada
em 2019, não havia esse fundo.”
[101] José Renato Haas Ornelas, Marcos Soares da Silva e Bernardus Ferdinandus Nazar Van Doornik.
Informational Switching Costs, Bank Competition and the Cost of Finance. Working Paper 512. Disponível em:
<https://ideas.repec.org/p/bcb/wpaper/512.html>. Acesso em: 6 maio 2020.
[102] Valor Econômico. Pix começa em novembro com QR code e transferência. 13-Ago-2020. Pág.C5
[103] Open Banking – O Brasil está preparado para tamanha “erupção”? em:
https://m.migalhas.com.br/depeso/330550/open-banking-o-brasil-esta-preparado-para-tamanha-erupcao
[104] Estado de S. Paulo. Plataformas devem tirar R$ 91 bi de bancos até 2025. 10/07/2020. pág. B2
[105] Estado de S. Paulo. 06/03/2020. pág. B2
[106] Huddart, Steven J. and Lang, Mark H. and Yetman, Michelle, Volume and Price Patterns Around a Stock’s
52-Week Highs and Lows: Theory and Evidence. Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=353749
[107] Economias de escala são “processos pelos quais se reduz acentuadamente o custo unitário de produção de
um bem, à medida que aumenta o volume produzido, isto é, a escala de produção.” Nusdeo, op. cit., p. 172.
[108] Regulação da atividade econômica. Princípios e fundamentos jurídicos. Malheiros Editores. Ele afirma que
tais razões são insustentáveis, tanto por suas justificativas como pelos seus elementos: “As razões utilizadas desviam
o foco principal da questão. A regulação não visa a eliminar falhas do mercado, mas sim a estabelecer uma
pluralidade de escolhas e um amplo acesso ao conhecimento econômico, que jamais existirá em um mercado
livre”. Mais adiante, ele afirma que “A descrição de natureza econômica que se dá aos monopólios naturais não é
apta a identificar as situações que tornam imprescindível a intervenção regulatória”. Assim, a noção de regulação
como substituto do mercado, como técnica de solução das falhas de mercado quando “não existir solução de
mercado mais eficiente” é apontada por Salomão como insustentável pelas razões de conteúdo e de estrutura que
não permitem a justificativa dos monopólios naturais e da regulação como alternativa às decisões do mercado.
ENSAIO 4:
INCLUSÃO, SUSTENTABILIDADE
E RENTABILIDADE

RESUMO

Este ensaio, “Inclusão, sustentabilidade e rentabilidade”, cuida da indagação básica


do modelo de negócios em que as fintechs estão envolvidas. Se, por um lado, é evidente
a substituição de certos produtos tradicionais por novos – e também por novos meios de
pagamento–, e o próprio relacionamento com os clientes bancários vem se
transformando cada vez mais, por outro, não é evidente que no longo prazo esse
processo vá caminhar para uma certa comoditização da indústria financeira com as
fintechs sendo opção superior em termos de rentabilidade e inclusão financeira? A
redução nas margens dos bancos incumbentes é definitiva ou apenas uma acomodação
mais temporária de mercado? O ensaio busca também discutir certos modelos de risco
inerentes à indústria financeira e aplicados às fintechs.

UM NECESSÁRIO PREÂMBULO CONJUNTURAL

O avanço da Covid-19 no Brasil, pandemia causada pelo vírus Sars-CoV-2, foi


supreendentemente rápido e, para quem imaginava que a doença ficaria circunscrita à
China e a alguns países da Europa, inesperado. A velocidade de propagação da doença
a partir do final de fevereiro de 2020 atingiu progressão geométrica já nos meses de
março e abril, registrando-se, até início de outubro de 2020, 4.2 milhões de
imfectados e 129 mil mortes, uma vez que a subnotificação e a falta de testagens em
massa da população impediam que se soubesse o número total de contaminados.109

Os efeitos inusitados da pandemia se deram pelo desconhecimento de como


tratá-la, por ser uma doença causada por um novo subtipo de coronavírus, afinal, a
última grande crise, em escala global, foi a chamada “gripe espanhola”, pandemia que
durou de 1918 a 1920. Provocada pelo vírus influenza do tipo A H1N1, a “gripe
espanhola” contaminou mais de 500 milhões de pessoas e provocou entre 50 e 100
milhões de mortes no mundo, não se sabe o número exato. Ao menos um quarto de
toda a população do planeta se infectou com essa doença.110

Enquanto muito já se falou sobre a pandemia da Covid-19, o propósito aqui


não é tratar das suas causas, mas tentar descrever seus efeitos sobre as fintechs e seus
possíveis desdobramentos, especialmente à luz da inclusão e da sustentabilidade e
rentabilidade.

Mas, antes, algumas considerações são fundamentais, já que os efeitos da


pandemia devem se alongar no futuro, muito além de 2020. Dizer que o ambiente
não será mais o mesmo é o óbvio ululante: desde sempre, o mundo muda, ainda que
plus ça change, plus c’est la même chose, para os mais cínicos.111

Mas há algo que de fato mudou: inadimplência, risco de crédito, liquidez à


disposição dos novos entrantes, apetite a risco etc. Muitos alegam que a crise da
Covid-19 vai mudar o ambiente concorrencial, outros que o período de recuperação
vai se alongar por mais tempo: como lembrou o grande economista John Maynard
Keynes: “Os mercados podem permanecer irracionais por mais tempo do que nós
podemos ficar solventes”.

De toda sorte, há dois fatos inequívocos na análise corrente: (a) fintechs


existentes ainda dependem de recursos para investimento (especialmente, como já
dito anteriormente, para ampliar a base de clientes e remunerar o “cash back”
fidelizando clientes) num mundo de escassez de recursos; (b) a rentabilidade de tais
negócios, em decorrência dos investimentos e despesas, que, por serem novos, ainda é
incerta (e muitas vezes, inexistente). Voltemos a Keynes: há negócios que podem
simplesmente sobreviver, outros, não.112

RENTABILIDADE: O QUE ERA DESAFIO E O QUE


CONTINUA A SER

Como se sabe, o tema rentabilidade é da maior relevância, e é com isso que


vamos começar esse quarto e penúltimo ensaio. Até a Covid-19, os valuations ligados
a cada um desses novos empreendimentos eram absolutamente baseados apenas na
quantidade de clientes. Portanto, se uma fintech tivesse um milhão de clientes, cada
um estava avaliado em torno de US$ 1 mil dólares. Logo, essa fintech teria o valor de
US$1 bilhão (mil dólares vezes um milhão).

Qualquer negócio no sistema capitalista depende do preço baseado na


rentabilidade que ele gera, e há várias maneiras de calculá-lo. Uma, por exemplo, é a
fórmula conhecida no mercado de Bolsa do preço/lucro, o preço da ação dividido
pela sua rentabilidade; em outras palavras, o múltiplo que o mercado dá a um
negócio. Outra é o fluxo de caixa descontado do que é gerado pelo empreendimento
e, finalmente, um múltiplo do patrimônio líquido, forma pela qual os negócios do
mercado financeiro, em geral, são negociados, conhecido como price to book.

A Covid-19 provocou um grande choque, por um lado, em razão das medidas


governamentais de reclusão e distanciamento social com o objetivo declarado de
tentar “achatar” a curva de contaminação, para que o sistema público de saúde não
entrasse em colapso com o aumento dos atendimentos, especialmente, nas UTIs. A
consequência foi um choque de oferta, em que ninguém produz, mas curiosa e
simultaneamente também um choque de demanda, na medida em que não havia
consumidores no mercado. Inevitavelmente, o crédito nesses momentos se torna raro
e escasso, além de extremamente volátil e caro. Os ativos mudam completamente de
preço: não surpreendem as correções dos preços de Bolsa e de renda fixa e a valuation
das startups.

Uma segunda incerteza é adicionada à receita das fintechs: operações de crédito


em cartão e demais produtos de crédito pessoal aumentarão exponencialmente –
tanto os consumidores que não querem quanto aqueles que não podem, não pagarão.
E como o nível de provisões e de cobertura e os requerimentos de capital são baixos,
além de faltar investidor, faltará capital.

Em razão do crescimento espantoso no número de casos e mortes, a solução do


confinamento e da reclusão social causou não, inesperadamente, uma revolução
digital na mesma medida em que uma série de ações que, antes eram físicas, passaram
a se tornar irreversíveis em razão do que foi imposto à população por esse pouco
convívio social. Por exemplo, muitas atividades passaram a funcionar virtualmente,
digitalmente, e surpreendentemente bem. Os não digitais, mas com renda suficiente
para ter acesso à internet, passaram a se valer do meio digital, principalmente, os mais
velhos, antes avessos à tecnologia.
O próprio Poder Judiciário, que já vinha em um processo de digitalização e de
julgamento virtual, simplesmente foi obrigado a se modernizar, de forma cada vez
mais ampla e universal; trata-se, talvez, neste e em outros casos, de uma exacerbação
do que já vinha acontecendo, uma ampliação dos efeitos; um negócio que vinha
crescendo na era digital, crescerá ainda mais, um negócio que vinha desaparecendo,
desaparecerá de forma cada vez mais rápida.

Mas os efeitos desta transformação não são imediatos. Primeiro, porque há um


movimento flight to quality, ou seja, um voo ao porto seguro. Muitos não digitais ou
semidigitais estavam pela primeira vez nesse mercado de fintechs, outros, como
segunda opção; ambos, contudo, podem recuar aos grandes bancos de varejo
considerando-os a melhor e, talvez, a única, opção. E, finalmente, todas as fintechs que
não tinham ainda uma gama de produtos e serviços não conseguirão se expandir
agora.

A discussão da avaliação, então um debate baseado no critério de como avaliar


exatamente um cliente novo numa fintech, cai por terra, ao menos no momento. Se já
havia a dúvida do valor monetário de um negócio de fintech, esse modelo valeria
simplesmente por que gera um cadastro, por que uma transação era efetuada, ou por
que havia uma transação em valor com rentabilidade? Pode-se argumentar que o
mercado investidor pré-Covid-19 preferia o critério mais simples, o critério singelo do
“mar aberto”, o negócio valia o valor de sua base de clientes cadastrados. Atualmente,
a realidade impõe algo diferente. Se antes, o múltiplo era aumentado como se fosse
um jogo de passa anel, atualmente fintechs precisam se provar e, especialmente,
apresentar rentabilidade.

Existem mais ou menos 450 unicórnios, fintechs ou outras startups avaliadas (ou
que eram avaliadas) acima de 1 bilhão de dólares. No total, a avaliação dessas empresas
foi estimada em 1,3 trilhão de dólares, todas disputando capitais nos mercados
conhecidos como venture capital, ou capital de riscos.113

O que acontecerá com tais empresas, evidentemente, ninguém sabe. Mas, pelo
viés do tema da rentabilidade, os prognósticos não são dos melhores. Há estimativas
de que a receita caia em pelo menos 30%, e, em empresas nascentes, ainda não existe a
cultura de cortar despesas, muitas vezes, nem há o que reduzir – logo, a rentabilidade
é o resultado ou de uma maior receita, na qual se diluem custos fixos, ou o resultado
de uma menor despesa, ou mesmo um misto das duas estratégias. Pois bem: o que
vem acontecendo é a receita não crescer em razão da demanda, na medida em que há
uma crise de desconfiança no sistema econômico. E, após a abertura do comércio, em
algumas cidades brasileiras, a notícia foi que a redução no movimento era de mais de
80% em comparação com meses anteriores.

Não surpreendentemente, as gigantes de tecnologia, Facebook, Apple, Amazon,


Netiflix e Google apresentaram no mesmo período resultados de receita maior, a
Amazon, por exemplo, chegou a aumentar as vendas em quase 30% no trimestre sobre
uma base gigantesca de U$ 51 bilhões, apenas nos EUA.114

A discussão sobre a digitalização e o novo poder global das grandes giantechs


ainda precisa ser comprovada nos próximos trimestres. Mas, com grande parte da
população reclusa em casa, usuários de todas as idades passaram a usar muito mais de
seus serviços, e, por razões óbvias, a demanda acaba se ampliando. O distanciamento
social faz com que os indivíduos tenham mais tempo e curiosidade, para olhar e
analisar novas propostas com mais cuidado, mas, na área de crédito, tal evento é mais
raro que aconteça.

O que acontece, sim, é que novos entrantes, especialmente os mais velhos,


comecem a usar meios digitais por não terem outra alternativa. No passado, dizia-se
que a presença física de uma instituição financeira, como, por exemplo, uma agência
bancária ou um posto de atendimento, era importante exatamente para atender a esta
categoria de clientes, que apresentavam perfil de renda, geravam receita e tinham
necessidade de estar olho no olho com o gerente bancário. Na medida em que estão
impedidos de sair de casa, esse olho no olho se resume agora à comunicação digital e
muitos vêm conhecendo as vantagens, a comodidade, para não dizer, a redução dos
custos de transação, de operar no mundo virtual, vis-à-vis o meio da realidade
concreta.

Mas há efeitos colaterais também inesperados, por exemplo, cartões de débito e


pagamentos instantâneos, que chegaram a ser responsáveis por 30% das novas fintechs
(e como afirmado em ensaios anteriores, nada mais respondiam senão às altas margens
de remuneração das credenciadoras e das adquirentes). Com reclusão social, também
há redução de vendas por meio de cartão de débito ou mesmo pagamentos
instantâneos.

Mas, se da mesma forma se descobrem certos movimentos colaborativos,


Mas, se da mesma forma se descobrem certos movimentos colaborativos,
inclusive um grande movimento de filantropia com doações às pessoas em situação de
vulnerabilidade, diante da imensa desigualdade social do país , o que se vê neste
momento de reclusão é que a ideia das soluções digitais se impõe.

E o olhar se volta aos desbancarizados, ou desintermediados. Nesse cenário, a


inclusão financeira ganha corpo: só a Caixa Econômica Federal, instituição financeira
pública, controlada exclusivamente pela União, anunciou a criação de mais de 30
milhões de poupança sociais para o recebimento do auxílio emergencial, decretado
pelo Poder Executivo da ordem de R$ 600,00.115 Claro que isto é exemplo de
inclusão financeira, mas também de ampliação concorrencial na medida em que
aqueles antes atendidos pelo comércio fiado agora passam a ter contas bancárias.
Novo fenômeno é também o movimento de fusões e aquisições pós-pandemia. 116

Mas voltemos à rentabilidade das fintechs e dos unicórnios que deslumbravam o


mundo com as suas novas possibilidades, o que foi verdadeiramente uma grande
euforia de investimento. Há uma sensação de que, na realidade, tal momento passou e
é claro, ainda precisa ser confirmada pelos fatos vindouros.

Os investimentos em fintechs aumentaram de 32 bilhões de dólares em 2009


para 121 bilhões de dólares em 2018, e 22 bilhões de dólares têm ido exclusivamente
para companhias no mercado americano.117 Ainda que seja cedo para comprovar
todos os desdobramentos e ainda mais sobre os futuros IPO’s, a sobrevivência vai
implicar um grande desconto do preço de ativos daquilo que era previsto
inicialmente, ou antes da Covid-19. A capitalização de tais empresas que estava em
aproximadamente em 60 ou 70 bilhões de dólares, hoje, deve estar muito menor, não
se sabe, no momento em que este ensaio é escrito, nem se há apetite de mercado
comprador para tais IPO’S.

É importante que se diga que o processo não começou com a Covid-19. Já em


outubro de 2019, a WeWork, que era uma techie startup de aluguel de escritórios e de
espaços corporativos, surpreendeu o mercado com a abertura de capital; a dificuldade
na avaliação do seu IPO já dava indícios de seus problemas. Quando o seu valuation
caiu de 47 bilhões de dólares para menos de 8 bilhões, afinal todos os espaços de que a
WeWork se valia eram alugados, daí dependentes de contratos de locação, a
preocupação só cresceu. O negócio da WeWork, e o impacto no Vision Fund, hedge
fund e seus investimentos, detido pelo bilionário japonês Son Masayoshi, do
SoftBank, já vinham provocando surpresas no mercado. A captação do SoftBank,
antes recorde, já havia reduzido 26% em relação ao igual período e, pelo menos nos
negócios ligados à China, a redução teria sido ainda maior. Posteriormente, foi
cancelada a oferta primária do IPO, apesar de já terem sido investidos cerca de U$ 9
bilhões no negócio.

A pandemia apenas exacerbou essa característica, da exigência de maior


informação. Por exemplo, em janeiro de 2020, portanto, antes também da crise, nos
EUA, uma empresa que vendia pizzas elaboradas e assadas por meio de robôs e que
estava também avaliada em alguns bilhões de dólares, ajuizou pedido de falência.
Muitos comentários foram no sentido de que o negócio se preocupava muito com os
robôs e pouco com as pizzas, que pareciam ser “incomíveis” de tão ruins que eram. O
processo de deterioração de ativos já havia se iniciado há mais tempo e, passado o
glamour inicial, a realidade se voltou para o principal e para o óbvio, o produto.118

A Covid-19 chegou, portanto, numa época em que tais negócios já vinham


dando sinais de exaustão e certos problemas pontuais, o que fez com que investidores
descobrissem que os ativos eram frágeis e que a estrutura de negócio ainda precisava
ser provada. Esse fato é conhecido no mercado como asset-light, ou seja, uma empresa
que detém poucos ativos reais, pois sua maior base é a clientela e quem ela consegue
acessar. Num IPO, significa comprar simplesmente a sua marca, sua estrutura de
tecnologia (que é cada vez mais facilmente replicável), havendo muitos outros
exemplos no mundo das fintechs. Por essa característica, denominou-se faketech a
ideia de que essas companhias não eram verdadeiramente tecnológicas, pois se
resumiam a certos procedimentos e empacotamentos de determinados ativos com o
objetivo de repassá-los a um preço maior a ávidos investidores.

Um segundo aspecto fundamental na análise atual e que já foi mencionado en


passant, relacionado à rentabilidade, é o rápido cashburn, ou seja, literalmente,
queima de caixa. Novas fintechs, em estágio ainda de desenvolvimento, necessitam e
requerem grandes quantidades de capital para atrair novos clientes. Investidores
estavam dispostos a aceitar tal magnitude de capital porque rapidamente revenderiam
suas participações, passando-as adiante.

Um exemplo fora do mercado financeiro, mas conhecido e útil para entender o


processo, é a Uber, muito bem descrito no livro A guerra pela Uber, de Mike Isaac. A
Uber gastou mais de 5 bilhões de dólares tentando conquistar o mercado chinês por
meio de bônus a novos assinantes, o que representava um subsídio direto a clientes
que seriam atraídos ao negócio.119 Em agosto de 2016, a Uber China anunciou a
venda para a Didi Chuxing, seu rival local mais feroz. 120

Nas fintechs, o panorama não é muito diferente. Fintechs gastam muito caixa
para conquistar clientes, o que significa simplesmente investir em despesa
mercadológica para conquistar um cliente digital com o objetivo que ele dê retorno
amanhã, tanto por meio de suas operações diretas, como pelo conhecido cross selling,
ou venda cruzada, de asset management fees, como comissões e negócios de M&A.
Segundo observadores argutos, isto não vem acontecendo, o que significa, de acordo
com Marcos Zapacosta, que algumas companhias acabam “vendendo 1 dólar por 80
centavos”.121

Outro problema é exatamente a estrutura jurídica do controle de direitos de


propriedade. Tais fintechs, em geral, têm estrutura de controle nem sempre muito
transparente, já que são sediadas ou registradas em jurisdições estrangeiras, onde o
direito local não pode ser válido. As várias emissões em diferentes rodadas de capital e
seus respectivos acordos de acionistas têm demonstrado que a proteção patrimonial
dos minoritários não tem sido inteiramente eficiente nos momentos críticos. Há baixa
prestação de contas numa estrutura frágil de governança e muitos alegam que essa
estrutura de controle por meio de holdings acaba sendo um verdadeiro tormento em
momentos de estresse.

Tome-se, por exemplo, o direito de retirada. No Brasil, os acionistas


minoritários insatisfeitos com os procedimentos de reorganização, fusão ou
incorporação das companhias, de acordo com o disposto no inciso VI do art. 136, em
concordância com o caput do art. 137, da Lei das Sociedades Anônimas, poderão
exercer imediato direito de retirada. Em outras jurisdições, outras regras prevalecem.

Finalmente, muitas dessas fintechs, organizadas em outras jurisdições, têm


estruturas distintas das vigentes aqui – e sem entrar na discussão mais hermética –
mas, por exemplo, em matéria de voto, em assembleias, na estrutura de controle, que
determina voto múltiplo, um voto da ON pode valer muitas vezes mais que o voto do
acionista preferencialista.

Nesse tipo de gestão, a rentabilidade também é afetada por aspectos de


governança. O tema governança corporativa mereceria um tratado à parte, mas, como
se trata da discussão mais difundida, atual e recorrente, sem que se saiba exatamente
seus contornos, apenas vamos pincelar aqui alguns temas: se é matéria referente às
diferenças entre os acionistas, os presidentes dos conselhos de administração e a
diretoria executiva de uma empresa, ou se é meramente acerca das diferenças entre
controle e administração de uma dada companhia.

Em essência, a governança corporativa deve cuidar de policiar (ou zelar contra,


para alguns) o comportamento inadequado das atividades empresariais, mediante
controles capazes de minimizar prejuízos aos acionistas, conferindo àquele que está
assumindo verdadeiramente o risco empresarial a geração de valor agregado, de forma
a aumentar o patrimônio, o conjunto de recursos investidos e que merece apreciação
econômica em caso de sucesso.

Poder-se-ia ter em mente um roteiro de ações empresariais que contivesse itens


como análise econômica e financeira dos segmentos de mercado na região em que se
está atuando e a projeção da participação nesses segmentos com a indicação dos
principais concorrentes; ainda, a expectativa de rentabilidade, a indicação dos
retornos esperados em cada segmento de mercado e outras informações de negócio.
Para tanto, é necessário promover divulgação mais ampla, bem como fornecer aos
investidores, de forma transparente, informações a respeito da evolução e do
desempenho no período acordado. E, em fintechs, o assunto é premente, já que, como
se observou aqui, pré-Covid-19, o objetivo era investir, ampliar a base, aumentar
receita e vender ao próximo comprador ávido da fila.

O que se verá depois da Covid-19 será uma dificuldade muito maior de acesso a
crédito. Ainda que não existam dados, salvo a carteira de crédito dos bancos em Bolsa,
isso é inegável já que se percebe uma retração econômica das mais graves proporções,
ainda que desigual aos setores industriais e aos tamanhos econômicos das empresas.
Mas se o acesso ao crédito realmente se tornará cada vez mais difícil, isso não se dará
de forma horizontal, a todos os participantes desse mercado. Apenas companhias que
tenham comprovada experiência e comprovado sucesso terão acesso a ele; entretanto,
o que se verá também é que essas companhias que têm perspectivas terão que
conviver, caso sejam postas à venda, com um valuation menos inflado, vale dizer, com
descontos muitos maiores. Por outro lado, o uso de canais online viabiliza novas
parcerias, que podem também influenciar o valor do negócio.122

E pior, quando ocorreu a Covid-19, muitas dessas companhias tinham emissões


E pior, quando ocorreu a Covid-19, muitas dessas companhias tinham emissões
de ações, ou de séries de ações, rodadas ainda em curso, inacabadas, portanto. O que
se viu ou o que se verá, provavelmente, será uma grande celeuma sobre o valuation; de
que valor e com que direitos essas ações devem ser emitidas.

Do lado do mundo real, muitas dessas novas fintechs começarão a reduzir os


seus quadros de pessoal e a controlar as suas despesas com o único objetivo de
preservar caixa e, principalmente, entender os novos desafios. Por um lado, isso é
sempre prudente, mas, por outro, sem um diagnóstico mais preciso (em relação à
inadimplência, por exemplo) e sem um cenário animador (em termos conjunturais), a
saída é um caminho sempre longo, com dificuldades adicionais.

Como parte dessas fintechs está sendo administrada por novatos, que enfrentam
a primeira crise, ou, pelo menos, é a primeira crise que vivem em sua limitada
experiência profissional, faz sentido esperar menos do que prometia ser uma face nova
do capitalismo num mundo novo e inclusivo, agora eles serão obrigados, para
preservar a própria existência, a precipitar um novo modelo, com novos paradigmas.

Outros acabam apostando também em movimentos de M&A, fusões e


aquisições. Pode-se esperar que os mais fortes, os mais adaptados e os mais
capitalizados (ou com sócios mais capitalizados) poderão comprar os demais. Por
exemplo, a Credit Karma, um portal de finanças pessoais de mais de 7 bilhões de
dólares em valor de avaliação, foi vendida à Intuit, uma companhia de planejamento
financeiro por algo próximo a 15% do valor de avaliação. Outros negócios de M&A
podem surgir, e, aqui, poderão se interessar aqueles que ainda estão com a carteira
recheada e receitas crescentes: as grandes giantechs, como Apple, Microsoft, Alphabet,
Amazon, Facebook etc. Estima-se que as empresas que tenham hoje em torno de 500
a 600 bilhões de dólares em caixa são as grandes candidatas a compras.123

Finalmente, um último comentário sobre investimentos em fintechs no caso


brasileiro refere-se à participação dos estrangeiros. O que se viu também durante a
pandemia da Covid-19 foi a intensificação da fuga dos investidores estrangeiros, a
despeito de todo relaxamento regulamentar sobre fintechs, como vimos no ensaio
anterior.

Apenas, para se ter uma ideia, a participação dos estrangeiros hoje [junho de
2020] está em 39% do total dos ativos de Bolsa na carteira de não residentes, tendo
atingido um pico em outubro de 2017 de quase 50%. A fatia do capital estrangeiro,
segundo o BC, caiu quase 40% desde o início da pandemia e isto com uma
desvalorização da nossa moeda, o real, em quase 30%.

Como sempre, o salvamento alvissareiro veio do Estado. Noticiou-se que, assim


como o BC, o BNDES estaria estudando investir em fundos de fintechs, em aportar
recursos diretamente por meio da BNDESPar, para emprestar a pequenas e médias
empresas na crise causada pela Covid-19. Em outros momentos, a ideia da ajuda
estatal veio à tona: fintechs poderiam fazer o auxílio do Estado chegar rapidamente
àqueles que mais necessitavam.

O BNDES teria, assim, a intenção de participar, no mínimo, com R$ 20


milhões em FIDCS – Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios, desde que as
cotas fossem adquiridas pela própria fintech ou por investidores de mercado. Apesar
de nada original – e sem qualquer risco – afinal o BNDES age com instituições que
estão dispostas a emprestar mediante a cobrança de um del credere e ao mesmo tempo
assumindo o risco da inadimplência, a notícia mostra que segmentos tradicionais da
indústria financeira são vistos como aqueles que não querem assumir tais riscos e,
portanto, os recursos não estariam sendo tomados pelos verdadeiros necessitados de
crédito.124

Se a noção do uso das fintechs para fazer com que, no momento da crise, os
necessitados e mesmo as fintechs em mais dificuldades de liquidez possam se valer de
sua capacidade de distribuição, a dúvida é: por que os bancos estatais, que têm
estrutura e capilaridade maior do que tais fintechs, não funcionam distribuindo
recursos necessários e dando crédito – e qual a razão de se usar um outro braço do
Estado – usualmente voltado ao setor industrial e de fomento? Observe-se que o
papel do Estado brasileiro é disfuncional, e que políticas públicas acabam se
confundindo umas com as outras e apenas mostram com clareza meridiana a
dificuldade de se desenhar uma arquitetura melhor de inovação.

PIX

Voltemos ao tema do PIX, uma nova plataforma para realizar pagamentos e


transferências instantâneas no Brasil, que estará disponível a partir de novembro de
2020. Como já se disse, o assunto passou a ocupar as principais manchetes diárias
depois que o BCB decidiu suspender o serviço de pagamentos via WhatsApp.

Fora questões de natureza mais ideológica sobre o modelo do Estado como


indutor-inovador que já tratamos, há ainda algumas das questões sobre o PIX que
precisam ser enfrentadas.

O primeiro ponto é a segurança da interoperabilidade e o risco de fraude e de


cibercrime. Um segundo ponto a ser debatido é o crédito em si, algo como “Pix-
Parcelado”, vale dizer, a função do antigo cheque pré-datado, já que parte significativa
da sociedade precisa e se vale dele para satisfação de suas necessidades cotidianas.
Finalmente, a discussão do início de open banking, do explícito consentimento da
LGPD e da especificidade das transações, vis-à-vis a implementação do PIX.

O primeiro aspecto me parece o que realmente deve preocupar. Com a


pandemia e o aumento do processo de realização de operações bancárias inteiramente
por meios digitais, criam-se incentivos perversos aos fraudadores. O PIX pode
amplificar o risco de transferências indevidas se as soluções não forem testadas ad
nauseaum, e há boa chance, a exemplo de outros países, da ocorrência de cibercrimes.
E, por se tratar de operações finalizadas e definitivas onde só cabe o estorno quando
devidamente comprovado o erro, cresce o medo de transferências ilegítimas. E, em se
tratando de tecnologias, todo cuidado com fraudadores é pouco.

Já sobre o aspecto do crédito, ou o PIX-Parcelado, a posição do BC tem sido de


primeiro implementar (o que já é um gigantesco esforço, diga-se de passagem) e
depois ampliar com outros produtos de crédito. Mas a adesão das instituições a preços
tão baixos (cada transferência custará cerca de R$ 0,04, comparado com o custo de
quase 4% do valor dos débitos estimados em cartão atualmente) implica a
possibilidade de oferta de crédito e de cross-sell de demais produtos de crédito.
Substituir o cheque pré-datado por um PIX-parcelado envolve ainda transformar o
instantâneo em futuro e gerar ao devedor uma obrigação de débito futuro, que pode
ser incerta, do ponto de vista de risco de crédito. Em Agosto de 2020, o BCB
anunciou que haveria um o “Pix Agendado”, que permitirá justamente programar
operações futuras, mas que não seria exatamente produto de crédito bancário.

Finalmente, a ideia de implementar o PIX junto com o início do open banking


realmente é audaciosa e um desafio imenso aos sistemas e ao universo de tecnologia e
computação dos bancos, já que são milhares de sistemas, que, ao mesmo tempo,
entram em funcionamento.

Mas é correto e oportuno o comentário do Diretor do BC João Manoel Pinho


de Mello, em 13/07/20, sobre o affair WhatsApp/Cielo: “Todas as soluções que
forem pró-competitivas, e que a gente tiver garantido que todo mundo pode
competir, nós vamos autorizar. Mas vamos cumprir o mandato legal de garantir
interoperabilidade, neutralidade e isonomia competitiva”.125

DE VOLTA ÀS GIANTECHS

Se há problemas de concorrência, como discutimos no terceiro ensaio deste


livro, e se o cenário pós-Covid-19 é incerto e tormentoso – é evidente também que a
substituição de produtos ou meios financeiros pode se dar por meio das grandes
giantechs que hoje, salvo uma ou outra iniciativa (Applepay, Googlepay etc.), não são
instituições financeiras.

Tais companhias têm caixa de sobra e cresceram na crise, como já se


argumentou, e, portanto, podem rapidamente adquirir players incumbentes e entrar
nos mercados financeiros. Mas a dificuldade é maior do que parece e tem origem
regulamentar.

Primeiro, é importante notar que tais companhias dispõem hoje, na prática, de


isenções legais que são muito relevantes. Há isenções de natureza fiscal de todos os
tributos municipais e/ou estaduais, criadas para atrair seus parques logísticos, estúdios
de produção ou simplesmente escritórios centrais, ou ainda, porque estão em
jurisdições cuja alíquotas são menores e a prestação de serviço pode se dar via remota.
Mas há isenções de responsabilidade civil também: tais giantechs muito raramente são
corresponsabilizadas pelos atos ilícitos de seus usuários, e as consequências das fake
news aumentam a cada dia. É claro que não é um debate fácil, nem nosso objetivo
discuti-lo, mas insular qualquer entidade corporativa de potenciais contingências civis
ou judiciais tem especial apreço por parte dos investidores. No Brasil, tem-se afirmado
que elas terão que se submeter ao BC.126

O debate concorrencial na Europa, iniciado em 2016, acusava muitas destas


empresas, como Apple, Facebook e mesmo a Amazon, de sonegar continuamente,
por muitos anos, uma boa parte das suas receitas numa disputa de jurisdições. Em
vista disso, multas astronômicas foram impostas em nome de vantagens desleais. Não
surpreende que agora o ânimo estatal para autorizar a entrada de tais players seja
tímido. Aliás, o próprio advento da libra, a criptomoeda digital criada pelo Facebook,
baseada em blockchain, que originalmente seria implementada ainda em 2020, foi
esmagada pelos Reguladores no nascedouro. O objetivo declarado era constituir um
meio universal de pagamento com uma “estrutura financeira que permita a milhões
de pessoas ter acesso à economia do mundo e guardar seus bens com segurança”.
Reguladores foram vocalmente contra.

No Brasil, o debate mal começou. Precisamos sempre lembrar que o poder


emissor é parte integral do poder do Estado, e diferente de alguns países, como nos
Estados Unidos, cuja atribuição se outorga ao Legislativo, entre nós, o poder emissor é
de competência privada da União (artigo 21, inciso VII e VIII da Constituição de
1988). Apesar de a mesma Carta ter estabelecido, em seu artigo 48, que ao Congresso
caberia legislar sobre moeda, limites de emissão e montante da dívida mobiliária
federal (inciso XIV), é o Poder Executivo que chama para si tal responsabilidade. Não
poderia o Facebook e seu consórcio criarem uma moeda privada.

Claro que a autorização para operar uma instituição financeira é infinitamente


mais simples: a instrução do processo de constituição e autorização para
funcionamento está sob a égide do Banco Central do Brasil, e, no curso da análise do
processo, o BCB tem amplo poder para solicitar quaisquer documentos e
informações adicionais que julgar necessários, bem como para convocar entrevista
técnica com os integrantes do grupo de controle, os detentores de participação
qualificada e os indicados, eleitos ou nomeados para o exercício de cargos em órgãos
estatutários ou contratuais da instituição. (Res. 4.122/2012, arts. 3º e 7º).

Logo, não acredito que tais giantechs possam, em curto prazo, ameaçar os
grandes incumbentes. Tamanho aqui é relevante, não só por razões concorrenciais
dos argumentos de que o vencedor leva tudo – the winner takes it all – mas também
pelos argumentos de que o tamanho permite conquistar rentabilidade, por meio de
economias de escala e de escopo. Por exemplo, a Amazon hoje já detém 40% de todo
on-line shopping; com essa parcela desse gigantesco mercado, ela tem tamanho para
uma logística que é mais eficiente e mais desenvolvida que a da concorrência e,
portanto, oferece, em tese, um negócio muito mais rentável aos seus acionistas. Mas
duas observações se impõem: primeiro, o lucro de empresas como a Amazon só veio
muito recentemente, por muitas décadas permaneceram deficitárias. Segundo, uma
coisa é acertar a logística, outra é crédito e risco em algo que não é o seu DNA.

Mas tal argumento pode não ser especialmente verdade em relação a recursos:
afinal, verbas publicitárias, campanhas mercadológicas, recursos humanos, enfim,
variados recursos podem permitir que essas giantechs se aventurem onde não têm
grande acesso, e exemplos até aqui (como Applepay ou Googlepay) apenas mostram
que tais empresas se concentraram nos meios de pagamento. O que não significa que
tais empresas não possam estender seus tentáculos para outras áreas, como
geolocalização. O Waze, aplicação baseada na navegação por satélite (espécie de GPS)
foi adquirida pela Google em 2013.

Mas do ponto de vista de produtos financeiros, pode-se ir além. Tome-se por


exemplo a ideia de geolocalização citada: um cliente que vá em busca de um carro
novo ou usado em uma concessionária de veículos e usa o Google (ou o próprio
Waze) para descobrir o endereço daquela loja ou daquela determinada marca. Num
caso como esse, se o aplicativo tiver acesso a um produto financeiro específico de
financiamento de veículos, poderá oferecê-lo ao cliente antes mesmo de ele chegar à
concessionária. Ou seja, o cliente chega na loja já com tudo ofertado: limites,
comparativos de taxas de vários ofertantes etc. compondo uma experiência de
aprovação de crédito que não é apenas imediata, mas útil no processo decisório de
compra de um bem, como um carro.

Tudo isso será possível, ou já é possível, o que falta ainda é concatenar e


coordenar essas atividades do ponto de vista da tecnologia e dar contornos de gestão
de risco. É preciso também construir bancos de dados poderosos e funcionais, tema
que vamos voltar a discutir quando abordarmos a Lei Geral de Proteção de Dados
Pessoais (LGPD).

Produtos atuais, como a própria Amazon, ou mesmo a Google, com seus


sistemas por comando voz, como Alexa e o Google Assistant, possibilitam a chance de
conhecer a experiência do usuário na internet, apesar de haver um debate relevante
sobre privacidade. Mas, frente a tantos desafios, como essas companhias vão se
comportar? Se é facilmente perceptível que essas companhias já detêm uma
quantidade brutal de dados, ainda não é definitiva a função da engenharia de dados ao
garimpar, estruturar e analisar tais informações sobre o consumidor. O que pode ser
feito com eles, além da oferta de produtos sem violar aspectos relevantes da
privacidade individual?

A questão aqui não é só discutir como romper monopólios ou evitar


oligopólios, nem regulá-los como utilidade pública, como aconteceu com o debate da
Standard Oil em 1911.127 Ou, pelo menos, não deveria ser. Aqui, o propósito deveria
ser desenhar uma arquitetura que permitisse fazer com que o consumidor, por um
lado, seja protegido, mas, por outro, se assegurem as condições concorrenciais, e isso
claramente implica a opção de determinadas políticas públicas.

Muitos alegam, por exemplo, que a imunidade legal (na prática, ainda que não
na Lei) para assuntos relacionados ao conteúdo precisa terminar. Assim, provedores
de serviços deveriam ou poderiam ser responsabilizados por aquilo que publicassem,
inclusive por fake news. Ou seja, seria preciso checar e vetar aquilo que não fosse
verdadeiro ou fosse impróprio, isto evidente não é trivial e há muita discordância
sobre o assunto, inclusive dando margem à censura privada. Então, trata-se de um
debate ainda inacabado. Mais importante do ponto de vista financeiro é que a
regulação prevaleça numa forma muito mais intensa, mas também mais inteligente
que a atual.

A noção de regular apenas para garantir competição, como se viu no ensaio


anterior, não é nova. É preciso que essa prática sejam bem auferida e testada, além de
ser culturalmente aceita por todos como um “novo normal”. Isso passa pelos dois
temas aqui tratados, inclusão e sustentabilidade, e que vamos adiante discutir. Mas,
apenas para concluir a discussão sobre a rentabilidade das fintechs, a pergunta que se
faz é como tornar tais negócios rentáveis, como extrair lucro desses relacionamentos.

Como se viu no primeiro ensaio, a euforia pode acabar em crash e a discussão


das grandes techfirms, avaliadas em 2 trilhões de dólares, antes da Covid-19, pode se
transformar em um mar de tristeza para os investidores. Esse boom foi dado também
pelo crescimento entre 17% e 25% ao ano até 2019, e tais negócios agora devem crescer
muito menos. Outros alegam que as melhores fintechs já estão devidamente
capitalizadas e não precisam de caixa, daí podem atravessar (e algumas até comprar
outras mais fragilizadas) os mares revoltos pelos quais navegamos.

A rentabilidade dessas bigtechs depende também de escalabilidade, da


duplicação dos modelos em vários mercados e das várias geografias que conseguem se
valer dos mesmos produtos. Como se sabe, isso não é trivial no mercado financeiro,
em parte porque a discussão implica as várias regulações, e, salvo matéria de
requerimentos de capital, hoje regulada pelo Comitê da Basileia, onde há um acordo
internacional em curso, o restante são regulações locais e, muitas vezes, dependentes
de fatores locais. Não é simples, portanto, transformar um padrão mundial ao
permitir que essas empresas possam escalar como no passado, por exemplo, empresas
de produtos de consumo detinham conhecidas marcas mundiais, que se vendiam pela
força de suas marcas. Certamente, hoje isso é muito mais difícil e a regulação ainda
tem grande influência sobre a capitulação de certos players entrantes no mercado.

A discussão de rentabilidade, portanto, pressupõe escalonar produtos,


ampliando a oferta de produtos de crédito, mas também crescer meios de funding, ou
seja, os meios de captação de recursos. Enquanto a concessão de crédito nem é simples
nem copiável, porque depende de administração e apetite de risco, a captação implica
custo de crédito. Por exemplo, hoje existem mecanismos de garantia de depósito,
como no nosso FGC até R$ 250 mil e, para clientes institucionais, os DPGE’s, mas a
verdade é que custos crescentes de captação tornam difícil a criação de ativos num
mercado de demanda fraca. E a crise apenas evidenciou tal processo. Uma captação a
níveis esratosféricos de CDI dificilmente resultará em ativos rentáveis. Fora seleção
adversa, em que o devedor que busca e paga por tal crédito é exatamente aquilo que
não se quer, não há, em termos econômicos e em momentos de profunda recessão,
pequena chance de gerar ativos que possam dar lucratividade aceitável nestes níveis de
preço.

Já naquilo que se conhece como “mar aberto”, em termos de contas ativadas, de


ativação de cartões, transferências e pagamentos de boletos emitidos e saque, o que se
vê ainda é um ambiente de muito volume e pouco lucro. Pouco se viu, até agora, nos
modelos atuais, profit sharing, a repartição de lucros, em que a fintech participa,
entrega seus cadastros, gera carteiras e mantém a relação e alguma instituição
financeira já estabelecida a assume para administrar, dar funding, e contabilizar nos
seus livros a carteira de ativos. E, em muitos outros casos, os clientes da fintechs são os
detentores de segundas ou terceiras contas; não existe uma “central de risco” para
pessoas físicas, a exemplo do bom modelo existente para pessoas jurídicas, desde
1997.128

Daí, a razão da escassez crônica de oferta de crédito, as contas-correntes abertas


só se justificam para aumento de limites de endividamento; como um banco credor
desconhece o que o outro faz, a inadimplência aumenta em volumes assustadores.

O fato de ser a primeira ou segunda conta é relevante. Muitas fintechs


atualmente são conhecidas como neobanks e atraem, por essa razão, quase que
exclusivamente o público jovem. Jovens se identificam com a comunicação colorida e
vibrante, e o fato de a conta ser isenta de tarifas apenas aumenta a sua aceitação por
uma geração pouco acostumada, por causa da gratuidade da internet, a pagar por
qualquer coisa. Há alto uso de cartão digital (por aproximação) e aqueles que usam o
consideram como seu único banco. Ainda que não se saiba exatamente quantos
clientes mantêm conta e em quais fintechs, o fato de ser o primeiro (ou único) permite
maior relacionamento e maior fidelidade, já que o cliente percebe maior “proposta de
valor” no relacionamento bancário e, assim, a penetração de produtos bancários e
mesmo de seguros é igualmente maior.

Mas no atual modelo – e mesmo no desenho regulamentar atual – na área de


contas-correntes, como de cartão de crédito ou mesmo de crédito pessoal, há uma
discussão séria sobre incentivos, quem fica com o quê, quem atende, quem cobra,
quem assume a frente das operações e quais são os benefícios a cada um dos
participantes.

O tema da rentabilidade nas fintechs era dado por um lema conhecido como
path to profitability, literalmente, o caminho para a rentabilidade. Pode-se adquirir
hoje algo sem lucro, mas que tenha caminho, no tempo, para a lucratividade. A crise
da Covid-19, na expressão jocosa de um deles, é a volta da lei da gravidade. Um
negócio precisa existir e ser rentável para ele possa ser sustentável. E visões otimistas
sobre resultado, em geral, pressupõem visões róseas que raramente se confirmam no
tempo.

A rentabilidade das fintechs era estimada, ao menos no papel, em ganhos


exponenciais, multiplicando várias vezes o atual ganho líquido e isso basicamente em
uma explosão dos clientes ativos. Em determinados casos, considerando que a base de
clientes aumentasse exponencialmente, com menores despesas fixas, já que elas não
têm agências bancárias, e não há uma série de custos que são incorridos pelos
tradicionais, o lucro também exponencial viria no futuro, em cinco ou dez anos.

É claro que pode haver aceleração da captação em determinados casos: por


exemplo, quando se pensa em empreendedores, produtos e mercado. Mas trata-se de
preço de ativos. A Covid-19 causou fortes turbulências nas Bolsas de Valores do
mundo todo e, somente no Brasil, o Ibovespa chegou a perder mais de 50% de sua
capitalização no auge, ainda que depois o mercado tenha se recuperado. Isto quer
simplesmente dizer que se bancos listados estão mais baratos do que estavam há três
meses, as valuations também são menores, encorajando novos entrantes.

Mas, de modo geral, a maior rentabilidade das fintechs ainda não se materializou.
E, atualmente, a discussão pós-Covid-19 é quão rápido isso será, se é que será. De
todo modo, o prejuízo não pode durar para todo o sempre e a lógica capitalista deve
imperar um dia. O aumento na volatilidade de resultados é apenas um sinal de que a
história não se escreve de modo retilíneo.

Voltando à análise da rentabilidade das fintechs, vamos aprofundar um pouco


mais os critérios usados na sua avaliação.

Um dos mais conhecidos índices, por exemplo, que se costuma analisar em


fintechs para aferição de rentabilidade é o que se conhece como churn. O conceito do
índice de churn é aquele da fricção ou atributo de fricção em que um cliente
interrompe ou cessa seus negócios com aquela entidade de crédito. Por exemplo, o
churn no negócio de cartões significa quantos clientes aderiram àquele meio de
pagamento num determinado período, mas, em 30 ou 60 dias, simplesmente
cancelaram essa relação comercial.

O índice é extremamente importante para verificar quais são os clientes


“aventureiros” (aqueles que preenchem um cadastro, mas rapidamente desistem por
qualquer razão da relação), quais são aqueles que lá continuam e, ainda assim, quais
geram negócios e retorno depois disso. Esse índice de churn em relações de consumo
de crédito pode ser muito elevado; há notícias de até 70% no primeiro ano, mas é claro
que, ao longo do tempo, ele deve cair; o cliente passa a conhecer o negócio, se
convence de que é bom estar lá, o chamado “encantamento”, e, portanto, dá
exclusividade ou preferência e potencialmente gera lucro.

Tais premissas financeiras geralmente são agressivas no início, mas, ao longo do


tempo, se reduzem. Uma segunda premissa existente é a do cross selling, a chance de
vender outros produtos como investimentos ou seguro aos mesmos clientes ativos.
Tais valuations sempre e, em qualquer lugar, incluem a chamada perpetuidade das
receitas, ou seja, a capacidade de gerar, no tempo, tais receitas. O jargão é conhecido
como life time value, ou o valor perpétuo.

Valuations acabaram definindo o negócio de fintechs e agora isso muda


radicalmente. Tanto com quem está indo a mercado ou com quem irá a mercado no
futuro, a avaliação de bancos tradicionais e dos recentes players que participaram de
captação vai se transformar. Aqui a discussão recai sobre a métrica: o critério usado
refere-se ao patrimônio ou ao múltiplo de patrimônio, é múltiplo de receita, é valor de
cliente, é simplesmente valor total de mercado (denominado Market Cap, é preço
praticado em Bolsa etc.). Qual é o critério que vige, e qual é o critério mais geralmente
aceito por todos?

O valor de negócio, em geral, é sempre o seu fluxo de caixa descontado; um


negócio vale de acordo com a capacidade que ele tem de gerar caixa e o preço de uma
ação em mercados públicos detém essa informação. Foram os Prêmios Nobel de
Economia (2013) Eugene Fama, Lars Hansen e Robert Shiller, que abordaram o
assunto em seus estudos sobre precificação de ativos financeiros e de previsão dos
movimentos desses preços no longo prazo. Eugene Fama, especificamente, trata-o
como o “fenômeno da eficiência do mercado financeiro”: os preços refletem
rapidamente toda a informação disponível, já que cada investidor, ao buscar o maior
ganho possível, passa a investigar todas as informações possíveis e a se valer delas.

Além disto, nos valutions, há também a noção de ecossistema, ou seja, onde a


fintech está inserida. Na teoria das organizações, sempre se fala em estrutura vertical,
estrutura horizontal, qual é a cadeia ou esteira de produtos e como isto também afeta
a rentabilidade dos produtos. No ecossistema, apesar de a escala e os custos também
serem uma variável extremamente relevante de acordo com o seu modelo de negócio,
há requisitos de renda e de endividamento das famílias, de setores mais resilientes e de
áreas geográficas ou demográficas que crescem mais ou menos.

Por exemplo, há produtos de crédito que contêm variáveis que dependem mais
de incremento de renda ou de taxa de juros do que outros. Crédito imobiliário,
necessariamente, depende de taxa de juros menor. Outros dependem de um
ecossistema em que produtos e serviços financeiros, a partir de certas plataformas,
possam não cobrar tarifas, mas cobrir seus custos com outras formas de receita
cruzada. Toda essa discussão teórica pode conduzir à noção de substituição de um
produto por outro no longo prazo ou se vamos simplesmente ter uma comoditização
da indústria financeira e o cliente será absolutamente indiferente ao seu prestador de
serviço, como supõe o open banking?

Hoje, os bancos maiores de varejo tendem a apresentar margem de rentabilidade


menor já que têm que competir, convencer, ceder, conceder descontos, praticar
preços menores para seus clientes, tudo isso acrescido ao fato de que, com a Covid-19,
as taxas de inadimplência (e, portanto, de provisões) são maiores e a regra de confiança
que pode imperar nesses tempos, inclusive com certa permissividade judiciária, pode
ser erodida.

Finalmente, ainda em matéria de rentabilidade das fintechs: a redução das


margens dos players, e mesmo dos bancos incumbentes, é definitiva ou apenas uma
acomodação mais temporária de mercado? Claro que essa conta não é muito simples
porque agentes econômicos podem ganhar em determinadas linhas ou produtos e
perder em outras. Por exemplo, há certos bancos que têm força na receita e na
prestação de serviços: eventualmente podem perder clientes, mas ganhar em demais
serviços; podem cobrar mais por ser agentes de liquidação, então há uma conta em
que são ganhadores e perdedores ao mesmo tempo.

DE VOLTA AO OPEN BANKING

O perímetro regulatório, vale dizer, quanto o regulador pode exigir, por


exemplo, em termos de requerimentos de capital, de crédito tributário etc., impactará
a sua rentabilidade. João Manoel de Pinho Melo, atual Diretor de Organização do
Sistema Financeiro e Regulação do Banco Central, alega que o papel da Autarquia e
do foco da regulação passará da atual supervisão de instituições para as atividades
propriamente ditas. Para ele, será uma regulação funcional e cada vez mais geracional,
quem são os players destinatários da instituição, como se usa e se vale o sistema de
pagamentos. Ele diz “não conseguimos visualizar plenamente as funções e os riscos de
cada instituição sem considerar o processo de pagamento como um todo, em que
cada agente é elo de uma corrente de procedimentos, riscos e controles
interconectados”.

Apesar de um pouco retórico, afinal não se pode entender qualquer instituto ou


instituição fora de seu aspecto funcional (e a supervisão, inspeção de bancos implica
sobretudo em entender suas funções), é, no entanto, um fato óbvio que essa
redefinição funcional do regulador também envolve olhar e entender a rentabilidade,
principal motor de um negócio perene no capitalismo, e se a remuneração do
acionista se dá acima do seu custo de capital. Como distribuir o retorno – principal
tema de sustentabilidade e do novo capitalismo (se é que é novo...) é assunto
inteiramente diverso. Trata-se da concentração de renda (com viés distributivo, como,
por exemplo, a taxação de dividendos).

Um último comentário sobre a pandemia da Covid-19 e a rentabilidade das


fintechs. O Banco Central, por meio do seu presidente, Roberto de Campos Neto,
afirmou que todos os projetos digitais, inclusive o já comentado PIX, que é moeda
instantânea, não sofrerão qualquer atraso, reiterando que essa discussão de open
banking deve continuar e ser implementada no cronograma original ainda em 2020.
Há de se verificar e de se constatar se isso realmente acontecerá, e não se pode
minimizar a importância dos outros projetos encaminhados ao Congresso e que
ocupam a agenda política.129

Além disso, as discussões (especialmente sobre LGPD, como se verá adiante)


não são triviais e podem fragilizar os grande bancos incumbentes.

A Covid-19 e seus desdobramentos, especialmente em propostas legislativas,


mostram que a iniciativa terá percalços, ainda que se entende que deva ir adiante de
todo modo. Mas, por exemplo, há propostas na Câmara de limitar a taxa de juros a
20% ao ano, desorganizando de vez a indústria – mais uma vez – em produtos em que
a inadimplência varia brutalmente – segundo dados, no consignado é de 2,3% dessa
carteira, no cheque especial é de 15% e no rotativo dos cartões de crédito, de 35%.130

Outra iniciativa que pode impactar o open banking é o regime tributário para
instituições financeiras. O PL 1160/20, de autoria do senador Weverton Rocha
(PDT-MA), prevê elevar de 20% para 50% a alíquota da CSLL para instituições
financeiras, num momento em que a tributação já subiu de 15% para 20% em 2020.
Achar que o ônus tributário não é repassado ao consumidor não é apenas ingênuo, é
desconhecer o funcionamento do sistema econômico como um todo.

Vamos tratar agora dos outros temas deste quarto ensaio: sustentabilidade e
SUSTENTABILIDADE E INCLUSÃO

Vamos tratar agora dos outros temas deste quarto ensaio: sustentabilidade e
inclusão, que também enfrentarão um cenário pós-pandemia. Como tornar uma
sociedade digital mais inclusiva, mais sustentável no mercado financeiro,
especialmente no mercado de crédito?

O segundo tema relevante para discutir nesse quarto ensaio é a inclusão


financeira e, ainda que se fale muito sobre bancarização, e tratamos disso no primeiro
ensaio, o fato é que o Brasil ainda é um país de baixa inclusão financeira.

A inclusão financeira pode contribuir muito com o advento das fintechs, um


exemplo real é o M-Pesa, que foi fundado em 2007, no Quênia, África, por uma
telecom, a Safaricon, e a iniciativa de fato transformou a arquitetura financeira
daquele país. No Quênia, em 2000, apenas 27% da população era bancarizada, hoje já
chega a 80%; em 2019, estimava-se que 40% das transações financeiras eram
transmitidas por meio do M-Pesa.

A primeira observação é a relevância da inclusão financeira como meio universal


de troca e de desenvolvimento econômico. Se uma boa parte da população de um país
como o Quênia gasta seus recursos para sobrevivência em juros e tarifas, para não
mencionar o custo de ir a um banco físico, é interessante entender um pouco mais
sobre a experiência do país.

Há estimativas de que quase 2% de todos os domicílios do Quênia evoluíram do


nível da pobreza graças ao M-Pesa, o que pode parecer pouco em termos
quantitativos mas é um contingente enorme de pessoas. O M-Pesa está hoje em 10
países, totalizando mais de 300 milhões de usuários, e existem outros bancos
semelhantes, como o Bcash, em Bangladesh, ao qual 15% da população local aderiu. A
África de fato tem sido um bom exemplo para inclusão, porque países como Gana,
Costa do Marfim, entre outros, já apresentam concorrência, e mesmo empresas
estrangeiras, como a Ant Financial, uma subsidiária do Alibaba, e seu produto de
pagamento instantâneo, o Alipay, já incursionam no mesmo sentido.

Quando se trata de inclusão e elencam-se alguns fatores relevantes para o sucesso


do M-Pesa, pode-se indicar em primeiro lugar o próprio sistema de internet. O M-
Pesa é um sistema vertical que permite o uso do pagamento instantâneo, ainda uma
restrição em muitos países, mas com o advento de tecnologias, como o 5G etc., será
superado um dia. Uma segunda necessidade de inclusão, além da internet, é a própria
cibersegurança, um sistema só é crível se todos nele confiarem e se apresentar camadas
de segurança que todos acreditem ser protetivas o suficiente para não sofrerem perdas.

E o que se vê em outros exemplos, principalmente na Índia, é que uma das


melhores maneiras de inclusão se dá através das carteiras digitais, que pode ser
simplesmente um meio virtual de cartão de crédito, mas também bitcoins e outras
criptomoedas. E, aqui, nos sistemas da API, existem níveis críticos de camadas para a
inclusão, como a camada da ausência do papel, da formalidade do papel, a presença
do caixa, do que se conhece como cash layer, e finalmente a ausência do
consentimento, o consent layer.

Todas essas iniciativas já presentes na Índia, mas adotadas em outros países com
desenvolvimento de programação tecnológica, estão acontecendo em sistemas que
têm como propósito específico encorajar pagamentos on-line mais simples (por
exemplo, com a permissão de uma única vez, com um clique, fazendo a experiência
do usuário mais simples e direta). Especialmente, quando se trata de uma população
pouco educada em tecnologia e muitas vezes até mesmo semialfabetizada ou com
baixa cultura financeira, tais iniciativas ampliam a inclusão financeira.

É possível, assim, pensar em inclusão financeira sem incluir o Estado? Parece


que não. Todos as avanços, especialmente das criptomoedas, dos ICO nos últimos
tempos, vão demandar mais Estado, e, portanto, mais regulação.

Assim, o primeiro desdobramento dessa discussão de facilitação do que são as


fintechs é o meio de pagamento, simplesmente bancarizar, democratizar o acesso ao
sistema financeiro. Há um segundo e talvez mais relevante modelo de inclusão
financeira que é o acesso ao crédito, representado por fintechs que o oferecem a
pequenos empreendedores, a médio empreendedores e a quem tem dificuldade em
contratar serviços bancários.

A dúvida que permanece é se em fintechs que permitem um serviço digital de


onboarding (literalmente subir a bordo, no sentido de aderir à plataforma) os juros
serão menores (fintechs de inclusão, nem sempre têm funding barato) e se, em razão
da intermediação financeira ser direta e com margens menores, essas empresas
poderão mesmo ofertar juros menores, já que a rentabilidade aos investidores se dará
de forma direta. Há muitos exemplos, em especial com empreendedores de baixa
renda, com plataformas de crowdfunding para microcrédito. Por exemplo, uma
startup, Banco Maré, oferece serviços de pagamento de contas, de transferências, (até
pretende lançar uma bolsa de valores), sendo um negócio de nicho em comunidades
do Complexo da Maré no Rio de Janeiro com vários usuários cadastrados, que se
sentem incluídos e parte do processo econômico.131

Há outras formas de inclusão além da oferta de crédito, por exemplo, Quero


Quitar, um aplicativo que ajuda devedores a renegociar suas dívidas, em que os
acordos são realizados de forma absolutamente digital ao permitir o planejamento e a
solução financeira. Resolver pendências financeiras também é forma de inclusão
digital.

Esse fenômeno das pessoas ainda não bancarizadas, ainda por começar com
maior segurança e maior confiabilidade nas fintechs, pode ampliar o raio de ação e
atingir clientes que ainda não dispõem de contas, créditos, empréstimos, fortalecendo
sua saúde financeira e talvez crowdfunding seja um de seus principais estímulos. O
combate às fraudes e aos estelionatos deve ser assim prioritário para não inibir uma
ótima inciativa.132

Outro aspecto da inclusão bancária, como já vimos anteriormente, é o processo


de padronização, que implica um processo de simplificação e de produtos limitados.
A inclusão financeira exige simplificação, exige passar longe dos processos
tradicionais, antigamente disciplinados por duros regulamentos, por processos
burocráticos, análise de crédito, comprovação impressa, tempos longos de respostas,
custo de transação de ir e vir à rede de agências etc.

Também na discussão de inclusão bancária é importante pensar na população


mais vulnerável, por exemplo, idosos, minorias e/ou refugiados. Há projetos da
ONU, em certos países infligidos por guerras, que já têm leituras biométricas para a
retirada de alimentos. Em outros, os cartões pré-pagos de benefícios garantem que o
destinatário receba de fato seus benefícios, intensificando a facilidade de receber ou
transmitir moeda.

Se as fintechs propõem novas formas de atuação e se a inclusão financeira é uma


solução digital que pode muito contribuir com ela, há de se notar, por fim, uma
dimensão da percepção, da desconfiança em relação a instituições financeiras. Não se
trata aqui da desconfiança em relação à segurança das transações, mas do meio
informal que acha caro ou simplesmente não tem recursos para acessar o sistema
formal, inclusive por razões de sonegação tributária. Vale dizer, ele está excluído do
sistema formal, daí não tem crédito nem como comprovar renda, retardando o
desenvolvimento econômico de um país.

Muito se tem discutido sobre microcrédito e este pode ser um dos temas para
inclusão. Parte dessa agenda de microcrédito e de microfinanças envolve os
correspondentes bancários cuja atividade é disciplinada pelo próprio Banco Central
pela nova Resolução 4.713, de 28 de março de 2019, que dispõe sobre as operações de
microcrédito, de microcrédito produtivo orientado, e sobre o direcionamento de
recursos para essas operações. Ali se determinou que o crédito deve ser realizado
exclusivamente para financiamento de atividades produtivas com renda ou receita
bruta anual de até R$ 200 mil e o direcionamento compulsório dos bancos
comerciais, bancos múltiplos com carteira comercial e da Caixa Econômica Federal
deve ser, no mínimo, de 2% (dois por cento) da média dos saldos dos depósitos à vista.

Quando se pensa então em inclusão, é necessário pensar em nova expansão de


pontos de fornecimento de serviços, além do sistema todo de cooperativas de crédito,
embora não se desconheçam os problemas que assolaram esta forma de organização
de crédito no passado. Mas a inclusão financeira, num país como Brasil, deve ser
pensada tanto geograficamente em áreas e cidades que não são atingidas pelo sistema
formal, como também numa divisão demográfica de alta concentração em habitações
de baixa renda.

Uma boa legislação permite, portanto, a inclusão bancária com relevância de


renda e políticas gerais orientadas para que os desbancarizados possam ser incluídos,
mas fundamentalmente que haja inclusões iguais a todos e fácil custo de acesso.

Finalmente, o tema da sustentabilidade das fintechs, que tem sido utilizado


numa gama variada de contextos, mas, em geral, significa a capacidade de perenidade
de qualquer negócio da atual geração para a futura geração e, ainda que isso seja um
conceito extremamente fluido, o termo sustentabilidade corporativa está na moda e
de fato tem atraído a atenção dos acadêmicos ao debate.

Há coisas óbvias na agenda de sustentabilidade das fintechs, por exemplo,


respeito às leis, compliance com clientes, prevenção à lavagem de dinheiro e um rol
muito conhecido de assuntos, mas há muitos outros aspectos de sustentabilidade que
muito recentemente entraram no debate e são decididamente polêmicos. Por
exemplo, o pacote de compensação e remuneração fixa e variável dos seus executivos,
tema que mereceu muita discussão, porque trata-se de incentivos perversos à gestão e,
durante a vigência de estado de calamidade pública nacional, na crise da Covid-19,
com a Emenda Constitucional 106/2020, haveria a vedação de pagar juros sobre o
capital próprio e dividendos acima do mínimo obrigatório estabelecido em lei e de
aumentar a remuneração, fixa ou variável, de administradores (diretores e membros
do conselho de administração), incluindo bônus, participação nos lucros e quaisquer
outras remunerações.

Finalmente, há aspectos ambientais. O professor Roger McCormick, da


London School of Economics (LSE), indaga o que faz um banco ser um “banco
sustentável”. Atualmente, não há palavra mais em voga do que “sustentabilidade” –
tudo, hoje, do abajur ecológico à zootecnia industrial, passa por ser sustentável, sendo
esse atributo considerado o mais importante de qualquer negócio.133 Apesar de ser
relacionado ao meio ambiente e à ecologia (em grego, oikos, casa, e logos, estudo, ou
seja, estudo do lugar onde se vive), o conceito extrapolou para todas as atividades
humanas. McCormick lista em seu artigo sugestões para levar a sério e melhorar a
sustentabilidade bancária, e é sobre isso que vamos aqui e agora discorrer.

Mas, antes, é necessário conceituar o que se entende por sustentável. Segundo a


Comissão Brundtland, das Nações Unidas, em 1987, “desenvolvimento sustentável” é
aquele que encontra um denominador comum entre as necessidades do presente e as
do futuro, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às próprias
necessidades, vale dizer, a ponte entre o presente e o futuro. Há exemplos abundantes,
como diz McCormick. A pesca é um deles. A atividade pesqueira deve permitir que a
indústria sobreviva, sem colocar em risco a extinção de determinadas espécies e da
própria pesca. Mas será que o mesmo conceito pode ser aplicado à indústria
financeira?

Muitos confundem sustentabilidade financeira com responsabilidade bancária


– a noção de que os bancos devem se comportar de forma prudente, concedendo
crédito de maneira responsável (ou seja, evitando o superendividamento do
consumidor) e se afastando de operações altamente arriscadas que possam sujeitar o
capital da instituição a risco grave, anormal e potencialmente explosivo. Outros
acham que a sustentabilidade bancária deve atender às funções sociais do capitalismo
e da empresa, do desenvolvimento equilibrado e coisas desse jaez. E, finalmente, há os
que entendem que a sustentabilidade bancária deve ser o equivalente à boa
governança, à transparência contábil e aos princípios de auditoria universalmente
aceitos.

No entanto, é evidente que ações típicas de marketing e de boas relações com os


consumidores não devem estar na lista de itens “sustentáveis”. McCormick cita como
exemplo as filas para atendimento que se vê nos bancos e fintechs, os temas que se
referem à obediência ao ordenamento jurídico, pura e simplesmente, entre outros.
Ademais, assuntos de relações públicas também dizem respeito à administração
comezinha da instituição e também deveriam ficar de fora.

O problema é o que deve entrar nas considerações do que é sustentável – o que


realmente é importante e essencial aos olhos e à razão. McCormick não explica, mas
alude à necessidade de aumentar a quantidade de informação e de material disponível
ao público em geral (acionistas, colaboradores e sociedade) do seu próprio modelo de
negócio e da sua cultura de sustentabilidade. Isso inclui exatamente o quê? Não se
sabe, e é evidente, não há um modelo único para todos. Por exemplo, será que um
banco só pode dar crédito a quem tem projetos ecologicamente sustentáveis? É
atribuição de um ente privado funcionar como polo de controle de admissibilidade,
quando cabe ao poder público a responsabilidade de autorizar o funcionamento deste
ou daquele negócio? Em outras palavras, é papel do banco exigir, na cadeia de
intermediação financeira, que todos sejam sustentáveis?

Em interessante artigo sobre a teoria da mudança para ESG, Carolina da Costa e


Marina Grossi afirmam que ainda que possam existir razões econômicas para a
mudança, é preciso um “amplo e convicto respaldo político aliado a uma nova
moral.”134 E este tempo chegou; citando Victor Hugo, as autoras celebram: “não há
nada mais poderoso do que uma ideia cujo momento chegou”.

É evidente que é desejável que o mundo seja “sustentável” – quem não quer um
mundo melhor para seus filhos? Mas é importante alinhar corretamente os incentivos
econômicos para que não se espere mais do que alguém pode dar. Bancos e fintechs
não detêm poder de polícia e, apesar de certas delegações em matéria penal, vide, por
exemplo, os casos de lavagem de dinheiro, não têm o condão de ser agentes do Estado.

Ainda assim, é preciso sim e urgentemente responsabilidade socioambiental na


concessão de crédito e fundamentalmente passar a entender o negócio da indústria
bancária como algo que pode e precisa ser sustentável e as debêntures verdes
incentivadas, são um bom exemplo. O tema ganhou muito destaque quando Larry
Fink, CEO do fundo Blackrock, escreveu em sua carta de 2020 aos CEOs, sobre os
riscos de investimento que teriam “impacto profundo na precificação do risco e dos
ativos em todo o mundo.” E acrescentou: “o mais significativo desses fatores hoje está
relacionado às mudanças climáticas, não apenas em relação ao risco físico associado ao
aumento da temperatura global, mas também do risco de transição - notadamente,
como a transição global para uma economia de baixa emissão de carbono pode afetar
a rentabilidade de uma empresa a longo prazo. “ 135

No Brasil, os três maiores bancos privados, Bradesco, Itaú Unibanco e


Santander, lançaram um plano conjunto para promover o desenvolvimento
sustentável da Amazônia. A proposta inclui dez medidas, entre elas o estímulo às
cadeias sustentáveis na região e a viabilização de investimentos em infraestrutura
básica para o desenvolvimento social e ambiental.

Em carta, subscrita pelos presidentes de 38 empresas, discutem-se as


repercussões negativas das políticas ambientais do atual governo ao afirmar: “Essa
percepção negativa tem um enorme potencial de prejuízo para o Brasil, não apenas do
ponto de vista reputacional, mas de forma efetiva para o desenvolvimento de negócios
e projetos fundamentais para o país”.136

Na mesma linha de Albert Camus, na prevenção de que “o mundo não destrua


a si mesmo”, entre vários outros esfoços, o BIS em Janeiro de 2020 editou o livro “The
green swan: Central banking and financial stability in the age of climate change”,
para se referir a desastres climáticos com grandes impactos no sistema financeiro,
prováveis, mas com data, local e forma incertos. O Covid-19 seria um típico “cisne
verde”, fenômeno de risco há muito proclamado pelos cientistas, mas decorrente
essencialmente das mudanças na natureza causadas pela ação humana e que conduziu
o planeta à pandemia deste ano. A expressão é analógica e emprestada de Nassim
Taleb e seu “cisne negro”, fenômenos imprevisíveis, pouco observáveis mas que tem
catastróficas consequências.137

Finalmente, se estima em U$ 30 trilhões de ativos em ESG (Environmental,


Social & Governance) devendo chegar em 2030 a U$ 125 trilhões.
LGPD

O último tema deste quarto ensaio e que tem impacto sobre rentabilidade,
inclusão e sustentabilidade é a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD ou
LGPDP), Lei n. 13.709/2018, da legislação brasileira que regula as atividades de
tratamento de dados pessoais. Se, como gosta o modismo, o poder econômico está
nos dados e na assimetria informacional – a rentabilidade de qualquer negócio
depende dos macrodados, do acesso ao cliente nas suas várias necessidades e
dimensões. Analisar este tema parece ser fundamental para entender o papel das
fintechs no futuro, relacionando-se à forma como a lei entende e aplicará o quadro de
incentivos institucionais à referida proteção. Em tese, quanto melhor este tema for
tratado, mais inclusão será possível ter, com negócios mais sustentáveis.

Seguindo a toada mundial, tem-se hoje uma legislação específica para proteção
de dados e da privacidade individual. O Brasil não é exceção e, aliás, em matéria
consumerista, sempre esteve na vanguarda. Por razões e motivadores diversos, que
extrapolam este ensaio, nossa legislação sempre foi avançada, ainda que a
operacionalização de tais direitos tenha sido pouco uniforme.

A LGPD, em síntese, cria um conjunto de novos conceitos jurídicos, como


“dados pessoais”, “dados pessoais sensíveis”, e dá as condições nas quais os dados
pessoais podem ser tratados. Para os efeitos de open banking e mercado financeiro,
interessa o art. 5, inciso XVI, que define o uso compartilhado de dados: comunicação,
difusão, transferência internacional, interconexão de dados pessoais ou tratamento
compartilhado de bancos de dados pessoais por órgãos e entidades públicos no
cumprimento de suas competências legais, ou entre esses e entes privados,
reciprocamente, com autorização específica, para uma ou mais modalidades de
tratamento permitidas por esses entes públicos, ou entre entes privados.

Já o artigo 6º da Lei define que as atividades de tratamento de dados pessoais


deverão observar a boa-fé e os seguintes princípios:

I. finalidade: realização do tratamento para propósitos legítimos, específicos,


explícitos e informados ao titular, sem possibilidade de tratamento posterior de
forma incompatível com essas finalidades;

II. adequação: compatibilidade do tratamento com as finalidades informadas ao


titular, de acordo com o contexto do tratamento;
III. necessidade: limitação do tratamento ao mínimo necessário para a realização
de suas finalidades, com abrangência dos dados pertinentes, proporcionais e não
excessivos em relação às finalidades do tratamento de dados;

IV. livre acesso: garantia, aos titulares, de consulta facilitada e gratuita sobre a
forma e a duração do tratamento, bem como sobre a integralidade de seus dados
pessoais;

V. qualidade dos dados: garantia, aos titulares, de exatidão, clareza, relevância e


atualização dos dados, de acordo com a necessidade e para o cumprimento da
finalidade de seu tratamento;

VI. transparência: garantia, aos titulares, de informações claras, precisas e


facilmente acessíveis sobre a realização do tratamento e os respectivos agentes de
tratamento, observados os segredos comercial e industrial;

VII. segurança: utilização de medidas técnicas e administrativas aptas a proteger


os dados pessoais de acessos não autorizados e de situações acidentais ou ilícitas
de destruição, perda, alteração, comunicação ou difusão;

VIII. prevenção: adoção de medidas para prevenir a ocorrência de danos em


virtude do tratamento de dados pessoais;

IX. não discriminação: impossibilidade de realização do tratamento para fins


discriminatórios ilícitos ou abusivos;

X. responsabilização e prestação de contas: demonstração, pelo agente, da


adoção de medidas eficazes e capazes de comprovar a observância e o
cumprimento das normas de proteção de dados pessoais e, inclusive, da eficácia
dessas medidas.

Ainda que o tratamento e a troca de dados pessoais somente poderão ser


realizados mediante o fornecimento de consentimento pelo titular, e, portanto, a
expressão da vontade é imperiosa em qualquer dos casos, os impactos da LGPD serão
imensos e devem afetar todo o Sistema Financeiro.
Para os grandes bancos de varejo, há três aspectos que merecem comentário.

a) No título da Lei sobre o tema da responsabilidade civil, especificamente na


Seção II, intitulado “Da Responsabilidade”, nos dois artigos 31 e 32, não há
maiores detalhamentos da distribuição entre agentes econômicos. O art. 31
apenas trata da hipótese de haver infração em decorrência do tratamento de
dados pessoais por órgãos públicos, podendo a Autoridade nacional (que vamos
tratar adiante) enviar informe com medidas cabíveis para fazer cessar a violação.
E o art. 32 afirma que a mesma Autoridade poderá solicitar a agentes do Poder
Público a publicação de relatórios de impacto à proteção de dados pessoais e
sugerir a adoção de padrões e de boas práticas para os tratamentos de dados
pessoais. Não há qualquer menção à responsabilidade do informante ou mesmo
do usuário do dado, o que pressupõe uma responsabilidade solidária e
compartilhada entre todos. E a história tem demonstrado que, onde todos são
responsáveis, ninguém é responsável e os bancos temem que, por serem “bolsos
profundos”, acabarão com a parte do leão na conta.

b) Atualmente, a LGPD deve dialogar com cadastro positivo e outros


mecanismos de credit score. A Lei do Cadastro Positivo (Lei n. 12.414 de 2011)
disciplina o regime de tratamento das informações positivas dos consumidores
junto aos cadastros positivos instituídos pelos birôs de crédito. No entanto, a
informação que lá consta é do cliente, do banco que atribui o rating ou de uso
público? Pode ou não ser compartilhada? Aparentemente, e pelo andar da
carruagem, o julgamento (o rating em si) é da instituição, mas acessá-la depende
de autorização do consumidor e nada está ainda definido sobre o que pode ou
não ser compartilhado. Enfim, há muita margem para confusão. E, aqui, os
bancos de varejo alegam, como já citado no ensaio anterior, que o uso de tais
informações depende de tecnologia, portanto de investimento, e todo e
qualquer investimento precisa ser remunerado.

c) Finalmente, no inciso XIX do art. 5º (com redação dada pela Lei n. 13.853, de
2019), cria-se uma Autoridade nacional: órgão da administração pública
responsável por zelar, implementar e fiscalizar o cumprimento dessa lei em todo
o território nacional, além de um Conselho Nacional de Proteção de Dados
Pessoais e de Privacidade com composição de 23 (vinte e três) representantes,
titulares e suplentes (art. 58-A). Fora questões de governança, todos têm o
mesmo poder de voto. Desnecessário afirmar a baixa eficiência de tal autoridade.
Entre os usuários, reina a opinião que plataformas de busca ou de redes sociais
são gratuitas e, como já se afirmou, se algo é gratuito, o produto é você... Os serviços
que eles vendem é exatamente a informação do seu consumidor. A LGPD é
importante e trará impactos grandes entre bancos incumbentes e fintechs.

No entanto, no calor da Covid-19, no dia 29 de abril de 2020, o Presidente da


República editou a Medida Provisória n. 959, determinando a prorrogação da LGPD
para 3 de maio de 2021.

CONCLUSÃO DO ENSAIO IV

Este quarto ensaio cuidou da indagação básica do modelo de negócios em que as


fintechs estão envolvidas no presente momento. Afetadas pela Covid-19, o cenário
ainda é incerto e é prematuro uma prognóstico mais certeiro. Mas a exigência de um
mundo digital obrigou a substituição de certos produtos tradicionais por novos – e
também por novos meios de pagamento–, e o próprio relacionamento com os clientes
bancários vem se transformando cada vez mais.

Não acredito que, no longo prazo, esse processo, amplificado pela Covid-19, vá
caminhar para uma “comoditização” da indústria financeira. Como afirmado no
primeiro ensaio, a atividade dos bancos é a prestação de serviço financeiro. E é difícil
acreditar que um serviço, por mais padronizado que possa ser, será commodity, já que
a percepção do consumidor não é de ser commodity.

Se no futuro as fintechs serão opção superior em termos de rentabilidade e


inclusão financeira aos bancos de varejo é difícil dizer. Mas a redução nas margens dos
bancos incumbentes é, ao menos por ora, mais definitiva do que temporária ainda
que o panorama pós-Covid-19 possa se concretizar de outra forma.

O próximo e último ensaio, cuida de “Crise, regulação, supervisão e


convergência”, à guisa de conclusão e busca desenhar os cenários possíveis para a
indústria e para os bancos.

[109] https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/veja-o-numero-de-casos-e-mortes-decorrentes-
do-coronavirus-em-cada-estado-brasileiro.shtml
[110] No Brasil, estima-se que a “gripe espanhola” tenha causado a morte de pelo menos 35 mil pessoas. Entre
elas, destaca-se o então presidente eleito Rodrigues Alves, que iria iniciar um segundo mandato como presidente,
mas morreu no dia 16 de janeiro de 1919. Vide: Ricardo WESTIN. Em 1918, “gripe espanhola” espalhou morte e
pânico e gerou a semente do SUS. El País, 15 mar. 2020. Disponível em:
<https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-03-16/em-1918-gripe-espanhola-espalhou-morte-e-panico-e-gerou-a-
semente-do-sus.html>. Acesso em: 24 maio 2020; Stefan Cunha UJVARI. A história da humanidade contada
pelos vírus, bactérias, parasitas e outros micro-organismos. São Paulo: Contexto, 2008.
[111] A frase é atribuída a Jean-Baptiste Alphonse Karr na edição de janeiro de 1849 de seu jornal Les Guêpes.
[112] Celo Ming (O Estado de S.Paulo 05/07/2020 Os desbancarizados cita Renato Meirelles, presidente do
Instituto Locomotiva, de pesquisa: “Se é verdade que a pandemia escancarou a desbancarização, por outro lado
acelerou a digitalização financeira. Mas o desafio não é aumentar os bancarizados, e sim fidelizá-los”.
[113] The Economist. 04/04/2020.
[114] Valor Econômico. Receita de gigantes da tecnologia tem forte crescimento. 05/05/2020, pág. B6.
[115] Segundo o Presidente da CEF, Pedro Guimarães, “ O auxílio, por causa da pandemia, está sendo pago em
ondas. A gente vai pagar mais de R$ 250 bilhões, mas pagou só R$ 120 bilhões. Então, de fato, vai ter esse impacto
até dezembro. Tem também no FGTS. As pessoas às vezes acham que a gente já pagou a terceira parcela, mas
pagamos pela internet e só 50% das pessoas utilizam isso. Os outros 50% esperam o saque em espécie, e ele vai
demorar. Talvez isso explique por que a gente está mais confiante que a maioria. Além disso, o crédito está vindo
forte porque as medidas do BC e do Tesouro estão de fato trazendo garantias significativas, redução de base de
capital necessária. O BC liberou o compartilhamento de garantias imobiliárias para estimular o “home equity”. In:
Valor Econômico, Caixa faz planos de abrir capital de seu banco digital. 23/07/2020. pág. C3
[116] Valor Econômico. Parceiras antecipam openbanking. pág. C1, 04/05/2020.
[117] The Economist. 04/04/2020. pág. 55. Anatomy of an investing bubble.
[118] The Economist. op. cit.
[119] Mike ISAAC. A guerra pela Uber. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
[120] Com o negócio, além da Uber, outras empresas americanas, como Google e eBay, foram incapazes de
consolidar presença na China apesar dos investimentos maciços. O EBay foi adquirido pelo Alibaba, enquanto o
Google deixou a China após ver-se alvo de ataques cibernéticos.
[121] The Economist. 04/04/2020. Exist unicorns persued by bears. pág. 55
[122] Estado de S. Paulo. Uso de canais online de bancos dispara com pandemia e antecipa digitalização. pág. B-8,
27/06/2020.
[123] The Economist. op. cit.
[124] O cenário é global. Segundo a consultoria Oliver Wyman, os bancos europeus poderão perder até € 800
bilhões com inadimplência como resultado da crise do coronavírus. Segundo o mesmo estudo, “num cenário
adverso, ou mais pessimista - uma severa segunda onda de contaminação pelo vírus -, esse número dobra e as
relações de empréstimos vencidos e não pagos dos bancos sobe para 10% de seus empréstimos totais.”. Valor
Econômico. Crédito pode gerar perdas bilionárias. 2 2/07/2020. pág. C4
[125] Valor Econômico. Entrevista. 15/Jul/2020.
[126] Valor Econômico: 15/07/202: Segundo o Diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do
BC, João Manoel Pinho de Mello: “O Banco Central (BC) está aberto à entrada das grandes empresas de
tecnologia no setor financeiro e de pagamentos, mas vai exigir que elas se submetam à regulamentação e que seus
serviços não prejudiquem a competição.”
[127] A Standard Oil Company (1870-1911) foi a maior companhia de seu tempo nos EUA, produzindo,
transportando e refinando petróleo. A Standard Oil se beneficiou de economias de escala e se transformou na
maior empresa de petróleo do mundo. No início da década de 1880, a Standard Oil e suas subsidiárias
controlavam cerca de 90% das refinarias americanas. Até que, em 1911, a Suprema Corte decidiu que a empresa
era um monopólio e ordenou a criação de 34 novas empresas menores, das quais emergiram a Exxon, Chevron,
Atlantic, Mobil e a Amoco.
[128] Segundo o BCB: “A Central de Risco de Crédito é um banco de dados alimentado por arquivos enviados
mensalmente pelas instituições nanceiras, retratando suas carteiras de crédito. Devem ser informadas todas as
operações de crédito de clientes com exposição consolidada na instituição acima de R$ 5 mil, detalhadas por
créditos ativos ou em ser, créditos baixados como prejuízo e coobrigações(avais e fianças prestados pelas instituições
financeiras) e desagregadas pelas 9 diferentes classificações de risco previstas na Resolução 2.682 de dezembro de
1999, normativo que de niu as regras para a classi cação e provisionamento das operações de crédito.”
[129] Por exemplo, estão pendentes de aprovação a Lei de Infraestrutura do mercado financeiro, o projeto de
resolução bancária do sistema de pagamentos transfronteiriços, do aprimoramento das linhas de assistência
financeira e de liquidez, do sandbox regulatório, entre tantos outros.
[130] Valor Econômico. 13/05/2020.
[131] Valor Econômico. Banco Maré quer criar bolsa para empresas de impacto social. pág. C6, 07/07/2020.
[132] No mundo, há exemplos correntes. A alemã Wirecard é um exemplo recente de fraudes, com quase 1,9
bilhão de euros de prejuízo a depositantes.
[133] Roger McCORMICK. What Makes a Bank a “Sustainable Bank”? Revista da Procuradoria-Geral do
Banco Central .Volume 6, número 2, Dezembro 2012, pág. 67
[134] Carolina da COSTA e Marina GROSSI. ESG, qual a teoria da mudança? Valor Econômico, 08,09 e 10
Ago 2020, pág. A13
[135] https://www.blackrock.com/br/blackrock-client-letter. Segundo a carta “O fundo Blackrock Como
responsavel fiduciário, a BlackRock está empenhada em ajudá-lo a navegar nesta transição e a construir portfólios
mais resilientes, incluindo o esforço para obter retornos mais estáveis eelevados no longo prazo. Como as opções
de investimento sustentável têm o potencial de oferecer melhores resultados aos clientes, estamos tornando a
sustentabilidade parte integrante da forma como a BlackRock gerencia riscos, constrói portfólios, desenvolve
produtos e se envolve com as empresas. Acreditamos que a sustentabilidade deve ser o nosso novo padrão de
investimento.”
[136] Epóca Negócios. 22/Jul/2020. Bradesco, Itaú e Santander lançam plano para a Amazônia
[137] Patrick BOLTON; Morgan DESPRES; Luiz Awazu PEREIRA DA SILVA; Frédéric SAMAMA; Romain
SVARTZMAN. The green swan. Central banking and financial stability in the age of climate change. BIS. Jan.
2020. Cabe notar que o BIS também patrocina o Network for Greening the Financial System e lançou um “Green
Bond” para bancos centrais poderem investir reservas internacionais. Vide de Ricardo LESSA. Ambulância para o
mundo. Valor Econômico. 24/07/2020. Caderno Eu & Fim de Semana, entrevista com Luiz Awazu, um dos
autores do livro, Vice-Presidente do BIS e ex-Diretor do Banco Central do Brasil.
ENSAIO 5: CRISE, REGULAÇÃO, SUPERVISÃO E
CONVERGÊNCIA

RESUMO

Este ensaio, que conclui este livro, busca desenhar dois cenários possíveis para a
indústria e para os bancos à luz de criar as melhores soluções para os clientes. O
primeiro cenário é de um mercado financeiro mais aberto, ainda que
predominantemente doméstico: os consumidores estarão mais dispostos a usar outros
provedores de serviços financeiros que não bancos para suas necessidades, e muitos
destes provedores estarão fora do radar regulamentar e estatal, que é exatamente o
que vamos chamar de cenário de open banking. Mas bancos continuarão a existir e
competirão para o fornecimento das melhores e mais especializadas soluções. Ou, em
outras palavras, aprofundar o cenário atual. Já o outro cenário acelerará um mercado
livre de instituições financeiras e repletos de non banks banks, os players que não são
bancos, apesar de funcionarem como tais; por um lado, com mais cooperação, mas, por
outro, com intensa concorrência, liderados pelas giantechs e, possivelmente, com
moedas virtuais globais, porém com a remoção gradual, mas, certeira, das barreiras
de entrada ao sistema financeiro, tornando-o potencialmente mais inseguro. Vamos
denominar esse processo – e talvez por falta de melhor expressão – de free banking.

É clássica a classificação em três categorias principais dos tipos de regulamento


da indústria financeira: a regulamentação concorrencial, a regulamentação social e a
regulamentação prudencial.138

Aqui, vamos usar o termo regulamentação, em vez de regulação, já que este é ato
de incentivar a atividade econômica por meio de regras específicas do Direito
Administrativo, os regulamentos de execução, os delegados, e os regulamentos
autônomos.139

Primeiro, vamos às definições. A regulamentação concorrencial engloba normas


que limitam a atividade bancária voltada a outros setores da economia, ao determinar
critérios para que os bancos ou outros participantes do segmento financeiro possam
competir com eficiência e sem prejuízo à administração da moeda.

Ao buscar a eficiência, os regulamentos concorrenciais procuram estabelecer


mercados contestáveis, ou seja, que não requerem custos para a entrada nem ônus
para sua retirada do mercado. No caso brasileiro, um dos exemplos emblemáticos foi
a extinção das cartas-patente para a abertura de instituição financeira depois da
Constituição de 1988; antes, cartas-patentes eram ativos das instituições e
comercializadas como tal. 140

Já a regulamentação social tem como objetivo proteger e tratar igualmente o


pequeno depositante, assim como prestar uma série de serviços bancários à população
em geral, mesmo àqueles que não são clientes do banco. No passado, tarifas máximas
praticadas pelos bancos, recebimentos de contas oficiais, entre tantos outros itens,
constituíam o objeto da regulamentação social, assim como, no caso brasileiro, a
obrigatoriedade da aplicação de parte dos recursos da caderneta de poupança, como
direcionamento, no financiamento do sistema habitacional.

Finalmente, temos a regulamentação prudencial, que se refere às normas cujo


propósito é garantir a estabilidade do sistema bancário. Apesar de haver muitas
classificações, a regulamentação prudencial se divide em restrições no balanço
(imposição sobre determinados tipos de ativos, exigibilidades sobre certas contas de
passivo etc.), capital mínimo que os bancos devem apresentar e manter, depósitos
compulsórios que devem ser mantidos como reservas no Banco Central.
Recentemente, surgiram também as regulações “macroprudenciais”, neologismo para
tipos de políticas financeiras ou de crédito que minimizem a probabilidade de riscos à
estabilidade do sistema ou que aumentem a capacidade das instituições financeiras
para lidar com eles.

Dadas as definições conceituais, este ensaio se ocupa inicialmente de uma


questão abstrata: quais são as condições geralmente aceitas que justificam
regulamentar um dado mercado e quais são os incentivos para regulamentá-lo?

Isto dito, minha premissa é que não há regulamentação certa ou errada; há regra
boa ou má. Boa é aquela que reduz custos de transação e contribui para o
desenvolvimento; má é, claro, exatamente o contrário: aumenta custos de observância
e transação sem gerar qualquer benefício de desenvolvimento econômico ao país. Isso
é especialmente relevante no debate “inovação × regulamentação”, que vem
ocupando espaço central na agenda das fintechs e tem sido preocupação constante do
Banco Central e da CVM.

Neste sentido, a afirmação de que a regulamentação que incentiva a inovação é


sempre boa (e o inverso, a regulação que desestimula a inovação não presta para nada)
reflete uma visão maniqueísta, que parte do pressuposto de que a inovação depende
sempre e somente de regulação. Há exemplos que corroboram a tese pautada por
fatores históricos, nos quais a regulamentação contribuiu, mas de forma coadjuvante:
por exemplo, o desenvolvimento do mercado de eurodólar começou a prosperar
durante os anos 1960, quando a União Soviética decidiu manter em dólar os créditos
gerados pelo seu comércio internacional, depositando-os em bancos do Oeste
europeu. Os depósitos em eurodólar avultaram-se quando entidades americanas
transferiram seus saldos em dólar para a Europa, de modo a escapar dos limites (de
juros) em depósitos domésticos impostos pela Regulation Q do Federal Reserve.
Posteriormente, o mercado de eurodólar cresceu mais fortemente após a crise do
petróleo em 1973 com a reciclagem de recebíveis tomados pelos produtores do
Oriente Médio para as nações consumidoras.

Assim, não pretendemos desprezar o efeito da regulamentação no ambiente de


negócios, mas é evidente que ela depende de muitos outros elementos. Melhor é nos
valer das teorias seminais de Douglass North sobre instituições (e a regulamentação é
uma delas), pois, ele, ao estudar história econômica, explica a evolução de um país por
meio das suas instituições como determinantes do desempenho econômico das
sociedades. Assim, para ele, o conceito de instituição é o de regra do jogo:
“Institutions are the rules of the game in a society; more formally, they are the
humanly devised constraints that shape human interaction. In consequence they
structure incentives in exchange, whether political, social or economic”.141 Assim,
North considera as instituições como um constructo humano próprio, que evolui com
o tempo e a crença e que têm em seu elemento fundamental um sistema de incentivos
comum a todos.

AS JUSTIFICATIVAS PARA REGULAMENTAÇÃO 142

São quatro as principais razões da regulamentação: proteção aos fracassos do


mercado; proteção aos valores legais; estabelecimento de limites e fronteiras para as
ações dos particulares e o atendimento aos grupos de pressão e de interesse. Vejamos,
a seguir, cada uma dessas justificativas.

A regulamentação está associada ao fracasso/falência por problemas de


mercado. Tipicamente, depois de uma grande crise, é que os regulamentadores criam
mecanismos de proteção ou de barreiras – firewalls – com vistas a prevenir a
reincidência de tais crises. Sabidamente, nestes momentos de Covid-19, a crise não é
bancária nem nasceu de desequilíbrios no setor financeiro – mais adiante vamos tratar
disto – e graças às medidas tomadas em 2008-2009, especialmente no bojo de Basileia
III, os bancos brasileiros e estrangeiros estão mais resilientes neste difícil momento.

A noção de que a regulamentação deve proteger os cidadãos contra as


adversidades do mercado está baseada na concepção moderna de que os mercados são
imperfeitos, podem apresentar externalidades acentuadas e, na maior parte das vezes,
senão sempre, que fracassos ou falências de instituições financeiras afetam o pequeno
poupador de boa-fé.

Entretanto, para que possamos definir a natureza da justificativa para a


regulamentação anticrise no segmento financeiro, é necessário responder a duas
perguntas-chaves: quais são os níveis aceitáveis de risco que se está disposto a aceitar
como parte do sistema capitalista para determinados produtos ou serviços
financeiros? Segundo, quais informações devem ser prestadas ao depositante, ou em
que nível o Estado deve obrigar a instituição a divulgar dados sobre seu negócio?

As duas indagações têm como alicerce a noção de administração do risco. Se em


um determinado produto financeiro o risco aceitável pode ser diferente de outro
produto, da mesma forma, o grau de informações desejado pelo mercado para um
caso pode ser igualmente distinto. Ou seja, há diferenças estruturais para a
regulamentação de uma caderneta de poupança e de um fundo de derivativos.
Similarmente, o grau de informações desejado por um poupador é distinto daquele
desejado por um investidor em derivativos.

Além disso, há a questão da teia de segurança que se pode criar em ambos os


casos. Um seguro de depósito, como o que há entre nós, garantindo o poupador até
determinado limite (R$ 250 mil, pelo FGC), pode, numa situação extremada, levar
aquela instituição a aceitar riscos cada vez maiores com o intuito de maximizar o
retorno para o acionista, mas não necessariamente oferecer segurança para o
poupador.

Está evidente que a regulamentação visa evitar fracassos de mercado, mas tem
que fazê-lo de forma a não obstruir as forças do mercado. Em outras palavras, o papel
do regulamentador é oferecer o mínimo de segurança, bem como o mínimo de
informações consideradas necessárias para a avaliação do risco pelo investidor. Não à
toa, para Jean Tirole, o regulador representa o consumidor, que é categoria abstrata,
apesar de numerosa e que se organiza, por meio do Estado, na coletividade.143 Se o
objetivo único da regulamentação for o de evitar crises, é provável que movimentos
especulativos não previstos invadam e perturbem toda a ordem estabelecida.

A proteção aos valores legais também é apontada como uma das justificativas
importantes para regulamentar o mercado financeiro. A noção aqui de “valor legal” é
a mesma de Miguel Reale em sua teoria tridimensional do Direito: as fontes materiais
do Direito são os elementos fundamentais a partir dos quais se produzem as normas
correspondentes ao fato social e ao valor, que, por sua vez, são conjugados para a
construção de uma determinada uma lei. 144

Todo conteúdo regulamentar se baseia em julgamentos de valores estabelecidos


que se expressam em leis: por exemplo, o jogo de mercado é considerado justo,
enquanto as atividades monopolistas não o são. Assim, o mercado financeiro tem em
si muitos valores enraizados que são respeitados e se constituem em princípios
geralmente aceitos.

No entanto, do ponto de vista do regulamentador público, os únicos valores


estabelecidos que devem sempre ser atendidos são o alcance do bem geral e o
preenchimento do requisito do interesse público. A noção de utilidade pública é
controversa em ambos os sentidos, mas é evidente que toda sociedade busca alguns
fins mais globais, que podem ser considerados elementos do interesse público.

Os principais valores legais estabelecidos no Sistema Financeiro Nacional são a


estabilidade, a equidade e o equilíbrio dos mercados. Por estabilidade, entende-se que
o mercado financeiro seja sólido e seguro. Já por equidade, que o mercado busca se
dispor a respeitar os direitos de cada um.

Finalmente, por equilíbrio, o Sistema Financeiro só atinge os dois outros


Finalmente, por equilíbrio, o Sistema Financeiro só atinge os dois outros
requisitos se for capaz de se transformar num estado invariável no tempo. Ora, o
aprofundamento de tais valores consiste numa justificativa central para a
regulamentação bancária há anos, quando o Estado passou a adotar tais valores como
merecedores de tratamento específico.

As razões da interferência do Estado no Sistema Financeiro Nacional, através do


Banco Central, são bastante conhecidas. A ameaça de uma corrida bancária – com a
consequente destruição e o colapso de alguns participantes do sistema de crédito e
oferta da moeda (com danosos efeitos sobre a estabilidade econômica) – constitui
uma justificativa central para a introdução, desde a crise na década de 1930, de regras
e procedimentos que visam à segurança dos bancos e do sistema de pagamento como
um todo, bem como do controle da oferta da moeda.

O Estado, por um lado, pretende manter os valores estabelecidos – a eficiência, a


equidade e a estabilidade do sistema –, mas, por outro, pela disciplina monetária,
almeja a estabilidade da moeda e o poder de compra. Na visão do regulamentador,
isso só se atinge com normas que limitem a atividade dos particulares que, se
pudessem e fosse permitido tudo fazer, não haveria mercado. Neste sentido, o
mercado é uma instituição na qual agentes realizam as trocas econômicas; logo, não há
economia sem direito e sem trocas. Na célebre e clássica definição de Natalino Irti, o
mercado é uma instituição humana na qual é o Direito que constitui e rege as suas
disciplinas, mas é a economia que as juridifica. O mercado torna o sistema econômico
mais eficiente e garante a ordenação das trocas econômicas por meio da moeda.145

Em terceiro lugar, como estabelecer limites para as ações dos particulares. A


regulamentação não é mera interferência no mercado. Antes, pode ser definida como
um comando aos setores privados para fazer ou deixar de fazer algo dentro de um
contexto econômico. Logo, todos os tipos de regulamentação estão baseados em
valores legais ou percepções de interesse público, como já se observou.

O objetivo da regulamentação financeira não é proibir determinadas atividades,


mas, sim, simplesmente impor restrições às ações dos participantes do segmento
financeiro. É, neste sentido, parecido com o poder de polícia, já que também está
ligado à proteção imediata de ordem pública. Isso significa que a atividade estatal
condiciona a liberdade de ir e vir e a propriedade, ajustando-as àquilo que é
socialmente mais relevante, ou seja, o interesse coletivo. Toda a supervisão bancária se
baseia no poder de polícia e vamos tratar disto mais adiante neste Ensaio.

O conceito de police-power reporta-se sobretudo às normas legislativas através


das quais o Estado regula os direitos privados constitucionalmente atribuídos aos
cidadãos, em proveito dos interesses coletivos, como forma de conter os excessos do
capitalismo, sedimentando a ordem democrática e protegendo os economicamente
mais fracos.

Finalmente, a quarta e última razão para regulamentação é o que se conhece


como o atendimento aos grupos de pressão e de interesse.

Fábio Nusdeo, analisando a origem dos grupos de pressão (ou grupos de


interesse), conclui que podem ser formações associativas que normalmente surgem
em qualquer regime, destinando-se a expressar as tendências de maneira menos formal
e, possivelmente, mais técnica. Conclui também que a ação de tais grupos aumenta
em extensão e em significado com a maior presença do Estado na vida econômica. Aí
sua atividade errática, desconcatenada e pouco transparente poderá ser criticada a
macular a legitimidade das medidas estatais, além de distorcer os seus resultados. A
influência dos grupos de pressão, setores articulados e organizados que, persuadindo
ou pressionando, visam a lograr sucesso nas suas ações vem sendo notada cada vez
mais intensamente.

A atividade dos grupos de pressão é um fato moderno que não pode ser
entendido como mera corrupção do poder público, mas como fenômeno de
influência que acaba se tornando uma justificativa central para a regulamentação: o
atendimento aos setores mais organizados que exigem regulamentos específicos para
seus segmentos.

As conclusões do famoso artigo “What can regulators regulate?” de George


Stigler, de 1962, apontam esse caminho. No artigo, Stigler indagava se o produto da
regulamentação fazia alguma diferença no comportamento da indústria regulada. Seu
estudo voltava-se para as seguintes conclusões:

(a) Pelo viés da regulamentação de proteção ao mercado, graves distorções


poderiam ser geradas. Além disso, grupos de interesse que incentivam
determinadas regulamentações se beneficiam de seus resultados, podendo criar
obstáculos, tais como restrições à entrada de novos concorrentes e/ou
tabelamento de preços.

(b) A regulamentação é ineficiente num mercado não oligopolizado.

(c) Os regulamentadores são incapazes de forçar os regulamentados a operar no


nível de preço, custo e capacidade desejado. 146

É claro que o cenário de 1962 é muito diferente do de 2020, num mundo pós-
Covid-19. Mas vamos partir do pressuposto de que a regulamentação não resolve
satisfatoriamente os vieses do mercado nem apresenta um modelo eficiente do
mercado financeiro que determine aos agentes a obrigatoriedade de operarem no nível
desejado.

O Manual de Normas e Instruções do Banco Central do Brasil é o resumo


presente da regulamentação do setor. Está organizado por assunto e possui uma
abordagem operacional e extremamente detalhada. Engloba alguns volumes de
normas, divididos em resoluções, circulares, cartas circulares e um catálogo de
documentos, o Cadoc. Em termos de quantidade, existem textos normativos na casa
dos milhares que dispõem sobre os mais diversos assuntos.

No passado, o incentivo à regulamentação bancária teve fundamento na ótica


da teoria da public choice. Essa teoria mostra que os burocratas sempre buscam seus
próprios interesses enquanto funcionários públicos. O objetivo do regulamentador,
alegava-se, por ser humano, não seria atingir a eficiência e a estabilidade do sistema
financeiro, mas evitar que sua atuação como regulamentador fosse criticada e
execrada pelo público e/ou pelos ocupantes dos cargos executivos mais altos da
hierarquia. Alguns apontam também a visão de que, de acordo com a teoria da
burocracia, os regulamentadores priorizariam seus próprios objetivos como forma de
garantir seus interesses particulares e maximizar sua reputação pessoal. 147

Conhecida como “inflação” regulamentar, a ideia de normatizar todo e


qualquer aspecto da vida econômica, enfrentou um movimento radical (relevante nos
Estados Unidos, mas pouco presente por aqui) de desregulamentação, que propunha
a revogação de muitas regras e o estímulo a um ambiente quase aberto e muito livre.
O resultado, como não poderia deixar de ser quando tudo o que não é proibido é
permitido, foram crises bancárias – como a Savings & Loans, na década de 1990, e,
mais adiante, a crise do Subprime, em 2008. Foi um movimento pendular e
extremado: ou regras de mais, ou regras de menos.

Atualmente, esse conceito mudou. Não se imagina mercado sem


regulamentação e não se vê a regulação (aqui sim do inglês regulation) unicamente
como uma intervenção estatal, mas como uma ação conjunta em prol dos mercados.
Na moderna visão de Esther Duflo, Prêmio Nobel de Economia de 2019, “a verdade é
que não há razão para que o mercado, por si só, atinja o melhor resultado possível. E,
portanto, sempre precisaremos de uma combinação de mercado e a regulamentação
dele. Assim, qualquer sociedade que funcione bem terá um equilíbrio entre liberdade
de ações, de movimentos e de negócios, e um governo que ajude as pessoas a trabalhar
juntas”.148

Ao lado da regulamentação, e ainda à guisa de introdução a este ensaio, é preciso


tratar da supervisão bancária, que efetivamente é o poder de polícia do Regulador,
que se expressa através da fiscalização dos bancos. É o que faremos adiante.

REGULAMENTAÇÃO E SUPERVISÃO BANCÁRIA: O


PODER DE POLÍCIA

A supervisão dos bancos, realizada atualmente pelo Departamento de


Fiscalização do Banco Central (DIFIS), está umbilicalmente associada à noção de
poder de polícia, parte do poder do Estado, que é, neste caso, delegado ao Banco
Central com a finalidade específica de zelar pelo Sistema Financeiro Nacional.
Atualmente, aquela Diretoria congrega três subáreas, a saber: o Departamento de
Gestão Estratégica, Integração e Suporte da Fiscalização (DEGEF); o Departamento
de Monitoramento do Sistema Financeiro (DESIG); o Departamento de Supervisão
de Cooperativas e de Instituições Não Bancárias (DESUC) e, finalmente, o
Departamento de Supervisão Bancária (DESUP), que efetivamente vai a campo.

O poder de polícia nasce da ideia de habitantes (polis, politia) e se relaciona com


proteção. Para tanto, coloca-se como poder discricionário do Poder Público. No
Brasil, o Estado exerce a tradicional proteção aos direitos individuais, bem como o
papel de fiscalizador e prestador de serviços. Daí a distinção entre o chamado rule-
making power, ou o poder de criar leis, e o directing power, o poder de planejar e
controlar. 149

Podemos concluir, portanto, a partir da conceituação da noção de supervisão,


que, baseado no poder de polícia, tal atributo é uma intervenção da Administração
Pública, que pode se manifestar no domínio econômico, se a livre ação dos
particulares no Sistema Financeiro puder resultar em prejuízo ao interesse coletivo.

Como vimos, em geral, a fiscalização e supervisão do Sistema Financeiro


Nacional tem três objetivos precípuos que podem ser assim resumidos: assegurar a
estabilidade e a solvabilidade do sistema; garantir a eficiência do sistema, com a
minimização dos custos de intermediação e dos serviços bancários; e alcançar a
eficiência alocativa, o que significa melhorar a distribuição dos recursos de acordo
com o critério de maximização do lucro ao menor risco.

O poder de inspecionar e de requerer informações é praticamente ilimitado. O


Banco Central supervisiona o sistema financeiro com base em estatísticas frequentes,
o que não impede desvios, como alguns variados e criativos mecanismos elaborados
pelo mercado para contornar as exigências legais. O papel da inspeção dos bancos
varia dentro dos processos regulatórios, seja através de auditoria por meio de
autoridade supervisora, seja por requerimentos de dados. Boa parte da inspeção é
prudencial, ou seja, consiste na avaliação da qualidade do portfólio do banco e dos
ativos.

O campo da fiscalização deve seguir o mesmo princípio da especialização de


funções. Enquanto é fundamental o uso do poder de polícia para o mercado
financeiro, pouco ou nada se relaciona com a verdadeira função do Banco Central.
No passado, criticava-se o BC, que, pela tradição de acúmulo de funções, havia
absorvido demasiado poder de polícia.

Também discutia-se, no passado, que o poder supervisor deveria ser delegado a


um corpo único formado a partir do Departamento de Fiscalização do Banco
Central, que deveria se reportar diretamente ao ministro da Fazenda, numa agência
especial, como fez o Reino Unido, com resultados duvidosos e que funcionou de
1997 a 2013, quando foi dissolvida.

O texto “Princípios Fundamentais para uma Supervisão Bancária Efetiva (Os


O texto “Princípios Fundamentais para uma Supervisão Bancária Efetiva (Os
Princípios Fundamentais da Basileia)”, publicado em outubro de 2006, define o
sistema moderno de supervisão bancária e é adotado pelo Banco Central do Brasil
desde então. Os Princípios Fundamentais da Basileia definem 25 princípios que são
necessários para que um sistema de supervisão seja o que o texto classifica como
“efetivo”, vale dizer, o que exatamente deve ser realizado e preservado nas instituições
financeiras que para que “se atinja um nível que sirva como base para práticas sólidas
de supervisão”.

São sete grandes grupos, indicados a seguir, divididos em 25 princípios


individuais:

1. Objetivos, independência, poderes, transparência e cooperação (Princípio 1);

2. Autorização e estrutura (Princípios 2 a 5);

3. Regulação prudencial e requerimentos (Princípios 6 a 18);

4. Métodos de supervisão bancária contínua (Princípios 19 a 21);

5. Contabilidade e divulgação(Princípio 22);

6. Ações corretivas e poderes formais dos supervisores (Princípio 23);

7. Supervisão consolidada e entre países (Princípios 24 e 25).

Os princípios individuais em apertadíssima síntese são os seguintes:

Princípio 1 – Objetivos, independência, poderes, transparência e cooperação


claramente definidos.

Princípio 2 – Atividades permitidas sujeitas à supervisão também precisam ser


claramente definidas.

Princípio 3 – Critério para Autorização de Funcionamento. Poder de


determinar critérios e rejeitar quem não satisfizer tais critérios.
Princípio 4 – Transferência Significativa de Propriedade. Poder do supervisor
de revisar e rejeitar qualquer proposta de transferência de controle.

Princípio 5 – Aquisições: O supervisor tem o poder de aprovar ou reprovar,


usando critérios preestabelecidos, movimento de fusões e aquisições.

Princípio 6 – Adequação de Capital: Os supervisores devem estabelecer


requerimentos mínimos prudentes e apropriados de adequação de capital.

Princípio 7 – Processo de gerenciamento de riscos: Os supervisores precisam se


assegurar de que os bancos e grupos bancários adotam um processo abrangente
de gerenciamento de riscos

Princípio 8 – Risco de Crédito: Os supervisores precisam se assegurar de que os


bancos possuem processos de gerenciamento de risco de crédito que levam em
consideração o perfil de risco de seus clientes.

Princípio 9 – Ativos problemáticos, provisões e reservas: Os supervisores devem


se assegurar políticas e processos adequados para gerenciar ativos problemáticos
e avaliar a adequação de provisões e reservas.

Princípio 10 – Limites e exposições e o gerenciamento de concentrações dentro


da carteira.

Princípio 11 – Exposições a partes relacionadas.

Princípio 12- Riscos país e de transferência: políticas e processos adequados para


identificar, medir, monitorar e controlar o risco país e o risco de transferência.

Princípio 13 – Riscos de Mercado: políticas e processos adequados para


identificar, medir, monitorar e controlar de forma precisa os riscos de mercado.

Princípio 14 – Risco de Liquidez.

Princípio 15 – Risco operacional.


Princípio 16 – Risco de taxa de juros no banking book.

Princípio 17 – Controles internos e auditoria.

Princípio 18 – Integridade do setor bancário: processos adequados, incluindo


regras rígidas do tipo “conheça seu cliente” e evitem que o banco seja usado,
intencionalmente ou não, para atividades ilícitas.

Princípio 19 – Abordagem do supervisor: compreensão completa das operações


dos bancos individuais e das organizações bancárias.

Princípio 20 – Técnicas de Supervisão: supervisão direta e indireta, além de


contatos regulares com a administração do banco.

Princípio 21 – Relatórios para a supervisão.

Princípio 22 – Contabilidade e divulgação: registros adequados e fiéis aos fatos,


realizados de acordo com políticas e práticas contábeis aceitas
internacionalmente.

Princípio 23 – Ações corretivas e os poderes dos supervisores: Os supervisores


devem ter ao seu dispor uma gama adequada de ferramentas de supervisão para
demandar ações corretivas a tempo.

Princípio 24 – Supervisão consolidada do grupo bancário.

Princípio 25 – Relações entre supervisores domésticos e do exterior com


cooperação e troca de informações.

No entanto, a supervisão é sempre e, em qualquer julgar, julgamental. Há


fatores objetivos, é certo, mas a maior parte do processo de supervisão é atribuir notas
(ou ratings) e comparar a situação fática de uma dada instituição com parâmetros
ideais.

O Manual da Supervisão, do Banco Central, entende que parte importante da


O Manual da Supervisão, do Banco Central, entende que parte importante da
supervisão é a inspeção. “A inspeção consiste em elemento essencial do processo de
supervisão para a avaliação da situação econômico-financeira, da gestão, da
observância da legislação e da regulamentação aplicáveis, e de assuntos ou de áreas de
relevância da Entidade Supervisionada (ES). A inspeção tem como objetivo a
identificação de riscos relevantes para a ES e a avaliação dos respectivos controles,
assim como a verificação da atuação da alta administração na manutenção da solidez e
do regular funcionamento da ES. As avaliações podem ser realizadas tanto nas
dependências da ES como à distância, nos casos em que a presença física não se faça
necessária”. 150

A distinção entre supervisão e inspeção é tênue, e os vocábulos acabam sendo


usados de modo intercambiável, quando não deveriam – e o próprio BCB faz a
distinção ao entender que a inspeção é parte integrante da supervisão. A inspeção é
ato que se realiza na entidade financeira, mediante processo estruturado, enquanto a
supervisão busca assegurar a solidez do Sistema Financeiro Nacional e é, em si, a
materialização do poder de polícia.

Outro aspecto, ainda à guisa de introdução, é a chamada “regulação


proporcional”.

A Resolução n. 4.553, de 30 de janeiro de 2017, editada pelo CMN, estabelece


uma regulação prudencial proporcionalmente ao porte e ao risco de cada instituição,
que se define por segmento e de forma estruturada em cinco segmentos, do Segmento
S1 ao S5, compostos pelos bancos de maior porte ou internacionalmente ativos,
sendo a eles aplicada, de forma integral, com o padrão regulatório definido pelo
Comitê de Basileia, “e para os demais [é] aplicada com menor intensidade, de forma
proporcional”. Dos S2 em diante se requer menores ou mais flexíveis exigências,
numa escala linear.

Feita esta introdução teórica, muitos acreditam que a supervisão bancária


deveria ser independente do Banco Central, enquanto outros entendem que deveria
ser restrita a certas atividades e a um público maior; já para os agentes econômicos
institucionais, por não terem qualquer necessidade de “representação”, a supervisão
não deveria estar sujeita a regras de conduta. Apesar de modelos puramente abstratos,
e como frequentam o debate há décadas, vale mencioná-los.
INDEPENDÊNCIA DA AGÊNCIA DE SUPERVISÃO

É claro que, com o advento da tecnologia, a tendência predominante de


informações, relatórios, posições que criavam sobrecarga e custos regulatórios hoje
seja muito menor. Ainda que menos oneroso, diante da limitação inerente ao
processo de supervisão, será que deveríamos ter, de algum modo, entidades
independentes do Banco Central?

A discussão aqui teve início na Inglaterra, quando, em 1997, o Banco da


Inglaterra perdeu a função de supervisão, que foi incorporada pela Financial Services
Authority (FSA), uma superagência com funções de controlar bancos, mercado
segurador, mercado de capitais e mercados financeiros. O FSA já foi substituído
(desde 2013) por outras agências, ainda que, naquele momento, tenha sido criada
uma supervisão específica, um comitê de supervisão bancária que era composto pelo
presidente e diretor do FSA sem qualquer representante do Banco da Inglaterra.

Justificava-se, alegando conflito de interesses: se o supervisor é o regulador


enquanto este quer punir e vigiar preventivamente, adequando condutas às regras,
aquele busca sempre a estabilidade do sistema, evitando turbulências e sendo mais
permissivo com os recalcitrantes.

Nos Estados Unidos, o FED não é a única entidade supervisora, ainda que ele
examine e monitore as instituições sob a sua égide, mas o faz com o OCC e o FDIC,
com regras de tamanho e competência geográfica. Já no Japão, a supervisão bancária é
exercida diretamente pelo Ministério das Finanças, mas o banco central japonês, o
Banco do Japão, não é independente do governo e sempre obedece ao Estado.

E a dúvida é: devemos ter uma agência independente como fez a Inglaterra? Na


medida em que a supervisão reúne esforços de tentar alinhar práticas internacionais e
as melhores práticas de adequação de capital, de buffers de liquidez, especialmente
pós-Basileia III, buscando garantir solidez, estabilidade, liquidez e solvência, talvez
uma supervisão independente apenas duplique estrutura, custos e despesas de pessoal.
Ou seja, o esforço de ter a fiscalização bancária numa agência independente do Banco
Central pode não proporcionar qualquer ganho social. O debate sobre o tema já foi
mais intenso por ocasião do art. 192 da Carta de 1988, que clamava por um novo
Banco Central (e todo o debate de sua autonomia frente ao Poder Executivo), mas
deixou de frequentar as primeiras páginas quando os incisos do art. 192 foram
revogados pela Emenda Constitucional 40/2003. Atualmente, o debate se volta à
autonomia e à discussão de mandatos. 151

Mesmo em matéria de liquidação, o início do processo da decretação ex officio


dos regimes especiais se dá no campo, na fiscalização. Na verdade, o advento da
supervisão global consolidada, com todas as políticas operacionais, já é bastante claro
e aplicado no Brasil e leva ao acompanhamento de todas as operações bancárias, entre
outros múltiplos aspectos, como, por exemplo, controles internos, segurança da
informação, gestão e continuidade no negócio, prevenção e combate à lavagem de
dinheiro e à corrupção, ao financiamento ao terrorismo, entre outras ações.

Trata-se de comparar a gestão dos vários inventários de risco, risco operacional,


risco de mercado, risco de crédito, risco de contraparte, risco de modelo, risco de
liquidez, risco de estratégia, risco de reputação e imagem, risco socioambiental, risco
de contágio, um novo tipo de risco conhecido como step-in risk, risco de segurança
intercibernética, risco de underwriting e risco colateral, e, entre todos eles, se lhes
atribui um rating, uma nota.

O objetivo é ter, ou mostrar, pontos positivos e pontos negativos em relação a


cada um desses riscos, e ainda é inteiramente restrito à instituição.

Outro aspecto importante no pós-2008 foi a implantação dos chamados stress


test nas instituições brasileiras. Um dos mais usados instrumentos para a
administração dos efeitos do risco de liquidez são esses testes de estresse.
Aparentemente, a expressão vem da engenharia e das análises sobre a resistência dos
materiais, constituindo uma forma de determinar a estabilidade de um dado sistema
ou entidade frente a uma situação de extrema pressão ou vulnerabilidade.

Simplesmente, em um teste de estresse, força-se uma situação até ultrapassar seu


limite normal e atingir um ponto de ruptura, para, assim, avaliar as consequências e os
resultados de operar no limite.152

Outro aspecto diz respeito aos controles internos, compliances, que têm
ocupado a agenda de forma cada vez mais intensa. Tal agenda implica a
responsabilização direta de pessoas físicas, criando um correto incentivo à prudência.
Isso é especialmente verdade em relação a auditores independentes que hoje estão
abarcados pela Lei n. 9.447 e deles se exige responsabilidade, relativamente às
informações prestadas nos relatórios produzidos e auditoria independente por meio
de pareceres detalhados.

A supervisão, nesse ambiente novo, não deve ser independente do Banco


Central, até porque não foram provadas as vantagens que isso traria, se é que traria
qualquer vantagem.

Finalmente, sobre supervisão e liquidação bancária, é conhecido o potencial


conflito de interesse entre as duas competências, sendo tema relevante quando da
discussão da reforma da Lei n. 6.024, de 15 de março de 1974.

O G-20 e o Financial Stability Board, FSB, órgão de inteligência internacional


dos sistemas financeiros, estão aperfeiçoando desde 2008 o tratamento reservado aos
bancos, no evento extraordinário, indesejável, mas plenamente possível, no caso de
insolvência. Tratam também da possibilidade de os Reguladores e Supervisores não
terem todos os instrumentais para reduzir o impacto da crise bancária e,
principalmente, conseguir lidar com ela depois de ocorrida.

Para tanto, os Reguladores estão determinando que os bancos preparem os


chamados “planos de resolução” (que, às vezes, são chamado de “planos de
recuperação”), que nada mais são do que documentos dos próprios bancos em que
descrevem com elevado grau de detalhes suas possíveis vulnerabilidades, a forma
como planejariam recuperar (inclusive como restabelecer os níveis regulatórios de
capital) serviços e funções críticas e quais seriam as alternativas adotadas no evento de
uma crise.

Nos Estados Unidos, por exemplo, tais planos foram submetidos aos
Reguladores, inclusive com os chamados stress test, e avaliados. Muitos foram
considerados “não críveis”, já que o exercício é determinar quais eventos podem
ameaçar a continuidade dos negócios e, para tanto, é absolutamente fundamental ser
factível. É importante lembrar que tais planos são escritos em “normalidade
operacional”, ou seja, antes de qualquer evento anormal. A ideia é que, ocorrendo
qualquer situação de crise, possam ser colocados em prática e funcionar. Se ainda
assim forem necessárias medidas saneadoras, como a decretação de regime especial, o
processo será mais fácil.
NARROW BANKING

Uma das concepções que vem sendo debatida já há alguns anos e sempre volta
como uma teoria preventiva das crises bancárias é a teoria do narrow banking. Em
síntese, divide-se o Sistema Financeiro em dois grupos: bancos inteiramente
garantidos (por meio de mecanismos de seguro-garantia, geralmente estatais) e bancos
sem nenhum tipo de cobertura. Do ponto de vista regulamentar, estende-se o seguro-
garantia para uma parte do Sistema Financeiro que estaria menos vulnerável ao risco e
à volatilidade, com a contrapartida de maior fiscalização e controle por parte do
Banco Central. Obriga-se a instituição a comprar somente títulos públicos, nos quais
os ativos são líquidos e certos e o passivo, portanto, absolutamente garantido. Há
certa semelhança com contas de meios de pagamento, onde não são cobradas tarifas e
os recursos lá depositados ficam aplicado em títulos públicos, como o Tesouro
Direto.

Mesmo que tal teoria contenha uma concepção engenhosa, críticos afirmam
que há suspeita de que as operações de crédito bancário se limitariam àquelas
sabidamente sólidas e não seriam suficientes para assegurar a procura por depósitos
garantidos. Outros ainda alegam que, numa situação limite, o Estado também
acabaria por ser arrastado para o lado desregulado do sistema. Não há no mundo
recente país que adote o modelo.

No entanto, há aspectos do narrow banking que precisam ser considerados e


poderiam, em tese, ser adotados. Mesmo que apenas o lado ‘regulado’ tenha
obrigações muito específicas, o setor desregulado teria supervisão prudencial. O
provimento das informações para a superação da assimetria informacional se daria
com base num sistema de exame e fiscalização bancária rigoroso. Envolveria auditorias
semestrais até com mecanismos de responsabilização ilimitados na eventualidade da
quebra do banco se houver má-fé ou má-gestão. Ou, em outras palavras, o setor
desregulado também teria supervisão prudencial para que houvesse ampla
transparência no sistema, ao mesmo tempo que se permitiria liberdade de operações.
Este aspecto é, segundo seus defensores, um dos mais importantes e interessantes do
modelo: a obrigatoriedade da transparência de informações. Os bancos seriam
obrigados a fornecer uma quantidade detalhada de informações sobre suas atividades,
suas operações, seus ativos e seus passivos. Muitos acreditam que bancos podem
preferir a discrição à luz pública. Historicamente, os bancos centrais ocuparam o
papel de frade-confessor, visto que problemas de várias naturezas e origens são mais
bem resolvidos reservadamente.

A teoria do narrow banking é debatida por algumas razões óbvias e as analogias


com as fintechs são compreensíveis, embora se afirme, desde logo, que não foi esse o
modelo adotado pelo Banco Central brasileiro e a analogia às contas digitais de
pagamento é apenas ilustrativa, já que as instituições de meio de pagamento não são
instituições financeiras.

Além disso, alguns entendem que a atividade bancária é um “acidente pronto a


acontecer”, já que os bancos adoram o risco (os banqueiros têm incentivos de
remuneração para arriscarem mais e mais, já que, no final das contas, não arriscam
capital próprio), mas também sabem que são considerados uma indústria de utilidade
pública, e salvos no final. Isto não é exatamente verdade, e como a crise de 2008
ensinou, ainda que em matéria de condenação penal em países como os EUA, tenha
sido ineficiente, os efeitos para a economia real são verdadeiramente muito
devastadores.

Num certo sentido, free banking, ou sistema bancário livre se identifica com um
debate da solução liberal do século XIX, contrária à teoria da moeda estatal e dos
bancos centrais e que se baseia em dois princípios norteadores: a ausência de um
órgão monetário para autorizar o funcionamento do sistema bancário e o fim do
monopólio de emissão. Inicialmente, o conceito básico desse sistema residia na
outorga de uma concessão para iniciar um estabelecimento bancário emissor a quem
preenchesse os parâmetros básicos. Depois da grande crise monetária de 1837 nos
Estados Unidos, que culminou com a suspensão dos pagamentos das notas bancárias,
foi votada uma lei, em Nova York, determinando que a atividade bancária era livre,
mas sob certas condições restritivas.

Como ficamos ao cotejar a teoria do free banking no caso do Brasil? Por


dispositivo constitucional, o Banco Central detém o monopólio da supervisão e
regulamentação do Sistema Financeiro Nacional, além da emissão do papel-moeda e
da moeda metálica e executa os serviços de saneamento do meio circulante. Ele detém
o monopólio do poder de regulamentar. Poderia ele abrir mão de tal poder?

Meu entendimento é que não, já que se trata de poder do príncipe, função


estatal por excelência. Ele não pode e não deve. O problema da criação de um sistema
livre, além de aspectos culturais e políticos, tem um cunho prático: se tudo der errado,
não são apenas os bancos que perdem, perde toda a sociedade. Não se perde soberania
nem poder emissor quando aparece um bitcoin ou qualquer outra criptomoeda, nem
quando tais ativos perdem valor, mas quando há pânico, sempre deve haver Estado. O
Estado é o único que tem recursos infindáveis e tempo para amainar a tempestade.

A DIALÉTICA DA REGULAÇÃO

Edward Kane, importante autor da área de estudos de regulação da década de


1980, criou a expressão “dialética da regulação”, para traduzir, no seu entendimento,
as múltiplas camadas da complexidade e dos dilemas das funções do Banco Central.

Como se sabe, bancos centrais têm funções clássicas e funções não clássicas; a
supervisão seria uma função clássica em razão da sua função de prestamista de última
instância e a regulamentação outra função clássica como autarquia de Estado que é.
153

Mas voltando a Kane, para ele, os processos da inovação financeira geram uma
dinâmica entre mudanças tecnológicas e mudanças regulatórias; a ação regulatória,
gera uma reação dos agentes forçando inovações financeiras, é nesse sentido que Kane
se vale da ideia da dialética hegeliana de que toda tese gera uma antítese: a inovação
anula a regulação inicial e dá início a um novo processo de re-regulação. Nas suas
palavras: “A dialética regulatória vê as ações de regulação e reação, inovação, como
forças indissociáveis, como os pedais de uma bicicleta. A dialética regulatória descreve
a regulação financeira como um jogo sem fim de uma estratégia em que dois times de
jogadores, reguladores e regulados, fazem movimentos alternativos, mudanças no
ambiente econômico e tecnológico e no sistema competitivo da regulação alteram o
potencial do movimento de ambos os times a cada turno, a liberdade e a velocidade
com que os diferentes jogadores formulam e executam seus movimentos constituem
sua eficiência adaptativa. A eficiência adaptativa média dos jogadores pode ser
ordenada como segue:

1 – jogadores menos regulados se movem mais rapidamente, mais livremente


que outros mais regulados;

2 – jogadores privados se movem mais rápido e livremente do que os jogadores


2 – jogadores privados se movem mais rápido e livremente do que os jogadores
públicos;

3 – jogadores regulados se movem mais rápido e livremente do que os seus


reguladores; e, finalmente,

4- agências regulatórias internacionais se movem menos rápida e livremente do


que outros participantes”.

A ideia da regulação como um jogo também é conhecida, mas vale a pena ser
relembrada. A teoria dos jogos estuda o comportamento e a interação entre os
indivíduos quanto à expectativa que um tem em relação ao outro. No entanto, nesse
processo de interação, um desconhece o que o outro está fazendo: não tem ideia dos
recursos de que dispõe, nem muito menos qual é a expectativa de resultado.

Aplicando-se a teoria dos jogos à regulação, os comportamentos, por não serem


previsíveis, não estabelecem limites à sua atuação; por isso a norma deveria muito mais
servir de condição básica, especialmente se considerarmos que o fenômeno jurídico é
sempre mais amplo e abrangente do que a mera letra da norma ou mesmo do
regulamento.

São três os elementos constitutivos daquilo que se denominou jogo legal, a saber
os participantes do jogo; as estratégias disponíveis a cada um deles e as vantagens e/ou
desvantagens quanto à combinação estratégica das alternativas existentes. Atendo-nos
a um só exemplo, aplicado à teoria da regulação, as estratégias das partes podem não
estar facilmente demonstráveis, mesmo que os objetivos do regulador e do regulado
estejam definidos e cada posição mais ou menos marcada. Diz-se, então, que se trata
de jogo de informação completa mas imperfeita. E é assim porque, não obstante se
conheçam de antemão os objetivos dados, não se conhece o comportamento
previsível de cada um.

Uma segunda dificuldade é configurada pela inexistência da racionalidade


absoluta no processo de decisão. Os comportamentos humanos não são guiados
unicamente pela razão: a ela se juntam a emoção e a percepção. Daí a expressão
irracionalidade imperfeita para indicar o resultado da ausência de informações num
ambiente não inteiramente racional, exemplificado pelo comportamento de
investidores em pânico, ou o comportamento de hordas (herd behaviour), quando os
investidores, seguindo o exemplo de algum formador de mercado, retiram-se abrupta
e insensatamente do mercado, vendendo suas posições (ou sacando seus recursos) a
qualquer custo ou amargando qualquer prejuízo.

A expressão “jogo bayeasiano” é utilizada para ilustrar tais expectativas na teoria


dos jogos. Cada agente econômico atualiza as suas expectativas tendo em vista uma
nova informação, por exemplo, o comportamento a ser induzido após a ação de
outrem.

Outro foro de análise na teoria dos jogos concentra-se nos mecanismos de


solução, aqueles que permitem identificar as estratégias mais prováveis a serem
adotadas pelos participantes, bem como a combinação de seus diversos tipos. Alguns
autores notam que, quanto maiores a racionalidade e a informação, maior a tendência
ao equilíbrio, ou ao que se denomina “princípio de equilíbrio de Nash” (John Nash
[1928-2015], matemático norte-americano, que teve sua vida retratada no filme
“Uma mente brilhante [A Beautiful Mind], de Ron Howard, 2001), definido como a
combinação das estratégias de ambos os jogadores que podem jogar, sabendo que
nenhum dos dois poderá escolher uma estratégia diferente, dada a estratégia que o
outro escolheu. Logo, a estratégia de cada jogador é a melhor resposta à estratégia do
outro.

Ao abordar a mesma problemática, há autores que entendem as relações entre


bancos centrais e bancos privados como um jogo viciado, em que os bancos privados
sempre tomam a dianteira, e os reguladores são colocados contra a parede e forçados a
agir em reação às ações dos primeiros. Isto não é o que acontece atualmente com as
fintechs, ao menos no caso brasileiro: ao contrário, é o Banco Central que está
liderando o processo, demarcando limites e incentivando o processo de mudança,
merecendo elogios de até seus críticos mais ferrenhos.

PARA ONDE VAMOS? CONCLUSÃO

Feitas as considerações acima, vamos passar a endereçar este último ensaio ao seu
principal ponto e à guisa de conclusão de todos os ensaios: os dois cenários possíveis
para a indústria e para os bancos à luz de criar as melhores soluções para os clientes.

A premissa básica e fundamental é que, sem relacionamento positivo e


A premissa básica e fundamental é que, sem relacionamento positivo e
lucrativo, não há negócio. E que o relacionamento com clientes depende, no tempo e
espaço de inúmeros fatores, mas um sobressai a todos os outros: compreender as
necessidades dos clientes, que não é apenas um bordão jogado à multidão ignara ou
uma filosofia corporativa vazia e sem significado.

Todas as companhias que deixaram de atender às necessidades dos clientes, seja


porque não as entenderam, seja porque as interpretaram equivocadamente,
fracassaram. Muitos são os exemplos e elencá-los foge um pouco do debate aqui, mas
certamente todos se lembrarão de marcas muito conhecidas (e, às vezes, líderes de seus
segmentos, como a Kodak) que hoje nada mais são do que casos passados comentados
em escolas de negócios como exemplos a não serem seguidos.

E não que tais necessidades não sejam mutantes e, muitas vezes, pouco
consistentes no tempo. Tome-se por exemplo, a rede de agências físicas ou mesmo
uma rede de caixas eletrônicos para saques e depósitos – grande frisson na década de
1980, quando grassava a inflação – hoje, evidentemente, representam ônus,
problema, e pesado custo com baixa perspectiva de solução a curto prazo. Nenhum
banqueiro moderno entende que rede física tenha qualquer prioridade em seu
respectivo negócio.

Outro fato que ficou para trás com o advento da tecnologia de meios de
pagamento: o dinheiro físico enquanto papel moeda; ainda que exista na economia
boa parcela de meio circulante, tanto em virtude de restrições do BC em razão da
prevenção à lavagem de dinheiro, quanto por segurança, as agências recebem e
circulam pouca moeda.154

João Manoel de Pinho Mello, o muito citado Diretor do Banco Central e


paladino das atuais mudanças, afirma com razão: “Estamos diante de um cenário no
qual a liderança será exercida por aqueles agentes do sistema financeiro que se
adaptam e entendem que a intermediação financeira não é um fim em si mesma, mas
um meio pelo qual as empresas e as pessoas têm as suas mais diversas necessidades
atendidas. Não há um parâmetro fixo ou um padrão a ser seguido: conforme as
pessoas mudam, mudam os hábitos, mudam as necessidades, mudam os produtos e
serviços financeiros a serem oferecidos e também mudam os potenciais ofertantes
desses produtos e serviços”.155
O advento dos pagamentos instantâneos e do próprio open banking permite
uma premissa para construir a conclusão do que se tratou nos últimos ensaios e uma
tentativa de prognóstico para o futuro, se é que isto é possível.

Inicialmente, o consumidor importa e sabe fazer escolhas, na maior parte das


vezes, ainda que nem sempre, racionais. E o processo de escolhas racionais implica
menores custos de transação. A chave de se entender open banking é exatamente a
redução de custos de transação.

Como já se tratou tanto, custos de transação são os custos associados à


transferência, captura e proteção de direitos na simples e clássica definição de Yoram
Barzel. Custos de transação existem quando os agentes econômicos intercambiam
direitos de propriedade (in abstrato) por ativos econômicos (como, por exemplo, na
compra e venda de um imóvel), mas, no nosso caso vêm a ser os custos de mensuração
daquilo que é trocado por meio da execução dos contratos. Qualquer serviço de
intermediação financeira é, em si, a execução de um contrato (alguns denominados,
como o contrato de depósito, outros atípicos, por exemplo, os swaps).

Pode-se inferir que existem três partes componentes do custo de transação para
qualquer atividade financeira: informação, negociação e execução contratual. Esses
componentes, quando relacionados à troca de direitos contratuais ou de propriedade
entre indivíduos, são considerados pelo consumidor na atividade de intermediação e
na contratação de serviços financeiros. Quando falamos em “facilidade do open
banking”, no fundo, trata-se de uma equação de risco e retorno na execução de um
determinado contrato.

Voltemos ao open banking. No Brasil, conseguiu-se implementar um processo


pelo qual a intermediação ou contratação de serviços e produtos financeiros é
dependente da autorização expressa individual. Por ser aberto, permite tornar iguais
concorrentes díspares. Compartilham-se informações e a assimetria deixa de existir.
Reduz-se a distância entre o dado e o possuidor do dado e reduzem-se custos de
transação. Como resultado, para o consumidor, pouco importa quem é, desde que
satisfaça às suas necessidades.

O resultado, neste primeiro cenário, conforme já adiantado, é de um mercado


financeiro mais aberto, ainda que predominantemente doméstico: os consumidores
estarão mais dispostos a usar outros provedores de serviços financeiros que não
bancos para suas necessidades, e muitos destes provedores estarão fora do radar
regulamentar e estatal, que é exatamente o que vamos chamar de cenário pleno de
open banking.

Dois comentários merecem ser feitos aqui. A idéia de mercado financeiro


doméstico no Brasil é comprovada pelo fato de que poucos players estrangeiros
entraram e aqui ficaram – o espanhol Banco Santander é uma notória exceção, mas o
é também em outros vários países, como na Inglaterra, no México e mesmo em
Portugal. A noção de provedores fora do radar estatal também há de ser comprovada,
já que, como se verá adiante, o BC delegou a responsabilidade à instituição regulada
por ele, o banco.

Se tal medida é uma extensão da responsabilidade e é eficiente do ponto de vista


prático, há ainda de se conferir. Como se sabe, as relações banco-consumidor no
Brasil são repletas de conflitos e não é à toa que o contencioso bancário representa um
dos maiores volumes de processo no Brasil e no mundo. Parte do problema é a
atribuição de responsabilidade (por exemplo, em cobranças indevidas) se terceiros,
como nas relações trabalhistas, prepostos, que agem em nome da preposição que lhes
foi conferida, causarem danos, se tais danos ampliarem as contingências cíveis dos
bancos, etc. Se isto se replicar, o modelo poderá estar ameaçado.

Um segundo aspecto é o que se refere a quem consegue prestar serviços de


custódia. A custódia é um serviço de guarda (e, normalmente, de administração e
gestão) de valores mobiliários em nome de terceiros, sua origem é histórica e vem da
guarda física de ouro e dos demais serviços de cofres. A palavra custódia advém do
latim custodiae e envolve guardar alguém ou alguma coisa com segurança, dando-lhe
proteção. No Direito Romano, custódia implica a conservação, a ação de vigília.
Portanto é ato, é detenção de coisa, no sentido do mercado financeiro, em nome de
terceiros, é fruto da natureza de depósito de títulos.

Ainda que possa haver um grande debate sobre o tema, ao menos no Brasil, a
custódia de bens e serviços financeiros ainda é quase privativa das instituições
reguladas, tanto por força legal (art. 24, Parágrafo Único da Lei n. 6.385, de
07/12/76, e art. 17 da Lei n. 4.595, de 31/12/65) quanto por razões de confiança e
credibilidade. Mas há também razões de escala e escopo aos depositários em prestar
serviços adicionais relacionados à liquidação e escrituração de ativos.
No plano dos serviços financeiros qualificados, pode-se incluir, quando há uma
câmara de compensação de ativos (ou a pessoa jurídica que centraliza tais serviços): a
liquidação física e financeira de ativos financeiros; a administração dos seus proventos
e demais controles. Pode-se criar uma clearing responsável pela custódia dos ativos
negociados e até mesmo uma central depositária, mas seus clientes só contratarão o
serviço se nela confiarem e se for grande o suficiente para que negócios possam lá
ocorrer.

Finalmente, em maio de 2020, durante a pandemia da Covid-19, o BC publicou


o que chamou de “regulamentação definitiva” de open banking em Resolução
Conjunta 01 com o Conselho Monetário Nacional (CMN).

Anteriormente, havíamos citado, en passant, o Edital de Consulta Pública n. 73,


de 28 de novembro de 2019, e mencionado o compartilhamento de dados pessoais no
âmbito do open banking, à luz da Lei n. 13.709/2020 (LGPD). E, na Exposição de
Motivos, afirma-se que a experiência deve ter “procedimentos para viabilizar tal
consentimento e devem ter como diretriz a promoção de uma experiência simples,
eficiente e segura”.

Pouco mudou, mas dois aspectos ligados ao consentimento do usuário para o


compartilhamento de dados devem ser ressaltados:

(i) a necessidade de obtenção do consentimento necessariamente após a data de


entrada em vigor da resolução conjunta, ou seja, as instituições participantes não
poderão utilizar qualquer tipo de consentimento obtido anteriormente de
clientes para outras finalidades (o que está em linha com as demais disposições
da norma no sentido de que o consentimento está relacionado a uma finalidade
específica);

(ii) a possibilidade de instituições participantes (transmissoras ou detentoras de


contas) proporem aos clientes a revogação de consentimento nos casos de
suspeita justificada de fraude.

E, ainda, o que gerou muita discussão, como se tratou anteriormente, foi o


ressarcimento de despesas que só poderá ocorrer em relação aos canais de acesso ou
canais de produtos e serviços com valores mínimos, e que de fato coloca os bancos de
varejo numa posição de desconforto, já que são eles os “fornecedores” do que se
chama de interface:

(i) 2 (duas) requisições por mês para dados cadastrais; e

(ii) 120 (cento e vinte) requisições por mês para dados transacionais.

O open banking será obrigatório para as instituições financeiras sistemicamente


relevantes (classificadas como S1 e S2), e opcional para as restantes, adotando-se a
regulação proporcional já citada. Nesta hipótese, a mera adesão ao programa, implica
fornecer e captar as informações.

Os padrões de tecnologia, governança, segurança e desenho de interfaces serão


objeto de autorregulação, ainda que não seja exatamente trivial a implementação de
tal esquema. As instituições participantes e as instituições contratantes do open
banking terão de designar um diretor responsável pelo compartilhamento das
informações.

Finalmente, na dita Resolução, delineou-se a implementação do open banking


no Brasil em quatro fases, a saber:

Fase 1 (até 30.11.2020): acesso do público a dados de instituições participantes


sobre seus canais de atendimento e produtos e serviços relacionados a contas de
depósito à vista, poupança, contas de pagamento pré-pagas e operações de
crédito.

Fase 2 (até 31.5.2021): compartilhamento entre instituições participantes de


dados cadastrais e transacionais.

Fase 3 (até 30.8.2021): compartilhamento de serviços de iniciação de transação


de pagamento, bem como de encaminhamento de propostas de operação de
crédito.

Fase 4 (até 25.10.2021): ampliação do escopo de dados, para incluir operações


de câmbio, investimentos, seguros e previdência complementar aberta.
Neste primeiro cenário, de um mercado financeiro mais aberto, ainda que
predominantemente doméstico com os atuais bancos de varejo existindo de forma
relevante e com grande concentração de players, o que em resumo pode ser o
aprofundamento do cenário atual, a pergunta que não cala é se o open banking de fato
cumprirá a sua função, especialmente em matéria concorrencial.

Mas, aqui, pode-se imaginar que os bancos sejam também sócios e participantes
de fintechs e os próprios bancos se transformem em fintechs. Ou se os bancos se
transformarão em bank-as-a-servicer, o banco como mero provedor de negócios de
outras fintechs, entre acordos operacionais e outros convênios. Em qualquer dos
casos, os bancos permanecem grandes e poderosos.

Neste mundo pós-Covid-19, é importante ainda ressaltar a importância de


balanços robustos, de grande patrimônio líquido especialmente na hipótese de
inadimplência. Já tratamos do assunto no ensaio anterior, mas ele merece ser mais
uma vez ressaltado aqui já que é, na minha opinião, ainda um elemento relevante e
imprescindível.

Para todo crédito concedido por uma instituição financeira, é certa a ocorrência
de pelo menos uma entre três hipóteses quanto às chances de recebimento: se é grande
(ou seja, provável); se é média (possível); se é pequena ou nula (improvável). Até
recentemente, tratava-se distintamente essas três ocorrências de recebimento, mas
sempre com base num único critério: a pontualidade dos pagamentos. No caso de
uma ocorrência provável, a obrigação deveria ser liquidada pontualmente, sendo o
crédito considerado normal; se o pagamento fosse efetuado com atraso, então se
considerava possível (ou não) o crédito se tornar normal. No caso de determinado
número de dias de inadimplência em diante, quase certamente o crédito se tornaria
um crédito em liquidação (quer dizer, um ativo que não poderia se realizar em
liquidez, ou seja, para fins bancários, um crédito incobrável, mesmo que pudesse vir a
ser exequível na esfera judicial), já que, segundo a norma então vigente, seria
improvável a chance de recebimento.

Em casos assim, se houvesse improbabilidade no recebimento, com o objetivo


de garantir a solidez da instituição, exigir-se-ia uma provisão contábil de 100%, o que
se refletiria nas demonstrações financeiras contra os lucros (ou prejuízos) acumulados.
Provisão em contabilidade é uma reserva para a cobertura de uma despesa que se
considera certa. Até o crédito se tornar completamente incobrável, havia determinada
porcentagem de exigências de provisões que dependia da qualidade das garantias.

A dúvida é se fintechs possuem a mesma capacidade de suportar tais prejuízos,


ainda mais no momento em que o panorama de critérios contábeis para constituição
de provisão para perdas esperadas associadas ao risco de crédito está para mudar,
como se prevê em 2021. Trata-se de adaptar à norma internacional do IFRS, chamada
de IFRS 9, afeiçoando o BR GAAP aos padrões mundiais com a “incorporação ao
Plano Contábil das Instituições Financeiras” dos preceitos da norma internacional,
que podem ser resumidos aos seguintes temas:

1. As provisões nos bancos voltadas às operações de crédito passarão a todos os


ativos, instrumentos financeiros patrimoniais e derivativos, garantias financeiras
e compromissos de créditos;

2. Cria-se o conceito de “risco de crédito” para classificação dos ativos, aqui


entendido como a probabilidade de o instrumento original se tornar
problemático. Vale o prazo contratual do ativo, mas também mudanças
significativas ou esperadas em função de fatos internos ou externos
supervenientes;

3. Deixa de existir segregação por valor entre operações classificadas apenas em


função do atraso, partindo-se do conceito de “reconhecimento inicial” do
crédito.

4. Passam a ser exigidos limites mínimos para perdas esperadas por segregação
em carteiras;

5. Os ativos financeiros se classificam em três níveis com um mínimo de


provisionamento para cada um, incluindo as respectivas garantias bancárias.
Essa é uma mudança radical, já que, na atual regra da Res. 2.682, de 22 de
dezembro de 1999, primeiro se classifica a operação entre AA e H e só após vem
o percentual de provisão. No IFRS 9, há uma mudança de metodologia, uma
vez que a classificação se dará num dos três estágios, estimando-se primeiro a
perda esperada, para, somente ao final, determinar a classificação;
6. No primeiro estágio, a provisão “para perdas esperadas associadas ao risco de
crédito deve ser suficiente para cobrir a perda esperada considerando a
probabilidade de o instrumento financeiro se caracterizar como ativo financeiro
com problema de recuperação de crédito nos próximos doze meses”;

7. No segundo estágio, a provisão “para perdas esperadas associadas ao risco de


crédito deve ser suficiente para cobrir a perda esperada considerando a
probabilidade de o instrumento financeiro se caracterizar como ativo com
problema de recuperação de crédito durante todo o prazo esperado do
instrumento financeiro”; e

8. No terceiro estágio, a provisão “para perdas esperadas associadas ao risco de


crédito deve ser suficiente para cobrir a perda esperada considerando que o
instrumento se caracteriza como um ativo com problema de recuperação de
crédito correspondente”;

Bancos grandes de varejo podem competir com as giantechs? Há dois problemas


óbvios nesta hipótese: livrar-se do legado físico de agências, caixas eletrônicos e
ampliar a eficiência de custos (dada pela fórmula despesa operacional pela receita
operacional, simplificadamente) e, também, transformar uma cultura financeira (na
qual, por exemplo, predomina a tesouraria, a gestão de ativos etc.) numa cultura
puramente digital.

O elemento “ciência dos dados” entra exatamente aqui e com modelos


preditivos pode transformar um novo player digital num grande conglomerado
financeiro. Mas a noção de que bancos grandes de varejo simplesmente não reagiriam
ou não acabariam, no tempo, com seus legados, é ilusória. Ao contrário, há suficientes
provas de que todos se preparam para a longa corrida.

Já o outro cenário acelerará um mercado livre de instituições nanceiras e


repleto de non banks banks, por um lado, com mais cooperação, mas, por outro, com
intensa concorrência, liderados pelas giantechs e, possivelmente, com moedas virtuais
globais, porém com a remoção gradual, mas certeira, das barreiras de entrada ao
sistema financeiro, tornando-o potencialmente mais inseguro.

Finalmente, a concorrência. Difícil prever, mas, em tese, é mais uma ameaça ao


status quo. Walter Bagehot, grande defensor das ideias do free banking do século XIX,
já advertia: “nós estamos tão habituados a um sistema bancário único, dependente em
sua função cardeal, que dificilmente poderíamos conceber qualquer outro. Mas
qualquer outro sistema que tivesse surgido sem a interferência do Estado, seria o de
múltiplos pequenos negócios, universalmente aceitos”. Continua
surpreendentemente atual quase 250 anos depois.

Desta forma, não acredito no segundo cenário, livre de Estado e de reguladores,


apesar do sonho libertário de que tal sistema, em tese, poderia ser muito mais
competitivo – como é o de alimentação, por exemplo. Mas razões muito conhecidas
da especialidade bancária levam-nos a apostar num cenário no qual os inovadores
convivem por um tempo com os incumbentes.

No primeiro ensaio deste livro, tratamos, no primeiro parágrafo, dos avanços da


humanidade e da ideia de revolução no sentido de ruptura, de mudanças
evolucionárias. Deve ter sido difícil para aqueles que estavam no meio do processo
compreender a total experiência da mudança e o quanto mudaria o futuro. Afinal, o
passado não existe mais e o futuro ainda não chegou: resta apenas o presente e suas
promessas e desafios.

Num país em desenvolvimento como o Brasil, tais desafios são imensos. E,


nestes tempos de pós-Covid-19, o Brasil tem um encontro marcado com alguns de
seus maiores entraves ao desenvolvimento e desequilíbrio estrutural: a crescente
desigualdade e suas raízes na educação e na saúde básica.

O Sistema Financeiro Nacional, por seus participantes e por suas importantes


funções econômicas e sociais, tem grave missão a cumprir e precisa estar pronto e a
postos, sob pena de deixar de contribuir com aquilo que mais o caracteriza e o definiu
na história recente do Brasil: permitir a nação sair do atraso e atingir o
desenvolvimento que precisa e merece.
[138] Kenneth SPONG. Banking regulation: its purpose, implementation and effects. Division of Supervision
and Risk Management Federal Reserve Bank of Kansas City, 2000, p. 39.
[139] Em Crise e regulação bancária (São Paulo: Textonovo, 2000), escrevi: “Existe um leque bastante variado de
classificações, dependendo do enfoque adotado segundo cada autor, mas, de modo geral, o regulamento pode ser
classificado quanto à abrangência de seus efeitos, quanto aos seus destinatários, em relação às entidades que os
editam ou em relação à lei. José Ribamar de Barros Nunes lembra que a classificação correntemente empregada no
Brasil é inspirada na doutrina italiana, já que os tedescos consideram apenas duas espécies de regulamento: os
jurídicos (aqueles que criam normas de direito e estabelecem regras externas e obrigatórias) e os administrativos
(aqueles que fixam a organização da Administração e não obrigam a terceiros)”. A classificação aqui é a conhecida
e clássica de Santi Romano.
[140] A Constituição de 1988, no art. 192, in verbis, afirmava: “O sistema financeiro nacional, estruturado de
forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade, será regulado em
lei complementar, que disporá, inclusive, sobre: I - a autorização para o funcionamento das instituições
financeiras, assegurado às instituições bancárias oficiais e privadas acesso a todos os instrumentos do mercado
financeiro bancário, sendo vedada a essas instituições a participação em atividades não previstas na autorização de
que trata este inciso”. A Emenda Constitucional n. 40, de 29 de maio de 2003, revogou todos os incisos e
parágrafos.
[141] Douglass NORTH. Transaction Costs, Institutions, and Economic Performance. San Francisco: ICS Press,
1992. p. 5. Tradução do Autor: “ Instituições são as regras do jogo numa sociedade; mais formalmente elas são as
restrições humanamente criadas que dão forma à interação humana. Como consequência e em troca, elas
estruturam incentivos, políticos, sociais ou econômicos.”
[142] Boa parte deste item é material publicado originalmente no meu artigo “Por quê os regulamentadores
regulamentam?”. In: Cadernos de Direito Tributário e Finanças Públicas, Revista dos Tribunais, São Paulo, p.
256-266, 1997. Atualizados para 2020, evidentemente, os conceitos teóricos continuam os mesmos.
[143] Jean TIROLE (with M. Dewatripont) The Prudential Regulation of Banks (MIT Press).
[144] Miguel REALE. Lições preliminares de direito. Ed. Saraiva, 1983
[145] Natalino IRTI. A ordem jurídica do mercado. in: Revista de Direito Mercantil, Industrial, Econômico e
Financeiro. v. 145. ano XLVI, jan-mar 2007, pág. 44
[146] George STIGLER. What can regulators regulate? The case of electricity. in: The Journal of Law &
Economics v. V, p. 1-16, oct. 1962.
[147] Vide a Escola de Public Choice. Cf. The Elgar companion to public choice. Elgar, 1998.
[148] O Estado de S. Paulo, 31 maio 2020.
[149] Do conceito clássico de Karl Loewenstein. Political power and the Governmental Process. Chicago:
University of Chicago, 1957.
[150] Fonte: BCB. Manual da Supervisão. Disponível em:
<https://www3.bcb.gov.br/gmn/visualizacao/listarDocumentosManualPublico.do?
method=listarDocumentosManualPublico&idManual=1>. Acesso em: 23 jun. 2020.
[151] Vide Projeto de Lei Complementar n.º 112, e PL de n.º 200, Rel. Dep. Celso Maldaner (MDB-SC).
[152] Divulgado no final de 2019, vale a consulta ao ensaio Stress testing liquidity risk: the case of the Brazilian
banking system, de Benjamin M. Tabak, Solange M. Guerra, Rodrigo C. Miranda e Sergio Rubens S. de Souza, do
Departamento de Estudos e Pesquisas do Banco Central (Depep) (Working Paper Series 302, disponível em:
<www.bcb.gov.br/pec/wps/ingl/wps302.pdf>. Acesso em: 23 jun. 2020.).
[153] Edward KANE. (1987). Competitive financial reregulation: an international perspective. In: PORTES R.,
SWOBODA A. K. (Ed). Threats to international financial stability. Cambridge: Cambridge University,1987.
[154] Pode-se argumentar que, em determinadas cidades do interior do Estado e em determinados setores (por
exemplo, na construção civil), o meio moeda ainda predomina.
[155] MELLO, João Manoel Pinho de. Prefácio. Pedro EROLES,. (Coord.) Fintechs, bancos digitais e meios de
pagamento. São Paulo: Quartier Latin, 2019. p. 15.
SOBRE O AUTOR

Jairo Saddi é Advogado, árbitro e parecerista em São Paulo. Pós-Doutor pela


Universidade de Oxford. Doutor em Direito Econômico pela Universidade de São
Paulo. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da USP. Administrador de
Empresas pela FGV-SP. Atualmente, é membro do Conselho do NEASF – Núcleo de
Altos Estudos do Sistema Financeiro da Fundação Getulio Vargas – RJ. Membro do
Conselho de Administração do Banco Votorantim S/A e membro do Conselho
Curador da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura). É também Diretor Financeiro
do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) (Gestão 2019-2022).

Foi Conselheiro, Vice-Presidente e Presidente do Conselho de Administração


do FGC – Fundo Garantidor de Créditos (Gestão 2013-2018). Foi Diretor
Financeiro do IASP (Gestão 2012-2015). Foi Professor da Escola de Direito da FGV-
Rio, do Insper e Coordenador Geral dos Cursos de Direito do Ibmec São Paulo. Foi
ainda membro do Conselho Editorial da Editora Revista dos Tribunais e Redator-
Chefe da Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais (Ed RT). Foi
membro da Comissão de Juristas do Senado Federal para a Reforma do Código
Comercial e Vice-Presidente do IBEF – Instituto dos Executivos Financeiros de São
Paulo.

É autor das seguintes obras: O Poder e o Cofre. Repensando o Banco Central.


(1997). Intervenção e Liquidação Extrajudicial no Sistema Financeiro Nacional. 25
Anos da Lei 6.024 (Ed. Textonovo, 1999). Jurisprudência em Matéria de Liquidação
e Intervenção Extrajudicial (com Rodrigo Ferraz de Camargo), (Ed. Textonovo,
2000). Crise e Regulação Bancária. (Ed. Textonovo, 2001). Fusões e Aquisições.
Aspectos Jurídicos e Econômicos. (Ed. IOB, 2002). Direito, Economia & Mercados.
(com Armando Castelar Pinheiro) (Ed. Campus, 2005) e Crédito e Judiciário no
Brasil. Uma análise de Direito e Economia. (Ed. Quartier Latin, 2007). Temas de
Regulação Financeira. (Ed. Quartier Latin, 2010). É colunista mensal do Jornal Valor
Econômico há 20 anos, e autor de vários artigos na imprensa e em revistas
especializadas.

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