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DIMENSÕES EPISTEMOLÓGICAS E METODOLÓGICAS DA PESQUISA

(AUTO)BIOGRÁFICA

CONHECENDO PESQUISAS COM HISTÓRIAS DE VIDA E NARRATIVAS


(AUTO)BIOGRÁFICAS

Kallebe Araújo Mendes


Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão
kallebenacional@hotmail.com
Bolsa de iniciação científica.
Rita Tatiana Cardoso Erbs
Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão
professoraritaerbs@gmail.com

Introdução

O texto caracteriza-se por um relato de experiência, de um bolsista de iniciação


científica e a sua orientadora, a partir de uma pesquisa bibliográfica para a compreensão dos
referenciais teóricos usados nas pesquisas (auto)biográficas, no Brasil.

Para tanto, e já utilizando a própria metodologia de pesquisa (auto)biográfica, sentimos


a necessidade de apresentação dos dois autores e os entrelaçamentos de suas vidas com a
pesquisa, para com essas subjetividades em questão, conseguirmos mostrar uma possibilidade
de como iniciar os estudos e a própria pesquisa (auto)biográfica no meio acadêmico.

Os textos selecionados para o início do estudo serão apresentados e comentados, assim


como a produção de professores e alunos da UFG- Regional Catalão, atualmente em transição
para Universidade Federal de Catalão. Pretendemos trazer a experiência de bolsista em
iniciação científica e a sua relação com a pesquisa (auto)biográfica a partir da professora
orientadora e coordenadora de pesquisa.

Subjetividades envolvidas

Kallebe Araújo Mendes - A existência pode ser metaforicamente descrita como uma
caminhada, ou antes, como um caminhar. No trajeto de vida, Kallebe deparou-se com ideias e

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ideais que atuaram como tangente de seus percursos trilhados. Na infância operava puramente
na lógica da passionalidade, hoje, arriscando dizer mesmo que da práxis. Eram simplesmente
pulsões que quase não colidiam com as restrições da realidade. No entanto, aos poucos foi
percebendo que suas vontades eram muito inferiores ao mundo e que as outras pessoas também
são gente, gente que respira, que aspira, que sonha, que sofre e que ama, gente que vive como
ele próprio. Mas aos poucos reparou que nem para todos as condições materiais de existência
eram como as suas, onde realidade e fantasia se misturavam, e com isso houve um grande
desencanto com o mundo. E foi depois de conhecer, no ensino médio, Karl Marx nas aulas de
sociologia, que viu a relevância da ideia de que mesmo que a existência seja cheia de tristezas,
ela não precisa ser feia, porque a beleza reside na possibilidade de transformação do mundo.
Daí em diante, não teve dúvida alguma de que havia superado o absurdo da existência ao
encontrar um propósito ao qual mirar no horizonte e seguir, à sua maneira criando caminhos,
até aonde suas pernas e pulsões possam levar.

Plantou o futuro em um chão duro, mas muito bem regado pelos autores conhecidos nas
Ciências Sociais e, principalmente, pelas experiências tidas durante a formação discente;
especial destaque para as vertentes antropológicas que concebem as pessoas como dotadas de
idiossincrasias e, justamente por isso, titulares de subjetividades que as caracterizam enquanto
Seres Humanos. De acordo com as contingencias da vida, viu-se indagado à engajar em um
projeto, em 2017 como bolsista PIVIC, sobre um assunto que jamais ouvira falar até então. Se
tratava da pesquisa (auto)biográfica, proposta tal, feita pela professora Rita Erbs. A euforia do
primeiro momento diante algo novo, fora, com efeito, o suficiente para excitar a sua vontade e
marcar um encontro com a respectiva professora. Neste encontro vários livros foram
apresentados, até registramos em foto. Dele já levou um livro: Narrativas de Vida – a pesquisa
e seus métodos, de Daniel Bertaux que foi lido e, agora sim, de fato registrar o projeto da
pesquisa (auto)biográfica em objetivos acadêmicos e pessoais. Alguns meses depois, já em
2018, Kallebe recebeu a oportunidade de prosseguir com a pesquisa como aluno bolsista
financiado pelo CNPq.

Disso em diante, a professora Rita e Kallebe estreitaram laços e começaram a se reunir


com maior frequência. A convite, no dia 26 de março de 2018, fomos ao lançamento do livro

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Dicionário de Educadores e Educadoras em Goiás: Séculos XVIII – XX. Este encontro foi o
primeiro ao qual Kallebe participou e percebeu um dos desdobramentos da pesquisa
(auto)biográfica. Para ele, até então, a pesquisa (auto)biográfica só existia entre ele e a
professora. Foi neste encontro, onde a trajetória discente de inúmeros educadoras e educadores
foram colocados como fonte de conhecimento, que o bolsista de iniciação científica pode
contemplar um pouco melhor a dimensão e importância de se estudar histórias de vida, uma
vez que o caminho pessoal está intimamente imbricado com a profissão e o papel social que se
assume.

A professora Lívia Abrahão do Nascimento (1954-2012), um dos verbetes do Dicionário


citado, foi um ótimo exemplo dessa elucidação. Desde garota, ensinava as crianças de sua
vizinhança matérias que elas tinham dificuldades. Mesmo em situações um pouco precárias,
pois utilizava carvão para ensinar seus colegas, vê-se aí, grande coerência entre suas inclinações
pessoais e sua carreira profissional, como professora. É a partir de narrativas como a de Lívia
que percebemos o valor latente das pesquisas (auto)biográficas, pois histórias de vida também
são meios de propagar conhecimentos. O próprio auditório onde o livro foi lançado foi nomeado
em homenagem a esta professora.

Conquanto, felizmente, houve na UFCat (recentemente emancipada da UFG) outro


espaço aberto a este debate. Houve um café filosófico justamente sobre pesquisa
(auto)biográfica. A professora Rita Tatiana Cardoso Erbs1, juntamente com o professor Wolney
Honório Filho2 apresentaram os pressupostos da pesquisa (auto)biográfica e coordenaram o
debate sobre o tema: História de Vida como pesquisa, formação e reflexão pessoal. Deste café
filosófico, compareceram vários alunos da graduação e dos programas de pós-graduação da
universidade, todos interessados em compreender melhor esta forma de pesquisar e de produzir
conhecimentos, o auditório Congadas da UFCat, estava lotado, com cadeiras extras. A

1
Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Professora da Unidade
Acadêmica Especial - Educação - Universidade Federal de Goiás - Regional Catalão. Integrante do NEPEDUCA
– Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação de Catalão. Email: professoraritaerbs@gmail.com.

2
Doutor em História e Professor da Unidade Acadêmica Especial - Universidade Federal de Goiás - Regional
Catalão, onde atua no Programa de Mestrado em Educação e no Curso de Pedagogia. É líder do NEPEDUCA –
Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação de Catalão. E-mail: whonoriof@gmail.com.

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professora Rita e o professor Wolney, também contaram a sua trajetória e marcaram como um
ponto de união de suas vidas a professora pesquisadora Maria Helena Menna Barreto Abrahão.

Neste café filosófico foi descrito o início das pesquisas com histórias de vida na área da
Educação e da História da Educação, alguns conceitos e formas de trabalhar com esse tipo de
pesquisa foram elucidados. Salientamos: as terminologias utilizadas na pesquisas; o primeiro
Congresso Internacional de Pesquisa (auto)biográfica ocorrido em 2004, organizado pelo
professora Maria Helena Menna Barreto Abrahão; o crescimento de pesquisas nesta área
evidenciada pela continuidade do congresso e pela Associação de Pesquisa (auto)biográfica no
Brasil; e autores que produzem e que influenciam outros pesquisadores: Abrahão (2003), Josso
(2004), Bertaux (2010), Delory-Momberger (2011), Clandinin e Connelly (2011) e Passeggi
(2010).

Rita Tatiana Cardoso Erbs - Rita, é graduada em psicologia, fez o mestrado, o


doutorado e pós-doutorado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Na
graduação foi bolsista de iniciação científica vinculada a Faculdade de Educação com a
professora Dra. Maria Helena Menna Barreto Abrahão, nos anos de 1990 – 1992. Sua
introdução na pesquisa foi sobre trabalho não-formal e processos educativos de trabalhadores
de uma feira de artesanato e antiguidades no Parque da Redenção em Porto Alegre, o “Brique
da Redenção”. O trabalho como bolsista de iniciação científica proporcionou, na prática, a
perceber e a compreender as construções do ser humano, as suas conquistas e derrotas, perdas
e sucessos, pois segundo a professora Maria Helena Abrahão, esta pesquisa inaugurou uma
forma diferente de fazer pesquisa, antes quantitativa e agora totalmente qualitativa. No texto
Educação e trabalho: pesquisando com histórias de vida – 1988 a 1997 de Abrahão (2007), a
pesquisa citada é apresentada e marcada como o início do trabalho com histórias de vida a partir
das histórias cedidas por entrevistas, fotos, observações, filmagens e documentos. Esta
pesquisa, e principalmente o seu relacionamento com a professora Maria Helena, marcou e
transformou a história de vida de Rita, que há quase trinta anos atrás não podia imaginar que
seria professora de uma universidade federal, seguiria trabalhando com histórias de vidas e
pesquisa (auto)biográfica e tão pouco poderia estar retribuindo com a formação de novos
pesquisadores.

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O caminho de descoberta de referenciais

A pesquisa a qual nos propomos fazer caracteriza-se por uma perspectiva qualitativa e
interdisciplinar com fundamentos práticos e teóricos alicerçados em uma metodologia de
análise um tanto quanto abrangente, vinculando áreas como a da pedagogia, psicologia,
antropologia e história da educação, a fim de elaborar questões epistemo-empíricas. Para um
estudante de Ciências Sociais, Kallebe, e uma pesquisadora, Rita Erbs, não é possível conceber
as pessoas nos moldes do behaviorismo onde, estas sejam moldáveis apenas, por
condicionamentos. Para Skinner, em seu clássico livro: A ciência e comportamento humano de
1951, os seres humanos são condicionados e condicionáveis o tempo todo, mas para outros,
como o humanista, Carl Rogers (1977), temos um potencial para o desenvolvimento de acordo
com nossas motivações e intenções, podemos escolher e ultrapassar os condicionamentos
impostos. Logo, a epistemologia aqui proposta é, antes de tudo, a atenção com as idiossincrasias
das pessoas. A experiência vai moldando a consciência, de fato, no entanto, não somos seres
determinados que respondem mecanicamente aos afetos do mundo. Já aproveitando este termo,
afeto, mas agora na acepção mais humana da palavra, que se remete ao plano das sensibilidades,
faz-se necessário evocar Henry Wallon (1979), para dizer que as passionalidades humanas
também estão inseridas nessa somatória comportamental. Segundo o autor, são duas as
dimensões básicas que constituem a personalidade das pessoas: afetividade e intelecto. A
primeira é o elo entre a vida interna de cada um com o mundo captado pelos sentidos, isto é, o
aspecto social. Ao passo que o intelecto codifica os encontros dos sentidos com o mundo
exterior. A afetividade representa a primeira manifestação da psique humana, e impulsiona o
desenvolvimento cognitivo ao instaurar vínculos imediatos com o meio social. Em outras
palavras, Wallon (1973), (1995) defende que afetividade, que é emoção, sentimento e paixão,
não se desvincula da razão humana, pois um não existe sem o outro, já que as decisões do
cotidiano são influenciadas pelo estado afetivo das pessoas.

Os posicionamentos e discursos diante a vida e a sociedade passam sempre pelo crivo


do afeto, que são formados de maneira dialética com a práxis. A primeira, ideia vinda mesmo
desde a antiguidade clássica, onde o conceito se constitui pelo conflito de ideias em busca da
verdade, metamorfoseando-se em relações concretas através do marxismo. E a segunda ideia,

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a práxis, para Netto (2006) faz o homem voltar-se sobre si mesmo, isto é, estabelece relações
sujeito-sujeito e torna-se agente ativo da criação de seus próprios valores e sociabilidade. Para
ele, assim se articulam, a titulo de exemplo, a educação e a política, que são por excelência
âmbitos totalmente permeados pelas relações sociais que, dentre outras causas, se constituem
através dos discursos.

Com isso, insistimos em dizer que as pessoas se relacionam através da expressividade,


oral, escrita e a partir de suas atitudes que desvelam a sua subjetividade, já que todos estamos
suscetíveis a falhas de memória ou mesmo termos lembranças de coisas que nem aconteceram;
mas como acreditamos que tudo o que lembramos é verossímil, tomamos em nossas mãos essas
recordações e assim as narramos, seja em um memorial ou em um diário. E é importante
ressaltarmos como entendemos a subjetividade, a subjetividade da qual falamos, não é um
produto isolado que aflora do humano independente de suas condições objetivas, espaço,
tempo, condições sociais e financeiras. É justamente como coloca Bock (2015)

Falar da subjetividade humana é falar da objetividade em que vivem


os homens, A compreensão do “mundo interno” exige a compreensão do
“mundo externo”, pois são dois aspectos de um mesmo movimento, de um
processo no qual o homem atua e constrói/modifica o mundo e este, por sua
vez, propicia os elementos para a constituição psicológica do homem. (BOCK,
2015, pág.30)

A partir dos pressupostos que buscam ultrapassar as dualidades de interno/externo,


pessoal/profissional, privado/público, nos lançamos a pesquisar com as histórias de vida, pois
pesquisador e narrador coemergem em uma narrativa de vida, unidos por um projeto, por uma
intenção investigativa. Objetividades (fotos, certificados, diplomas, registros cronológicos) e
subjetividades (memórias, sensações, percepções) irão se cruzar e produzir a pesquisa.

O pesquisador devidamente preparado, deve compreender que está operando em uma


economia humana, com isso, não há dados objetivos, e sim subjetividades multiformes que
oscilam de acordo com a relação estabelecida entre pesquisador e entrevistado. Conquanto,
através de cruzamentos de relatos, torna-se possível certas generalizações. Em defesa dessa
ideia evoco a micro-história, que tem como proposta metodológica a compreensão de algum
contexto histórico através da análise de vida de pessoas que foram contemporâneas do mesmo.
A Pesquisa (Auto)Biográfica é um elo íntimo entre as pessoas e seus respectivos contextos

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sociais, pois ao narrarem sua própria vida, estão a formar suas identidades, que se plasmam
através das redes de significado socialmente naturalizadas. Se propor a utilizar este método de
pesquisa é, ao menos em perspectiva individual, lançar-se à compreensão de como se opera
determinado campo social. A pesquisa estabelece vínculos entre o investigador e os
investigados, pois aqueles ouvem a história de vida destes, e com isso, entram em contato com
uma esfera existencial íntima. Assim sendo, fica claro que a Pesquisa (Auto)Biográfica faz parte
da formação humana, porque o seu próprio método permite esse intercâmbio de subjetividades,
que é a própria essência do construto social das identidades.

A primeira referência de Kallebe no estudo de pesquisa (auto)biografica como


orientando da professora Rita, foi Narrativas de Vida – a pesquisa e seus métodos, de Daniel
Bertaux. A partir deste referencial teórico abstraimos que reconhecer as narrativas de vida
enriquece o estudo empírico, pois os próprios agentes sociais podem nos explicar, sempre em
função de seu próprio olhar, características do objeto social que se pretende estudar, pois a partir
das narrativas é possível identificar certas lógicas através do cruzamento de dados. Como o
próprio autor nos lembra: As lógicas que regem o conjunto de um mundo social ou microcosmos
operam igualmente em cada um dos microcomos que o compõem. (BERTAUX, 2010, p 26).

A premissa (auto)biográfica está antes voltada para a formulação de hipóteses, a partir


da práxis, do que ir à campo já com teorias formuladas. O nosso objeto de estudos trata-se de
subjetividade, logo, não há fórmulas plausíveis, prontas, pré-concebidas. A nossa pesquisa se
forma a partir da experiência do contato entre o narrador e o investigador. Qualquer que seja a
pretensão de criar hipóteses à distância, é, sem dúvidas, tentativa caduca.

O pesquisador verdadeiramente envolvido pela axiologia (auto)biográfica entende que


as pessoas são suscetíveis de fantasiarem e confundirem real com imaginário mas, sabe bem,
que todos os discursos, independentemente do grau de verossimilhança, possui consequências
reais, pois as pessoas assim o acreditam, e é com essa realidade que o investigador deve
conseguir lidar. Outro ponto seminal é o de saber que toda história de vida está imbricada com
contextos sociais, pois as pessoas não estão imersas em um limbo existencial onde a somatória
de suas individualidades não equaciona a sociedade. Nosso objetivo não é compreender
exclusivamente as pessoas, mas sim, a partir de um recorte social, tentar abstrair uma

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interpretação subjacente à interpretação que a própria pessoa dê à sua existência. O próprio
Bertaux (2010) elenca a suma importância desde tipo de análise, ao dizer que deixando o sujeito
falar sua experiência pessoal teremos a chance de descobrir o que essa experiência revela das
relações sociais no seio das quais ela se inscreve”(BERTAUX, 2010, p.68). Todavia, nossa
pretensão não é a de tentar compreender a totalidade, seja da vida da pessoa entrevistada ou o
contexto social ao qual ela está inserida, pois os recortes são fundamentais a fim de que uma
pesquisa dê conta de sua intencionalidade e de seus pressupostos teóricos.

Um dos métodos que pode ser empregado na pesquisa é o de fazer mais de um contato
com as pessoas investigadas. Longe de aderirmos a proposição Iluminista de esclarecimento,
aqui partimos da concepção de que as pessoas são ebulição de sentimentos e racionalidades.
Assim sendo, ao se realizar mais de um encontro entre pesquisador e investigados,
respectivamente, haverão relatos com características diferentes, mesmo que sejam de uma
mesma pessoa e, sem dúvidas, a tendência, entre as discrepâncias entre os relatos, é de aumentar
conforme aumente o tempo que separa uma entrevista e outra, pois, assim como o entrevistado
estará sob influencia de afetos diferentes dos da primeira entrevista, o pesquisador também
estará. A pesquisa (auto)biográfica valoriza a dinâmica humana quando concebe ambos os
lados, pesquisador e pesquisado, como seres passiveis de metamorfose.

Nosso diagnostico é o de que vale à pena dizer que a pesquisa de campo deve ser feita
de maneira mais dinâmica possível. Isto é, o pesquisador deve organizar o seu material coletado
praticamente de maneira concomitante ao término da coleta dos dados, pois a análise e a escrita
devem avançar paralelamente ao trabalho de campo. São trabalhos complementares de um
mesmo método.

O legado dos CIPAs (Congresso Internacional de Pesquisa (auto)biográfica)

Partimos do pressuposto que a experiência individual, isto é, que a subjetividade traz


consigo um discurso de verdade, é em substância conhecimento. A nossa busca com o projeto
Dimensões Epistemológicas e Metodológicas da Pesquisa (Auto)Biográfica: conhecendo
pesquisas com histórias de vida e narrativas (auto)biográficas, consiste, a partir de
fundamentações teóricas da linha de pensamento de Maria Helena Menna Barreto Abrahão e

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afins, elaborar a proposição de que cada pessoa é autora de sua própria narrativa, concebendo
que cada narrativa já é uma narrativa da vida da pessoa. Em outros termos, cada pessoa
escolherá o que revelar e ocultar, seja em uma entrevista, em um memorial ou mesmo em
qualquer outra forma de se realizar testemunhos, lê-se narrativas, sobre sua vida. Com isso, o
discurso torna-se relato, e através da pesquisa biográfica esse relato é mais uma vez narrado. A
nossa proposta, é menos dar voz a qualquer que seja a pessoa, e mais o reconhecimento de que
todos são os porta-voz de si mesmos. Diferentemente da etnografia que, por vezes, antropólogos
fazem a fim de “explicarem uma cultura alheia”, nós pretendemos que o discurso relatado seja
feito em primeira mão pelo próprio narrador, afinal, ninguém pode dar a alguém o que já lhe
pertence.

Por ser uma prática recente no campo científico, ainda há muitos espaços a serem
conquistados. A título de exemplo desses enfrentamentos e conquistas, o CIPA - Congresso
Internacional de Pesquisa (Auto)Biográfica – realizado pela primeira vez em 2004 na cidade de
Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul. A Revista Brasileira de Pesquisa
(Auto)Biográfica (2017), nos mostra que depois do I CIPA a produção de trabalhos, teses,
artigos e afins sobre as pesquisas (auto)biográficas aumentou vertiginosamente. Não só no
Brasil, por se tratar de um congresso internacional, através dos CIPAs vem se evidenciando o
interesse pelo assunto. A tendência, com o passar do tempo, é a de que nossa epistemologia se
arraigue no imaginário científico como uma metodologia reconhecida e coesa. Os demais
CIPAs servem de sustentação dessa premissa, pois desde 2004, a cada dois anos é realizado em
um estado brasileiro o congresso internacional.

Podemos dizer que está evidente a potencialidade da pesquisa (auto)biográfica na


formação humana. Já que nossa proposta teórica só se realiza com a sua prática, evocamos
nossas próprias narrativas a fim de galgar uma exemplificação de sua relevância. Sem o menor
sensacionalismo, constatamos que a pessoa que hoje somos, muito se deve ao fato de valorizar
e tentar entender as narrativas de vida, sejam elas nossas ou de outros. A experiência que o
engajamento com a Pesquisa (Auto)Biográfica nos faz superar nossos próprios limites em
função de uma nova compreensão do que, de fato, significa ouvir o Outro.

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Considerações finais

Esta pesquisa de cunho bibliográfico vincula-se ao projeto: Os outros na narrativa: Uma


proposta de análise para os materiais coletados nas pesquisas com histórias de vida e narrativas
(auto)biográficas. O primeiro passo para que o pesquisador inicie a sua formação é a
possibilidade de estar imerso em um grupo de pesquisadores com interesses afins, o Programa
de Pós-graduação em Educação – Mestrado em Educação da UFG – Regional Catalão possui a
linha de pesquisa Políticas Educacionais, História da Educação e Pesquisa (Auto)Biográfica e esta
linha vem produzindo dissertações e proporcionando debates e trocas de experiências entre
pesquisadores desde a sua primeira turma em 2011, a utilização do referencial teórico e metodológico
da Pesquisa (Auto)biográfica é constante desafio dos professores da linha e dos alunos do mestrado,
sendo, a partir, das bolsas de iniciação a pesquisa o desafio, também, na formação de alunos da
graduação de diferentes licenciaturas.

Com um grupo de cinco professores3 a linha também precisou assumir escolhas, quando o
mestrado iniciou em 2011, a linha denominava-se História e Culturas Educacionais, em 2016 a linha
passa a ser Políticas Educacionais, História da Educação e Pesquisa (Auto)Biográfica, esta mudança
refletiu o interesse de professores e alunos em pesquisar e construir conhecimento na área da Educação
e da História da Educação utilizando as histórias de vida não só como fontes, mas como Pesquisa
(Auto)biográfica. Desta forma os pesquisadores envolvidos neste programa ou em outros precisam cada
vez mais de referenciais que fundamentem e apoiem as suas escolhas.

Quando iniciamos a busca bibliográfica sobre Pesquisa (Auto)Biográfica, não


imaginávamos o caminho que acabaríamos percorrendo e os autores que acabaríamos
entrelaçando. Teoricamente sabíamos da proposta interdisciplinar da pesquisa e da necessidade
de cruzamento de áreas para a análise das narrativas, mas com o surgimento de conceitos e
ideias fomos buscando fundamentações, nas áreas da psicologia, sociologia, história, para além
dos textos sobre a Pesquisa Narrativa ou Pesquisa (Auto)Biográfica.

Ao lermos os trabalhos, artigos ou capítulos de livros produzidos para elucidar como


fazer e o que fazer com as histórias de vida coletadas ou produzidas a partir de pesquisas,

3
Aparecida Maria Almeida Barros; Fernanda Barros; Juliana Pereira de Araújo Barrado; Rita Tatiana Cardoso
Erbs; Wolney Honório Filho

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percebemos que o entrelaçamento entre as áreas é frequente e podemos até afirmar que
intrínseco a esta forma de pesquisar, pois como compreender a complexidade humana, senão
pelo cruzamento de diversas áreas do conhecimento? Nos arriscamos a afirmar que a pesquisa
se dá, do e com o humano (pesquisador), para e com o humano (narrador) e com esse material
é que temos a possibilidade de construção de um novo conhecimento. Este, por sua vez, parte
do próprio sujeito investigado, que é autor de si, e flui, através do cruzamento de dados, ao
investigador.

Para aqueles que querem se aventurar neste tipo de pesquisa, pensamos inicialmente,
que teríamos um caminho, como por exemplo: indicações de leituras que elucidariam o que é,
como se faz e em quais áreas se aplicam a Pesquisa (Auto)Biográfica, mas terminamos este
texto com muitos caminhos e possibilidades. No nosso caso, iniciamos por Bertaux (2010), com
Abrahão (2003), (2007) e seguimos por outros autores que participaram dos CIPAs, desta forma
podemos referendar os congressos como grandes balizadores da nossa pesquisa, mas também
temos que incluir Josso (2004) que fundamenta a nossa forma de escrever esse artigo e de
contarmos a nossa história, pois na pesquisa é fundamental que o pesquisador também desbrave
as suas narrativas, as suas histórias e se coloque também a disposição da pesquisa. Portanto
temos a tranquilidade de indicarmos a leitura de si, onde cada pesquisador vai mergulhar no seu
projeto de vida e formação, na sua intenção de pesquisa e poderá tornar-se sensível a si e ao
outro.

Referências

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