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DIMENSÕES EPISTEMOLÓGICAS E METODOLÓGICAS DA PESQUISA

(AUTO)BIOGRÁFICA

REFLEXÕES METODOLÓGICAS PARA A PESQUISA COM HISTÓRIAS DE VIDA


E NARRATIVA (AUTO)BIOGRÁFICA

Rita Tatiana Cardoso Erbs


Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão- UFG/RC
Professora ritaerbs@gmail.com
Olma Karoline Cruz de Medeiros
Universidade Federal de Uberlândia – UFU
olma.medeiros@gmail.com

Introdução

A pesquisa científica tem por uma de suas diretrizes uma metodologia a ser seguida,
que é usada como referência para elaboração de trabalhos científicos, sendo constituída por
um conjunto de técnicas e processos para o desenvolvimento de um estudo com um fim
determinado. Entre as diversas metodologias disponíveis, destacamos as pesquisas com
história de vida e narrativa (auto)biográfica, caracterizadas como uma metodologia qualitativa
que tem por objetivo recontar uma experiência sobre determinada situação dentro de um
espaço/ tempo e contextos específicos. “As pesquisas qualitativas tornaram -se, em diversos
países, a abordagem preferencial dos pesquisadores da área de Educação, tendo em vista o
olhar sobre fenômenos eminentemente humanos e situados em contexto. ” (BARREIRO;
ERBS, 2016, p. 67).
A narrativa compreende uma visão e descreve situações, acontecimentos, reflexões,
sendo assim bem abrangente, sendo um adequado instrumento de estudo para trabalhos na
área da educação. Maurice Tardif (2010) desenvolve trabalhos relacionados à profissão
docente com ênfase nos saberes sobre o trabalho e a formação dos professores. Segundo suas
pesquisas o saber dos professores é adquirido no contexto de uma história de vida e de uma

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carreira profissional, se compondo de vários saberes como os disciplinares, curriculares,
profissionais e experienciais.

Os saberes experienciais estão enraizados no seguinte fato mais amplo: o ensino se


desenvolve num contexto de múltiplas interações que representam condicionantes
diversos para a atuação do professor. Esses condicionantes não são problemas
abstratos como aqueles encontrados pelo cientista, nem problemas técnicos, como
aqueles com os quais se deparam os técnicos e tecnólogos. O cientista e o técnico
trabalham a partir de modelos e seus condicionantes resultam da aplicação ou da
elaboração desses modelos. Com o docente é diferente. No exercício do cotidiano de
sua função, os condicionantes aparecem relacionados a situações concretas que não
são passíveis de definições acabadas e que exigem improvisação e habilidades
pessoais bem como a capacidade de enfrentar situações mais ou menos transitórias e
variáveis. (TARDIF, 2010, p. 49).

Os saberes experienciais são desenvolvidos associados a outros saberes que são


incorporados a prática profissional, através de uma retradução que os professores vão
realizando e adaptando a sua formação, eliminado o que é considerado inútil, filtrando e
selecionando saberes para serem validados na prática cotidiana. Os professores são então
fontes de experiência e material para as pesquisas qualitativas. De acordo com Clandinin e
Connelly (2015), a pesquisa narrativa, tem como ponto inicial a experiência contada,
entrelaçada a teoria que determinam escolhas metodológicas, que envolvem uma variedade de
métodos e que se constroem dentro do desenvolvimento do trabalho de pesquisa. Como
consequência, a pesquisa narrativa envolve a reconstrução da experiência pessoal, das
relações estabelecidas e o contexto social em que ocorrem.

Pesquisa narrativa é uma forma de compreender a experiência. É um tipo de


colaboração entre pesquisador e participantes, ao longo de um tempo, em um lugar
ou série de lugares, e em interação como meio. (CLANDININ E CONNELLY,
2015, p.51).

Rotineiramente a narrativa é utilizada para relatar ações envolvendo um acontecimento


a ser contado, academicamente diz respeito a uma estrutura, seu conhecimento e a capacidade
necessária para a construção de uma história, sendo essas caraterizadas por um argumento
envolvendo personagens, um princípio, meio e fim seguindo uma sequência organizada de
acontecimentos. A narrativa considera também as razões que levam o narrador a contar essa
história e o tipo de público a que se destina. “As histórias proporcionam imagens, mitos e

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metáforas moralmente ressonantes que contribuem para o nosso desenvolvimento como seres
humanos” (REIS, 2008, p. 19). No entanto, compreendendo que há incertezas metodológicas
na pesquisa com histórias de vida e narrativas (auto)biográficas e com intuito investigativo
tivemos por objetivo pesquisar autores que fundamentam metodologicamente essa área e para
além destas propostas, visualizamos a possibilidade de ampliar e construir uma
direcionamento metodológico particular respeitando as especificidades da pesquisa.

1. A pesquisa Narrativa

A preocupação inicial do pesquisador é fazer uma história de vida transformar-se em


uma pesquisa, pois uma narrativa ou uma história de vida por si só, não é uma pesquisa
narrativa ou uma pesquisa (auto)biográfica. Para ocorrer esta transformação o pesquisador
deverá estar munido de uma intenção de pesquisa que necessitará de histórias de vida ou
narrativas que o auxiliarão a responder os questionamentos propostos na sua pesquisa. A
partir da intenção de pesquisa e da metodologia proposta para o estudo é que podemos
identificar se estamos trabalhando com pesquisa narrativa ou pesquisa (auto)biográfica. Por
exemplo, se alguém quiser pesquisar sobre o início da carreira de professores de biologia de
um determinado estado do Brasil e recorrer somente aos registros oficiais presentes nas
escolas, nas secretarias de educação, na folha de pagamento do estado, no índice de egressos
do curso de biologia em comparação com os colocados no mercado de trabalho, todas essas
situações poderão ser pesquisas tanto quantitativas, como qualitativas, mas não serão
pesquisas narrativas ou pesquisas (auto)biográficas. Porém, se o pesquisador quiser pesquisar
sobre o início da carreira de professores de biologia de um determinado estado do Brasil e
estiver disposto a compreender isto a partir das narrativas (memoriais, histórias de vida,
narrativas de professores...), assim está trabalhando com as possibilidades da pesquisa
narrativa ou pesquisa (auto)biográfica, o que não o impede de também recorrer aos registros
oficiais, mas o seu foco principal são as narrativas produzidas antes e durante a pesquisa.

Com o intuito de clarificar a compreensão sobre a narrativa, Abrahão (2016)


exemplifica essa metodologia com um esquema que buscar dar concretude a esse processo de
pesquisa.

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Figura 1: Compreensão cênica da metodologia da pesquisa narrativa (ABRAHÃO, 2006, p.43).

De acordo com a figura 1, o contexto ocorre dentro de um espaço/tempo que sofre


influências e modificações do meio externo. A cena 1, representa as relações
narrador/ouvintes na situação e contexto de estudo escolhida. A cena 2, refere-se a interações,
interpretações, registros das situações, sentimentos e momentos que ocorrem durante a
pesquisa. Já a cena 3, são os fatos e acontecimentos que não ocorreram mediados pela
situação limitante. Diante dessas considerações, faz oportuno destacar detalhes subjetivos
também presentes na pesquisa narrativa como as subjetividades em relação às intenções,
escolhas, preparação dos encontros, sentimentos, emoções, pensamentos e análises que
surgem durante toda a pesquisa. Segundo Clandinin e Connelly (2015) a pesquisa narrativa se
caracteriza por ser de natureza introspectiva, porque se relaciona às condições internas, tais
como sentimentos, esperanças, reações estéticas e disposições morais, historiada em vários
níveis. Recontar a história permitindo que ocorram desenvolvimento e mudanças, refletindo
entre o vivido e o contado assim, revivendo e recontando a experiência.

Para que a natureza introspectiva descrita por Clandinin e Connelly (2015) não caia
em um equívoco interpretativo em relação à Pesquisa Narrativa é importante salientar que os
autores tomam como referência o conceito de experiência de Dewey (1934) (1938), definem a
sua concepção de pesquisa narrativa:

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[...] nossos termos são pessoal e social (interação); passado, presente e futuro
(continuidade); combinados à noção de lugar (situação). Este conjunto de termos
cria um espaço tridimensional para a investigação narrativa, com a temporalidade ao
longo da primeira dimensão, o pessoal e social ao longo da segunda dimensão e o
lugar ao longo da terceira. (CLANDININ;CONNELLY, 2015, p. 85).

Cabe salientar que estamos elucidando os aspectos da pesquisa narrativa e não só da


narrativa em si, pois somente a narrativa não vai ser a pesquisa, para tanto é que tivemos a
intenção de elaboração deste texto para nossa formação como pesquisadores, convém lembrar
que a narrativa em si pode ser o nosso objeto de estudo e para tanto autores que elucidaram as
características das narrativas são fundamentais para a construção a formação do pesquisador,
mas para alcançar o nosso objetivo precisamos ir além da narrativa para que esta possa ser
parte de uma pesquisa.

A narração pode se caracterizar segundo Marcolino e Mizukami (2008) como


descritiva ou reflexiva. Na narração descritiva o registro dos eventos não são justificados, a
narração se detêm na descrição da situação do seu contexto e ações do personagens sem
justificativas explícitas. A narrativa do tipo reflexiva, procura oferecer justificativas para as
ações baseadas em referências da literatura e no julgamento pessoal. É uma tentativa de
reflexão, mas de modo descritivo, reconhecendo pontos de vista centrados na perspectiva
pessoal e no reconhecimento de demais fatores, trazendo de forma indireta uma reflexão sobre
o fazer profissional. As contribuições de Schön (2000) apontam dessa direção de investigação
da prática profissional, na qual os conhecimentos cotidianos são implícitos e para serem
conhecidos devem se tornar explícitos para assim serem avaliados. Segundo Marcolino e
Mizukami (2008), o profissional realiza uma reflexão sobre a ação, no qual poderá desvendar
suas crenças e valores pessoais e se os mesmos coincidem com seus significados partindo de
suas reflexões.

Clandinin e Connelly (2015) nos apontam a “virada para a narrativa” e isto nos leva a
fatores pessoais de pesquisador, como compreendemos a vida? Como compreendemos o ser
humano? Como queremos pesquisar e construir conhecimento?

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Devemos dizer que entendemos o mundo de forma narrativa, como fazemos, então faz
sentido estudá-lo de forma narrativa. Para nós, a vida – como ela é para nós e para os
outros – é preenchida de fragmentos narrativos, decretados em momentos históricos
de tempo e espaço, e refletidos e entendidos em termos de unidades narrativas e
descontinuidades. (CLANDININ e CONNELLY, 2015, p. 48).

A virada para a narrativa é um movimento pessoal e social/científico, pois nós


pesquisadores também estamos inseridos em possibilidades do nosso tempo/espaço, e o
pesquisador necessitará assumir isto e defender o seu posicionamento, como em qualquer
outra escolha que faça, sempre haverá tensões e críticas, pois cada pesquisador opta pela sua
possibilidade de pesquisa dentre as do seu espaço/tempo.

2. A concepção de narrativa de vida – como pesquisa

A concepção de narrativa de vida, segundo Bertaux (2010), ocorre a partir do


momento em que se decide contar a outra pessoa um episódio ou experiência vivida, sendo
necessário delimitar os personagens, descrever os contextos e ações, realizar descrições,
explicações e avaliações construindo desta forma um significado orientado pela intenção do
pesquisador que registra. Como consequência a narrativa de vida possui três fases:
exploratória, analítica e expressiva. A fase exploratória inicia-se conhecendo o ambiente,
detectando fenômenos e orientando os testemunhos, para em seguida passar a fase analítica,
onde os dados são analisados e refletidos para finalmente serem transmitidos na fase
expressiva, quando a narrativa de vida se concretiza como pesquisa com a função de
comunicação. Ainda discorrendo sobre a metodologia empregada, a concepção de pesquisa
qualitativa se apoia no abandono da neutralidade e na junção entre sujeito e objeto de
pesquisa, dando ênfase ao significado e atenção das atribuições que as pessoas dão aos
acontecimentos de forma espontânea e natural.

A pesquisa qualitativa é descrita como um tipo de pesquisa que envolve uma


variedade de métodos, embasando-se numa interpretação naturalística. Assim, os
pesquisadores qualitativos estudam coisas em seu ambiente natural, buscando o
sentido ou a interpretação dos fenômenos a partir do significado que as pessoas lhe
atribuem. (BARREIRO; ERBS, 2016, p.69).

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Quando aderimos a metodologia proposta por Bertaux (2010) temos um caminho a
percorrer em cada uma das fases, é importante de que o pesquisador explore em profundidade
cada uma delas. A fase da exploração é de suma importância para o avanço e a posterior
análise dos dados coletados, pois para Bertaux (2010) é nesta fase que o pesquisador vai
levantar o maior número de dados possíveis sobre o contexto dos sujeitos ou instituições.
Percebemos que muitas pesquisas nesta área estão ligadas as instituições de ensino e o
pesquisador pode cair no equívoco de só explorar a instituição em si, no seu presente. É
fundamental na fase exploratória evidenciar um histórico, político e social tanto dos sujeitos
como das instituições em que se inserem, muitas vezes essa exploração pode levar o
pesquisador a políticas educacionais, planejamentos de cidades, crises econômicas regionais,
enfim uma série de dados que inicialmente eram totalmente desconhecidos na pesquisa. Além
de aprofundar na fase exploratória o pesquisador precisa cuidar para que essa exploração não
turve a real intenção da pesquisa, ou seja, fazer com o contexto acabe tomando conta da
pesquisa e não o objetivo inicial, a fase de exploração é o “grande caldo” em que o
ingrediente principal está imerso, mas o objetivo não é estudar o “caldo”, mas sim perceber as
relações que se estabelecem.
A fase analítica é a que percebemos os maiores temores dos pesquisadores, pois nesta
fase a bagagem teórica do pesquisador para compreender o que foi explorado vem à tona, pois
além de escolher uma forma de analisar precisará alicerçar suas compreensões a partir de um
referencial teórico específico que abrace as especificidades do seu objeto de pesquisa e
permita ir além, ou seja, mostrar a provisoriedade incerta das compreensões. Estamos tratando
de uma das possibilidades, uma das evidências, balizadas pela incompletude do próprio
humano. Segundo Bertaux (2010) esta fase é a fase de formação do pesquisador e, o próprio
autor enfatiza e existência de pelo menos dois sentidos para a palavra, formação.

Trata-se primeiramente, da formação para a coleta de entrevistas em si: escutando a


si mesmo novamente, o pesquisador tomará consciência de seus erros. Mas se trata
também de “formação” como desenvolvimento progressivo, no espírito do
pesquisador, de uma representação “daquilo que se passa realmente” no interior do
objeto social estudado. (BERTAUX, 2010, p. 68).

É importante salientar que a fase analítica perpassa todo o tempo da pesquisa, é


reflexiva e progressiva, pelo que podemos entender, pois prevê retomadas, escutar de novo,

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ler de novo, registrar de novo para avançar, este movimento será cíclico e contínuo, até o final
da pesquisa. Para Bertaux (2010) é nesta fase que “o pesquisador irá dispor de uma
representação mental – evidentemente muito imperfeita – dos mecanismos de funcionamentos
(inner working) de seu objeto de estudo. (BERTAUX, 2010, p.68)
Para a nossa compreensão esta fase também vai aumentar o potencial reflexivo do
pesquisador, pois ele também vai conhecer os impactos que o seu objeto de estudo gera nele,
o quanto esse objeto faz brotar sentimentos, como: raiva, indignação, empolgação, euforia,
paixão, enfim várias sensações irão emergir, a partir das entrevistas, observações, diário de
campo, documentos, fotos, memoriais e seguirão surgindo até o final da pesquisa e essas
sensações são de fundamental importância para a formação do pesquisador, tanto para a coleta
de novas entrevistas e novos materiais, quanto para a construção progressiva de uma
representação mental do que está sendo estudado e sentido.

É por isto que se deve começar a análise desde o início da pesquisa de campo. É
também por isto que o pesquisador deve prestar a máxima atenção a tudo que o
surpreenda, que o incomode, até mesmo ao que o choque: essas reações espontâneas
constituem sinais de que o real não corresponde àquilo que ele imaginava.
(BERTAUX, 2010, p. 69).

Para Bertaux (2010) é importe que o pesquisador não descuide do que desestabiliza as
suas representações, pois esta será a chave para a ruptura com o senso comum e só desta
forma poderá realmente trazer à tona algo novo. E na fase da expressiva o autor ressalta um
perigo: a vontade do pesquisador de publicação integral das narrativas, esta sensação é
comum entre os pesquisadores de histórias de vida, é como se a história de vida narrada pela
pessoa tomasse uma importância sagrada, se alguém diz, merece respeito, merece ser
comunicada e em relação a isto Bertaux (2010) é muito claro: “Ao se publicar uma narrativa
de vida in extenso, preenche-se não a função de pesquisa, mas uma função de comunicação. ”
(BERTAUX, 2010, p. 69). Para cumprir a função de pesquisa o pesquisador necessita lançar-
se a exposição: exposição do seu pensar, das suas atitudes, do seu referencial e da sua própria
experiência com a pesquisa e com o seu objeto, além das suas próprias transformações neste
processo.

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3. A metodologia com história de vida e narrativa (auto)biográfica

Barreiro e Erbs (2016) apontam a relevância de se discutir conceitos e necessidades de


uma metodologia, destacando que os trabalhos com histórias de vida vêm se desenvolvendo
em diferentes contextos, com trabalhos atentos a esclarecer e utilizar conceitos e
nomenclaturas com referencial teórico específico, mas que apresentam uma lacuna
metodológica, principalmente referente a análise dados. Percebe-se ainda uma certa
negligência em relação ao material coletado, que serve apenas como registro de fatos, não se
aprofundando na sua análise, sem aproveitar a riqueza das subjetividades que se manifestam
com um olhar mais detalhado de fotos, cartas e narrativas.

[...] o aumento de pesquisadores e da produção permitiu evidenciar que é necessário


ter alguns parâmetros para que, no momento de encaminhar a pesquisa, possamos
ficar atentos às possibilidades de avanços na construção do conhecimento nesta área.
(BARREIRO; ERBS, 2016, p.75).

Em consideração com estudos realizados foi possível construir um direcionamento


para o uso da metodologia com histórias de vida e narrativa (auto) biográfica. Devem ser
determinados inicialmente: (1) espaço /tempo, (2) situação e contexto e as (3) formas de
registro. Os registros podem ser por diário de bordo, entrevistas orais, escritas, questionários e
outros, essa parte caracteriza-se como a fase exploratória da pesquisa na qual análise do
contexto em que ocorrerá define o seu trajeto metodológico. Em seguida, Bertaux (2010)
aponta para a fase analítica onde se explicitam as (4) relações narrador/ouvintes, (5)
interações e interpretações. Com a descrição das relações, os contextos, julgamentos os
significados da narrativa vão se construindo e delimitando para finalmente se alcançar a fase
expressiva na qual o pesquisador tem a oportunidade de levar a público a sua pesquisa com a
(6) escrita e comunicação/expressão.

Os materiais utilizados na entrevista também precisam ganhar evidência, pois


percebe-se que, para a coleta de dados, múltiplas formas de materiais são
desenvolvidas para esse momento: questionários abertos, fechados, roteiros
semiestruturados, solicitações de escritas autobiográficas – antes ou depois das
entrevistas-, enfim vários recursos auxiliam o pesquisador no momento da mediação
com o narrador. (BARREIRO; ERBS, 2016, p.76).

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Sendo pelas autoras de fundamental importância que as narrativas coletadas possam
ultrapassar a descrição individual e temporal, constituindo uma metanarrativa no tempo e
espaço visando afetar um grupo da sociedade. Outras preocupações que são enfrentadas na
pesquisa narrativa são questões sobre ética, anonimato, fatos/ficção, propriedade da pesquisa
e riscos. As questões éticas dizem respeito a estabelecer os limites entre os pesquisadores e
pesquisados, pois segundo as regras institucionais os participantes de uma pesquisa narrativa
devem primeiro ter o aval do comitê de ética, no entanto começar uma pesquisa trazendo
formulários e pedidos de assinaturas é um início contraditório dentro da pesquisa narrativa
pois deve-se considerar os relacionamentos, a proximidade, amizade e vínculos que são
estabelecidos, as formalidades e a burocracia pode contaminar as relações a serem
estabelecidas.

[...] os pesquisadores são levados aos seus próprios recursos éticos. Para que a
pesquisa ocorra, os pesquisadores narrativos ficam inevitavelmente encrencados em
relação ao legalismo do processo de aprovação de seus termos de consentimento e
de seus projetos. Mas, do ponto de vista das relações, eles precisam considerar suas
responsabilidades como pesquisadores e para com seus participantes.
(CLANDININ; CONNELY, 2015, p. 222).

Os autores salientam que o pesquisador deve se preocupar mais com as pessoas


envolvidas do que com burocracia, há uma negociação sobre as relações estabelecidas, é
necessário estar atento para as questões éticas que surgem no trabalho como por exemplo,
qual será o seu papel enquanto pesquisador, participante, observador, que posição será
ocupada, que cenário será estruturado? A partir destes questionamentos surgem dúvidas sobre
o anonimato e a confidencialidade, qual é o limite para que o objetivo da pesquisa seja
esclarecido? Podemos ter anonimato inicialmente, mas é comum que os participantes queiram
ser reconhecidos posteriormente como coautores, excluindo o uso de pseudônimos e se
apresentando com seus nomes reais. Essa situação é reflexível pois ao contrário em
determinados casos, são sugeridos nomes fictícios por motivos de preservação e segurança.
Sugere-se que para os pesquisadores que estão iniciando o trabalho com pesquisa narrativa,
sejam esclarecidos todos os detalhes da pesquisa, desde o seu início até a fase de divulgação,
ficando atentos sobre todas as possibilidades que possam surgir.

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Durante a escrita do texto outro ponto é a problemática em relação ao pertencimento
da pesquisa. A pesquisa é do participante que contou o evento ou do pesquisador que
escreveu? Todas as anotações devem ser partilhadas com todos os participantes? As anotações
mantidas em segredo, ao final do trabalho podem ser divulgadas e gerar conflitos e
ressentimentos, sendo oportuno rever as responsabilidades com o outro. Em resposta a esse
questionamento apontamos um caminho, no qual a pesquisa e os produtos gerados por ela,
sejam artigos, relatórios, textos ou capítulos são de autoria do pesquisador, embora não haja
neutralidade tão pouco distanciamento, há um reconhecimento do pesquisador e da pesquisa.
Entendendo que a medida que se pesquisa é construída, uma história sobre o pesquisador
também se evidencia à medida que o texto vai se compondo, a partir de suas escolhas,
intenções e metodologia. O pesquisador tem a oportunidade de entender como ele é
compreendido pelos participantes, quanto posteriormente pelos futuros leitores dos produtos
de sua pesquisa, sendo o pertencimento da pesquisa do pesquisador.

A distinção entre fato e ficção também é uma preocupação que deve ser refletida na
pesquisa narrativa, chamando atenção para a factualidade e veracidade do que se escreve. O
conflito se dá quando o pesquisador ainda não rompeu com o paradigma positivista e ainda
está preocupado com “a verdade”, sem perceber que no campo das experiências todas são
verdades.

Quando um pesquisador está no campo e uma história é contada ou um evento é


narrado, podemos bem imaginar as bases dessa história. Esses eventos realmente
ocorreram? Como podemos saber? O narrador sabe? As respostas a essas perguntas,
se são feitas de alguma forma, irão variar dependendo da história ou do evento.
Podemos fazer tais perguntas novamente ao registrá-las nossos textos de pesquisa.
(CLANDININ; CONNELY, 2015, p. 231).

Ao longo de todo processo é necessária atenção para demais riscos, perigos e abusos
ao longo do trabalho narrativo, em especial nas versões finais dos textos de pesquisa. Cuidado
com o narcisismo e os enredos muito fantasiosos e suavizados com finais felizes, nos quais as
censuras são duras e permanentes, o pesquisador deve saber procurar balancear o enredo de
acordo com sua intenção. Na pesquisa narrativa já existe uma bagagem de referenciais e

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metodologias que auxiliam a caminhada do pesquisador, faltando para os pesquisadores
iniciantes um mergulho nas pesquisas e produções da área.

4. Conclusões
Definições metodológicas para pesquisadores que trabalham com pesquisa narrativa ou
pesquisa (auto)biográfica são de extrema importância, pois ao ser inserido neste debate,
muitas vezes se depara com uma falta de pressupostos metodológicos, fazendo parecer que a
narrativa ou a história de vida de uma pessoa já é a pesquisa em si, segundo Barreiro e Erbs
(2016) existe um encantamento com a coleta de dados e um grande investimento do
pesquisador na produção de narrativas, sejam memoriais, entrevistas, registros orais e
acontece com frequência que o pesquisador fica perdido nas etapas (1) espaço /tempo, (2)
situação e contexto e as (3) formas de registro e parece não ter fôlego para seguir nas etapas
seguintes, fazendo inclusive com que a pesquisa fique desacreditada entre outros
pesquisadores, pois o maior investimento nestas etapas acabará levando o pesquisador a
apostar na comunicação, ou seja, na publicação descritiva do seu objeto de estudo, sem
atender as fases (4) relações narrador/ouvintes, (5) interações e interpretações e (6) escrita e
comunicação/expressão.
Com a produção deste texto conseguimos responder um série de perguntas
metodológicas em relação à pesquisa narrativa e a pesquisa (auto)biográfica, muito nos
enriqueceu revisarmos os textos e coletarmos deles, materiais teóricos que nos possibilitam
encaminhar metodologicamente a pesquisa. Percebemos que para os pesquisadores que
iniciam, é necessário realizar um aprofundamento nos referenciais e principalmente contar
com o apoio e orientação de pesquisadores que já se aventuram a mais tempo nas pesquisas de
cunho narrativo e (auto)biográfico.
Ao fazermos esta revisão e refletirmos sobre como encaminhamos as nossas pesquisas,
conseguimos delinear algumas possibilidades metodológicas, mas acreditamos que cada
pesquisador pode e deve traçar o seu caminho, o nosso, pode ajudar, mostrar alguns atalhos,
mas foram descortinados por duas professoras pesquisadoras que por afinidades teóricas e
relacionais elegeram os autores apresentados para caminharem juntos nas nossas escolhas
sobre a pesquisa narrativa e pesquisa (auto)biográfica.

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Referências

ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto. Intencionalidade, reflexividade, experiência e


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de formação. Perspectivas epistêmico-metodológicas da pesquisa (auto)biográfica. p. 29-50,
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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: informações e


documentação: resumos: referências: elaboração. Rio de Janeiro, 2002a.

BERTAUX, Daniel. Narrativas de vida: a pesquisa e seus métodos. São Paulo: Paulus,
2010.

BARREIRO, Cristhianny Bento; ERBS, Rita Tatiana Cardoso. Métodos, metodologias e


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DEWEY, J. Art as experience. Tom River, N.J: Capricorn books, 1934

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MARCOLINO, Taís Quevedo; MIZUKAMI, Maria da Graça Nicolletti. Narrativas,


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