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Língua Portuguesa

Material Teórico
O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Sílvia Augusta Barros Albert

Revisão Textual:
Profa. Dra. Geovana Gentili Santos
O Uso da Língua Portuguesa
em Diferentes Contextos

• Introdução
• Língua, Linguagem, Cognição e Sociedade
• Texto e Contexto: O Uso Situado da Língua
• O Novo Acordo Ortográfico

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Apreender os conceitos de Língua e Linguagem Verbal em contextos
de uso e os conceitos-chave que respaldam os estudos da língua
materna na disciplina: modalidades, variações linguísticas, texto e
gênero; contexto; produtor e leitor, situação comunicativa;
· Aprimorar conhecimentos a respeito do Novo Acordo Ortográfico, e
sua contextualização, além de apreender as mudanças gráficas e as
novas regras acentuação.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como o seu “momento do estudo”.

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

Introdução
Nesta unidade, vamos tratar sobre o uso da língua portuguesa, em diferentes
contextos, evidenciando seu caráter e vocação dinâmicos, portanto, passível de
mudanças e transformações.

Vamos nos orientar pela concepção de língua não como um código estático
e, sim, como uma atividade social e cognitiva, sempre situada historicamente e
construída interativamente. Ficou muito complicado? Então, prossiga na leitura
deste material teórico que retomaremos e explicaremos essa concepção. Pode
manter a tranquilidade, ok?

Temos como objetivo, neste momento da disciplina, sobretudo, ampliar a


concepção de língua que ainda é amplamente veiculada em manuais didáticos na
escolarização básica, e que circula socialmente de maneira bem aceita. Esta concepção
aproxima de forma tão intensa as noções de língua e de gramática normativa
que leva os usuários da língua a confundir uma com a outra. Frequentemente, é
dado como certo, que para aprender a usar a língua em sociedade – ou seja, para
interagir com o outro e comunicar-se socialmente, para ler e escrever – basta
estudar a gramática e conhecer suas regras. Não é mesmo? Lemos e ouvimos isso
muitas vezes, concorda?

Para transformar essa “crença” e abalar algumas convicções bem arraigadas,


que vêm do senso comum e de teorias e de práticas mais descontextualizadas, no
intuito de ampliar conhecimentos, propomos aqui algumas reflexões e algumas
práticas, abordando conceitos que acreditamos ser essenciais para o estudo da
língua, respaldados em fundamentos teóricos dos estudos do âmbito da língua e da
linguística contemporâneos.

É claro que, conhecer a gramática normativa da língua e obedecer às suas re-


gras, é muito importante para usá-la adequadamente, principalmente em situações
comunicativas que exigem maior formalidade como na faculdade e no trabalho. No
entanto, não podemos restringir a sua concepção apenas a essas situações de uso.
Há muito o que entender sobre os aspectos e os processos que determinam a con-
cepção de língua, inclusive para poder adequar o seu uso, como veremos a seguir.

Esperamos assim, contribuir para a sua formação acadêmica e profissional, pois


acreditamos que aperfeiçoar o uso da língua em diferentes contextos pode ser de-
terminante para o seu desenvolvimento como cidadão que vive em sociedade, como
estudante do Ensino Superior e como futuro especialista do mundo do trabalho.

Esta unidade apresenta conceitos que serão mais especificamente desenvolvidos


ao longo desta disciplina de Língua Portuguesa e outros que são a base para
tratarmos dos processos de leitura e de escrita, também abordados em unidades
específicas nesta disciplina. Orientamos que você faça, ao final desta unidade, uma
ficha síntese de leitura que contemple as principais noções aqui apresentadas.

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Assim, essa ficha vai servir como uma referência teórica que, com certeza, vai
lhe ajudar na leitura das outras unidades, combinado?

Então, mãos, olhos, ouvidos, mente e palavras à obra!!

Língua, Linguagem, Cognição e Sociedade


“O uso da Linguagem permite ao homem constituir comunidades em
torno de um desejo de viver juntos e institui-se como um poder, talvez o
primeiro poder do homem” (Charaudeau, 2014).

A linguagem humana é o que nos distingue como ser vivo, que pensa e que
se comunica para viver em sociedade. Inseparável do homem, ela está presente
em todos os seus atos. É o que nos permite elaborar e expressar pensamentos,
sentimentos, emoções, desejos, atitudes. Ao lançarmos mão da linguagem,
influenciamos e somos influenciados, educamos e somos educados, transformamo-
nos e também transformamos o meio em que vivemos.

É importante perceber que há sempre um aspecto interativo, isto é, de alguém


para outrem, em relação à linguagem e ao uso que o homem faz dela, não é
mesmo? Isso está na natureza humana, pois como afirma Marcuschi (2007),
respaldado em Tomasello (1999), o que diferencia os humanos de outras espécies
de seres vivos é que os homens compreendem os outros de sua espécie como
agentes capazes de interagir com eles, o que traz uma dupla vantagem: possibilita
que consigam agir colaborativamente; e possibilita, também, o aprendizado cultural
e a internalização de produtos culturais os quais serão legados a outras gerações.
A diferença do homem com os outros seres vivos, portanto, de acordo com esses
autores, é que nós interagimos com o meio ambiente como eles o fazem também,
mas o dominamos para nossos objetivos (MARCUSCHI, 2007, p.83.).

Compreender a linguagem dessa perspectiva é entendê-la como um dos aspectos


humanos mais antigos que diferenciam o homem de outros seres vivos. Muito
anterior à roda, ao machado, à descoberta do fogo, a linguagem “foi o motor da
própria construção da condição social do homem, que só assim conseguiu fazer o
outro saber que pensa e o quê pensa” ”(MARCUSCHI, 2007, p. 108).

Desde os gregos, os homens, do lado ocidental do mundo, se perguntam sobre


como nos apropriamos da realidade, ou seja, como se dá nosso acesso à realidade
e como construímos o conhecimento. Foram muitas as respostas desde então, mas,
atualmente, afirma-se que a “ação comunicativa é uma das bases para a construção
do conhecimento e da produção de sentidos.” (MARCUSCHI, 2007,p.82 ).

Além disso, vale lembrar das atividades relacionadas à cognição que precisamos
realizar para efetivar essa ação comunicativa. Mas o que entendemos por cognição?
De acordo com Marcuschi (2007), a cognição diz respeito ao conhecimento, suas

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UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

formas de produção e processamento, da qual se ocupa a Ciência Cognitiva. Nessa


área, estuda-se a natureza e os tipos de operações mentais que realizamos no ato de
conhecer ou de dar a conhecer. De acordo com o autor, no nosso caso, trata-se dos
meios de produzir e transmitir o conhecimento linguisticamente (MARCUSCHI,
2007, p.330).

Cultura, sociedade e cognição estão, portanto, na base de toda nossa capacidade


de pensar e de dizer o mundo. Ao entendermos assim a linguagem como fenômeno
humano, que se dá como uma interlocução situada e se oferece como conhecimento
para o outro, vamos entender que essa é a forma de ser da língua.

Vamos conceber a língua ressaltando a sua dinamicidade, não como um retrato


do mundo, mas como uma forma de agir sobre ele. A língua, então, deixa de ser
apenas um instrumento, um código de que lançamos mão para falar o mundo e passa
a ser uma atividade social e cognitiva, sempre situada historicamente e construída
interativamente. A língua é estável, mas não estática, deixa-se normatizar, mas de
forma variável e variada (MARCUSCHI, 2007 p.108).

Assim, amplia-se bem a noção de língua, não é mesmo? Dessa perspectiva fica
muito difícil confundi-la com a gramática normativa, concorda? Dispomos, a seguir,
de algumas definições de estudiosos brasileiros da língua que são convergentes com
o que aqui propomos:
Língua é um produto cultural, histórico, constituída como unidade ideal,
reconhecida pelos falantes nativos ou por falantes de outras línguas, e
praticada por todas as comunidades integrantes desse domínio linguístico
(no nosso caso, os países que compõem a comunidade lusófona)
(BECHARA, 2004, p.37).

A língua é uma entidade complexa: é mais que um sistema em potencial,


em disponibilidade. É uma atividade interativa, direcionada para a
comunicação social (ANTUNES, 2007 p. 40).

A língua é “heterogênea, social, histórica, cognitiva, indeterminada,


variável, interativa e situada” (MARCUSCHI, 2008, p. 65).

Podemos perceber, nessas concepções, que os aspectos sociais, culturais,


históricos e cognitivos estão sempre presentes em sua definição. Vamos ver, ainda
nesta unidade, que a utilização da língua está sujeita a diferentes tipos de regras,
tanto àquelas relativas aos processos de produção e recepção de textos quanto às
normas sociais de atuação. Restringir o estudo da língua apenas à sua gramática
é limitar as possibilidades de compreendê-la em suas múltiplas possibilidades e
determinações, não é mesmo? Mas, por outro lado, não podemos prescindir do
estudo da gramática, por isso, cada unidade da disciplina, como informamos antes,
traz um conteúdo para o seu aperfeiçoamento no uso da língua, ok? Contamos
com seu empenho em estudá-los!

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Vale lembrar, ainda, que a língua portuguesa é o meio de expressão da cultura de
todos os falantes que pertencem à chamada comunidade lusófona, ou seja, aqueles
que usam o idioma para se expressar e se comunicar cotidianamente. Vamos voltar
a tratar desse tema na seção em que abordamos o Novo Acordo Ortográfico. Por
ora, vale acessar o link a seguir para compreender a extensão do uso da língua
portuguesa no mundo.
Explor

Veja mapa da comunidade lusófona: https://goo.gl/JtHbVD

Enfim, dessa perspectiva, podemos depreender que há muitas possibilidades do


uso da língua portuguesa e diferentes falares, que dependem de fatores socioculturais
e históricos além de aspectos cognitivos, comunicacionais e situacionais. No empre-
go da língua, há, pois, diferenças geográficas (falares locais e variações regionais),
socioculturais (nível culto, nível coloquial ou popular; registros, formal e informal; e,
modalidades (fala e escrita) que conferem peculiaridades e marcas de expressão pró-
prias dos sujeitos usuários em diferentes situações comunicativas e contextos.

É o que veremos a seguir! Contamos com a sua companhia e atenção!!

A Língua em Uso
Conceber a língua como heterogênea, social, histórica, cognitiva, indeterminada,
variável, interativa e situada (Marcuschi, 2008) é determinar que estamos abordando
a língua em uso, em uma situação comunicativa específica, em diferentes contextos.

É preciso, portanto, levar em consideração os vários aspectos que a constituem


no processo, como modalidades, níveis, registros, contemplando também as suas
variações e a sua normatização.

É o que veremos a seguir!

Para entrar em contato com esse tema, da variação linguística, selecionamos


um vídeo em que Marco Luque, repórter do programa CQC, de Marcelo Tas,
incorpora a personagem do motoboy Jackson Five, num quadro que satiriza os
programas eleitorais.

Observe o uso que Jackson Five faz da Língua Portuguesa, refletindo sobre as
seguintes questões:

Você costuma usar alguma expressão utilizada por ele? Você considera que
Jackson Five usa um “Português errado”?

Assista ao vídeo e, depois, leia o material teórico para continuar a sua reflexão sobre o uso
Explor

da língua e suas variações. Para assistir ao vídeo, acesse o link:


https://youtu.be/3M1izoCv6jA

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UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

Níveis e Registros da Língua


Para falar das muitas possibilidades de variação da língua, vale lembrar que
“se existem situações sociais diferentes, deve haver padrões de uso da língua
diferentes” (ANTUNES, 2007, p.103). Foi o que vimos ao assistir ao vídeo do
motoboy Jackson Five, não é mesmo? As variações linguísticas são normais e
esperadas no uso da língua e existem “não porque as pessoas são ignorantes ou
indisciplinadas, mas porque a língua é um ato social, situado num tempo e espaço
concretos” (ANTUNES, 2005, p.104).

Em relação às variações, o uso da língua pode ocorrer em dois níveis: o


coloquial e o culto, determinados pela cultura e formação escolar, pelo grupo
social a que pertencem os usuários e pela situação concreta em que a língua é
utilizada. Além disso, a língua pode ser utilizada em dois registros diferentes: o
formal e o informal, que admitem certa escala de graus, indo do mais formal ao
mais informal. Um falante adota, portanto, diferentes níveis e registros da língua ao
falar ou escrever, dependendo das circunstâncias em que se encontra: conversando
com amigos, escrevendo e-mails pessoais ou profissionais, expondo um tema
histórico na sala de aula ou dialogando com colegas de trabalho.

O nível culto, mais utilizado em ocasiões formais, é também aquele que mais
obedece às regras gramaticais. Já o nível coloquial ou popular é utilizado na
conversação diária, em situações informais, descontraídas. Há, nesse nível de
linguagem, o registro informal da língua, ou seja, uma utilização mais espontânea
das formas linguísticas e mais livre em relação às regras da gramática normativa.

Nos diálogos do cotidiano, falados, podemos perceber deslizes de concordâncias,


repetições, até jargões e gírias, além de vícios de linguagem. Foi o que vimos
no vídeo do motoboy Jackson Five, não é mesmo? Algumas gírias e expressões
podem ser até desconhecidas para alguns falantes da língua.

A gíria consiste em um uso específico da língua; são palavras criadas, inventadas por
Explor

determinado grupo social com o objetivo de distinguir seus usuários dos demais falantes da
língua. As gírias se renovam com o tempo e são determinadas por fatores socioculturais e
históricos. Elas renovam a língua e revelam a criatividade dos falantes em seu uso.

Vamos ver, ainda nesta unidade, outros exemplos de variação linguística, para
compreender melhor como ela pode ocorrer na língua em uso e que fatores
predispõem a diferentes variações da língua.

Em geral, os falantes acreditam que usar a língua no nível culto é de fato a única
variação válida, é o ideal, ocorrendo o nível coloquial como uma deturpação desse
nível. Muitos falantes creditam apenas àqueles que “não sabem a língua” o nível
coloquial, o que acontece em decorrência de sua falta de instrução (PRETI, 2003;
ANTUNES, 2007).

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Essa não é a perspectiva nem a posição adotada pelos estudos da sociolinguística,
que vê na ocorrência de ambos os níveis um natural processo de variação linguística
que atende, assim, às mais diversas situações de comunicação na sociedade.

Em rigor, ninguém comete erro em língua. O que normalmente se comete são


transgressões às regras gramaticais e inadequações no uso da língua. De fato,
aquele que, num momento de conversa descontraída, entre amigos diz: “Ninguém
deixou ele falar”, não comete propriamente um erro: na verdade, transgride à
determinada regra da gramática normativa.

Ressaltamos, então, que quem pratica a língua em nível coloquial não fala de
forma errada, apenas fala de acordo com o meio em que vive ou com a situação
comunicativa em que se encontra. O importante é usar a língua de forma adequada
ao interlocutor, à intenção e aos objetivos do produtor, enfim, ao contexto em que
está inserido. Vamos, então, transformar a ideia de certo e errado, quanto ao uso
da língua, para adequado e não adequado, concorda?

Assumindo essa prerrogativa, então, afirmamos que o nível da linguagem deve


variar de acordo com a situação comunicativa; o ambiente sociocultural também
pode determinar o nível de linguagem a ser empregado; além disso, o vocabulário,
a sintaxe (organização lógica das frases), a pronúncia e até a entoação podem
variar segundo o nível empregado. Por isso, um padre não fala com uma criança
como se estivesse rezando uma missa, assim como uma criança não fala como um
adulto. Um engenheiro não usa o mesmo nível de linguagem quando se dirige a
colegas e a funcionários da obra, assim como nenhum professor utiliza o mesmo
nível de linguagem quando está com sua família e quando está em sala de aula.

Não defendemos o simplismo de que qualquer forma de falar e de escrever vale


à pena e serve para qualquer situação, pois tudo comunica e é o que basta. Nem
sempre basta comunicar; ser eficiente no uso da língua vai além de se fazer entender,
conforme nos ensina Antunes (2007). De acordo com a autora, “para qualquer
situação, vale o jeito de falar que é adequado a essa situação” (ANTUNES, 2007,
p. 99). Como veremos mais adiante, há fatores sociais, econômicos e regionais que
justificam a variação.

Precisamos estar atentos ao preconceito linguístico e às patrulhas do bem falar


(e escrever), pois, como todo preconceito, essa atitude leva à intolerância e à
desarmonia na convivência social. Vamos lembrar sempre que o bom uso da língua
“é aquele que é adequado às condições de uso” (ANTUNES, 2007, p.104) e o
usuário competente é “aquele que domina o maior número possível dos falares,
inclusivamente, aquele falar apropriado às situações mais ligadas à fala e à escrita
formais” (ANTUNES, IRANDÉ, 2007, p.100).

Enfim, a título de epígrafe conclusiva, trazemos um dizer de Millôr Fernandes,


um dos grandes usuários da língua portuguesa: “Nenhuma língua morreu por
falta de gramáticos. Algumas estagnaram por ausência de escritores. Nenhuma
sobreviveu sem o povo” (Millôr, 1994).

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UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

Modalidades da Língua: A Fala e a Escrita


A fala e a escrita são modalidades da língua. Segundo Mac-Kay (2000), “na
linguagem, as modalidades oral e escrita se completam, guardando, cada uma, suas
propriedades. O fato de possuírem formas características não pode nos levar à falsa
noção de que são modalidades destituídas de pontos de integração”. Marcuschi
(2010) concorda com essa afirmação, ressaltando que a relação entre fala e escrita
não é dicotômica, nem paralela, mas complementar e que as propriedades que as
distinguem são mais da ordem da materialidade fônica (som) e a gráfico-visual. Em
todos os casos, trata-se de eventos em que se dá um uso situado da mesma língua.

Sendo assim, não é válido dizer que a fala sempre faz uso da língua no nível
coloquial e no registro informal e a escrita opera no nível culto e no registro formal.
Vamos ver isso melhor?

Por um lado, é possível observar o uso da língua em nível coloquial e no


registro informal também no texto escrito, tanto na reprodução da fala de alguns
personagens na literatura quanto em bilhetes de nosso dia a dia. Além disso, o
desenvolvimento de novas Tecnologias de Informação e de Comunicação (TIC),
as redes sociais e as novas mídias, aliados aos dispositivos móveis, nos oferecem
muitas situações de escrita no nível coloquial quando, por exemplo, publicamos
textos no Facebook, enviamos mensagens por WhatsApp ou publicamos no
Instagram e/ou no Twitter. Essas novas formas de comunicação aproximaram
ainda mais a linha contínua que existe entre as modalidades da fala e da escrita.

Por outro lado, podemos pensar na utilização do nível culto e do registro formal,
na fala dos noticiários da TV, nas conferências e mesmo na fala de professores em
sala de aula. Nessas práticas comunicativas ocorre uma mescla de fala e da escrita,
pois se trata de eventos orais que têm por trás um texto escrito. Além disso, são
falas que ocorrem em situações formais de comunicação.

Koch, em seu livro O texto e a construção de sentidos (2003), reafirma que


os textos podem se apresentar de várias formas, ou seja, ora se aproximando do
polo da fala (por exemplo: os bilhetes domésticos, os bilhetes de casais, e-mails
entre amigos, as piadas), ora se aproximando do polo da escrita (por exemplo:
os discursos de posse de cargo, as conferências, as entrevistas especializadas e
propostas de produtos de alta tecnologia por vendedores especialmente treinados).

Conforme observa a autora, a fala e a escrita constituem duas possibilidades de


uso da língua que utilizam o mesmo sistema linguístico e que, apesar de possuírem
características próprias, não devem ser vistas de forma dicotômica, ou seja,
totalmente distinta.

Koch (2003) ainda aponta para algumas diferenças que podem ocorrer entre fala
e escrita em seu processo de produção e elaboração: a fala não é planejada, é mais
fragmentada e incompleta, às vezes, pouco elaborada e possui a predominância
de frases curtas e simples; a escrita já é mais planejada, não é fragmentada e
apresenta-se mais completa, às vezes mais elaborada e possui a predominância de
frases mais complexas, entre outras características.

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Fávero, Andrade e Aquino (2002, apud Mac-May, 2000) observam que as
gramáticas, ao adotarem como parâmetro a escrita e associarem a fala a um dos
seus registros de realização – o informal –, fortalecem o enfoque que polariza
as duas modalidades por não incluir a possibilidade da existência de níveis de
formalidade. As autoras sinalizam para o fato de que, “na verdade, tanto a fala
como a escrita abarcam um continuum que vai do registro mais informal ao mais
formal, passando por graus intermediários”. As autoras afirmam, ainda, que essa
variação depende das condições de produção do texto (Fávero, Andrade e Aquino,
2002, p.273).

Tais condições estão em estreita relação com o contexto, com as condições de


interação, com os interlocutores e com o tipo de processamento da informação.
Assim, na língua falada, há entre falante e ouvinte um intercâmbio direto, o que
não ocorre com a língua escrita, na qual a comunicação se faz geralmente na
ausência de um dos participantes; na fala, as marcas de planejamento do texto não
aparecem, porque a produção e a execução se dão de forma simultânea, por isso
o texto oral é pontilhado de pausas, interrupções, retomadas, correções etc.; o que
não se observa na escrita, porque o texto se apresenta acabado, tendo existido um
tempo para a sua elaboração, revisão e reescrita.

Destacamos, no quadro a seguir, a título de ilustração e orientação, algumas


especificidades quanto ao uso da língua em relação às modalidades da fala e da
escrita, reafirmando sempre que ambas atuam num contínuo e que não há uma
separação uma fronteira absolutamente clara entre uma e outra.

A fala
Mais espontaneidade e fluidez.
Sem planejamento; mais direta e econômica.
Apoio da situação física, do contexto, do conhecimento do interlocutor, das expressões faciais,
dos gestos, das pausas, das modulações da voz, das referências do ambiente.
Repetição de informações para explicar ou resolver dúvidas do interlocutor.
Uso de frases mais simples e diretas, períodos curtos com orações coordenadas.
Expressão das ideias com mais truncamentos, cortes, repetições, titubeios e problemas de concordância.
Uso de expressões de nível mais informais com mais frequência.

A escrita
Planejamento cuidadoso do texto para assegurar que o leitor compreenda.
Sem o apoio imediato e direto do contexto, ou seja, não é possível resolver dúvidas imediatamente.
Sem o auxílio de recursos como gestos, voz, expressões faciais.
Revisão para avaliar o texto e evitar repetições desnecessárias de palavras, truncamentos, problemas de
concordância, regência, colocação pronominal, pontuação, ortografia.
Utilização de sintaxe (organização da frase) mais complexa.
Observação da exatidão e clareza do pensamento.
Orações subordinadas mais frequentes na escrita que na fala.
Utilização de um vocabulário mais exato e preciso, pois temos tempo de procurar a palavra adequada.
Não recomendável o uso de gírias e expressões coloquiais, principalmente a situação comunicativa é formal.

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UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

Destacamos ainda, como afirma Marcuschi (2010, p.35) que assim como a fala
não apresenta propriedades intrínsecas negativas, também a escrita não possui
propriedades intrínsecas positivas. Para o autor, seria equivocado pensar em algum
tipo de supremacia ou superioridade de uma das modalidades em relação a outra.

Se a escrita é vista como mais prestigiosa do que a fala, não devemos atribuir esse
prestígio a algum critério intrínseco ou a parâmetros linguísticos e, sim, a uma postu-
ra ideológica e a um valor sociocultural. Vale lembrar, que há culturas em que a fala
tem mais prestígio do que a escrita, como na Índia em que a forma oral é sagrada e
a escrita não inspira confiança (MARCUSCHI, 2007 apud OLSON, 1997).

A título de comparação, por um lado, podemos dizer que, em relação ao uso


da língua e ao processamento da fala em situações comunicativas face a face, a
acentuação (relevo de sílaba ou sílabas), a entoação (melodia da frase), as pausas
(intervalos significativos no decorrer do discurso), além da possibilidade de gestos,
olhares, piscadas, conferem a essa modalidade um caráter expressivo mais
espontâneo, estando ela também mais sujeita a transformações no léxico e a
evoluções mais rápidas em suas formas de dizer.

Por outro, a modalidade escrita, quanto ao uso e ao processamento de textos,


exige do produtor mais planejamento na elaboração, além de outros recursos
para marcar a expressividade, como o uso da pontuação e de diferentes marcas
gráficas, como tipos de letras, negritos, itálico etc.. Na escrita, as transformações
relativas ao léxico e às formas de dizer se processam de forma lenta e em número
consideravelmente menor, quando cotejada com a modalidade da fala.

Em síntese, podemos afirmar, respaldados em Marcuschi (2010, p.37), que as


diferenças entre a fala e a escrita se dão em um contínuo tipológico das práticas
sociais de produção textual e não na relação dicotômica entre dois polos opostos.
Partindo da concepção e do funcionamento da língua que apresentamos, as
diferenças entre a fala e a escrita podem ser vistas na perspectiva do uso.

Para ilustrar um pouco mais o que afirmamos anteriormente, observe a analogia


que o Prof. Evanildo Bechara faz em suas palestras:

em casa, costumamos nos vestir de maneira mais simples, sem maquiagem,


salto alto ou artifícios. Andamos de roupa caseira, simples, confortável.
Quando saímos, procuramos cuidar um pouco mais da aparência. Colocamos
uma roupa melhor, usamos sapatos novos, penteamos o cabelo com maior
cuidado etc. E se vamos a uma festa, então, é que nos arrumamos mais ainda.
E assim deve acontecer com língua tanto na modalidade da fala quanto na
modalidade escrita: a língua deve variar de acordo com as diferentes situações
de uso; quanto mais formal for a situação, mais cuidados serão exigidos do
falante/produtor de textos.

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Variações Linguísticas e a Norma urbana de prestígio ou Norma Padrão
Para falar de uma língua e de seus usos, precisamos lembrar que toda língua tem
uma história. No caso da língua portuguesa que se fala no Brasil, para conhecê-la
é preciso recuar quase 500 anos e começar pela chegada dos primeiros colonos
portugueses à baía de São Vicente, em 1532, até chegar ao momento atual. Não
faremos todo esse percurso, pois não é esse o intuito dessa disciplina, mas vale
lembrar que, para a formação do português que se fala no Brasil, concorreram as
contribuições dos seguintes contingentes humanos: colonos portugueses, indígenas,
africanos, imigrantes europeus e asiáticos. Todas essas influências contribuíram
para uma natural diversidade da língua que utilizamos atualmente.

Além disso, nenhuma língua é homogênea e, em seu uso, denota características


que estão relacionadas a diversos fatores como espaço geográfico, condições
socioculturais (nível de escolarização, idade, atuação profissional) entre outros.

Sendo assim, encontramos, no uso da língua portuguesa que se fala no Brasil,


uma gama de variações de uma mesma língua, variações estas influenciadas pela
extensão geográfica do Brasil; pelas diferentes culturas regionais; pela diversidade
de colonização; pela acentuada diferença socioeconômica; entre outros.

Vamos conhecer algumas delas?

Basta conversar um pouco com algumas pessoas que começamos a perceber


uma diferença em seus falares. Erres mais puxados, o som do “s” que parece um
“x”, uma entonação e um ritmo diferentes no encadeamento das frases, concorda?
Não demora e já estamos perguntando: “Você é daqui mesmo? De que lugar do
Brasil você vem?” Essa é a variação que denominamos de regional.

A variação regional é determinada pela localização dos falantes de um certo


espaço geográfico, onde moram, onde nasceram. É possível fazer a relação entre a
região de origem de um falante e marcas específicas que utiliza quando se expressa
na língua. No Brasil, reconhecemos facilmente se estamos falando com um mineiro,
um carioca, um nordestino pela pronúncia que faz de alguns sons da língua, pela
entonação que dá às frases, pelo vocabulário que usa, pela sintaxe que emprega
na construção das frases. Os falares regionais brasileiros são riquíssimos em suas
diferenças, não é mesmo? Às vezes a diferença é tão grande que as variações
regionais parecem ser uma outra língua! Assista a um vídeo para ouvir algumas
delas, acessando o link:
Explor

Variações Linguísticas Regionais: https://youtu.be/iu4ra9tkFWM

Mas os diferentes falares da língua portuguesa no Brasil não são determinados


apenas pelas diferenças geográficas. E, importante: quando estamos nos referindo
a falares, não se trata apenas da modalidade oral, a fala. As variações ocorrem

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UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

também na escrita, fique atento! Mas como íamos dizendo, mesmo em uma só
região vamos encontrar diversidade no uso da língua por grupos de falantes que
procedem de diferentes segmentos da sociedade. Como no Brasil as classes sociais
menos favorecidas têm pouco acesso à escolarização, veremos que há um outro tipo
de variação: a Social. A variação social é estabelecida por dois grupos distintos:
falantes mais escolarizados e falantes menos escolarizados. Esse segundo grupo,
em geral, é aquele que transgride as regras da gramática normativa.

Observe no poema a seguir, de Patativa do Assaré – poeta popular nordestino


–, as marcas de variação regional e social, e veja como elas podem se transformar
em poesia:

O Poeta da Roça

Sou fio das mata, canto da mão grossa,

Trabáio na roça, de inverno e de estio.

A minha chupana é tapada de barro,

Só fumo cigarro de paia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé

De argun menestré, ou errante cantô

Que veve vagando, com sua viola,

Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,

Apenas eu sei o meu nome assiná.

Meu pai, coitadinho! Vivia sem cobre,

E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastero, singelo e sem graça,

Não entra na praça, no rico salão,

Meu verso só entra no campo e na roça

Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

(...)

18
Você acredita que a forma de falar e de escrever comprometeu a emoção
transmitida por esse poema? Patativa do Assaré era analfabeto (sua filha é quem
escrevia o que ele ditava), mas sua obra atravessou o oceano e se tornou conhecida
mesmo na Europa. Observe que nesse poema podemos falar em marcas de variação
regional no uso de algumas palavras típicas da região nordestina (chupana, tapada
de barro, cobre, menestré, pachola, paioça) e outras que revelam a variação social
(todas as transgressões de concordância nominal – sou fio das mata, nas pobre
paioça –; e ortográficas e fonéticas – fio, argun, assiná , estudá, rastero, veve
etc.). Em alguns casos temos mesmo dificuldade em entender a língua portuguesa,
mesmo escrita, não é?
Explor

Disponível em: https://goo.gl/IFw17I

Além desses fatores, podemos observar que o uso da língua também varia de
pessoa para pessoa e até varia na fala de uma mesma pessoa. Não falamos com
um amigo da mesma forma que falamos com nosso chefe no trabalho. Não é só
uma diferença de assunto, é também na forma com que construímos as frases, as
escolhas de palavras, a observação e cuidado com as regras gramaticais. Esse é
outro tipo de variação a que denominamos variação situacional, pois depende da
situação de comunicação e de todos os elementos que a compõem: contexto mais
formal ou informal, interlocutor conhecido, íntimo, hierarquicamente posicionado,
das intenções de comunicação (contrapor-se, agradecer, dar ordens, aconselhar
etc.), entre outros.

Observe no link a seguir como alguns adolescentes, em uma gravação bem


simples no Youtube ilustram cenas de variação situacional, ou seja, em que alguns
interlocutores observam a adequação no uso da linguagem em situações mais
formais e outros não; ou ainda, não observam a adequação ao usar a linguagem
para falar com um bebê, por exemplo. Vai ficar fácil de entender. Acesse:
Explor

Variação Situacional: https://youtu.be/xy77IRV9cmE

Isso mostra como é importante adequar o uso da língua às práticas sociais


diferentes, concorda?
Todas essas variações comprovam que o uso da língua portuguesa no Brasil é
diverso e de uma riqueza muito grande. No entanto, além dessas variações, temos
um uso que segue mais as normas da gramática, que teima em ser reconhecido
como o uso mais correto da língua, a que nomeamos “Norma urbana de prestígio”
ou “norma padrão”.
Os princípios que regulam as propriedades dessa variação extrapolam critérios
puramente linguísticos. Na maioria das vezes, o que a determina se relaciona à
classe social de prestígio e ao grau relativamente alto de educação formal dos
falantes. As outras variações, geralmente, desviam desses parâmetros.

19
19
UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

Assim, a Norma urbana de prestígio ou Norma padrão, está associada ao


nível culto da língua. De acordo com Irandé Antunes (2007), essa Norma é “um
projeto da sociedade letrada que pretende garantir, para a comunidade nacional,
certa uniformidade linguística; uniformidade aqui entendida como o cuidado
por criar uma língua comum, estandardizada, com ênfase no geral, e não em
particularidades regionais, locais ou setoriais.” Percebe-se, portanto, que a ideia
subjacente ao conceito de norma urbana de prestígio é a unificação linguística, na
tentativa de facilitar a interação pública, neutralizando certos usos.

Em Faraco (2002), encontramos a seguinte definição de norma urbana de


prestígio: “Norma linguística praticada em determinadas situações (aquelas que
envolvem certo grau de formalidade) por aqueles grupos sociais mais diretamente
relacionados com a cultura escrita, em especial aquela legitimada pelos grupos que
controlam o poder social” (Faraco, 2002, p.40).

A norma urbana de prestígio é, pois, aquela que segue as regras da gramática


normativa, ou seja, a gramática que tem como função não só descrever a língua
e seus fatos, mas sobretudo de prescrever o que se deve usar e o que não se deve
usar na língua.

Sendo assim, em sua concepção, retomam-se os parâmetros definidos por uma


classe social de prestígio e por certos órgãos oficiais que sistematizam o que se
costuma chamar de “o melhor uso da língua”, e tudo o que foge a esse padrão
é inferiorizado, desprestigiado e faz parte das variações não padrão (aquelas que
vimos um pouco antes no texto), que estão associadas ao nível coloquial ou popular
da língua. Daí, decorre a ideia do falar certo e falar errado que circula socialmente
e costuma ser tão bem aceita, não é?

No entanto, vale ressaltar que é exatamente esse nível, o coloquial e popular,


que assimila as mudanças provocadas pelo próprio fluxo natural da língua, ao
incorporar novos usos, mas que são vistas como decadência, degeneração ou
“erros”. Segundo Irandé Antunes (2007), o problema é que o movimento da língua
ficou inexoravelmente destinado a ser do melhor para o pior. Para a autora, no
entanto, toda mudança na língua tem sua lógica e sua motivação, o que possibilita
que um padrão possa ser substituído por outros. É o que o texto do Millôr, que
vimos anteriormente nesta unidade, dizia: nenhuma língua sobreviveu sem o povo.

Precisamos pensar, entretanto, conforme pondera Preti (2003), que a noção de


norma urbana de prestígio serve diretamente às intenções do ensino, no sentido de
padronização da língua, criando condições ideais de comunicação entre as várias
áreas geográficas e também propiciando aos estudantes as condições para a leitura
e compreensão dos textos literários e científicos, que se expressam nessa variação.

Vale lembrar, ainda, que é a norma urbana de prestígio a variação adotada pelos
meios de comunicação (emissoras de rádio e televisão, jornais, revistas, internet
etc.), o que permite a divulgação dos mesmos textos e informações para todos os
brasileiros. Só é preciso ficar atento para que essa padronização no uso da língua
não sirva a discriminações, a preconceitos linguísticos e à supremacia de uma só
classe social.

20
Importante! Importante!

Dominar a norma urbana de prestígio é essencial para que possamos nos desenvolver
e ter mais desenvoltura nos meios acadêmicos e profissionais. Por isso, aproveite a
disciplina para ampliar e atualizar seus conhecimentos da língua portuguesa, sobretudo,
os relativos à norma urbana de prestígio!

Em síntese, este estudo sobre as variações linguísticas não pretende que você
apenas saiba identificá-las, avaliar sua adequação à situação comunicativa e ao
contexto, mas também que, ao compreendê-las, você possa posicionar-se frente a
todo e qualquer preconceito linguístico.

Além disso, é preciso ter em mente que, em seus textos acadêmicos, em suas
redações para concursos, em textos e relatórios que colocar em circulação no
âmbito profissional, é a norma urbana de prestígio que precisa prevalecer.
Em textos escritos, em apresentações orais no âmbito acadêmico e profissional,
portanto, é necessário evitar gírias, regionalismos, repetições desnecessárias,
cacoetes, abreviações, clichês e todos os elementos típicos do uso da língua em
nível coloquial.

Quando fazemos essas observações, estamos falando no uso situado da língua.


Estamos admitindo que nos comunicamos por meio de textos. Essas ideias nos
remetem a nossos próximos temas e concepções: o texto e o contexto.

Texto e Contexto: O Uso Situado da Língua


Agora que nos apropriamos da noção de língua e de suas variações, vale lembrar
que estamos sempre interagindo socialmente por meio de textos, que pertencem
a determinados gêneros, em situações comunicativas específicas, que ocorrem
em diferentes contextos. Ficou difícil de entender? Tranquilize-se! Esses são os
conceitos que abordaremos nas próximas seções. Vamos lá?

Concepção de Texto
Para apresentar a concepção de texto, partimos da ideia essencial que “ninguém
interage verbalmente a não ser por meio de textos” (Antunes, 2005, p.40). Mas...
o que vem a ser essa entidade, “o texto”? É o que pretendemos responder nessa
seção, já ressaltando que esse é um conceito bastante complexo, pois o texto é
objeto de pesquisa das ciências da linguagem há muitas décadas, e sua concepção se
transformou e se transforma a partir da perspectiva teórica pela qual o abordamos.
Nessa disciplina, tomaremos o texto como “um evento comunicativo para o qual
convergem ações linguísticas, culturais, sociais e cognitivas” (BEAUGRANDE, 1997,
p.10). Veja que, por essa definição, ficou distante a ideia de texto apenas como

21
21
UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

uma sequência de frases, organizadas em períodos e agrupadas em parágrafos, não


é mesmo? Da forma como concebemos o texto, nele estão imbricados aspectos
que não são apenas linguísticos, embora esses últimos também sejam elementos
que constituem os textos, responsáveis por sua materialidade. Além disso, essa con-
cepção aponta para o caráter dinâmico do texto, em que o entendemos como um
processo, do qual participam o produtor e o leitor, e não mais um produto acabado,
que depende apenas de ser produzido e colocado para recepção de um interlocutor.
Dessa perspectiva, podemos admitir, então, que “um conjunto aleatório de
palavras ou de frases não constitui um texto” (ANTUNES, 2010, p.30). Todo
usuário da língua tem esse discernimento, mesmo que intuitivamente, pois como
nos afirma Antunes (2010, p.30), “não é muito difícil não tê-lo, até porque não
andamos por aí esbarrando em ‘não textos’”. Vale lembrar, ainda, que em todas as
situações comunicativas, o que falamos e o que escrevemos, mesmo que não seja
totalmente adequado para os padrões mais formais, são textos.
Precisamos, então, delimitar alguns aspectos que são imprescindíveis para que
possamos nos apropriar, efetivamente, da concepção de texto que apresentamos
aqui. Em primeiro lugar, recorremos a um texto quando queremos nos comunicar
e buscamos expressar esse desejo de comunicação. Assim, todo texto tem uma
intenção, um ou mais objetivos, que precisam ser identificados pelo interlocutor
para que a nossa atuação comunicativa seja bem-sucedida.
Desse primeiro aspecto decorre um segundo bem importante, que é o fato
de o texto, como atividade comunicativa, envolver sempre um outro, isto é, o
interlocutor, que podemos chamar também de leitor ou ouvinte, caso seja um texto
produzido na fala ou na escrita.
Além desses dois primeiros, o terceiro aspecto relevante para a noção de texto
que apresentamos é que todo texto “é caracterizado por uma orientação temática;
quer dizer, o texto se constrói a partir de um tema [...], de uma ideia central, que
lhe dá continuidade e unidade” (ANTUNES, 2010, p.32).
Vamos entender melhor esses três aspectos essenciais para nos apropriarmos
da noção de texto? Observe o trecho a seguir:
Religiosidade
Monstro planos sexo cantor pela denúncia paguei fazer sobre pretendem
enfermeira menino milhões presente viva-voz telefone estar risco com
mercado o.
Computador completo ficar frontal você veloz se para esperar doméstico
brincando mamífero moda.

Relógios cartas sobre expectativa inteiro promoção empregadas sabati-


na campanha novo queijo compra Brasil meninos.(Exemplo retirado de
Antunes, I., 2010, p.32)

22
Então? Deu para perceber nesse trecho uma intenção comunicativa do produtor?
É possível perceber nele uma função comunicativa, um tema sobre o qual ele se
constrói? Podemos dizer que esse apanhando de palavras, que parece um texto,
possui uma continuidade e constitui uma unidade? Claro que não, concorda?
Esbarramos aqui, pois, com um não-texto.

Mas, nos resta então saber quais são os critérios que nos permitem reconhecer
um texto. Na literatura linguística, Beaugrande (1997) apresenta sete princípios de
textualidade que orientam nossa análise para identificar uma sequência de palavras
como texto ou não, além de eles servirem como parâmetros para nos certificar,
como produtores, se estamos elaborando algo que será identificado como um texto
e que tem chances de ser bem-sucedido em seu propósito comunicativo.

Os sete princípios são: a coesão, a coerência, a intencionalidade, a aceitabi-


lidade, a informatividade, a intertextualidade, a situacionalidade. Não nos detere-
mos muito nesses princípios, pois não é esse o objetivo desta unidade.

Vale saber, entretanto, que os princípios da coesão e da coerência, que


dizem respeito à continuidade e à unidade temática no texto, serão trabalhadas
especificamente em outra unidade. Quanto aos outros, apresentamos, a seguir,
uma breve definição:
1. a intencionalidade e a aceitabilidade remetem para a disponibilidade de
cooperação dos interlocutores envolvidos na interação verbal: o produtor,
de dizer somente o que tem sentido; e o ouvinte ou leitor, de fazer o esforço
necessário para processar os sentidos e as intenções expressas pelo produtor.
2. a situacionalidade é uma condição para que o texto aconteça, pois
todo texto ocorre em uma determinada situação comunicativa. Nenhum
texto ocorre no vazio, mas em um determinado contexto sociocultural. Se
pensarmos em uma palestra, ela faz parte de uma programação de um
evento e será determinada por ela em seus detalhes: tema, duração, público
a quem se dirige etc.
3. a informatividade diz respeito ao grau de novidade e de imprevisibilidade
que o texto traz dentro de uma dada situação comunicativa ou contexto.
Tanto uma como outra podem estar relacionadas à forma ou ao conteúdo
do texto, por exemplo: se na época de natal uma empresa divulga seus
produtos em anúncio de revista que se apresenta como cartas ao Papai Noel,
escritas por produtores de diferentes estilos e idades, há um grau de novidade
quanto à forma, pois não é esperado que o texto de uma propaganda venha
na forma de uma carta, e ainda mais dirigida ao Papai Noel! Podemos
dizer, então, que o texto possui um alto grau de informatividade, pois traz
novidade e imprevisibilidade quanto à forma e ao conteúdo. Ficou mais
fácil de entender esse princípio? Em geral, encontramos em textos criativos
e surpreendentes um alto grau de informatividade!

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UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

4. a intertextualidade – diz respeito à inserção, em um determinado texto, de


outro(s) texto(s) já existente(s), já em circulação. Fazemos isso diretamente
em citações teóricas, por exemplo em monografias, textos didáticos ou
dissertações; também podemos fazê-lo de maneira mais indireta quando
inserimos em um texto, um trecho, uma frase que remete a outro texto.
Observe:
Queridíssima,

Há muito tempo que não te escrevo. Notícias, poucas. Aqui na terra


estão jogando futebol. O seu Corinthians, olha, nem te conto. [...]
(Ivan Ângelo. Queridíssima. Revista Veja, 28 de nov. p 246)

O trecho acima faz parte de uma crônica do escritor Ivan Ângelo na revista
Veja. A frase destacada foi retirada da letra de uma canção de Chico Buarque de
Holanda e Francis Hime, “Meu Caro Amigo”, observe
Meu caro amigo me perdoe, por favor

Se eu não lhe faço uma visita

Mas como agora apareceu um portador

Mando notícias nessa fita

Aqui na terra ‘tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock’n’ roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta [...] (Letra completa
e a canção disponíveis em: <https://goo.gl/tccB9c>)

Sempre que lançamos mão do princípio da intertextualidade, como produtor,


temos uma intenção, um objetivo. Nesse caso, Chico Buarque e Francis Hime
criaram uma carta em forma de canção, durante a ditadura militar, para dar notícias
do Brasil para quem estava exilado. E a frase “aqui na terra tão jogando futebol”
é colocada no texto de forma irônica, pois ele fala de uma série de coisas normais
(chuva, samba) e depois conclui que “a coisa aqui tá preta”. Ou seja, embora pareça,
nada aqui anda bem.

Na crônica, o autor, Ivan Ângelo, utiliza a mesma frase com a mesma intenção,
em um mesmo contexto. No caso, ele escreve uma crônica em forma de carta, assim
como os compositores fizeram uma música em forma de carta. Além disso, Ivan
Ângelo, logo após inseri-la em seu texto, vai falar do time da amiga (“Corinthians”)
que não anda bem e, na sequência da crônica, também mostra que não é só o
futebol que não está dando certo no Brasil. Ao fazer um texto remeter a outro,
estamos muitas vezes reforçando os nossos objetivos com aquele texto, de forma
que o meu leitor possa percebê-los com mais facilidade. Para isso preciso contar

24
com os conhecimentos do meu interlocutor, não é mesmo? É necessário, ainda,
que o leitor da revista conheça a música de Chico Buarque para atribuir sentidos à
crônica e perceber os objetivos do autor.

Esses princípios nos remetem, então, à importância de estarmos sempre atentos


à relação entre os parceiros da interação verbal, produtor/locutor e leitor/ouvinte,
ou seja, os interlocutores da atividade comunicativa. Afinal, a interação verbal é
a realidade fundamental da língua. Isto quer dizer que, a produção de sentidos
nos textos não ocorre dentro da mente de cada interlocutor, mas numa atividade
conjunta entre eles, que surge na interação.

Toda interação verbal pressupõe comunicação, conversação e troca de


informações. Mas isso não ocorre apenas em práticas comunicativas on-line ou
face a face, mas também nas produções escritas. Nesse último caso, na escrita,
para que a interação ocorra de maneira bem-sucedida é preciso levantar hipóteses
sobre os interlocutores envolvidos, tanto para a produção quanto para a leitura,
organizar o texto, pensar bem nas escolhas das palavras, enfim, é preciso planejar
e se antecipar.

Vale destacar, portanto, que a interação é o lugar e o modo de funcionamento da


linguagem em relação à maneira como o sentido é construído na atividade textual.

Essa noção de interação verbal nos leva a perceber que tanto produtor
quanto leitor são sujeitos do fazer textual. Esse fato torna-os sujeitos complexos,
determinados e mobilizados do ponto de vista sociocultural para atuar por meio
da linguagem. Podemos definir esses interlocutores, pois, como atores sociais.
Assim como as práticas comunicativas são situadas, isto é, estão relacionadas
a um determinado contexto, produtor e leitor trazem para a interação verbal
suas experiências, vivências, conhecimentos, crenças e valores. Não produzimos
textos, não lemos textos e não falamos de maneira isenta. Sempre trazemos para
a interação verbal quem somos, o que sabemos, como vivemos. Por isso, dizemos
que os processos de leitura e de escrita não dependem apenas do domínio das
palavras, do material linguístico.

Vamos ver como isso ocorre analisando um pequeno texto?

Acompanhe o texto a seguir com atenção!

Circuito Fechado
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água,
espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água
fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras,
calça, meias, sapatos, telefone, agenda, copo com lápis, caneta, blocos de notas,
espátula, pastas, caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis,
cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone,
relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis.
Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro,

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UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro,
fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras,
copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo. Xícara. Maço de cigarros, caixa de
fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista,
copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis,
documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos.
Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros.
Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo,
papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo,
papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal,
cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos.
Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres,
copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo.
Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça,
cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
(Ricardo Ramos)

O texto de Ricardo Ramos é uma crônica, texto que tem o objetivo de relatar um
fato, contar uma história e também de fazer uma reflexão sobre aquilo que relata
ou conta.

Nesse caso, o autor faz isso usando apenas substantivos e a pontuação. Esse
fato mostra um alto grau de informatividade, pela novidade e imprevisibilidade que
traz. Em geral, usam-se verbos, adjetivos, advérbios, enfim, frases completas, para
elaborar um relato e contar uma história.

Além disso, podemos perceber os princípios de intencionalidade e aceitabilidade:


o autor ao selecionar apenas substantivos tem a intenção de surpreender o seu
leitor e chamar atenção para o que diz; ao mesmo tempo em que espera que seu
interlocutor compreenda o seu objetivo e utilize seus conhecimentos para isso.

Em relação à situacionalidade, podemos pensar que por se tratar de um texto


como a crônica, que circula no âmbito literário, o autor pôde lançar mão dessa
estratégia e surpreender o seu leitor, pois isso é admissível no âmbito da literatura.
O mesmo não ocorreria se estivéssemos no âmbito profissional, por exemplo, em
que não se admite essa quebra de expectativas. Os gêneros profissionais admitem
poucas mudanças.

Quanto à coesão e à coerência, observe que embora não haja frases completas,
conjunções que ligam orações nem mesmo marcadores temporais que mostrem
que as ações acontecem num tempo cronológico, a própria seleção de palavras,
que remete a diferentes momentos do cotidiano de um personagem, realiza esse
encadeamento de ações e compõe uma unidade no texto.

Ao fim da leitura, podemos compreender que se trata do relato de um dia da vida


de um profissional, que trabalha na área de publicidade/propaganda, um fumante,
solitário, cujo objetivo na vida é levantar, trabalhar e retornar para a sua casa, o
que leva a uma reflexão sobre o sentido da vida. Concorda? Podemos, com nossos
conhecimentos e analisando detidamente as palavras chegar a mais detalhes e

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encontrar outros sentidos para esse texto, pois esse é um bom exemplo de como
o produtor e leitor participam ativamente da produção de sentidos em um texto, e
como não utilizamos apenas as palavras na interação verbal.

Contexto
A partir da noção que estabelecemos de texto, em que estão imbricados aspectos
culturais, sociais e cognitivos, podemos compreender melhor a noção de contexto
e sua importância para a produção de sentidos.

Se, como vimos, o sentido não está somente nas palavras, mas é construído
na interação entre locutor-texto-interlocutor, então, estamos dizendo que em
toda a situação de interação os sujeitos orientam as suas ações (linguísticas e não
linguísticas) levando em conta o contexto.

Vejamos alguns exemplos: quando fazemos uma visita a um professor, não


agimos da mesma maneira quando visitamos amigos e parentes; ou uma mensagem
no WhatsApp que enviamos para o namorado é bem diferente daquela que
escrevemos para um chefe ou outra pessoa do trabalho, concorda?

Podemos dizer, então, que, em toda situação de interação, temos de levar em


conta os interlocutores, os conhecimentos que compartilhamos, o propósito da
comunicação, o lugar e o tempo em que nos encontramos, os papéis sociais que
assumimos e os aspectos históricos e culturais que estão aí implicados.

Em síntese, a noção de contexto engloba:


• as situações comunicativas, o tempo e o lugar;
• as determinações e condições socioculturais e históricas;
• as representações sociais compartilhadas (conhecimentos prévios e vivências
dos interlocutores);
• as relações dos participantes (médico/paciente; patrão /empregado);
• os objetivos/propósitos comunicativos (transferir ou buscar conhecimentos;
provocar o riso; aconselhar; orientar).

O contexto é, enfim, tudo aquilo que de alguma forma contribui para/ou


determina a construção do sentido (KOCH e ELIAS, 2006). É importante perceber
que o contexto não é apenas o entorno, o que está em volta do texto, mas todos
os elementos, internos e externos ao texto em si, que contribuem para a realização
desse evento comunicativo.

Seguindo adiante na apresentação dos conceitos que estão presentes nas


diferentes unidades desta disciplina, veremos que, ao interagir verbalmente por
meio de textos, estamos, na verdade, nos referindo aos gêneros textuais que
circulam socialmente. Vamos entender melhor isso?

Acompanhe a próxima seção!

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27
UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

Os Gêneros e as Esferas de Atividade


Toda vez que nos referimos às nossas interações verbais, na fala ou na escrita,
damos um nome a elas. Observe em nossos diálogos cotidianos que não dizemos:
“hoje recebi um texto”; ou então, “vou assistir a um texto do professor Gilberto
nesse congresso”, não é mesmo? Normalmente, vamos falar assim: “hoje recebi um
e-mail do escritório”; ou então, “vou assistir a uma palestra do Professor Gilberto
nesse congresso”, certo?

Sendo assim, formamos intuitivamente a noção de gêneros, que nada mais


são do que os textos materializados com que nos deparamos no nosso dia a dia.
Palestra, e-mail, carta, horóscopo, monografia, artigo científico, entrevista, notícias,
reportagem, editorial, conto, romance, receita culinária, manual de instrução, bula
de remédio, conferência, videoaula etc., são exemplos de gêneros com os quais
lidamos de maneira mais ou menos cotidiana.

A lista dos gêneros que circulam socialmente é muito extensa e não caberia aqui
tentar apresentá-la integralmente. O importante é apreender que esse conceito
está diretamente relacionado às esferas de atividade humana, ou seja, esferas de
comunicação verbal, como a jurídica, jornalística, religiosa, acadêmica, profissional
entre tantas outras.

Essas esferas de atividade são regidas por leis próprias, as quais determinam
a posição, os poderes, os deveres, os valores dos indivíduos que nelas atuam.
Em todos os campos de atuação humana, vamos encontrar gêneros específicos
que correspondem às práticas sociais comunicativas que lhes são próprias, por
exemplo: na esfera de atividade jornalística, vamos encontrar gêneros como a
notícia, a reportagem, o editorial, a carta do leitor, a entrevista etc.; já na esfera
acadêmica vamos encontrar a monografia, a dissertação, o artigo científico, o
resumo, a resenha, entre outros. Ficou mais clara essa relação entre gêneros e
esfera de atividade?

Vamos, então, completar a noção intuitiva que temos de gêneros: são textos
materializados que encontramos em nossa vida diária, que estão relacionados a
determinadas esferas de atividade, “que apresentam características sociocomunica-
tivas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição especí-
ficos” (MARCUSCHI, 2010, p.25).

28
Veja, a seguir em um exemplo, como podemos identificar essas características
sociocomunicativas em um gênero específico:

Um advogado e sua sogra estão em um edifício em chamas. Você só tem tempo pra salvar
Explor

um dos dois. O que você faz? Você vai almoçar ou vai ao cinema?

O gênero em questão é uma piada, que circula em uma esfera de atividade


pessoal, pública ou privada, ou seja, a piada ocorre em ambientes em que estamos
em um círculo de amigos ou de colegas de trabalho, ou nas redes sociais etc. Este
gênero, como todos os outros, apresenta algumas características sociocomunicativas
pelas quais pode ser identificado: tem como função (propriedades funcionais)
provocar o riso; é um texto para divertir; sua temática traz dois elementos bastante
presentes e comuns ao gênero: a sogra e os advogados, os quais, em geral, como
tipos sociais, desagradam as pessoas; o estilo e a composição são bem específicos
e identificáveis: texto curto, uma narrativa, que apresenta uma situação problema
e que surpreende na solução, sempre com a intenção de fazer graça. Além disso,
a linguagem em geral é utilizada em nível coloquial e em forma de diálogos ou
perguntas que se dirigem diretamente ao interlocutor.

Ficou mais fácil compreender esse conceito e suas propriedades?

Muitas são as linhas teóricas e os autores que se dedicam a estudar os gêneros,


pois esse é um rico conceito da linguística, que pode nos falar “da mente da
sociedade, da linguagem e da cultura”, conforme atesta Bazerman (2006, p.9). De
acordo com esse autor, “ o gênero dá forma às nossas ações e intenções”, por isso
sempre que vamos interagir verbalmente, precisamos escolher o gênero adequado
à determinada prática social e esfera de atividade. Essa escolha é uma decisão
estratégica que deve levar em conta os objetivos, o lugar social dos participantes, a
situação comunicativa, a composição e o estilo do texto.

Esses são alguns pontos aos quais devemos estar atentos em nossa vida aca-
dêmica e profissional ao interagir verbalmente, na fala e na escrita. Com certeza,
apreender a noção de gêneros vai nos auxiliar a lidar com os textos que circulam
socialmente, nas diferentes esferas em que atuamos pela linguagem. Lembrando
que dominar um gênero não é apenas dominar uma forma linguística e, sim, uma
forma de realizar linguisticamente objetivos específicos em situações sociais parti-
culares (MARCUSCHI, 2010, p.31).

Acreditamos que, nesta unidade, ampliamos nosso olhar sobre a língua que
usamos e sobre as atividades de linguagem relativas aos processos de leitura e
de escrita que teremos como desafio tanto na formação acadêmica quanto na
vida profissional.

29
29
UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

Relembramos que você deve elaborar uma ficha de estudos que contemple as
noções aqui apresentadas, que com certeza vai auxiliá-lo(a) no acompanhamento
da disciplina.

Como dissemos no início, vamos sempre contemplar no material teórico um


conteúdo gramatical. Nesta unidade, apresentamos o Novo Acordo Ortográfico.

Você está a par das mudanças que esse Acordo propõe? Na seção seguinte,
informe-se sobre o que muda e o que permanece no uso da língua em relação à
sua ortografia a partir desse Acordo. Bom trabalho!

O Novo Acordo Ortográfico


Como visamos nesta disciplina ampliar os conhecimentos gramaticais que a
norma urbana de prestígio segue e exige, destacamos o Novo Acordo Ortográfico,
vigente desde o ano de 2009, para os países lusófonos. No Brasil, sua implementação
obrigatória ocorreu a partir de 2012. Acompanhe um pouco da história desse
Acordo, a seguir.

Após muita polêmica entre os países lusófonos – atualmente representados por


Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo
Verde, Timor Leste e Guiné Equatorial –, o Congresso Nacional, o Ministério da
Educação do Brasil e o meio acadêmico, o Novo Acordo Ortográfico foi implantado.

Nessa trajetória, as maiores resistências ao acordo vieram de Portugal, justamente


o país que teve mudanças mais significativas. Os portugueses só ratificaram o
acordo em maio de 2008.

As primeiras tentativas de unificação ortográfica aconteceram no início do século


XX. No Brasil, já houve duas reformas ortográficas: em 1943 e em 1971. Ou seja,
um brasileiro com mais de 65 anos está vivenciando a terceira grande mudança em
relação à ortografia de sua língua.

Há muita gente que rechaçou a unificação, dizendo que havia coisas mais
importantes a fazer em relação à língua portuguesa. Quem defendeu, argumentou,
por exemplo, que o português está entre as línguas mais faladas no mundo, sendo
a única que ainda não estava unificada. Para entender melhor os prós e os contras,
leia a reportagem com o professor Evanildo Bechara acessando o link:

Gramático Evanildo Bechara defende novo acordo ortográfico


Explor

https://goo.gl/F1E039

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A seguir, apresentamos uma síntese das principais mudanças que o Novo Acordo
Ortográfico propõe. Leia com atenção para que possa aplicar essas mudanças na
produção escrita em suas esferas de atividades acadêmica e profissional.

Saiba o que muda com o Novo Acordo Ortográfico


1. Alfabeto - ganha três letras.

Antes: 23 letras

Depois: 26 letras, entram k, w e y

2. Trema - desaparece em todas as palavras.

Antes: freqüente, lingüiça, aguentar.

Depois: frequente, linguiça, aguentar.

*Fica o acento em nomes como Müller

3.1 Acentuação – some o acento dos ditongos abertos éi e ói das palavras


paroxítonas (as que têm a penúltima sílaba mais forte).

Antes: européia, idéia, heróico, apóio, bóia, asteróide, Coréia, estréia, jóia,
platéia, paranóia, jibóia, assembléia.

Depois: europeia, ideia, heroico, apoio, boia, asteroide, Coreia, estreia, joia,
plateia, paranoia, jiboia, assembleia.

*Herói, papéis, troféu mantêm o acento (porque têm a última sílaba mais forte).

3.2 Acentuação – some o acento no i e no u fortes, depois de ditongos (junção


de duas vogais), em palavras paroxítonas.

Antes: Baiúca, bocaiúva, feiúra

Depois: Baiuca, bocaiuva, feiura

*Se o i e o u estiverem na última sílaba, o acento continua como em: tuiuiú ou Piauí.

3.3 Acentuação – some o acento circunflexo das palavras terminadas em êem


e ôo (ou ôos.)

Antes: Crêem, dêem, lêem, vêem, prevêem, vôo, enjôos.

Depois: Creem, deem, leem, veem, preveem, voo, enjoos.

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UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

3.4 Acentuação – some o acento diferencial

Antes: Pára, péla, pêlo, pólo, pêra, côa

Depois: Para, pela, pelo, polo, pera, coa


*Não some o acento diferencial em pôr (verbo) / por (preposição) e pôde (pretérito) /
pode (presente). Fôrma, para diferenciar de forma, pode receber acento circunflexo.

3.5 Acentuação – some o acento agudo no u forte nos grupos gue, gui, de
verbos como averiguar, apaziguar, arguir, redarguir, enxaguar.

Antes: Averigúe, apazigúe, ele argúi, enxagúe você.

Depois: Averigue, apazigue, ele argui, enxague você.

Observação: as demais regras de acentuação permanecem as mesmas.

4. Hífen – veja como ficam as principais regras do hífen com prefixos:

Prefixos Usa-se hífen Não se usa hífen


Agro, ante, anti, arqui, auto, contra, Quando a palavra seguinte começa Em todos os demais casos:
extra, infra, intra, macro, mega, com h ou com vogal igual à última autorretrato, autossustentável,
micro, maxi, mini, semi, sobre, supra, do prefixo: autoanálise, autocontrole,
tele, ultra... auto-hipnose, auto-observação, antirracista, antissocial, antivírus,
anti-higiênico, anti-herói, anti- minidicionário, minissaia,
imperalista, micro-ondas, mini-hotel minirreforma, ultrassom
Hiper, inter, super Quando a palavra seguinte Em todos os demais casos:
começa com h ou com r: hiperinflação, hipermercado,
super-homem, inter-regional supersônico
Sub Quando a palavra seguinte
Em todos os demais casos:
começa com b, h ou r:
subsecretário, subeditor
sub-base, sub-reino, sub-humano
Vice Sempre: vice-rei, vice-presidente
Pan, circum Quando a palavra seguinte
Em todos os demais casos:
começa com h, m, n ou vogais:
pansexual, circuncisão
pan-americano, circum-hospitalar
Fonte: www.g1.com.br

Para pesquisar e aprofundar seus estudos sobre o Novo Acordo Ortográfico,


encontram-se disponíveis para consulta valiosas informações sobre as alterações
resultantes desse acordo ortográfico entre os países lusófonos. Seguem indicações
de links para acesso e consulta:
e) Guia Prático da Nova Ortografia. Michaelis - Saiba o que mudou na
ortografia brasileira, de Douglas Tufano (Fonte: https://goo.gl/eCq82h)
f) E para consultas rápidas, para que você não erre em relação às mudanças
do Novo Acordo Ortográfico, consulte sempre o VOLP- Vocabulário
Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras no link:
(Fonte: https://goo.gl/kUsc5z)

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Livros
Guia Prático da Nova Ortografia
De Maurício Silva e Elenice Alves da Costa, Editora Contexto, 2012.

Vídeos
Diversidade Linguística e Escola
https://youtu.be/wgVvSE-br-Y
Fala e Escrita
Sobre a fala e a escrita assista ao professor Marcuschi, que traz alguns elementos e
aspectos interessantes sobre essas duas modalidades no link:
https://youtu.be/XOzoVHyiDew

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UNIDADE O Uso da Língua Portuguesa em Diferentes Contextos

Referências
ANTUNES, I. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola, 2005.

________. Muito Além da Gramática. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

________. Análise de Textos Fundamentos e Práticas. São Paulo: Parábola


Editorial, 2010.

BAZERMAN, C. Gênero, agência e escrita. São Paulo: Cortez, 2006.

BEAUGRANDE, R. New foundations for a science of text and discourse:


cognition, communication and freedom of access to knowledge and society.
Norwood, New Jersey: Ablex Publishing Corporation, 1997.

BECHARA, E. Moderna Gramática Portuguesa. Edição Revista e Ampliada. Rio


de Janeiro: Lucerna, 2004.

CHARAUDEAU, P. Linguagem e Discurso: modos de organização. 2. ed., São


Paulo: Contexto, 2014.

FARACO, C.A. Norma Padrão Brasileira. Desembaraçando alguns nós. In:


BAGNO,M.(org) Linguística da Norma. São Paulo: Edições Loyola, 2002,
p.37-61.

FÁVERO, L. L.; ANDRADE, M. L. O.; AQUINO, Z. Oralidade e escrita:


perspectivas para o ensino de língua materna. São Paulo: Cortez, 2002.

KOCH, I.. O texto e a construção de sentidos. São Paulo: Contexto, 2003.

KOCH, I. V.; ELIAS, V. M. Ler e Compreender os sentidos do texto. São


Paulo: Contexto, 2006.

MAC-KAY, Ana Paula M.G. Atividade Verbal: processo de diferença e integração


entre fala e escrita. São Paulo: Plexus, 2000.

MARCUSCHI, L. A. Cognição, linguagem e práticas interacionais. Rio de


Janeiro: Lucerna, 2007.

________. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONÍSIO, A. P.;


MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (Org.) Gêneros textuais e ensino. São Paulo:
Parábola, 2010.

________. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo:


Parábola, 2008.

PRETI, Dino. Sociolinguística: os níveis de fala. São Paulo: Edusp, 2003.

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Língua Portuguesa
Material Teórico
Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Sílvia Augusta Barros Albert

Revisão Textual:
Profa. Esp. Márcia Ota
Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos,
Ativos e Colaborativos

• O que é Ler?
• O que é escrita?
• A Concordância Verbal: um Recurso Estratégico para a
Leitura e a Escrita

OBJETIVO DE APRENDIZADO
··Compreender o processo de leitura e de escrita como processos
inseridos em situações de comunicação, que dependem da
participação ativa e colaborativa do produtor de texto e do leitor
para a produção de sentidos;
··Apreender a dinâmica, as estratégias e procedimentos concernentes
aos processos de leitura e escrita em diferentes contextos.
··Aprimorar conhecimentos a respeito da concordância verbal.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como o seu “momento do estudo”.

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
UNIDADE Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

Introdução
Os limites da minha linguagem são os limites de meu mundo.
(Ludwig Wittgenstein)

[...] o que há de mais belo na escrita é a tensão entre o que está escrito e o
que há por escrever, é o uso de uma liberdade que assume todos os riscos
ao imprimir sua marca. (Picard)

Nesta unidade, vamos abordar a leitura e a escrita como processos inseridos


em situações de comunicação, que dependem da participação ativa e colaborativa
do produtor de texto e do leitor para a produção de sentidos. Vamos conhecer
algumas estratégias para realizar leituras mais proveitosas, principalmente no
âmbito acadêmico, além de apresentar uma concepção de escrita como uma
atividade humana, em que estão implicados aspectos cognitivos e sociais, que tem
como base a interação. Afinal, sempre escrevemos para alguém.

Para começar a pensar nos temas dessa unidade, que estão sempre bastante
interligados, isto é, a leitura e a escrita se alimentam reciprocamente, selecionamos
um curta-metragem que ganhou o Oscar em 2012. Trata-se do filme “The fantastic
flying books by Mr. Morris Lessmore”, uma alegoria bem-humorada sobre o poder
curativo das histórias, que necessariamente vai abordar tanto a leitura quanto a
escrita de histórias. A partir de uma variedade de técnicas (miniaturas, computação
gráfica, animação), o premiado autor/ilustrador William Joyce e o codiretor
Brandon Oldenburg apresentam um estilo híbrido de animação que remete tanto
aos filmes silenciosos quanto aos musicais Technicolor da MGM.

Os fantásticos livros voadores do Senhor Lessmore


Explor

https://youtu.be/wDkfhwRlcZw

E, então? Assistiu? Gostou? É uma maneira prazerosa de aprender sobre a


leitura e a escrita, e de constatar a importância desses dois processos na vida de
todos nós.

Agora, vamos aprender um pouco mais sobre esses dois importantes processos
de uma outra maneira! Esperamos que gostem também.

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O que é Ler?
Antes de definir o que é ler, é importante distinguir informação de conhecimento.
A informação é adquirida sempre que estamos em contato com as coisas do mundo.
Quanto mais atentos ficarmos às informações, para estabelecer relações com os
conhecimentos que já possuímos, mais conhecimento e melhor desempenho
teremos, tanto acadêmico quanto profissional.

Atualmente, o acesso ilimitado à rede de informações favorece muito esse


contato nas diferentes situações do cotidiano. Temos, portanto, importante papel
ativo na construção desse conhecimento, que se produz pelo estabelecimento de
relações entre as mais diversas informações, sobre as quais refletimos, atribuímos
sentido e transformamos em conhecimento.

Nesse processo, a leitura se constitui como uma habilidade decisiva para a


construção do conhecimento. É muito comum as pessoas dizerem que não gostam
de ler e que não leem com frequência. Para muitas pessoas, ler é apenas decodificar
a mensagem para depois, reproduzi-la. Para outros, a dificuldade de memorizar
tudo o que leem leva ao distanciamento do ato de ler e consequente rejeição da
leitura. Alguns acreditam que não se produz conhecimento enquanto não houver
maturidade para isso.

Quando acreditamos que somos capazes apenas de reproduzir informações e


não de produzir conhecimento é como se, ao entrarmos na escola ou na faculdade,
tivéssemos acabado de nascer e não fôssemos capazes de ter ideias próprias,
não fôssemos capazes de pensar, refletir e criar. Esse pensamento é prejudicial,
por transformar-se num bloqueio para o leitor que acredita não ser capaz de
compreender o que um texto diz. Então, muitas pessoas acabam não lendo por
causa do mito da incapacidade.

Ler não é simplesmente decodificar letras. Não lemos apenas palavras, mas
também imagens, gestos, expressões faciais, comportamentos e atitudes. Ler é
compreender o mundo que nos cerca. Ler é tomar contato com o pensamento
do outro para poder criar o próprio pensamento. Para tanto, não podemos ficar
passivos diante de um texto; devemos ser um leitor crítico que pode concordar ou
discordar, que pode criar novas ideias a partir da leitura. Nesse sentido, ler não é
“compreender o que o texto diz”, mas atribuir sentidos ao texto.

Ler é a chave do conhecimento; tanto a leitura de um texto quanto a leitura da


realidade mais ampla: a do mundo. Para Freire (1985, p.22), “a leitura do mundo
precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da
leitura daquela”.

Essa frase de Freire nos remete à importância dos nossos conhecimentos prévios
e das experiências vividas para a construção dos sentidos dos textos que lemos e
reforça a ideia de que a compreensão só ocorre quando estabelecermos relações
entre as informações do texto e os conhecimentos que já possuímos.

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UNIDADE Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

Mas por que, então, achamos que não lemos? E mais: será que lemos apenas
quando estamos com um livro na mão? É fato que estamos acostumados a relacionar
a leitura apenas a livros. Além disso, é comum nos referirmos à leitura pensando
apenas na decodificação de palavras.

No entanto, nos dias de hoje, é bastante complicado afirmar que uma pessoa que
está conectada à modernidade não leia absolutamente coisa alguma. É só pararmos
para refletir no nosso dia a dia para constatarmos quantas vezes estamos em contato
com a leitura. Lemos tanto o destino do transporte que iremos usar quanto os e-mails
de trabalho e outros documentos, só para citar algumas ações rotineiras.

A sensação de que não lemos se deve ao fato de que muitos de nós não têm o
hábito de ler com o objetivo de entretenimento ou de busca de conhecimento. Em
uma pesquisa realizada em 2015 pelo IBOPE, a pedido do Instituto Pró-livro, 44%
dos participantes disseram não ter folheado um livro nos três meses anteriores.
Mas é certo que estamos sempre em busca de informações. Mesmo assim, poucas
vezes, lemos textos formais como jornais, revistas, livros etc. E, mesmo quando os
lemos, raramente refletimos sobre essas leituras.

Na vida acadêmica, entretanto, a leitura assume outras funções, extremamente


importantes para o nosso desenvolvimento tanto acadêmico quanto profissional.
Na vida acadêmica e profissional, ler não é uma ação gratuita. A leitura deve
ser sempre orientada por um objetivo preciso: informar-se, selecionar e coletar
informações, condensar e reformular informações.

Resumindo, na universidade, ler significa apropriar-se de uma informação,


relacioná-la aos nossos conhecimentos para produzirmos novo conhecimento.
Dessa perspectiva, ler não significa descobrir algo desconhecido; significa, ao
contrário, partir de experiências e conhecimentos para construir hipóteses a
respeito do que lemos e, durante a leitura, confirmá-las ou descartá-las. Ler é
atribuir sentidos ao que lemos.

Leitura: Um Processo Ativo e Dinâmico


A leitura é um processo cognitivo único para qualquer indivíduo, em qualquer
língua. O termo cognitivo está relacionado ao processo mental de percepção,
memória, construção de relações, avaliação e compreensão. E o ato de ler, como
veremos a seguir, solicita um trabalho mental importante.

A diferença entre um leitor proficiente, isto é, um leitor competente, que possui


um bom aproveitamento sobre o que lê, e um leitor inexperiente, não reside apenas
no processo de estabelecer sentidos a partir do texto, mas na maneira como cada
um deles dinamiza esse processo, tanto desenvolvendo estratégias (de seleção, de
predição e de inferência) como também utilizando os conhecimentos já adquiridos,
ou seja, os conhecimentos prévios para compreender o que lê.

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Aprender a ler com eficiência implica, pois, o desenvolvimento de estratégias e a
utilização de conhecimentos prévios. O sentido é criado a partir do texto, entretanto,
conseguir atribuir sentidos ao texto depende do que o sujeito-leitor armazena na
memória e da maneira como ele ativa sua memória no momento da leitura.

Nossa memória tem uma capacidade de armazenamento muito grande. Tudo


aquilo que aprendemos e que vivemos fica ali “guardado”. Quando nos deparamos
com situações novas, ou com um novo texto, nossa memória é ativada: ela fornece
os dados armazenados que podem ter relação com a informação nova e estabelece
as relações necessárias para, a partir da informação fornecida pelo texto e os
conhecimentos ativados pela memória, sermos capazes de construir sentidos na
leitura do texto. Por isso, dizemos que nossa memória “trabalha”; ela efetivamente
nos ajuda a ler e compreender.

Além disso, quanto mais atento o leitor estiver ao trabalho de sua mente durante
a leitura, quanto mais procurar conscientemente os conhecimentos necessários
para a construção dos sentidos, mais produtiva ela será. Essa atitude diligente é
essencial na leitura de textos acadêmicos, por exemplo.

Tudo isso ocorre porque a característica mais importante do processo da leitura


é a atribuição de sentidos ao texto. O sentido é construído e reconstruído durante
a leitura e releitura; a cada informação nova com que nos deparamos, a memória
ativa outros conhecimentos e nós estabelecemos novas relações, novos sentidos.
Durante e após a leitura, o leitor continuamente reavalia e reconstrói o sentido na
medida em que obtém novas percepções.

Você já havia pensado a leitura sobre essa perspectiva? Como pudemos constatar,
a leitura é um processo dinâmico e muito ativo, que exige a postura interativa do
leitor que anseia por se tornar proficiente, ou seja, competente, na transformação
da informação em conhecimento.

Veja no curta, a seguir, uma experiência de transformação de um leitor inexperiente:

Meu amigo Nietzche


Explor

(de Fáuston da Silva, ficção, DF, 2012, 16mm, 15’)


Um garoto encontra um livro de filosofia. O improvável encontro será o início de uma
violenta revolução em sua mente, na vida de sua família e na sociedade. Ao final, ele não
será mais um garoto. Será uma dinamite.
https://youtu.be/FroyMvgYfm0

Percebeu como a leitura tem um poder transformador? Vamos continuar, então,


a nossa leitura.

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UNIDADE Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

A Importância dos conhecimentos prévios para a leitura


A compreensão de um texto somente é possível se o leitor já possuir previamente
algum conhecimento do qual possa partir para processar as informações contidas
no texto: só se compreende o que não se conhece a partir do já conhecido. Não é
interessante pensar que há sempre um aproveitamento de nossas leituras anteriores
para a leitura que estamos fazendo nesse momento?

Nossas leituras dependem, portanto, em grande parte, dos conhecimentos que


já possuímos, ou seja, de nossos conhecimentos prévios. As leituras que precedem
a leitura em questão, os conhecimentos adquiridos de maneira formal, ou não,
são fatores que possibilitam uma boa interpretação e compreensão do texto e a
atribuição de sentidos ao que se lê. Um médico, por exemplo, tem mais facilidade
em ler e compreender os efeitos colaterais explicitados em uma bula de remédio do
que um leigo, pois estudou sobre o assunto e o conhece.

Além disso, o sentido de um texto não é construído somente por meio de


elementos explícitos; a compreensão constitui um processo que requer um cálculo
mental. As inferências constituem um exemplo prototípico de cálculo mental, pois
elas são o processo pelo qual o leitor adquire informação partindo de informações
textuais explicitamente apresentadas e levando em conta o contexto.

Podemos definir inferência como um processo que permite gerar novos sentidos,
ou novas informações a partir do estabelecimento de relações entre as informações
que estão explícitas no texto e os nossos conhecimentos. Assim, por exemplo, a
partir da piadinha a seguir:

A professora perguntou para Nino:


- Você tem sete bombons. Como é que você faz para dividir com a sua irmãzinha?
E o Nino responde:
- Dou quatro para mim e três para ela.
- O que é isso, Nino? Você ainda não sabe dividir?
- Eu sei. Mas minha irmã não sabe...

Podemos inferir, com base nas informações explícitas no texto, que Nino é
malandro, ou seja, deseja tirar vantagem da falta de conhecimento da irmãzinha,
pois, consciente de que ela não sabe fazer a operação de divisão, tem a intenção de
enganá-la. Essa informação não está dita explicitamente no texto, mas a diferença
na quantidade de bombons que ele distribuirá, a qual está colocada claramente
no texto, é vantajosa a seu favor. As informações presentes no texto associadas
a nossos conhecimentos socioculturais sobre o comportamento das pessoas nos
permitem construir uma avaliação a respeito do personagem. Essa avaliação se dá
por um processo inferencial.

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Outro exemplo:

Um cão atravessava o rio com um pedaço de carne na boca. Quando viu seu reflexo
na água, pensou que fosse outro cão carregando um pedaço de carne ainda maior.
Soltou então o pedaço que carregava e se jogou na água para pegar o outro.
Resultado: não ficou nem com um nem com outro, pois o primeiro foi levado pela
correnteza e o segundo não existia.
In: Fábulas de Esopo. Tradução de Antônio Carlos Vianna. Porto Alegre: L&PM, 1997.

Com base na leitura dessa fábula, podemos inferir que a ambição excessiva não
traz benefícios. O texto não traz essa informação de forma explícita, mas os fatos
narrados nos conduzem a essa conclusão, por um processo de raciocínio inferencial
que uniu informações do texto ao que já conhecíamos previamente.

O conceito de conhecimento prévio engloba, ainda, conhecimentos de diversas


ordens: sobre a língua e seu funcionamento, sobre os textos e suas estruturas,
sobre o mundo em geral, sobre a especificidade da situação de comunicação, além
daqueles adquiridos por meio das experiências pessoais do leitor.

Podemos identificar, portanto, pelo menos três grandes conjuntos de conheci-


mentos prévios: o conhecimento linguístico, o conhecimento textual e o conhe-
cimento de mundo. Obviamente, esses três grandes conjuntos de conhecimentos
se articulam e a ativação de todos eles permite ao leitor transformar uma estrutura
isolada e fragmentada na memória numa entidade mais completa e coerente.

O conhecimento linguístico representa a competência do falante em relação


à gramática de sua língua materna que, por sua vez, permite ao leitor perceber
a maneira pela qual o texto foi tecido: sua ligação interna, sua textualidade, sua
unidade. É um dos tipos de conhecimento do qual o indivíduo lança mão, por
exemplo, quando se depara com uma situação de ambiguidade. Além disso, esse
tipo de conhecimento nos permite reconhecer quando alguém está falando uma
língua que não é a língua portuguesa. Ao ler uma frase como: “Questa bambina
non é mai tornata a casa!”, sabemos que ela não está escrita em português, mesmo
tendo reconhecido a palavra casa.

O conhecimento textual é construído pela convivência com diferentes textos


em diferentes situações. Kleiman (1997) ressalta que “quanto mais conhecimento
textual o leitor tiver, quanto maior a sua exposição a todo tipo de texto, mais fácil
será a sua compreensão”. E o conhecimento de diferentes gêneros também é
essencial, pois é o que nos permite reconhecer um conjunto de enunciados como
um conto e não como uma receita, por exemplo.

Esse conhecimento permite ainda ao leitor direcionar suas expectativas frente


aos textos, tornando possível que, diante de um texto predominantemente
narrativo, o leitor espere encontrar personagens, conflito, ação, temporalidade
e, diante de um texto predominantemente argumentativo, procure encontrar a
defesa de uma tese.

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UNIDADE Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

O conhecimento de mundo corresponde ao conjunto de conhecimentos que


o leitor adquiriu em seu processo de aprendizado formal e informal, incluindo
também suas experiências pessoais. É fato, por exemplo, que indivíduos de uma
mesma cultura compartilham conhecimentos que foram adquiridos, na maioria das
vezes, informalmente.

O que torna o conhecimento de mundo decisivo para o estabelecimento


de sentido de um texto é a necessidade de haver correspondência entre os
conhecimentos ativados a partir do texto e o conhecimento de mundo armazenado
pelo leitor em sua memória. Se essa correspondência não se efetiva, não se atribui
sentidos ao texto, pois não se estabelecem relações entre os elementos do texto e
os de mundo.

Além disso, haverá mais dificuldade de estabelecer as relações entre as


informações do próprio texto, como também de ampliá-las. Esse conhecimento
permite que o leitor possa completar, com segurança, as lacunas de um texto.

Observe como acionamos vários conhecimentos prévios para compreender o


texto a seguir:

Por que a mulher do Hulk se divorciou dele?


Porque ela queria um homem mais maduro.

Fonte: http://confiar.atspace.com/curtas_boas

Só atribuímos sentidos a esse texto se acionarmos nosso conhecimento textual


e percebermos que se trata de uma piada. Além disso, precisamos acionar nosso
conhecimento de mundo para nos lembrarmos que Hulk é um personagem, um
super-herói de força extraordinária, que possui a cor verde. Esse conhecimento é
essencial para entendermos a graça da piada, pois a cor verde entra em oposição
com o adjetivo maduro. E, então, precisamos de nosso conhecimento linguístico
para nos lembrarmos dos dois sentidos possíveis para esse adjetivo: maduro (estágio
que o fruto está pronto para ser colhido, em oposição a verde) e maduro (atribuído
às pessoas que não são mais crianças, que têm atitudes adultas; responsáveis).

Veja quantos conhecimentos precisamos acionar para atribuir sentidos a uma


piada, um gênero nada extenso e informal! Imagine em um texto teórico!

Evidentemente, se a experiência de mundo do autor for muito diferente da do


leitor, problemas de compreensão poderão ocorrer e cuidados extras terão que ser
tomados, como por exemplo, uma pesquisa de dados referentes ao texto que será
lido. Se o texto trata de questões culturais do oriente, o leitor do ocidente pode
ampliar seu conhecimento de mundo com outras pesquisas e leitura.

Ao nos depararmos com um texto que trata de um assunto desconhecido ou


pouco conhecido, devemos procurar informações fora do texto, pesquisar em
outras fontes de referência, a fim de compreender melhor o texto. Essa é uma boa
estratégia de leitura. Aliás, esse é nosso próximo assunto. Leia com atenção!

14
Estratégias de leitura na esfera de atividade acadêmica
Geralmente, utilizamos intuitivamente uma série de estratégias para ler um texto,
sem nos darmos conta de que estamos trabalhando ativamente para compreendê-
lo. As estratégias de leitura são ações que fazemos para atribuir sentido ao que
lemos. Podemos compará-las, por exemplo, com as estratégias utilizadas por um
treinador em um jogo de futebol para vencer uma disputa no campeonato.

No nosso caso, as estratégias de leitura dependem muito do gênero do texto.


Por isso, a estratégia utilizada na leitura de um romance não é a mesma que se
usa para a leitura de um texto acadêmico ou teórico. Se continuarmos a nossa
comparação, o técnico de futebol também usará estratégias diferentes para cada
time adversário, não é mesmo?

Vale lembrar ainda que as estratégias para compreender os textos que lemos
dependem dos objetivos da leitura. Quando lemos um romance, por exemplo,
normalmente estamos procurando nos distrair, lemos por prazer e temos de lê-lo do
início ao fim para compreender seu sentido; diferentemente da leitura de um gênero
acadêmico ou de uma obra teórica, que lemos para estudo, para ampliar nossos
conhecimentos, para fazer uma prova, o que exige seguir a ordem dos capítulos.

Vamos sistematizar um pouco essas estratégias?

Lembre-se: as dicas que apresenta-


mos a seguir são direcionadas para
a leitura de textos para estudos.
Afinal, na vida acadêmica é impor-
tante lançar mão de estratégias de
forma consciente.

Então, acompanhe, a seguir, a apresentação de algumas etapas que auxiliam a


compreender melhor os textos para seus estudos:

Antes de começar a ler o texto propriamente, explore-o um pouco, de forma


global, a fim de apreender, brevemente, a imagem do documento escrito:
·· Observe o que circunscreve o texto: os outros textos e/ou as ilustrações
que estão em torno dele.
·· Tome consciência da extensão do texto (quantas páginas) a fim de
planejar o tempo que despenderá na leitura (não adianta, por exemplo,
deixar para ler um texto de 20 páginas trinta minutos antes do início da
aula para a qual o professor pediu a leitura).
·· Tome conhecimento do título do texto e dos subtítulos, pois eles fornecem
pistas sobre o assunto que será desenvolvido.

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UNIDADE Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

·· Observe a apresentação e o estilo: uma expressão em negrito, por exemplo,


pode indicar um elemento para o qual o autor quer chamar a atenção dos
leitores; um texto em itálico ou entre aspas pode indicar uma citação ou
uma ressalva por parte do produtor do texto.
·· Procure identificar quem é o autor do texto e informe-se sobre ele.
·· Observe o gênero do texto, pois os gêneros têm características próprias de
organização de acordo com a sua função.

Após ter se preparado para ler o texto, é importante fazer uma leitura rápida,
mas integral, sem deter-se em palavras e estruturas desconhecidas ou complexas:
·· Dirija a atenção às estruturas e expressões identificáveis, conhecidas, para
apreender a ideia principal ou a tese desenvolvida no texto (lembre-se de que
compreendemos um texto a partir de nossos conhecimentos já armazenados
na memória).
·· Releia, atentamente, a introdução e a conclusão, pois elas trazem informa-
ções globais.

Depois de passar por essas duas etapas, você estará preparado para uma boa
leitura, que certamente será mais seletiva:
·· Inicie a leitura com a identificação das palavras e expressões desconhecidas e
a elaboração de um vocabulário do texto, recorrendo ao dicionário.
·· Em seguida, passe à leitura seletiva propriamente, que consiste em sublinhar
no texto:
a) As expressões, as palavras e as frases-chave que exprimem as ideias mais
importantes do texto.
b) As expressões que indicam a articulação do texto.
c) As passagens significativas que revelam o desenvolvimento das ideias
mais importantes (eliminando os exemplos ilustrativos, as enumerações, as
repetições, as redundâncias).

Para garantir o bom aproveitamento do texto e para não ter que voltar a lê-lo
integralmente quando tiver que retomá-lo para estudos, aconselhamos que, depois
de passar por essas três etapas, você sistematize as informações do texto lido, por
meio um esquema, ou seja, um plano do texto lido. Esse plano pode ser muito útil
na hora de estudar para a prova, por exemplo.

Para a elaboração do plano, siga os seguintes passos:


·· Extraia de cada parágrafo as ideias ou expressões essenciais e resuma-as
em uma palavra-chave ou em um título.
·· Extraia as ideias secundárias ou complementares e também as resuma em
uma palavra-chave ou em um subtítulo, logo abaixo das ideias principais.
·· Anote os elementos de articulação lógica entre cada ideia importante
a fim de conservar a organização global do texto.

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Elabore o plano do texto lido, organizando de forma hierárquica os elementos
que você levantou.

Esperamos que, a partir do conhecimento dessas estratégias, você esteja mais


incentivado a realizar as leituras na sua formação acadêmica de maneira ativa e que
se sinta mais instrumentalizado a realizá-las de maneira a atribuir sentidos ao que
lê. Esse é o momento de desenvolver a sua proficiência leitora que será de muito
auxílio em sua vida profissional!

Em Síntese Importante!

A leitura de gêneros acadêmicos e de obras teóricas permite assimilar que:


• O processo de leitura vai muito além da decodificação de palavras.
• O leitor lança mão de sua memória e trabalha ativamente para compreender o texto.
Afinal, ler é atribuir sentidos ao que lemos.
• O leitor recorre a seus conhecimentos prévios para ser ativo durante a leitura, isto é,
ele recorre àquilo que já aprendeu.
• Os conhecimentos prévios podem ser de três ordens diferentes: conhecimento
linguístico (domínio da língua, de sua gramática, etc.) conhecimento textual
(reconhecer diferentes gêneros/modos ou formas textuais de dizer) e conhecimento
de mundo (o que corresponde às experiências e vivências do leitor, a bagagem que
acumulou durante a trajetória de leitor ou convivência em determinada cultura e
ambiente social).
• O leitor deve recorrer conscientemente não só a seus conhecimentos prévios no
momento da leitura, mas também estabelecer estratégias de leitura, isto é, efetuar
uma série de ações que o auxiliem a atribuir sentidos ao texto, produzindo novos
conhecimentos, tornando-se, assim, um leitor cada vez mais proficiente.

O que é escrita?
É importante ter claro que, da perspectiva que tomamos a escrita, não a vemos
como uma técnica, da mesma forma que não tomamos a língua como código e o
leitor/produtor de textos como um reprodutor de discursos.

Antes, adotamos a escrita, isto é, o ato de escrever, não só como um ato de


liberdade e de expressão individual, mas também como uma forma de inserção na
sociedade. O uso da linguagem, conforme observa Charaudeau (2014), permite ao
homem constituir comunidades em torno de “um desejo de viver juntos”, e institui-se
como “um poder, talvez o primeiro poder do homem” (CHARAUDEAU, 2014, p.7).

Entendemos a escrita, portanto, como uma atividade humana, sociocultural e


historicamente marcada, inserida em práticas sociais, como uma possibilidade de
reflexão e de inserção no mundo.

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UNIDADE Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

Sendo assim, de acordo com Olson (1997), o domínio da escrita é uma condição
ao mesmo tempo cognitiva e social e depende de saber utilizar os procedimentos
para agir sobre a linguagem e pensar sobre ela, sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Em tempos de novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs),


de novas mídias e das redes sociais, em que se difunde a crença e se acredita,
efetivamente, que elas são autossuficientes e caminham independentemente do
labor do homem, é preciso ampliar o horizonte de conhecimentos e se propor à
reflexão. A exacerbação dessa crença na tecnologia sem a presença do humano
pode levar a linguagem a um esvaziamento de sentidos. Enquanto a cultura das
TICs, das novas mídias e das redes sociais enfatizam a velocidade, a instabilidade
e a vulnerabilidade, a cultura da escrita segue em caminho oposto, e é preciso
observá-la de uma perspectiva em longo prazo, como um espaço para o pensar
e refletir. É preciso achar o equilíbrio entre esses dois lados, pois, com certeza,
ambos oferecem possibilidades de comunicação e de interação, e podem contribuir
muito para o desenvolvimento e para novas conquistas do homem em sociedade.

Na concepção de escrita que adotamos aqui, o sujeito, produtor de textos, é


um ator social, o que o torna um sujeito complexo, determinado e mobilizado do
ponto de vista sociocultural para atuar por meio da linguagem. Além disso, é no
ato de escrever que esse sujeito pensa sobre o uso da língua de maneira consciente
e, assim, transforma-se em um estrategista, que levará em conta em suas escolhas,
tanto os conhecimentos, linguístico, textual e de mundo que possui, quanto a
situação de comunicação, o interlocutor e os propósitos comunicativos.

Nesse sentido, Olson (1997), afirma que “escrever nos transforma de falantes em
usuários da língua” e que, por essa razão, “a escrita é primordial no que se refere à
consciência linguística” (OLSON, 1997, p. 280-281). Para ele, o aprendizado da
leitura e da escrita é tomado erroneamente por professores e educadores quando o
concebem como uma habilidade a ser treinada e não como uma aquisição intelectual.
Se escrevemos só para a avaliação e para sermos promovidos ao ano escolar
seguinte, corremos o risco de tornar a escrita vazia, um dizer nada a ninguém, com
nenhuma razão em particular, como bem alerta Bazerman (2006, p.15).

Sendo assim, acreditamos que para escrever é preciso construir referências, no


sentido de reapresentar o mundo com base em nossos conhecimentos, crenças
e julgamentos, isto é, com base na bagagem sociocultural que formamos durante
toda a vida e que depende das práticas sociais em que estamos envolvidos, dos
nossos propósitos e do diálogo, colaborativo ou não, que estabelecemos com o
outro. Não se trata apenas de dominar a língua como um código, desvinculado,
pleno de regras do bem escrever.

Bazerman (2006) observa, ainda, que a escrita nos fornece os meios pelos
quais deixamos traços de nossa existência, nossas condições de vida, nossos
pensamentos, nossas ações e nossas intenções. Para esse autor, a escrita torna a
nossa presença real em um mundo social, possibilitando-nos imprimir a marca de
nossas necessidades e de nosso valor.

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Concebemos a escrita, portanto, como uma atividade humana, que tem como base
a interação, pois sempre escrevemos para alguém, nem que seja para nós mesmos.
Por isso, revisar o texto quantas vezes seja necessário é um procedimento essencial
à escrita, como afirmam Koch e Elias (2011), “para ajustar o texto à intenção do
produtor e à compreensão do leitor”. A cada revisão podemos reformular, suprimir
ou acrescentar trechos tendo em mente a produção e a atribuição de sentidos
(KOCH e ELIAS, 2011, p.50-52).

Por isso, jamais acredite que a primeira versão do seu texto é a melhor e
suficiente. Procure reler o seu texto algumas vezes e, se possível, peça a um colega
para que faça uma leitura crítica também. A prática de escrever, reler, revisar,
reescrever é o que pode nos auxiliar a transformar o produtor inexperiente que
mora em todos nós em autor proficiente. Nas palavras de Graciliano Ramos, um
dos grandes escritores brasileiros:
Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas
fazem o seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a
roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no
novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma,
duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a
água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais
uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada
na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia
fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como
ouro falso: a palavra foi feita para dizer. (RAMOS, 2008 apud KOCH e
ELIAS, 2011, p.52)

Então... mais confiante para enfrentar o desafio da escrita? Lembre-se que,


no meio acadêmico, a leitura e a escrita proficientes tanto constituem um valor
quanto são processos que sustentam a aprendizagem e auxiliam na produção de
conhecimentos. Por isso, comece a trabalhar as palavras desde já!

Na próxima seção, veremos um mecanismo gramatical, a concordância verbal, como


recurso estratégico para aperfeiçoar a escrita de textos na sua formação acadêmica!

A Concordância Verbal: um Recurso


Estratégico para a Leitura e a Escrita
O conhecimento das regras gramaticais da língua é um importante recurso
estratégico para a leitura e produção dos sentidos de um texto. Por essa razão,
selecionamos a concordância verbal para ilustrar como o emprego de alguns
exemplos expressivos de casos de concordância auxiliam “leitor e produtor de
textos” a identificar pistas sobre quem escreve, o que escreve, para quem, como
o faz e por que faz.

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UNIDADE Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

A concordância verbal na construção dos sentidos do texto


Damos o nome de concordância ao mecanismo pelo qual as palavras
subordinadas, isto é, palavras que obedecem ao comando das relações de unidade
e sentido na frase, alteram sua forma para se adequar harmonicamente às palavras
subordinantes.

A estrutura que organiza uma frase compõe-se de dois elementos básicos: o


sujeito (representado por um nome/substantivo ou palavra equivalente) e um
predicado (representado sempre por um verbo). À relação que se estabelece entre
o verbo e o sujeito, damos o nome de concordância verbal.

A regra fundamental desse mecanismo linguístico determina que o verbo deve


concordar em número (singular e plural) e pessoa (eu, ele/a, nós, eles/as) com seu
sujeito. Vamos observar como se dá a concordância verbal na frase seguinte:

A cada início de ano, as pessoas renovam hábitos, atitudes e comportamentos


na busca de melhor qualidade de vida.

Quem renova hábitos, atitudes e comportamentos? – as pessoas, que é o sujeito


da frase.

O que as pessoas fazem? – renovam hábitos, atitudes e comportamentos, renovam


é, portanto, o núcleo verbal do predicado. O verbo “renovar” altera a sua desinência,
isto é, a marca que indica pessoa e número para se adequar ao sujeito “pessoas”.

Quando o sujeito é composto por mais de um núcleo, o verbo concorda sempre


no plural. Se os núcleos forem de pessoas diferentes, a primeira pessoa sempre
prevalece sobre a segunda e essa, sobre a terceira:

Eu e os demais convidados deixamos o local rapidamente.

Eu e os demais: sujeito composto. Deixamos: núcleo do predicado

O verbo vai concordar, então, com a primeira pessoa do plural, “nós”.

Apresentamos vários exemplos de casos particulares e ou especiais de concordância verbal


Explor

nos quadros a seguir. Além desses casos, é possível consultar uma gramática tradicional que
tenha sido usada por você em anos anteriores de estudos ou ainda endereços da internet
para aprofundamento, como por exemplo: https://goo.gl/BJfNZC

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Casos especiais de concordância verbal
Verbo Ser
O verbo SER concorda com o sujeito, se este estiver representado por um
pronome ou por um substantivo que designa pessoa:

Lívia era sorrisos e alegria pela casa.


Eles eram a minha maior preocupação.
Vossas Altezas são a esperança para a paz na região.
As filhas de Juliana são um encanto.
Tu eras os meus sonhos e os meus pesadelos.
Eu não sou ela. Ela não é eu.

Nos demais casos, o verbo ser concorda com o predicativo:

A professora sou eu.


Quem são estas pessoas?
São 45 quilômetros daqui a Santos.
O júri somos nós.
Hoje é 1º de janeiro.
O que são livros esotéricos?
Amanhã será meu aniversário.
Hoje são 25 de dezembro.
Já eram mais de seis horas.

O verbo SER permanece no singular com as expressões que indicam quantidade,


medida, porção, etc.:

Quinze reais é muito por uma entrada de cinema.

Dez metros é bastante para a cortina da sala.

Dois pastéis e um suco de laranja é suficiente para matar minha fome.

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UNIDADE Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

Haver
Existir, suceder, fazer (tempo). Verbo impessoal. Sem sujeito. Fica sempre
no singular:

Não há precedentes para este caso.

Havia poucos interessados na compra do espetáculo.

Houve alguns imprevistos durante a apresentação.

Há anos não a vejo.

Mantém no singular o verbo que o acompanha: Deve haver motivos sérios para
sua demissão.

(O verbo existir é pessoal. Varia de acordo com o sujeito: Existem precedentes


para este caso.)

Fazer
Ideia de tempo. Verbo impessoal. Sem sujeito. Fica sempre no singular:

Faz 10 anos que a empresa foi fundada.

Mantém no singular o verbo que o acompanha:

Vai fazer 10 anos que a empresa foi fundada.

Obs.: Nas orações em que, mesmo havendo noção de tempo, aparece sujeito,
o verbo terá a concordância normal:

Daniel e Andrea farão 20 anos de casados amanhã.

Importante! Importante!

Lembre-se!! São flexionados normalmente:


Haver no sentido de ter → Eles já haviam saído./ → Haverão de conseguir.
no sentido de julgar, entender → Houveram por bem adiar a sessão.
Fazer no sentido de executar, fabricar, produzir, etc. → Fizeram uma bela festa./Farão
os vestidos na próxima semana.

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Com o pronome relativo que
O verbo concorda em pessoa e número com o antecedente:

Fui eu que redigi todos os seus discursos.


Fomos nós que entregamos a correspondência.
Eles que providenciaram o material.

Com o pronome relativo quem


O verbo se mantém sempre na 3ª pessoa do singular:

Não sou eu quem vai pagar essa dívida.


Foi o diretor quem terminou a reunião mais cedo.
Nós queremos saber quem encomendou esses livros.

Obs.: Quando o “que” vier antecedido das expressões um dos, uma das,
daqueles, daquelas (+ substantivo), o verbo vai para a 3ª pessoa do plural:

Ele foi um dos deputados que votaram a favor da emenda.


Minha colega era uma das que discordavam completamente da chefia.
O show foi daqueles que destroem corações.

Verbo + Se
Nas frases constituídas de verbo + “se”, em que o sujeito recebe a ação, o verbo
concorda com o sujeito:

Vendem-se carros usados.


Alugam-se roupas.
Procuram-se crianças.
Aqui se faz revisão de textos .

Obs.: Para não haver erros, é possível converter a oração para a voz passiva
com o verbo ser:

Carros são vendidos (E não: Carros é vendido)


Roupas são vendidas (E não: Roupas é vendida)
Aqui é feita revisão de textos. (sujeito e verbo no singular)

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UNIDADE Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

Estas construções só ocorrem com verbos transitivos diretos, alugar, vender,


pintar, forrar, procurar, etc.

Quando o sujeito é indeterminado, o verbo fica no singular:

Precisa-se de cozinheiras (E não: Precisam-se de cozinheiras).


Falou-se de você.
Anda-se muito a pé no campo.
Era-se feliz ali.
Estava-se bem ali.

Obs.: Neste caso, não é possível passar para a voz passiva.

Estas construções sempre ocorrem com verbos transitivos indiretos (precisar


de, falar de, sonhar com, etc.), verbos intransitivos (os que não precisam de
complemento nominal), de ligação (ser, estar, etc.).

Em orações com ação reflexiva ou recíproca, o verbo concorda com o sujeito:

Emocionava-se com facilidade.


Amam-se de paixão.
Sempre se lembravam da casa de campo.
Olharam-se ternamente.

Nessa unidade, abordamos a leitura e a escrita como processos dinâmicos de


interação, dos quais produtor e leitor participam ativamente para a produção/
atribuição de sentidos. Vimos também algumas estratégias e procedimentos que
podem auxiliar no aperfeiçoamento da leitura e a escrita no âmbito da graduação. Ao
final, selecionamos, entre os muitos conteúdos da gramática normativa, o mecanismo
da concordância verbal, como um recurso estratégico para ler e escrever.

Esperamos ter contribuído para a ampliação dos seus conhecimentos! A seguir,


apresentamos, no material complementar, alguns links de vídeos e textos, além de
indicações de livro que você encontra na Biblioteca Virtual da universidade, para
que possa aprofundar seus estudos e desenvolver ainda mais suas competências
leitora e escritora.

Não deixe de aproveitar esse momento!!

Bom trabalho!

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
A seguir, dispomos para você links de vídeos e de textos, além de indicações de livros da
Biblioteca Virtual da universidade, para que amplie e aprofunde seus conhecimentos sobre
leitura e escrita!
  Sites
Para começar, leia nos textos a seguir o que Ruben Alves escreve sobre o prazer
da leitura:
O Prazer da Leitura
ALVES, Rubem. O Prazer da Leitura. Disponível no link abaixo:
https://goo.gl/GmxGCD
Sob o Feitiço dos Livros
ALVES, Rubem. Sob o Feitiço dos Livros. Disponível no link abaixo:
https://goo.gl/X0RIEE

 Livros
Escrever melhor – guia para passar os textos a limpo
Escrever melhor – guia para passar os textos a limpo, Dad Squarisi e Arlete
Salvador, Editora contexto, 2008.
Práticas de Escrita para o letramento no Ensino Superior
Práticas de Escrita para o letramento no Ensino Superior, Schirley Hartmann e
Sebastião Santarosa, Editora Intersaberes, 2013.

 Vídeos
Como desenvolver a compreensão leitora dos alunos?
https://youtu.be/3lRLK0axNJc
Chimamanda Adichie - Os perigos de uma história única.
https://youtu.be/ZUtLR1ZWtEY

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UNIDADE Leitura e Escrita: Processos Dinâmicos, Ativos e Colaborativos

Referências
BAZERMAN, C. Gênero, agência e escrita. São Paulo: Cortez, 2006.

CHARAUDEAU, P. Linguagem e Discurso: modos de organização. 2. ed., São


Paulo: Contexto, 2014.

COLCIONI; PIOVESAN & STRONGOLI. Livros e computador: Palavras, ensino


e linguagens. São Paulo: Iluminuras, 2001.

EYSENCK & KEANE. Psicologia Cognitiva: um manual introdutório. Porto


Alegre: Artes Médicas, 1994.

FREIRE, P. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1984.

KOCH, I.G.V. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto,


1997, 2003.

KOCH, I. V.; ELIAS, V. M. Ler e escrever: estratégias de produção textual. São


Paulo: Contexto, 2011.

OLSON, D. R. O mundo no papel − as implicações conceituais e cognitivas


da leitura e da escrita. São Paulo: Ática, 1997.

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Língua Portuguesa
Material Teórico
A Constituição do Parágrafo: Orientação para Leitura
e Escrita de Textos

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Roseli F. Lombardi
Profa. Dra. Sílvia Augusta Barros Albert

Revisão Textual:
Profa. Esp. Márcia Ota
A Constituição do Parágrafo: Orientação
para Leitura e Escrita de Textos

• Introdução
• A Estrutura do Parágrafo “Padrão”
• Tópico Frasal e Desenvolvimento de Parágrafos
• Usos da Língua na Norma Urbana de Prestígio

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Apreender o conceito de parágrafo e identificar aspectos estruturais e
formais que caracterizam a sua constituição: diferentes tópicos frasais
e formas de desenvolvimento;
· Desenvolver o domínio de estratégias para a constituição de pará-
grafos considerando: o tema e a abordagem pretendida; o gênero de
texto; o objetivo/intenção do produtor; a adequação ao leitor, além
do estilo do produtor do texto;
· Aplicar o conceito de parágrafo e estratégias apreendidas em proces-
sos de leitura e escrita, visando à produção de sentidos.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como o seu “momento do estudo”.

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
UNIDADE A Constituição do Parágrafo:
Orientação para Leitura e Escrita de Textos

Introdução
Nesta unidade, vamos tratar da constituição dos parágrafos no intuito de
contribuir para seu desenvolvimento e seu aperfeiçoamento na leitura e na escrita,
tendo em vista a produção de sentidos.

Para começar, leia o seguinte texto, observando a sua organização:


[...]
Pondo de lado a mochila vazia, ele se agacha, desembaraça e separa
os pensamentos emaranhados e os guarda, em ordem alfabética, em
grandes prateleiras.
Na prateleira A, por exemplo, encontramos os pensamentos acanhados,
aflitivos, amalucados, amáveis, arrojados...
Na prateleira da letra B encontramos os pensamentos belos, blasfemos,
bobos, bonachões, bondosos, burlescos...
Na prateleira C temos os pensamentos caóticos, corajosos, criteriosos,
curiosos... [...]
FETH, M.B.A. O catador de pensamentos, Brinque Book, 1993.

Podemos observar nesse texto que seu autor, como o personagem, organiza
as suas ideias, dividindo-o em partes, como se fossem prateleiras. Essa é uma
estratégia de todo produtor de texto para organizar suas ideias e orientar a leitura
de seu interlocutor: dividir o conteúdo, aquilo que se quer dizer, em porções maiores
de texto a que chamamos de parágrafos.

Essa divisão e organização faz parte do que chamamos de estilo do escritor. Não
há uma regra fixa e única para a divisão do texto em parágrafos. Mas há algumas
estratégias que permitem ao produtor do texto organizá-lo melhor para orientar
a compreensão do leitor, da mesma forma que o leitor utiliza essa organização do
texto em parágrafos para facilitar a atribuição de sentidos ao que lê.

Os textos discursivos, chamados “textos em prosa”, são estruturados em pará-


grafos. São eles porções de texto, constituídas por um ou mais períodos, ou seja,
por frases ou orações desenvolvidas e organizadas para produzir sentido em torno
de uma ideia central. Geralmente, o início do parágrafo é indicado por um ligeiro
afastamento do texto em relação à margem esquerda da folha de papel ou da tela.

Importante! Importante!

Observe que, muitas vezes, confunde-se o espaço do parágrafo (esse ligeiro afastamento
de texto em relação à margem esquerda da folha de papel ou da tela) com o conceito de
parágrafo: unidade mínima de sentido do texto, ou seja, porções de texto, constituídas
por um ou mais períodos (conjunto de frases ou orações), desenvolvidas e organizadas
para produzir sentido em torno de uma ideia central.

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Por um lado, o parágrafo auxilia na leitura, pois indica ao leitor que houve
uma mudança no texto; por outro, a ocorrência do parágrafo auxilia o produtor
a direcionar o movimento do texto, constituindo-se, portanto, como um elemento
fundamental para facilitar a compreensão e a atribuição de sentidos na leitura e na
produção escrita.

Obviamente não existem “receitas” para a construção de parágrafos, já que


sua estrutura dependerá de vários aspectos da produção textual, como: o tema; a
forma como se pretende abordar tal tema; o gênero de texto que se vai produzir;
o objetivo/intenção de quem escreve; a adequação a quem se dirige, além do estilo
do produtor do texto.

Contudo, quando pensamos em produção escrita de textos, convém adotar a


noção de “parágrafo padrão”, que diz respeito a algumas estratégias e estruturas
para a elaboração de parágrafos que asseguram sua unidade, ou seja, uma relação
lógica entre a ideia central e as ideias secundárias, organizada em uma determinada
estrutura. Por isso, podemos dizer que a organização dos parágrafos também
auxilia a estabelecer a coesão e coerência, princípios de textualidade essenciais
para a clareza e a produção de sentidos nos textos escritos.

Antes de abordarmos tais estratégias, vale lembrar que os parágrafos possuem


extensão variada, ou seja, podem ser longos ou curtos. O que vai determinar sua
extensão será sua unidade temática já que, teoricamente, cada ideia/tema deve
corresponder a um parágrafo. No entanto, o estilo do autor e o efeito de sentido
que ele deseja produzir interferem na extensão do parágrafo.

A título de exemplo, observemos o texto seguinte, escrito em um único parágrafo.


O Papa e o Tapa

João Paulo 2º vem aí. Pena que não aproveite o que o Brasil tem de
melhor. Feijoada. Caipirinha. Belas mulheres. Aí seria demais. Será? Rui era
garçom num bar chique da cidade. Outro dia, viu um velhinho no balcão.
Pele rosada. Simpático. Sotaque polonês. Tomando vodca. Teve certeza.
“É o papa! Disfarçado, mas é ele. Já chegou.” Na hora da conta, Rui não
cobrou. “Cortesia da casa, santidade.” No dia seguinte, bronca do gerente.
“Aqui nem o papa bebe de graça.” Rui reagiu. Partiu para o tapa. Foi
surrado pelos Seguranças do bar. Toda fé, mesmo tola, tem seus mártires.

(Voltaire de Souza, Folha de São Paulo, 26.7.97)

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9
UNIDADE A Constituição do Parágrafo:
Orientação para Leitura e Escrita de Textos

Se considerarmos que cada “nova” ideia proposta corresponde a um novo


parágrafo, o texto citado poderia ser reestruturado de outra maneira, vejamos:

O papa e o Tapa
1. João Paulo 2º vem aí. Pena que não aproveite o que o Brasil tem de melhor.
Feijoada. Caipirinha. Belas mulheres. Aí seria demais. Será?
2. Rui era garçom num bar chique da cidade. Outro dia, viu um velhinho no
balcão. Pele rosada. Simpático. Sotaque polonês. Tomando vodca. Teve certeza.
“É o papa! Disfarçado, mas é ele. Já chegou.” Na hora da conta, Rui não cobrou.
“Cortesia da casa, santidade.”
3. No dia seguinte, bronca do gerente. “Aqui nem o papa bebe de graça.” Rui
reagiu. Partiu para o tapa. Foi surrado pelos seguranças do bar.
4. Toda fé, mesmo tola, tem seus mártires.

Antes de comentarmos sobre essa nova estrutura que aplicamos ao texto


original, dividindo-o em vários parágrafos, vamos contextualizá-lo. Trata-se de um
miniconto que, na época (1997), era publicado diariamente na Folha de São Paulo,
cada vez por um escritor diferente. A proposta da coluna era a de, no mínimo
espaço, retratar fatos, acontecimentos do dia a dia. No texto em questão, o autor
trata da terceira visita do Papa João Paulo II ao Brasil.

No que diz respeito à reestruturação do texto, foi possível dividi-lo em quatro


parágrafos, pois em cada um deles teríamos as seguintes ideias:

»» No parágrafo 1, remete-se o leitor à figura de João Paulo II em sua terceira


visita ao Brasil, bem como se levanta a hipótese da possibilidade de a
autoridade eclesiástica conhecer e usufruir o que o autor elege como “as
melhores coisas do país”: feijoada, caipirinha...

»» No parágrafo 2, introduz-se no texto outro personagem, o que justifica a aber-


tura de um novo parágrafo: Rui, um garçom, que pensa ter servido uma vodka
ao Papa, em um bar chique do centro da cidade, onde trabalha. Ele supõe que
seria João Paulo II pelas características pessoais: sotaque polonês, pele rosada.
A consequência de sua suposição é não cobrar a bebida de “Sua Santidade”.

»» No parágrafo 3, abre-se outro parágrafo, devido à mudança da perspectiva


temporal (no dia seguinte...), no qual se relata a consequência de Rui não ter co-
brado a bebida: foi repreendido pelo gerente, agrediu, foi agredido e despedido.

»» No último parágrafo, dá-se o desfecho da história com uma “moral”, e por


meio dela o autor explicita seu juízo de valor: a de que toda crença, inclusive
as mais absurdas, tem seus seguidores, os quais lutam por ela até o fim e por
isso mesmo podem se tornar mártires...

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Mas se o texto pôde ser dividido em quatro parágrafos, e essa divisão é
perfeitamente justificável, por que razão seu autor optou por escrevê-lo em apenas
um? Aqui, entram as questões de “efeito de sentido” a que nos referimos no início
desta unidade. Ao interagir com o ‘outro’, além de comunicar algum conteúdo
informativo, buscamos produzir um determinado efeito de sentido no interlocutor
ou leitor, como: impressionar, informar, convencer, persuadir e outros. As intenções
podem ser, pois, de diversas ordens.

Sendo assim, cada produtor de textos escolhe não só “o que” vai comunicar,
mas “como” vai fazê-lo. Nesse sentido, o autor do texto “O papa e o tapa” também
teve suas intenções, já que, ao contar o fato narrado em um único parágrafo,
tornou a narrativa mais dinâmica, por meio de uma sequência de ações que se
sucedem em um curto período de tempo e de espaço. Além disso, há a proposta
do jornal de que se retrate fatos da atualidade, ocupando-se um mínimo de espaço
do jornal, o que caracteriza também o gênero minicontos.

Dessa forma, precisamos ter claro que a divisão do texto em parágrafos e a


extensão de cada um deles podem variar e não devem ser definidas a priori, ou seja,
não devem ser estabelecidas antecipadamente. Essas determinações vão depender,
como já dissemos, do gênero de texto, do veículo de comunicação, da unidade
temática, da intenção do autor e do efeito de sentido que ele deseja produzir, entre
outros aspectos.

Por isso, se por um lado é possível definir o parágrafo como uma composição
constituída por um ou mais períodos, os quais giram em torno de uma ideia nuclear
relacionada a outras pelo sentido; por outro, não é possível oferecer “receitas”,
“moldes” para construir bons parágrafos. Entretanto, é possível, sim, recorrer
a algumas estratégias e estabelecer alguns elementos norteadores para que eles
sejam bem escritos. A isso damos o nome de estrutura do parágrafo.

A Estrutura do Parágrafo “Padrão”


Segundo Garcia (1998), um parágrafo “padrão” divide-se em:

Típico Frasal Desenvolvimento Conclusão


Formado, geralmente, por um ou dois É a parte do parágrafo na qual o conteúdo Consiste na parte do parágrafo que
períodos breves, os quais trazem a do tópico frasal será especificado, expan- apresenta, de modo conciso, conse-
ideia núcleo do parágrafo. Do ponto dido. É certo que nem todo parágrafo quências, implicações ou até mesmo
de vista gráfico, o final do tópico frasal apresenta essas características: às vezes, inferências. Nem todos os parágrafos
vem sinalizado por algum sinal de o tópico frasal, ou seja, a ideia núcleo vem apresentam a conclusão. Entretanto,
pontuação: ponto, vírgula, ponto-e- diluída nele, sendo apenas evocada por nos casos em que o parágrafo sozinho
vírgula, travessão. palavras de referências. Mas, na maioria constitui o texto, a conclusão aparece
deles, o tópico frasal aparece logo no iní- obrigatoriamente.
cio, seguido do desenvolvimento.

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UNIDADE A Constituição do Parágrafo:
Orientação para Leitura e Escrita de Textos

Agora, observe o exemplo:


Mattani Shakya, uma garota nepalesa de 3 anos, acaba de ser apon-
tada como uma deusa viva. Para ser nomeada, ela enfrentou testes
como ficar sozinha e passar a noite num quarto escuro com cabeças de
bodes e búfalos sacrificados em rituais. Agora, viverá num palácio até a
adolescência. Segundo as tradições locais, os homens que se casam com
deusas morrem cedo – e isso torna muitas delas solteiras e infelizes.

(Revista Época, edição de 13/10/2008, p. 26. Grifo nosso)

Observe que o primeiro período, em negrito, constitui o que chamamos de ideia


núcleo do parágrafo, o tópico frasal, ou seja, é “a respeito do que se fala”: o fato
de uma pequena nepalesa de apenas três anos, Mattani Shakya, ter sido apontada
como uma deusa viva.

Em seguida, no desenvolvimento, tal ideia é expandida, ou seja, o autor relata as


circunstâncias em que isso aconteceu. A menina teve provada sua coragem, então
passará a viver em um palácio e enfrentará o estigma, quando dele sair: dificilmen-
te qualquer homem dela se aproximará.

Já no último período, em negrito, temos a conclusão, isto é, a consequência


futura de ser eleita uma deusa viva: possivelmente a solidão e a infelicidade.

Esse é um exemplo de estruturação de um típico parágrafo “padrão”. Será que


sempre escrevemos assim?

Tópico Frasal e Desenvolvimento de Parágrafos


Trocando ideias...Importante!
Os parágrafos “padrão” seguem, portanto, uma determinada estrutura, como a que
vimos: tópico frasal, desenvolvimento e, em alguns casos, a conclusão.
Podemos, então, nos perguntar: será que todos os tópicos frasais são semelhantes? E o
desenvolvimento do parágrafo? Ele se dá sempre da mesma forma?

Não, com certeza, vamos encontrar não só diversos tipos de tópicos frasais
como também diferentes formas de elaborar o desenvolvimento de um parágrafo.
Selecionamos alguns exemplos que apresentamos a seguir. Leia com atenção, pois
eles podem ser bem úteis na hora de elaborar um texto.

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Tipos de Tópico Frasal
Observe os tipos de tópicos frasais e os exemplos que selecionamos de cada um deles.
1. Declaração Inicial: consiste em afirmar ou negar alguma coisa para,
em seguida, justificar ou fundamentar a asserção. Exemplo em negrito:

Uma investigação do governo da Suécia poderá tirar o brilho do


Prêmio Nobel. A promotoria sueca acredita que o laboratório Astra
Zeneca influenciou na escolha de Harald Zur Hausen, vencedor do prêmio
de medicina. Um jurado que votou em Hausen faz parte do conselho de
direção do laboratório, beneficiado indiretamente pelo prêmio. O cientista
descobriu que o vírus HPV (papilomavírus humano) pode causar câncer
de colo nas mulheres. O laboratório desenvolve vacinas contra o vírus.
(Época, 13/10/2008. Primeiro Plano. p. 34) Grifo nosso.

2. Definição: consiste em apresentar as características generalizantes de


um ser, objeto, paisagem ou situação em questão. A definição pode
ser denotativa (com sentido próprio, literal) ou conotativa (com senti-
do figurado). Esse recurso é usado principalmente em textos didáticos.
Exemplo em negrito:

Identificação é o ato mediante o qual se estabelece a identidade de alguém


ou de alguma coisa. Considerada apenas a identidade física do homem
(a única que agora interessa), identificar consiste em demonstrar que
certo corpo humano, que em dado momento se apresenta a exame, é o
mesmo que em ocasião anterior já havia sido apresentado. Identificar é,
pois, reconhecer. Mas a identificação difere do simples reconhecimento,
tanto por empregar processos especializados, de base objetiva, como
por alcançar resultados sempre seguros. Deles se pode dizer que é um
reconhecimento técnico.
(Almeida RJ. e outros. In: Lições de Medicina Legal) Grifo nosso.

3. Divisão: consiste em apresentar o tópico frasal sob a forma de divisão ou


discriminação das ideias a serem desenvolvidas. Exemplo em negrito:
A civilização da cana é uma civilização carnal. A do sertão tem a
dureza do osso. As crianças do litoral brincam nuas entre os arbustos
de fumo ou as moitas de bananeiras; os homens trabalham no campo de
torso nu; as mulheres deixam adivinhar, sob os vestidos leves, a beleza das
formas brancas ou negras. O corpo do vaqueiro, ao contrário, esconde-se
sob uma couraça de couro, desde o chapéu redondo de couro de veado, até
as pesadas botas que protegem as pernas contra os possíveis arranhões,
pois precisa lutar contra os espinhos, contra os cactos de pontas eriçadas,
contra os arbustos inimigos.
(Roger Bastide, Brasil - Terra de Contraste) Grifo nosso.
In: https://goo.gl/WDk5jm

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UNIDADE A Constituição do Parágrafo:
Orientação para Leitura e Escrita de Textos

4. Interrogação: consiste em começar por uma pergunta, seguindo-se


o desenvolvimento sob a forma de resposta ou de esclarecimento.
Exemplo em negrito:
Como um esporte trazido da Inglaterra e praticado pela elite se
tornou uma obsessão popular? Explicar esse “mistério” é a missão do
Museu do Futebol, em São Paulo, segundo o The Ney York Times. A
reportagem diz que “andar pelo local é como adentrar num hall cheio
de bustos de deuses gregos, suspensos em grandes telas”. Assim como
divindades antigas, afirma o Times, basta um nome para eles: Didi,
Falcão, Tostão, Garrincha e o maior de todos: Pelé.
(Época, 13/10/2008. Primeiro Plano. p. 34) Grifo nosso.

5. Alusão histórica: consiste em mencionar fatos históricos, lendas, tra-


dições, crendices ou, inclusive, acontecimentos dos quais o próprio
autor tenha participado. Exemplo em negrito:
Desde os ataques de 11 de setembro de 2001, a ação de terroristas
tem ganhado espaço em jornais e noticiários de todo o mundo. Mas
se naquela época os destaques eram o grau de organização desses grupos
e a quantidade de informação de que dispunham, o que chama a atenção
agora são os gadgets que utilizam. Para quem lida com ações antiterroris-
mo, a aplicação de tecnologia para o mal não é novidade. Já em 2002,
quando uma bomba matou 182 pessoas em uma casa noturna de Bali, foi
por meio de um telefone celular que o terrorista detonou os explosivos.
(Revista Galileu, fev. 2009. nº 211. Enter vida. p. 12) Grifo nosso.

Esses são alguns estilos de tópicos frasais. Assim como há diferentes possibilidades de
Explor

introdução do parágrafo, há também diferentes possibilidades de desenvolvimento. Vamos


a elas?

Tipos de Desenvolvimento de Parágrafos


Selecionamos alguns tipos de desenvolvimento de parágrafo e um exemplo de
cada um deles. Embora eles não esgotem as possibilidades para a elaboração de pa-
rágrafos, podem ser muito úteis na hora da produção de um texto. Vale observar que
os tipos de desenvolvimento de parágrafos que apresentamos, a seguir, podem servir
também como estratégias para a elaboração de textos com mais de um parágrafo.
1. Enumeração ou descrição de detalhes: desenvolve-se a ideia
expressa no tópico frasal por meio de detalhes ou pormenores. É um
tipo de desenvolvimento de parágrafo encontrado, geralmente, em
textos descritivos. Exemplo:

A civilização da cana é uma civilização carnal. A do sertão tem a dureza do


osso. As crianças do litoral brincam nuas entre os arbustos de fumo
ou as moitas de bananeiras; os homens trabalham no campo de tor-

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so nu; as mulheres deixam adivinhar, sob os vestidos leves, a beleza
das formas brancas ou negras. O corpo do vaqueiro, ao contrário,
esconde-se sob uma couraça de couro, desde o chapéu redondo de
couro de veado, até as pesadas botas que protegem as pernas contra
os possíveis arranhões, pois precisa lutar contra os espinhos, contra
os cactos de pontas eriçadas, contra os arbustos inimigos.
(Roger Bastide, Brasil - Terra de Contraste. Grifo nosso.
In: https://goo.gl/gn0tY0

Observe que, no parágrafo apresentado, a intenção do produtor é descrever


a diferença entre a civilização da cana, isto é, como se comportam e se vestem
as pessoas que vivem da agricultura da cana que ocorre no litoral do nordeste
brasileiro; e a civilização do sertão, isto é, como se comportam e se vestem as
pessoas que vivem da pecuária no sertão nordestino, região interiorana dos estados
do nordeste. Para isso, o produtor do texto apresenta os dois tópicos no início
do parágrafo e, no desenvolvimento, ele descreve com detalhes cada uma dessas
civilizações, seguindo a ordem em que apresentou os tópicos.
2. Paralelo por contraste ou por semelhança: desenvolve-se a ideia
expressa no tópico frasal por meio de uma comparação, destacando-
se semelhanças ou contrastes. Exemplo:

Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam


uma com a outra. A política é a arte de gerir o Estado, segundo princí-
pios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis. A
politicalha é a indústria de explorar a benefício de interesses pessoais.
Constitui a política uma função do organismo nacional: é o exercício
normal das forças de uma nação consciente e senhora de si mesma. A
politicalha, pelo contrário, é o envenenamento crônico dos povos negli-
gentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis. A política
é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos
povos de moralidade estragada.
(Rui Barbosa. Trechos escolhidos de Rui Barbosa. Edições de Ouro:
Rio de Janeiro, 1964). Grifo nosso.

Observe que, no parágrafo apresentado, há dois conceitos que o produtor


coloca como tópicos frasais, logo no início do parágrafo: política e politicalha.
Para desenvolvê-lo, ele vai comparando por contraste cada um desses conceitos,
mostrando as suas diferenças. Seguindo as cores com que marcamos as definições
de cada um dos conceitos, podemos visualizar uma intercalação que dá a ideia de
paralelismo ao texto.
3. Apresentação de causa e efeito ou motivo/explicação e
consequência: desenvolve-se a ideia expressa no tópico frasal por
meio da apresentação de causa/efeito ou motivo /explicação. Cabe
aqui fazer uma diferenciação, segundo Garcia (1998, p. 221), “... só
os fatos ou fenômenos físicos têm causa; os atos ou atitudes praticados
ou assumidos pelo homem têm razões, motivos ou explicações. Da
mesma forma, os primeiros têm efeitos, e os segundos, consequências”.

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UNIDADE A Constituição do Parágrafo:
Orientação para Leitura e Escrita de Textos

Nesse sentido, temos:

»» causa e efeito: nesse caso, desenvolve-se o parágrafo por meio de ex-


plicações de fatos ou de fenômenos das ciências naturais ou das ciências
sociais. Exemplo:

O Deserto do Atacama, no norte do Chile, é uma das regiões mais secas


do mundo. No interior do deserto, chove apenas alguns milímetros por
década e a radiação solar é muito intensa por causa da elevada altitude
de 2.400m e da fina camada atmosférica. A temperatura média do lugar
varia de 0 a 25ºC. Por ser uma região muito árida, a água dos lagos
evapora e deixa uma camada de sais minerais no solo. Mesmo nessa
região extremamente inóspita, micro-organismos têm sido descobertos
nas margens do deserto, costeando as montanhas.
(Revista Galileu. out./2008. Enter 10+. p. 23) Grifo nosso.

Observe que, no parágrafo apresentado, o tópico frasal refere-se a um fenômeno


natural, a existência de uma região de deserto e, por isso, o desenvolvimento
se dá por causa e efeito. Por se tratar de uma região de deserto, o Atacama,
vamos encontrar aí a incidência de poucas chuvas, uma intensa radiação solar e
temperaturas elevadas etc.
»» motivo/explicação e consequência: nesse caso, desenvolve-se o pará-
grafo ao se justificar uma declaração ou opinião pessoal a respeito de atos
ou atitudes do homem. Segundo Garcia, é comum as razões, os motivos,
as justificativas em que se assenta a explanação de determinada ideia se
disfarçarem sob várias formas, nem sempre introduzidas por partículas
explicativas ou causais, confundindo-se, muitas vezes, com detalhes ou
exemplos (GARCIA, 1998, p. 217).

Muitas vezes, o parágrafo pode apenas trazer o motivo/explicação,


sem apontar a consequência ou, ainda, apresentar somente a conse-
quência. Exemplo:

Uma investigação do governo da Suécia poderá tirar o brilho do Prêmio


Nobel. A promotoria sueca acredita que o laboratório Astra Zeneca
influenciou na escolha de Harald Zur Hausen, vencedor do prêmio
de medicina. Um jurado que votou em Hausen faz parte do conselho
de direção do laboratório, beneficiado indiretamente pelo prêmio.
O cientista descobriu que o vírus HPV (papilomavírus humano)
pode causar câncer de colo nas mulheres. O laboratório desenvolve
vacinas contra o vírus.

(Época, 13/10/2008. Primeiro Plano. p. 34) Grifo nosso.

Observe que, no parágrafo apresentado, o tópico frasal trata de uma declaração


a respeito de uma investigação que será realizada por causa de uma ação humana: a
escolha do Prêmio Nobel de medicina foi influenciada pela presença de um funcio-
nário do laboratório Astra Zeneca no júri. O desenvolvimento do parágrafo tem por
objetivo, portanto, justificar a investigação a ser realizada pelo governo da Suécia.

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4. Exemplificação: nesse caso, desenvolve-se o parágrafo ao se realçar
determinado princípio, regra teoria ou, ainda, uma simples declaração
pessoal, geralmente, lançada no tópico frasal. Exemplo:

A chegada de um filho traduz de forma reveladora como pais e mães se


colocam frente à vida. Há quem diga, por exemplo, que uma cesariana
com dia e hora marcados é o cúmulo da preguiça. Para outros, trata-
se de uma opção esperta, afinal não há correria ou imprevistos e, se
tudo der certo, é possível escolher o signo e até mesmo o ascendente
do seu rebento (isso se você acreditar nessas coisas).
(Revista Galileu. out./2008. Comportamento. p. 52) Grifo nosso.

Observe que, no parágrafo apresentado, o tópico frasal consiste em uma


declaração pessoal do produtor do texto a respeito da chegada de um filho e o
que esse fato revela sobre a maneira como os pais se colocam frente à vida. No
desenvolvimento, ele vai dar exemplos de como um parto por cesariana pode
ser encarado, por um lado como uma “preguiça” dos progenitores, que não se
submetem a esperar o momento em que a criança decide nascer, de maneira natural,
o que pode ser trabalhoso por conta dos imprevistos que essa situação acarreta;
e por outro, como uma opção inteligente e prática, que anula os imprevistos e
permite até escolher o signo e ascendente do rebento.
5. Testemunho de autoridade: nesse caso, desenvolve-se o parágrafo
ao se tentar comprovar fatos ou ideias por citações de autores, de
reconhecido saber na área; ou ainda, por citação de lugares, de datas
e de ocasiões que venham reforçar o que está sendo dito. Exemplo:

Só um maluco pularia de uma rampa de 26 metros de altura, certo? Certo.


“Os skatistas só enfrentam a mega-rampa porque dormiram na aula
de Física. Eles são loucos”, diz o professor de Física Pierluiggi Piazzi,
do Anglo Vestibulares. Ele está se referindo ao desafio do Skate Big
Air, o maior dos esportes radicais. Criada há dez anos pelo skatista
americano Danny Way, a mega-rampa se tornou mundialmente
conhecida quando foi incluída nos X Games, a Olimpíada dos
esportes radicais [...].
(Revista Galileu. out./2008. Enter Ciência. p. 26) Grifo nosso.

Observe que, no parágrafo apresentado, o tópico frasal é do tipo uma pergunta,


que tem por objetivo confirmar que os skatistas só pulam de uma rampa de 26 me-
tros porque são loucos. Para desenvolver essa ideia, o produtor do texto traz o teste-
munho, em forma de citação direta, por isso entre aspas, de um professor de física
do cursinho Anglo Vestibulares. Dessa forma, ele obtém respaldo para o que quer
afirmar, na fala de alguém de reconhecido saber na área de deslocamentos físicos.

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UNIDADE A Constituição do Parágrafo:
Orientação para Leitura e Escrita de Textos

6. Organização temporal: nesse caso, desenvolve-se o parágrafo pela


apresentação de fatos, seguindo uma linha através do tempo. Exemplo:

A escrita seguia pacientemente, através de séculos, em caminho bem


ordenado. Nascera figurada (com a representação simples de objetos) pas-
sava a ser simbólica ou ideográfica (com a representação de ideias por meio
de um sinal único dos sons emitidos pela voz humana). Finalmente, no seu
quarto grau, chegaria a ser tal como a conhecemos, literal, com a repre-
sentação, por meio de caracteres especiais, dos elementos da voz humana.
(Revista Galileu. out./2008. Enter Ciência. p. 38) Grifo nosso.

Observe que, no parágrafo apresentado, o tópico frasal trata da evolução da


escrita no tempo. Sendo assim, o produtor do texto, no desenvolvimento do
parágrafo marca essa passagem no tempo pelos tempos verbais utilizados (pretérito
mais-que-perfeito, nascera; pretérito imperfeito passava a ser) e por expressões
que expressam ideia de tempo (através dos séculos; finalmente).

Tipos de Tópico Frasal Tipos de Desenvolvimento de Parágrafos


1) Declaração Inicial 1) Enumeração ou descrição de detalhes
2) Definição 2) Paralelo por contraste ou por semelhança
3) Divisão 3) Apresentação de causa e efeito ou motivo/explicação
4) Interrogação e consequência
5) Alusão Histórica 4) Exemplificação
5) Testemunho de autoridade
6) Organização temporal

Vimos, então, que é possível estruturar os parágrafos no texto de diferentes


maneiras, tanto na forma de apresentar o tópico frasal, a ideia principal a ser
desenvolvida, quanto na maneira de desenvolver o parágrafo, ou seja, em apresentar
fatos, justificativas, exemplos que tragam novas informações sobre o tema ou que
respaldem as opiniões do produtor do texto sobre ele.

Como afirmamos anteriormente, essas não são as únicas possibilidades


de estruturar os parágrafos, mas conhecê-las e exercitá-las pode auxiliar o
desenvolvimento de novas estratégias para aperfeiçoamento dos processos de
leitura e de escrita, tão necessárias para a sua formação acadêmica na graduação.

Usos da Língua na Norma Urbana de Prestígio


Vale ressaltar que a organização dos parágrafos também auxilia a estabelecer a
coesão e a coerência nos textos, princípios de textualidade que são fundamentais
para a produção de sentidos. Afinal, ao organizarmos e estruturarmos os
parágrafos, vamos organizando a ideias e informações a respeito do tema sobre o
qual escrevemos, não é mesmo?

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No entanto, há vários aspectos a elaborar quando somos instados a escrever.
Além da necessidade de aplicar o que vimos em relação aos parágrafos, para que
seus textos alcancem maior clareza e qualidade de expressão e compreensão, vale
lembrar que, em esferas de atividades que exigem maior formalidade na escrita,
como na universidade e no trabalho, em que utilizamos sobretudo a norma urbana
de pretígio, é preciso ficar atento a alguns usos que são orientados por regras da
gramática normativa.

Sendo assim, elencamos a seguir algumas dúvidas que sempre surgem quando
escrevermos e algumas orientações sobre o uso adequado da língua portuguesa
na norma urbana de prestígio, para a sua aplicação na produção escrita de textos.
Vamos lá?

Você Sabia? Importante!

Este, Esse ou Aquele?


Qual o Uso Correto dos Pronomes Demonstrativos?

Os pronomes demonstrativos este, esse e aquele e suas variações de gênero e


número (apresentadas a seguir) situam os seres em relação às pessoas do discurso
– quem fala; com quem se fala; de quem se fala –, no ato da comunicação.

Esta casa está à venda. (a casa está próxima ao sujeito que fala, 1ª pessoa do discurso)

Esse livro foi emprestado à biblioteca. (o livro está próximo à pessoa com que se
fala, 2ª pessoa do discurso)

Aquele aluno não irá à festa de formatura. (o aluno está distante de quem fala e
com quem se fala, 3ª pessoa do discurso)

Além disso, no contexto, esses pronomes situam os seres em relação ao


tempo e espaço, mostrando, inclusive, a antecipação do que vai ser dito/falado ou
retomando o que foi dito/falado:

Preste atenção a esta frase: todo excesso deve ser evitado. (o pronome esta
antecipa o que vai ser dito)

Beber e dirigir não forma boa parceria, isso já foi comprovado técnica e
cientificamente. (O pronome isso retoma/recupera o que foi dito.)

Essa era uma prática comum naqueles tempos de terror. (O pronome aqueles
indica tratar-se de uma época distante do tempo presente.)

Ao usar os pronomes demonstrativos, o produtor do texto fornece a seu leitor


várias informações, estabelecendo relações entre o que se fala e as pessoas do
discurso, além de situar no tempo e no espaço o tema/fato sobre o que se fala. As
marcações de antecipação e retomada no texto também é um importante recurso
de coesão. Por isso, deve-se ficar atento ao uso dos pronomes demonstrativos para
produzir sentidos no texto e não se deve usá-los de forma indiscriminada.

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UNIDADE A Constituição do Parágrafo:
Orientação para Leitura e Escrita de Textos

Atenção às possíveis relações que os pronomes demonstrativos expressam:


ESTE/ESTA/ISTO = eu/nós (1ª pessoa), aqui (lugar), hoje/agora (tempo), citação do
que virá no texto.
ESSE/ESSA/ISSO = tu/você (2ª pessoa), aí (lugar), ontem (tempo) tempo passado
em relação à enunciação presente, recuperação do que já foi citado no texto.
AQUELE/AQUELA/AQUILO = ele/ela (3ª), lá/ali (lugar distante), tempo passado,
ainda mais distante, em relação à enunciação presente.

Que ou Quê ? Quando Devemos usar o Acento?


O termo “QUE” é um monossílabo átono, por isso não é acentuado. Ele pode
exercer diversas funções na frase e, dependendo do seu emprego, pode ser classificado
como pronome, conjunção, advérbio ou partícula expletiva entre outras.

No outono, gosto de ver as folhas QUE caem. (pronome relativo; quando se


relaciona com o antecedente da oração anterior, substituindo-o na seguinte: ver as
folhas; as folhas caem)
Convém QUE o assunto seja discutido seriamente. (conjunção; introduz uma oração
subordinada subjetiva: “o assunto ser discutido seriamente” é o sujeito do verbo
convém)
QUE lindo foi o seu gesto! (advérbio de intensidade, equivalente a “quão”; o seu
gesto foi muito lindo!)
Quase QUE eu perco o jogo! (partícula expletiva; seu emprego não é rigorosamente
necessário, poderia ser: quase eu perco o jogo!)

O termo QUÊ é um monossílabo tônico e, por isso, deve ser acentuado.


Alguns casos em que o encontramos em uso: como um pronome em final de
frase, imediatamente antes de um ponto (final, de interrogação ou exclamação), de
reticências; como um substantivo (com sentido de “alguma coisa”, “certa coisa”) ou
como uma interjeição (indicando surpresa, espanto):

Você precisa de QUÊ? (pronome indefinido, final de frase)


Há um QUÊ inexplicável em sua atitude. (substantivo, pode ser substituído por
“qualquer coisa de”: Há qualquer coisa de inexplicável em sua atitude)
QUÊ! Conseguiu chegar a tempo?! (interjeição, mostra surpresa, espanto)

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Por Que ; Porque ; Por Quê ; Porquê: Eis a Questão!!!
Sempre que nos deparamos com essas várias formas de grafar um “PORQUE”
nos perguntamos: Junto ou separado? Com acento ou sem acento? Vamos ver a
seguir o que nos orienta a gramática normativa.

POR QUE (separado e sem acento)


a. Usa-se “por que” para fazer uma pergunta, direta ou indiretamente.

Por QUE você não me esperou?


Quero saber por QUE você não me esperou.

Observe que a interrogação indireta é aquela que está subordinada a outra


oração (no caso “Quero saber”); sendo assim, embora tenha a equivalência de uma
pergunta não se emprega sinal de pontuação de frase interrogativa (?).

b. Emprega-se “por que“ também para substituir pelo qual, pelos quais, pela qual,
pelas quais, por qual, por quais (preposição “por” e pronome relativo “o qual”).

As dificuldades por QUE passei... (= pelas quais)


Ignoro por QUE razões ela fez isso. (= por quais)

POR QUÊ (separado e com acento)


Utilizado em frases interrogativas, diretas ou indiretas, na posição final da frase.
O QUÊ se torna monossílabo tônico e por isso deve ser acentuado sempre que vier
imediatamente seguido do sinal de interrogação ou de ponto final.

Você está triste. Por QUÊ?


Você está triste. Diga-me por QUÊ.

PORQUE (junto e sem acento)


É empregado para se dar uma resposta ou explicação, sendo uma conjunção de
causa/explicação.

Não o chamei porQUE você estava ocupado.


Não comprei a casa porQUE ela é muito pequena.
Deixem-me ir agora, porque estou muito cansado.

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21
UNIDADE A Constituição do Parágrafo:
Orientação para Leitura e Escrita de Textos

PORQUÊ (junto e acentuado)


Trata-se na verdade de um substantivo, sinônimo de “causa”, “razão”, “motivo”,
vem precedido de artigos (O, OS ou UM, UNS) e varia em número (singular/plural).

As crianças querem saber o porQUÊ de tudo.


Tudo na vida tem um porQUÊ.
A ciência procura os porQUÊS dos fenômenos.

HAVIA recursos ou HAVIAM recursos para a obra??


O verbo HAVER é impessoal (e, portanto, deve ficar na 3ª pessoa do singular)
quando significa:
a. Existir: A obra foi paralisada porque não havia recursos.
b. Ocorrer, Acontecer: Durante a reunião, houve alguns episódios estranhos.
c. Fazer (indicando tempo decorrido): Há dois anos que ela não me dá notícias.

O verbo haver, quando significa existir, é impessoal, mas se empregamos o


verbo existir, ele próprio, deve-se fazer a concordância com o sujeito. Por isso,
devemos escrever:

Há momentos em que penso em desistir. MAS Existem momentos em que a


esperança retorna pelo teu sorriso.

Quando o verbo haver indica tempo decorrido não se deve acrescentar o


advérbio ATRÁS pois seria redundante. Então....

SIM/ USE: HÁ alguns anos; ou Alguns anos ATRÁS.


NÃO/ NÃO USE: HÁ alguns anos ATRÁS.

Na indicação de tempo futuro ou de espaços entre épocas, já não se trata do


verbo HAVER, mas da preposição A.

Ela chegará daqui A instantes.


Daqui A dois anos estarei casado.
Estamos A três dias do natal.
As inscrições ficarão abertas de janeiro A março.
De segunda A sexta estarei em Brasília.

Lembre-se: Não existe, em português, a letra A sozinha com o acento gráfico, agudo.

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Já FAZ ou Já FAZEM cinco anos que não o vejo?
O verbo fazer é impessoal quando indica tempo. Então, em qualquer circunstância
ele permanece na 3ª pessoa do singular.

Faz uma semana.


Faz cinco semanas.
Fazia anos que ela não vinha ao Brasil.

Lembre-se: Em uma locução verbal, dois ou mais verbos que funcionam como um,
e se compõe de verbo auxiliar + verbo principal, quando acontece de ser impessoal
o verbo principal, caso dos verbos HAVER e FAZER, o verbo auxiliar carrega para si
a impessoalidade do verbo principal. Assim, deve-se seguir o exemplo:

“Se a medida for aprovada, poderá haver diversas manifestações de rua.”


Em todos os casos, mantém-se essa regra:
Poderá haver novas tentativas... ; Deve haver fatos que... ; Tinha havido exceções...
Está havendo reclamações... Deve fazer cinco anos .... Devia fazer dois anos

DE ENCONTRO A ou AO ENCONTRO DE ?
“De encontro a”... significa em oposição a, se coloca contrário a, indica
rejeição.

“Ao encontro de” ... significa em direção a, se coloca em concordância com,


indica aceitação.

Assim:

Isso vai de encontro a meus princípios. (= se opõe a, não concorda com)


Isso vem ao encontro de meus desejos. (= coincide, concorda com)

Nessa unidade, vimos algumas estratégias e recursos para a constituição de


parágrafos no texto que orientam tanto os movimentos do texto que o produtor
deseja imprimir quanto o caminho que o leitor deve seguir para produzir sentidos
ao texto, auxiliando os processos de leitura e de escrita. Também respondemos a
algumas dúvidas que surgem no momento em que estamos escrevendo, de modo a
garantir o uso adequado da norma urbana de prestígio, exigida no meio acadêmico
e profissional, seguindo as regras da gramática normativa.

Para aprofundar seus estudos e ampliar seus conhecimentos sobre esses temas,
consulte o material complementar que dispomos a seguir!

23
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UNIDADE A Constituição do Parágrafo:
Orientação para Leitura e Escrita de Textos

Em Síntese Importante!

A leitura do material teórico, com bastante atenção e cuidado é essencial para que você
apreenda os conceitos que foram discutidos e possa fazer uma primeira aproximação
com o tema proposto.
No caso dessa unidade, trata-se da constituição do parágrafo que envolve os conceitos
de tópico frasal e seus tipos, além das diferentes estratégias de desenvolvimento do
parágrafo. Há também respostas a algumas dúvidas no uso da língua, sobretudo quando
vamos escrever de maneira mais formal, em que precisamos usar a norma urbana de
prestígio, no âmbito acadêmico e/ou profissional.
Esse é apenas um primeiro momento de estudo. No entanto, para de fato construir
conhecimentos, é necessário ir além das informações do material teórico, buscando não
só refletir sobre o tema, mas também estabelecer relações com seus conhecimentos já
adquiridos, além de levantar dúvidas e aprofundar as leituras.
Para tanto, veja o material complementar a seguir.

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

É isso o que propomos nessa etapa de estudos: acesse os links, consulte o material indicado,
faça as leituras propostas nessa seção e só depois, com conhecimentos já solidificados e
aprofundados, siga para a realização das atividades.

Sites
A Estrturação de Parágrafo
https://goo.gl/SCIXIR
Referenciação e Progressão Tópica: Aspectos Cognitivos e Textuais
Para aprofundar seu conhecimento sobre o desenvolvimento do tópico frasal, leia o seguinte artigo
científico, “Referenciação e Progressão Tópica: Aspectos cognitivos e Textuais” Marcuschi, L.A.
2006 IEL Cadernos de Estudos linguístiicos, acessando o link:
https://goo.gl/SCIXIR

Livros
“1001 Dicas de Português – Manual descomplicado”
E se você tem mais dúvidas sobre o uso da língua portuguesa, na norma urbana de prestígio, con-
sulte na Biblioteca Virtual o livro “1001 Dicas de Português – Manual descomplicado”, de Dad
Squarisi e Paulo José Cunha, Editora Contexto, 2015.

Leitura
Desenvolvimento de Parágrafo
https://goo.gl/kYD6b3

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25
UNIDADE A Constituição do Parágrafo:
Orientação para Leitura e Escrita de Textos

Referências
BLIKSTEIN, I. Técnicas de comunicação escrita. São Paulo: Contexto, 2016. (e-book)

GERALDI, J. W. (Org.). O texto na sala de aula. 4. ed. São Paulo: Ática, 2006. (e-book)

KOCH, I. G. V. O texto e a construção dos sentidos. 10. ed. São Paulo: Contexto, 2012.

KOCH, I. G. V.; ELIAS, V. M. Ler e compreender: os sentidos do texto. 3. ed. São Paulo:
Contexto, 2013. (ebook)

KOCH, I.V.; ELIAS, V.M. Escrever e Argumentar. São Paulo: Contexto, 2016. (e-book)

LAJOLO, M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática,
1993. (e-book).

NEVES, M. H. M. Ensino de língua e vivência da linguagem. São Paulo: Contexto,


2010. (e-book)

TERRA, E. Curso prático de gramática. 6. ed. São Paulo: Scipione, 2012.

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Língua Portuguesa
Material Teórico
Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Sílvia Augusta Barros Albert

Revisão Textual:
Profa. Esp. Márcia Ota
Coesão e Coerência: Princípios
de Textualidade

• Introdução
• Coesão e Coerência Textuais
• A Pontuação como Aliada da Produção de Sentidos nos Textos

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Apreender os conceitos de coesão e coerência, como princípios de
textualidade para a produção de sentidos na leitura e na escrita;
· Desenvolver o domínio de mecanismos linguísticos que auxiliem a
manter o princípio da coesão, utilizando-os como estratégias para a
leitura e a escrita, tendo em vista a produção de sentidos;
· Compreender a coerência como princípio de textualidade que
abrange de forma global o texto e saber aplicar recursos e estratégias,
considerando o compartilhamento de conhecimentos prévios entre
produtor e leitor, tendo em vista a produção de sentidos.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como o seu “momento do estudo”.

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

Introdução
Nesta unidade, trataremos da coesão e da coerência como princípios de
textualidade, de uma perspectiva linguística, mas sem esquecer que a construção da
coesão e da coerência se dá, também, na interação entre interlocutores, por meio do
compartilhamento de conhecimentos prévios, sob as determinações socioculturais e
históricas do contexto. Além disso, é importante considerar a coesão e a coerência
como dois importantes princípios de textualidade que se atualizam no texto de
forma interdependente e intercondicionante para viabilizar a produção de sentidos,
tanto na produção quanto na recepção de textos (ANTUNES, 2005, p.179).

Ressaltamos que considerar a coesão e a coerência como interdependentes não


significa confundi-los ou não conseguir defini-los. De acordo com Antunes (2005),
não parece produtivo demarcar com precisão a fronteira em que acaba um e
começa o outro. Nas palavras da autora, “[..] parece mais produtivo não se prender
a essa diferenciação entre propriedades tão interligadas e tão intercondicionantes.
Cuidemos, isso sim, para que façam sentido as coisas que dizemos ou escrevemos”
(ANTUNES, 2005, p.179).

Sendo assim, dominar mecanismos linguísticos e saber aplicar recursos e


estratégias relacionados à coesão e à coerência nos textos é muito importante para
desenvolvermos novos recursos para a produção escrita e para a leitura.

Nessa unidade, também no material teórico, apresentamos, ainda, uma revisão


do emprego dos sinais de pontuação com o objetivo de mostrar que a pontuação, se
bem trabalhada, é mais um recurso que auxilia na produção/atribuição de sentidos.
Pontuar bem um texto pode assegurar a sua qualidade, clareza e a compreensão,
por parte do leitor, daquilo que queremos expressar.

Então, vamos começar?

Leia os seguintes textos:

Texto 1
Lá dentro havia uma fumaça espessa que não deixava que víssemos ninguém.

Meu colega foi à cozinha, deixando-me sozinho. Fiquei encostado na parede


da sala, observando as pessoas que lá estavam. Na festa, havia pessoas de todos
os tipos: ruivas, brancas, pretas, amarelas, altas, baixas etc. (...) (Francisco Platão
Saviolli e José Luis Fiorin. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo, Ática,
1996, p. 397.)

Texto 2
Fazendo sucesso com a sua nova clínica, a psicóloga Iracema Leite Ferreira
Duarte, localizada na Rua Campo Grande, 159. (Notícia da coluna social do
Correio do Mato Grosso)

Você observou algo “estranho” neles? Ou seja, você percebeu alguma incoerência?

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Se não, que tal ler mais uma vez?

Percebeu?

Bem no texto 1, há uma incoerência, uma contradição entre a primeira


observação do rapaz: ”havia uma espessa fumaça que não nos deixava ver nada” e
as afirmações seguintes: “fiquei observando as pessoas.[...]. Na festa havia pessoas
de todos os tipos: ruivas, brancas, pretas, amarelas, altas e baixas”. O que ficamos
sem entender é: como ele pôde observar tantos detalhes, cor de cabelo, cor de
pele, altura, se como ele mesmo afirmou anteriormente no texto, ele estava em um
ambiente em que a fumaça espessa não o deixava ver nada?

No texto 2, o problema está na ordem das palavras proposta pelo produtor que
gera um sentido, no mínimo, estranho. Pela forma como está organizada, a frase dá
a entender que é a psicóloga que está localizada à rua Campo Grande, 159 e não a
sua clínica. Leia mais uma vez o trecho, se não havia percebido essa “estranheza”.

Muitas vezes, quando produzimos um texto, não observamos essas “estra-


nhezas”. Mas na leitura, no texto do outro, é mais fácil perceber, não é mesmo?
Para que possamos aperfeiçoar nossa escrita e nossa leitura, vamos estudar nesta
unidade os princípios de textualidade da coesão e da coerência.

Coesão e Coerência Textuais


Leia o seguinte texto:

Prestei Vestibular e consegui comprar uma bicicleta, andei por caminhos


difíceis para atingir os meus sonhos. Entrei para a Universidade, mas a
bicicleta quebrou, por isso tenho um diploma de medicina.

Você conseguiu produzir algum sentido para o texto que leu acima? Certamente
que não. Isso aconteceu porque não podemos reconhecer nesse texto nem uma
continuidade, da qual decorre a coesão, nem uma unidade, que dá coerência ao texto.
As ideias expostas não estão relacionadas entre si, não expressam uma intenção do
produtor de produzir sentidos e nem recorrendo a nossos conhecimentos prévios
e a contextos socioculturais e históricos conseguimos atribuir um sentido ao texto.
Agora, leia mais um texto:
Subi a porta e fechei a escada.
Tirei minhas orações e recitei meus sapatos.
Desliguei a cama e deitei-me na luz.
Tudo porque
Ele me deu um beijo de boa noite.
(autor anônimo)

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UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

Seria esse texto incoerente? É possível recuperar alguma unidade de sentido ou


intenção? Alguma continuidade? De acordo com Antunes (2005), vale lembrar que
se trata de:
“um texto poético, portanto, um gênero de texto que tem a permissão
de transcender limites impostos pela realidade e pela lógica, mas sem
fugir às determinações das gramáticas e sem fugir à determinação de ser
coerente, de fazer sentido”. (ANTUNES, 2005, p.175).

No caso do poema acima, é na segunda estrofe que se baseia a unidade de


sentido: ao declarar que tudo isso de estranho ocorreu por causa de um beijo,
podemos montar a cena. Alguém que chega em casa depois de ter recebido um
beijo de seu amado se encontra em tal estado de alegria e êxtase que acaba por
descrever ações corriqueiras como abrir a porta, subir a escada, recitar orações, tirar
os sapatos, apagar a luz e deitar-se na cama de forma completamente embaralhada.
Para atribuir sentidos a esse texto, ativamos conhecimentos prévios e utilizamos
experiências vividas do fato de estar apaixonado, não é mesmo?
Esses dois exemplos mostram o que afirmamos no início dessa unidade, ou
seja, que a construção da coesão e da coerência se dá, também, na interação entre
interlocutores, por meio do compartilhamento de conhecimentos prévios, sob as
determinações socioculturais e históricas do contexto.
É necessário, no entanto, que conheçamos alguns mecanismos e recursos
linguísticos que asseguram e auxiliam a atribuir sentidos ao texto lido e/ou
produzido; em seguida, veremos como cada um deles pode ocorrer nos textos para
que se estabeleçam a coesão e a coerência, como princípios de textualidade.

Coesão Textual
De que trata, então, a coesão textual? De acordo com Antunes (2005), a função
da coesão é preservar a continuidade dos textos para que se efetive a unidade do
sentido e das intenções de nossa interação verbal. Em grande parte, isso ocorre por
meio de elementos formais, que assinalam o vínculo entre os vários componentes
das orações, dos períodos, dos parágrafos, num contínuo encadeamento.
Assim, quando construímos um texto falado ou escrito, usamos alguns
mecanismos e recursos que a língua nos oferece para organizar nossas ideias de
forma clara, usando elementos de conexão entre os parágrafos de um texto, entre
os períodos de cada parágrafo, entre as orações de cada período de forma que as
ideias estejam bem amarradas, permitindo ao leitor reconhecer a progressão das
informações e a continuidade do texto.
Leia, com atenção, o trecho seguinte:
Os amigos que me restam são de data mais recente; todos foram estudar a
geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze
anos, outras de menos, e quase todas creem na mocidade. Duas ou três
fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a
consultar os dicionários, e tal frequência é cansativa (Texto de Machado de
Assis, Dom Casmurro, adaptado para o exemplo).

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Vamos observar os elementos de coesão do texto:
a) Os principais referentes (sujeitos/tema de quem/que se fala) do texto são:
amigos e amigas.
b) Destacamos, a seguir, os elementos de coesão relacionados a esses referen-
tes: todos, algumas, outras, todas, duas, três, nela (mocidade), muita vez,
tal frequência.

No primeiro período (frase inicial até o primeiro ponto final), o pronome todos
remete a amigos (sujeito de restam e são), concordando em pessoa e número com
esse sujeito.

Já no segundo período (segunda frase que termina com ponto final), cujo sujeito
é o substantivo amigas, os pronomes algumas, outras, todas remetem a tal
sujeito; os numerais duas e três também. O termo nela retoma a expressão na
mocidade, evitando sua repetição. E, para retomar muita vez, o autor usou a
expressão sinônima tal frequência.

Segundo a professora Garcez (2004), a coesão do texto constrói-se por meio de


vários elementos gramaticais que estabelecem conexões e articulações, concatenando
ideias e funcionando como elos coesivos. Esses elementos são os seguintes:
· a manutenção do tema na sequência textual;
· a ordem direta das palavras no período;
· a determinação das marcas de gênero (masculino/feminino) e de número
(singular/plural);
· a ligação entre palavras por meio de preposições (de, para, com etc.);
pronomes pessoais e possessivos (eu, tu, ele... meu, sua, nosso etc.); e
conectivos (conjunções, pronomes relativos).

Vejamos alguns exemplos de empregos de elementos coesivos:


a) preposição

A educação moderna exige novas fontes de conhecimento, por isso criou a


modalidade de ensino a distância que é mais um dos recursos importantes no
desenvolvimento do indivíduo.

Explicação: Ficaria melhor se fosse utilizada a preposição para no lugar de no:


importantes para o desenvolvimento do indivíduo.
b) pronome relativo:

Os alunos que os conhecimentos foram desenvolvidos são os que atendem


melhor às exigências do mercado de trabalho.

Explicação: O pronome relativo correto deve ser cujos, pois existe a ideia de
posse entre os alunos e seus conhecimentos: Os alunos cujos conhecimentos
foram desenvolvidos...

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UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

c) conjunção:

Ter um controle do país, para alguns governantes, é ter democracia.


Portanto, se o povo participa, é imediatamente reprimido.

Explicação: A conjunção portanto está mal empregada, o que causa uma rela-
ção inadequada entre os períodos e um estranho sentido ao texto. A ideia que se
quer expressar é de oposição (democracia x repressão) e não de conclusão. Logo,
o emprego correto é no entanto, mas ou porém. Veja a diferença:

Ter um controle do país, para alguns governantes, é ter democracia. No


entanto, se o povo participa, é imediatamente reprimido.

O uso indevido dos elementos coesivos, como nos exemplos anteriores, leva
à falta de coerência na argumentação, já que os conectivos não estabelecem as
relações adequadas.

A coesão também pode ocorrer de modo implícito, a partir de conhecimentos


prévios do leitor/ouvinte em relação ao tema como, por exemplo, o conhecimento
de uma sigla, para evitar repetições de palavras. Ela pode, ainda, estar apoiada
no conhecimento partilhado que os participantes do processo comunicativo têm
a respeito da língua ou de uma situação comunicativa ou, ainda, de um contexto
sociocultural e histórico.

Vamos observar, a seguir, alguns mecanismos de coesão de que não podemos


lançar mão no momento da realização de uma produção textual.
I. Coesão referencial
·· por substituição: uso de pronomes, numerais, artigos, elementos de
conexão ou expressões de síntese (resumo) e elipse (omissão de termo
facilmente reconhecido);
·· por reiteração: sinonímia, repetição, expressões equivalentes.
II. Coesão sequencial
·· de tempo;
·· por conexão.

Vejamos como funcionam essas formas de entrelaçamento dos elementos que


constituem um texto.

Coesão referencial
A) A Coesão referencial por substituição se dá por diferentes recursos, a saber:
1. Pelo uso de pronomes pessoais de 3ª pessoa (retos e oblíquos),
possessivos, demonstrativos; por expressões adverbiais que indicam
localização (a seguir, acima, abaixo, anteriormente, aqui, onde); por
numerais e artigos, para citação e retomada de elementos do próprio texto.
Esses recursos podem se referir a elementos já citados no texto ou facilmente
identificáveis pelo leitor. Podem também se referir, por antecipação, a
elementos que serão citados na sequência do texto. Observe os exemplos:

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a) Paulo e José apresentam gostos afins. Apesar disso, têm personalidades
diferentes. Este não manipula as pessoas para gostarem das mesmas coisas;
aquele o faz.

Explicação: O termo isso retoma o predicado apresentam gostos afins; este


recupera a palavra José; aquele, recupera o termo Paulo; o pronome demonstrativo
o retoma a informação manipula as pessoas para gostarem das mesmas coisas.
b) Qualquer que tivesse sido seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara
de profissão e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo o
que sabíamos dele, o professor, gordo e silencioso, de ombros contraídos.

Explicação: O pronome possessivo seu e o pronome pessoal reto ele antecipam


a expressão o professor.
2. Por elipse, um recurso que se dá pela omissão de elementos facilmente
identificáveis ou já citados anteriormente no texto. Algumas vezes, essa
omissão é marcada por uma vírgula. Pronomes, verbos, nomes e frases
inteiras podem estar implícitos. Veja, a seguir, os exemplos:
a) O estudante recolheu-se cedo. Sabia que necessitaria de todas as suas forças
para o dia seguinte realizar a prova.

Explicação: O termo o estudante sujeito do primeiro período se tornou oculto/


elíptico no segundo período, o verbo “sabia” refere-se ao estudante. Ao ser omitido,
estabelece a relação entre as orações.

b) O dinheiro é curto (30.000 reais por aluno até 15 anos) e a distribuição


dos valores, heterogênea. (Revista Veja, 19/05/2002)

Explicação: no exemplo acima, foi omitido o verbo “ser” da segunda oração,


sendo marcada a sua supressão pelo uso da vírgula (,). Nesse caso, a recuperação
da informação se dá pelo próprio contexto verbal em que a elipse ocorre.
3. Por conectivos ou expressões de síntese como “assim, diante do que foi
exposto, a partir dessas considerações, diante desse quadro, em vista disso,
tudo o que foi dito, etc.” que, ao substituir substantivos, verbos, períodos ou
largas parcelas do texto, resumem e retomam o que já foi dito. Observe o texto:

Comer carne estimula o desmatamento?

“Indiretamente, sim. “Para criar pastos, muitos pecuaristas recorrem ao


desmatamento de florestas e de outros biomas, como o cerrado”, afirma
Marisa Dantas Bitencourt, professora de Biociências da USP. Segundo a
organização não governamental Viva!, que atua em defesa dos animais,
70% das áreas desmatadas da Amazônia são usadas para a criação de
pastos. E há ainda outro fator: “Boa parte da soja plantada em áreas de
florestas, como a Amazônia, é utilizada para a produção de farelo, maté-
ria-prima da ração do gado criado confinado em curral”, diz Marisa. Para
contornar o problema, seria preciso um rígido controle sobre a origem da
carne bovina e da ração do gado. O que há hoje, segundo o Ministério da

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UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

Agricultura, é um acordo em que agricultores se comprometem a não ex-


pandir a área destinada ao plantio da soja e um debate entre pecuaristas
e frigoríficos sobre um possível acordo em que a Embrapa monitoraria
pastos via satélite – assim, seria possível saber se há expansão de pasta-
gens para áreas de florestas” (Revista Vida Simples, abril de 2009, p. 20).

Explicação: No texto acima, aborda-se a relação entre o consumo de carne e


o desmatamento. São apresentadas duas razões para isso: a criação de pastos e a
plantação de soja para a fabricação da ração de gado. A solução seria um rígido
controle sobre a origem da carne e da ração. São apresentadas duas ações para
esse controle: acordo com agricultores para não expandir as plantações de soja
e acordo com pecuaristas e frigoríficos para que a Embrapa monitore os pastos
via satélite. Observe que a palavra assim (em negrito no texto) retoma essas duas
ações necessárias para maior controle da origem da carne e da ração bovinas.
B) A coesão referencial por reiteração ocorre pelo estabelecimento de uma
corrente de significados, retomando as mesmas ideias e partes de ideias.
Essa corrente é formada pela reutilização intencional de palavras, pelo uso
de sinônimos ou, ainda, pelo emprego de expressões equivalentes para
substituir elementos que já são conhecidos do leitor. Esse processo garante a
progressão temática na sequência do texto. Exemplos:
a) O doutor em Ciências Políticas falou aos repórteres no intervalo
da posse presidencial. O cientista entrevistado reconhece que houve
uma grande expectativa popular. Agora, o estudioso espera que as
expectativas sejam atingidas.

Explicação: os termos o cientista e o estudioso retomam a mesma ideia de


o doutor em ciências políticas. Aqui, foram usadas expressões equivalentes.
A coesão referencial por reiteração permite, ainda, que se emita juízo de valor
em relação ao termo que ela substitui. Podemos observar que a substituição feita
usando a palavra estudioso, confere um valor positivo ao cientista, doutor em
ciências políticas.
b) Graças a Deus eu não experimentei a força e a eficiência do Air Bag, pois
nunca fui vítima de um acidente. Mas sou totalmente a favor do equipamento.
Jamais soube de casos em que pessoas que dirigiam um carro com esse
dispositivo tiveram um ferimento mais grave [...] (Isto É, 1996).

Explicação: O termo Air Bag está sendo retomado no texto pelas palavras
equipamento e dispositivo que são sinônimos entre si e reiteram o primeiro,
garantindo a progressão temática do texto.

Segundo Garcez (2004), um dos grandes problemas na elaboração de textos é


a falta de coesão ou mau uso dos elementos coesivos. Isso revela desorganização
das ideias do produtor e dificulta a compreensão do leitor, pois pode ocorrer:
ausência de ênfase nas ideias principais; indefinição das relações entre as
ideias; falta de hierarquia entre as ideias principais e secundárias; truncamentos
semânticos; ambiguidade (duplo sentido), confusão e falta de clareza nas
referências; estilo infantil.

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Sem dúvida, o princípio da coesão é essencial para alcançarmos os objetivos em
nossa interação verbal. Vamos ver, a seguir, outros mecanismos e recursos para
estabelecer a coesão nos textos?
II. Coesão sequencial

Além dos mecanismos de coesão que examinamos anteriormente, há outro que


merece ser destacado: a coesão entre as diversas sequências do texto, ou seja, entre
orações, períodos e parágrafos. Essas sequências precisam ser relacionadas por meio
de expressões e conectivos adequados para que o texto seja de fácil compreensão.
Portanto, é muito importante conhecer os conectivos que a língua dispõe a seus
falantes e saber utilizá-los adequadamente nas situações de comunicação.
A) O uso indevido do elemento conector deixará o texto sem nexo, afetando,
também, a sua coerência.

Observe um exemplo de emprego inadequado da conjunção na frase: “Embora


os estudantes tenham o domínio da língua portuguesa, tenho certeza de que
acertarão os exercícios propostos”.

Nesse exemplo, não existe a ideia de concessão que justificaria a conjunção


embora. A relação é de causa e efeito, portanto, aí deve ser usada uma conjunção
causal: “como, porque ou já que”. Veja como podemos atribuir melhor sentido
à frase: “Como os estudantes possuem o domínio da língua portuguesa, tenho
certeza de que acertarão os exercícios propostos.”

Para esse tipo de problema não ocorrer em seu texto, crie o hábito de fazer a
revisão do texto antes de enviar ao destinatário ou publicar, observando se suas
palavras, orações e períodos estão adequadamente relacionados.
c) Outra forma de se estabelecer a coesão sequencial ocorre pelo uso de
marcadores temporais (expressões e partículas temporais como: hoje,
no dia seguinte, na próxima semana), expressões ordenadoras (por um
lado, em primeiro lugar, no parágrafo seguinte) e correlação dos tempos
verbais (pretérito perfeito e futuro do pretérito, pretérito perfeito e pretérito
imperfeito etc.).

Observe o trecho seguinte, retirado de uma crônica de Cecília Meireles, grande


escritora brasileira, em que ocorrem várias dessas expressões, garantindo a coesão
sequencial temporal no texto.

“A arte de ser feliz

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na porta


do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava
pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava
da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era
criança, achava essa ilusão maravilhosa; E sentia-me completamente
feliz. [...]”

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UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

Explicação: Nesse exemplo, o texto ocorre no passado e acontece numa


sequência temporal lógica e cronológica. O que explicita essa coesão sequencial
temporal é o uso de palavras, expressões e até orações completas como “um
tempo, nos dias límpidos, Eu era criança” destacadas em verde.

Os verbos destacados mostram uma correlação quanto ao uso de tempos


verbais. Houve está no pretérito perfeito indicando que o tempo já passou, e
todos os outros verbos e locuções verbais destacados (abria, brilhava, costumava
pousar, ficava, parecia, era, achava, sentia) estão no pretérito imperfeito
indicando que essas ações ocorriam também no passado, mas não terminaram,
continuaram na memória e na lembrança do narrador. Assim, pelo uso dos tempos
verbais no pretérito, fica estabelecida a coesão sequencial temporal ao se explicitar
que o que vai ser dito pertence à lembrança do passado.

Observe agora no trecho seguinte, retirado da mesma crônica, outros exemplos


de coesão: sequencial por conexão em negrito e referencial em verde.

[...] Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal
oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas
flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem
brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que
pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém
minha alma ficava completamente feliz. [...]

Explicação:

No trecho anterior, a coesão por conexão, em negrito, é marcada:


a) pelo pronome relativo “que” o qual introduz a segunda oração “a minha
janela dava para um canal”, fazendo a ligação dela com a primeira “Houve
um tempo”. A relação que se estabelece é a seguinte: “a minha janela dava
para um canal em um determinado tempo passado”;
b) pela conjunção “e”, que dá ideia de adição, isto é, no texto o narrador faz
uma sequência de questões e nas duas últimas coloca a conjunção “e”, cujo
efeito é dar ênfase para elas;
c) pela conjunção “porém” que dá ideia de oposição, contrapondo as duas
expressões sobre a realidade focalizada: “o narrador não ser mais criança” e
“sua alma ficar completamente feliz”.

Já a coesão referencial, em verde, retoma o que foi dito, utilizando os processos


de repetição ou substituição:
a) A palavra flores (substantivo): será retomada na repetição, pela expressão
aquelas flores e substituída pelo pronome pessoal oblíquo “as” (as comprava,
as tinham e recebê-las).
b) As palavras barco e canal (substantivos) foram retomadas por repetição.
c) O pronome indefinido “quem” será retomado por substituição na expres-
são “que pessoas” que engloba um pronome interrogativo, que, e o subs-
tantivo pessoas.

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Dessa forma, é possível ver quantas correlações são necessárias para produzir
um texto coeso. Já na leitura, é preciso identificar e analisar essas correlações
para atribuir sentidos ao que se lê. Mais uma vez, ressaltamos a importância
da participação ativa do leitor que traz para o processo de leitura todos os seus
conhecimentos, inclusive o linguístico/gramatical.

Algumas dicas úteis


Costuma haver certa dificuldade quando é necessário usar os conectivos nos
períodos mais longos, constituídos de várias orações, sem separação por ponto
final, o que exige muita habilidade do redator. Em caso de dúvida quanto ao uso
dos conectivos, é melhor dar preferência a orações mais curtas e ágeis, separadas
por ponto final.

Convém utilizar sempre expressões que retomem o que foi dito anteriormente
para estabelecer a coesão. Cuidar, com especial atenção, da conexão de orações
subordinadas introduzidas por pronomes relativos regidos de algum tipo de
preposição, para não haver o uso inadequado de (1) o/a qual por que/quem e
de (2) onde por em que para ligar orações; deve-se evitar, ainda, o uso recorrente
do (3) gerúndio. Os três exemplos citados são comumente usados na língua falada,
mas, na modalidade escrita, devem ser evitados rigorosamente.

Observemos os exemplos seguintes: (1) “A vendedora com que discuti foi


muito mal educada”. Para se referir a pessoas usa-se o pronome relativo quem,
seguido, quase sempre, de uma preposição pedida pelo verbo que rege o pronome
relativo: “A vendedora com quem discuti foi muito mal educada.”

Já o pronome relativo (2) onde sempre tem como antecedente um nome de


lugar. Enquanto que o pronome relativo quando se refere a tempo. Quando houver
dúvidas sobre o uso de onde ou quando (pronomes relativos), pode-se usar no
lugar deles “em que”, para evitar assim erros de coesão: “O lugar onde ou em
que morei na infância guarda muitas lembranças.” Ou ainda: “A época em que
vivi foi de muita riqueza cultural.”

O (3) gerundismo requer um comentário especial. Ao contrário do que se


expressa, principalmente no mundo do telemarketing, com os repetitivos “vamos
estar passando”, “vamos estar enviando”, etc. e tal, o que ocorre é justamente
uma ideia de procrastinação, isto é, adiamento da ação esperada quando o que se
espera é o pronto atendimento e a solução do problema.

A correção desse uso inadequado de três verbos, entre eles o último no gerúndio
(forma nominal do verbo que termina por ‘ndo’), para uma resposta assertiva deve
ser: “vamos passar”, “vamos enviar”. A ideia a ser transmitida é: “Vamos resolver
agora!” Portanto, diante de situações como essas, o ideal é ser pontual e transmitir
confiança, do contrário, corremos o risco de perder o atendimento e o cliente.

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UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

Até o momento, estudamos a coesão e vimos que com o emprego de recursos


variados – lexicais (repetição, substituição, equivalência); gramaticais (emprego
de pronomes, conjunções, tempos verbais, marcadores textuais de tempo) –
construímos frases, orações, períodos, parágrafos, textos; enfim, bem elaborados
que favorecem a compreensão do que se quer dizer.

Observe tudo o que vimos até aqui sobre coesão no quadro síntese que
preparamos a seguir:

Em Síntese Importante!

Coesão referencial por substituição ocorre:


a) Pelo uso de pronomes pessoais de 3ª pessoa (retos e oblíquos), possessivos,
demonstrativos; por expressões adverbiais que indicam localização (a seguir, acima,
abaixo, anteriormente, aqui, onde); por numerais e artigos;
b) Por elipse;
c) Por conectivos ou expressões de síntese como “assim, diante do que foi exposto, a
partir dessas considerações, diante desse quadro, em vista disso, tudo o que foi dito, etc.”
que, ao substituir substantivos, verbos, períodos ou largas parcelas do texto, resumem e
retomam o que já foi dito.
Coesão referencial por reiteração ocorre:
a) Pelo estabelecimento de uma corrente de significados, retomando as mesmas ideias
e partes de ideias. Essa corrente é formada pela reutilização intencional de palavras,
pelo uso de sinônimos ou, ainda, pelo emprego de expressões equivalentes para
substituir elementos que já são conhecidos do leitor. Esse processo garante a
progressão temática na sequência do texto.
Coesão sequencial ocorre:
a) Por conectores: emprego correto de conjunções, pronomes relativos etc.;
b) Por marcadores temporais (expressões e partículas temporais como: hoje, no dia
seguinte, na próxima semana), expressões ordenadoras (por um lado, em primeiro
lugar, no parágrafo seguinte) e correlação dos tempos verbais (pretérito perfeito e
futuro do pretérito, pretérito perfeito e pretérito imperfeito etc.).

Muito a conhecer e apreender sobre a coesão, não é mesmo? No entanto,


para se atribuir sentidos a um texto, é necessário que a coesão favoreça e esteja
intimamente ligada à coerência textual. Isso quer dizer, nas palavras de Irandé
Antunes (2005), que “não há uma coesão que exista por si mesma e para si
mesma. A coesão é uma decorrência da própria continuidade exigida pelo texto,
a qual por sua vez, é exigência da unidade que dá coerência ao texto (ANTUNES,
2005, p.177).”

Então, vamos a ela?

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Coerência Textual
A coerência é um princípio de textualidade ligado à possibilidade de o texto
funcionar em sua comunicabilidade. É, portanto, um princípio que não se prende
apenas às determinações gramaticais da língua e a mecanismos linguísticos,
mas que os pressupõe. Em outras palavras, a coerência não depende só de
conhecimentos linguísticos “e tem como limite a funcionalidade do que é dito, os
efeitos pretendidos, em função dos quais escolhemos esse ou aquele jeito de dizer
as coisas,” como afirma Irandé Antunes (2005, p.176).

A coerência depende, principalmente, do conhecimento prévio dos interlocuto-


res de um texto. Tal conhecimento diz respeito:
· ao conhecimento do mundo (conhecimento enciclopédico que se adquire
ao longo da vida) e o grau em que esse conhecimento deve ser ou é
compartilhado pelos interlocutores;
· ao conhecimento linguístico (o domínio das regras que norteiam a língua) que
possibilita aos usuários de uma língua combinar os elementos linguísticos;
· aos próprios interlocutores, considerando a situação em que se encontram,
as suas intenções de comunicação, suas crenças e a função comunicativa
do texto.

Sendo assim, a coerência se estabelece em uma situação comunicativa; ela


é a responsável pelo sentido que um texto deve ter quando partilhado pelos
interlocutores, pressupondo, inclusive, um domínio comum da língua. Ela está
ligada ao texto como um todo e é por isso que dizemos que ela se refere à estrutura
global do texto.

Observe este exemplo:

“A partir de amanhã, os empregados somente poderão acessar o prédio


usando cartões de segurança individuais. As fotografias serão tiradas na próxima
quarta-feira, e os empregados receberão seus cartões em duas semanas”. (de
Fred Dales, Microsoft, Redmond, WA)

Por que esta mensagem é estranha? A resposta é simples: é porque ela é uma
mensagem incoerente. Afinal, a empresa não pode exigir que os empregados
apresentem cartão de identificação duas semanas antes de disponibilizá-los. Existe,
neste texto, uma contradição, uma incoerência. O texto, portanto, não pode fazer
sentido para aqueles que o leem.

A coerência permite que o texto faça sentido para os leitores. Ela diz respeito
à possibilidade de estabelecer, no texto, alguma forma de unidade ou relação.
Observe, ainda, o seguinte exemplo: “Minha cidade é muito famosa e eu vou
todos os dias ao cinema, por isso as ruas são todas arborizadas e eu tomo
sorvete na escola”.

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UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

Não podemos reconhecer a coerência nesse pequeno texto porque não existe
nenhuma relação entre as ideias: a cidade ser famosa; eu ir ao cinema todos os
dias, as ruas serem arborizadas, nem o fato de eu tomar sorvete na escola. Os fatos
não mantêm relação entre si, não constroem uma unidade de sentido.

A coerência tem a ver, também, com as possibilidades que o leitor tem para
interpretar determinados tipos de textos. Leia este outro exemplo:

“Da mesma forma que, com a percepção visual, algumas teorias auditivas
enfatizam ou a comparação com o modelo ou a detecção da característica em
um nível sensorial. Essas teorias ascendentes são denominadas teorias passivas,
pois são baseadas na filtragem dos sons para características apenas no nível
sensorial, sem processamento cognitivo em nível superior”.

Para nós, que não dominamos a área de psicologia, fica difícil compreender
esse texto; não estabelecemos sua coerência pelo fato de não possuirmos os
conhecimentos necessários para a construção de seus sentidos.

Ao produzirmos um texto, pois, precisamos ter em mente que devemos


adequá-lo à situação de comunicação, ao nosso interlocutor e obedecer ao có-
digo linguístico, valorizando, com isso, a comunicabilidade, importantíssimo
fator de textualidade.

Assim, para um texto ser bem elaborado, respeitando o princípio da coerência,


sugerimos alguns procedimentos com base nas metarregras de Michel Charolles.
Elas determinam que, para ser coerente, é necessário ao texto que apresente ao
longo de seu desenvolvimento:

Repetição elementos de recorrência do tema em referência.

Progressão ampliação do sentido constantemente renovada.

Não Contradição não introdução de elemento que contradiga o que já foi enunciado anteriormente.

Relação ideias e fatos que se denotem no mundo representado pelo texto.

Veja alguns exemplos de textos em que se aplicam ou não as metarregras


apresentadas e alguns comentários sobre eles.
a) Repetição: o texto a seguir utiliza elementos coesivos: os termos ‘ela’ e ‘a mu-
lher’ substituem o termo ‘a moça’, portanto não viola a metarregra da repetição.

Por um momento a moça achou que estava sendo seguida. Assustada,


ela apertou o passo esperando chegar a um ponto mais iluminado da
rua. Era noite alta e a mulher sentia-se ameaçada.
b) Progressão: o texto b1 não apresenta progressão, já o texto b2 foi
reelaborado, procurando não violar essa metarregra:

b1 - Hoje em dia, no mundo em que vivemos, nós, os seres humanos,


estamos cada vez mais preocupados e pensando sobre as trágicas e

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desastrosas consequências maléficas que podem advir da utilização
inadequada e incorreta dos recursos naturais de que dispomos neste
nosso planeta e que são acessíveis a nós.

b2 - Atualmente, estamos cada vez mais preocupados com as trági-


cas consequências que podem advir da utilização inadequada dos re-
cursos naturais.

No caso da metarregra progressão, observe que, no texto b1, o produtor insere


várias informações que são desnecessárias para atingir o objetivo do que quer dizer.
No texto b2, todas essas informações foram retiradas e o texto se tornou mais claro
e mais objetivo.
c) Não contradição: o texto c1 apresenta contradição, já o texto c2 foi reelabo-
rado para não violar essa metarregra e para transmitir a mesma informação:

c1 - A grande imprensa veicula informações que suprem muitas


carências dos indivíduos. Ela é responsável pela grande confusão em
que a sociedade vive.

c2 - Se, por um lado, a grande imprensa é importante porque


veicula informações que suprem muitas carências dos indivíduos, por
outro lado, ela é, às vezes, responsável pela grande confusão em que a
sociedade vive. Isso porque os fatos são veiculados, em muitos casos,
de forma superficial.
d) Relação: os textos a seguir, d1 e d2, mostram típicas conclusões de redações
que apresentam propostas incoerentes (apesar da boa intenção do autor),
pela impossibilidade de serem colocadas em prática ou simplesmente pelo
caráter vago que expressam:

d1 - Hoje em dia, estamos cada vez mais preocupados com as trágicas


consequências que podem advir da utilização inadequada dos recursos
naturais.

d2 - Para resolver o problema da fome no Brasil o governo deveria


promover muitas campanhas e palestras de conscientização, assim as
pessoas que têm alimentos doariam para aquelas que não os têm.

No caso da metarregra da relação, observe que em ambos os textos, d1 e d2,


as ideias apresentadas ou não são desenvolvidas de maneira a propor uma solução
real ao problema (d1) ou não propõem soluções cabíveis, possíveis, aos problemas
que apresentam (d2) no que diz respeito à realidade. Essa metarregra diz respeito
a ideias e fatos que se denotem no mundo representado, seja criado em uma
narrativa ficcional ou na realidade em que vivemos, quando se faz referência às
coisas e fatos do mundo.

Finalizando, podemos perceber que os princípios de textualidade da coesão e da


coerência, aqui expostos, auxiliam- nos a elaborar textos que atendam melhor às
intenções comunicativas e permitam ao leitor atribuir sentidos ao que comunicamos.

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UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

No entanto, vale ressaltar que, ao usar os mecanismos de coesão, favorecendo


assim a coerência do texto, não estamos apenas fazendo simples operações de
retirar e pôr palavras, numa ação mecânica de criar sequências de palavras que
façam sentido.

Estamos, na verdade, usando esses mecanismos de forma a atender a nossa


intenção, cuja pretensão é interativa, isto é, fazemos uso da linguagem verbal para
comunicar algo a alguém. Por isso, optamos por repetir (ou não), substituir,
estabelecer associações, usar os elementos de conexão, de forma a que tenhamos
sucesso em nossos propósitos comunicativos. Assumindo as palavras de Irandé
Antunes (2005):
“Conhecer explicitamente os recursos que deixam um texto coeso,
conhecer explicitamente regras de sua coerência é, portanto, benéfico
a qualquer pessoa, sobretudo, àquelas que, de alguma forma, fazem
da linguagem seu instrumento de estudo1 e de trabalho” (ANTUNES,
2005, p.191).

A Pontuação como Aliada da Produção


de Sentidos nos Textos
Muitas vezes, entendemos que o emprego da pontuação ocorre apenas para que
se respeitem as regras da gramática normativa que orientam o uso da língua na
Norma Urbana de Prestígio. É verdade que elas existem e precisam ser respeitadas,
quando estamos utilizando essa variação linguística.

No entanto, a pontuação pode exercer um papel fundamental na produção de


sentidos de um texto. Há vários casos em que o emprego da pontuação está mais
relacionado a uma escolha estilística, isto é, não ofende a nenhuma regra gramatical
e ainda confere um efeito de sentido ao texto, por escolha do seu produtor.

Leia o texto a seguir, criado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), para
um anúncio comemorativo dos 100 anos dessa associação, para compreender
melhor o que queremos dizer sobre o uso da pontuação:

A VÍRGULA

A vírgula pode ser uma pausa, ou não.

NÃO, ESPERE.

NÃO ESPERE.

A vírgula pode criar heróis.

ISSO SÓ, ELE RESOLVE.


1 N.B. termo inserido por nós às palavras da autora.

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ISSO, SÓ ELE RESOLVE.

Ela pode forçar o que você não quer.

ACEITO, OBRIGADO.

ACEITO OBRIGADO.

Pode acusar a pessoa errada.

ESSE, JUIZ, É CORRUPTO.

ESSE JUIZ É CORRUPTO.

A vírgula pode mudar uma opinião.

NÃO QUERO LER.

NÃO, QUERO LER.

Uma vírgula muda tudo.


ABI. 100 anos lutando para que ninguém mude nem uma vírgula da
sua informação.
(ABI – Associação Brasileira de Imprensa – anúncio comemorativo dos 100 anos da associação, que circulou em revista de grande tiragem)

Percebeu como o uso da vírgula, para citar apenas uma possibilidade de emprego
da pontuação, pode ser responsável por criar efeitos de sentido no texto? E como
é uma questão de estilo e não de correção gramatical?

Para que possamos utilizar a pontuação como mais um recurso capaz de


não só auxiliar a estabelecer coesão e coerência como também de criar efeitos
de sentidos nos textos, é essencial que conheçamos as regras gramaticais que
orientam o seu emprego.

Vamos recordá-las? E mais importante do que memorizá-las é estar atento ao


seu uso na produção escrita de seus textos. Observe o quadro a seguir:

Ponto final: marca o fim de uma frase declarativa: Escrevo bem.

Ponto de interrogação: marca o fim de uma frase interrogativa direta: Quantos anos você tem?

Ponto de exclamação: marca o fim de frases optativas, exclamativas ou imperativas: Que saudades de minha casa!

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UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

Ponto e vírgula, dois-pontos, reticências


Ponto e vírgula
É utilizado:
1. Para separar orações:
·· que mantêm certa aproximação de significado:

Os alunos são inteligentes; as professoras são dinâmicas.


·· já marcadas por vírgula:

Eu, pessoalmente, queria chamar socorro; o motorista, porém, mais calmo,


resolveu o problema.
2. Para separar os itens de um enunciado:

O candidato promete:
a) gerar mais empregos;
b) incentivar a agricultura;
c) acabar com a corrupção.

Dois-pontos
Anunciam e introduzem uma enumeração, uma citação ou um esclarecimento:

Disse o Ministro das Comunicações: “Em breve, todo o país será unido pela
informação”.

Reticências
1. Indicam interrupções da frase e demonstram determinados estados emotivos:

Lá fora pessoas circulam livres, sorridentes e...

O professor faltou, o que para ele foi uma pena, mas...


2. Podem indicar, ainda, que, numa citação, suprimiu-se alguma parte:

“...para ver a banda passar...”

“...lindo pendão da esperança...”

Vírgula
A vírgula é usada:
1. Para separar aposto (esclarecimento de um termo anterior) e vocativo
(chamamento):

Leonardo, o chefe do grupo, adiou a decisão.

Marcos, não se atrase para o jantar.

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2. Para separar termos coordenados:

A poesia, a dança, a escultura e a música são formas de expressão.


3. Para indicar inversões:

No inverno, as folhas caem.

De todas as garotas do colégio, você é a mais inteligente.

Quando os alunos saem, a escola fica fechada.


4. Para separar orações sem conjunção:

Os supervisores escolhem os projetos, os gerentes analisam as situações, as


coordenadoras executam os programas.
5. Para indicar intercalações:

Quero que você saia, ou melhor, suma daqui.

Você podia, por exemplo, abrir um negócio próprio.


6. Para separar todas as orações coordenadas, exceto as iniciadas por e:

Esperava a visita, mas ninguém chegou.

Obs.: as orações introduzidas pela conjunção “e” podem separar-se por vírgulas
nos seguintes casos:
· Se os sujeitos das orações forem diferentes: Os culpados foram eles, e nós
fomos punidos.
· Se houver repetição enfática do e: E suspira, e geme, e sofre, e sua.
7. Para separar orações adjetivas explicativas (as que apresentam
explicação sobre um termo anterior):

O homem, que é mortal, aspira à eternidade.

Atenção quanto ao sentido das orações:

O presidente que ama seu povo está preocupado com a distribuição de renda.

O presidente, que ama seu povo, está preocupado com a distribuição de renda.

Observe que, no 1º caso, a oração “que ama” refere-se a todo e qualquer


presidente. Já no 2º, essa mesma oração, entre vírgulas, traz uma explicação a
respeito de um determinado presidente.
8. Para separar orações reduzidas:

Findas as lições, deitou-se no sofá.


9. Para separar orações subordinadas adverbiais:

Quando o tempo melhorou, eles foram viajar.

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UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

10. Para marcar a elipse do verbo, por ele ser idêntico ao da oração anterior:

Maria estuda francês, e João, inglês. (e João estuda inglês)


11. Para separar sim e não:

Não, vou a pé.

Sim, preciso de ar puro.

ATENÇÃO
Não se usa vírgula:
1. Entre o sujeito e seu predicado: Muitas cidades da Europa ficam nas montanhas.

Essa é uma síntese que você deve consultar para colocar em prática, sempre
que tiver a tarefa de produzir textos na Norma Urbana de Prestígio, o que na
graduação ocorre com frequência, não é mesmo? E com certeza, você levará esses
aprendizados para a sua vida profissional, o que pode ser decisivo para o sucesso
em um concurso ou para que você se destaque em sua atuação na área, concorda?

Então, comece a trabalhar para isso desde já!! Bons estudos e ... sucesso!!

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
Para ampliar e aprofundar seus conhecimentos sobre esses dois princípios de textualidade,
indicamos algumas leituras que você encontra na biblioteca virtual da Universidade e outras
que você pode acessar na Internet.
Sites
Nos três links, a seguir, você encontrará textos curtos que retomam os conceitos que
vimos a respeito da coesão e da coerência e vários exemplos de sua aplicação ou de
recursos linguísticos que auxiliam para a sua construção no texto.
https://goo.gl/3QAyOk
https://goo.gl/s1jmdI
https://goo.gl/MnLrsQ

Livros
Além disso, você pode aprofundar ainda mais seus conhecimentos lendo os seguintes
livros, que você encontra na biblioteca virtual da universidade, escritos por autoras e
linguistas brasileiras que são referência na área:
Coesão e coerência textuais
FAVERO, Leonor L. Coesão e coerência textuais. 11ª Ed. São Paulo: Ática, 2009.
(e-book)
Construção dos Sentidos
KOCH, I.G.V. O Texto e a Construção dos Sentidos. 10ª ed., São Paulo: Editora
Contexto, 2012. (e-book)

Leitura
Coerência: A sua redação precisa fazer sentido
no link a seguir, você encontra um artigo científico que aborda a coesão e a coerência
em seu aspecto também cognitivo, isto é, nas operações mentais que elaboramos
na memória e que estão implicadas na construção desses princípios de textualidade
quando lemos, falamos e escrevemos. A autora, Carmen Elena das Chagas, vai abordar
“estratégias e procedimentos eficientes para conseguir alcançar a unidade do texto”.
https://goo.gl/6qXWwp

27
27
UNIDADE Coesão e Coerência: Princípios de Textualidade

Referências
ANTUNES, I. Lutar com Palavras – coesão e coerência. São Paulo: Parábola
Editorial, 2005.

COSTA VAL, M. G. Redação e textualidade. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

FAVERO, L. Coesão e coerência textuais. São Paulo: Ática, 2009.

GARCEZ, L. Técnicas de redação: o que é preciso saber para bem escrever. São
Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 112-5.

KOCH, I. V. A coesão textual. São Paulo: Contexto, 1989.

________. A coerência textual. São Paulo: Contexto, 1990.

________. Desvendando os Segredos do Texto. São Paulo: Cortez Editora, 2002.

________.O Texto e a Construção dos Sentidos. 10ª ed., São Paulo: Editora
Contexto, 2012.

KOCH, I V. & TRAVAGLIA, L. C. Texto e coerência. São Paulo: Cortez, 1989.

________. &TRAVAGLIA, L. C. A Coerência Textual. São Paulo: Contexto, 2004.

MARTINS, D. S. Português Instrumental. Porto Alegre: Atlas, 2007.

PERROTTI, Edna M. B. & MONTANARI, Marilena E. de L. SOS Língua


Portuguesa – Apoio Gramatical. 2ª ed. São Paulo: ABNL, 1998.

SQUARISI, D. Como escrever na internet. São Paulo: Contexto, 2014.

TERRA, Ernani. Curso Prático de Gramática. São Paulo. Editora Scipione, 1991.

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Língua Portuguesa
Material Teórico
Gêneros da Esfera Acadêmico-Científica:
Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Roseli F. Lombardi
Profa. Dra. Sílvia Augusta Barros Albert

Revisão Textual:
Profa. Esp. Márcia Ota
Gêneros da Esfera Acadêmico-
Científica: Estratégias e Métodos
de Leitura e de Escrita

• Introdução
• A Leitura e a Escrita na Esfera de Atividade Acadêmica
• Para Fazer um Fichamento
• Para Fazer um Resumo
• Para Fazer uma Resenha
• Para Terminar, Por Enquanto...
• Regência Nominal, Verbal e Uso da Crase

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Apreender o conceito de gêneros acadêmico-científicos e diferenciar
fichamento, resumo e resenha;
· Desenvolver estratégias e métodos para a leitura e a produção escrita
de fichamentos, resumos e resenhas de textos;
· Aprimorar conhecimentos sobre o uso da crase.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como o seu “momento do estudo”.

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
UNIDADE Gêneros da Esfera Acadêmico-Científica:
Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

Introdução
Nesta unidade, vamos apresentar alguns gêneros acadêmico-científicos, suas
características de composição, de conteúdo e finalidades com o objetivo de
desenvolver habilidades de leitura e de produção de textos que são exigidas no
contexto da universidade. Sabemos que, na esfera de atividade acadêmica, alguns
gêneros circulam com bastante frequência. Por isso, dominar a maneira particular
como são construídos e constituídos consiste em um importante diferencial para
seu desenvolvimento e formação como estudante graduado e, com certeza, será de
grande valia em sua prática profissional, concorda?

Ler e redigir, no contexto da universidade, é saber atribuir sentidos e produzir


textos acadêmicos, como resenhas, artigos científicos, monografias, os quais
possuem funções diferentes. Cada um desses gêneros apresenta características
específicas e devem ser reconhecidos pela maneira particular com que se constroem
em relação a: tema e objetivo do texto; público-alvo e natureza e organização
das informações.

Nesta unidade, abordaremos o fichamento, o resumo e a resenha com vistas a


estabelecer as suas especificidades e a apresentar estratégias que possam auxiliá-lo
para a leitura e a escrita de cada um deles.

Então, para começar...

Você tem familiaridade na elaboração dos gêneros resumo e resenha? Você sabe
diferenciar esses dois gêneros? E fazer um fichamento?

Antes de responder, assista ao vídeo que explora, de forma bem sintética, os gêneros
Explor

acadêmico-científicos mais comuns no meio universitário. Para isso, acesse o link a seguir:
https://youtu.be/LwKljtaFjmc

Assistiu?

Agora, com base em seus conhecimentos prévios e com o que apreendeu no


vídeo, analise os dois itens a seguir para determinar qual deles é a definição de
resumo e de resenha:
a) É a síntese do conteúdo de uma obra, abordando as ideias principais em
poucas palavras, sem análise crítica.
b) É a apresentação do conteúdo de uma obra, acompanhada de uma
avaliação crítica.

Então... decidiu? Guarde a sua resposta e, ao final da leitura do material teórico,


avalie se respondeu corretamente, ok?

8
A Leitura e a Escrita na Esfera
de Atividade Acadêmica
A leitura é um processo importante para a aprendizagem no contexto acadêmico,
pois as referências teóricas partem, quase sempre, do universo dos livros, dos
artigos científicos e de trabalhos de pesquisa como teses e dissertações; trata-se
de um aspecto do conhecimento enciclopédico, como se costuma dizer. Mesmo
que investiguemos fenômenos sociais ou naturais que podem ser observados nos
ambientes naturais ou na sociedade, não podemos prescindir dos textos, pois esse
é o espírito da pesquisa.

Embora seja essencial para a vida acadêmica, a leitura não é encarada por
muitos como algo natural ou já assimilado ao longo da trajetória estudantil. Muitas
vezes, a falta de familiaridade com leituras gera significativa dificuldade quando o
estudante chega à universidade. Tais dificuldades, no entanto, podem ser vencidas
com empenho e método. E também com o desejo de avançar cada vez mais em
seus conhecimentos sobre a leitura, concorda?

Então, vamos lá!!

A questão da leitura e da representação do leitor no Brasil é abordada pela professora


Explor

doutora Luzmara Curcino Ferreira da UFSCAR no link a seguir:


https://youtu.be/fmj44kbXuYQ
Vale a pena conferir e saber mais sobre a leitura e os leitores brasileiros!

Então, agora, vamos prosseguir com nosso estudo e falar das leituras exigidas na
universidade, como aquelas com fins à pesquisa.

Para orientar a leitura de um texto com finalidades de pesquisa, Antonio


Joaquim Severino (2002) sistematizou um método, chamado de método de
leitura analítica. Os passos propostos pelo método contribuem muito para uma
proveitosa compreensão e assimilação dos textos. A leitura analítica avança
por etapas sucessivas de um processo lógico até a compreensão global de uma
unidade de leitura. As referidas etapas são: análise textual, análise temática, análise
interpretativa, problematização e síntese pessoal.

A primeira etapa, a análise textual, consiste na busca de uma visão geral do


texto, mediante uma leitura rápida e atenta aos elementos mais importantes. Nesse
momento, o leitor deve buscar esclarecimentos sobre palavras desconhecidas, fatos,
doutrinas e autores citados no texto, sobre os quais não possua conhecimento. É
fundamental para o entendimento do texto, compreender a posição do autor e o
contexto por ele tratado. Essa etapa culmina com um esquema ou plano de texto,
que ajudará na formulação de uma visão de conjunto.

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UNIDADE Gêneros da Esfera Acadêmico-Científica:
Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

A etapa seguinte é a análise temática que consiste em compreender a mensagem


do autor, com a identificação do tema abordado na unidade de leitura, isto é, do
problema apresentado pelo autor e sua tese. Trata-se de identificar o caminho
seguido pelo raciocínio do autor entre ideias principais e secundárias.

A etapa final é a análise interpretativa da unidade de leitura. Nela, o leitor deve


exercer uma atitude crítica com relação às posições do autor, verificando a coerência
da argumentação, originalidade do tratamento do problema, profundidade da
análise, alcance das conclusões do autor e suas consequências.

O levantamento de pontos para discussão a partir do que está explícito/aparen-


te ou implícito/subentendido no texto é o processo que Severino chama de proble-
matização. Nesse momento, o leitor faz seus questionamentos às posições do autor
e temas trazidos pelo texto, realizando uma reflexão individual ou debate em grupo.

Por fim, o leitor deve reelaborar a mensagem do autor, com base em sua reflexão
pessoal, o que Severino chama de síntese. A síntese não se confunde com resumo,
puro e simplesmente, porque o resumo é a abordagem sintética e simplificada
das ideias do autor. Na síntese, há um diálogo efetivo entre as ideias do autor e as
reflexões efetuadas pelo leitor a partir da interpretação do texto lido.

Esse roteiro de leitura, proposto pelo professor Severino, está diretamente


relacionado à produção escrita de alguns gêneros que circulam na esfera de
atividade acadêmica, podendo auxiliar bastante em sua elaboração. Vamos tratar
de alguns deles ainda nessa unidade. Aguarde!

Por ora, vamos falar sobre a escrita acadêmica que exige seguirmos, sobretudo,
duas etapas essenciais para a sua elaboração, de acordo com Motta-Roth e Hendges
(2010): a preparação para a produção textual (definição do tópico e seleção da
literatura de referência) e o processo de produção textual (distinguir a função de
diferentes gêneros acadêmicos; definir o público-alvo, o estilo, e manter o ciclo de
escrever, revisar e editar) (MOTTA-ROTH e HENDGES, 2010, p. 14 e 15):

De acordo com essas autoras, a definição do tópico depende essencialmente da


leitura. Vale lembrar, ainda, que a atividade de leitura alimenta a escrita, portanto,
deve-se selecionar bibliografia relevante na área e atentar para temas que carecem
de estudos mais aprofundados ou problemas relativos a um tema que ainda não
foram explorados.

A seleção da literatura de referência é um passo importante para a redação do


texto tendo em vista que ela definirá a perspectiva teórica adotada para o estudo
do tema. São três os critérios que devem ser seguidos nessa seleção: a qualidade da
fonte de onde os textos são extraídos; a importância dos autores e de seus estudos
para a área e a recência dos trabalhos, isto é, deve-se buscar textos publicados nos
últimos 5 anos (MOTTA-ROTH e HENDGES, 2010, p. 14 e 15).

É fato que trabalhar com textos recentes é uma forma de garantir a atualização
de informações e de dados. No entanto, não se deve preterir textos clássicos e
fundantes da perspectiva teórica adotada.

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Outro ponto que merece atenção é o público a quem se dirige o texto acadê-
mico. É preciso ter uma representação clara desse leitor, para encontrar o tom
adequado e poder projetar expectativas quanto aos conhecimentos prévios que
trará para a leitura do texto. É preciso ainda definir como será o relacionamento
com esse leitor a partir de suas características, pois podemos escrever para ini-
ciantes no assunto (alunos de graduação; leigos) ou para professores (especialistas
no tema). Dessa variação do leitor depende o estilo a adotar (tom mais ou menos
formal, a escolha do vocabulário) e os objetivos da escrita do texto (pedagógicos,
mostra de familiaridade e de conhecimento na área, ou mesmo para estudos e a
própria pesquisa).

É muito importante ter em mente, ainda, que a escrita é um processo que


solicita alguns procedimentos que devem ser seguidos para alcançarmos sucesso
no produto que almejamos: o texto finalizado. Por isso, além das etapas que
destacamos, anteriormente, um procedimento essencial é o planejamento que
deve ocorrer antes da escrita do texto.

Respaldada nos estudos de David e Plane (1996) e também Coirier, Gaonac’h e


Passerault (1996), Cabral (2013) afirma que o planejamento é tanto o momento de
busca das ideias para escrita quanto o momento de organizá-las e procurar imaginar
o conhecimento que o leitor já detém, para, a partir desses dados, organizar o
texto. Com efeito, ressalta a autora, um texto será tanto melhor quanto as ideias
forem mais bem dominadas e organizadas na base de conhecimentos do produtor
(DAVID e PLANE, 1996, p. 23, apud CABRAL, 2013, p.253).

Cabral (2013) destaca ainda que “desse ponto de vista, a elaboração de um


plano prévio constitui uma ferramenta para o trabalho da escrita, uma estratégia
que permite assegurar maior coerência entre o querer dizer e o dizer efetivado pelo
texto (CABRAL, 2013, p. 253).”

Outro procedimento a que devemos estar bem atentos é a revisão, posterior


à escrita do texto. Para Motta-Roth e Hendges (2010), “ a palavra-chave para a
qualidade de qualquer texto é ‘revisão’ “. Por isso, a cada versão escrita de seu texto
é preciso relê-lo com distanciamento e espírito crítico, conforme apontam essas
autoras. Recomendamos que, ao reler e encontrar fragilidades no seu texto, não
hesite em reescrevê-lo, integralmente ou em parte, para reestruturá-lo, reorganizá-
lo, realizando todas as mudanças que achar cabíveis, sempre tendo em vista seus
objetivos e o seu leitor.

Para finalizar, reiteramos que os textos acadêmico-científicos possuem funções


diferentes, seja recolher elementos para preparar a parte teórica de uma monografia,
dissertação ou tese; seja apresentar um posicionamento crítico e reflexões sobre
um tema e a literatura científica que dele se ocupa, entre outras. Por isso, é preciso
conhecê-los de perto para poder desenvolver estratégias de leitura e de escrita para
bem produzi-los.

Apresentamos, a seguir, três deles: o fichamento, o resumo e a resenha.

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UNIDADE Gêneros da Esfera Acadêmico-Científica:
Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

Para Fazer um Fichamento


O fichamento é um procedimento prático e uma ferramenta indispensável para
todo leitor que realiza uma pesquisa. Uma boa ficha de leitura, independente do
suporte utilizado, digital ou analógico, serve para sintetizar de forma sistemática
o conteúdo essencial da leitura de uma obra, bem como articulá-la com nossa
reflexão pessoal. Com sua experiência de pesquisador e escritor, Umberto Eco
(1983) propõe que uma ficha de leitura contenha alguns elementos:
• indicações bibliográficas da obra que está sendo fichada;
• informações sobre o autor (quando não o conhecemos e necessitamos des-
se suporte);
• citações literais de trechos mais importantes da obra (usando aspas nas
transcrições);
• comentários pessoais (quando fizermos nossas observações; é importante deixar
claro seu caráter pessoal, diferenciando-as por cores ou usando colchetes para
tudo aquilo que for opinião nossa e não do autor) (ECO, 1983, p. 96 -111).

Com a prática sistemática do fichamento, certamente faremos adaptações


pessoais, incorporaremos outros elementos e marcas particulares ao trabalho. É o
caminho natural da aplicação de uma orientação metodológica. As fichas de leitura
podem ser iniciadas pela bibliografia do autor ou pelo tema/assunto referente à
pesquisa. Depois, apresenta-se um resumo sucinto e preciso sobre a leitura.

A apresentação dos elementos bibliográficos obedece à seguinte ordem:


cabeçalho, referência e comentário (resumo).

Vejamos um exemplo de fichamento de leitura, começando pelo autor:

BUENO, Ângelo (org.). Cultura brasileira. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. 112 p.
Estudo da identidade nacional. Está profundamente ligada à reinterpretação da
cultura popular brasileira que, por sua vez, está relacionada a grupos sociais e à
própria construção do Estado brasileiro. Baseia-se no fato da ausência de uma
identidade autêntica e na existência de uma pluralidade de identidades culturais,
construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos históricos.
Os autores abordam a cultura brasileira da identidade nacional, assunto que segundo
eles tem sua origem no Brasil antigo e permanece até os dias de hoje. Os elementos
são mencionados como “raça e meio” e são fundamentos do conhecimento
intelectual do povo brasileiro, imprescindível para a construção e preservação da
identidade cultural.

(modelo extraído de FACHIN, Odília. Fundamentos de Metodologia. 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 2006).

De acordo com o modelo apresentado, podemos observar que ele contempla,


em primeiro lugar, as indicações bibliográficas da obra, mas não traz comentários
sobre o autor, por se tratar de uma coletânea de textos de vários autores organizada

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por Ângelo Bueno. Em seguida, apresenta-se um resumo da obra, destacando
o tema e informando qual a base do estudo apresentado. Ao final, há um
parágrafo em que o leitor da obra faz uma reflexão a respeito dessa abordagem,
destacando alguns elementos (meio e raça) imprescindíveis para o estudo do tema
(identidade nacional).

Vale destacar a importância do fichamento para a elaboração de uma resenha,


de um artigo científico ou de uma monografia. O produtor poderá consultar suas
“fichas” no momento de fazer uma citação ou de retomar suas reflexões a respeito
da obra lida anteriormente, sem precisar retomar a leitura do livro. Além disso, as
indicações bibliográficas (ano, autor, número de páginas etc.) podem ser facilmente
reproduzidas no texto que está sendo elaborado.

Por isso, comece, desde já, a preparar os seus fichamentos!!

Para Fazer um Resumo


Antes de abordarmos o resumo como um gênero acadêmico-científico, vale
lembrar que o ato de resumir está bastante presente em nosso cotidiano, na fala,
pois vivemos muitas situações que nos exigem a concisão em relatos que fazemos
sobre notícias de jornal, de fatos do trabalho, ou mesmo ao reportar conversas
entre amigos. Quando lemos um livro, vemos um filme, e gostamos, ao conversar
com o outro não é possível contar toda a história, não é mesmo? Por isso, estamos
sempre resumindo...

Na esfera de atividade acadêmica, no entanto, tomamos o resumo como um


gênero de texto e nos interessa compreender melhor seu processo de produção
escrita. Segundo Ilhesca e Mutter da Silva (2013), podemos conceituar o gênero
acadêmico-científico “resumo” como a apresentação concisa dos pontos mais
importantes de um texto, que tem como característica principal a fidelidade às
ideias do autor (ILHESCA; MUTTER DA SILVA, 2013, p. 114).

Sendo assim, para as autoras, o resumo deve manter a estrutura de base e o fio
condutor do texto original, ao mesmo tempo em que deve ter um cunho pessoal ao
mostrar os conceitos, as informações e as ideias fundamentais do texto resumido
em uma perspectiva de assimilação individual do produtor do resumo (ILHESCA;
MUTTER DA SILVA, 2013, p. 115).

Importante! Importante!

É muito importante, pois, que se compreenda que resumir NÃO é simplesmente recortar,
copiar e colar partes de um texto. Não se trata de uma redução de palavras ou parágrafos.
Trata-se de uma nova produção textual, mais sintética, que tem como base um texto de
proporções maiores. Por isso, para resumir um texto, é preciso assimilá-lo, compreendê-
lo. Lembre-se disso!!

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UNIDADE Gêneros da Esfera Acadêmico-Científica:
Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

De acordo com a NBR 6028/2003 da ABNT (Associação Brasileira de Normas


Técnicas), um resumo sintetiza os pontos principais de um texto, podendo ser
indicativo, informativo ou crítico. O resumo informativo é detalhado e traz
informações sobre a finalidade, a metodologia e as conclusões a que chega o autor
da obra lida. Já o resumo indicativo pontua os aspectos principais do texto (título,
autor, edição, veículo, breve resumo das ideias, rápido comentário para utilização
posterior), mas não detalha informações quantitativas e qualitativas. Por fim, o
resumo crítico, também chamado de resenha que traz uma análise crítica de um
ou mais aspectos apresentados no documento, além dos elementos comuns ao do
resumo indicativo.

A seguir, trataremos do resumo informativo e, na próxima seção, da resenha.


Vamos a eles!

Para elaborar um resumo informativo, é necessária uma leitura completa


do texto. Durante essa leitura, vamos identificar as passagens mais importantes
e as ideias principais do autor. É conveniente que assinalemos no canto do
texto cada ideia identificada. Depois, em uma leitura mais detalhada, devemos
voltar aos pontos assinalados e sublinhar os que forem realmente centrais para o
entendimento da tese/ideia do autor e do problema abordado no texto.

Somente após essa leitura detalhada, vamos escrever o resumo. Por se tratar
de trabalho de natureza informativa, devemos desenvolver no texto a sequência
lógica de ideias do autor, tanto seus objetivos iniciais e a problematização
quanto ao esclarecimento da tese e argumentação.

Um resumo dessa natureza exige fidelidade ao pensamento do autor, mas


a reelaboração da mensagem do autor deve ser feita com nossas próprias
palavras. Como estamos elaborando um resumo informativo, não vamos pontuar
no texto nossas opiniões pessoais. Quanto ao estilo empregado, convém usar
frases curtas e diretas.

Importante! Importante!

O objetivo do resumo informativo é assegurar maior clareza, maior unidade a uma


informação. Por isso, você não deve ater-se a detalhes, listas, números.

Reflita bem antes de decidir sobre:


• O que você vai eliminar.
• O que você vai conservar.

Não se atenha ao seu gosto pessoal, à sua opinião: considere unicamente a


importância da ideia expressa pelo autor do texto. Lembre-se que o desafio
de resumir é ser fiel ao texto original!

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Importante! Importante!

No “material complementar” dessa unidade, você encontrará algumas estratégias e


exemplos de resumos que vão auxiliá-lo na escrita de bons textos nesse gênero! Não
deixe de ler esse material!!

Agora, observe, com atenção, o quadro a seguir, pois ele apresenta um roteiro que
vai auxiliá-lo quando estiver às voltas com a elaboração de um resumo informativo!!

Para produzir um resumo informativo, portanto, é importante seguir algumas etapas:


Estabelecer o objetivo para elaborar o resumo: estudar para prova, preparar resenha, apresentar
como trabalho, fazer seminário.
Compreender bem o texto antes de resumir. A produção de um resumo depende também do gênero
do texto e da maneira como o lemos.
No resumo de texto narrativo, por exemplo, apresentar a situação inicial, o problema ou conflito e a
solução do problema ou situação final.
No resumo de um texto informativo, utilizar as palavras-chave e as frases que servem para resumir o
pensamento do autor.
No texto argumentativo, destacar a tese defendida pelo autor e os principais argumentos.
Anotar e assinalar no texto ideias importantes para lembrar, discriminar o essencial do secundário e
situar as ideias nos parágrafos ou partes do texto.
Organizar as ideias apresentadas, obedecendo à sequência utilizada no texto de origem.
Ao redigir o resumo, prefira frases curtas. Redija o resumo com bastante cuidado e atenção, pois essa
redação não pode ser uma sucessão de pedaços de frases extraídas do texto original.
Ao final, indicar a referência bibliográfica (nome do autor, título, editora, local e ano de publicação).
Elaborado o resumo, fazer sempre revisão do texto, observando a correção gramatical (regras de
concordância, regência, ortografia, pontuação, etc.).

Importante! Importante!

• O resumo exige duas habilidades: analisar e sintetizar.


• É importante discernir o essencial do acessório, marcar as etapas de desenvolvimento
do texto e escolher as palavras de ligação mais adequadas.
• É importante reformular o conteúdo do texto, condensando-o. Utilize suas próprias
palavras, mas seja fiel para com as ideias do autor.

Não desanime se os seus primeiros resumos saírem muito longos, ou meio


desajeitados. Como tudo, é a prática na elaboração, a revisão e a reescrita dos
textos que traz o aperfeiçoamento. Seja perseverante!

Vamos, na próxima seção, abordar a resenha! Preparado?

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UNIDADE Gêneros da Esfera Acadêmico-Científica:
Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

Para Fazer uma Resenha


A resenha não deixa de ser uma condensação do texto, um tipo de resumo que
traz uma análise interpretativa. É um resumo crítico que contém uma reflexão sobre
o tema do texto ou da obra. Uma boa resenha depende de um bom resumo, pois
é a partir da síntese do texto que elaboramos um comentário crítico. A resenha é
importante porque permite ao estudante apresentar pontos de vista a respeito de
um tema em discussão ou em estudo. Veja como se organiza a resenha, a seguir.

Estrutura da resenha
A resenha, normalmente, compõe-se de quatro partes: introdução; descrição da
obra; resumo e reflexão.

Introdução
Nessa primeira parte, deve constar o nome do autor, sua qualificação, se
o texto permitir que se reconheça essa informação, (jornalista, escritor, médico,
advogado, cientista); o gênero do texto: um artigo científico, um conto etc.; o tema
principal: para depreendê-lo, esteja atento ao título, no entanto, em certos textos,
só chegamos a extrair a ideia geral no fim; o(s) objetivo(s) do autor: para expressá-
los, utilizar verbos de declaração, de opinião; o tom do texto: normalmente, basta
um qualificativo (adjetivo): pessimista, irônico, persuasivo).

Descrição da Obra
Pode-se fazer, nessa parte, uma descrição sumária da estrutura da obra, isto é,
informar como ela se organiza: para os livros, indicar a divisão em capítulos, os
assuntos dos capítulos e os índices; para os textos, indicar os subtítulos.

Resumo da Obra
O resumo deve trazer uma indicação sucinta do assunto global da obra (tema)
e do ponto de vista adotado pelo autor (perspectiva teórica, gênero, método etc.).

Reflexões do Autor da Resenha


Nessa parte final, deve-se avaliar o conteúdo do texto, estabelecendo comparações
com outros textos e situando esse determinado conteúdo na sua área de estudo.
A resenha crítica, portanto, consiste tanto em uma síntese das ideias principais
quanto em uma visão crítica sobre o texto original.

Convém destacar que a elaboração da resenha exige um conhecimento mais


profundo sobre o tema do que o resumo. É preciso, pois, para escrever esse gênero
de texto, já ter um envolvimento com o tema do livro ou capítulo.

A extensão da resenha depende do seu conhecimento sobre o tema, visto que


os comentários devem ser de natureza teórica e científica. Para fazer uma resenha,
convém fazer uma boa leitura do texto, identificando:

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• Qual o tema tratado pelo autor?
• Qual o problema que ele focaliza?
• Qual a posição defendida pelo autor em relação ao problema?
• Quais os argumentos centrais e complementares utilizados pelo autor para
defender sua posição?

Após ter identificado esses pontos, elaborar a crítica, isto é, a análise sobre o tex-
to. Ela depende, em síntese, da sua capacidade de relacionar os elementos do texto
lido com outros textos. Para fazer a análise, portanto, seria interessante ter primeiro:
• informações sobre o autor, suas outras obras e sua relação com outros autores;
• elementos que possam contribuir para um debate acerca do tema em questão.

Em Síntese Importante!

Em síntese, uma resenha deve ser organizada da seguinte maneira:


1) nos parágrafos iniciais, fazer uma introdução à obra resenhada, apresentando:
• o assunto/ tema;
• o problema elaborado pelo autor;
• a posição do autor diante desse problema.
2) no desenvolvimento, a apresentar resumidamente o conteúdo da obra, enfatizando:
• as ideias centrais do texto;
• os argumentos e ideias secundárias.
3) na conclusão, elaborar uma crítica pessoal, ou seja, uma avaliação das ideias do autor
frente a outros textos e a outros autores.
Vale destacar que nem sempre a crítica pessoal ou a avaliação das ideias do autor da
obra se encontram apenas na conclusão. Dependendo do estilo do produtor da resenha,
elas podem aparecer logo na introdução ou espaçadas no decorrer do texto.

Resenhas e resumos devem sempre conter indicações bibliográficas sobre a obra, livro,
Explor

capítulo, artigo científico etc.. Essas indicações variam segundo o gênero de texto, devendo-
se, pois, seguir as normas estabelecidas pela ABNT (Associação Brasileira de Normas
Técnicas). https://goo.gl/fDldbB

Para Terminar, Por Enquanto...


Finalizando o que vimos, redigir textos no ambiente acadêmico requer um
conjunto de conhecimentos reunidos em obras de diversas qualificações e assuntos.
Por isso, podemos dizer que a leitura alimenta ainda mais a escrita nessa esfera
de atividade. A vida intelectual e cultural do estudioso e pesquisador deve ser
fundamentada em fontes primárias e secundárias de pesquisa que orientem a busca
de conhecimentos para pensar novas descobertas e soluções.

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Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

Nesse sentido, o hábito da prática de fichamentos, de resumos e de resenhas pode


contribuir de forma bastante eficiente para o aproveitamento futuro na elaboração
de monografias (TCC), artigos científicos, projetos de pesquisa, dissertações e teses.

Lembre-se de que esses gêneros também exigem uma linguagem escrita clara,
objetiva e autoral; por isso, evite a transferência pura e simples de ideias de outro
autor. É conveniente ler e reler o texto várias vezes, para evitar o plágio ou a
cópia. Durante a leitura atenta e com foco, convém refletir sobre e analisar bem os
aspectos que vêm ao encontro do propósito de estudos, pois cada autor tem um
estilo próprio de redigir, formas diferentes de se expressar. Ao elaborar um resumo
e uma resenha, portanto, você tanto deve ter o cuidado de não fazer uma simples
reprodução das palavras do outro pesquisador quanto deve cuidar para que o seu
texto revele de forma clara, concisa e acessível à sequência lógica do seu raciocínio,
o próprio autor do texto em questão.

Em Síntese Importante!

Em síntese, ao escrever gêneros acadêmico-científicos, você deve:


•  definir o tema e fazer um levantamento de bibliografia relevante na área;
•  estar atento ao seu público leitor;
•  ter clara a função do gênero acadêmico escolhido;
•  estabelecer objetivo(s) e segui-lo(s) na escrita do texto;
•  fazer um planejamento do texto;
•  revisar e rescrever seu texto antes de apresentá-lo em sua forma final.

Além disso, você deve:


• estar atento ao encadeamento e progressão das ideias (coesão) e à unidade de
sentido do texto (coerência);
• dar preferência ao emprego de frases completas e curtas;
• ser impessoal na linguagem, evitando o pronome pessoal em primeira pessoa
do singular;
• evitar expressões rebuscadas, ambíguas ou inadequadas;
• ser bem criterioso na escolha do vocabulário.

Então... agora ficou fácil responder às questões que colocamos no início dessa
unidade, sobre saber diferenciar um resumo de uma resenha, não é mesmo?
Além disso, você conta com uma série de procedimentos e estratégias que
podem auxiliá-lo na leitura e escrita desses gêneros acadêmico-científicos. Lembre-
se de utilizá-los em seus futuros trabalhos e na sua prática acadêmica!

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Regência Nominal, Verbal e Uso da Crase
Como já sabemos, conhecer regras da gramática normativa nos auxilia na leitura
e na escrita, sobretudo quando devemos utilizar a norma urbana de prestígio, como
é o caso nos gêneros acadêmico-científicos. Por isso, a seguir apresentamos o
fenômeno da regência e regras sobre o uso da crase.
Dentro da estrutura frasal, as palavras estabelecem relações de dependência
entre elas. Os elementos que têm o seu sentido complementado por outro são
chamados de regentes e os complementos a eles ligados são chamados de regidos.
Quando essa relação de dependência ocorre entre o verbo e seus complementos
dá-se o nome de regência verbal. Exemplos:
• O homem precisa de constantes carinhos.
• O professor sempre se refere ao bom desempenho escolar.
Explicação: Há uma relação de dependência entre os verbos nos exemplos
(precisar/referir-se) e seus complementos (de constantes carinhos/ ao bom
desempenho escolar). Essa relação pode ser direta (sem o uso de preposição) ou
indireta (com o uso de preposição).
Quando essa relação de dependência ocorre entre um nome (substantivo, adjetivo
ou advérbio) e seu complemento, dá-se o nome de regência nominal. Exemplos:
• O professor sempre faz referência ao bom desempenho escolar. (referência
- substantivo).
• As mulheres estão sempre atentas a novos lançamentos da moda. (atentas -
adjetivo).
• O diretor agiu favoravelmente ao meu pedido. (favoravelmente - advérbio).

As Preposições e os Sentidos
As preposições desempenham papel relevante no capítulo da regência. Conhe-
cer e saber usá-las são aspectos fundamentais para estabelecer as relações de de-
pendência entre os elementos regentes e regidos, pois elas são capazes de modifi-
car completamente o sentido do que se quer dizer. Observemos as seguintes frases:
• Falei com você.
• Falei de você.
• Falei por você.

Em todas elas, aparece a mesma estrutura, praticamente as mesmas palavras.


A única diferença está no uso das preposições. No entanto, para cada uma delas,
atribuímos sentidos diferentes.

No primeiro caso, um locutor afirma ter falado com alguém, isto é, ele esteve
conversando com essa pessoa.

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UNIDADE Gêneros da Esfera Acadêmico-Científica:
Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

No segundo, há uma mudança, pois o locutor afirma que esteve conversando


com alguém sobre essa pessoa.

No terceiro, o locutor afirma que esteve em alguma situação em que precisou


tomar a palavra no lugar dessa pessoa.

Uma simples mudança no uso da preposição pode alterar o sentido daquilo que
queremos dizer. Há também diferenças no uso da preposição em relação aos níveis
de linguagem. Observe os seguintes exemplos:
• Cheguei ao metrô.
• Cheguei no metrô.

No primeiro caso, o metrô é o lugar a que fui; portanto, a preposição a indica


movimento, deslocamento no espaço; no segundo caso, o metrô é o lugar de che-
gada, portanto, a preposição em indica uma localização, no interior de algum lugar.

No entanto, a frase “Cheguei no metrô”, é popularmente usada a fim de indicar


o lugar a que se vai, o que, na norma urbana de prestígio, possui sentido diferente.
Aliás, é muito comum existirem divergências entre o uso que se faz da regência de
alguns verbos em nível coloquial e culto.

Um exemplo notório é o emprego do verbo assistir: em nível coloquial é bas-


tante usada a forma “assistir o filme”, o que no nível culto corresponderia a “as-
sistir ao filme”.

Regras Gerais do Emprego da Crase


Para completar o tema regência nominal e verbal em relação à comunicação
escrita, vamos abordar o uso da crase como conceito geral e a aplicação em ca-
sos específicos.

Crase é a fusão de duas vogais iguais: a + a. Para marcar sua ocorrência, é


utilizado o acento grave (`). Casos em que o acento aparece:
• a + a(s) = à(s)
• a + aquela(s) = àquela(s)
• a + aquele(s) = àquele(s)
• a + aquilo = àquilo

O primeiro “a” é sempre a preposição exigida pelo verbo ou pelo nome. O


segundo “a” é o artigo ou o “a” do pronome demonstrativo (aquele, aquela, aquilo)
que antecedem uma palavra FEMININA:
• ir a + a Bahia = ir à Bahia
• comparecer a + as aulas = comparecer às aulas
• contrário a + aqueles réus = contrário àqueles réus

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Regras Práticas para a Utilização da Crase
Substituir a palavra feminina por uma palavra masculina. Se, no lugar de “a” ou
“as”, surgir “ao” ou “aos”, é sinal de que houve o encontro do a (preposição) com
o a (artigo):
• Levei Paula a + a escola.
• Levei Paula a + o colégio.

Portanto: Levei Paula à escola

Substituir por “vir de” os verbos que indicam movimento: ir a, chegar a, voltar a,
retornar a. Se o “de” se transformar em “da”, há crase; caso contrário, não:
• Vir da Europa → ir à, voltar à, retornar à Europa.
• Vir de São Paulo → ir a, retornar a, voltar a São Paulo.

Uma rima para lembrar: “Vir da, crase há. Vir de, crase pra quê?”

CASOS ESPECIAIS
USO OBRIGATÓRIO DA CRASE

O acento indicativo de crase será obrigatório antes de:


1. Numeral indicando hora:
a) Ele chegou às oito ou às nove horas?
b) O programa será à zero hora.
2. Substantivo (masculino ou feminino) que subentende a palavra moda
(maneira) ou denominação do gênero feminino:
a) Redigi um texto à José de Alencar. (à maneira de) O bife à milanesa
estava delicioso. (à moda) Fomos à General Motors. (à companhia)
3. Distância determinada:
a) Estávamos à distância de 100 metros do acidente. (Não é utilizado quan-
do a palavra for indeterminada: O trem passava a certa distância da casa.)
4. Terra, no sentido de pátria, planeta, região determinada: Voltei à terra em
que nasci.
5. Nome particularizado (de cidade ou da palavra casa): Fomos à Roma dos
Césares. (Mas: Fomos a Roma.) Refiro-me à Lisboa de Camões. (Mas: refiro-
me a Lisboa.) Vou à casa de Paulo. (Mas: Vou a casa, vou para casa.)
6. Pronomes relativos que, qual e quais quando antecedidos da preposição a
(neste caso, substituir a(s) por ao(s), para ver se cabe ou não o acento):

21
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UNIDADE Gêneros da Esfera Acadêmico-Científica:
Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

a) Aquela é a seção à qual me dirijo.

(Aquele é o edifício ao qual me dirijo.)


b) Trata-se de uma defesa semelhante à que ele fez.

(Trata-se de uma defesa de um discurso semelhante ao que ele fez.)


c) Estas são as obras às quais me referi.

(Estes são os livros aos quais me referi.)


7. Locuções constituídas de palavras femininas: à esquerda, à direita, às pressas,
à mercê de, à noite, à proporção que, à espera de, às vezes, à procura de, à
medida que, às ocultas, à vista etc.:
• Às vezes é bom parar para pensar.
• À medida que o tempo passa, fico mais exigente.
• Saíram às ocultas.

Obs.: Locuções que indicam meio ou instrumento normalmente não levam o


acento indicativo de crase. No entanto, algumas vezes, ele é utilizado por força da
tradição (aqui a regra prática de substituir a(s) por ao(s) não é válida): Escrever à
máquina./Pintar à mão. (E ainda: à bala, à faca, à vista, à tinta, etc.)

USO FACULTATIVO

Depois da palavra até:


• Foi até a porta e ficou admirando a paisagem.
• Foi até à porta e ficou admirando a paisagem.

Obs.: Foi até o/até ao portão.

1. Antes de pronomes possessivos:


• Falou a minha mãe sobre o assunto. (a meu pai)
• Falou à minha mãe sobre o assunto. (ao meu pai)

2. Antes de nomes próprios:


• Entreguei o relatório a Cristina. (a Carlos)
• Entreguei o relatório à Cristina. (ao Carlos)

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USO INCORRETO DA CRASE ( de acordo com a Gramática Normativa)
1. Antes de palavras masculinas: Passear a cavalo./Daqui a pouco.
2. Antes de verbos: Começar a lavar./Pôr-se a passar.
3. Com locuções constituídas de palavras idênticas: Ficamos cara a cara por
longo tempo. Tomava o remédio gota a gota.
4. Antes de pronomes de tratamento: A viagem fará bem a você. Enviaremos
o contrato a V. Sª.
5. Antes de qualquer pronome masculino: Entreguei a lista a eles sem mencioná-
la a seu irmão.
6. Antes de locuções constituídas de verbos ou palavras masculinas: Estarei em
casa a partir das 8 horas. Não se falou a respeito da promoção.
7. Antes dos pronomes femininos ela, elas, esta, essa, toda, cada, alguma: Vou
entregar a ela o seu processo. Entregarei o processo a alguma juíza.
8. Antes dos pronomes mim, ti, nós, vós e si: Dirigia a palavra a mim e a ti,
simultaneamente. Falava a si mesmo, não a nós.
9. Antes de numerais: Dali a dez dias. Daqui a 5 km.
10. Com substantivos no plural, usados no sentido genérico: Falei a várias
alunas. Nunca dê atenção a propostas de pessoas estranhas.

Aprimorar os conhecimentos referentes às regras da gramática normativa exige


muita atenção e trabalho; por isso, é importante fazer as atividades da unidade
e lembrar delas ou fazer consultas no caso de dúvidas, a fim de produzir textos
nos gêneros acadêmico-científicos com correção e qualidade, na norma urbana de
prestígio, em nível culto da língua.

Nessa unidade, vimos importantes aspectos dos gêneros textuais acadêmico-cien-


tíficos: fichamento, resumo e resenha. O resumo e a resenha apresentam algumas
semelhanças, mas se distinguem por algumas características. Por isso, atenção!

Esperamos que os conhecimentos que construímos nessa unidade sejam úteis


tanto em sua vida acadêmica quanto em sua prática profissional!

Para complementar seus estudos sobre o gênero resumo, preparamos esse


material complementar que aborda algumas regras básicas que com certeza vão
ajudá-lo na elaboração de seus textos nesse gênero. Por isso, a leitura desse material
é muito importante!

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UNIDADE Gêneros da Esfera Acadêmico-Científica:
Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

Resumo
Na universidade, para fazer um resumo podemos lançar mão de três regras de re-
dução de informação, definidas por Sprenger-Charolles (1980), que são muito úteis:
1 Regra de cópia e apagamento: informações redundantes, irrelevantes,
inferíveis pelo contexto são “apagadas”, e informações consideradas pri-
mordiais, são recuperadas.
2 Regra de generalização: informações que podem ser agrupadas em termos
mais abrangentes são “reduzidas” a essas generalizações.
3 Regra de construção: essa regra se divide em dois momentos – o da fase de
seleção, em que se trabalha parágrafo a parágrafo, construindo-se uma frase
tópico para cada parágrafo lido e o da fase de combinação, em que conjuntos
de frases tópico são agrupados em parágrafos que comporão o texto-resumo.

Vamos ver a seguir exemplos de resumos utilizando cada uma dessas regras:

1  Exemplo de Regra de cópia e apagamento


Texto Original
No berço de nossa civilização, na Atenas da [conteúdo inferível pelo
contexto e irrelevante para o foco da informação primordial] Grécia Antiga,
somente os filhos homens dos cidadãos livres tinham direito à educação (as
mulheres em Atenas não tinham direitos legais ou econômicos; portanto,
a maioria delas não ia à escola, e os escravos e os estrangeiros não tinham
direito à educação formal) [idem obs. anterior] e isso representava apenas um
terço da população grega [idem obs. anterior] (Gutek, 1995).
(CARELLI, I.M. Estudar on-line: análise de um curso para professores
de inglês na perspectiva da teoria da atividade. Tese de doutorado
defendida no Programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada e
Estudos da Linguagem na PUC-SP. 2003. p. 15).

Texto Resumido
Na Grécia Antiga, somente os filhos homens dos cidadãos livres tinham direito à
educação e isso representava apenas um terço da população (Gutek, 1995).

2  Exemplo de regra de generalização


Texto Original
Assistimos ao surgimento do rádio, da televisão, do gravador de fitas
cassetes, do videocassete.
(CARELLI, I.M. Estudar on-line: análise de um curso para professores
de inglês na perspectiva da teoria da atividade. Tese de doutorado
defendida no Programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada e
Estudos da Linguagem na PUC-SP. 2003. p. 19. )

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Texto Resumido
Assistimos ao surgimento de novas mídias.

3 Exemplo de regra de construção


Texto Original
A propagação do microcomputador na década de 1980 prometeu revolucionar
o Sistema Educacional numa proporção paralela à da imprensa de Guttenberg,
que renovou a transmissão da informação no século XVI. Essa propagação dos
computadores pessoais e o advento da Internet marcam a passagem da segunda
para a terceira geração de EAD, marcada pontualmente pela possibilidade de uso
de ferramentas de comunicação para promoção de interação sincrônica – chat e
teleconferência – e assincrônica – e-mail, fóruns e listas de discussão – entre os
participantes do processo educacional.
Com essa perspectiva tornada possível, a aprendizagem pôde, também a
distância, constituir-se como um processo socialmente construído por meio da
comunicação mais rápida entre professores e alunos. A prática da EAD passou a
incorporar as tecnologias sofisticadas de comunicação características da Internet,
que permitem criar comunidades colaborativas.
(CARELLI, I.M. Estudar on-line: análise de um curso para professores
de inglês na perspectiva da teoria da atividade. Tese de doutorado
defendida no Programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada e
Estudos da Linguagem na PUC-SP. 2003. p. 21-2. )

Fase de Seleção
A propagação dos computadores pessoais e o advento da Internet na década
de 80 marcam a passagem da segunda para a terceira geração da EAD, caracterizada
pela possibilidade de uso de ferramentas de comunicação para promoção de
interação síncrona e assíncrona.

A aprendizagem a distância pôde constituir-se como um processo socialmente


construído por meio da comunicação mais rápida entre professores e alunos,
permitindo criar comunidades colaborativas.

Fase de Combinação - Texto Resumido


A propagação dos computadores pessoais e o advento da Internet na década
de 1980 marcam a passagem da segunda para a terceira geração de EAD,
caracterizada pelo uso de ferramentas de comunicação que permitiram interação
síncrona e assíncrona. Desse modo, a aprendizagem a distância pôde constituir-se
como um processo socialmente construído por meio da comunicação mais rápida
entre professores e alunos, permitindo a criação de comunidades colaborativas.

Procure seguir essas regras e coloque-as em prática já no seu próximo


resumo! Bom trabalho!!

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UNIDADE Gêneros da Esfera Acadêmico-Científica:
Estratégias e Métodos de Leitura e de Escrita

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

 Livros
Práticas de Escrita para o Letramento no Ensino Superior
Hartmann, Schirley Horácio de Gois; Santarosa, Sebastião Donizete. Curitiba: Editora
Intersaberes, 2016.

 Leitura
Brasil Escola – Regência Verbal
https://goo.gl/i0JGB7
Brasil Escola – Regência Nominal
https://goo.gl/b8yJoM
Brasil Escola – Preposição
https://goo.gl/p0snNv
Brasil Escola – A Semântica das Preposições
https://goo.gl/nJaeTu
Brasil Escola – Crase
https://goo.gl/7iXT24

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Referências
BARBOSA, J. & outros Sequência Didática Resenha Crítica, material elaborado
para a Universidade de Mogi das Cruzes, 2000.

CABRAL, A.L.T. O conceito de plano de texto: contribuições para o processo


de planejamento da produção escrita. Linha d’Água, n. 26 (2), p. 241-259, 2013.
Acesso: http://www.revistas.usp.br/linhadagua/article/view/64266 último acesso
em 16/12/2016.

ECO, Umberto. Como se faz uma tese. Coleção Estudos, 17ª ed., São Paulo:
Perspectiva, 2002.

ILHESCA, D.D; MUTTER DA SILVA, D. Resumo e Resenha. In: ILHESCA, D.D;


MUTTER DA SILVA, D.; ROSSETO DA SILVA, M. (Org.) Redação Acadêmica.
Curitiba: Intersaberes, 2013.

MACHADO, A., TARDELLI, L.S. & LOUSADA, E. Resumo. v. 1. São Paulo,


Parábola Editorial, 2004.

MOTTA-ROTH, D. ; HENDGES, G.R. Produção Textual na universidade. São


Paulo: Parábola Editorial, 2010.

PERROTTI, Edna M. B. & MONTANARI, Marilena E. de L. SOS Língua


Portuguesa – Apoio Gramatical. 2ª ed. São Paulo: ABNL, 1998.

SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 21ª Ed. São Paulo: Cortez


e Moraes, 2002.

SPRENGER-CHAROLLES, L. (1980) Le resumé de texte. In: Pratiques nº 26


mar.1980. p. 59-90.

TERRA, Ernani. Curso Prático de Gramática. São Paulo: Editora Scipione, 1991.

27
27
Língua Portuguesa
Material Teórico
Gêneros da Esfera Profissional: Estratégias para a
Escrita no Mundo do Trabalho

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Roseli F. Lombardi
Profa. Dra. Sílvia Augusta Barros Albert

Revisão Textual:
Profa. Esp. Márcia Ota
Gêneros da Esfera Profissional:
Estratégias para a Escrita no
Mundo do Trabalho

• Introdução
• Gêneros da Correspondência na Esfera de Atividade Profissional
• A Correspondência Comercial: Cartas e E-mails
• Emprego e Colocação de Pronomes Pessoais e de Tratamento

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Identificar as principais características formais e de conteúdo dos
gêneros da correspondência utilizados no mundo do trabalho;
· Desenvolver a produção escrita de cartas comerciais e e-mails
corporativos adequados ao ambiente profissional contemporâneo;
· Aprimorar conhecimentos a respeito do uso adequado de pronomes
pessoais e de formas de tratamento.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como o seu “momento do estudo”.

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
UNIDADE Gêneros da Esfera Profissional:
Estratégias para a Escrita no Mundo do Trabalho

Introdução
Em nossa disciplina, procuramos sempre abordar conteúdos que sejam significa-
tivos e funcionais para a sua vida acadêmica e profissional. Nesta unidade, vamos
tratar da produção escrita de gêneros textuais relativos à correspondência, mas que
circulam na esfera profissional e demandam atualizações frequentes e estratégias
para a sua produção: a carta comercial e o e-mail profissional ou corporativo.

A correspondência, intercâmbio de mensagens, é uma forma de comunicação


bastante antiga e abarca muitas formas de enviar uma mensagem. A mais comum
é a carta, que por sua vez pode se apresentar de diferentes maneiras.

No conteúdo teórico, antes de entrar direto ao tema desta unidade, vamos


observar que existem vários tipos de cartas, sendo que cada uma delas possui uma
estrutura, um destinatário específico (ou vários), uma intenção e um objetivo.

Por isso, para já ir entrando no assunto, selecionamos alguns links em que


você encontrará música e comerciais que abordam o tema “carta”. Provavelmente,
alguns deles já são conhecidos. Mas sempre vale a pena rever um bom trabalho e
começar os estudos de uma maneira prazerosa, não é mesmo?
1. Nesse primeiro link, você encontrará a canção ECT de Cássia Eller,
interpretada por ela mesma. Lembrando que ECT é a sigla de Empresa de
Correios e Telégrafos.
https://youtu.be/hQB85Sh9Buk

2. Nesse outro, você encontrará um comercial do carro Mercedes Classe A


190, que utiliza de maneira bem criativa a ambiguidade de sentidos da
palavra carta em português: carta de motorista e carta como missiva, que
serve para enviar mensagens.
https://youtu.be/sXrgxbwJkg8

3. E, nesse último, você terá acesso a um comercial do Boticário em que uma


carta é pretexto para rememorar muitos momentos da vida e comemorar o
momento presente.
https://youtu.be/X_RAF130AGA

Então, viu como a carta é uma forma de comunicação ainda muito presente em
nossas vidas? E aprender a escrevê-la de maneira adequada no âmbito profissional
é essencial para seu desenvolvimento no mundo do trabalho!

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Gêneros da Correspondência na
Esfera de Atividade Profissional
Sabemos que escrever é um processo que pode causar insegurança. Você
concorda? Imagine, então, no âmbito profissional, em que estamos sendo avaliados
continuamente por nossas ações e por nossas respostas a demandas que, muitas
vezes, envolvem a produção escrita de textos. Somos ótimos escritores de blogs, de
mensagens para as redes sociais, mas não temos o mesmo desembaraço quando se
trata de escrever e-mails profissionais e cartas comerciais, por exemplo.

Os gêneros que circulam na esfera de atividade profissional que vamos abordar


nesta unidade enquadram-se no âmbito da correspondência. Você conhece os tipos
de correspondência? Podemos destacar quatro tipos:
• Particular, familiar ou social: destinada à conversação entre familiares e
amigos. Normalmente, trata de assuntos particulares, íntimos e pessoais. São
exemplos desse tipo de correspondência os bilhetes, os cartões postais, os
e-mails pessoais, as cartas pessoais.
• Bancária: trata, especificamente, de assuntos relacionados a informações
sobre as finanças como, por exemplo, os extratos bancários.
• Comercial: diz respeito às transações comerciais ou industriais como, por
exemplo, as cartas comerciais e os e-mails profissionais.
• Oficial: é aquela que se originou no serviço público civil ou militar. São
exemplos desse tipo de correspondência os abaixo-assinados, os acórdãos, a
procuração, a notificação, os decretos, as declarações, as atas.

Em nossa vida, temos contato com vários desses gêneros; afinal, todos nós já
escrevemos uma carta de amor para alguém ou uma carta para um familiar ou
um amigo. Também já recebemos cartas de bancos ou de operadoras de cartões
de crédito e empresas prestadoras de serviços. Além disso, vivenciamos relações
profissionais que nos fazem produzir e-mails, cartas comerciais, atas ou declarações.
Enfim, podemos afirmar que as correspondências ocupam uma parte importante
de nossas vidas.

O objetivo dessa unidade é fornecer algumas informações e estratégias para a


produção da correspondência comercial, isto é, e-mails e cartas comerciais, que
possam minimizar inseguranças e oferecer recursos para o desenvolvimento de
uma escrita proficiente. Além disso, sabemos que redigir adequadamente pressupõe
escrever com adequação gramatical, por isso vamos estudar, ainda, nessa unidade,
tanto o emprego dos pronomes pessoais e de tratamento quanto as regras de
colocação pronominal.

Vamos começar explorando um pouco mais sobre a correspondência? Veja


como o compositor baiano Tom Zé apresenta um exemplo de correspondência
oficial em forma de canção.

9
9
UNIDADE Gêneros da Esfera Profissional:
Estratégias para a Escrita no Mundo do Trabalho

Explor
Para que possamos conhecer um pouco mais sobre a correspondência oficial, vamos assistir
ao vídeo da canção “Requerimento à censura”, do compositor Tom Zé. Note o grau de for-
malidade da língua utilizada na letra da canção, mas preste atenção especial à genialidade
do compositor ao transformar uma correspondência oficial em uma música. Divirta-se com
o vídeo que traz a letra de uma canção em que se corrige um documento, que está sendo
escrito na tela on-line, e veja se você consegue descobrir um erro que não foi notado.
https://youtu.be/U-mkvB6Vk50

Gostou? Conseguiu perceber que no vídeo o compositor separou o sujeito


(Antônio José Martins) de seu predicado (vem solicitar) com um ponto final?
Nesse caso, não foi um deslize, mas um erro intencional! Esse tipo de erro, no
entanto, é muito comum em documentos como esse que incluem entre o sujeito e
o predicado várias outras informações. Além do erro, podemos chamar a atenção
para o emprego do “mui respeitosamente”, expressão em desuso, que hoje deve
ser eliminada dos textos, pois não acrescenta nada à informação. Esses e outros
recursos foram utilizados de maneira irônica pelo compositor baiano, para criar
efeitos de sentido e criticar esse tipo de correspondência. Mas não trataremos aqui
da correspondência oficial.

Como dissemos, anteriormente, nessa unidade trabalharemos com a correspon-


dência comercial, especialmente, a carta comercial e o e-mail profissional. Vamos
ao trabalho?

A Correspondência Comercial:
Cartas e E-Mails
A correspondência comercial tem como objetivo não só documentar algumas
situações das empresas, mas também, e principalmente, construir as relações
públicas (pessoais e empresariais) e promover a imagem das Companhias. Por não
ser apenas um instrumento de comunicação, mas o retrato de quem ela representa,
ela deve refletir uma imagem de organização e de competência.

Atualmente, a linguagem da correspondência comercial livrou-se das expressões


pomposas, exageradas e burocráticas que possuiu por muitos anos. Sua antiga lin-
guagem obsoleta, “vítima” das correspondências oficiais, a qual possui excessos de
latinismos e expressões antiquadas, já não aceitas numa sociedade em que se neces-
sita de rapidez na leitura, na compreensão e na resposta. No entanto, para redigir
uma carta comercial, por exemplo, devemos obedecer a algumas regras e seguir
determinados preceitos linguísticos. Vamos conhecer alguns pontos essenciais?

10
Para Escrever uma Carta Comercial
Em primeiro lugar, analise a quem a carta se dirige e qual o tratamento
pronominal adequado. Depois, tenha clareza de sua finalidade, do contexto de
produção e do desenvolvimento do tema. O assunto deve sempre ser exposto com
cortesia, clareza e objetividade, além de ser bem argumentado. E, finalmente, um
ponto essencial a ser respeitado é a uniformidade de tratamento. Por exemplo, se
o texto começar com a primeira pessoa do plural (nós) não se pode mudar para
a primeira pessoa do singular (eu); se for usar V. Sª., deve-se respeitar o uso de
pronomes possessivos na terceira pessoa do singular (sua).

Vamos prosseguir com a apresentação da estrutura da carta comercial e visualizar


os elementos que compõem esse tipo de documento:
• Timbre e endereço: são elementos importantes para caracterizar a natureza
da empresa e reforçar sua imagem.
• Data: é um elemento essencial para garantir a referência de tempo e local para
o leitor. Se no papel de impressão já houver o endereço, pode-se dispensar o
local e anotar apenas a data, mas se a empresa tiver várias filiais é importante
destacar-se o local.
• Destinatário: a quem se destina a comunicação. Hoje, já não se coloca mais
“À/Às/Para/Ilmos. Senhores” antes do nome do destinatário. Coloque apenas
o nome da empresa ou da pessoa a quem a carta é endereçada.
• Vocativo: há várias formas possíveis (Prezados Senhores, Senhores, Senhores
Clientes, Caro Cliente). Após o vocativo, pode-se usar vírgula ou dois pontos;
hoje, é mais comum o uso dos dois pontos, isto porque se considera que a
carta é uma enumeração de fatos, ocorrências, etc.
• Corpo da carta: apresenta o assunto de que trata a carta. Sendo assim, ele
deve ser exposto de forma clara, objetiva, precisa e com parágrafos curtos.
Normalmente, são escritos três parágrafos: um para a apresentação do tema,
o segundo para o desenvolvimento do tema, em que se devem colocar os
problemas e as soluções, e o último que deve trazer a conclusão.
• Despedida ou fecho: após a conclusão do desenvolvimento, fazer uma
despedida, simples, usando as fórmulas: “Atenciosamente” ou “Cordialmente”.
Uma despedida mais elaborada caso seja necessário enfatizar algo referido no
corpo da carta.
• Assinatura: escreve-se o nome do emissor e logo abaixo o cargo ou a função.

Viu como é fácil? Vamos conhecer um pouco mais para não cometer desli-
zes? Veja um exemplo de uma carta comercial que apresenta alguns deslizes,
observe, com atenção, os comentários que fizemos para evitar o procedimento
a respeito deles.

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11
UNIDADE Gêneros da Esfera Profissional:
Estratégias para a Escrita no Mundo do Trabalho

Não se utiliza mais


À/ Às/ Para/ Ilmo,
também não se usa
o endereço que
deve constar apenas
no envelope.
Atualmente, se o papel for
timbrado não se usa o local.

São Paulo, 14 de fevereiro de 1999.

Ao Ilmo. Dr. França Pinto

Companhia Arapongas Ltda.

Rua Francisco Afrânio Moreira, 593

CEP 02349-000 – São Paulo - SP


Informação direta,
evite rodeios. Vá
direto ao assunto.
Caros Senhores:

Temos o prazer de esclarecer a V. Sª. que iniciamos este ano a comercializa-


ção de Cartões de Natal confeccionados pelas crianças abrigadas na Fundação
Estadual do Bem-Estar do Menor – Febem.

Tal iniciativa se prende a uma postura de incentivo à criatividade infanto-


juvenil, de integração do menor à sociedade por meio de arte e de auxílio por
meio do trabalho.

Convidamos Vossa Senhoria a participar desse processo de integração social,


cumprimentando teus amigos, familiares e conhecidos com cartões da Febem.
Use a 3ª pessoa - seus.

Agradecemos, em nome dos menores, a preferência que V. Sa. nos dará.


Rever uso de pronomes.

Somos, com respeito e admiração

Sinceramente vossos, Prefira apenas sinceramente ou atenciosamente.

Maria Helena Nunes, Alinhar todo o texto à esquerda,


do cabeçalho até a assinatura.
Diretora Social.

12
Visualize a seguir o exemplo de uma carta comercial contemporânea. Aliás,
você vai encontrar muitos modelos como este em seu computador, clicando no
Windows, arquivo, novo, modelos de cartas:

Logo da empresa Nome da empresa

Local e data.

[Nome do destinatário]

[Cargo]

[Nome da empresa]

[Endereço] [Cidade, estado e CEP]

Prezado: [Nome do destinatário]:

Agradecemos a escolha da para atender às necessidades de seu [tipo de


negócio]. Temos certeza de que ficará satisfeito com os serviços que oferecemos.

As informações anexadas o ajudarão na execução da maioria dos serviços.


Em caso de dúvidas, fale conosco. Seu gerente, [Nome], estará disponível no
telefone [telefone]. O número de sua conta é . Quando ligar, tenha esse número
em mão para agilizar suas solicitações.

Caso tenha outras necessidades, ficaremos felizes em ajudá-lo a avaliá-las


para oferecer-lhe os serviços que o permitirão conquistar seus objetivos.

Mais uma vez, agradecemos por escolher a [Nome da empresa].

Cordialmente,

[Assinatura]

[Cargo]

Anexo (se houver)

Endereço, cidade, estado, CEP, Telefone, site

Viu como uma carta comercial pode ficar mais objetiva? Agora, preste atenção
no quadro a seguir em palavras e expressões que devem ser eliminadas ou
simplificadas para se obter um texto mais adequado.

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13
UNIDADE Gêneros da Esfera Profissional:
Estratégias para a Escrita no Mundo do Trabalho

A Simplificação na Redação Comercial


Palavras e expressões a serem evitadas Prefira
Acusamos o recebimento de Recebemos
Anexo a presente/ anexo segue/ em anexo Anexo
Encaminhamos em anexo Encaminhamos/anexamos
Apesar do fato de que Em virtude de/ devido a
Aproveitamos a oportunidade Ir direto ao assunto.
Assuntos em tela Assuntos em referência
Vimos através desta/ pela presente/ por meio
Solicitamos
desta/ por intermédio desta solicitar
Com a presente Ir direto ao assunto
Com o propósito de Para/ a fim de
Como dissemos acima Não repetir ideias
Conforme acordado De acordo com/segundo
Levamos ao seu conhecimento Comunicamos
Pedimos / rogamos Solicitamos
Tem a presente a finalidade de A fim de / Para
Um cheque no valor de R$ 100,00 Um cheque de R$ 100,00
Maiores informações Mais informações

Para Escrever E-Mails na Esfera de Atividade Profissional


Mais confiante para escrever cartas comerciais? Passemos, então, ao e-mail
profissional. Diante de nossa sociedade globalizada e informatizada, as correspon-
dências no meio profissional também passaram a ser muito mais rápidas e eficazes.
Assim, as circulares internas e os memorandos foram substituídos pelos e-mails
profissionais que, em questão de segundos, chegam a todos os seus destinatários.

Em geral, para redigi-los, devemos seguir o modelo da carta comercial. Hoje, o


e-mail profissional é muito utilizado por ser uma ferramenta simples, eficaz e rápida
de comunicação e por facilitar o fluxo de informações dentro e fora das empresas.
Suas vantagens sobre os demais meios de transmissão de mensagens são inúmeras:
enviar/receber mensagens de qualquer lugar que possua um computador conectado
à Internet, sem necessidade de ir ao correio, usar selos ou envelopes, por exemplo;
enviar mensagens que chegam instantaneamente em qualquer parte do mundo
a vários destinatários ao mesmo tempo, além de ser possível anexar arquivos,
disponibilizando a todos os interlocutores muitas e importantes informações.

Ao oferecer tantas possibilidades, por um lado, o e-mail facilita muito o processo


de comunicação da empresa; por outro, pode trazer problemas ao contexto
profissional se for feita uma má utilização de seus recursos. Consideramos como
exemplos de mau uso do e-mail corporativo tanto o envio de mensagens a amigos

14
e familiares como também o envio de mensagens fora de contexto (como correntes,
propagandas, golpes, boatos). Esses últimos, sobretudo, acabam lotando as caixas
de entrada dos colegas de trabalho, impedindo, às vezes, que uma comunicação
importante seja efetuada.

Vale lembrar ainda que sempre escrevemos para alguém, por isso esteja atento
ao seu interlocutor. Leve sempre em consideração o grau de hierarquia entre você
e seu leitor, para que possa adequar o registro mais ou menos formal no uso da
linguagem. Lembre-se também que na esfera de atividade profissional o uso da
norma urbana de prestígio é uma exigência; portanto, esteja atento às regras da
gramática normativa e antes de clicar o “enviar” faça uma boa revisão do texto.
Além disso, informe-se sobre a cultura da empresa/instituição em que atua, pois
não escrevemos apenas com palavras, mas a partir de nossos conhecimentos,
enciclopédicos, de mundo e de nossas vivências e experiências. Todo texto é, pois,
determinado por suas condições contextuais de produção e recepção.

Sendo assim, ressaltamos que o e-mail corporativo deve ser usado apenas para
questões profissionais. Vale lembrar ainda que muitas empresas acompanham os
e-mails dos funcionários, e ninguém deseja que a sua imagem profissional seja
afetada, não é mesmo? Abaixo, seguem algumas sugestões sobre o que se deve
fazer ou não para ser bem-sucedido no processo de produção do e-mail profissional.
Leia com atenção:

Algumas dicas que devem ser seguidas na produção escrita do e-mail profissional
O que NÃO deve ser feito Justificativa
Mensagens não profissionais lotam as caixas de entrada e provocam perda de tempo aos
Enviar mensagens não profissionais.
destinatários que devem discernir o que é profissional do que é pessoal; seja profissional.
Usar expressões gastas como: ‘venho
Ser direto e preferir: solicito... ; encaminho... ; anexo...
por meio desta solicitar...’
O e-mail corporativo é para atividades profissionais que exigem um grau de
Colocar smiles ou emoticons.
formalidade maior do que as relações familiares.
As abreviações podem estar no bate-papo ou nos e-mails pessoais. Corremos o risco de
Usar abreviações.
não obtermos a resposta desejada. Manter sempre o grau de formalidade profissional.
Att. é uma forma abreviada para ‘atenciosamente’ em inglês; não se deve abreviar uma
Usar “att.” ao final da mensagem. expressão de cortesia e despedida nas correspondências de trabalho. Estamos no Brasil,
então escreva por extenso: atenciosamente.
Usar “querido” e mandar beijos na Novamente, deve-se considerar o contexto profissional de produção do texto e manter
despedida. a formalidade e/ou respeitar a hierarquia das relações.
Responder mensagens movido/a Evitar responder aos e-mails sob pressão ou nervosismo, mas se a resposta for urgente, prestar
por emoções. o dobro de atenção ao texto. Se possível, peça a leitura crítica de algum colega/amigo.
O texto profissional deve ser claro, objetivo e conciso; ironias podem não ser
Usar ironias.
compreendidas, e os seus objetivos não serão atingidos.
Cuidado com o que escreve para não comprometer a imagem, normalmente, os e-mails
Tratar de temas comprometedores.
são repassados, alguns são arquivados.

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Estratégias para a Escrita no Mundo do Trabalho

O que se deve fazer Justificativa


Preencher sempre o campo assunto/
tema (subject) de forma precisa para Diante de muitos e-mails recebidos todos os dias, o conhecimento do assunto facilita a
indicar do que trata a mensagem e organização da leitura.
atrair o leitor.
Colocar sempre o nome do No âmbito profissional, todos gostam de ser reconhecidos e respeitados. Por isso,
destinatário, seguido de um usar o nome do destinatário acompanhado de expressões como “prezado” e “caro”
tratamento gentil e uma saudação demonstram deferência. Se não souber o nome, use um pronome de tratamento
(prezado, caro). adequado: Senhor(a) ou (Sr./Sr.ª).
Use sempre a norma urbana de prestígio, a variação da língua mais adequada a esse
Usar a mesma linguagem de uma
contexto. Ela garante a compreensão de todos e mantém o nível de formalidade
carta comercial.
exigido nessas circunstâncias.
Ter começo, meio e fim: abertura, É importante ter um texto organizado. Comece com um cumprimento, vá direto
desenvolvimento do assunto ao tema, apresente as solicitações ou argumentos com justificativas, agradeça e
principal e fechamento. estabeleça um canal de contato posterior.
Usar parágrafos pequenos e frases A concisão e a clareza não só garantem a objetividade como também facilitam a
curtas e claras. leitura, além de agilizar a resposta do destinatário.
Se o e-mail for o primeiro meio do estabelecimento de um contato, deixar bem claro
Dizer o objetivo do e-mail na abertura quais são os objetivos.
dele. Agradecer para cativar. Se o e-mail for uma resposta, agradecer à resposta enviada. Assim, conquista-se o
leitor e ele, provavelmente, responderá com rapidez.
Prestar atenção à gramática, Jamais confie no corretor automático, nem sempre ele ajuda. Ele, por exemplo, não
ortografia e pontuação. reconhece a diferença entre sábia, sabia e sabiá.
Incluir um fechamento apropriado
Use “Atenciosamente”, “Muito obrigado/a” antes de assinar o seu nome, seguido do
e seu nome, seguido de cargo
cargo/função na linha de baixo da assinatura.
ou função.

E, então, mais segurança para redigir seus e-mails profissionais?

Lembre-se de seguir as sugestões que propusemos aqui. Fazendo isso, com


certeza, a redação dos textos será mais bem elaborada e adequada às situações
de trabalho.

Sabemos que, para isso, também conta a correção gramatical, pois, afinal, a
esfera de atividade profissional exige o uso da norma urbana de prestígio. Então,
a seguir, vamos tratar do emprego e da colocação de pronomes pessoais e de
tratamento. Aproveite para atualizar e ampliar seus conhecimentos!!

Emprego e Colocação de Pronomes


Pessoais e de Tratamento
Nesta parte da unidade, trataremos dos pronomes pessoais, retos, oblíquos e de
tratamento, além de estudar seu emprego adequado. Para isso, vamos apresentar
algumas regras a respeito de colocação pronominal.

OS DESENTENDIMENTOS ENTRE “EU E ELA”


ou ENTRE “MIM E ELA” NÃO SÃO DE HOJE?

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Sempre que um pronome pessoal é regido de preposição, exige-se a forma
oblíqua tônica. Observe o quadro dos pronomes pessoais:

(caso) oblíquo
(caso) reto
Tônicos Átonos
Eu mim me
Tu ti te
Ele, ela, você ele, ela, si, você o, a, lhe, se
Nós nós nos
Vós vós vos
Eles, elas, vocês, lhes, se eles, elas, si, vocês os, as

Os pronomes pessoais retos, em geral, ocupam a posição de sujeito da oração,


os oblíquos funcionam como complementos na oração. Quando regidos de
preposição, devem tomar a forma tônica:
• Ela precisa de mim.
• Estão falando sobre ti.
• Ela só pensa em si (mesma).
• Eles se referiram a nós.
• Nós nos revoltamos contra ele.

Como se vê, o problema se limita praticamente às duas primeiras pessoas do


singular:

EU – MIM e TU – TI. Entre é uma preposição. Então, exige o pronome na


forma oblíqua tônica, portanto:
• “Os desentendimentos entre MIM e ela não são de hoje” é o correto. Assim
como no exemplo:
• “A diferença entre MIM e você é que não acreditamos nos mesmos princípios.”

ELA ABRIU A PORTA PARA MIM ou PARA EU ENTRAR?

Nessa frase, apesar de o pronome pessoal vir precedido de uma preposição, não
é regido por ela. Nesse caso, o pronome pessoal desempenha a função de sujeito
do verbo ENTRAR. Sendo assim, deve ser usado o pronome pessoal do caso reto.
É fácil perceber isso. Basta que se tome consciência de que a frase “para eu entrar”
corresponde a “para que eu entrasse”. Pode-se seguir a regra: usam-se as formas
retas, mesmo depois de uma preposição, quando o pronome for sujeito de um
verbo no infinitivo que vem a seguir. Observe:

Não saiam sem mim.

Mas

Não saiam sem eu saber (= sem que eu saiba)

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Estratégias para a Escrita no Mundo do Trabalho

Eles estão pensando em mim.

Mas

Eles estão pensando em eu ser candidato.

No entanto, observe ainda a diferença nos exemplos:

Para eu viajar de avião, é preciso um motivo muito forte.

Mas

Para mim, viajar de avião é um suplício.

No primeiro exemplo, o pronome pessoal é o sujeito do verbo, o que não ocorre


no segundo exemplo, em que a expressão “para mim” completa o sentido do
substantivo “suplício”.

EU NÃO ENCONTREI - O ou NÃO O ENCONTREI, EM PARTE ALGUMA?

Quanto à colocação pronominal, o primeiro princípio que se deve observar é


que não se começa nenhuma frase/enunciado com pronomes átonos O, OS, A,
AS, LHE, LHES, TE, ME, NOS, VOS E SE. Não se pode escrever:

Me contaram algo terrível.

Lhe dirijo esta mensagem.

Mas

Contaram-me algo terrível.

Dirijo-lhe esta mensagem.

Supondo-se, porém, que o verbo não seja a primeira palavra da frase/enunciado,


o pronome átono pode ser colocado, indiferentemente, antes dele (próclise), ou
depois dele (ênclise). Eu lhe dirijo esta mensagem / Eu dirijo-lhe esta mensagem.
Os vizinhos me contaram algo terrível / Os vizinhos contaram-me algo terrível.

Há, porém, alguns casos em que a próclise (o pronome vir antes do verbo) é
obrigatória:
a) Com palavras negativas (não, nunca, jamais, nada, nem...):
• Eu não o encontrei em parte alguma.
• Nunca lhe disseram a verdade.
b) Com pronomes relativos (que, o qual, cujo, onde...) ou indefinidos
(alguém, tudo, cada um, alguns...):
• Eram impressionantes os casos que se contavam.
• Alguém o procurou.

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c) Com conjunções subordinativas (que, embora, porque, se, como...):
• Espero que se divirtam.
• Embora se esforçasse, não os acompanhava.
d) Com palavras interrogativas (quem?, quantos?, como?, qual?,...) e
exclamativas (como!, quanto!, quão!...):
• Como se conheceram?
• Quanto tempo se perde com a burocracia!
• Quantos se salvaram?
e) Com advérbios e locuções adverbiais, desde que não seguidas de vírgula
(agora, bem, muito, às vezes, de repente...):
• Já lhe disse isto ontem.
• Eles às vezes se encontram no clube.
f) Com o verbo no gerúndio com a preposição em:
• Em se abrindo vaga, o emprego será seu.
• Em se tratando dele, tudo se pode esperar.
g) Nas orações optativas (aquelas que exprimem votos, desejos), quando o
sujeito precede o verbo.
• Deus te acompanhe.
• Bons olhos o vejam.
h) Com as seguintes conjunções coordenativas: nem... nem, não só... mas
também, não só... como também, quer... quer, já... já, ou... ou, ora... ora:
• Curiosamente, ela ora o elogia, ora o critica.
• Não só o recebeu em sua casa, como também lhe deu toda a ajuda.

OS CANDIDATOS NÃO PODEM-SE COMUNICAR


ou NÃO PODEM COMUNICAR-SE?

Nas locuções verbais com infinitivo, não havendo partícula atrativa (palavra ou
situação que exige próclise – como vimos no item anterior), o pronome pode ser
colocado indiferentemente antes do auxiliar, depois do infinitivo ou entre ambos.
• O diretor lhe deseja falar.
• O diretor deseja falar-lhe.
• O diretor deseja-lhe falar.

Quando, porém, existe partícula atrativa, a colocação só é possível antes do


auxiliar ou depois do infinitivo.
• O diretor não lhe deseja falar.
• O diretor não deseja falar-lhe.

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UNIDADE Gêneros da Esfera Profissional:
Estratégias para a Escrita no Mundo do Trabalho

Dessa forma, seguindo a regra estabelecida pelo português culto, vamos recordar
a música em que Vinícius se valeu de uma “licença poética” no verso: Eu sei que
vou te amar... No entanto, como diz a regra, não se deve usar essa licença quando
se tratar dos pronomes O, OS, A, AS.

Não se escreve:

Os líderes irão o encontrar amanhã.

Mas

Os líderes o irão encontrar amanhã.

Ou

Os líderes irão encontrá-lo amanhã.

Eu só posso contar COM MIM mesmo ou COMIGO mesmo?

Os pronomes oblíquos tônicos - mim, ti, si... - só são utilizados quando regidos
de uma preposição: a mim, de ti, em si, por si etc.

Quando, porém, se trata da preposição COM, esta se junta às formas antigas


MIGO, TIGO, SIGO, NOSCO, VOSCO, formando COMIGO, CONTIGO,
CONSIGO, CONOSCO, CONVOSCO.

Por razões de eufonia (bom som), não se deve dizer “conosco mesmos”,
“convosco próprios”...

Assim, não se usam as formas NOSCO E VOSCO quando o pronome é seguido


de MESMOS, PRÓPRIOS, OUTROS, TODOS, ou na oração adjetiva.

O diretor quer falar COM NÓS TODOS.

Só podemos contar COM NÓS MESMOS.

Ela simpatizava COM NÓS, QUE ÉRAMOS SEUS COLEGAS.

Mas isso só vale para NOSCO E VOSCO.

Então, deve-se dizer: COMIGO MESMO, CONTIGO PRÓPRIO, CONSIGO


MESMOS.

Formas de Tratamento: USO / ABREVIATURA / CONCORDÂNCIA


1. As formas de tratamento e suas abreviaturas são escritas com inicial
minúscula, a não ser que iniciem parágrafo:
• O dr. Macedo está no consultório hoje?
• A senhora está passando bem?
• Dona Renata virá para o jantar amanhã.

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2. As formas cerimoniosas e suas abreviaturas devem sempre ser escritas com
inicial maiúscula:
• Vossa Senhoria fez um discurso brilhante!
• Estaremos à disposição de Vossa Eminência.
• S. Exª., o prefeito, acaba de aparecer na TV.
3. As formas com o pronome “Sua” referem-se à pessoa de quem se fala:
Prepare o carro de Sua Santidade.
As formas com o pronome “Vossa” referem-se à pessoa com a qual se fala.
Não é conveniente que Vossa Excelência saia agora. Há muita agitação nas ruas.
4. A concordância com as formas de tratamento é sempre feita na terceira
pessoa (singular ou plural):
• V. Exª. conquistou muitos votos nesta eleição.
• Sua Santidade tem estado muito doente.
• Vossas Senhorias propõem uma boa parceria.
5. A concordância nominal depende do sexo da pessoa a quem a forma de
tratamento se refere:
• Vossa Alteza é o nosso grande benfeitor. (homem)
• Vossa Alteza é nossa grande benfeitora. (mulher)
• Suas Senhorias foram autuadas em flagrante. (mulheres)
• Suas Senhorias foram autuados em flagrante. (homens)
Reafirmamos que V. Revmª. é muito respeitado em nossa terra! (homem)
6. No plural das abreviaturas, flexiona-se apenas o segundo elemento:
V. Exª ./V.Sª ./S. Emª./Revmª. Colocar s no a pequeno: as
Alguns tratamentos extremamente formais admitem letras duplas para o plural:
• VV.AA. (Vossas Altezas)
• VV.MM. (Vossas Majestades)
7. As formas de tratamento mais usadas são:
• Sua ou Vossa Alteza (S.A. ou V.A) – para Príncipes.
• Sua ou Vossa Santidade (S.S. ou V.s) – para Papa.
• Sua ou Vossa Eminência (S. Emª. ou V. Emª.) – para Cardeais.
• Sua ou Vossa Excelência Reverendíssima (S. Exª. Revmª. ou V. Exª.
Revmª.) – para Bispos e Arcebispos.
• Sua ou Vossa Reverendíssima (S. Revmª. ou V. Revmª.) – para Sacerdotes.

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UNIDADE Gêneros da Esfera Profissional:
Estratégias para a Escrita no Mundo do Trabalho

• Sua ou Vossa Excelência (S. Exª. ou V. Exª.) – para autoridades


governamentais, diplomáticas e militares.
• Sua ou vossa Majestade (S.M. Ou V.M.) – para Reis e Imperadores.
• Sua ou Vossa Magnificência (S. Magª. ou V. Magª.) – para Reitores de
universidades.
• Sua ou Vossa Senhoria (S.Sª. ou V. Sª. ) – para funcionários graduados e
públicos, clientes especiais, pessoas de cerimônia, chefes de seção.

Nessa unidade, abordamos os gêneros relativos à correspondência que circulam


na esfera de atividade profissional, sobretudo, as cartas comerciais e e-mails
profissionais. Temos certeza de que as estratégias e os recursos, aqui apresentados,
vão contribuir para o desenvolvimento de sua proficiência escritora, não só no
âmbito profissional. Além disso, apresentamos as respostas para as dúvidas mais
frequentes em relação ao uso e colocação de pronomes pessoais e de tratamento,
no intuito de auxiliá-lo a evitar erros em relação às regras da gramática normativa
que orientam o uso da norma urbana de prestígio.

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Livros
A Arte da Palavra: Como criar um Estilo Pessoal na Comunicação Escrita
De Gabriel Perissé, editora Manole.
Finalizando, para aprofundar seu conhecimento sobre a escrita, buscando um estilo
pessoal, indicamos o livro que está disponível na biblioteca virtual em formato de
e-book.
A Arte da Palavra é de extrema utilidade para todos aqueles que desejam trilhar um
caminho autêntico em busca de um estilo pessoal e intransferível na comunicação
escrita, tanto no campo profissional como na área acadêmica, tanto na tarefa docente
como no âmbito da criação literária.

Leitura
Pronomes Pessoais
Para aprofundar o conhecimento e relembrar mais a respeito do conteúdo gramatical,
pronomes pessoais e de tratamento, acesse o link indicado:
https://goo.gl/LteqxV
10 dicas para escrever um e-mail profissional
E para aprender mais algumas dicas sobre os gêneros relativos à correspondência que
circulam na esfera de atividade profissional, e-mail profissional ou corporativo e carta
comercial, acesse os seguintes links:
https://goo.gl/y5Jh02
Como escrever um bom e-mail, em 6 passos
E para aprender mais algumas dicas sobre os gêneros relativos à correspondência que
circulam na esfera de atividade profissional, e-mail profissional ou corporativo e carta
comercial, acesse os seguintes links:
https://goo.gl/zST8bx
Carta Comercial
E para aprender mais algumas dicas sobre os gêneros relativos à correspondência que
circulam na esfera de atividade profissional, e-mail profissional ou corporativo e carta
comercial, acesse os seguintes links:
https://goo.gl/EQ8yE1

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UNIDADE Gêneros da Esfera Profissional:
Estratégias para a Escrita no Mundo do Trabalho

Referências
GENTLE, R. Leia Isto! : A redação comercial que funciona. Trad. Bazán Tecnologia
e Linguística. São Paulo: Futura, 2002.

LEME, Odilon Soares. Tirando dúvidas de português. São Paulo, Ática, 1995.

PASQUALE & ULISSES. Gramática da língua portuguesa. São Paulo,


Scipione, 1998.

PERROTTI, E. M. B. & MONTANARI, Marilena E. L. SOS Língua Portuguesa –


Apoio Gramatical. 2ª ed. São Paulo: ABNL, 1998.

REVISTA LÍNGUA PORTUGUESA. A Carta comercial sem clichês. Ano I.


Número 3. São Paulo: Segmento, 2005.

ROSA, J. A.; NEIVA, E. G. Redigir e Convencer. 6ª ed. São Paulo: Editora


STS, 2000.

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