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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

ESCOLA DE ENGENHARIA DE SÃO CARLOS


DEPARTAMENTO DE ESTRUTURAS

SET-164
RESISTÊNCIA DOS MATERIAIS IV
(ARQUITETURA)

FLEXÃO SIMPLES NORMAL - ESTUDO DAS TENSÕES

ROBERTO L A. BARBATO

SÃO CARLOS
1992
PUBLICAÇÃO 001/95

s VBIBL/EESC-USP
FLEXÃO SIMPLES NORMAL - ESTUDO DAS TENSÕES

1. CONCEITOS BÁSICOS

O estudo da flexão de barras prismáticas engloba as solicitações


designadas por flexão composta e por flexão simples.
A flexão é composta quando na seção transversal da barra estão
presentes, simultaneamente, os esforços solicitantes momento fletor, força
cortante e força normal (M , V, N).
A flexão é simples quando na seção transversal da barra ocorrem,
conjuntamente, os esforços solicitantes momento fletor e força cortante (M , V).
A flexão é pura quando na seção transversal da barra age apenas o
esforço solicitante momento fletor (M).
Quando na seção transversal da barra agem, simultaneamente , os
esforços momento fletor e força normal (M, N), a solicitação recebe o nome ou de
flexo-tração ou de flexo-compressão, conforme a força normal seja ou de tração
ou de compressão.
A flexão, simples ou composta, pode ser ou normal (reta) ou oblíqua. A
flexão é normal (reta) quando o plano de ação do momento fletor contém um dos
eixos centrais principais de inércia da seção transversal da barra. Em caso
contrário a flexão é considerada oblíqua.

2. ESTUDO DAS TENSÕES NORMAIS

Considere-se a barra prismática de seção transversal simétrica, figura 2.1.

r I I * I 11 1I * r-:r
1------------a----...
pl • I ,

t y

FIGURA 2.1

Sob a ação das forças externas, a viga se deforma e em suas seções


transversais surgem esforços resistentes que se manifestam sob a forma de
tensões normais cr e de tensões tangenciais 1:.
As tensões 1:, contidas no plano da seção, tem como resultante a força
cortante V (esforço solicitante).
As tensões cr, normais ao plano da seção, no caso da flexão simples, são
de tração e de compressão. Estas tensões têm como resultante duas forças, uma
de tração F1 e uma de compressão F0 , que dão origem a um momento interno- o
momento fletor- que equilibra o momento das forças aplicadas, figura 2.2.

J ~ i j ::y--plxl
t i i t í t t I

,1; X

~I t
2l ~
J 1

Seç:ão Transversal Tensões Normais

FIGURA 2.2

Considerando que. na flexão simples o esforço normal é igual a zero (N=O),


figura 2.2, tem-se

f
N = F0 + F1 = crdA = O (2.1)
A

Lembrando-se que na flexão normal o plano de ação do momento fletor


deve conter um dos eixos centrais de inércia, admite-se, aqui, que o eixo contido
seja o de simetria. Assim, o momento fletor é dado por:

Mp=F0 xz=F1 xz= jcrydA (2.2)


A

As equações (2.1) e (2.2) nada revelam sobre a forma de distribuição das


tensões normais na seção transversal. Admitindo-se então que as tensões variem
linearmente com a ordenada y (hipótese de Bernoulli-Navier), isto é,

2
a=ay+b (2.3)

da equação (2.1) obtém-se:

fadA= f (ay + b)dA =a f ydA + b f dA= O (24)


A A A

Como o momento estático da seção transversal em relação a um eixo que


passa pelo seu C.G. é igual a zero, conclui-se que a primeira integral de (2.4) é
nula. A segunda integral é necessariamente diferente de zero, pois representa a
área da seção transversal.
Deste modo, tem-se b =O e da equação (2.3) resulta:

a= ay (2.5)

pI xI
I SEÇÃO S DIAGRAMA DE TENSÕES

FIGURA2.3

Esta última equação mostra que as tensões normais são nulas no eixo z.
De fato, pontos situados sobre o eixo z têm y =O e portanto a = O. O eixo z
recebe, por isso, o nome de linha neutra da seção transversal (LN). Assim, na
flexão simples a linha neutra passa pelo C.G. da seção transversal, figura 2.3.
A equação (2.5) mostra também que em pontos situados sobre retas
paralelas ao eixo z as tensões tem o mesmo valor.
Para determinar o coeficiente ª combinam-se as equações (2.2) e (2.5).
Tem-se então:

f f
Mp = aydA = J(ay)ydA =a y 2dA = alz (2.6)
A A A

3
donde

a= MIz
_F (2.7)

e portanto:

cr=ay=(~:} (2.8)

Como na seção considerada o equilíbrio exige que o momento fletor MF


seja igual ao momento M das forças externas aplicadas, isto é, MF = M, tem-se:

cr=(~} (2.9)

Nesta última expressão a grandeza 1, representa o momento de inércia da


seção transversal em relação á linha neutra (eixos z).
Deve-se observar que a presença de tensões tangenciais na seção
transversal não interfere, dentro das aproximações usuais, na determinação das
tensões normais cr.
2.1. Aplicações Numéricas

Os problemas relacionados com as tensões normais cr são, basicamente,


de três tipos.
No primeiro tipo são conhecidos o momento fletor (igual ao momento das
forças externas) e a seção transversal da barra. Devem-se determinar as tensões
normais cr.
No segundo tipo são conhecidas a seção transversal da barra e as
tensões admissíveis do material (cr). Deve-se determinar o momento fletor que
pode solicitar a seção. No terceiro tipo conhecem-se o momento fletor e as
tensões admissíveis do material. Procuram-se as dimensões da seção
transversal.

4
EXEMPLO 1

Determinar as tensões máximas de tração (+) e de compressão (-) que


surgem nas seções transversais A, B e C da viga de aço representada na figura a
seguir. Traçar os diagramas das tensões normais cr.

3 kN/m

ilttltlrlliJt 1
--A: A e1 c1 :A_

Sendo 12 = 432cm 4 e MA= 12kNm, M8 = 13,5kNm e Me= 7,5kNm, têm-se:

1200
= = +16, 67kN I em 2
Seção Ala, 432
1200
x(+6)

2
crc = - - x(~6) = -16, 67kN I em
432. '

B~a,
1350 2
=- - x( +6) = +18, 75kN I em
432
Seção
1350 2
crc = - - x( -6) = ~18, 75kN I em
432

750 2
=- x( +6) = +10, 42kN I em
Seção
cj"'
crc =
432
750 x( _ 6 ) = -10, 42kN I em 2
432

Os diagramas de tensões são os indicados na figura abaixo (kN/cm2)

3 kN/m _U-JE'em - 18,75 - 10,42


1 , 1 - 16,67
I

:_+-!'-;.,.;,..; --~-l-t--1-
y
+16,67 +18,75 + 10112
IA} I Bl (C}

5
Observe-se que sendo conhecido o diagrama de M pode-se ignorar o sinal
para identificar as tensões de tração e de compressão.

EXEMPL02

Determinar as tensões máximas que surgem nas seções A e B da viga


abaixo esquematizada. Traçar os diagramas de tensões .

...,c,._~----f!-20k-N----;:Js::~llO kN Gf.p-rm z
--,j<~·'----"'..!.!2m"---+j•____,3"'-m---,j<,f_,l=,5m"-,f-,f 6

Sendo 12 = 432cm4, MA = 18kNm e M8 = -15kNm, têm-se

1800
= x6 = 25kN I cm2
432
Seção
1200
= x6 = 25kN I cm2
432

1500
iÍ3 kN I cm2

l
crt = x6 = 20,
Seção B 432
1500
cr 0 = x6 = 20, 83kN I cm2
432

Os diagramas de tensões são os indicados na figura abaixo (kNicm2):

t20kN tlOkN
B
...LL ::CC

1,54
A

1
l 2m 1l 3m l·
y
CJC•21
IBI

EXEMPLO 3

Para a viga representada na figura a seguir determinar as tensões

6
máximas de tração e de compressão.

40
I

1
20~~/m
r/// V'/// 5
~ I I I I I' I t I 11,833
-~-
z
,f 4m l lm * 28,16 7
3 5cm
1 ·r
-+~
y

Sendo os momentos max1mos iguais a M = 35,16kNm e M = 1OkNm


(negativo), e 12 = 55.615cm4, têm-se:

3516 ..
= = O, 75kN I cm2

l
O'c x11, 833
M = 35 16kNm 55 · 615
' . 3516 2
cr 1 = x28, 167 = 1, 78kN I em
55.615

M= 10kNm
'·! O'c =
1000
55. 615 x28 ' 167 = O' 51kN I cm
1000
2

cr 1 = xll 833 = O 21kN I cm2


55. 615 • •

Os diagramas de tensões são os da figura abaixo (kN/cm2):

:~cr--i""-1""
20 kN/m
i
~ I I I I FI I I I }

l ,,
j' '4m
1
lm
'
O'r •1,78 O'c•0,51
M '3,5tf.m M 'l,Otf.m

EXEMPLO 4

Para a viga da figura abaixo, determinar o valor de P de modo que as


tensões admissíveis crc = cr1 = 20kN I cm2 não sejam ultrapassadas

7
Tim
l ~m
r l 2m
.f f '
1 1

Sendo lz = 432cm4 , M = 120P e crc = crt = 20 kN I cm2 , tem-se:

20 ~ 120P x6
432
donde

20x432
p ::; = 12kN
120x6

Qualquer valor de P menor que 12kN é solução para o problema.


Obviamente, o que se procura é o maior valor de P. Neste caso a resposta é
P=12kN.

EXEMPLO 5

Para a viga representada na figura a seguir determinar o valor de P de


modo que as tensões admissíveis crc = SkN I cm2 e crt = !OkN I cm2 não sejam
ultrapassadas.

...K
2m
r
A

3m
0~5 p ~
=
j. lm .f
28, 17

11,8 3
V//
~

'///J
z 35cm

5
y
40
' '

Sendo 12 = 55.615cm4, MA= 100P e M8 = 50P, têm-se

8
100P

l
10 :?: - - - x11, 83---+ P ,; 470kN
55.615
Seção A
100P
5 :?: . x28, 17---+ P ,; 99kN
55 615

50P

l
10 :?: -,------ x28, 17 ---+ P ,; 395kN
55.615
Seção B
50
5 ;:, p x11 83 ---+ P,; 470kN
55. 615 '

O valor de P que pode ser aplicado à viga, definido pela tensão de


compressão da seção A, é de 99kN.

EXEMPLOS

Para a viga esquematizada na figura abaixo, determinar a altura da seção


transversal. As tensões admissíveis são cr0 = 15kN/cm2 e cr1 = 20kN/cm2.

I ;·')
~~
(:,0 I
I ffm
f~o kN/m
l5kr
J::~ ~

f
3m
~{ ~

flm . f+t
\.[
/i
I
"'E
h/2

y
z

O momento fletor máximo é de 46,2kNm e o momento de inércia 12 é igual a


h3/2,4. Assim, têm-se

20 ;?: h :?: 16, 65cm

15 ;?: ;:, 19, 22cm

A altura da seção transversal deve ser maior ou igual a 19,22cm. Adota-se,


portanto, seção com 5 x 19,5cm2.

9
EXEMPLO 7

Determinar as dimensões da seção transversal da viga isostática


representada na figura que segue. Adotar tensões crc = crt = 12kN I cm 2

20 kN/m
I
t i I I I ~ Ft i I !- ·O

l
1
4m
~-

Sendo M = 40kNm (valor máximo) e lz = (106/3)a 4 vem:

4000 3
12 2 -------,- 4
x a
(106 I 3)a

donde:

a2 3,048cm

Adotando-se a=3,05cm, obtêm-se as outras dimensões da seção


transversal.

3. ESTUDO DAS TENSÕES TANGENCIAIS

Considere-se a barra prismática de seção transversal simétrica indicada na


figura 3.1.
Escrevendo-se as equações de equilíbrio para o elemento de comprimento
dx, figura 3.1-a, obtêm-se

IFv = 0-+ (V +dV)+pdx- V= O (3.1)

dx
L M 0 = O -+ (M + dM) + (pdx)- - M - Vdx = O (3.2)
2

10
p(xl
'

(a I t bI tc I

FIGURA 3.1

Eliminando-se os infinitésimos de ordem superior, têm-se:

dV
-=-p (3.3)
dx

dM=V (3.4)
dx

Das duas últimas equações tira-se:

(3.5)

As equações diferenciais de equilíbrio (3.3) e (3.4) mostram que a derivada


de M em relação a x é igual à força cortante V. Mostra também que a derivada de
V em relação x é igual à carga p com sinal trocado.
Considere-se agora o equilíbrio, segundo o eixo x, das forças (F+dF), F
e 'tbdx, figura 3.1-b. Tem-se então:

(F + dF) - F - 1:bdx = O (3.6)

11
donde

dF = 1:b (3.7)
dx

Sendo

F = f crdA = f -M ydA =MM


I s
(3.8)
A lz z

resulta

(3.9)

No caso de barras de seção transversal constante, a (3.9) fica

1M, dM VM,
't =- -- = - - (3.1 O)
b lz dx blz

Nesta expressão V é a força cortante que solicita a seção transversal e 12 é


o seu momento de inércia em relação à linha neutra. M5 é o momento estático, em
relação à linha neutra, da área A definida pela largura b onde se deseja
determinar a tensão de cisalhamento '· figura 3.2.

A
1:
h/2
LI!_ LN
J:N_
h/2

Seção Trapezoida I Seção Circular Seção Retangular


t b variavel) ( b variável) ( b constante)

FIGURA 3.2

No caso da seção retangular têm-se

12
(3.11)

(3.12)

bh 3
I=- (3.13)
z 12

donde:

' = (3.14)

Da expressão (3.14) conclui-se que a tensão tangencial varia


parabolicamente ao longo da altura da seção. O valor máximo ocorre na linha
neutra (s=O) e o.mínimo na borda da seção (s=h/2).

3.1. Aplicações Numéricas

Os problemas relacionados com as tensões tangenciais são análogos aos


relacionados com as tensões normais. Obviamente, aqui, as grandezas
envolvidas são a força cortante V, a tensão de cisalhamento '· o momento
estático M5 , o momento de inércia lz e a largura da seção transversal onde se
deseja determinar a tensão tangencial.

EXEMPLO 1

Determinar a máxima tensão de cisalhamento que ocorre na viga


esquematizada na figura a seguir.

13
'
i i I 1 i * "~ t

I~ 3m
/lOkN/m
~

l
1
(*
12

y
Sem

Sem

A máxima tensão de cisalhamento ocorre na linha neutra da seção mais


solicitada por força cortante.
Assim, da equação (3.14) tira-se:

= l,Sx~ = 0,63kN I cm 2
3x12

EXEMPLO 2

Com relação à viga representada na figura abaixo, determinar, para a


seção mais solicitada, a tensão de cisalhamento na ligação aba-nervura e
também no C.G. da seção.
1·4 ~zl,4 .f
20 kN/m 2
l !lOkN
~ l
*FI I I I * * ·~-
l
1
4m .f 1m_+ 2
y

O momento estático M5 e o momento de inércia 12 são dados por:

3
Sxl) = 17.108,67cm4
3

Sendo a largura da alma da viga igual a 2cm e a máxima força cortante


igual a 45kN, tem-se:

14
45
1: = [280 + (13 2 - ;)]
2x17. 108, 67

As tensões na ligação aba-nervura e no C.G. da seção são obtidas


fazendo-se, respectivamente, s = 13cm e s = O. Resultam então:

('t)s=13 = 45x280 =O, 37kN I cm2


2x17.108, 67

= 45x(280 + 169) =0 59 kN 1 cm2


2x17. 108,67 '

EXEMPLO 3

Sendo 1 = 3,6kNicm2 , determinar o valor da carga P que pode ser


aplicada à viga indicada na figura abaixo.

3m
r 2m
.f
Da equação (3.14) tira-se

3, 6 ---'1,_S_x0---',_6_P
~-
5x10

donde

p s 200kN

4. EXERCÍCIOS PROPOSTOS

EXERCÍCIO 1

Determinar as tensões crmáx e "máx para a viga esquematizada abaixo.


Considerar as duas posições para a seção transversal.

15
EXERCÍCIO 2

Qual o máximo vão que a viga de aço da figura abaixo pode vencer
considerando-se apenas o seu peso próprio. As tensões admissíveis são
a0 = cr 1 =15kN/cm2 e t = 1OkN/cm2 O peso específico de aço é de 78kNfm3.

t Ok Ok t * L J * L j- peso próprio
2

-+ 2cm

EXERCÍCIO 3

Determinar as tensões máximas que ocorrem na seção transversal da viga


da figura abaixo.

!15kN
z
::L\_ 30
30
J 1,2m J. z

y
30

EXERCÍCIO 4

Determinar a "seguranca" da viga simplesmente apoiada representada


abaixo. As tensões limites são cr = 30kN/cm2 e 1: = 15kN/cm2

16
:f~
12 kN/m
+ 20 kN

j} FJ I ~
5J._
z

l l
:~
l 2,5 m
j. l,2m l,5m
1 1 1
y

j.2~ Bm
h~
EXERCÍCIO 5

Uma viga simplesmente apoiada de 6m de vão deve suportar uma parede


de forma triangular e com espessura de 15cm. O peso específico do material da
parede é de 18kNfm3. As tensões admissíveis são cr0 = crt = 18kN/cm2 e 'f =
6kN/cm2 Determinar as dimensões da nervura da viga.

r 15cm L

4m ·I~~i'
6m } 15 j.
==fz
I

5. BIBLIOGRAFIA

BARBATO, R.L.A. Resistência dos Materiais - Notas de Aula. SET/EESC/USP,


1992.
BELLUZZI, O. Ciencia de la Construcción- Aguilar, Madrid, 1970, Vol. I.
LIMA, V.M.S. Resistência dos Materiais- Estudo das Tensões. EPUSP, 1964.
MOR!, D.D. ; e outros. Exercícios Propostos de Resistência dos Materiais.
SET/EESC/USP, 1993.
MOR!, D.D. ; e outros. Exercícios Resolvidos de Resistência dos Materiais.
SET/EESC/USP, 1993.
SCHIEL, F. Resistência dos Materiais, SET/EESC-USP, 1980.
SILVA Jr., Jayme Ferreira Resistência dos Materiais- Ao Livro Técnico, Rio de
Janeiro, 1962.

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